SERMÃO 29

Deus e as riquezas; a ansiedade do amanhã

Nono dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.

Mt 6.24–34, NAA ⏱ 25 min de leituraSermão do MonteDinheiro e mordomia

“Ninguém pode servir a dois senhores… Não podeis servir a Deus e às riquezas… Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta a cada dia o seu próprio mal.”

(Mt 6.24–34, NAA)

Antes de ler

Wesley fecha aqui os capítulos 5 e 6 do Sermão do Monte com dois temas que se completam: a impossibilidade de servir a Deus e às riquezas, e a proibição da ansiedade. Ele abre com uma imagem impressionante — os cristãos que, como os antigos povos de Samaria, "temem o Senhor e servem os seus próprios deuses". Depois define, com clareza, o que é servir a Deus (crer nele, amá-lo, imitá-lo, obedecer-lhe) em contraste com servir às riquezas. E, ao tratar da ansiedade, faz uma distinção pastoral preciosa: há um cuidado bom, "o cuidado da cabeça" (planejar, trabalhar, prover), e há um cuidado proibido, "o cuidado do coração", a inquietação que atormenta. A conclusão é um convite a viver o hoje — só o hoje — inteiramente para Deus.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Registra-se dos povos que o rei da Assíria, depois de levar Israel ao cativeiro, colocou nas cidades de Samaria, que “temiam o Senhor e serviam aos seus próprios deuses”. “Estes povos”, diz o escritor inspirado, “temiam o Senhor” — prestavam-lhe um serviço exterior (clara prova de que tinham temor de Deus, embora não com entendimento); “e serviam às suas imagens de escultura, tanto os seus filhos quanto os filhos dos seus filhos; como fizeram os seus pais, assim fazem eles até ao dia de hoje” (2Rs 17.33, 41). Quão de perto a prática da maioria dos cristãos modernos se assemelha a esta dos antigos pagãos! “Temem o Senhor”; prestam-lhe também um serviço exterior e assim mostram ter algum temor de Deus; mas igualmente “servem aos seus próprios deuses”. “Estes povos temem o Senhor”; não abandonaram a forma exterior de adorá-lo; mas “servem às suas imagens de escultura” — prata e ouro, obra de mãos humanas. O dinheiro, o prazer e o louvor, os deuses deste mundo, mais do que dividem o seu serviço com o Deus de Israel.

2. Mas, embora, falando de modo impreciso, à maneira comum dos homens, se dissesse que aqueles pobres pagãos “temiam o Senhor”, podemos observar que o Espírito Santo imediatamente acrescenta, falando segundo a verdade e a real natureza das coisas: “Não temiam ao Senhor, nem faziam segundo a lei e o mandamento que o Senhor ordenara aos filhos de Jacó… aos quais o Senhor ordenara, dizendo: Não temereis a outros deuses, nem os servireis. Mas ao Senhor, vosso Deus, temereis, e ele vos livrará das mãos de todos os vossos inimigos.” O mesmo juízo é pronunciado pelo infalível Espírito de Deus sobre estes pobres cristãos, assim comumente chamados. Se falamos segundo a verdade e a real natureza das coisas, “não temem ao Senhor, nem o servem”. Pois não fazem “segundo a aliança que o Senhor fez com eles, nem segundo a lei e o mandamento que ele lhes ordenou, dizendo: Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele darás culto”. “Servem a outros deuses até ao dia de hoje.” E “ninguém pode servir a dois senhores”.

3. Quão vão é para qualquer homem visar a isto — tentar servir a dois senhores! Não é fácil prever qual há de ser a consequência inevitável de tal tentativa? “Ou há de odiar a um e amar a outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro.” Ele naturalmente se dedicará àquele que ama; a este se apegará, prestando-lhe um serviço voluntário, fiel e diligente. E, enquanto isso, ao menos até certo ponto, desprezará o senhor que odeia, dando pouca atenção às suas ordens e obedecendo-lhes, se é que o faz, de modo leviano e descuidado. Portanto, o que quer que os sábios do mundo suponham, “não podeis servir a Deus e às riquezas”.

