SERMÃO 50
O uso do dinheiro
Talvez o mais prático de todos os sermões de Wesley — e o mais citado sobre dinheiro.
“Eu lhes digo: Façam amigos para si mesmos por meio das riquezas da injustiça, para que, quando estas faltarem, vocês sejam recebidos nas moradas eternas.”
(Lc 16.9, NAA)Antes de ler
Este é, provavelmente, o mais conhecido dos sermões de Wesley sobre bens materiais, e o berço da máxima que ficou famosa: ganhe tudo o que puder, poupe tudo o que puder, dê tudo o que puder. Note como Wesley trata o dinheiro sem falso pudor: não é o dinheiro a raiz de todos os males, mas o amor a ele; a moeda em si é neutra, e nas mãos de um filho de Deus pode virar pão para o faminto, roupa para o nu, remédio para o doente. As três regras precisam ser lidas juntas, na ordem, e nenhuma delas sozinha. "Ganhe" e "poupe" sem "dê" viram avareza — e Wesley é implacável: entesourar é o mesmo que jogar o dinheiro no mar. Chamo a atenção para duas passagens de rara ousadia pastoral: a denúncia dos que enriquecem vendendo bebida destilada e dos que lucram prolongando a doença dos pacientes; e a pergunta desconcertante sobre a herança que deixamos aos filhos. Ao final, as quatro perguntas que Wesley propõe para examinar cada gasto continuam sendo um dos melhores exames de consciência já escritos sobre o assunto.
— Bispo Ildo Mello
1. Depois de concluir a bela parábola do filho pródigo — que dirigira em especial aos que murmuravam por ele receber publicanos e pecadores —, o nosso Senhor acrescenta outra narrativa, de tipo diferente, dirigida antes aos filhos de Deus. “Disse ele aos seus discípulos” (e não tanto aos escribas e fariseus com quem falava antes): “Havia um homem rico que tinha um administrador; e este lhe foi denunciado como quem estava dissipando os seus bens. Então o rico o chamou e lhe disse: Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, porque já não podes continuar como administrador” (Lc 16.1–2). Depois de contar as providências que o mau administrador tomou para se prevenir contra o dia da necessidade, o Salvador acrescenta: “O senhor elogiou o administrador desonesto” — isto é, apenas neste ponto: por ter agido com precaução em tempo hábil. E junta esta reflexão de peso: “Os filhos deste mundo são mais hábeis, com os da sua espécie, do que os filhos da luz” (Lc 16.8). Os que não buscam outra porção senão este mundo “são mais hábeis” — não em absoluto, pois todos, sem exceção, são os maiores tolos e os mais desvairados que há debaixo do céu; mas “com os da sua espécie”, no seu próprio gênero: são mais consequentes consigo mesmos, mais fiéis aos princípios que declaram, mais firmes na busca do seu fim — “do que os filhos da luz”, do que aqueles que veem “a luz da glória de Deus na face de Jesus Cristo”. Seguem-se então as palavras acima citadas: “E eu” — o Filho unigênito de Deus, o Criador, Senhor e Possuidor do céu, da terra e de tudo o que neles há; o Juiz de todos, a quem vocês hão de “prestar contas da sua administração”, quando não mais puderem ser administradores — “eu lhes digo: aprendam, também neste ponto, com o administrador desonesto: façam amigos para si mesmos”, por precaução sábia e oportuna, “por meio das riquezas da injustiça”. “Mamom” significa riqueza ou dinheiro. É chamado “riquezas da injustiça” pela maneira injusta como muitas vezes é obtido, e porque até o que se obtém honestamente costuma ser empregado injustamente. “Façam amigos” por meio dele, fazendo todo o bem possível, em especial aos filhos de Deus, “para que, quando estas faltarem” — quando vocês voltarem ao pó, quando não mais tiverem lugar debaixo do sol —, aqueles que partiram antes “os recebam”, deem-lhes boas-vindas, nas “moradas eternas”.
