SERMÃO 53

Sobre a morte do Rev. George Whitefield

Oração fúnebre pregada em Londres, 18 de novembro de 1770.

Nm 23.10, NAA ⏱ 28 min de leituraIgreja, unidade e missão

“Que eu morra a morte dos justos, e seja o meu fim como o deles!”

(Nm 23.10, NAA)

Antes de ler

Este é um sermão único no conjunto: a homenagem de Wesley ao amigo e companheiro de obra George Whitefield, o grande pregador do avivamento, morto na América em 1770. Whitefield foi calvinista; Wesley, arminiano — e a divergência sobre a predestinação os separou em 1741. Mas repare o que Wesley faz aqui: pregando o funeral a pedido do próprio Whitefield, ele não esconde as diferenças, mas as põe de lado ("podemos concordar em discordar") para exaltar o que os unia — o novo nascimento e a justificação pela fé. É uma lição de amor fraterno acima das divisões teológicas, o mesmo "espírito católico" do Sermão 39. Uma observação sobre o texto de Números: são palavras de Balaão, um profeta reprovado; Wesley, com fino humor, não as aplica a Whitefield, mas a si mesmo — "que um pobre pecador deseje morrer como um dos eleitos". O sermão tem três partes: a vida, o caráter e como honrar essa memória. Ao final, o hino "Servo de Deus, muito bem!", escrito por Charles Wesley para a ocasião. Guardo, como o próprio Wesley pede no encerramento, a súplica de que cessem as guerras entre irmãos.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. “Seja o meu fim como o dele!” Quantos de vocês se unem a este desejo? Talvez sejam poucos os que não o fazem, mesmo nesta numerosa congregação. E oxalá este desejo repouse na mente de vocês — que não se apague até que também as suas almas estejam abrigadas “onde os perversos deixam de perturbar, e onde repousam os cansados”!

2. Não se espera, nesta ocasião, uma exposição minuciosa do texto. Ela os deteria longe demais do pensamento, ao mesmo tempo triste e doce, do irmão, amigo e pastor que amavam — sim, pai também, pois quantos há aqui a quem ele “gerou no Senhor”! Não será, então, mais conforme às suas inclinações e a esta solenidade falar diretamente deste homem de Deus, a quem tantas vezes ouviram falar neste lugar — cujo modo de vida vocês conhecem, e cujo fim foi “Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e eternamente”? Vejamos, pois: primeiro, alguns fatos da sua vida e morte; segundo, uma visão do seu caráter; e, terceiro, como aproveitar esta solene providência, a sua súbita partida do nosso meio.

I. A vida e a morte

1. Nasceu em Gloucester, em dezembro de 1714, e foi posto ali numa escola de gramática por volta dos doze anos. Aos dezessete, começou a levar a religião a sério e serviu a Deus segundo a luz que tinha. Cerca dos dezoito, foi para a Universidade, admitido no Pembroke College de Oxford; e um ano depois conheceu os metodistas (assim chamados), a quem desde então amou como à própria alma.

2. Por eles se convenceu de que “é preciso nascer de novo”, ou a religião exterior de nada nos aproveita. Uniu-se a eles no jejum às quartas e sextas, na visita aos doentes e aos presos, e no recolher até os menores fragmentos de tempo, para que nenhum momento se perdesse. E mudou o rumo dos seus estudos, lendo principalmente livros que entravam no coração da religião e conduziam diretamente ao conhecimento experimental de Jesus Cristo, e este crucificado.

3. Logo foi provado como pelo fogo. Não só perdeu a reputação e foi abandonado por alguns dos amigos mais queridos, mas passou por provações interiores, das mais severas. Muitas noites jazeu sem dormir; muitos dias, prostrado no chão. Mas, depois de gemer vários meses sob “o espírito de escravidão”, aprouve a Deus remover o pesado fardo, dando-lhe “o Espírito de adoção” e capacitando-o, por uma fé viva, a lançar mão do “Filho do seu amor”.

4. Julgou-se necessário, para a recuperação da saúde, que estava muito debilitada, que fosse para o campo. Foi a Gloucester, onde Deus lhe permitiu despertar vários jovens, que logo formaram uma pequena sociedade, entre os primeiros frutos do seu trabalho. Pouco depois, começou a ler, duas ou três vezes por semana, para alguns pobres da cidade, e todos os dias lia e orava com os presos da cadeia do condado.