4. “Mamom” era o nome de um dos deuses pagãos, que se supunha presidir às riquezas. Entende-se aqui pelas próprias riquezas — ouro e prata, ou, em geral, o dinheiro —, e, por uma figura comum de linguagem, por tudo o que com ele se possa comprar, como o conforto, a honra e o prazer sensual. Mas o que devemos entender aqui por servir a Deus, e o que por servir às riquezas? Não podemos servir a Deus se não cremos nele. Este é o único verdadeiro fundamento de servi-lo. Portanto, crer em Deus, como “reconciliando consigo o mundo por meio de Cristo Jesus”, crer nele como um Deus amoroso e que perdoa, é o primeiro grande ramo do seu serviço. E crer assim em Deus implica confiar nele como a nossa força, sem quem nada podemos fazer; como o nosso socorro, o nosso único socorro na tribulação; como o nosso escudo, o nosso defensor. Implica confiar em Deus como a nossa felicidade — o único bem que é adequado a todas as nossas capacidades e suficiente para satisfazer todos os desejos que ele nos deu. Implica confiar em Deus como o nosso fim; ter o olhar posto nele em todas as coisas; usar todas as coisas apenas como meios de desfrutá-lo.

5. Crer assim é a primeira coisa que devemos entender por servir a Deus. A segunda é amá-lo. Ora, amar a Deus da maneira que a Escritura descreve — da maneira que o próprio Deus requer de nós, e que, ao requerer, se compromete a operar em nós — é amá-lo como o ÚNICO DEUS, isto é, “de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todo o nosso entendimento e com toda a nossa força”; é desejar só a Deus, por amor dele mesmo, e nada mais, senão em referência a ele; é alegrar-se em Deus, deleitar-se no Senhor; não só buscar, mas achar a felicidade nele; descansar nele, como nosso Deus e nosso tudo; numa palavra, ter tal posse de Deus que nos faça sempre felizes.

6. Uma terceira coisa que devemos entender por servir a Deus é assemelhar-nos a ele, imitá-lo. Assim dizia o antigo Pai: “A melhor adoração, ou serviço, de Deus é imitar aquele que adoras.” Falamos aqui de imitá-lo, ou assemelhar-nos a ele, no espírito da nossa mente; pois é aí que começa a verdadeira imitação cristã de Deus. “Deus é Espírito”, e os que o imitam devem fazê-lo “em espírito e em verdade”. Ora, Deus é amor; portanto, os que se assemelham a ele no espírito da sua mente são transformados na mesma imagem. São misericordiosos, assim como ele é misericordioso. A sua alma é toda amor. São bondosos, benevolentes, compassivos, de coração terno; e isso não só para com os bons e gentis, mas também para com os perversos. Sim, são, como ele, bondosos para com cada pessoa, e a sua misericórdia se estende a todas as suas obras.

7. Mais uma coisa devemos entender por servir a Deus, e é obedecer-lhe; glorificá-lo com o nosso corpo, tanto quanto com o nosso espírito; guardar os seus mandamentos exteriores; fazer zelosamente tudo o que ele ordenou; evitar cuidadosamente tudo o que ele proibiu; realizar todas as ações comuns da vida com um olho bom e um coração puro, oferecendo-as todas, em santo e fervoroso amor, como sacrifícios a Deus por Jesus Cristo.

8. Consideremos agora o que devemos entender, por outro lado, por servir às riquezas. Primeiro, implica confiar nas riquezas, no dinheiro ou nas coisas com ele adquiríveis, como a nossa força — o meio pelo qual realizaremos o que quer que tenhamos em mãos —; e confiar nelas como o nosso socorro, pelo qual esperamos ser consolados na aflição ou dela livrados. Implica confiar no mundo para a felicidade; supor que “a vida de um homem”, o conforto da sua vida, “consiste na abundância dos bens que possui”; buscar descanso nas coisas que se veem; contentamento na fartura exterior; esperar das coisas do mundo aquela satisfação que jamais se pode achar fora de Deus. E, se fazemos isto, não podemos senão fazer do mundo o nosso fim; o fim último, se não de todos, ao menos de muitos dos nossos empreendimentos, muitas das nossas ações e desígnios, nos quais visaremos apenas ao aumento da riqueza, à obtenção do prazer ou do louvor, sem referência alguma às coisas eternas.