2. Um excelente ramo da sabedoria cristã é aqui ensinado pelo nosso Senhor a todos os seus seguidores: o uso correto do dinheiro. É assunto de que os homens do mundo falam largamente, ao seu modo; mas que os escolhidos por Deus não consideram o suficiente. Estes, em geral, não ponderam, como a importância do tema exige, o uso deste talento excelente. Nem entendem como empregá-lo com o maior proveito. A introdução do dinheiro no mundo é um exemplo admirável da sábia e bondosa providência de Deus. É verdade que poetas, oradores e filósofos, em quase todas as épocas e nações, costumaram atacá-lo como o grande corruptor do mundo, a ruína da virtude, a peste da sociedade humana. Daí ouvir-se com tanta frequência que o ferro é nocivo, e mais nocivo que o ferro é o ouro; daí a lamentação de que se cava a terra em busca de riquezas, incentivo de todos os males; e um escritor célebre chegou a exortar gravemente os seus concidadãos a que, para banir de uma vez todo o vício, atirassem “todo o seu dinheiro ao mar”. Mas não passa tudo isso de retórica vazia? Há aí alguma razão sólida? De modo nenhum. Por mais corrompido que o mundo seja, terão o ouro ou a prata alguma culpa? “O amor ao dinheiro”, bem sabemos, “é raiz de todos os males”; mas não a coisa em si. A falha não está no dinheiro, mas nos que o usam. Pode ser mal usado — e o que não pode? Mas pode igualmente ser bem usado: presta-se tanto aos melhores quanto aos piores fins. É de valor inestimável para toda nação civilizada, em todos os afazeres comuns da vida: é o mais prático dos instrumentos para conduzir todo tipo de negócio e (se o usarmos segundo a sabedoria cristã) para fazer todo tipo de bem. É certo que, se o homem estivesse em estado de inocência, ou se todos estivessem “cheios do Espírito Santo”, de modo que, como a Igreja recém-nascida em Jerusalém, “ninguém considerasse sua propriedade coisa alguma que possuísse”, mas “se distribuísse a cada um conforme a sua necessidade”, o uso do dinheiro seria dispensável — como não podemos conceber que exista algo assim entre os habitantes do céu. Mas, no estado presente da humanidade, ele é um excelente dom de Deus, que serve aos mais nobres fins. Nas mãos dos seus filhos, é alimento para o faminto, bebida para o sedento, roupa para o nu; dá ao viajante e ao estrangeiro onde reclinar a cabeça. Por meio dele podemos ser marido para a viúva e pai para o órfão; podemos ser defesa para o oprimido, remédio para o doente, alívio para o que sofre; podemos ser olhos para o cego e pés para o coxo — sim, quem levanta o outro das portas da morte!
3. É, portanto, do mais alto interesse que todos os que temem a Deus saibam como empregar este valioso talento; que sejam instruídos em como fazê-lo servir a esses fins gloriosos, e no mais alto grau. E talvez todas as instruções necessárias para isso possam reduzir-se a três regras simples, cuja exata observância nos torna administradores fiéis das “riquezas da injustiça”.
I. Ganhe tudo o que puder
1. A primeira delas é (quem tem ouvidos, entenda!): ganhe tudo o que puder. Aqui podemos falar como os filhos do mundo; encontramo-nos com eles no seu próprio terreno. E é nosso estrito dever fazê-lo: devemos ganhar tudo o que pudermos ganhar, sem comprar o ouro caro demais, sem pagar por ele mais do que vale. Mas isto, com certeza, não devemos fazer: não devemos ganhar dinheiro à custa da vida, nem (o que dá no mesmo) à custa da saúde. Portanto, nenhum ganho nos deve levar a começar ou a continuar num trabalho de tal natureza, ou que exija esforço tão árduo ou tão prolongado, que arruíne a nossa constituição. Nem devemos começar ou continuar num ofício que necessariamente nos prive das horas devidas de alimento e sono, na medida em que a nossa natureza os requer. Há aqui uma diferença importante. Alguns trabalhos são absoluta e totalmente insalubres — como os que implicam lidar muito com arsênico ou outros minerais igualmente nocivos, ou respirar um ar contaminado pelos vapores do chumbo derretido, que acabam por destruir a mais firme constituição. Outros não são insalubres em si, mas apenas para pessoas de compleição fraca — como os que exigem muitas horas de escrita, sobretudo se a pessoa escreve sentada, curvada sobre o estômago, ou permanece muito tempo numa postura incômoda. Mas a tudo o que a razão ou a experiência mostrem ser destruidor da saúde ou da força não devemos nos submeter, pois “a vida vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as roupas”. E, se já estamos empenhados num trabalho assim, devemos trocá-lo o quanto antes por algum que, ainda que diminua o ganho, não diminua a saúde.
