SERMÃO 30

Não julgueis; pedi e a regra de ouro

Décimo dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.

Mt 7.1–12, NAA ⏱ 19 min de leituraSermão do Monte

“Não julgueis, para que não sejais julgados… Por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão e não te importas com a trave que está no teu?… Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á… Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.”

(Mt 7.1–12, NAA)

Antes de ler

Depois de descrever a religião do coração e a intenção pura, Wesley aponta aqui os grandes estorvos dessa santidade — e o primeiro deles é o julgar. Ele analisa com precisão as três formas de julgar pecaminoso (condenar o inocente, exagerar a culpa do culpado, e condenar sem prova suficiente), e recorda a regra prática de Jesus em Mateus 18. Depois trata de dois outros estorvos: dar o santo aos cães (o zelo sem discernimento) e a negligência da oração — com a bela exposição de "pedi, buscai, batei". Fecha com a regra de ouro, que ele mostra ser a soma da Lei e dos Profetas, mas que só se cumpre quando a fé precede: primeiro crer, depois amar.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. O nosso bendito Senhor, tendo agora concluído o seu propósito principal — havendo primeiro exposto a soma da verdadeira religião, cuidadosamente resguardada contra aquelas interpretações dos homens pelas quais tornariam sem efeito a Palavra de Deus, e havendo, em seguida, estabelecido regras acerca da reta intenção que devemos conservar em todas as nossas ações exteriores —, passa agora a apontar os principais estorvos dessa religião, e conclui tudo com uma aplicação apropriada.

2. No capítulo 5, o nosso grande Mestre descreveu plenamente a religião interior nos seus vários ramos. No capítulo 6, mostrou como também todas as nossas ações — mesmo as indiferentes por natureza — podem tornar-se santas, boas e agradáveis a Deus por uma intenção pura e santa. Na primeira parte deste capítulo, ele aponta os mais comuns e mais fatais estorvos dessa santidade; na segunda, exorta-nos, por vários motivos, a romper com todos eles e assegurar o prêmio da nossa soberana vocação.

3. O primeiro estorvo de que ele nos previne é o julgar. “Não julgueis, para que não sejais julgados.” Não julguem os outros, para que não sejam julgados pelo Senhor, para que não tragam vingança sobre a própria cabeça. “Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tratardes, vos tratarão também” — regra clara e equitativa, pela qual Deus lhes permite determinar, vocês mesmos, de que modo ele os tratará no juízo do grande Dia.

4. Não há estação da vida, nem período de tempo, desde a hora do nosso primeiro arrependimento e fé no evangelho até sermos aperfeiçoados no amor, em que esta advertência não seja necessária a todo filho de Deus. Pois nunca faltarão ocasiões de julgar. E as tentações a isso são incontáveis; muitas delas tão habilmente disfarçadas que caímos no pecado antes de suspeitar de qualquer perigo. E são indizíveis os males por isso produzidos — sempre para aquele que julga a outro, ferindo assim a própria alma e expondo-se ao justo juízo de Deus; e frequentemente para os que são julgados, cujas mãos pendem, que são enfraquecidos e estorvados no seu curso, se não totalmente desviados do caminho. Sim, quão frequentemente, quando esta “raiz de amargura brota”, “muitos são por ela contaminados”; e, por causa disso, o próprio caminho da verdade é difamado, e é blasfemado aquele digno nome pelo qual somos chamados!

5. Contudo, não parece que o nosso Senhor destinasse esta advertência apenas, ou principalmente, aos filhos de Deus, mas antes aos filhos do mundo, aos homens que não conhecem a Deus. Estes não podem senão ouvir falar dos que não são do mundo, que seguem a religião acima descrita, que se esforçam por ser humildes, sérios, gentis, misericordiosos e limpos de coração. E por que os que “veem” as suas “boas obras” não “glorificam o Pai que está nos céus”? Que desculpa têm para não trilhar as suas pisadas, para não imitar o seu exemplo? Ora, para arranjar uma desculpa para si mesmos, condenam aqueles que deveriam imitar. Gastam o seu tempo em descobrir os defeitos do próximo, em vez de emendar os seus. Estão tão ocupados com os outros que saem do caminho, que eles mesmos nunca entram nele; ao menos, nunca avançam, nunca vão além de uma pobre e morta forma de piedade sem o poder.