9. Servir às riquezas implica, segundo, amar o mundo; desejá-lo por si mesmo; pôr a nossa alegria nas coisas dele e fixar nelas o coração; buscar nelas (o que, de fato, é impossível que achemos) a nossa felicidade; apoiar-nos, com todo o peso da alma, sobre o bordão desta cana quebrada, embora a experiência diária mostre que ela não pode sustentar-nos, mas apenas “entrar na nossa mão e traspassá-la”.

10. Assemelhar-nos ao mundo, conformar-nos a ele, é uma terceira coisa que devemos entender por servir às riquezas: ter não só desígnios, mas desejos, disposições e afetos condizentes com os do mundo; ser de mente terrena e sensual, acorrentado às coisas da terra; ser teimoso, amante desmedido de nós mesmos; ter em alta conta as nossas próprias conquistas; desejar e deleitar-nos no louvor dos homens; temer, evitar e abominar o opróbrio; ser impaciente com a repreensão, fácil de irritar-se e pronto a retribuir mal com mal.

11. Servir às riquezas é, por fim, obedecer ao mundo, conformando-se exteriormente às suas máximas e costumes; andar como os outros homens andam, na estrada comum, na larga, macia e batida vereda; estar na moda; seguir a multidão; fazer como os demais vizinhos; isto é, fazer a vontade da carne e da mente, satisfazer os nossos apetites e inclinações, sacrificar a nós mesmos, visar ao nosso próprio conforto e prazer no curso geral tanto das nossas palavras quanto das nossas ações. Ora, que pode haver de mais inegavelmente claro do que isto: que não podemos assim servir a Deus e às riquezas?

12. Não vê todo homem que não pode confortavelmente servir a ambos? Que oscilar entre Deus e o mundo é o caminho seguro para se decepcionar com os dois e não ter descanso nem num, nem no outro? Quão pouco confortável deve ser a condição daquele que, tendo o temor, mas não o amor de Deus — que, servindo-o, mas não de todo o coração —, tem apenas os fadigas, e não as alegrias, da religião! Ele tem religião suficiente para torná-lo miserável, mas não bastante para torná-lo feliz: a sua religião não o deixa desfrutar do mundo, e o mundo não o deixa desfrutar de Deus. De modo que, oscilando entre os dois, perde ambos e não tem paz nem em Deus nem no mundo.

13. Não vê todo homem que não pode servir a ambos em coerência consigo mesmo? Que incoerência mais gritante se pode conceber do que a que continuamente aparece em todo o comportamento daquele que se esforça por obedecer a estes dois senhores, procurando “servir a Deus e às riquezas”? Ele é, de fato, um “pecador que anda por dois caminhos”; um passo à frente e outro atrás. Está continuamente edificando com uma mão e demolindo com a outra. Ama o pecado e o odeia; está sempre buscando a Deus e, contudo, sempre fugindo dele. Quer e não quer. Não é o mesmo homem por um dia; não, nem por uma hora seguida. É uma mistura confusa de toda sorte de contrariedades; um amontoado de contradições reunidas num só. Ó, seja coerente contigo mesmo, de um modo ou de outro! Vira-te para a direita ou para a esquerda. Se Mamom é Deus, serve-o tu; se o Senhor, então serve-o. Mas nunca penses em servir a algum deles, a não ser de todo o coração.

14. Não vê todo homem razoável que não pode, de modo algum, servir a Deus e às riquezas? Porque há entre eles a mais absoluta contrariedade, a mais irreconciliável inimizade. A contrariedade entre as coisas mais opostas da terra — entre o fogo e a água, as trevas e a luz — reduz-se a nada quando comparada à contrariedade entre Deus e as riquezas. De modo que, em qualquer aspecto em que você serve a um, necessariamente renuncia ao outro. Você crê em Deus por Cristo? Confia nele como a sua força, o seu socorro, o seu escudo e o seu grandíssimo galardão, como a sua felicidade, o seu fim em tudo e acima de tudo? Então você não pode confiar nas riquezas. É absolutamente impossível que o faça, enquanto tiver essa fé em Deus. Você ama a Deus? Busca e acha a felicidade nele? Então você não pode amar o mundo, nem as coisas do mundo. Você é misericordioso, como o seu Pai é misericordioso? Está transformado, pela renovação da sua mente, na imagem daquele que o criou? Então você não pode conformar-se ao presente mundo. Você obedece a Deus? É zeloso por fazer a sua vontade na terra, como os anjos a fazem no céu? Então é impossível que obedeça às riquezas. Você segue o mundo? Vive como os outros homens? Agrada aos homens? Agrada a si mesmo? Então você não pode ser servo de Deus.

