SERMÃO 51
O bom mordomo
O par natural do sermão anterior: somos administradores, não proprietários.
“Preste contas da sua administração, porque você já não pode ser administrador.”
(Lc 16.2, NAA)Antes de ler
Se o sermão anterior tratou do uso do dinheiro, este vai à raiz: quem somos nós diante do que temos? A resposta de Wesley é uma só palavra — mordomo, administrador. Não donos de coisa alguma, mas depositários de tudo: da alma, do corpo, da fala, das mãos, dos bens, do tempo e, acima de tudo, da graça. Repare como Wesley amplia o conceito muito além do bolso: até os nossos pensamentos, diz ele, não são propriamente nossos. A parte central e mais solene é a cena do juízo, em que o Senhor pergunta, um por um, como empregamos cada talento que nos confiou — um exame de consciência devastador e libertador ao mesmo tempo. Como este assunto toca o juízo final, registro que traduzo Wesley fielmente; a sua ênfase recai sobre a responsabilidade presente, não sobre especulações. Guarde a conclusão: não há obra de supererrogação, não há mérito extra a acumular — tudo o que temos já é de Deus, e devolvê-lo por inteiro é apenas fidelidade. Este sermão foi pregado em Edimburgo, em 1768.
— Bispo Ildo Mello
1. A relação que o homem tem com Deus, a criatura com o seu Criador, é-nos apresentada nos oráculos de Deus sob várias imagens. Considerado como pecador, criatura decaída, ele é ali representado como devedor do seu Criador. É também com frequência representado como servo — o que, de fato, lhe é essencial como criatura; tanto que este título é dado ao próprio Filho de Deus quando, no seu estado de humilhação, “assumiu a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens”.
2. Mas nenhuma imagem convém tão exatamente ao estado presente do homem quanto a de administrador. O nosso bendito Senhor com frequência o representa assim, e há nisso uma propriedade singular. É só num aspecto particular — como pecador — que ele é chamado devedor; e, quando é chamado servo, o título é geral e indeterminado. Mas o administrador é um servo de tipo particular, tal como o homem o é em todos os aspectos. Este título expressa com exatidão a sua situação no mundo presente: especifica que espécie de servo ele é de Deus, e que espécie de serviço o seu Mestre divino espera dele. Vale a pena, então, considerar bem este ponto e tirar dele todo o proveito. Para isso, perguntemos, primeiro, em que sentido somos agora administradores de Deus. Observemos, segundo, que, quando ele reclamar de nós a nossa alma, “já não poderemos ser administradores”. Restará então, em terceiro lugar, observar como havemos de “prestar contas da nossa administração”.
I. Em que sentido somos administradores de Deus
1. Estamos, agora, em dívida com ele por tudo o que temos. Mas, embora o devedor seja obrigado a devolver o que recebeu, até que chegue o tempo do pagamento ele fica livre para usar o que tem como bem entender. Não é assim com o administrador: ele não tem liberdade de usar o que lhe foi depositado como bem entende, mas como o seu senhor determina. Não tem direito de dispor de nada do que está em suas mãos, a não ser segundo a vontade do seu senhor. Pois ele não é proprietário de nenhuma dessas coisas; apenas lhe foram confiadas por outro, e confiadas sob esta condição expressa: que ele disponha de tudo conforme o seu senhor ordena. Ora, este é exatamente o caso de todo homem em relação a Deus. Não temos liberdade de usar o que ele depositou nas nossas mãos como bem entendemos, mas como quer aquele que é o único possuidor do céu e da terra e o Senhor de toda criatura. Não temos direito de dispor de coisa alguma que temos, a não ser segundo a vontade dele, pois não somos proprietários de nenhuma dessas coisas: todas elas, como diz o nosso Senhor, pertencem a outrem; nada é propriamente nosso na terra da nossa peregrinação. Só receberemos o que é nosso quando chegarmos à nossa própria pátria. Só as coisas eternas são nossas. De todas estas coisas temporais somos apenas depositários de outro, o Dono e Senhor de tudo. E ele no-las confia sob esta condição expressa: que as usemos apenas como bens do nosso Mestre, e segundo as orientações particulares que ele nos deu na sua Palavra.