2. Em segundo lugar, devemos ganhar tudo o que pudermos sem ferir a mente, tampouco o corpo. Pois nem a esta podemos ferir. Devemos preservar, a todo custo, o espírito de uma mente sadia. Por isso não podemos entrar ou permanecer em nenhum ofício pecaminoso, nenhum que seja contrário à lei de Deus ou do nosso país. Tais são todos os que necessariamente implicam roubar ou defraudar o Estado dos seus impostos legítimos — pois é ao menos tão pecaminoso defraudar o Estado do que lhe é devido quanto roubar os nossos concidadãos. Há outros negócios que, ainda que inocentes em si mesmos, não podem hoje ser exercidos com inocência: os que não garantem sustento decente sem trapaça, mentira ou submissão a algum costume incompatível com uma boa consciência. Estes também devem ser evitados de modo sagrado, qualquer que seja o ganho que ofereçam — pois, para ganhar dinheiro, não devemos perder a alma. Há ainda outros que muitos exercem com perfeita inocência, sem ferir corpo nem mente; e, no entanto, talvez você não possa: ou eles o enredam numa companhia que destruiria a sua alma, e a experiência repetida mostra que você não consegue separar uma coisa da outra; ou há uma peculiaridade na sua constituição de alma (como há na constituição física de muitos) que torna mortal para você um trabalho que outro pode seguir com segurança. Assim, estou convencido, por muitas experiências, de que eu não poderia estudar matemática, aritmética ou álgebra a qualquer grau de perfeição sem me tornar deísta, senão ateu; e, no entanto, outros podem estudá-las a vida inteira sem sofrer inconveniente algum. Ninguém, portanto, pode decidir aqui por outro; cada um deve julgar por si mesmo e abster-se de tudo o que, no seu caso particular, achar nocivo à sua alma.
3. Em terceiro lugar, devemos ganhar tudo o que pudermos sem ferir o próximo. E isto não podemos fazer, se amamos o próximo como a nós mesmos. Não podemos, se amamos a cada um como a nós mesmos, prejudicar ninguém nos seus bens. Não podemos devorar o rendimento das suas terras — e talvez as próprias terras e casas — por meio do jogo, de cobranças abusivas (seja de médico, de advogado ou de quem for) ou exigindo juros que até as leis do nosso país proíbem. Com isso fica excluído todo o penhor usurário: pois, qualquer que seja o bem que dele se possa tirar, todo homem sem preconceito vê, com pesar, que o mal supera de longe. E, ainda que assim não fosse, não nos é permitido “praticar o mal para que venha o bem”. Não podemos, sem faltar ao amor fraterno, vender as nossas mercadorias abaixo do preço de mercado; não podemos tramar a ruína do negócio alheio para promover o nosso; muito menos aliciar ou receber os empregados e operários de que o outro precisa. Ninguém pode enriquecer engolindo os bens do próximo sem engolir também a condenação do inferno!
4. Nem podemos ganhar ferindo o próximo no corpo. Portanto, não podemos vender nada que tenda a prejudicar a saúde. Tal é, de modo eminente, todo aquele fogo líquido comumente chamado de aguardente ou bebida destilada. É verdade que essas bebidas podem ter lugar na medicina; podem ser úteis em certos distúrbios do corpo — ainda que raramente houvesse ocasião para elas, não fosse a inépcia de quem trata. Por isso, os que as preparam e vendem apenas para esse fim podem manter a consciência limpa. Mas quem são eles? Você conhece dez desses destiladores no país? Então, ficam desculpados. Mas todos os que as vendem do modo comum, a qualquer que as compre, são envenenadores em massa. Matam os seus semelhantes por atacado, e o seu olho não tem dó nem poupa. Empurram-nos para o inferno como ovelhas. E qual é o seu ganho? Não é o sangue desses homens? Quem, então, invejaria as suas grandes propriedades e os seus palácios suntuosos? Uma maldição está no meio deles: a maldição de Deus se agarra às pedras, à madeira, aos móveis das suas casas; a maldição de Deus está nos seus jardins, nas suas alamedas, nos seus bosques. Sangue, há sangue ali: o alicerce, o piso, as paredes, o teto estão manchados de sangue! E você, ó homem de sangue, ainda que “vestido de púrpura e de linho finíssimo, vivendo todos os dias em luxo”, pode esperar transmitir esses seus campos de sangue à terceira geração? Não; pois há um Deus no céu, e por isso o seu nome logo será desarraigado. Como aqueles que você destruiu, corpo e alma, “a sua memória perecerá com você”.
