SERMÃO 141
Sobre o Espírito Santo
“Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” — pregado em Oxford no Pentecostes: a obra do Espírito que renova a imagem de Deus no ser humano.
“Ora, este Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.”
(2Co 3.17, NAA)Antes de ler
Este é o último sermão da coleção organizada por Thomas Jackson. Foi pregado em 1736, dois anos antes da experiência de Aldersgate, ocorrida em 24 de maio de 1738. Por isso, apresenta algumas ideias características da fase inicial da reflexão teológica de John Wesley.
O sermão possui forte influência da teologia dos antigos escritores cristãos e da tradição espiritual anglicana. Wesley apresenta a salvação não apenas como perdão, mas como restauração da presença e da imagem de Deus no ser humano mediante o Espírito Santo. A encarnação, a morte e a ressurreição de Cristo tornam possível essa renovação.
A expressão “participar da natureza divina” ou alcançar uma condição “divinizada” não significa que a criatura se transforme em Deus. Refere-se à participação, pela graça, na vida, na santidade e no amor de Deus, conforme 2 Pedro 1.4.
Algumas passagens relacionam a vida cristã à renúncia, ao sofrimento e à mortificação. Isso não deve ser interpretado como incentivo à procura deliberada da dor, à negligência da saúde ou a qualquer forma de autodestruição. Wesley está falando da disposição de negar o pecado, enfrentar as dificuldades da fidelidade cristã e permanecer unido a Deus mesmo nas aflições inevitáveis da vida.
— Bispo Ildo Mello
Pregado na Igreja de Santa Maria, em Oxford, no domingo de Pentecostes de 1736.
O apóstolo havia demonstrado a superioridade do ministério do evangelho sobre o ministério da Lei. Havia chegado o tempo em que os símbolos e as sombras deveriam ser deixados de lado, e nós seríamos convidados ao cumprimento de nosso dever por meio das motivações dignas e sinceras de uma revelação clara e completa, apresentada aberta e livremente por Deus, sem ser escondida por seus mensageiros.
Aquilo em que o apóstolo insiste principalmente, porém, não é a maneira, mas o conteúdo do ministério deles:
“Deus nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança”, afirma, “não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica.”
Nisso se encontra a grande diferença entre as duas dispensações.
A Lei era realmente espiritual em suas exigências, pois requeria uma vida consagrada a Deus mediante a observância de muitas regras. Como, porém, não concedia a assistência espiritual necessária, seu efeito era matar e condenar o ser humano, mostrando-lhe que se encontrava em estado de profunda corrupção, pois experimentava tamanha dificuldade para obedecer a Deus.
Assim como, naquela instituição, determinadas formas de morte eram impostas por pecados específicos, também a morte, de maneira geral, era apresentada como consequência da pecaminosidade universal da humanidade.
O ministério da Nova Aliança, porém, era o ministério do “Espírito que vivifica”: Espírito não apenas prometido, mas realmente concedido, que capacitaria os cristãos a viver para Deus e a cumprir mandamentos ainda mais espirituais do que os anteriores; e que, posteriormente, os restauraria à vida perfeita, depois de toda a destruição provocada pelo pecado e pela morte.
A encarnação, a pregação e a morte de Jesus Cristo tinham como propósito representar, anunciar e adquirir para nós esse dom do Espírito. Por isso, o apóstolo declara:
“O Senhor é esse Espírito.”
Essa descrição de Cristo era incentivo apropriado para que os judeus cressem nele e continua sendo instrução necessária para que os cristãos compreendam aquilo que devem esperar dele.
Penso que nossa época tornou especialmente necessário possuirmos certeza a respeito daquilo que Cristo é para nós. Essa pergunta recebe respostas muito diferentes.
De um lado, encontram-se os relatos piedosos, mas insuficientes, de algumas pessoas que reivindicam a fé. Do outro, encontram-se os relatos mais claros, mas não plenamente cristãos, de algumas pessoas que reivindicam a razão.
Algumas pessoas recebem de Cristo uma “justiça de Deus”, mas compreendem essa justiça de maneira um tanto imprópria e figurada. Outras recebem dele apenas uma declaração de perdão e um sistema de moralidade.