5. Com cerca de vinte e um anos, foi instado a entrar nas ordens sagradas. Disto teve grande temor, profundamente consciente da própria insuficiência. Mas, tendo o próprio bispo mandado chamá-lo e dito “Embora eu tivesse resolvido não ordenar ninguém antes dos vinte e três, ordenarei você quando vier” — e concorrendo várias outras circunstâncias providenciais —, ele se submeteu, e foi ordenado no Domingo da Trindade de 1736. No domingo seguinte pregou a um auditório apinhado, na mesma igreja em que fora batizado. Na semana seguinte voltou a Oxford e obteve o grau de bacharel; e ficou então plenamente ocupado, recaindo sobre ele o cuidado dos presos e dos pobres.

6. Não tardou, porém, a ser convidado a Londres, para substituir um amigo que ia para o interior. Ali ficou dois meses, hospedado na Torre, lendo as orações na capela duas vezes por semana, catequizando e pregando uma vez, além de visitar os soldados nos quartéis e na enfermaria. Lia também as orações toda tarde na capela de Wapping e pregava na prisão de Ludgate toda terça-feira. Enquanto estava ali, chegaram cartas dos amigos da Geórgia que o fizeram ansiar por ir ajudá-los; mas, não vendo claro o seu chamado, no tempo marcado voltou ao seu pequeno encargo em Oxford, onde vários jovens se reuniam diariamente no seu quarto para edificar-se na santíssima fé.

7. Mas logo foi de novo chamado dali para atender a paróquia de Dummer, em Hampshire. Ali lia as orações duas vezes ao dia: de manhã cedo e à tarde, depois que o povo voltava do trabalho. Catequizava diariamente as crianças e visitava de casa em casa. Dividia então o dia em três partes: oito horas para sono e refeições, oito para estudo e recolhimento, e oito para as orações, a catequese e a visitação. Haverá modo mais excelente para um servo de Cristo e da sua Igreja? Se não, quem “irá e fará o mesmo”?

8. Ainda assim, a sua mente continuava voltada para o além-mar; e, agora plenamente convencido de que Deus o chamava a isso, pôs tudo em ordem e, em janeiro de 1737, desceu a Gloucester para despedir-se dos amigos. Foi nessa viagem que Deus começou a abençoar o seu ministério de modo incomum. Onde quer que pregasse — em Gloucester, Stonehouse, Bath, Bristol —, multidões espantosas de ouvintes acorriam, a ponto de o calor das igrejas mal se poder suportar; e as impressões feitas em muitos não eram menos extraordinárias. Depois de voltar a Londres, enquanto era detido, semana após semana e mês após mês, aprouve a Deus abençoar ainda mais a sua palavra. E ele era incansável no trabalho: em geral, aos domingos pregava quatro vezes a auditórios imensos, além de ler as orações duas ou três vezes e caminhar de um lado a outro, muitas vezes dez ou doze milhas.

9. Em 28 de dezembro deixou Londres. Foi no dia 29 que pregou pela primeira vez sem anotações. No dia 30, embarcou; mas passou mais de um mês antes que deixassem a costa. Um feliz efeito da travessia tão lenta ele menciona em abril seguinte: “Bendito seja Deus, vivemos agora muito à vontade no grande camarote. Falamos de pouco mais que de Deus e de Cristo; e quase não se ouve entre nós, quando reunidos, palavra que não faça referência à nossa queda no primeiro Adão e ao nosso novo nascimento no segundo.” Parece também ter sido providência singular que passasse algum tempo em Gibraltar, onde cidadãos e soldados, altos e baixos, jovens e velhos, reconheceram o dia da sua visitação.

10. De 7 de maio de 1738 até o fim de agosto, ele “desempenhou plenamente o seu ministério” na Geórgia, sobretudo em Savannah: lia as orações e expunha a Palavra duas vezes ao dia, e visitava diariamente os doentes. Aos domingos, expunha às cinco da manhã; às dez, lia as orações e pregava, e de novo às três da tarde; e às sete da noite explicava o catecismo. Quão mais fácil é aos nossos irmãos no ministério achar defeito num tal trabalhador na vinha do Senhor do que seguir os seus passos!