5. E não serão participantes da mesma culpa, embora em grau menor, os cirurgiões, farmacêuticos ou médicos que brincam com a vida ou a saúde dos homens para aumentar o próprio ganho? Os que de propósito prolongam a dor ou a doença que poderiam remover depressa? Os que arrastam a cura do corpo do paciente a fim de saquear-lhe os bens? Pode alguém estar limpo diante de Deus se não encurta cada enfermidade “tanto quanto pode” e não remove toda dor e doença “o quanto antes pode”? Não pode; pois nada é mais claro do que isto: um homem assim não “ama o próximo como a si mesmo”, não “faz aos outros o que gostaria que lhe fizessem”.
6. Caro é o ganho comprado a esse preço. E igualmente caro é tudo o que se obtém ferindo o próximo na alma — servindo, direta ou indiretamente, à sua impureza ou intemperança, o que certamente ninguém pode fazer se tem algum temor de Deus ou algum desejo real de agradá-lo. É assunto que diz respeito de perto a todos os que têm a ver com bares, casas de comida e bebida, casas de espetáculo, teatros ou quaisquer outros lugares de diversão pública e da moda. Se essas coisas aproveitam à alma dos homens, você está limpo; o seu ofício é bom e o seu ganho, inocente. Mas, se são pecaminosas em si mesmas, ou portas naturais para pecados de vários tipos, então é de recear que você tenha uma triste conta a prestar. Ah, cuidado, para que Deus não diga naquele dia: “Estes pereceram na sua iniquidade, mas o sangue deles reclamo das tuas mãos!”
7. Observadas essas cautelas e restrições, é estrito dever de todos os que se ocupam de negócios seguir aquela primeira e grande regra da sabedoria cristã a respeito do dinheiro: ganhe tudo o que puder. Ganhe tudo o que puder por meio de trabalho honesto. Use toda diligência possível na sua ocupação. Não perca tempo. Se você entende a si mesmo e a sua relação com Deus e com os homens, sabe que não tem tempo de sobra. Se entende como deve a sua vocação particular, não terá tempo ocioso nas mãos. Todo trabalho oferece ocupação bastante para cada dia e cada hora. Aquilo em que você foi colocado, se o segue a sério, não lhe deixará lazer para diversões tolas e sem proveito. Você tem sempre algo melhor a fazer, algo que lhe traga proveito, maior ou menor. E “tudo o que a tua mão tiver para fazer, faze-o com toda a tua força”. Faça-o o quanto antes: sem demora! Sem adiar de dia para dia, ou de hora para hora! Nunca deixe para amanhã o que pode fazer hoje. E faça-o o melhor possível. Não durma nem boceje sobre o trabalho: ponha nele toda a sua força. Não poupe esforço. Que nada seja feito pela metade, ou de modo leviano e descuidado. Que nada no seu negócio fique por fazer, se pode ser feito com trabalho e paciência.
8. Ganhe tudo o que puder, usando o bom senso e todo o entendimento que Deus lhe deu. É espantoso notar como poucos fazem isto — como os homens correm no mesmo trilho embotado dos seus antepassados. Mas, façam o que fizerem os que não conhecem a Deus, isto não é regra para você. É vergonha para um cristão não superá-los em tudo o que empreende. Você deve estar continuamente aprendendo — da experiência dos outros ou da sua própria, da leitura e da reflexão — a fazer tudo o que tem para fazer melhor hoje do que fez ontem. E cuide de praticar o que aprende, para tirar o melhor de tudo o que está em suas mãos.
II. Poupe tudo o que puder
1. Tendo ganho tudo o que pode, por sabedoria honesta e diligência incansável, a segunda regra da prudência cristã é: poupe tudo o que puder. Não atire o precioso talento ao mar; deixe essa insensatez aos filósofos pagãos. Não o desperdice em gastos inúteis, o que é exatamente o mesmo que atirá-lo ao mar. Não gaste parte alguma dele só para satisfazer o desejo da carne, o desejo dos olhos ou a soberba da vida.
