SERMÃO 62

O propósito da vinda de Cristo

Por que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo.

1Jo 3.8, NAA ⏱ 19 min de leituraSalvação e graça

“Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.”

(1Jo 3.8, NAA)

Antes de ler

Este sermão responde à pergunta mais essencial da fé: para que Cristo veio? A resposta de Wesley, tirada de João, é direta — para destruir as obras do diabo, isto é, o pecado e os seus frutos. Mas o modo como ele desenvolve isso revela o coração de toda a sua teologia. Primeiro, mostra o que são essas "obras": não um mal abstrato, mas a história concreta da queda, que ele lê à luz da liberdade humana — o mesmo acento arminiano de sempre: sem liberdade não há virtude nem vício, e o mal entrou no mundo pelo abuso livre da liberdade, primeiro no diabo, depois em Eva. Segundo, percorre as manifestações do Filho de Deus, da criação ao Calvário e a Pentecostes, até a mais preciosa de todas — a manifestação interior, quando ele se revela no coração do crente. Terceiro, e aqui está o ápice wesleyano: descreve como Cristo destrói o pecado, e chega àquela que talvez seja a definição mais límpida de "religião verdadeira" em todo o Wesley — a restauração do homem, por aquele que esmaga a cabeça da serpente, a tudo o que a antiga serpente lhe tirou; não só ao favor, mas à imagem de Deus. Guarde a advertência final, tão nossa: não confunda religião com forma exterior, nem com moralidade, nem — o mais vão dos sonhos — com mera ortodoxia, a "opinião correta". Religião é a fé que opera pelo amor, e a destruição de todo pecado nesta vida presente, pela graça d'Aquele que salva perfeitamente os que a ele se chegam.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Muitos escritores eminentes, pagãos e cristãos, empregaram todo o seu esforço e arte em pintar a beleza da virtude, e igual empenho em descrever, nas cores mais vivas, a deformidade do vício. Puseram em forte luz a felicidade que acompanha a virtude e a miséria que costuma acompanhar o vício, e sempre o segue. E pode-se reconhecer que tratados desse gênero não são de todo inúteis: provavelmente por eles alguns foram despertados a desejar a virtude, e alguns, contidos na carreira do vício — talvez dele afastados, ao menos por um tempo. Mas a mudança operada nos homens por esses meios raramente é profunda ou universal; muito menos duradoura: em pouco tempo se desvanece como a nuvem da manhã. Tais motivos são fracos demais para vencer as inumeráveis tentações que nos cercam. Tudo o que se pode dizer da beleza da virtude e da deformidade do vício não consegue resistir a um só apetite ou paixão desregrada, muito menos vencê-lo e curá-lo. Toda essa cerca e todo o seu aparato, um só astuto pecado do coração varre por completo.

2. Há, portanto, absoluta necessidade, se quisermos vencer o vício ou perseverar firmes na prática da virtude, de termos armas de melhor qualidade que estas; do contrário, podemos ver o que é reto, mas não alcançá-lo. Muitos homens de reflexão, mesmo entre os pagãos, tiveram viva consciência disto. A linguagem do coração deles era a de Medeia: Vejo o melhor e o aprovo; mas sigo o pior — quão exatamente de acordo com as palavras do apóstolo (personificando um homem convicto do pecado, mas ainda não vitorioso sobre ele): “O bem que quero, esse não faço; mas o mal que não quero, esse faço!” A impotência da mente humana até o filósofo romano pôde descobrir: “Há em todo homem”, diz ele, “esta fraqueza — a sede de glória. A natureza aponta a doença, mas não nos mostra remédio.”

