SERMÃO 63
A difusão geral do evangelho
A esperança de que a terra se encherá do conhecimento do Senhor.
“A terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar.”
(Is 11.9, NAA)Antes de ler
Se o Sermão 61 foi o diagnóstico sombrio, este é o remédio esperançoso. Wesley parte do estado escuro do mundo do seu tempo e pergunta: como conciliar isso com a bondade de Deus? A resposta é a promessa de Isaías — a terra se encherá do conhecimento do Senhor. E ele descreve como isso acontecerá: não de repente, nem por força irresistível, mas como fermento, de coração em coração, de casa em casa, de nação em nação, começando pelo avivamento que ele mesmo vira nascer em Oxford.
Duas advertências de leitura, ambas importantes. Primeira, sobre a linguagem: os parágrafos iniciais retratam pagãos, muçulmanos e povos não europeus com o etnocentrismo típico do século XVIII inglês — expressões e generalizações que hoje reconhecemos como preconceituosas e datadas. Preservei o texto por fidelidade histórica, mas o leitor deve lê-lo com esse filtro: o valor do sermão está na sua tese teológica, não nessas caracterizações. Segunda, sobre a escatologia: Wesley expressa aqui um otimismo do tipo "glória dos últimos dias", em que o evangelho triunfa na história antes do fim. A nossa tradição, mais amilenista, lê essas promessas de modo um pouco diferente — mas o núcleo é comum, e permanece firme: a salvação é sempre pela fé em Cristo ("recebem a verdade como ela é em Jesus"), não um universalismo automático. O ponto mais precioso, e mais nosso, está nos §§9–12: Deus converte sem destruir a liberdade. Como diz Agostinho na frase que Wesley cita, "aquele que nos fez sem nós não nos salvará sem nós" — cada filho de Deus tem, em si mesmo, o voto decisivo.
— Bispo Ildo Mello
1. Em que condição se acha o mundo no presente! Como as trevas — trevas intelectuais, a ignorância, com o vício e a miséria que a acompanham — cobrem a face da terra! Segundo a acurada investigação feita por um engenhoso compatriota nosso, supondo o mundo dividido em trinta partes, dezenove delas são de pagãos declarados, tão ignorantes de Cristo como se ele jamais tivesse vindo ao mundo; seis das partes restantes são de maometanos declarados; de modo que apenas cinco em trinta são, sequer, nominalmente cristãos!
2. E lembre-se de que, desde que este cálculo foi feito, muitas nações novas foram descobertas, inúmeras ilhas grandes e bem povoadas, sobretudo no mar do Sul — mas por quem? Por pagãos do tipo mais baixo, muitos deles matando todos os que lhes caem nas mãos. Veja a real dignidade da natureza humana quando não é temperada pela menor tintura de religião!
3. Um pouco, mas só um pouco, acima dos pagãos em religião estão os maometanos. Mas quão larga e amplamente se espalhou esta miserável ilusão pela face da terra! A tal ponto que os maometanos são consideravelmente mais numerosos (na proporção de seis para cinco) que os cristãos. E, por todos os relatos que têm alguma pretensão de autenticidade, também estes são, em geral, tão estranhos a toda verdadeira religião quanto os pagãos.
4. É verdade que uma escritora célebre dá deles um retrato bem diferente. Com o mais fino fluxo de palavras, na mais elegante linguagem, esforça-se por representá-los muitos graus acima dos cristãos, como um dos povos mais amáveis do mundo. Mas de modo algum posso aceitar o seu relato, nem confiar na sua autoridade. Creio que os que a rodeavam tinham exatamente tanta religião quanto a sua admiradora. Não obstante, portanto, tudo o que tal testemunha diz em favor deles, creio que os turcos em geral são pouco, se é que algo, melhores que a generalidade dos pagãos.
5. E pouco, se é que algo, melhores que os turcos são os cristãos que vivem sob domínio turco, mesmo os melhores deles. Os mais numerosos corpos de cristãos georgianos, circassianos e mengrélios são um provérbio de opróbrio entre os próprios turcos, não só pela sua deplorável ignorância, mas pela sua total e estúpida irreligião.
6. Pelos mais autênticos relatos que podemos obter dos cristãos do sul, os da Abissínia, e das igrejas do norte, sob a jurisdição do patriarca de Moscou, temos razão de recear que estejam quase na mesma condição, quanto ao conhecimento e à religião, que os da Turquia. Ou, se os da Abissínia são mais civilizados e têm maior parcela de conhecimento, não parecem ter mais religião que os maometanos ou os pagãos.