Algumas interpretam o evangelho de modo a colocar a santidade pela qual esperam ser salvas em alguma coisa divina, mas exterior a elas. Outras colocam essa santidade em realidades verdadeiramente interiores, mas exclusivamente humanas.
A solução apropriada para a falta de clareza existente de um lado e para a incredulidade existente do outro parece estar contida na doutrina de nosso texto:
“O Senhor é esse Espírito.”
Ao tratar dessas palavras, considerarei:
I. A natureza de nossa queda em Adão. Isso demonstrará que, caso o Senhor não fosse esse Espírito, não se poderia afirmar que ele nos salva ou redime de nossa condição caída.
II. A pessoa de Jesus Cristo. Isso demonstrará que o Senhor é esse Espírito.
III. A natureza e as operações do Espírito Santo concedido aos cristãos.
A NATUREZA DE NOSSA QUEDA EM ADÃO
Nossos primeiros pais desfrutavam da presença do Espírito Santo, pois foram criados à imagem e semelhança de Deus. Essa imagem não era outra coisa senão seu Espírito.
É por meio do Espírito que Deus comunica a si mesmo às suas criaturas, e somente por meio dele elas poderão possuir alguma semelhança com Deus.
O Espírito é realmente a vida de Deus nelas. Essa vida é tão propriamente divina que, com base nisso, os anjos e as pessoas regeneradas são chamados filhos de Deus.
Quando, porém, o ser humano recusou ser guiado pelo Espírito Santo, o Espírito o deixou.
Quando desejou ser sábio segundo seu próprio caminho e sua própria força e deixou de depender com simplicidade de seu Pai celestial, foi-lhe retirada a semente daquela vida superior.
Já não estava preparado para ser formado para uma condição celestial, pois havia desenvolvido desejo indigno — ou, antes, dependência — de um fruto terreno, que sabia não ser abençoado por Deus.
Já não estava preparado para receber auxílio sobrenatural, pois não conseguia contentar-se com sua feliz condição diante de Deus sem examiná-la com curiosidade excessiva.
Então descobriu que havia sido abandonado por Deus e entregue à pobreza, à fraqueza e à miséria de sua natureza limitada.
Tornou-se um ser meramente natural, semelhante às demais criaturas formadas de carne e sangue, embora possuísse entendimento mais amplo.
Por meio desse entendimento, poderia ser conduzido a absurdos maiores do que aqueles praticados pelos animais ou poderia reconhecer a felicidade perdida e ser colocado no caminho correto para recuperá-la.
Caso continuasse como apóstata despreocupado, amaria e admiraria os bens deste mundo, que constituem a felicidade apropriada somente dos animais. Para recomendá-los e ocultar suas limitações, acrescentaria a eles todos os enfeites que sua inteligência superior pudesse inventar.
Ou então — atitude realmente superior à dos animais, mas não mais próxima da perfeição humana como participante de Deus — criaria para si mesmo, em teoria, um mundo novo.
Algumas vezes, por meio de imaginações ardentes; outras vezes, por meio de raciocínios frios, procuraria engrandecer sua condição e defender seu comportamento ou, pelo menos, distrair-se para não perceber a própria pequenez e desordem.
Caso, por outro lado, estivesse disposto a descobrir as misérias de sua queda, seu entendimento poderia apresentar-lhe motivos para lamentar continuamente, desprezar e negar a si mesmo.
Poderia mostrar-lhe as tristes consequências de afastar-se de Deus e perder seu Espírito: a vergonha e a angústia de uma natureza em conflito consigo mesma; uma natureza que possui sede de imortalidade, mas está sujeita à morte; que aprova a justiça, mas encontra prazer em coisas incompatíveis com ela; que sente enorme necessidade de alguma coisa capaz de aperfeiçoar e satisfazer todas as suas capacidades, mas não consegue conhecer essa realidade poderosa a não ser por meio de suas atuais deficiências, nem sabe como alcançá-la a não ser caminhando em direção contrária às inclinações presentes.
Com razão Adão percebeu que estava nu, pois nada menos do que o próprio Deus havia se retirado dele.
Até aquele momento, havia experimentado somente a bondade e a doçura de Deus. Uma vida celestial espalhava-se por todo seu ser, como se ele não tivesse sido formado do pó.