6. É a estes, mais especialmente, que o nosso Senhor diz: “Por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão” — as fraquezas, os enganos, a imprudência dos filhos de Deus — “e não te importas com a trave que está no teu?” Tu não atentas na condenável impenitência, no satânico orgulho, na maldita teimosia, no idólatra amor ao mundo, que estão em ti mesmo, e que fazem de toda a tua vida uma abominação para o Senhor. Acima de tudo, com que preguiçoso descuido e indiferença estás dançando sobre a boca do inferno! E “como”, com que graça, com que decência ou modéstia, “dirás a teu irmão: deixa-me tirar o cisco do teu olho” — o excesso de zelo por Deus, o extremo da abnegação, o desejo de estar dia e noite em oração —, “estando uma trave no teu próprio olho!” Não um cisco, como um destes. “Hipócrita!”, que finges cuidar dos outros e não cuidas da própria alma; que fazes alarde de zelo pela causa de Deus, quando, na verdade, nem o amas nem o temes! “Tira primeiro a trave do teu olho”: lança fora a trave da impenitência! Conhece-te a ti mesmo! Vê e sente-te pecador! Lança fora a trave do orgulho; abomina-te a ti mesmo; abate-te como em pó e cinza! Lança fora a trave da teimosia! Aprende o que isto significa: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo.” Lança fora a trave do amor ao mundo! Não ames o mundo, nem as coisas do mundo. Acima de tudo, lança fora a grande trave, aquele preguiçoso descuido e indiferença! Considera profundamente que “uma só coisa é necessária”. Sabe e sente que és um pobre, vil e culpado verme, tremendo sobre o grande abismo! Que és tu? Um pecador nascido para morrer; uma folha levada pelo vento; um vapor pronto a dissipar-se. Vê isto! “E, então, verás claramente para tirar o cisco do olho do teu irmão.” Então, se tiveres tempo, sobrando das preocupações com a tua própria alma, saberás como corrigir também o teu irmão.

7. Mas qual é propriamente o sentido desta palavra, “Não julgueis”? Que julgar é este que aqui se proíbe? Não é o mesmo que a maledicência, embora frequentemente venha junto com ela. A maledicência é o relatar algo de mau a respeito de uma pessoa ausente; ao passo que o julgar pode referir-se indiferentemente ao ausente ou ao presente. Nem implica necessariamente o falar, mas apenas o pensar mal de outro. Não que todo pensar mal dos outros seja o julgar que o nosso Senhor condena. Se vejo alguém cometer roubo ou homicídio, ou o ouço blasfemar do nome de Deus, não posso deixar de pensar mal do ladrão ou do assassino. Contudo, isto não é julgar mau: não há pecado nisto, nem nada contrário ao terno afeto.

8. O pensar de outro de um modo contrário ao amor é o julgar aqui condenado; e este pode ser de várias espécies. Pois, primeiro, podemos julgar outro culpado quando não o é. Podemos imputar-lhe (ao menos na nossa mente) coisas de que ele não é culpado; palavras que nunca disse, ou ações que nunca praticou. Ou podemos julgar errado o seu modo de agir, quando na realidade não o era. E, mesmo onde nada se possa justamente censurar, seja na coisa em si, seja no modo de fazê-la, podemos supor que a sua intenção não era boa, e assim condená-lo por esse motivo, ao mesmo tempo que aquele que sonda o coração vê a sua simplicidade e sincera piedade.

9. Mas podemos cair no pecado de julgar não só condenando o inocente, mas também, segundo, condenando o culpado a um grau maior do que ele merece. Esta espécie de julgar é igualmente uma ofensa contra a justiça, tanto quanto contra a misericórdia; e, contudo, uma ofensa da qual nada nos pode preservar senão o mais forte e terno afeto. Sem ele, prontamente supomos que aquele reconhecidamente em falta esteja mais em falta do que realmente está. Subestimamos todo bem que nele se acha. Aliás, não somos facilmente induzidos a crer que possa restar algo de bom naquele em quem achamos algo de mau.

10. Tudo isto mostra manifesta falta daquele amor que “não suspeita mal”; que nunca tira uma conclusão injusta ou desamorosa de quaisquer premissas. O amor não infere, do fato de uma pessoa cair uma vez num ato de pecado aberto, que ela costuma fazê-lo, que é habitualmente culpada dele; e, se ela foi habitualmente culpada uma vez, o amor não conclui que ainda o é; muito menos que, se agora é culpada disto, por isso é culpada também de outros pecados. Estes maus raciocínios pertencem todos àquele julgar pecaminoso de que o nosso Senhor aqui nos guarda, e que estamos no mais alto grau interessados em evitar, se amamos, ou a Deus, ou à nossa própria alma.