11. Foi então que observou a deplorável condição de muitas crianças ali, e que Deus lhe pôs no coração o primeiro pensamento de fundar um orfanato, para o qual resolveu levantar contribuições na Inglaterra, se Deus lhe concedesse um regresso seguro. Em dezembro seguinte, voltou a Londres; e no domingo, 14 de janeiro de 1739, foi ordenado presbítero em Christ Church, Oxford. No dia seguinte veio de novo a Londres e, no domingo 21, pregou duas vezes. Mas, embora as igrejas fossem grandes e estivessem lotadíssimas, muitas centenas ficaram no adro, e outras centenas voltaram para casa. Isto lhe suscitou o primeiro pensamento de pregar ao ar livre. Quando o mencionou a alguns amigos, julgaram-no pura loucura; de modo que só o pôs em prática depois de deixar Londres. Foi na quarta-feira, 21 de fevereiro, que, achando fechadas todas as portas das igrejas em Bristol (além de nenhuma igreja poder conter metade da congregação), às três da tarde foi a Kingswood e pregou ao ar livre para cerca de duas mil pessoas. Na sexta, pregou ali a quatro ou cinco mil; e no domingo, supunha-se, a dez mil! O número crescia continuamente enquanto ficou em Bristol; e se acendeu uma chama de santo amor que não se apagará facilmente. A mesma se acendeu depois em várias partes do País de Gales, de Gloucestershire e de Worcestershire. De fato, aonde quer que fosse, Deus confirmava abundantemente a palavra do seu mensageiro.

12. No domingo, 29 de abril, pregou pela primeira vez em Moorfields e em Kennington Common; e os milhares de ouvintes estavam tão quietos como estariam numa igreja. Detido de novo na Inglaterra, mês após mês, fez pequenas excursões por vários condados e recebeu as contribuições de multidões dispostas para o orfanato da Geórgia. O embargo então lançado sobre a navegação deu-lhe tempo para mais viagens por várias partes da Inglaterra, pelas quais muitos terão razão de bendizer a Deus por toda a eternidade. Por fim, em 14 de agosto, embarcou; mas só desembarcou na Pensilvânia em 30 de outubro. Depois percorreu a Pensilvânia, Nova Jersey, Nova York, Maryland, Virgínia, e as Carolinas do Norte e do Sul, pregando por toda parte a congregações imensas, com efeito tão grande quanto na Inglaterra. Em 10 de janeiro de 1740, chegou a Savannah.

13. Em 29 de janeiro, acrescentou três órfãos desamparados aos quase vinte que já tinha em casa. No dia seguinte, demarcou o terreno da casa, a cerca de dez milhas de Savannah. Em 11 de fevereiro, acolheu mais quatro órfãos e partiu para Frederica, a fim de buscar os órfãos que estavam nas partes ao sul da colônia. No regresso, fundou uma escola, para crianças e adultos, em Darien, e de lá levou quatro órfãos. Em 25 de março, lançou a primeira pedra do orfanato, ao qual, com muita propriedade, deu o nome de Betesda — obra pela qual gerações ainda não nascidas louvarão o Senhor. Tinha então cerca de quarenta órfãos, de modo que havia perto de cem bocas a alimentar diariamente. Mas ele “de nada se preocupava”, lançando o seu cuidado sobre aquele que alimenta os filhotes do corvo que clamam a ele.

14. Em abril, fez outra viagem pela Pensilvânia, Nova Jersey e Nova York. Multidões incríveis acorriam a ouvi-lo, entre elas grande número de negros. Em todos os lugares, a maior parte dos ouvintes ficava comovida a um grau assombroso. Muitos foram profundamente convencidos do seu estado perdido; muitos, verdadeiramente convertidos a Deus. Em alguns lugares, milhares clamavam em alta voz; muitos, como nas agonias da morte; a maioria se desfazia em lágrimas; alguns empalideciam como mortos; outros torciam as mãos; outros jaziam por terra; outros desfaleciam nos braços dos amigos — quase todos erguendo os olhos e clamando por misericórdia.

15. Voltou a Savannah em 5 de junho. Na noite seguinte, durante o culto, toda a congregação, jovens e velhos, se desfez em lágrimas; após o culto, vários paroquianos e toda a sua família, sobretudo as criancinhas, voltaram para casa chorando pela rua, e alguns não conseguiam deixar de orar em voz alta. Os gemidos e clamores das crianças duraram a noite toda e boa parte do dia seguinte.