Sua mente estava cheia de sabedoria semelhante à dos anjos. Uma direção procedente do alto conduzia-o pela mão. Caminhava e pensava com retidão e não parecia criança ou principiante nas realidades divinas.
Agora, porém, precisava experimentar outras coisas.
Descobriu na alma algo que não encontrava nem precisava temer enquanto era conduzido em linha reta pela suave brisa da graça divina.
Descobriu no corpo algo que não conseguia enxergar nem lamentar enquanto aquele corpo estava revestido de glória.
Na alma, experimentou desagrado consigo mesmo, agitação e confusão semelhantes àquelas experimentadas pelos outros espíritos que perderam Deus.
No corpo, observou causas de vergonha presente e de futura dissolução, além de forte inclinação para a vida rasteira comum aos animais que nunca participaram da natureza divina.
A característica geral da condição atual da humanidade é, portanto, a morte: morte em relação a Deus, pela qual já não desfrutamos comunhão com ele nem felicidade nele; já não brilhamos com sua glória nem agimos por meio de seu poder.
É verdade que, enquanto possuímos existência, “nele vivemos, nos movemos e existimos”. Atualmente, porém, isso não acontece de maneira filial, mas somente de maneira servil, assim como todas as criaturas, até mesmo as menores, existem nele.
Uma coisa é receber de Deus a capacidade de caminhar e falar, comer e digerir; ser sustentado por sua mão como parte desta criação terrena, nas mesmas condições que ela, para prova ou juízo futuro.
Outra coisa é receber de Deus uma vida que carrega sua própria semelhança; possuir dentro de nós algo que não pertence a esta criação e que é alimentado diretamente por sua Palavra e seu poder.
Isso, porém, ainda não representa tudo aquilo que está envolvido no pecado humano.
O ser humano não está somente inclinado ao embrutecimento dos apetites e ao orgulho da razão. Também caiu debaixo da tutela do maligno, que o incentiva poderosamente nas duas direções.
A condição na qual foi colocado inicialmente era de completa e simples submissão a Deus. Isso lhe concedia o direito de beber de seu Espírito.
Não se contentou, porém, em permanecer realmente no paraíso, debaixo da plena luz da presença de Deus que era capaz de receber.
Quis conhecer o bem e o mal e ficar convencido, por fundamentos racionais, se era ou não melhor para ele permanecer na condição em que estava.
Desprezando a direção recebida como criança, quis avaliar pessoalmente todas as coisas e procurar evidência melhor do que a voz de seu Criador e o selo do Espírito em seu coração.
Então, não somente obedeceu àquele primogênito do orgulho, mas tornou-se semelhante a ele. Infelizmente, tornou-se sujeito às visitas frequentes ou, antes, à influência contínua daquele espírito.
Assim como a vida estava relacionada à obediência ao mandamento e o Espírito, único capaz de formar o ser humano para a verdadeira vida, habitava em seu corpo, depois de ser sentenciado à morte por sua transgressão, foi entregue “àquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo”.
As influências hostis e destrutivas do inimigo promovem simultaneamente a morte e o pecado.
Sendo essa a condição humana, caso Deus enviasse um Redentor, o que esse Redentor precisaria fazer?
Seria suficiente tornar-se anunciador de uma nova lei e oferecer-nos conjunto de excelentes mandamentos?
Não. Mesmo que conseguíssemos guardá-los, somente isso não nos tornaria felizes.
A boa consciência oferece à pessoa a felicidade de permanecer em harmonia consigo mesma, mas não a felicidade de ser elevada acima de si mesma e conduzida a Deus. Depois de tudo, cada pessoa descobrirá que é disso que realmente necessita.
Seria suficiente que o Redentor se tornasse fonte de justiça imputada e obtivesse o mais terno favor para todos os seus seguidores?
Isso também não seria suficiente.
Mesmo que a pessoa fosse considerada justa e ficasse livre de toda punição, caso continuasse verdadeiramente escravizada pelas corrupções da natureza, apesar dos privilégios da redenção, dificilmente conseguiria permanecer em paz.
Qualquer favor que recebesse de Deus, neste mundo ou no futuro, sem a comunicação do próprio Deus, não seria cura para o espírito caído nem felicidade para o espírito reconciliado.
Nosso Redentor não deveria, portanto, ser, conforme a descrição apresentada por João, seu precursor, aquele que “batiza com o Espírito Santo”?