2. Sob esta condição ele nos confiou a alma, o corpo, os bens e todos os demais talentos que recebemos. Mas, para gravar esta verdade de peso no coração, é preciso descer aos pormenores. E, primeiro, Deus nos confiou a alma — espírito imortal, feito à imagem de Deus, com todas as suas potências e faculdades: entendimento, imaginação, memória, vontade, e um cortejo de afetos nela incluídos ou dela dependentes — amor e ódio, alegria e tristeza (quanto ao bem e ao mal presentes); desejo e aversão, esperança e temor (quanto ao que está por vir).
3. De tudo isto, é certo, somos apenas administradores. Deus nos confiou essas potências e faculdades não para as empregarmos segundo a nossa própria vontade, mas segundo as ordens expressas que ele nos deu — embora seja verdade que, fazendo a vontade dele, garantimos do modo mais eficaz a nossa própria felicidade, pois só nisto podemos ser felizes, no tempo e na eternidade. Assim, devemos usar o entendimento, a imaginação e a memória inteiramente para a glória daquele que os deu. Assim, a nossa vontade deve ser inteiramente entregue a ele, e todos os nossos afetos regulados como ele dirige. Devemos amar e odiar, alegrar-nos e entristecer-nos, desejar e evitar, esperar e temer, segundo a regra que prescreve aquele de quem somos, e a quem devemos servir em todas as coisas. Até os nossos pensamentos, neste sentido, não são nossos, não estão à nossa disposição; por cada movimento deliberado da mente havemos de prestar contas ao nosso grande Mestre.
4. Em segundo lugar, Deus nos confiou o corpo — essa máquina primorosamente trabalhada, feita “de modo assombrosamente maravilhoso” —, com todas as suas potências e membros. Confiou-nos os órgãos dos sentidos: da visão, da audição e os demais. Mas nenhum destes nos foi dado como próprio, para o empregarmos segundo a nossa vontade. Nenhum nos foi emprestado de modo a deixar-nos livres para usá-lo à vontade por um tempo. Não: recebemo-los sob estes exatos termos — que, enquanto permanecerem conosco, os empreguemos todos daquela maneira, e de nenhuma outra, que ele determina.
5. É sob os mesmos termos que ele nos concedeu o excelente talento da fala. “Tu me deste uma língua”, diz o escritor antigo, “para que com ela te louve.” Foi para isso que a fala foi dada a todos os filhos dos homens: para ser empregada em glorificar a Deus. Nada, portanto, é mais ingrato ou mais absurdo do que pensar ou dizer: “A nossa língua é nossa.” Não pode ser — a não ser que nos tenhamos criado a nós mesmos e, assim, sejamos independentes do Altíssimo. Mas “foi ele quem nos fez, e não nós a nós mesmos”; a consequência evidente é que ele continua sendo Senhor sobre nós, nisto como em tudo o mais. Segue-se que não há palavra da nossa língua da qual não sejamos responsáveis diante dele.
6. A ele somos igualmente responsáveis pelo uso das mãos, dos pés e de todos os membros do corpo. São outros tantos talentos confiados à nossa guarda até o tempo determinado pelo Pai. Até lá, temos o uso de todos eles — mas como administradores, não como proprietários —, para o fim de os oferecermos “não ao pecado, como instrumentos de injustiça, mas a Deus, como instrumentos de justiça”.
7. Em terceiro lugar, Deus nos confiou uma porção de bens materiais: comida para comer, roupa para vestir e um lugar onde reclinar a cabeça; não só o necessário, mas também as comodidades da vida. Acima de tudo, entregou aos nossos cuidados aquele precioso talento que contém todos os demais: o dinheiro. E ele é, de fato, indizivelmente precioso, se formos administradores sábios e fiéis dele; se empregarmos cada parte dele nos fins que o nosso bendito Senhor nos ordenou.
8. Em quarto lugar, Deus nos confiou vários talentos que não cabem propriamente em nenhuma dessas categorias. Tais são a força física, a saúde, uma aparência agradável, uma boa comunicação; tais são a instrução e o conhecimento, nos seus vários graus, com todas as demais vantagens da educação. Tal é a influência que temos sobre os outros, seja pelo amor e estima que nos têm, seja pelo poder — poder de lhes fazer bem ou mal, de os ajudar ou estorvar nas circunstâncias da vida. Acrescente-se a isso o inestimável talento do tempo, que Deus nos confia de momento a momento. E acrescente-se, por fim, aquilo de que tudo o mais depende, e sem o qual tudo seria maldição, não bênção: a graça de Deus, o poder do seu Espírito Santo, o único que opera em nós tudo o que é aceitável aos seus olhos.