16. Em agosto, partiu de novo e, por várias províncias, chegou a Boston. Enquanto ali esteve, e nos lugares vizinhos, estava fisicamente muito fraco; e, contudo, as multidões de ouvintes eram tão grandes, e os efeitos neles produzidos tão assombrosos, como os homens mais velhos da cidade jamais tinham visto. O mesmo poder acompanhou a sua pregação em Nova York, sobretudo no domingo, 2 de novembro: quase assim que começou, ouviam-se por toda parte prantos, choros e gemidos. Muitos caíam por terra, feridos no coração; e muitos se enchiam de consolação divina. Perto do fim da viagem, fez esta reflexão: “É o septuagésimo quinto dia desde que cheguei a Rhode Island, muito fraco de corpo; e, no entanto, Deus me capacitou a pregar cento e setenta e cinco vezes em público, além de exortar com frequência em particular! Nunca Deus me concedeu maiores consolos; nunca fiz as minhas viagens com menos fadiga, nem vi tal continuidade da presença divina nas congregações a quem preguei.” Em dezembro, voltou a Savannah, e em março seguinte chegou à Inglaterra.

17. Vocês notarão que o relato anterior é extraído sobretudo dos seus próprios diários, que, pela sua singela e despretensiosa simplicidade, rivalizam com quaisquer escritos do gênero. E que amostra fiel é este de todo o seu trabalho na Europa e na América, pela honra do Mestre amado, durante os trinta anos que se seguiram — bem como da ininterrupta chuva de bênçãos com que Deus se dignou coroar os seus labores! Não é muito de lamentar que algo o tenha impedido de continuar este relato ao menos até perto do tempo em que foi chamado pelo Senhor a gozar o fruto do seu trabalho? Se ele deixou papéis desse gênero, e se os seus amigos me julgarem digno da honra, seria a minha glória e a minha alegria ordená-los, transcrevê-los e prepará-los para o público.

18. Um relato particular da última cena da sua vida foi assim dado por um cavalheiro de Boston: “Depois de estar cerca de um mês conosco em Boston e arredores, pregando todos os dias, foi a Old York; pregou lá na quinta-feira, 27 de setembro; seguiu para Portsmouth e pregou lá na sexta. No sábado de manhã, partiu para Boston; mas, antes de chegar a Newbury, onde se comprometera a pregar na manhã seguinte, foi instado a pregar pelo caminho. Não sendo a casa bastante grande para conter o povo, pregou num campo aberto. Estando, porém, debilitado havia várias semanas, isto lhe esgotou de tal modo as forças que, ao chegar a Newbury, não pôde sair do barco sem a ajuda de dois homens. À noite, contudo, recobrou o ânimo e se mostrou com a alegria de sempre. Recolheu-se ao quarto às nove, a sua hora fixa, da qual companhia alguma o desviava, e dormiu melhor do que nas semanas anteriores. Levantou-se às quatro da manhã, 30 de setembro, e entrou no seu gabinete; e o seu companheiro observou que ele demorava mais que o costume em oração. Deixou o gabinete, voltou ao companheiro, atirou-se à cama e ali ficou cerca de dez minutos. Depois pôs-se de joelhos e orou muito fervorosamente a Deus para que, se fosse conforme a sua vontade, ele pudesse naquele dia terminar a obra do seu Mestre. Pediu então ao seu criado que chamasse o pastor Parsons, em cuja casa estava; mas, num minuto, antes que Parsons o alcançasse, morreu, sem um suspiro ou gemido. À notícia da sua morte, seis cavalheiros partiram para Newbury a fim de trazer os seus restos para cá; mas ele não pôde ser movido, de modo que as suas preciosas cinzas hão de permanecer em Newbury. Que este golpe seja santificado para a Igreja de Deus em geral, e para esta província em particular!”

II. O caráter

1. Cabe-nos, em segundo lugar, uma visão do seu caráter. Um breve esboço dele foi logo publicado na Boston Gazette, do qual transcrevo um trecho: “Nos seus trabalhos públicos, ele, por muitos anos, assombrou o mundo com a sua eloquência e devoção. Com que divino pathos persuadia o pecador impenitente a abraçar a piedade e a virtude! Falava do coração e, com um fervor de zelo talvez sem igual desde os dias dos apóstolos, adornava as verdades que anunciava. No púlpito, era inigualável no domínio de um auditório sempre repleto. Nem era menos agradável e instrutivo na conversa privada, feliz numa notável facilidade de trato, disposto a partilhar, empenhado em edificar. Que a nova geração colha uma centelha daquela chama que brilhou com tanto fulgor no espírito e na prática deste fiel servo do Deus altíssimo!”