Não deveria ser a fonte e o restaurador daquilo por meio do qual a humanidade retorna à sua condição original e ao desfrute de Deus?
Esse é argumento inicial em favor da afirmação de que “o Senhor é esse Espírito”.
A PESSOA DE JESUS CRISTO
Isso ficará ainda mais claro por meio da consideração da pessoa de Jesus Cristo.
Ele é aquele a quem “Deus não concedeu o Espírito por medida”. Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e todos nós recebemos de sua plenitude, graça sobre graça.
Na realidade, todas as comunicações da divindade que qualquer criatura poderia receber sempre procederam dele como Palavra de Deus.
Tudo aquilo, porém, que a humanidade em condição terrena deveria receber viria dele por meio do corpo que assumiu por nossa causa: inicialmente mortal, semelhante ao nosso, e depois glorioso, na semelhança de Deus.
No princípio, a Palavra celestial, o Espírito procedente do Pai e a Palavra de seu poder, criou o ser humano como imagem da imortalidade, segundo a semelhança do Pai.
Aquele que havia sido criado à imagem de Deus tornou-se posteriormente mortal, quando o Espírito superior se separou dele.
Para corrigir essa situação, a Palavra tornou-se ser humano, para que a humanidade, recebendo novamente a adoção, se tornasse filha de Deus.
A luz do Pai repousou sobre a humanidade de nosso Senhor e, a partir dela, brilhou sobre nós, para que o ser humano, cercado pela luz da divindade, fosse conduzido à imortalidade.
Quando se encarnou e se tornou ser humano, Cristo reuniu em si mesmo todas as gerações da humanidade, tornando-se o centro de nossa salvação.
Assim, aquilo que perdemos em Adão — a imagem e a semelhança de Deus — poderia ser recebido em Cristo Jesus.
Por meio da vinda do Espírito Santo sobre Maria e do poder do Altíssimo que a envolveu com sua sombra, realizou-se a encarnação de Cristo.
Foi também apresentada uma nova espécie de nascimento, mediante a qual o ser humano deveria nascer de Deus: assim como por nosso primeiro nascimento herdamos a morte, por esse nascimento poderíamos herdar a vida.
Isso não é diferente daquilo que Paulo ensina:
“O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão tornou-se Espírito que dá vida.”
Tudo aquilo que o primeiro ser humano possuía em si mesmo e tudo aquilo que transmitiu a nós é uma “alma vivente”: natureza dotada de vida natural e capaz de receber a vida espiritual.
O segundo Adão, porém, é e tornou-se para nós “Espírito que dá vida”.
Pelo poder recebido dele como nosso Criador, fomos inicialmente elevados acima de nós mesmos. Pelo poder recebido dele como nosso Redentor, voltaremos a viver para Deus.
Nele encontra-se guardado o complemento de nossa natureza, cuja necessidade reconheceremos mais cedo ou mais tarde.
Esse complemento não poderá ser substituído pelo auxílio de criatura alguma nem pelo desenvolvimento de nossas próprias capacidades.
Fomos criados para encontrar felicidade somente em Deus.
Todos os nossos esforços e esperanças, enquanto não possuímos sede dessa condição divinizada — de participar tão verdadeiramente da vida de Deus quanto participamos da carne e do sangue; de ser glorificados em sua natureza assim como fomos desonrados na nossa —, são esforços e esperanças de pessoas que compreendem completamente mal aquilo que são.
A sabedoria divina sabia qual era nosso verdadeiro consolo, embora nós não soubéssemos.
O que se apresenta de maneira mais evidente no Salvador do mundo do que a união da humanidade com Deus?
Essa união foi acompanhada de toda a conduta apropriada àqueles que são candidatos ao Espírito: caminhar com Deus na simplicidade do coração, completa renúncia de si mesmo e vida marcada pelo sofrimento.
Foi união que se submeteu às etapas necessárias de nosso progresso.
Durante a maior parte de sua vida terrena, a vida divina permaneceu escondida no interior de sua alma, até a morte.
Na condição de separação entre alma e corpo, consolou a alma, mas não a elevou acima da região intermediária do paraíso.
Na ressurreição, revestiu o corpo de qualidades celestiais e do poder da imortalidade.
Finalmente, elevou-o à presença imediata e à direita do Pai.