7. As igrejas ocidentais parecem levar vantagem sobre todas estas em muitos aspectos. Têm muito mais conhecimento; têm modos de culto mais bíblicos e mais racionais. Contudo, dois terços delas ainda estão envolvidos nas corrupções da Igreja de Roma, e a maioria destes desconhece por completo tanto a teoria quanto a prática da religião. E, quanto aos que se chamam protestantes, ou reformados, que familiaridade têm com ela? Ponha papistas e protestantes, franceses e ingleses, juntos, o grosso de uma e de outra nação; e que espécie de cristãos são? São eles “santos, como é santo aquele que os chamou”? Estão cheios de “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”? Há neles “o sentir que houve em Cristo Jesus”? E “andam como ele andou”? Não; estão tão longe disto quanto o inferno do céu!
8. Tal é o estado presente da humanidade em todas as partes do mundo! Mas quão assombroso é isto, se há um Deus no céu, e se os seus olhos abrangem toda a terra! Pode ele desprezar a obra das suas mãos? Por certo este é um dos maiores mistérios debaixo do céu! Que pode dar sossego a uma mente pensativa sob perspectiva tão melancólica? Nada, senão a consideração de que as coisas nem sempre serão assim; de que outra cena logo se abrirá. Deus será zeloso da sua honra; levantar-se-á e sustentará a sua própria causa. Julgará o príncipe deste mundo e o despojará do domínio usurpado. Dará ao seu Filho “as nações por herança e os confins da terra por sua possessão”. “A terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar.” O amoroso conhecimento de Deus, que produz santidade e felicidade uniformes e ininterruptas, cobrirá a terra e encherá toda alma humana.
Sem destruir a liberdade
9. “Impossível”, dirão alguns; “sim, a maior de todas as impossibilidades, que vejamos um mundo cristão, ou sequer uma nação, ou uma cidade cristã! Como podem essas coisas acontecer?” Sob uma suposição, de fato, não só toda impossibilidade, mas toda dificuldade se desvanece: basta supor que o Todo-Poderoso aja irresistivelmente, e a coisa está feita — sim, com a mesma facilidade com que “Deus disse: Haja luz; e houve luz”. Mas então o homem já não seria homem: a sua natureza mais íntima seria mudada. Já não seria agente moral, tanto quanto o sol ou o vento, pois já não seria dotado de liberdade — de um poder de escolher, de autodeterminar-se; e, por consequência, já não seria capaz de virtude ou vício, de recompensa ou castigo.
10. Mas, posto de lado esse modo grosseiro de cortar o nó que não somos capazes de desatar, como podem todos os homens tornar-se santos e felizes, continuando homens, desfrutando ainda o entendimento, os afetos e a liberdade que são essenciais a um agente moral? Parece haver um modo simples de remover esta dificuldade. Assim como Deus é Um, também a obra de Deus é uniforme em todas as eras. Não podemos, então, conceber como ele operará na alma dos homens nos tempos vindouros, considerando como opera agora, e como operou no passado?
11. Tome um exemplo disto, e um exemplo em que você não pode facilmente enganar-se. Você sabe como Deus operou na sua própria alma quando primeiro o capacitou a dizer: “A vida que agora vivo, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” Ele não lhe tirou o entendimento, mas o iluminou e fortaleceu. Não destruiu nenhum dos seus afetos; antes, ficaram mais vigorosos que antes. Menos ainda lhe tirou a liberdade, o seu poder de escolher o bem ou o mal: não o forçou; mas, assistido pela sua graça, você, como Maria, escolheu a boa parte. Assim mesmo ele assistiu cinco numa casa a fazer essa feliz escolha; cinquenta ou quinhentos numa cidade; e muitos milhares numa nação — sem privar nenhum deles daquela liberdade que é essencial a um agente moral.
12. Não que eu negue haver casos excepcionais em que “o poder avassalador da graça salvadora” opera, por um tempo, tão irresistivelmente quanto o raio que cai do céu. Mas falo do modo geral de Deus operar, de que conheci inumeráveis exemplos. E, mesmo quanto a esses casos excepcionais, embora Deus opere irresistivelmente por um tempo, não creio que haja alma humana alguma em que Deus opere irresistivelmente em todos os tempos. Aliás, estou plenamente persuadido de que não há. Estou persuadido de que não há homem vivo que não tenha muitas vezes “resistido ao Espírito Santo” e tornado vão “o conselho de Deus a respeito de si mesmo”. Sim, estou persuadido de que a todo filho de Deus foram, em algum tempo, “postos diante a vida e a morte”, a vida eterna e a morte eterna; e ele tem, em si mesmo, o voto decisivo. Tão verdadeiro é aquele conhecido dito de Agostinho, um dos mais nobres que já proferiu: “Aquele que nos fez sem nós não nos salvará sem nós.” Ora, do mesmo modo como Deus converteu a si tantos sem destruir-lhes a liberdade, pode, sem dúvida, converter nações inteiras, ou o mundo inteiro; e é-lhe tão fácil converter um mundo quanto uma só alma.