15. Portanto, “adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele darás culto”. Deixarás de lado todo pensamento de obedecer a dois senhores, de servir a Deus e às riquezas. Não proporás a ti mesmo fim algum, socorro algum, felicidade alguma, senão Deus. Nada buscarás na terra ou no céu senão a ele; a nada visarás senão a conhecê-lo, amá-lo e desfrutá-lo. E, porque este é todo o seu ofício aqui embaixo, a única mira que você pode razoavelmente ter, o único desígnio que deve perseguir em todas as coisas — “portanto, eu lhes digo” (assim continua o nosso Senhor o seu discurso), “não se inquietem com a sua vida, quanto ao que hão de comer ou beber, nem com o seu corpo, quanto ao que hão de vestir” — orientação profunda e de peso, que muito nos importa considerar e entender a fundo.

16. O nosso Senhor não requer aqui que estejamos totalmente sem cuidado, mesmo quanto às questões desta vida. Uma disposição tonta e descuidada está no extremo mais oposto de toda a religião de Jesus Cristo. Nem ele requer que sejamos “negligentes nos negócios”, frouxos e morosos neles. Isto também é contrário a todo o espírito da sua religião. O cristão abomina a preguiça tanto quanto a embriaguez, e foge da ociosidade como foge do adultério. Ele bem sabe que há uma espécie de pensamento e cuidado com que Deus se compraz, e que é absolutamente necessário para o devido cumprimento das obras exteriores para as quais a providência de Deus o chamou. É a vontade de Deus que todo homem trabalhe para comer o seu próprio pão; sim, e que cada um proveja aos seus, aos da sua própria casa. É igualmente a sua vontade que “não devamos nada a ninguém, mas procuremos fazer o que é honesto diante de todos os homens”. Mas isto não se pode fazer sem ter algum pensamento, algum cuidado na mente; sim, muitas vezes, sem pensamento longo e sério, sem cuidado grande e diligente. Por consequência, este cuidado — de prover para nós e para a nossa casa —, este pensamento de como dar a cada um o que lhe é devido, o nosso bendito Senhor não condena. É bom e agradável a Deus que planejemos o nosso negócio antes de entrar nele, e que consideremos cuidadosamente que passos devemos dar. Este cuidado, chamado por alguns de “o cuidado da cabeça”, de modo algum foi o propósito do nosso Senhor condenar.

17. O que ele aqui condena é o cuidado do coração; o cuidado ansioso e inquieto; o cuidado que traz tormento; todo cuidado que faz mal, seja à alma, seja ao corpo. O que ele proíbe é aquele cuidado que, como a triste experiência mostra, consome o sangue e suga as forças; que antecipa toda a miséria que teme, e vem atormentar-nos antes do tempo. Ele proíbe apenas aquele cuidado que envenena as bênçãos de hoje, pelo medo do que possa ser amanhã; que não pode desfrutar da fartura presente, por causa da apreensão da carência futura. Este cuidado não é só uma dolorosa doença, uma grave enfermidade da alma, mas também uma horrível ofensa a Deus, um pecado da mais profunda tintura. É um grande insulto ao gracioso Governador e sábio Dispensador de todas as coisas; implicando necessariamente que o grande Juiz não faz o que é reto, que ele não ordena bem todas as coisas. Portanto, cuidado para não ter cuidado nesse sentido: não sejam ansiosamente cuidadosos com nada. Não tenham pensamento inquieto: esta é uma regra clara e segura — o cuidado inquieto é cuidado ilícito. Com um olho voltado unicamente para Deus, façam tudo o que estiver em vocês para prover o que é honesto diante de todos os homens. E então entreguem tudo a mãos melhores; deixem todo o desfecho com Deus.