2. Não desperdice parte alguma de talento tão precioso apenas para satisfazer os desejos da carne, buscando os prazeres dos sentidos de qualquer espécie — em particular, ampliando o prazer do paladar. Não digo apenas: evite a gula e a embriaguez; um pagão honesto as condenaria. Mas há uma sensualidade regular e respeitável, um requinte elegante à mesa, que não desarranja imediatamente o estômago, nem prejudica (ao menos de modo perceptível) o entendimento. E, no entanto, não pode ser mantida sem despesa considerável. Corte toda essa despesa! Despreze a iguaria e a variedade, e contente-se com o que a natureza simples requer.
3. Não desperdice parte alguma de talento tão precioso apenas para satisfazer o desejo dos olhos — com roupas supérfluas ou caras, ou com adornos desnecessários. Não gaste nada em enfeitar minuciosamente a sua casa; em móveis supérfluos ou dispendiosos; em quadros caros, pinturas, dourados, livros de luxo; em jardins mais elegantes do que úteis. Que o façam os seus vizinhos, que não conhecem coisa melhor: “deixe os mortos sepultar os seus mortos”. Mas “que te importa isso?”, diz o nosso Senhor; “segue-me tu”. Você está disposto? Então é capaz de fazê-lo.
4. Nada gaste para satisfazer a soberba da vida, para ganhar a admiração ou o louvor dos homens. Esse motivo de despesa costuma vir entrelaçado com um dos dois anteriores, ou com ambos. Os homens são perdulários no comer, no vestir ou na mobília não só para agradar ao apetite, ou para satisfazer o olho e a imaginação, mas também a vaidade. “Enquanto fizeres bem a ti mesmo, os homens te louvarão.” Enquanto você estiver “vestido de púrpura e de linho finíssimo, vivendo todos os dias em luxo”, muitos, sem dúvida, aplaudirão o seu bom gosto, a sua generosidade e a sua hospitalidade. Mas não compre tão caro o aplauso deles. Contente-se antes com a honra que vem de Deus.
5. Quem gastaria qualquer coisa para satisfazer esses desejos, se considerasse que satisfazê-los é aumentá-los? Nada há mais certo do que isto: a experiência diária mostra que, quanto mais são satisfeitos, mais crescem. Sempre que você gasta algo para agradar ao paladar ou aos outros sentidos, paga esse tanto por mais sensualidade. Quando gasta dinheiro para agradar ao olho, dá esse tanto por um aumento de curiosidade, por um apego mais forte a esses prazeres que perecem no próprio uso. Enquanto compra algo que os homens costumam aplaudir, está comprando mais vaidade. Não tinha você já vaidade, sensualidade e curiosidade suficientes? Havia necessidade de acréscimo? E ainda paga por ele? Que espécie de sabedoria é essa? Não seria menos nociva a tolice de literalmente atirar o seu dinheiro ao mar?
6. E por que jogaria fora dinheiro com os seus filhos, tanto quanto consigo mesmo, em comida delicada, em roupas vistosas ou caras, em supérfluos de toda espécie? Por que compraria para eles mais orgulho ou desejo, mais vaidade, mais anseios tolos e nocivos? Eles não precisam de mais; já têm o bastante; a natureza fez ampla provisão para eles. Por que se poria a gastar ainda mais para lhes aumentar as tentações e os laços, e traspassá-los com mais tristezas?
7. Não deixe para eles o que hão de esbanjar. Se você tem boa razão para crer que desperdiçariam o que agora está em suas mãos, satisfazendo — e com isso aumentando — o desejo da carne, o desejo dos olhos ou a soberba da vida, com perigo da alma deles e da sua, não arme essas ciladas no caminho deles. Não ofereça os seus filhos ou filhas a Belial, tampouco a Moloque. Tenha piedade deles e afaste do seu caminho aquilo que você facilmente prevê que lhes aumentaria os pecados e, por conseguinte, os afundaria mais na perdição eterna! Que espantosa é, então, a cegueira dos pais que pensam nunca poder deixar bastante aos filhos! Como assim? Não lhes basta deixar flechas, tições e morte? Não lhes basta de desejos tolos e nocivos? Não lhes basta de orgulho, cobiça, ambição e vaidade? Pobre insensato! Você teme onde não há o que temer. Por certo, tanto você quanto eles, quando levantarem os olhos no tormento, terão o bastante “do verme que não morre” e “do fogo que nunca se apaga”.