2. Um retrato mais pormenorizado, e igualmente justo, apareceu num dos jornais ingleses, cujo teor não lhes será desagradável acrescentar: “O caráter desta pessoa verdadeiramente piedosa há de ficar gravado no coração de todo amigo da religião viva. Apesar de uma compleição frágil, continuou até o último dia da vida a pregar com uma frequência e um fervor que pareciam exceder a força natural dos mais robustos. Chamado ao exercício do seu ofício numa idade em que a maioria dos jovens apenas começa a preparar-se para ele, não teve tempo de avançar muito nas línguas eruditas. Mas esse defeito foi amplamente suprido por um gênio vivo e fértil, por um zelo ardente e por uma pregação vigorosa e persuasiva. E, embora no púlpito muitas vezes precisasse, ‘pelo temor do Senhor’, ‘persuadir os homens’, nada tinha de sombrio na sua natureza, sendo singularmente alegre, além de caridoso e de coração terno. Estava tão pronto a socorrer as carências físicas quanto as espirituais dos que a ele recorriam. Deve-se notar também que constantemente inculcava no auditório todo dever moral, em particular a diligência no trabalho e a obediência aos superiores. Esforçou-se, pelos mais extraordinários labores de pregação, em diferentes lugares e até nos campos abertos, por despertar as classes mais pobres da última indiferença e ignorância para um senso de religião. Por isto, e pelos seus outros trabalhos, o nome de GEORGE WHITEFIELD será por muito tempo lembrado com estima e veneração.”

3. Que ambos os relatos são justos e imparciais, prontamente se admitirá — isto é, até onde vão. Mas vão pouco além do exterior do seu caráter. Mostram o pregador, não o homem, o cristão, o santo de Deus. Ser-me-á permitido acrescentar algo a esse respeito, a partir de um conhecimento pessoal de quase quarenta anos? Estou bem consciente de quão difícil é falar de tema tão delicado, e de quanta prudência se requer para evitar os dois extremos, não dizendo nem pouco demais nem demais! Mas, sem me deter nisto, direi apenas o que sei, diante daquele a quem todos havemos de prestar contas.

4. Já se mencionou o seu zelo sem igual, a sua atividade incansável, a sua ternura para com os aflitos e a sua caridade para com os pobres. Mas não deveríamos também mencionar a sua profunda gratidão a todos os que Deus usara como instrumentos de bem para ele — de quem não cessava de falar do modo mais respeitoso, até o dia da sua morte? Não deveríamos mencionar que ele tinha um coração aberto à mais generosa e terna amizade? Muitas vezes pensei que esta era, de todas, a marca distintiva do seu caráter. Quão poucos conhecemos de índole tão bondosa, de afetos tão amplos e transbordantes! Não foi principalmente por isto que os corações de outros se ligaram a ele de modo tão singular? Pode algo, senão o amor, gerar amor? Isto reluzia no seu próprio semblante e respirava continuamente em todas as suas palavras, em público ou em particular.

5. Longe, porém, a vil interpretação dos homens de mente corrompida, que não conhecem outro amor senão o terreno e sensual! Lembre-se, ao mesmo tempo, que ele era dotado do mais delicado e irrepreensível pudor. O seu ofício o chamava a conversar com muita frequência com mulheres, além de homens, de toda idade e condição. Mas todo o seu comportamento para com elas era um comentário prático daquele conselho de Paulo a Timóteo: “Trata as mulheres idosas como mães, e as jovens como irmãs, com toda a pureza.”

6. Entretanto, quão condizente com a afabilidade do seu espírito era a franqueza e a abertura da sua conversa! — embora tão distante da grosseria, de um lado, quanto do dolo, de outro. Não era essa franqueza, a um só tempo, fruto e prova da sua coragem e intrepidez? Armado destas, não temia a face dos homens, mas “usava de grande clareza no falar” com pessoas de toda posição, altas e baixas, ricas e pobres, procurando apenas, “pela manifestação da verdade, recomendar-se à consciência de todos, na presença de Deus”.

7. Tampouco temia o trabalho ou a dor, mais do que “o que os homens lhe pudessem fazer”, sendo igualmente paciente em sofrer o mal e em fazer o bem. E isto se via na firmeza com que levava adiante tudo o que empreendia por amor do Mestre. Basta um exemplo por todos: o orfanato da Geórgia, que começou e concluiu apesar de todos os desânimos. De fato, em tudo o que dizia respeito a si mesmo, era dócil e flexível, fácil de convencer ou persuadir. Mas era inabalável nas coisas de Deus, ou onde a sua consciência estivesse em jogo. Ninguém o podia persuadir, tampouco atemorizar, a afastar-se no mínimo ponto daquela integridade que era inseparável de todo o seu caráter e regulava todas as suas palavras e ações.