18. “Não se inquietem” desse modo, com nenhum pensamento inquieto, nem mesmo “com a sua vida, quanto ao que hão de comer ou beber, nem com o seu corpo, quanto ao que hão de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?” Se, então, Deus lhes deu a vida, o dom maior, não lhes dará o alimento para sustentá-la? Se lhes deu o corpo, como podem duvidar de que lhes dará vestes para cobri-lo? Especialmente se vocês se entregam a ele e o servem de todo o coração. “Observem” — vejam diante dos seus olhos — “as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros”; e, contudo, nada lhes falta; “todavia, o Pai celestial as sustenta. Não valem vocês muito mais do que elas?” Vocês, que são criaturas capazes de Deus, não têm mais valor aos olhos de Deus? “E qual de vocês, por inquietar-se, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” Que proveito têm, então, desse cuidado ansioso? É de todo infrutífero e inútil. “E por que se inquietam quanto às vestes? Observem os lírios do campo, como crescem: não trabalham, nem fiam; e, contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vocês, homens de pequena fé?” — vocês, a quem ele fez para durar para todo o sempre, para serem retratos da sua própria eternidade! Vocês são, de fato, de pequena fé; do contrário, não poderiam duvidar do seu amor e cuidado, nem por um instante.

19. “Portanto, não se inquietem, dizendo: Que comeremos?” — se não ajuntamos tesouro na terra; “Que beberemos?” — se servimos a Deus com toda a força, se o nosso olho está unicamente fixo nele; “Com que nos vestiremos?” — se não nos conformamos ao mundo. “Pois os gentios é que procuram todas estas coisas” — os pagãos, que não conhecem a Deus. Mas vocês têm consciência de que “o Pai celestial sabe que vocês precisam de todas elas”. E ele lhes apontou um caminho infalível de serem constantemente supridos delas: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.”

20. “Buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus”: antes de dar lugar a qualquer outro pensamento ou cuidado, seja a sua preocupação que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo reine no seu coração, se manifeste na sua alma e ali habite e governe; que ele “derrube toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e leve cativo todo pensamento à obediência de Cristo”. Que Deus tenha o único domínio sobre vocês; que ele reine sem rival; que possua todo o coração de vocês e governe sozinho. Que ele seja o seu único desejo, a sua alegria, o seu amor, de modo que tudo o que há dentro de vocês clame continuamente: “O Senhor Deus Todo-Poderoso reina.” “Buscai o reino de Deus e a sua justiça.” A justiça é o fruto de Deus reinando no coração. E que é a justiça senão o amor — o amor de Deus e de toda a humanidade, que flui da fé em Jesus Cristo e produz humildade de mente, mansidão, gentileza, longanimidade, paciência, morte para o mundo, e toda reta disposição do coração, para com Deus e para com o próximo? “A sua justiça”: esta é, ainda, toda dele. É o seu próprio dom gratuito a nós, por amor de Jesus Cristo, o Justo, por meio de quem somente ela nos é adquirida. E é obra dele; é só ele quem a opera em nós, pela inspiração do Espírito Santo.

21. Talvez observar bem isto lance luz sobre outras Escrituras que nem sempre entendemos tão claramente. Paulo, falando na Epístola aos Romanos a respeito dos judeus incrédulos, diz: “Ignorando a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus.” Creio que este pode ser um sentido das palavras: eles ignoravam “a justiça de Deus”, não só a justiça de Cristo, imputada a todo crente, pela qual todos os seus pecados são apagados; mas (o que aqui parece mais imediatamente entendido) ignoravam aquela justiça interior, aquela santidade de coração que, com toda a propriedade, se chama “justiça de Deus” — por ser tanto o seu próprio dom gratuito por Cristo quanto a sua própria obra, pelo seu Espírito todo-poderoso. E, porque a “ignoravam”, “procuravam estabelecer a sua própria justiça”, aquela justiça exterior que muito propriamente se poderia chamar deles mesmos. Pois nem era operada pelo Espírito de Deus, nem era por ele reconhecida ou aceita. “Cristo é o fim da lei para justiça de todo aquele que crê.” Cristo, ao dizer “Está consumado!”, pôs fim àquela lei — à lei dos ritos e cerimônias exteriores —, para introduzir uma justiça melhor pelo seu sangue: a própria imagem de Deus, no mais íntimo da alma de todo aquele que crê.