3. Nem é de estranhar que, embora buscassem um remédio, não o achassem. Pois o buscavam onde ele nunca esteve nem estará: em si mesmos, na razão, na filosofia — caniços quebrados, bolhas, fumaça! Não o buscavam em Deus, único em quem é possível achá-lo. Em Deus! Não; renunciam a isto por completo, e nos termos mais fortes. Pois, embora Cícero, um dos seus oráculos, uma vez tenha tropeçado naquela estranha verdade — “Nunca houve grande homem que não fosse divinamente inspirado” —, no mesmo tratado se contradiz e destrói a própria afirmação, perguntando: “Quem jamais deu graças aos deuses pela sua virtude ou sabedoria?” O poeta romano é ainda mais explícito, se possível; depois de mencionar várias bênçãos exteriores, acrescenta com franqueza: Pedimos a Deus o que ele dá e tira — a vida, as riquezas; mas virtuoso a mim mesmo me farei.

4. Os melhores deles ou buscavam a virtude em parte de Deus e em parte de si mesmos, ou a buscavam daqueles deuses que na verdade eram demônios, e que, portanto, não poderiam tornar os seus devotos melhores do que eles próprios. Tão débil era a luz dos mais sábios dos homens, até que “a vida e a imortalidade foram trazidas à luz pelo evangelho”, até que “o Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo”! Mas que são “as obras do diabo” aqui mencionadas? Como “o Filho de Deus se manifestou” para destruí-las? E de que modo, por que passos, ele efetivamente as “destrói”? Estes três pontos importantes consideraremos por ordem.

I. Quais são as obras do diabo

1. Primeiro, o que sejam essas obras do diabo, aprendemo-lo das palavras que precedem e seguem o texto: “Sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados” (1Jo 3.5). “Todo o que permanece nele não vive pecando; todo o que vive pecando não o viu, nem o conheceu” (1Jo 3.6). “Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8). “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado” (1Jo 3.9). De tudo isto se conclui que “as obras do diabo”, aqui mencionadas, são o pecado e os frutos do pecado.

2. Mas, visto que a sabedoria de Deus dissipou as nuvens que por tanto tempo cobriram a terra, pode ser útil tomar uma vista mais distinta dessas “obras do diabo”, até onde os oráculos de Deus nos instruem. É verdade que o propósito do Espírito Santo foi auxiliar a nossa fé, não satisfazer a nossa curiosidade; por isso o relato que ele deu nos primeiros capítulos de Gênesis é extremamente breve. Contudo, é tão claro que dele podemos aprender tudo o que nos importa saber.

3. Tomando a questão desde o princípio: “O Senhor Deus criou o homem à sua imagem” — à sua imagem natural, quanto à sua parte melhor; isto é, um espírito, como Deus é Espírito, dotado de entendimento, que, se não é a essência, parece ser a mais essencial propriedade de um espírito. E provavelmente o espírito humano, como o angélico, discernia então a verdade por intuição. Por isso nomeou cada criatura, assim que a viu, segundo a sua natureza mais íntima. Contudo, o seu conhecimento era limitado, por ser criatura: a ignorância, portanto, era inseparável dele; mas o erro não; não parece que se enganasse em coisa alguma. Mas era capaz de enganar-se, de ser iludido, embora não obrigado a isso.

4. Foi também dotado de vontade, com vários afetos (que são apenas a vontade manifestando-se de vários modos), para que amasse, desejasse e se comprazesse no que é bom; do contrário, o seu entendimento não teria finalidade. Foi igualmente dotado de liberdade, um poder de escolher o que era bom e recusar o que não o era. Sem isto, tanto a vontade quanto o entendimento teriam sido de todo inúteis. De fato, sem liberdade, o homem, longe de ser um agente livre, não poderia ser agente algum. Pois todo ser não livre é puramente passivo, não ativo em grau algum. Você tem uma espada na mão? Um homem mais forte que você segura a sua mão e o força a ferir um terceiro? Nisto você não é agente, tanto quanto a espada não o é: a mão é tão passiva quanto o aço. Assim em todo caso possível: quem não é livre não é agente, mas paciente.