Cristo não é apenas Deus acima de nós. Essa verdade poderá conservar-nos em reverência, mas, isoladamente, não poderá salvar-nos.
Ele é Emanuel: Deus conosco e em nós.
Como Filho de Deus, onde ele está, Deus também precisa estar. Como Filho do Homem, ele permanece com a humanidade.
A consequência disso é que, no mundo futuro, “o tabernáculo de Deus estará com os seres humanos”, e ele lhes mostrará sua glória.
No presente, habitará no coração deles mediante a fé no Filho.
Espero que tenha ficado suficientemente claro que “o Senhor é esse Espírito”.
Considerando aquilo que somos e aquilo que fomos, nada inferior ao recebimento desse Espírito poderia representar redenção para nós.
Considerando quem era a pessoa celestial enviada para ser nosso Redentor, não poderíamos esperar dele coisa inferior.
A NATUREZA E AS OPERAÇÕES DO ESPÍRITO SANTO
Passo agora ao terceiro ponto proposto: investigar a natureza e as operações do Espírito Santo concedido aos cristãos.
Não considerarei os dons extraordinários concedidos nos primeiros tempos para a edificação da Igreja.
Considerarei somente aquilo que o Espírito Santo é para cada crente, para sua santificação e salvação pessoal.
Não foi concedido a todas as pessoas ressuscitar mortos ou curar enfermos.
Aquilo que é mais necessário é possuirmos certeza, quanto a nós mesmos, de que “passamos da morte para a vida”; mantermos o corpo puro e sem contaminação e permitirmos que ele receba a saúde que procede da paciência corajosa e das alegrias serenas da devoção.
O Espírito Santo capacitou pessoas a falar em línguas e profetizar.
A luz que mais necessariamente acompanha sua presença, porém, é aquela que nos permite discernir os enganos da carne e do sangue, rejeitar os princípios irreligiosos do mundo e praticar graus de confiança em Deus e amor pelas pessoas que não estão fundamentados principalmente na aparência presente das coisas, mas nas realidades futuras.
O primeiro objeto que essa luz nos permite conhecer somos nós mesmos.
Em virtude desse conhecimento, aquele que nasceu de Deus e possui esperança viva poderá realmente compreender profundamente os caminhos da providência e, ainda mais profundamente, as Sagradas Escrituras.
As Sagradas Escrituras, com exceção de algumas partes circunstanciais e menos necessárias, são a história daquele novo ser que o próprio crente está se tornando.
A providência é a sábia organização dos acontecimentos para despertar pessoas específicas e preparar progressivamente o mundo em geral para a vinda do Reino de Cristo.
Acredito que a verdadeira compreensão do Espírito é esta: sua presença constitui participação inicial na vida de Deus e preparação para a vida que desfrutaremos futuramente nele.
O dom do Espírito Santo aponta diretamente para a ressurreição, pois será então que a vida de Deus será completada em nós.
Depois de o ser humano atravessar todas as consequências do pecado — o trabalho cansativo e a vaidade da vida humana, as reflexões dolorosas da mente despertada, as fraquezas e a dissolução do corpo e todos os sofrimentos e todas as renúncias permitidos pelo Deus justo em seu caminho —; depois de, por esses meios, conhecer a Deus e a si mesmo, poderá receber com segurança a verdadeira vida, a liberdade e os ornamentos de um filho de Deus, pois já não atribuirá coisa alguma a si mesmo.
O Espírito Santo será plenamente concedido quando a carne já não lhe oferecer resistência, mas for transformada numa condição semelhante à dos anjos, sendo revestida da incorruptibilidade procedente do Espírito Santo.
O corpo, que, por nascer juntamente com a alma e viver por meio dela, somente poderia ser chamado corpo natural, tornar-se-á corpo espiritual quando, pelo Espírito, for ressuscitado para a eternidade.
Tudo no cristianismo constitui antecipação daquilo que acontecerá no fim do mundo.
Quando os apóstolos receberam do Mestre a ordem de pregar que “o Reino de Deus estava próximo”, isso significava que, daquele momento em diante, todas as pessoas deveriam fixar os olhos naquele tempo feliz anunciado pelos profetas, quando o Messias restauraria todas as coisas.