22. Muito relacionadas a estas estão as palavras do apóstolo, na Epístola aos Filipenses: “Considero tudo como perda… para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede da lei, mas a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3.8–9): aquela santidade de coração, aquela renovação da alma em todos os seus desejos, disposições e afetos, “que procede de Deus” (é obra de Deus, e não do homem), “baseada na fé”; pela fé em Cristo, pela revelação de Jesus Cristo em nós e pela fé no seu sangue, pelo qual somente obtemos a remissão dos nossos pecados e herança entre os que são santificados.

23. “Buscai, em primeiro lugar”, este “reino de Deus” nos seus corações; esta justiça, que é dom e obra de Deus, a imagem de Deus renovada na sua alma; “e todas estas coisas vos serão acrescentadas”: tudo o que é necessário ao corpo, tal medida de tudo quanto Deus veja mais conveniente para o avanço do seu reino. Estas coisas serão acrescentadas — serão lançadas por acréscimo, de sobra. Ao buscar a paz e o amor de Deus, vocês não só acharão o que buscam mais imediatamente, o reino que não pode ser abalado, mas também o que não buscam — não pelo próprio valor dessas coisas, mas apenas em referência ao outro. Vocês acharão, no seu caminho para o reino, todas as coisas exteriores, na medida em que lhes forem convenientes. Este cuidado Deus tomou sobre si mesmo: lancem sobre ele todo o seu cuidado. Ele conhece as suas carências; e tudo o que faltar, ele não deixará de suprir.

24. “Portanto, não se inquietem com o dia de amanhã.” Não só: não se inquietem com como ajuntar tesouros na terra, como aumentar em substância mundana; não se inquietem com como obter mais alimento do que podem comer, ou mais roupa do que podem vestir, ou mais dinheiro do que o requerido dia a dia para os fins simples e razoáveis da vida; mas não tenham pensamento inquieto, nem mesmo quanto às coisas que são absolutamente necessárias ao corpo. Não se atormentem agora, pensando no que farão numa estação que ainda está distante. Talvez essa estação nunca chegue; ou não será da sua conta; antes disso, vocês terão atravessado todas as ondas e desembarcado na eternidade. Todas essas vistas distantes não pertencem a vocês, que são apenas criaturas de um dia. Por que se perturbar sem necessidade? Deus provê para vocês, hoje, o necessário para sustentar a vida que ele lhes deu. Basta: entreguem-se às suas mãos. Se viverem outro dia, ele proverá também para esse.

25. Acima de tudo, não façam do cuidado com as coisas futuras um pretexto para negligenciar o dever presente. Este é o modo mais fatal de “inquietar-se com o amanhã”. E quão comum ele é entre os homens! Muitos, se os exortamos a conservar uma consciência sem ofensa, a abster-se do que estão convencidos ser mau, não hesitam em responder: “Como, então, havemos de viver? Não devemos cuidar de nós mesmos e das nossas famílias?” E imaginam que isto seja razão suficiente para continuar num pecado conhecido e deliberado. Dizem, e talvez pensem, que serviriam a Deus agora, não fosse o fato de que, dentro em pouco, perderiam o seu pão. Preparar-se-iam para a eternidade, mas têm medo de vir a faltar-lhes o necessário à vida. Assim, servem ao diabo por um bocado de pão; precipitam-se no inferno por medo da carência; jogam fora a sua pobre alma, para que não venham, algum dia, a ficar aquém do necessário ao corpo!

26. Há outra maneira de “inquietar-se com o amanhã”, igualmente proibida nestas palavras. É possível preocupar-se de modo errado até com as coisas espirituais; ser tão cuidadoso quanto ao que possa vir dentro em pouco, a ponto de negligenciar o que agora é requerido das nossas mãos. Quão insensivelmente deslizamos para isto, se não vigiamos continuamente em oração! Quão facilmente somos arrastados, numa espécie de sonho acordado, projetando esquemas distantes e pintando belas cenas na nossa imaginação! Pensamos que bem faremos quando estivermos em tal lugar, ou quando tal tempo chegar; quão úteis seremos, quão abundantes em boas obras, quando estivermos mais folgados nas nossas circunstâncias! Ou talvez você esteja agora em abatimento de alma; Deus, por assim dizer, esconde de você o rosto. Em tal disposição de mente, quão natural é dizer: “Ó, como louvarei a Deus quando a luz do seu rosto se levantar de novo sobre a minha alma! Como exortarei os outros a louvá-lo! Então farei isto e aquilo!” Não creia em si mesmo. Você não o fará então, se não o fizer agora. “Quem é fiel no pouco”, seja de que espécie for, “também é fiel no muito.” Mas, se agora você esconde um talento na terra, então esconderá cinco. De fato, “ao que tem” — isto é, usa o que tem — “se lhe dará mais, e terá em abundância; mas, ao que não tem” — isto é, não usa a graça que já recebeu —, “até o que tem lhe será tirado”.