8. Se se pergunta qual era o fundamento dessa integridade, ou da sua sinceridade, coragem, paciência e de toda outra qualidade estimável, é fácil dar a resposta. Não era a excelência do seu temperamento natural, nem a força do seu entendimento; não era o efeito da educação; não, nem o conselho dos amigos. Não era senão a fé num Senhor que sangrou — “a fé que é operação de Deus”. Era “a viva esperança de uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível”. Era “o amor de Deus derramado no seu coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado”, enchendo-lhe a alma de um amor terno e desinteressado por todo filho de homem. Desta fonte brotava aquela torrente de eloquência que muitas vezes arrastava tudo diante de si; desta, aquela assombrosa força de persuasão a que os pecadores mais endurecidos não podiam resistir. Foi isto que muitas vezes fez da sua “cabeça um manancial de águas, e dos seus olhos uma fonte de lágrimas”. Foi isto que o capacitou a derramar a alma em oração, de um modo peculiar a si, com tal plenitude e desembaraço, com tal força e variedade de pensamento e de expressão.

9. Concluo este ponto observando que honra aprouve a Deus conferir ao seu fiel servo, permitindo-lhe anunciar o evangelho eterno em tantos países diversos, a tantas multidões, e com efeito tão grande sobre tantas almas preciosas! Lemos ou ouvimos de alguém, desde os apóstolos, que tenha testemunhado o evangelho da graça de Deus por espaço tão amplo, por parte tão grande do mundo habitado? Lemos ou ouvimos de alguém que tenha chamado ao arrependimento tantos milhares, tantas miríades de pecadores? Acima de tudo, lemos ou ouvimos de alguém que tenha sido bendito instrumento nas mãos de Deus para trazer tantos pecadores “das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus”? É verdade que, se falássemos assim ao mundo frívolo, seríamos tidos por bárbaros. Mas vocês entendem a língua da terra para onde vão, e para onde o nosso querido amigo partiu um pouco antes de nós.

III. Como honrar esta memória

1. Mas como havemos de aproveitar esta solene providência? Esta é a terceira coisa a considerar. E a resposta é simples (que Deus a escreva no coração de todos nós!): mantendo-nos firmes nas grandes doutrinas que ele anunciava, e bebendo do seu espírito. Primeiro, mantenhamo-nos firmes nas grandes doutrinas bíblicas que ele por toda parte pregava. Há muitas doutrinas de natureza menos essencial sobre as quais até os sinceros filhos de Deus (tal é a presente fraqueza do entendimento humano) estão e estiveram divididos por muitas eras. Nestas, podemos pensar e deixar pensar; podemos “concordar em discordar”. Mas, entretanto, retenhamos firmemente o essencial da “fé que uma vez foi entregue aos santos”, e sobre o qual este campeão de Deus tão fortemente insistia, em todo tempo e lugar!

2. O seu ponto fundamental era: “Dê a Deus toda a glória de tudo o que há de bom no homem”; e: “No negócio da salvação, ponha Cristo o mais alto e o homem o mais baixo possível.” Com este ponto, ele e os seus amigos de Oxford, os primeiros metodistas, começaram. O princípio deles era: não há poder (por natureza) nem mérito no homem. Insistiam em que todo poder de pensar, falar ou agir com retidão está no Espírito de Cristo e dele procede; e todo mérito está (não no homem, por mais adiantado que esteja na graça, mas unicamente) no sangue de Cristo. Assim ele e eles ensinavam: não há no homem poder algum, até que lhe seja dado do alto, para fazer uma só boa obra, dizer uma só boa palavra ou formar um só bom desejo. Pois não basta dizer que todos os homens estão doentes de pecado; não: estamos todos “mortos nos delitos e pecados”. Segue-se que todos os filhos dos homens são, “por natureza, filhos da ira”. Somos todos “culpados diante de Deus”, sujeitos à morte temporal e eterna.