8. “Mas o que você faria, se estivesse no meu lugar? Se tivesse uma fortuna considerável para deixar?” Quer eu o fizesse ou não, sei o que devo fazer; e isso não admite dúvida razoável. Se eu tivesse um filho, mais velho ou mais novo, que conhecesse o valor do dinheiro; um que eu cresse que o poria no seu devido uso, julgaria meu dever absoluto e indispensável deixar-lhe o grosso da fortuna, e aos demais apenas o quanto lhes permitisse viver como estavam acostumados. “Mas e se todos os seus filhos fossem igualmente ignorantes do verdadeiro uso do dinheiro?” Então eu deveria (palavra dura! quem pode ouvi-la?) dar a cada um o que o mantivesse acima da necessidade e empregar todo o resto do modo que eu julgasse mais para a glória de Deus.
III. Dê tudo o que puder
1. Mas que ninguém imagine ter feito alguma coisa por chegar apenas até aqui, por “ganhar e poupar tudo o que pode”, se parasse neste ponto. Tudo isso é nada, se não for adiante, se não apontar tudo para um fim mais alto. Nem, a rigor, se pode dizer que alguém poupa alguma coisa, se apenas a entesoura. É o mesmo atirar o dinheiro ao mar ou enterrá-lo na terra; e é o mesmo enterrá-lo na terra ou guardá-lo no cofre, ou no banco. Não usar é, de fato, jogar fora. Se, portanto, você quer de verdade “fazer amigos por meio das riquezas da injustiça”, acrescente a terceira regra às duas anteriores. Tendo, primeiro, ganho tudo o que pode, e, segundo, poupado tudo o que pode, então dê tudo o que puder.
2. Para ver o fundamento e a razão disto, considere: quando o Possuidor do céu e da terra o trouxe à existência e o pôs neste mundo, colocou-o aqui não como proprietário, mas como administrador. Como tal, confiou-lhe, por um tempo, bens de vários tipos; mas a propriedade destes continua sendo só dele, e não pode ser transferida. Assim como você mesmo não pertence a si, mas a ele, assim é também tudo o que você desfruta. Tal é a sua alma, tal é o seu corpo: não seus, mas de Deus. E assim é, em particular, o que você possui. E ele lhe disse, nos termos mais claros e expressos, como o deve empregar por ele, de maneira que tudo seja um sacrifício santo, aceitável por meio de Cristo Jesus. E esse serviço leve e fácil ele prometeu recompensar com um eterno peso de glória.
3. As orientações que Deus nos deu quanto ao uso dos nossos bens materiais podem resumir-se nos seguintes pontos. Se você deseja ser um administrador fiel e prudente, daquela porção dos bens do seu Senhor que ele por ora depositou nas suas mãos — mas com o direito de retomá-la quando lhe aprouver —, primeiro, providencie o necessário para si mesmo: comida para comer, roupa para vestir, tudo o que a natureza moderadamente requer para conservar o corpo em saúde e força. Segundo, providencie o mesmo para a sua esposa, os seus filhos, os seus empregados, ou quaisquer outros que pertençam à sua casa. Se, feito isso, sobrar algo, então “faça o bem aos da família da fé”. Se ainda sobrar, “enquanto tiver oportunidade, faça o bem a todos”. Fazendo assim, você dá tudo o que pode; sim, num sentido verdadeiro, tudo o que tem — pois tudo o que se gasta desse modo é, na verdade, dado a Deus. Você “dá a Deus o que é de Deus” não só pelo que reparte com os pobres, mas também pelo que gasta provendo o necessário para si e para a sua casa.
4. Se, então, em algum momento surgir dúvida na sua mente quanto ao que vai gastar, consigo ou com parte da sua família, você tem um modo fácil de removê-la. Pergunte a si mesmo, com calma e seriedade: “(1) Gastando isto, estou agindo de acordo com o meu caráter? Estou agindo aqui não como proprietário, mas como administrador dos bens do meu Senhor? (2) Faço isto em obediência à sua Palavra? Em que Escritura ele me manda fazê-lo? (3) Posso oferecer esta ação, esta despesa, como sacrifício a Deus por meio de Jesus Cristo? (4) Tenho razão para crer que, por esta mesma obra, terei recompensa na ressurreição dos justos?” Raramente você precisará de mais para dissipar qualquer dúvida que surja a esse respeito; por essa quádrupla consideração receberá luz clara sobre o caminho a seguir.