Renunciando ao modo de viver do mundo e submetendo-se à instituição do evangelho, deveriam preparar-se para aquela bênção e apressar sua chegada.
“Agora somos filhos de Deus”, afirma João.
Aquilo, porém, que ele atualmente nos concede dificilmente justificaria esse título sem considerarmos também a plenitude de sua imagem que será manifestada em nós quando formos “filhos de Deus, por sermos filhos da ressurreição”.
Os verdadeiros crentes já começaram a viver uma vida cujo desenvolvimento ainda desconhecem, pois é “vida escondida com Cristo em Deus”.
Cristo, nosso precursor, alcançou a finalidade dessa vida, pois foi para o Pai. Nós, porém, somente podemos conhecer aquilo que apareceu nele enquanto permaneceu sobre a terra.
Nem mesmo isso conheceremos sem seguir seus passos.
Caso o façamos, seremos fortalecidos e renovados diariamente no ser interior, de modo que não desejaremos consolo procedente do mundo presente, por causa da percepção da “alegria que nos está proposta”.
Quanto ao ser exterior, continuaremos sujeitos às aflições, ao enfraquecimento e a ser tratados como rejeitados por todos.
Com razão cada pessoa poderá perguntar ao próprio coração se está preparado para receber o Espírito de Deus.
Onde esse Hóspede divino entra, as leis de outro mundo precisam ser observadas.
O corpo precisa ser entregue ao martírio, caso isso seja exigido, ou consumido na luta cristã, com o mesmo desprendimento que possuiríamos caso a alma já estivesse revestida de sua habitação celestial.
Os bens deste mundo precisam ser repartidos com a mesma liberdade que demonstraríamos caso o fogo final fosse alcançá-los amanhã.
Nosso próximo precisa ser amado com a mesma sinceridade com que o amaríamos caso já estivesse purificado de todos os pecados e demonstrado filho de Deus pela ressurreição dentre os mortos.
Os frutos desse Espírito não poderão ser simples virtudes morais, planejadas somente para o conforto e a respeitabilidade da vida presente.
Precisam ser disposições santas, apropriadas aos impulsos de uma vida superior que já começou.
Todo aquele que possui fé reconhece ser justo e necessário avançar em direção ao lugar para o qual a promessa da vida o chama; voltar as costas ao mundo e encontrar consolo em Deus.
Por isso, esforça-se para fazer essas coisas.
Todo aquele que possui esperança as pratica com alegria e entusiasmo, embora não sem dificuldade.
Aquele, porém, que possui amor pratica-as com simplicidade de coração.
A condição do amor é acompanhada de “alegria indescritível e cheia de glória”, descanso das paixões e vaidades humanas, integridade de julgamento imutável e vontade indivisa.
Em grande medida, essa condição já é sua própria recompensa. Isso, porém, não elimina o desejo pelo mundo futuro.
A pessoa que possui amor livre e insaciável por tudo aquilo que é bom talvez raramente necessite apresentar formalmente a si mesma a esperança de recompensa para vencer a indisposição ao dever.
Apesar disso, certamente desejará aquilo que é o melhor de tudo.
Sentirá evidente atração pela pátria na qual seu lugar e sua habitação já estão preparados.
Unir-se-á à ardente expectativa de toda a criação, que aguarda a manifestação dos filhos de Deus.
Atualmente, recebemos somente parte de seu Espírito, para sermos formados e preparados para a incorruptibilidade.
Desse modo, somos progressivamente acostumados a receber e carregar Deus dentro de nós.
Por isso, o apóstolo chama essa experiência de “penhor do Espírito”, isto é, parte daquela honra prometida pelo Senhor.
Caso, portanto, esse penhor, permanecendo em nós, já nos torne espirituais e aquilo que é mortal seja, por assim dizer, absorvido pela imortalidade, como será quando, ressuscitados, contemplarmos Deus face a face?
Como será quando todos os membros de nosso corpo se manifestarem em cânticos de vitória e glorificarem aquele que os ressuscitou dentre os mortos e lhes concedeu a vida eterna?
Caso esse penhor, envolvendo o ser humano, já o faça clamar: “Aba, Pai”, o que a graça completa do Espírito realizará quando for finalmente concedida aos crentes?
Ela nos tornará semelhantes a Deus e nos aperfeiçoará segundo a vontade do Pai.