11. Mas, supondo que não condenemos o inocente, nem o culpado além do que merece, ainda assim podemos não estar de todo livres da cilada; pois há uma terceira espécie de julgar pecaminoso, que é o condenar qualquer pessoa onde não há prova suficiente. E, por mais verdadeiros que sejam os fatos que supomos, isso não nos absolve. Pois eles não deviam ter sido supostos, mas provados; e, até que o fossem, não devíamos ter formado juízo algum. Nem sequer estamos desculpados, ainda que os fatos admitam a prova mais forte, se essa prova não for produzida antes de pronunciarmos a sentença, e comparada com a evidência do outro lado. Nem podemos ser desculpados se alguma vez pronunciamos uma sentença definitiva antes que o acusado tenha falado por si mesmo. Até um judeu poderia ensinar-nos isto, como mera lição de justiça. “Acaso, a nossa lei”, diz Nicodemos, “julga um homem sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele faz?” (Jo 7.51). Sim, um pagão pôde responder, quando o chefe da nação judaica desejava obter sentença contra o seu prisioneiro: “Não é costume dos romanos” julgar “um homem sem que o acusado tenha presentes os seus acusadores e possa defender-se da acusação” (At 25.16).

12. Mas quão raramente deveríamos condenar ou julgar uns aos outros — ou quão depressa esse mal seria remediado — se andássemos por aquela regra clara e expressa que o próprio Senhor nos ensinou: “Se teu irmão pecar contra ti”, ou se ouvires ou creres que pecou, “vai repreendê-lo entre ti e ele só.” Este é o primeiro passo que deves dar. “Mas, se ele não te ouvir, leva ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça.” Este é o segundo passo. “E, se ele não os atender, dize-o à igreja”, seja aos que a superintendem, seja a toda a congregação. Feita a tua parte, não penses mais nisso, mas entrega tudo a Deus.

13. Mas, supondo que, pela graça de Deus, tenhas “tirado a trave do teu próprio olho” e vejas agora “claramente o cisco ou a trave que está no olho do teu irmão”, cuida para não sofreres dano tu mesmo ao tentar ajudá-lo. Ainda assim, “não deis aos cães o que é santo”. Não julgues levianamente que alguém seja desse número; mas, se ficar evidente que merecem esse título, então “não lanceis as vossas pérolas aos porcos”. Guarda-te daquele zelo que não é segundo o conhecimento. Pois este é outro grande estorvo no caminho dos que querem ser “perfeitos como o seu Pai celestial é perfeito”. Os que desejam isto não podem senão desejar que toda a humanidade participe da bênção comum. E, quando nós mesmos participamos pela primeira vez do dom celestial, admiramo-nos de que toda a humanidade não veja as coisas que vemos tão claramente, e não temos dúvida de que abriremos os olhos de todos com quem tivermos trato. Daí queremos atacar, sem demora, todos os que encontramos, constrangendo-os a ver, queiram ou não. E, pelo mau êxito desse zelo intemperante, muitas vezes sofremos na própria alma. Para evitar esse gastar em vão as nossas forças, o nosso Senhor acrescenta esta necessária cautela (necessária a todos, mas especialmente aos que estão agora ardentes no seu primeiro amor): “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se, vos dilacerem.”

14. “Não deis aos cães o que é santo.” Guarda-te de pensar que alguém mereça esse nome enquanto não houver prova plena e incontestável. Mas, quando estiver clara e indisputavelmente provado que são homens sem santidade e maus, não só estranhos, mas inimigos de Deus, de toda justiça e verdadeira santidade — então, “não deis o que é santo”, a coisa santa, enfaticamente assim chamada, a estes. As santas e peculiares doutrinas do evangelho — que estavam “ocultas das eras e gerações” antigas e agora nos são dadas a conhecer só pela revelação de Jesus Cristo — não devem ser prostituídas a esses homens, que nem sabem se há Espírito Santo. Não que os embaixadores de Cristo possam abster-se de anunciá-las na grande congregação, onde alguns destes provavelmente estarão; devemos falar, quer os homens ouçam, quer deixem de ouvir. Mas não é este o caso dos cristãos comuns. Estes não trazem aquele solene ofício, nem estão sob obrigação alguma de impor essas grandes e gloriosas verdades aos que as contradizem e blasfemam. Antes, devem conduzi-los na medida em que possam suportar. Não comeces um diálogo com estes sobre a remissão dos pecados e o dom do Espírito Santo; mas fala com eles à maneira deles e segundo os seus próprios princípios. Com o racional e injusto epicurista, discorre sobre “a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro”. Este é o modo mais provável de fazer Félix tremer (At 24.25). Reserva os assuntos mais altos para homens de mais alta estatura.