5. Parece, portanto, que todo espírito no universo, como tal, é dotado de entendimento e, por consequência, de vontade e de uma medida de liberdade; e que estes três estão inseparavelmente unidos em toda natureza inteligente. E note: uma liberdade obrigada, ou dominada de fora, na verdade não é liberdade alguma. É uma contradição nos termos, o mesmo que uma liberdade não livre — isto é, puro absurdo.

6. Pode-se observar ainda (e é observação importante) que, onde não há liberdade, não pode haver bem ou mal moral, virtude ou vício. O fogo nos aquece, e, contudo, não é capaz de virtude; queima-nos, e, contudo, isto não é vício. Não há virtude senão onde um ser inteligente conhece, ama e escolhe o que é bom; nem há vício senão onde tal ser conhece, ama e escolhe o que é mau.

7. E Deus criou o homem não só à sua imagem natural, mas também à sua imagem moral. Criou-o não só “em conhecimento”, mas também em justiça e verdadeira santidade. Assim como o seu entendimento era sem mácula, perfeito no seu gênero, assim eram todos os seus afetos: todos retos e devidamente exercidos sobre os seus próprios objetos. E, como agente livre, ele escolhia firmemente tudo o que era bom, segundo a direção do seu entendimento. Fazendo assim, era indizivelmente feliz, habitando em Deus, e Deus nele; tendo ininterrupta comunhão com o Pai e o Filho, pelo Espírito eterno; e o contínuo testemunho da sua consciência de que todos os seus caminhos eram bons e aceitáveis a Deus.

8. Contudo, a sua liberdade (como se observou antes) necessariamente incluía o poder de escolher ou recusar o bem ou o mal. Aliás, tem-se duvidado se o homem podia então escolher o mal, sabendo-o tal. Mas não se pode duvidar de que pudesse confundir o mal com o bem. Não era infalível; portanto, não impecável. E isto desata toda a dificuldade da grande questão: “Como entrou o mal no mundo?” Veio de “Lúcifer, filho da manhã”. Foi obra do diabo. “Pois o diabo”, diz o apóstolo, “peca desde o princípio” — isto é, foi o primeiro pecador no universo, o autor do pecado, o primeiro ser que, pelo abuso da liberdade, introduziu o mal na criação. Ele, dos primeiros — se não o primeiro arcanjo —, foi tentado por si mesmo a ter de si conceito alto demais. Cedeu livremente à tentação, dando lugar primeiro ao orgulho, depois à obstinação. Disse: “Assentar-me-ei no monte da congregação; serei semelhante ao Altíssimo.” Não caiu sozinho, mas logo arrastou consigo a terça parte das estrelas do céu; em consequência do que perderam a sua glória e felicidade, e foram expulsos da sua antiga habitação.

9. “Cheio de grande ira”, e talvez de inveja da felicidade das criaturas recém-criadas por Deus, não é estranho que desejasse e se esforçasse por privá-las dela. Para isto, escondeu-se na serpente, a mais astuta de todos os brutos e, por isso, a menos suspeita. Alguns supõem (não improvavelmente) que a serpente fosse então dotada de razão e fala. Não soubesse Eva que assim era, teria admitido parlamentar com ela? Não se teria antes assustado do que sido enganada, como observa o apóstolo? Para enganá-la, Satanás misturou verdade e falsidade: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” — e logo a persuadiu a descrer de Deus, a supor que a sua ameaça não se cumpriria. Ela então ficou exposta a toda a tentação: ao “desejo da carne”, pois a árvore era “boa para se comer”; ao “desejo dos olhos”, pois era “agradável à vista”; e à “soberba da vida”, pois era “desejável para dar entendimento” e, por consequência, honra. Assim, a incredulidade gerou o orgulho: ela se julgou mais sábia que Deus, capaz de achar melhor caminho para a felicidade do que aquele que Deus lhe ensinara. Gerou a obstinação: resolveu fazer a própria vontade, não a de quem a fez. Gerou desejos tolos; e completou tudo com o pecado exterior: “Tomou do fruto e comeu.”