II. Quando já não poderemos ser administradores
1. Em tantos aspectos são os filhos dos homens administradores do Senhor, o Possuidor do céu e da terra: tão larga porção dos seus bens, de vários tipos, ele confiou aos seus cuidados. Mas não para sempre, nem sequer por muito tempo. Este encargo nos foi depositado apenas durante o espaço curto e incerto em que peregrinamos aqui embaixo; apenas enquanto permanecemos na terra, enquanto este fôlego passageiro está nas nossas narinas. A hora se aproxima veloz, está bem perto, em que “já não poderemos ser administradores”. No momento em que o corpo “voltar ao pó, como era, e o espírito, a Deus, que o deu”, deixamos de ter aquela função; o tempo da nossa administração chega ao fim. Parte dos bens que antes nos foram confiados agora acaba — ao menos para nós; e outra parte, a que resta, já não pode ser empregada nem multiplicada como antes.
2. Parte do que nos fora confiado termina, ao menos no que nos diz respeito. Que temos nós, depois desta vida, com comida, roupa, casas e posses terrenas? O alimento dos mortos é o pó da terra; vestem-se apenas de vermes e podridão. Habitam na casa preparada para todo mortal; as suas terras já não os conhecem; todos os seus bens passam a outras mãos, e eles “já não têm porção alguma debaixo do sol”.
3. O mesmo se dá com o corpo. No momento em que o espírito volta a Deus, deixamos de ser administradores desta máquina, que então é semeada em corrupção e desonra. Todas as partes e membros de que era composto jazem desfazendo-se no barro. As mãos já não têm força para mover-se; os pés esqueceram o seu ofício; a carne, os tendões e os ossos apressam-se todos a dissolver-se no pó comum.
4. Aqui terminam também os talentos de natureza mista: a nossa força, a saúde, a beleza, a eloquência, a boa comunicação, a capacidade de agradar, persuadir ou convencer os outros. Aqui terminam, do mesmo modo, todas as honras de que um dia gozamos, todo o poder que esteve nas nossas mãos, toda a influência que tivemos sobre os outros, seja pelo amor, seja pela estima que nos dedicavam. O nosso amor, o nosso ódio, o nosso desejo, tudo pereceu: ninguém mais atenta em como um dia nos afetávamos por eles. Olham para os mortos como incapazes de ajudá-los ou prejudicá-los, de modo que “mais vale cão vivo do que leão morto”.
5. Talvez reste dúvida quanto a alguns dos outros talentos que agora nos são confiados: se deixarão de existir quando o corpo voltar ao pó, ou apenas deixarão de poder ser multiplicados. Não há dúvida de que a espécie de fala que agora usamos, por meio destes órgãos corporais, chegará então inteiramente ao fim, quando esses órgãos forem destruídos: a língua não fará mais vibrar o ar, nem o ouvido conduzirá esses movimentos ao sentido comum. O que chamamos de “fala”, os espíritos separados não podem ter; de modo que já não seremos administradores deste talento quando formos contados entre os mortos. É certo que espíritos separados têm algum modo de comunicar entre si os seus pensamentos; mas que habitante de carne e sangue poderia explicá-lo?
6. Também pode restar dúvida quanto a se os nossos sentidos existirão, uma vez destruídos os órgãos dos sentidos. Não é provável que os de espécie inferior cessem — o tato, o olfato, o paladar —, por terem referência mais imediata ao corpo, estando destinados sobretudo, se não inteiramente, à conservação dele? Mas não permanecerá alguma espécie de visão, ainda que o olho se feche na morte? E não haverá na alma algo equivalente ao presente sentido da audição? Aliás, não é provável que estes não só existam no estado separado, mas existam em grau muito maior, de modo muito mais eminente do que agora — quando a alma, desembaraçada do seu barro, já não é “uma centelha moribunda num lugar nublado”, já não “olha pelas janelas do olho e do ouvido”, mas antes é toda olho, todo ouvido, todo sentido, de um modo que ainda não podemos conceber? E não temos prova clara da possibilidade disto — de ver sem o uso do olho e ouvir sem o uso do ouvido? Pois não vê a alma, do modo mais claro, quando o olho de nada serve, isto é, nos sonhos? Não desfruta então da faculdade de ouvir, sem ajuda alguma do ouvido? Seja como for, é certo que os nossos sentidos, tanto quanto a nossa fala, já não nos serão confiados do modo como agora o são, quando o corpo jazer no silêncio do túmulo.