Assim, realizei aquilo que propus inicialmente.
Considerei a natureza de nossa queda em Adão, a pessoa de Jesus Cristo e as operações do Espírito Santo nos cristãos.
Apresentarei somente uma conclusão extraída daquilo que foi dito, especialmente do relato sobre a queda humana.
Consideremos a razoabilidade dos mandamentos de negar a nós mesmos, enfrentar diariamente o sofrimento e renunciar ao mundo.
Esses mandamentos são especialmente característicos do cristianismo e constituem o único fundamento sobre o qual poderão ser praticadas ou alcançadas, no sentido pretendido pelo Novo Testamento, as demais virtudes nele recomendadas.
Essa conclusão é tão natural que não consegui deixar de antecipá-la em certa medida durante todo o discurso.
Poderíamos imaginar que não seria difícil convencer uma criatura a rejeitar as marcas de sua miséria; a não se agradar de uma condição ou habitação que lhe foi concedida somente por causa do exílio e da desonra; a pisar a grandeza, recusar os confortos e desconfiar da sabedoria de uma vida cuja natureza consiste em separá-la de Deus.
Seu Salvador ordena que você “odeie a própria vida”.
Caso pergunte a razão, entre no coração.
Observe se ele é santo e cheio de Deus ou se muitas coisas contrárias a Deus são produzidas ali, transformando-o numa plantação do inimigo.
Caso essa investigação seja detalhada demais, observe seu corpo.
Você encontra nele o brilho de um anjo e todo o vigor da imortalidade?
Caso não encontre, tenha certeza de que sua alma experimenta grau correspondente de pobreza, nudez e ausência de Deus.
É verdade que sua alma poderá ser novamente admitida a alguns raios da luz da presença de Deus antes que isso aconteça ao corpo.
Caso, porém, deseje dar qualquer passo nessa direção, o primeiro será deixar de estar satisfeito com sua condição atual.
Você deseja uma razão para renunciar ao mundo.
Na realidade, não consegue enxergar o príncipe deste mundo andando ao redor e “procurando alguém para devorar”.
Talvez também desconheça seus métodos a ponto de não reconhecer que eles atuam tanto nos mais respeitáveis projetos profissionais e acadêmicos quanto nas buscas mais descontroladas pelo prazer.
Isto, porém, você necessariamente consegue enxergar: o mundo já não é o paraíso de Deus, protegido e enobrecido pela luz da glória.
É um lugar no qual Deus determinou que, na melhor das hipóteses, não se manifestará plenamente a você, mas o deixará na condição de esperança de que contemplará sua face quando este mundo for dissolvido.
Existe, entretanto, caminho pelo qual podemos libertar-nos, em grande medida, das consequências ruins de nosso cativeiro.
Nosso Salvador ensinou-nos esse caminho. É o caminho do sofrimento.
Não devemos somente “sofrer muitas coisas”, assim como ele sofreu, e então entrar na glória.
Também precisamos enfrentar muitas coisas para que, no presente, sejamos elevados acima de nossa corrupção e desfrutemos do Espírito Santo.
O mundo somente conserva poder sobre nós enquanto possuímos forte atração por seus confortos. O sofrimento enfraquece essa atração.
O sofrimento constitui resposta direta às falsas promessas utilizadas pelo tentador para conquistar-nos.
Posso dizer:
“Estou vivendo uma vida humana. Caso essa vida contenha realmente toda a tranquilidade, o prazer encantador e a posição gloriosa que você promete, por que me encontro nesta condição?
“Seria porque ainda não adquiri riquezas suficientes para viver confortavelmente ou as habilidades valorizadas pelo mundo para tornar-me importante?”
Descubro, então, que todo o consolo oferecido pelo mundo procura afastar-me da realidade de minha própria condição.
Prefiro, porém, entrar profundamente naquilo que realmente sou, por pior que seja.
Talvez esteja mais próximo de Deus, a Verdade eterna, quando sinto tristezas e misérias que são pessoais e reais do que quando experimento confortos que não possuem essa realidade.
Começo a descobrir que todas as minhas aflições se concentram num único ponto.
No fundo de todas elas, existe uma grande perda ou deficiência que não consiste na falta de amigos, ouro, saúde ou conhecimento.