3. E estamos todos impotentes, tanto quanto ao poder quanto à culpa do pecado. “Pois quem pode tirar coisa pura da impura?” Ninguém menos que o Todo-Poderoso. Quem pode ressuscitar os que estão mortos, espiritualmente mortos no pecado? Ninguém senão aquele que nos formou do pó da terra. Mas por que motivo o fará? “Não por obras de justiça que tenhamos praticado.” “Os mortos não te louvam, ó Senhor”, nem podem fazer coisa alguma por cuja causa devessem ser trazidos à vida. Tudo, pois, o que Deus faz, ele o faz unicamente por amor do seu Filho muito amado: “Ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades.” Ele mesmo “levou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro”. Foi “entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitado por causa da nossa justificação”. Eis, então, a única causa meritória de toda bênção que desfrutamos ou podemos desfrutar — em particular, do nosso perdão e aceitação diante de Deus, da nossa plena e gratuita justificação. Mas por que meio nos tornamos participantes do que Cristo fez e sofreu? “Não por obras, para que ninguém se glorie”, mas só pela fé. “Concluímos”, diz o apóstolo, “que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei.” E “a todos quantos” assim “o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais nasceram não da vontade do homem, mas de Deus”.

4. E, “se alguém não” assim “nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Mas todos os que assim “nascem do Espírito” têm “o reino de Deus dentro de si”. Cristo estabelece o seu reino no coração deles: “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”. Está neles “o sentir que houve em Cristo Jesus”, capacitando-os a “andar como ele andou”. O seu Espírito, que neles habita, os torna santos no coração e “santos em todo o seu procedimento”. Ainda assim, visto que tudo isto é dom gratuito, pela justiça e pelo sangue de Cristo, há eternamente a mesma razão para lembrar: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.”

5. Vocês não ignoram que estas são as doutrinas fundamentais sobre as quais ele por toda parte insistia. E não se podem resumir, por assim dizer, em duas expressões — o novo nascimento e a justificação pela fé? Sobre estas insistamos com toda a ousadia, em todo tempo e lugar: em público (os que a isso somos chamados) e em toda oportunidade em particular. Mantenham-se firmes nestas boas, antigas e fora de moda doutrinas, por mais que muitos as contradigam e blasfemem. Prossigam, irmãos, “em nome do Senhor e no poder da sua força”. Com todo o cuidado e diligência, “guardem o que lhes foi confiado”, sabendo que “o céu e a terra passarão, mas esta verdade não passará”.

6. Mas bastará manter-se firme nas suas doutrinas, por mais puras que sejam? Não haverá um ponto de importância ainda maior, a saber, beber do seu espírito — ser aqui seu seguidor, como ele o foi de Cristo? Sem isto, a pureza das nossas doutrinas só aumentaria a nossa condenação. Esta, pois, é a coisa principal: reproduzir o seu espírito. E, admitindo que em alguns pontos devamos contentar-nos em admirar o que não podemos imitar, em muitos outros podemos, pela mesma graça gratuita, ser participantes da mesma bênção. Conscientes, então, das próprias faltas e do generoso amor daquele que “dá liberalmente e não censura”, clamemos a ele, que opera tudo em todos, por uma medida da mesma preciosa fé; do mesmo zelo e atividade; da mesma ternura, caridade e entranhas de misericórdia. Lutemos com Deus por algum grau do mesmo temperamento grato, amigável e afetuoso; da mesma abertura, simplicidade e sincera piedade; do “amor sem fingimento”. Lutemos até que o poder do alto opere em nós a mesma firme coragem e paciência; e, acima de tudo, por ser a coroa de tudo, a mesma inabalável integridade!

7. Há algum outro fruto da graça de Deus com que ele foi eminentemente dotado, e cuja falta entre os filhos de Deus ele frequente e ardentemente lamentava? Há um: o amor católico — aquele sincero e terno afeto devido a todos os que temos razão de crer serem filhos de Deus pela fé; por outras palavras, todos os que, em qualquer persuasão, “temem a Deus e praticam a justiça”. Ele ansiava por ver de espírito verdadeiramente católico todos os que haviam “provado a boa palavra” — expressão pouco entendida, e ainda menos experimentada, por muitos que a trazem sempre na boca. Quem é o homem de espírito católico? Aquele que ama, como amigos, como irmãos no Senhor, como co-herdeiros do reino eterno, a todos — de qualquer opinião, culto ou congregação — que creem no Senhor Jesus, que amam a Deus e ao próximo, e que, alegrando-se em agradar e temendo ofender a Deus, se abstêm do mal e são zelosos de boas obras. Ele os traz continuamente no coração; tendo por eles indizível ternura e sincero desejo do seu bem, não cessa de recomendá-los a Deus em oração, nem de defender a causa deles diante dos homens; está pronto “a gastar e a deixar-se gastar” por eles; sim, “a dar a vida pelos irmãos”.