5. Se ainda restar dúvida, você pode examinar-se mais a fundo pela oração, seguindo esses mesmos pontos. Veja se pode dizer àquele que sonda os corações, sem que a sua consciência o condene: “Senhor, tu vês que vou gastar esta quantia com este alimento, esta roupa, este móvel. E tu sabes que ajo aqui com olhos simples, como administrador dos teus bens, gastando esta porção deles assim, em conformidade com o propósito que tinhas ao confiá-los a mim. Tu sabes que faço isto em obediência a ti, como ordenas, e porque o ordenas. Seja isto, eu te rogo, um sacrifício santo, aceitável por meio de Jesus Cristo! E dá-me em mim mesmo o testemunho de que, por esta obra de amor, terei recompensa quando galardoares cada um segundo as suas obras.” Ora, se a sua consciência lhe der testemunho, no Espírito Santo, de que essa oração é agradável a Deus, então você não tem razão para duvidar de que a despesa é reta e boa, e de tal ordem que jamais o envergonhará.
6. Você vê, então, o que é “fazer amigos por meio das riquezas da injustiça”, e por que meios pode conseguir “que, quando estas faltarem, o recebam nas moradas eternas”. Vê a natureza e o alcance da verdadeira prudência cristã, no que toca ao uso daquele grande talento, o dinheiro. Ganhe tudo o que puder, sem ferir a si mesmo nem ao próximo, na alma ou no corpo, aplicando-se a isso com diligência ininterrupta e com todo o entendimento que Deus lhe deu; poupe tudo o que puder, cortando toda despesa que sirva apenas para satisfazer o desejo tolo — seja o desejo da carne, o desejo dos olhos ou a soberba da vida —, sem nada desperdiçar, em vida ou na morte, com pecado ou tolice, para si ou para os filhos; e então dê tudo o que puder, ou, em outras palavras, dê a Deus tudo o que tem. Não se limite, como um judeu e não como um cristão, a esta ou àquela proporção. “Dê a Deus” não a décima, não a terça, não a metade, mas tudo o que é de Deus, seja mais, seja menos — empregando tudo em si, na sua casa, na família da fé e em toda a humanidade, de modo que possa prestar boa conta da sua administração, quando não mais puder ser administrador; do modo que os oráculos de Deus dirigem, por preceitos gerais e particulares; de modo que tudo o que você fizer seja “um sacrifício de aroma suave a Deus”, e que cada ato seja recompensado naquele dia em que o Senhor vier com todos os seus santos.
7. Irmãos, poderemos ser administradores sábios ou fiéis, se não manejarmos assim os bens do nosso Senhor? Não poderemos, como testemunham não só os oráculos de Deus, mas a nossa própria consciência. Então por que hesitar? Por que consultar por mais tempo a carne e o sangue, ou os homens do mundo? O nosso reino, a nossa sabedoria, não é deste mundo: o costume pagão nada é para nós. Não seguimos homem algum além do ponto em que eles seguem a Cristo. Ouçam-no. Sim, hoje, enquanto se chama hoje, ouçam e obedeçam à sua voz! Nesta hora, e a partir desta hora, façam a sua vontade; cumpram a sua palavra, nisto e em tudo! Eu lhes rogo, em nome do Senhor Jesus, vivam à altura da dignidade da sua vocação! Chega de preguiça! Tudo o que a sua mão tiver para fazer, façam com toda a sua força! Chega de desperdício! Cortem toda despesa que a moda, o capricho ou a carne e o sangue exigem! Chega de avareza! Empreguem tudo o que Deus lhes confiou fazendo o bem — todo o bem possível, de todo modo e em todo grau — à família da fé e a todos os homens! Não é pequena parte da “sabedoria dos justos”. Deem tudo o que têm, assim como tudo o que são, em sacrifício espiritual àquele que não lhes negou o seu Filho, o seu único Filho — “acumulando para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para alcançarem a verdadeira vida!”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.