10. Ela então “deu ao marido, e ele comeu”. E naquele dia, sim, naquele instante, ele morreu! A vida de Deus se extinguiu na sua alma. A glória se apartou dele. Perdeu toda a imagem moral de Deus — a justiça e a verdadeira santidade. Ficou ímpio; ficou infeliz; ficou cheio de pecado, de culpa e de temores atormentadores. Rompido de Deus, e olhando-o agora como Juiz irado, “teve medo”. Mas quão entenebrecido o seu entendimento, a ponto de pensar que podia “esconder-se da presença do Senhor entre as árvores do jardim”! Assim ficou a sua alma de todo morta para Deus! E naquele dia o seu corpo também começou a morrer — tornou-se sujeito à fraqueza, à doença, à dor, tudo preparatório à morte do corpo, que naturalmente conduzia à morte eterna.

II. Como o Filho de Deus se manifestou

1. Tais são “as obras do diabo”: o pecado e os seus frutos, considerados na sua ordem e conexão. Consideremos, em segundo lugar, como o Filho de Deus se manifestou a fim de destruí-las. Ele se manifestou como o Filho unigênito de Deus, em glória igual ao Pai, aos habitantes do céu antes e na fundação do mundo. Estas “estrelas da manhã cantavam juntas”, todos estes “filhos de Deus rejubilavam”, quando o ouviram dizer: “Haja luz; e houve luz”; quando ele “estendeu o norte sobre o vazio” e “estendeu os céus como uma cortina”. De fato, era crença universal da Igreja antiga que a Deus Pai ninguém viu nem pode ver; que desde a eternidade ele habita em luz inacessível; e que só no Filho do seu amor, e por meio dele, ele em algum tempo se revelou às suas criaturas.

2. Como o Filho de Deus se manifestou aos nossos primeiros pais no paraíso, não é fácil determinar. Supõe-se geralmente, e não sem probabilidade, que lhes apareceu em forma de homem e conversou com eles face a face. Não que eu creia no engenhoso devaneio do Dr. Watts acerca da “gloriosa humanidade de Cristo”, que ele supõe ter existido antes de o mundo começar. Aliás, tenho isto por hipótese extremamente perigosa e até danosa, pois exclui a força de muitíssimas Escrituras que sempre se julgou provarem a divindade do Filho; e receio que tenha sido o grande meio de desviar aquele grande homem da fé uma vez entregue aos santos.

3. Não podemos razoavelmente crer que foi por aparições semelhantes que ele se manifestou, nas eras seguintes, a Enoque, enquanto “andava com Deus”; a Noé, antes e depois do dilúvio; a Abraão, Isaque e Jacó, em várias ocasiões; e, para não mencionar mais, a Moisés? Este parece ser o sentido natural das palavras: “O meu servo Moisés é fiel em toda a minha casa; com ele falo face a face, claramente, e não por enigmas; e ele vê a forma do Senhor” — a saber, o Filho de Deus.

4. Mas todas estas eram apenas prefigurações da sua grande manifestação. Foi na plenitude dos tempos que Deus “trouxe o seu Primogênito ao mundo, nascido de mulher”, pelo poder do Altíssimo que a cobriu com a sua sombra. Ele foi depois manifestado aos pastores; ao piedoso Simeão; a Ana, a profetisa; e a “todos os que esperavam a redenção em Jerusalém”.

5. Quando teve a idade devida para exercer o seu ofício, foi manifestado a Israel, pregando o evangelho do reino de Deus em toda cidade e povoado. E por um tempo foi glorificado por todos, que reconheciam que ele “falava como nunca homem algum falou”, que “falava como quem tem autoridade”, com toda a sabedoria e o poder de Deus. Foi manifestado por inúmeros “sinais, prodígios e milagres que fez”, bem como por toda a sua vida, sendo o único nascido de mulher “que não conheceu pecado”, que, do nascimento à morte, “fez todas as coisas bem”, fazendo continuamente “não a sua própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou”.