O que Deus já fez
13. Observemos o que Deus já fez. Entre cinquenta e sessenta anos atrás, Deus levantou uns poucos jovens, na Universidade de Oxford, para testemunhar aquelas grandes verdades a que então pouco se atentava: que sem santidade ninguém verá o Senhor; que esta santidade é obra de Deus, que opera em nós tanto o querer quanto o realizar; que ele o faz por sua própria e boa vontade, unicamente pelos méritos de Cristo; que esta santidade é o sentir que houve em Cristo, que nos capacita a andar como ele andou; que ninguém pode ser assim santificado enquanto não for justificado; e que somos justificados somente pela fé. Estas grandes verdades eles declaravam em todas as ocasiões, em particular e em público, sem outro propósito senão promover a glória de Deus, e sem outro desejo senão salvar almas da morte.
14. De Oxford, onde primeiro apareceu, o pequeno fermento se espalhou cada vez mais. Mais e mais viram a verdade como ela é em Jesus e a receberam no amor dela. Mais e mais acharam “a redenção pelo sangue de Jesus, a saber, o perdão dos pecados”. Nasceram de novo do seu Espírito e se encheram de justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Depois se espalhou por toda parte do país, e “um pequenino tornou-se mil”. Espalhou-se então para a Escócia e a Irlanda, e, poucos anos depois, para Nova York, Pensilvânia e muitas outras províncias da América. De modo que, embora a princípio este “grão de mostarda” fosse “a menor de todas as sementes”, em poucos anos cresceu numa “grande árvore, e deitou grandes ramos”.
15. Geralmente, quando estas verdades, a justificação pela fé em particular, eram declaradas em alguma cidade grande, depois de alguns dias ou semanas, vinha de repente sobre a grande congregação — não num canto, mas em Londres, Bristol, Newcastle — um poder violento e impetuoso, que como vento possante ou torrente feroz, então varria todos os opositores. E isto muitas vezes continuava, com intervalos maiores ou menores, por várias semanas ou meses. Mas gradualmente cessava, e então a obra de Deus prosseguia por graus suaves, enquanto aquele Espírito, regando a semente que fora lançada, confirmando e fortalecendo os que haviam crido, se dignava infundir a sua influência, secreta e refrescante como o orvalho silencioso. E esta diferença no seu modo usual de operar se observava não só na Grã-Bretanha e na Irlanda, mas em toda parte da América.
16. Não é, então, altamente provável que Deus leve adiante a sua obra do mesmo modo por que a começou? Que ele a leve adiante, não posso duvidar — por mais que Lutero afirme que um avivamento da religião nunca dura mais que uma geração, isto é, trinta anos (ao passo que o presente avivamento já continua há mais de cinquenta); ou por mais que os profetas do mal digam: “Tudo acabará quando os primeiros instrumentos forem removidos.” Haverá então, muito provavelmente, um grande abalo; mas não consigo convencer-me de que Deus tenha operado obra tão gloriosa para deixá-la afundar e morrer em poucos anos. Não: confio em que este é apenas o começo de uma obra muito maior, a alvorada da “glória dos últimos dias”.
Como o evangelho há de espalhar-se
17. E não é provável, digo, que ele a leve adiante do mesmo modo por que a começou? Ao primeiro irromper desta obra neste ou naquele lugar, pode haver um aguaceiro, uma torrente de graça; e assim em outras estações particulares, “que o Pai reservou no seu próprio poder”. Mas, em geral, ao que parece, o reino de Deus não virá “de modo visível”, mas crescerá silenciosamente, onde quer que se estabeleça, e se espalhará de coração em coração, de casa em casa, de cidade em cidade, de um reino a outro. Não pode espalhar-se, primeiro, pelas províncias restantes; depois, pelas ilhas da América do Norte; e, ao mesmo tempo, da Inglaterra para a Holanda, onde já há uma bendita obra em Utreque, Haarlem e muitas outras cidades? Provavelmente se espalhará destas para os protestantes na França, na Alemanha e na Suíça; depois para a Suécia, a Dinamarca, a Rússia e todas as demais nações protestantes da Europa.