7. Até que ponto permanecerá então o conhecimento ou a instrução que adquirimos pela educação, não o podemos dizer. Salomão, de fato, diz: “No além, para onde você vai, não há atividade, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria.” Mas é evidente que essas palavras não podem ser entendidas em sentido absoluto. Pois, longe de ser verdade que não há conhecimento algum depois que deixamos o corpo, a dúvida está antes do outro lado: se existe algo como conhecimento real antes disso; se não é uma verdade sóbria, e não mera ficção poética, que tudo o que aqui tomamos por realidade não passa de sonhos vazios que fazemos no sono desta vida — excetuadas apenas as coisas que o próprio Deus se dignou revelar ao homem. Falo por mim: depois de buscar a verdade, com alguma diligência, por meio século, hoje mal estou seguro de coisa alguma, a não do que aprendo na Bíblia. Aliás, afirmo positivamente: nada mais conheço com tal certeza a ponto de ousar apostar nisso a minha salvação. Contudo, das palavras de Salomão podemos aprender ao menos isto: que não há, na sepultura, tal conhecimento ou sabedoria que possa ser de qualquer serventia a um espírito infeliz; não há ali recurso algum pelo qual ele possa agora multiplicar os talentos que um dia lhe foram confiados. Pois o tempo já não existe; o tempo da nossa provação, para a felicidade ou a miséria eternas, passou. O nosso dia, o dia do homem, terminou; o dia da salvação encerrou-se! Nada mais resta senão o “dia do Senhor”, que inaugura a vasta e imutável eternidade!
8. Ainda assim, as nossas almas, incorruptíveis e imortais, de natureza “um pouco menor do que a dos anjos”, quando os nossos corpos se desfizerem em terra, permanecerão com todas as suas faculdades. A nossa memória e o nosso entendimento, longe de serem destruídos, ou sequer prejudicados, pela dissolução do corpo, ao contrário, temos razão para crer que serão inconcebivelmente fortalecidos. Não temos a mais clara razão para crer que serão então de todo libertos dos defeitos que agora resultam naturalmente da união da alma com o corpo corruptível? É altamente provável que, desde o instante em que se separam, a nossa memória nada deixe escapar; sim, que exiba fielmente à nossa vista tudo o que alguma vez lhe foi confiado. É verdade que o mundo invisível é chamado, na Escritura, “a terra do esquecimento”. As coisas ali são esquecidas — mas por quem? Não pelos habitantes daquela terra, e sim pelos habitantes da terra. É em relação a estes que o mundo invisível é “a terra do esquecimento”. Desde que despem o tabernáculo terreno, dificilmente podemos pensar que os espíritos esqueçam coisa alguma.
9. Do mesmo modo, o entendimento será, sem dúvida, libertado dos defeitos que agora lhe são inseparáveis. Por muitas eras foi máxima indiscutida que errar e ignorar é próprio do homem. Mas essa afirmação só é verdadeira quanto aos vivos, e não vale além do tempo em que “o corpo corruptível oprime a alma”. A ignorância, de fato, pertence a todo entendimento finito (pois ninguém, além de Deus, conhece todas as coisas); mas não o erro: quando o corpo é posto de lado, também este é posto de lado, para sempre.
10. Que diremos, então, a um homem engenhoso que há pouco fez a “descoberta” de que os espíritos separados não só não têm sentidos (nem mesmo visão ou audição), mas nenhuma memória ou entendimento, nenhum pensamento ou percepção, nem sequer consciência da própria existência — que dormem um sono profundo desde a morte até a ressurreição? A tal sono podemos, de fato, chamar de “parente próximo da morte”, se é que não é a própria morte. Que podemos dizer, senão que homens engenhosos têm sonhos estranhos, e que às vezes os confundem com realidades?
11. Mas voltemos. Assim como a alma reterá o seu entendimento e a sua memória, apesar da dissolução do corpo, também a vontade, com todos os afetos, sem dúvida permanecerá em pleno vigor. Se o nosso amor ou a nossa ira, a nossa esperança ou o nosso desejo perecem, é só em relação aos que deixamos para trás — para os quais já não importa se foram objeto do nosso amor ou ódio, do nosso desejo ou aversão. Mas, nos próprios espíritos separados, não temos razão para crer que qualquer destes se extinga. É mais provável que operem com força muito maior do que quando a alma estava embaraçada de carne e sangue.