15. “Nem lanceis as vossas pérolas aos porcos.” Estejas muito relutante em passar esse juízo sobre qualquer homem. Mas, se o fato é claro e inegável, se os porcos não procuram disfarçar-se, antes se gloriam na sua vergonha, não fazendo pretensão alguma à pureza, nem do coração nem da vida, mas praticando com avidez toda impureza — então “não lanceis” as vossas pérolas diante deles. Não lhes fales dos mistérios do Reino; das coisas que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, e que, por consequência, não podem entrar no coração deles. Não lhes fales das “grandíssimas e preciosas promessas” que Deus nos deu no Filho do seu amor. Que noção podem ter de ser feitos participantes da natureza divina os que nem sequer desejam escapar da corrupção que há no mundo pela cobiça? Tanto sabor têm eles pelas coisas profundas de Deus quanto os porcos têm pelas pérolas — eles, que estão imersos no lodaçal deste mundo, nos prazeres, desejos e cuidados mundanos. Ó, não lances essas pérolas diante destes, “para que não as pisem”! — para que não desprezem por completo o que não podem entender, e falem mal das coisas que não conhecem. Aliás, é provável que este não seja o único inconveniente que se seguiria. Não seria de estranhar se, conforme a sua natureza, “voltando-se, vos dilacerassem”; se vos retribuíssem mal por bem, maldição por bênção, e ódio pela vossa boa vontade. Tal é a inimizade da mente carnal contra Deus e contra todas as coisas de Deus.

16. E, contudo, você não precisa desesperar de todo, mesmo destes que, por ora, “voltando-se, o dilaceram”. Pois, se todos os seus argumentos e persuasões falham, ainda resta outro remédio; e um que frequentemente se acha eficaz quando nenhum outro método serve: a oração. Portanto, o que quer que você deseje ou de que careça, para os outros ou para a própria alma, “pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á”. A negligência disto é um terceiro grande estorvo da santidade. Ainda “não temos, porque não pedimos”. Ó, quão mansos e gentis, quão humildes de coração, quão cheios de amor a Deus e aos homens vocês poderiam estar hoje, se apenas tivessem pedido, se tivessem perseverado na oração! Portanto, agora, ao menos, “pedi, e dar-se-vos-á”. Peçam para experimentar plenamente e praticar perfeitamente todo aquele religião que o nosso Senhor aqui tão belamente descreveu. Ser-lhes-á então dado ser santos como ele é santo, no coração e em todo o procedimento. Busquem, no caminho que ele ordenou — perscrutando as Escrituras, ouvindo a sua palavra, meditando nela, jejuando, participando da Ceia do Senhor —, e certamente acharão: acharão aquela pérola de grande valor, aquela fé que vence o mundo, aquela paz que o mundo não pode dar. Batam; perseverem na oração e em todo outro caminho do Senhor: não desanimem. Prossigam para o alvo; não aceitem recusa; não o deixem ir enquanto ele não os abençoar. E a porta da misericórdia, da santidade, do céu se abrirá para vocês.

17. É em compaixão pela dureza dos nossos corações, tão prontos a descrer da bondade de Deus, que o nosso Senhor se compraz em ampliar este ponto, repetindo e confirmando o que dissera. “Pois todo o que pede”, diz ele, “recebe” — de modo que ninguém precisa ficar aquém da bênção; “e o que busca”, sim, todo o que busca, “acha” o amor e a imagem de Deus; “e, ao que bate”, a todo o que bate, “abrir-se-á” a porta da justiça. De modo que aqui não há lugar para ninguém se desanimar, como se pudesse pedir, buscar ou bater em vão. Apenas lembra-te sempre de orar, buscar e bater, e não desfalecer. E então a promessa permanece firme. É firme como as colunas do céu; sim, mais firme, pois o céu e a terra passarão, mas a sua palavra não passará.

18. Para cortar todo pretexto de incredulidade, o nosso bendito Senhor, nos versículos seguintes, ilustra ainda mais o que dissera, apelando para o que se passa em nosso próprio peito. “Qual dentre vós”, diz ele, “é o homem que, pedindo-lhe pão o filho, lhe dará uma pedra?” Permitirá até o afeto natural que você recuse o pedido razoável de alguém que ama? “Ou, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma cobra?” De sorte que, mesmo do que você sente e faz, pode receber a mais plena certeza: por um lado, de que nenhum mau efeito pode acompanhar o seu pedir; por outro, de que este será acompanhado do bom efeito, o pleno suprimento de todas as suas carências. Pois, “se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus”, que é pura, imisturada e essencial bondade, “dará boas coisas aos que lhas pedirem!” — ou, como se exprime noutra ocasião, “dará o Espírito Santo aos que lho pedirem”. Nele estão incluídas todas as boas coisas: toda a sabedoria, paz, alegria, amor; todos os tesouros da santidade e da felicidade.