27. E não se inquietem com as tentações de amanhã. Também esta é uma cilada perigosa. Não pense: “Quando tal tentação vier, o que farei? Como resistirei? Sinto que não tenho poder para resistir.” Verdadeiríssimo: você não tem agora o poder de que agora não precisa. Você não é capaz, neste momento, de vencer aquele inimigo; e, neste momento, ele não o assalta. Com a graça que você tem agora, não poderia resistir às tentações que não tem. Mas, quando a tentação vier, a graça virá. Em maiores provas, você terá maior força. Quando os sofrimentos abundam, as consolações de Deus, na mesma proporção, também abundarão. De modo que, em toda situação, a graça de Deus será suficiente para você. Ele não permite que você “seja tentado” hoje “além das suas forças”; e, “em toda tentação, ele lhe abrirá um caminho para escapar”. “Como forem os teus dias, assim será a tua força.”

28. “Que o amanhã”, portanto, “cuide das suas próprias coisas”; isto é, quando o amanhã chegar, então pense nele. Viva você o hoje. Seja o seu sério cuidado aproveitar a hora presente. Esta é sua; e é o seu tudo. O passado é como nada, como se nunca tivesse existido. O futuro não é nada para você. Não é seu; talvez nunca o será. Não há em que se apoiar quanto ao que ainda está por vir, pois você “não sabe o que o dia trará”. Portanto, viva o hoje: não perca uma hora; use este momento, pois é a sua porção. As gerações que houve desde o princípio do mundo, onde estão agora? Passaram; foram esquecidas. Viveram o seu dia; foram sacudidas da terra, como as folhas das árvores; desfizeram-se em pó comum! Agora é a sua vez sobre a terra. Agora, seja o seu olho unicamente fixo naquele “em quem não há mudança, nem sombra de variação”! Agora, dê-lhe o seu coração; agora, apoie-se nele; agora, seja santo, como ele é santo. Agora, lance mão da bendita oportunidade de fazer a sua agradável e perfeita vontade! Agora, alegre-se em “sofrer a perda de todas as coisas”, para que possa “ganhar a Cristo”!

29. Sofra de bom grado hoje, por amor do seu nome, tudo o que ele permitir que hoje venha sobre você. Mas não olhe para os sofrimentos de amanhã. “Basta a cada dia o seu próprio mal.” Mal ele o é, falando à maneira dos homens, seja opróbrio ou carência, dor ou doença; mas, na linguagem de Deus, tudo é bênção: é um precioso bálsamo, preparado pela sabedoria de Deus e diversamente distribuído entre os seus filhos, segundo as várias enfermidades das suas almas. E ele dá, em um dia, o suficiente para aquele dia, proporcionado à necessidade e à força do paciente. Se, portanto, você arrebata hoje o que pertence ao amanhã; se acrescenta isto ao que já lhe foi dado, será mais do que você pode suportar: este é o modo, não de sarar, mas de destruir a sua própria alma. Tome, portanto, exatamente o quanto ele lhe dá hoje: hoje, faça e sofra a sua vontade! Hoje, entregue-se a si mesmo — o corpo, a alma e o espírito — a Deus, por Cristo Jesus; nada desejando senão que Deus seja glorificado em tudo o que você é, faz e sofre; nada buscando senão conhecer a Deus e a seu Filho Jesus Cristo, pelo Espírito eterno; nada perseguindo senão amá-lo, servi-lo e desfrutá-lo, nesta hora e por toda a eternidade!

Agora, a “Deus Pai, que me fez, a mim e a todo o mundo”; a “Deus Filho, que me redimiu, a mim e a toda a humanidade”; a “Deus Espírito Santo, que me santifica, a mim e a todo o povo eleito de Deus”, sejam a honra e o louvor, a majestade e o domínio, para todo o sempre! Amém.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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