6. E, acima de tudo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” Esta foi manifestação mais gloriosa de si do que qualquer outra antes feita. Quão maravilhosamente se manifestou a anjos e homens, quando foi “ferido pelas nossas transgressões”; quando “levou os nossos pecados no seu corpo, sobre o madeiro”; quando, tendo por aquela única oferta de si mesmo feito plena e suficiente expiação pelos pecados do mundo inteiro, exclamou: “Está consumado!”, e, inclinando a cabeça, entregou o espírito! Basta apenas mencionar as manifestações posteriores: a sua ressurreição dentre os mortos; a sua ascensão ao céu, à glória que tinha antes de o mundo existir; e o derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes — o que é belamente descrito naquelas conhecidas palavras do salmista: “Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro, recebeste dons para os homens; sim, até para os rebeldes, para que o Senhor Deus habitasse entre eles.”

7. “Para que o Senhor Deus habitasse neles”: isto se refere a uma manifestação ainda mais profunda do Filho de Deus — a sua manifestação interior de si mesmo. Quando ele falou disto aos apóstolos, pouco antes da sua morte, um deles logo perguntou: “Senhor, por que te hás de manifestar a nós, e não ao mundo?” Manifesta-se capacitando-nos a crer no seu nome. Pois ele nos é então interiormente manifestado quando somos capacitados a dizer com confiança: “Senhor meu, e Deus meu!” Então cada um de nós pode ousar dizer: “A vida que agora vivo, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” E é assim, manifestando-se no nosso coração, que ele eficazmente “destrói as obras do diabo”.

III. Como ele destrói as obras do diabo

1. Como ele faz isto, de que modo e por que passos efetivamente as destrói, é o que agora consideraremos. Primeiro, assim como Satanás começou a sua obra em Eva, contaminando-a com a incredulidade, também o Filho de Deus começa a sua obra no homem, capacitando-nos a crer nele. Ele abre e ilumina os olhos do nosso entendimento. Das trevas ordena que a luz brilhe, e tira o véu que o “deus deste século” estendera sobre o nosso coração. E então vemos, não por uma cadeia de raciocínios, mas por uma espécie de intuição, por uma visão direta, que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando os seus pecados” — não os imputando a mim. Naquele dia, “sabemos que somos de Deus”, filhos de Deus pela fé, “tendo a redenção pelo sangue de Cristo, a saber, o perdão dos pecados”. “Justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” — aquela paz que nos capacita a estar contentes em toda situação; que nos livra de toda dúvida perturbadora e de todo temor atormentador; e, em particular, daquele “medo da morte, pelo qual estávamos toda a vida sujeitos à escravidão”.

2. Ao mesmo tempo, o Filho de Deus fere a raiz daquela grande obra do diabo, o orgulho, levando o pecador a humilhar-se diante do Senhor, a abominar-se, por assim dizer, no pó e na cinza. Fere a raiz da obstinação, capacitando o pecador humilhado a dizer em tudo: “Não como eu quero, mas como tu queres.” Destrói o amor ao mundo, livrando os que nele creem de “todo desejo tolo e nocivo”, do “desejo da carne, do desejo dos olhos e da soberba da vida”. Salva-os de buscar, ou de esperar achar, felicidade em qualquer criatura. Assim como Satanás desviou o coração do homem do Criador para a criatura, também o Filho de Deus torna a voltar o seu coração da criatura para o Criador. É assim, manifestando-se, que ele destrói as obras do diabo, restaurando o culpado desterrado ao favor de Deus, ao perdão e à paz; o pecador em quem não habita bem algum, ao amor e à santidade; o pecador sobrecarregado e miserável, à alegria indizível, à felicidade real e substancial.