12. Contudo, embora todas essas faculdades — o conhecimento e os sentidos, a memória e o entendimento, junto com a vontade, o amor, o ódio e todos os afetos — permaneçam depois que o corpo cai, neste aspecto elas são como se não fossem: já não somos administradores delas. As coisas continuam, mas a nossa administração não; já não agimos naquela função. Até a graça que antes nos foi confiada, para nos capacitar a ser administradores fiéis e sábios, já não nos é confiada para esse fim. Os dias da nossa administração terminaram.
III. Prestar contas da administração
1. Resta agora que, não sendo mais administradores, prestemos contas da nossa administração. Alguns imaginaram que isto se dá logo após a morte, assim que entramos no mundo dos espíritos; e a Igreja de Roma o afirma de modo absoluto, fazendo disto até um artigo de fé. Isto podemos conceder: no instante em que a alma deixa o corpo e se apresenta nua diante de Deus, não pode deixar de saber qual será a sua porção por toda a eternidade. Terá plenamente à vista ou a alegria eterna ou o tormento eterno, pois já não é possível enganar-se no juízo que passamos sobre nós mesmos. Mas a Escritura não nos dá razão para crer que Deus se assente então em juízo sobre nós. Não há passagem alguma em todos os oráculos de Deus que afirme tal coisa. O texto que costuma ser alegado para esse fim parece antes provar o contrário: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27). Pois, com toda a razão, a palavra “uma só vez” deve aplicar-se tanto ao juízo quanto à morte. De modo que a justa conclusão a tirar deste mesmo texto não é que haja dois juízos — um particular e outro geral —, mas que seremos julgados, assim como morremos, uma só vez: não uma logo após a morte e outra depois da ressurreição geral, mas só então, “quando o Filho do homem vier na sua glória, e todos os santos anjos com ele”. A ideia de um juízo na morte e outro no fim do mundo não tem lugar entre os que fazem da Palavra escrita de Deus a regra plena e única da sua fé.
2. O tempo, então, em que havemos de prestar essa conta é quando “o grande trono branco descer do céu, e aquele que nele está assentado, de cuja face fogem a terra e o céu, e não se acha lugar para eles”. É então que “os mortos, pequenos e grandes, estarão diante de Deus, e livros serão abertos”: o livro da Escritura, para os que a receberam; o livro da consciência, para toda a humanidade; e também o “livro da memória” (para usar outra expressão bíblica), escrito desde a fundação do mundo, será então aberto à vista de todos os filhos dos homens. Diante de todos estes — de toda a raça humana, do diabo e dos seus anjos, de uma inumerável multidão de anjos santos, e de Deus, o Juiz de todos —, você aparecerá, sem abrigo nem cobertura, sem qualquer possibilidade de disfarce, para prestar conta minuciosa da maneira como empregou todos os bens do seu Senhor!
3. O Juiz de todos indagará então: “Como você empregou a sua alma? Confiei-lhe um espírito imortal, dotado de várias potências e faculdades — entendimento, imaginação, memória, vontade, afetos. E dei-lhe, junto com isso, orientações plenas e expressas sobre como tudo devia ser empregado. Você empregou o entendimento, tanto quanto ele era capaz, segundo essas orientações — isto é, no conhecimento de si mesmo e de mim, da minha natureza e dos meus atributos, das minhas obras de criação, providência e graça; familiarizando-se com a minha Palavra, usando todos os meios de crescer no seu conhecimento e meditando nela dia e noite? Você empregou a memória, segundo a minha vontade, entesourando todo conhecimento que adquiriu e que pudesse contribuir para a minha glória, para a sua salvação ou para o proveito dos outros? Você guardou ali, não coisas sem valor, mas toda instrução aprendida da minha Palavra e toda experiência que teve da minha sabedoria, verdade, poder e misericórdia? A sua imaginação foi empregada, não em pintar imagens vãs, muito menos as que alimentam ‘desejos tolos e nocivos’, mas em representar-lhe tudo o que aproveitasse à sua alma e despertasse a sua busca da sabedoria e da santidade? Você seguiu as minhas orientações quanto à vontade? Ela foi inteiramente entregue a mim, absorvida na minha, de modo a nunca opor-se, mas sempre correr paralela a ela? Os seus afetos foram postos e regulados como determinei na minha Palavra? Você me deu o seu coração? Não amou o mundo, nem as coisas do mundo? Fui eu o objeto do seu amor? Todo o seu desejo era por mim e pela lembrança do meu nome? Fui eu a alegria do seu coração, o deleite da sua alma, ‘o maior entre dez mil’? Você por nada se entristeceu, senão pelo que entristecia o meu Espírito? Nada temeu nem odiou, senão o pecado? Toda a corrente dos seus afetos refluía ao oceano de onde veio? Os seus pensamentos foram empregados segundo a minha vontade — não vagando até os confins da terra, não na tolice ou no pecado, mas em ‘tudo o que é puro, tudo o que é santo’, em tudo o que conduzia à minha glória e à ‘paz e boa vontade entre os homens’?”