19. Mas, para que a sua oração tenha todo o seu peso diante de Deus, veja que esteja em amor com todos os homens; pois, do contrário, ela é mais capaz de trazer maldição do que bênção sobre a sua própria cabeça; nem você pode esperar receber bênção alguma de Deus enquanto não tiver amor ao próximo. Portanto, remova este estorvo sem demora. Firme o seu amor uns para com os outros, e para com todos os homens. E ame-os, não só de palavra, mas de fato e de verdade. “Portanto, tudo quanto quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.”

20. Esta é aquela lei régia, aquela regra de ouro de misericórdia e de justiça, que até o imperador pagão mandou escrever sobre a porta do seu palácio; regra que muitos creem estar naturalmente gravada na mente de todo aquele que vem ao mundo. E isto ao menos é certo: que ela se recomenda, assim que ouvida, à consciência e ao entendimento de todo homem, a tal ponto que ninguém pode ofendê-la conscientemente sem carregar a própria condenação no peito.

21. “Esta é a Lei e os Profetas.” Tudo o que está escrito naquela lei que Deus outrora revelou à humanidade, e todos os preceitos que Deus deu pelos seus santos profetas, estão resumidos nestas poucas palavras, estão contidos nesta breve orientação. E ela, bem entendida, abrange toda aquela religião que o nosso Senhor veio estabelecer na terra. Pode ser entendida em sentido negativo ou positivo. No sentido negativo, o significado é: “Tudo o que não quereis que os homens vos façam, não o façais a eles.” Eis uma regra clara, sempre à mão. Em todos os casos relativos ao próximo, faça do caso dele o seu próprio. Suponha as circunstâncias trocadas, e você exatamente como ele agora está. E então cuide de não nutrir disposição ou pensamento algum, de não deixar sair dos seus lábios palavra alguma, de não dar passo algum que você teria condenado nele, em tal troca de circunstâncias. No sentido direto e positivo, o significado é: “Tudo o que você razoavelmente pudesse desejar dele, supondo-se em suas circunstâncias, isso faça, até o limite do seu poder, a cada filho de homem.”

22. Para aplicar isto em um ou dois casos óbvios: é claro à consciência de todo homem que não quereríamos que os outros nos julgassem, que, sem causa ou levianamente, pensassem mal de nós; muito menos quereríamos que alguém falasse mal de nós, que publicasse as nossas faltas ou fraquezas reais. Aplique isto a si mesmo. Não faça a outro o que não quereria que ele lhe fizesse; e você nunca mais julgará o próximo, nunca, sem causa ou levianamente, pensará mal de alguém; muito menos falará mal; nunca mencionará sequer a falta real de uma pessoa ausente, a não ser na medida em que estiver convencido de que é absolutamente necessário para o bem de outras almas. De novo: quereríamos que todos os homens nos amassem e estimassem, e se comportassem conosco segundo a justiça, a misericórdia e a verdade. Então, andemos pela mesma regra: amemos e honremos a todos; que a justiça, a misericórdia e a verdade governem todas as nossas mentes e ações; que os nossos supérfluos cedam às conveniências do próximo (e quem, então, terá supérfluos que restem?), as nossas conveniências às necessidades do próximo, e as nossas necessidades às suas urgências extremas.

23. Esta é a moral pura e genuína. Faze isto, e viverás. “A todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles”, pois são “o Israel de Deus”. Mas note-se: ninguém pode andar por esta regra (nem jamais o fez, desde o princípio do mundo), ninguém pode amar o próximo como a si mesmo, se primeiro não amar a Deus. E ninguém pode amar a Deus se não crer em Cristo, se não tiver a redenção pelo seu sangue e o Espírito de Deus testemunhando com o seu espírito que é filho de Deus. A fé, portanto, é ainda a raiz de tudo, tanto da salvação presente quanto da futura. Ainda devemos dizer a todo pecador: “Creia no Senhor Jesus Cristo, e você será salvo.” Você será salvo agora, para que seja salvo para sempre; salvo na terra, para que seja salvo no céu. Creia nele, e a sua fé atuará pelo amor. Você amará o Senhor, seu Deus, porque ele o amou; amará o próximo como a si mesmo; e então será a sua glória e alegria exercer e aumentar esse amor — não apenas abstendo-se do que lhe é contrário, de todo pensamento, palavra e ação desamorosa, mas mostrando a cada homem toda aquela bondade que você quereria que ele lhe mostrasse.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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