3. Mas pode-se observar que o Filho de Deus não destrói toda a obra do diabo no homem, enquanto este permanece nesta vida. Ele ainda não destrói a fraqueza corporal, a doença, a dor e as mil enfermidades próprias da carne e do sangue. Não destrói toda aquela fraqueza do entendimento, consequência natural de a alma habitar num corpo corruptível; de modo que ainda “errar e ignorar é próprio do homem”. Ele nos confia apenas uma pequeníssima parcela de conhecimento no estado presente, para que o conhecimento não interfira na nossa humildade e não voltemos a pretender ser como deuses. É para remover de nós toda tentação ao orgulho e toda ideia de independência (a própria coisa que os homens em geral tão avidamente cobiçam sob o nome de liberdade) que ele nos deixa cercados de todas essas fraquezas, particularmente a do entendimento — até que se cumpra a sentença: “Pó és tu, e ao pó voltarás!”

4. Então o erro, a dor e todas as enfermidades corporais cessam: todas são destruídas pela morte. E a própria morte, “o último inimigo” do homem, será destruída na ressurreição. No momento em que ouvirmos a voz do arcanjo e a trombeta de Deus, “então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória”. “Este corpo corruptível se revestirá de incorruptibilidade; este corpo mortal se revestirá de imortalidade”; e o Filho de Deus, manifestado nas nuvens do céu, destruirá esta última obra do diabo!

5. Aqui, então, vemos na luz mais clara e forte o que é a religião verdadeira: uma restauração do homem, por aquele que esmaga a cabeça da serpente, a tudo o que a antiga serpente lhe tirou; uma restauração não só ao favor, mas também à imagem de Deus, implicando não meramente a libertação do pecado, mas o ser cheio de toda a plenitude de Deus. É claro que nada menos que isto é a religião cristã. Tudo o mais, negativo ou exterior, erra totalmente o alvo. Mas que paradoxo é este! Quão pouco é entendido no mundo cristão, sim, nesta era esclarecida em que se dá por certo que o mundo é mais sábio do que jamais foi! Entre todas as nossas descobertas, quem descobriu isto? Quão poucos, entre doutos ou indoutos! E, contudo, se cremos na Bíblia, quem o pode negar? Corre pela Bíblia, do princípio ao fim, numa só cadeia conexa. Cuidado com tomar qualquer outra coisa, ou algo menos que isto, por religião! Não imagine que uma forma exterior, um ciclo de deveres, público e privado, seja religião! Não suponha que a honestidade, a justiça e o que se chama moralidade (por mais excelentes que sejam no seu lugar) sejam religião! E, menos ainda, sonhe que a ortodoxia, a opinião correta (vulgarmente chamada de fé), seja religião. De todos os sonhos religiosos, este é o mais vão — o que toma feno e restolho por ouro provado no fogo!

6. Ó, não tome nada menos que isto pela religião de Jesus Cristo! Não tome parte dela pelo todo! O que Deus ajuntou, não separe! Não tenha por religião dele nada menos que a “fé que opera pelo amor”, toda santidade interior e exterior. Não se contente com religião alguma que não implique a destruição de todas as obras do diabo, isto é, de todo pecado. Sabemos que a fraqueza do entendimento e mil enfermidades permanecerão enquanto permanecer este corpo corruptível; mas o pecado não precisa permanecer: esta é aquela obra do diabo, assim chamada por excelência, que o Filho de Deus se manifestou para destruir nesta vida presente. Ele é capaz, ele está disposto a destruí-la agora, em todos os que nele creem. Somente não se estreite no seu próprio coração! Não desconfie do poder dele, ou do seu amor! Ponha a promessa à prova! Ele falou — e não estará igualmente pronto a cumprir? Apenas “chegue com confiança ao trono da graça”, confiando na sua misericórdia; e você verá que “ele salva perfeitamente os que por meio dele se chegam a Deus”!

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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