4. Depois o seu Senhor indagará: “Como você empregou o corpo que lhe confiei? Dei-lhe uma língua para que com ela me louvasse: você a usou para o fim para que foi dada? Você a empregou, não na maledicência ou na conversa fútil, não em conversas descaridosas ou inúteis, mas naquilo que era bom, necessário ou útil a você ou aos outros — no que sempre tendia, direta ou indiretamente, a ‘transmitir graça aos que ouvem’? Dei-lhe, junto com os outros sentidos, aquelas grandes portas do conhecimento, a visão e a audição: foram empregadas nos fins excelentes para que lhe foram concedidas, trazendo-lhe cada vez mais instrução em justiça e verdadeira santidade? Dei-lhe mãos e pés, e vários membros, para realizar as obras que lhe foram preparadas: foram empregados, não em fazer ‘a vontade da carne’, da sua natureza má, nem a vontade da mente (as coisas a que a sua razão ou fantasia o levavam), mas ‘a vontade daquele que’ o enviou ao mundo, unicamente para desenvolver a sua própria salvação? Você apresentou todos os seus membros, não ao pecado, como instrumentos de injustiça, mas só a mim, por meio do Filho do meu amor, ‘como instrumentos de justiça’?”
5. O Senhor de tudo indagará em seguida: “Como você empregou os bens materiais que depositei nas suas mãos? Você usou o alimento, não para buscar ou pôr nele a sua felicidade, mas para conservar o corpo em saúde, força e vigor, instrumento apto para a alma? Usou a roupa, não para alimentar o orgulho ou a vaidade, muito menos para tentar outros ao pecado, mas com decência e comodidade, para proteger-se das intempéries? Preparou e usou a sua casa e todas as demais comodidades com olhos postos só na minha glória, buscando em tudo não a sua honra, mas a minha, esforçando-se por agradar não a si, mas a mim? E, mais uma vez: de que maneira empregou aquele talento abrangente, o dinheiro? Não para satisfazer o desejo da carne, o desejo dos olhos ou a soberba da vida; não esbanjando-o em despesas vãs — o mesmo que atirá-lo ao mar; não entesourando-o para deixá-lo atrás de si — o mesmo que enterrá-lo na terra; mas suprindo primeiro as suas próprias necessidades razoáveis, junto com as da sua família, e depois devolvendo o restante a mim, por meio dos pobres, que designei para recebê-lo — considerando-se apenas um daquele número de pobres, cujas carências deviam ser supridas com aquela parte dos meus bens que pus nas suas mãos para esse fim; cabendo-lhe o direito de ser suprido primeiro, e a bem-aventurança de dar antes que receber? Foi você, por conseguinte, um benfeitor de todos — alimentando o faminto, vestindo o nu, consolando o doente, socorrendo o estrangeiro, aliviando o aflito, conforme as suas várias necessidades? Foi olhos para o cego e pés para o coxo, pai para o órfão e amparo para a viúva? E trabalhou por transformar todas as obras exteriores de misericórdia em meios de salvar almas da morte?”