A percepção constante dessa necessidade talvez se transforme numa oração aos ouvidos do Altíssimo.
Não será oração resultante de conjunto de opiniões especulativas, mas da condição real e não disfarçada de tudo aquilo que existe dentro de mim.
Talvez nem seja oração suficientemente clara para descrever exatamente aquilo de que necessito.
Considerando, porém, como minha necessidade é extraordinária, será a oração mais clara que consigo apresentar.
Visto que o sofrimento abre para mim uma porta de esperança, não o rejeitarei enquanto viver.
Ele me ajuda a descobrir verdadeiramente um período de minha existência, embora seja período inferior.
Também oferece perspectiva maior de possuir ligação com período mais glorioso que poderá vir depois do que as técnicas da satisfação pessoal, as distrações do orgulho e da preguiça e toda a política obscura deste mundo.
Essas coisas lutam contra toda a verdade que o ser humano precisa conhecer e experimentar antes de poder olhar em direção a Deus.
Talvez, enquanto permaneço na cruz, possa, assim como meu Salvador, despojar os principados e as potestades.
Poderei recuperar-me progressivamente da sujeição em que realmente me encontro — sujeição que nele somente parecia existir — àqueles governantes perversos e triunfar sobre eles na cruz.
Pelo menos ficará evidente, no dia em que Deus visitar seu povo, que meu coração, embora tenha se tornado indigno de sua habitação, era grande demais para ser consolado por qualquer de suas criaturas.
Demonstrará que foi preservado para Deus como lugar originalmente sagrado, embora atualmente esteja contaminado.
Suponhamos que nossa condição realmente exija que “morramos diariamente”, sacrificando tudo aquilo de que a vida presente se orgulha ou em que encontra prazer antes de entregarmos a própria vida.
Suponhamos também que, no momento em que realizamos alguma coisa dessa natureza, recebemos de Deus luz e força para nos elevarmos acima de nossas fraquezas e somos suavemente conduzidos em direção a ele pela alegria do Espírito Santo.
Alguém poderá perguntar: como poderá a pessoa encontrar oportunidades tão frequentes para sofrer?
É verdade que o martírio não acontece em todas as épocas.
Alguns dias de nossa vida talvez passem sem que sejamos criticados pelas pessoas.
Poderemos estar saudáveis e possuir alimento e roupas — embora a própria saúde e a própria alimentação exijam de nós disciplina constante.
Apesar disso, o amor a Deus e a esperança celestial sempre encontrarão alguma coisa que procure oprimi-los neste mundo.
A pessoa desça calmamente ao próprio coração e observe se não existe alguma raiz de amargura brotando ali.
Veja se os pensamentos, sempre em movimento, não se lançam algumas vezes em projetos sugeridos pelo orgulho; se não afundam em distrações preguiçosas ou ficam presos em preocupações mesquinhas.
Não encontra dentro de si movimento de ira ou leviandade que, num instante, se espalha por todo seu ser e lhe retira a mansidão e o discernimento firme pelos quais trabalhava?
Procure imaginar, em qualquer momento, aquela obediência sincera, aquele zelo vigilante e aquela dignidade de comportamento apropriados — não digo a um anjo, mas a um pecador que possui “boa esperança pela graça”.
Procure elevar-se até essa condição.
Caso não encontre dentro de si obstáculo algum, então realmente não possui oportunidade de sofrer.
Em resumo, caso seja criatura tão abatida que, a menos que a graça exerça continuamente seu poder sobre ela, frequentemente cairá novamente num modo de pensar e agir completamente afastado de Deus, jamais lhe faltarão oportunidades para sofrer.
Descobrirá que sua própria natureza constitui para ela o mesmo peso representado para nosso Salvador por aquela “geração incrédula e perversa”, a respeito da qual declarou:
“Até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los?”
Concluirei com esta excelente oração de nossa Igreja:
“Ó Deus, que em todas as épocas ensinaste o coração de teu povo fiel, enviando-lhe a luz de teu Espírito Santo: concede-nos, pelo mesmo Espírito, discernimento correto em todas as coisas e a graça de alegrar-nos continuamente em sua santa consolação; mediante os méritos de Jesus Cristo, nosso Salvador, que vive e reina contigo, na unidade do mesmo Espírito, um só Deus, para todo o sempre. Amém.”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.