8. Quão amável é este caráter! Quão desejável a todo filho de Deus! Mas por que, então, é tão raro? Como há tão poucos exemplos dele? Há um ardil sutil pelo qual Satanás persuade a milhares que podem ficar aquém dele e, ainda assim, permanecer sem culpa. “Ah, sim”, diz um, “tenho todo esse amor pelos que creio serem filhos de Deus; mas nunca crerei que seja filho de Deus quem pertence àquela vil congregação, ou quem sustenta tais opiniões detestáveis!” Assim, justificamos um pecado acrescentando-lhe um segundo! Desculpamos a falta de amor em nós mesmos lançando a culpa nos outros! Para encobrir o nosso próprio temperamento diabólico, declaramos os irmãos filhos do diabo! Ah, cuidado com isto! E, se já estão presos no laço, escapem dele o quanto antes! Vão e aprendam aquele amor verdadeiramente católico que “não é precipitado” em julgar; aquele amor que “não pensa mal”, que “tudo crê e tudo espera”, que faz aos outros toda a concessão que desejamos que nos façam! Então reconheceremos a graça de Deus que há em cada homem, seja qual for a sua opinião ou o seu modo de culto; então todos os que temem a Deus nos serão caros “nas entranhas de Jesus Cristo”.

9. Não era este o espírito do nosso querido amigo? E por que não haveria de ser o nosso? Ó Deus de amor, até quando o teu povo será um provérbio entre as nações? Até quando zombarão de nós, dizendo: “Vejam como estes cristãos se amam uns aos outros!”? Quando removerás o nosso opróbrio? Devorará a espada para sempre? Agora, ao menos, “parem todos, e não persigam mais os seus irmãos”! Mas, façam o que fizerem os outros, ouçamos todos nós, irmãos, a voz daquele que, estando morto, ainda fala! Suponham que o ouvem dizer: “Agora, ao menos, sejam meus seguidores, como eu fui de Cristo! Que o irmão não levante mais a espada contra o irmão, e não conheçam mais a guerra! Antes, revistam-se, como escolhidos de Deus, de entranhas de misericórdia, humildade, bondade, mansidão e longanimidade, suportando-se uns aos outros em amor.”

10. Ó Deus, para ti nenhuma palavra é impossível! Fazes tudo o que te apraz! Oh, faze cair agora sobre nós, que ficamos, o manto do teu profeta, a quem arrebataste! “Onde está o Senhor, o Deus de Elias?” Repouse o seu espírito sobre estes teus servos! Mostra que és o Deus que responde pelo fogo! Caia o fogo do teu amor sobre cada coração! E, porque te amamos, amemo-nos uns aos outros com um “amor mais forte que a morte”! Tira de nós “toda amargura, ira e cólera, gritaria e maledicência”! De tal modo repouse sobre nós o teu Espírito que, desta hora em diante, sejamos “uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-nos mutuamente, como também Deus, em Cristo, nos perdoou”!

Hino — de Charles Wesley, escrito para a ocasião:

Servo de Deus, muito bem!

Findou o teu glorioso combate;

travada a peleja, ganha a corrida,

e enfim recebes a coroa;

de todo o desejo do teu coração

triunfante já de posse,

levado pelo coro celeste

ao seio do teu Redentor.

Em condescendente amor,

ele ouviu a tua incessante oração

e mandou que de súbito partisses

para o teu galardão completo;

prontos a anunciar a paz,

os teus belos pés estavam calçados,

quando a misericórdia assinou a tua soltura

e te arrebatou para Deus.

Com os santos entronizados nas alturas,

proclamas o teu Senhor,

e ainda clamas: “A Deus a salvação,

salvação ao Cordeiro!”

Ó alma feliz, felicíssima!

Em êxtases de louvor,

enquanto rolam as eras eternas,

contemplas a face do teu Salvador!

Redimidos da terra e da dor,

ah, quando subiremos nós,

para reinar na presença de Jesus

com o nosso amigo já trasladado?

Vem, Senhor, e vem depressa!

E, quando completos em ti,

recebe em casa os teus servos que anseiam,

para triunfar aos teus pés!

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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