6. O seu Senhor indagará ainda: “Você foi administrador sábio e fiel quanto aos talentos de natureza mista que lhe emprestei? Empregou a saúde e a força, não na tolice ou no pecado, não nos prazeres que perecem no uso, ‘não em prover à carne para satisfazer os seus desejos’, mas na busca vigorosa daquela boa parte que ninguém lhe poderia tirar? Empregou tudo o que havia de agradável na sua pessoa ou no seu trato, todas as vantagens que teve pela educação, toda a instrução, todo o conhecimento das coisas e dos homens que lhe foi confiado, para promover a virtude no mundo, para o alargamento do meu reino? Empregou toda a parcela de poder que teve, toda a influência sobre os outros pelo amor ou pela estima que lhe dedicavam, para o crescimento deles em sabedoria e santidade? Empregou aquele inestimável talento do tempo com cautela e prudência, pesando devidamente o valor de cada momento, sabendo que todos estavam contados na eternidade? E, acima de tudo, foi você um bom administrador da minha graça — a que o preveniu, acompanhou e seguiu? Observou devidamente e cultivou com cuidado todas as influências do meu Espírito — todo bom desejo, toda medida de luz, todas as suas repreensões, ásperas ou brandas? Como se aproveitou do ‘espírito de escravidão e temor’, que precedeu o ‘espírito de adoção’? E, quando foi feito participante deste Espírito, clamando no seu coração ‘Aba, Pai’, permaneceu firme na gloriosa liberdade com que o fiz livre? Desde então apresentou a alma e o corpo, todos os seus pensamentos, palavras e ações, numa só chama de amor, como sacrifício santo, glorificando-me no seu corpo e no seu espírito? Então, ‘muito bem, servo bom e fiel! Entre no gozo do seu Senhor!’”
7. E o que restará, seja ao administrador fiel, seja ao infiel? Nada senão a execução da sentença já proferida pelo justo Juiz, fixando-o num estado que não admite mudança por eras sem fim. Resta apenas que seja recompensado, por toda a eternidade, segundo as suas obras.
IV. Aplicações
1. Destas simples considerações aprendemos, primeiro, como é importante este dia curto e incerto da vida! Como é precioso, acima de toda palavra e de toda concepção, cada porção dele! A menor delas reclama um cuidado sério; pois, ainda que pequenos, são grãos de ouro! Como diz respeito, profundamente, a cada filho do homem não deixar nenhum deles correr em vão, mas aproveitá-los todos para os fins mais nobres, enquanto o fôlego de Deus estiver nas suas narinas!
2. Aprendemos daqui, segundo, que não há emprego do nosso tempo, nenhuma ação ou conversa, que seja puramente indiferente. Tudo é bom ou mau, porque todo o nosso tempo, como tudo o que temos, não é nosso. Tudo isto, como diz o nosso Senhor, é propriedade de outro — de Deus, o nosso Criador. Ora, ou estas coisas são empregadas segundo a vontade dele, ou não. Se assim são empregadas, tudo é bom; se não, tudo é mau. E mais: é vontade dele que cresçamos continuamente na graça e no conhecimento vivo do nosso Senhor Jesus Cristo. Por conseguinte, todo pensamento, palavra e obra pelos quais esse conhecimento aumenta, pelos quais crescemos na graça, é bom; e todo aquele pelo qual esse conhecimento não aumenta é, verdadeira e propriamente, mau.
3. Aprendemos daqui, terceiro, que não há obras de supererrogação; que nunca podemos fazer mais que o nosso dever, visto que tudo o que temos não é nosso, mas de Deus, e tudo o que podemos fazer lhe é devido. Não recebemos dele isto ou aquilo, ou apenas algumas coisas, mas tudo; portanto, tudo lhe é devido. Aquele que nos dá tudo há de ter, necessariamente, direito a tudo; de modo que, se lhe pagamos algo menos que tudo, não podemos ser administradores fiéis. E, considerando que “cada um receberá o seu galardão segundo o seu próprio trabalho”, não podemos ser administradores sábios, a não ser que trabalhemos até o limite das nossas forças, não deixando por fazer nada que possamos fazer, mas empregando toda a nossa força.
4. Irmãos, “quem dentre vocês é sábio e entendido?” Que mostre a sabedoria que vem do alto, andando de modo condizente com o seu caráter. Se ele se tem por administrador dos múltiplos dons de Deus, cuide de que todos os seus pensamentos, palavras e obras estejam de acordo com o posto que Deus lhe designou. Não é coisa pequena empregar por Deus tudo o que se recebeu de Deus. Isto exige toda a sua sabedoria, toda a sua resolução, toda a sua paciência e constância — muito mais do que jamais teve por natureza, mas não mais do que pode ter pela graça. Pois a graça dele lhe basta; e “tudo”, você sabe, “é possível ao que crê”. Pela fé, então, “revista-se do Senhor Jesus Cristo”, “revista-se de toda a armadura de Deus”, e você será capaz de glorificá-lo em todas as suas palavras e obras; sim, de levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo!
Edimburgo, 14 de maio de 1768.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.