18. Não podemos supor que o mesmo fermento da religião pura e sem mácula, do conhecimento e do amor experimental de Deus, da santidade interior e exterior, se espalhará depois para os católicos romanos na Grã-Bretanha, na Irlanda, na Holanda, na Alemanha, na França e na Suíça, e em todos os demais países onde romanistas e protestantes vivem misturados? Não será então fácil à sabedoria de Deus abrir caminho para a religião, na sua vida e no seu poder, para os países meramente papistas, como a Itália, a Espanha e Portugal? E não poderá ela difundir-se gradualmente dali a todos os que invocam o nome de Cristo, nas várias províncias da Turquia, na Abissínia, sim, e nas mais remotas partes, não só da Europa, mas da Ásia, da África e da América?
19. E em toda nação debaixo do céu, podemos razoavelmente crer, Deus observará a mesma ordem que observou desde o princípio do cristianismo. “Todos me conhecerão, diz o Senhor”; não do maior para o menor (esta é a sabedoria do mundo, que é loucura diante de Deus), mas “do menor para o maior”, para que o louvor não seja dos homens, mas de Deus. Antes do fim, até os ricos entrarão no reino de Deus. Com eles entrarão os grandes, os nobres, os honrados; sim, os governantes, os príncipes, os reis da terra. Por último de todos, os sábios e doutos, os homens de gênio, os filósofos, se convencerão de que são tolos; “se converterão e se tornarão como crianças”, e “entrarão no reino de Deus”.
20. Então se cumprirá plenamente, à casa de Israel — o Israel espiritual, de qualquer povo ou nação — aquela graciosa promessa: “Porei as minhas leis na mente deles e as escreverei no seu coração; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior. Pois serei misericordioso para com as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.” Então virão “os tempos” de universal “refrigério, da presença do Senhor”. O grande “Pentecostes” “se cumprirá plenamente”, e “homens piedosos de toda nação debaixo do céu”, por mais distantes que estejam uns dos outros, “serão todos cheios do Espírito Santo”; e “perseverarão na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações”; “tomarão o seu alimento com alegria e singeleza de coração. Grande graça haverá sobre todos eles”, e serão “de um só coração e de uma só alma”. A consequência natural disto será a mesma que foi no princípio da Igreja cristã: “Nenhum deles dirá que coisa alguma que possui é sua, mas terão tudo em comum. Nem haverá entre eles necessitado algum.” Todos os seus desejos, paixões e temperamentos serão moldados de um só modo, enquanto todos fazem a vontade de Deus na terra, como é feita no céu. Toda a sua “conversa será temperada com sal” e “transmitirá graça aos que ouvem”, pois não serão tanto eles que falam, “mas o Espírito do Pai que fala neles”. E não haverá “raiz de amargura brotando”; não haverá nenhum Ananias ou Safira, para trazer de volta entre eles o maldito amor ao dinheiro; não haverá parcialidade; e, por consequência, nenhuma tentação a pensamento de murmuração ou palavra descaridosa de um contra outro; enquanto todos são de um só coração e uma só alma, e só o amor informa o todo.
21. Removido assim felizmente o grande obstáculo do caminho — a saber, a vida dos cristãos —, os maometanos os olharão com outros olhos e começarão a dar atenção às suas palavras. E, como essas palavras estarão revestidas de energia divina, acompanhadas da demonstração do Espírito e de poder, os que dentre eles temem a Deus logo reconhecerão o Espírito pelo qual os cristãos falam. “Receberão com mansidão a palavra implantada” e darão fruto com perseverança. Observando que os cristãos mudaram de natureza — que são sóbrios, temperantes, justos, benevolentes, e isto apesar de todas as provocações —, da admiração da sua vida serão levados a considerar e abraçar a sua doutrina. E então o Salvador dos pecadores dirá: “Chegou a hora; glorificarei o meu Pai; buscarei e salvarei as ovelhas que erravam nos montes escuros.” Assim ele sairá na grandeza da sua força, e todos os seus inimigos fugirão diante dele. Todos os profetas de mentiras se desvanecerão, e todas as nações que os haviam seguido reconhecerão o grande Profeta do Senhor, “poderoso em obras e palavras”, e “honrarão o Filho, assim como honram o Pai”.
22. E então, removido o grande obstáculo também das nações pagãs, o mesmo Espírito será derramado sobre elas, mesmo as que estão nos confins do mar. O pobre indígena americano não mais perguntará: “Em que os cristãos são melhores que nós?” — quando vir a sua constante prática da temperança universal, da justiça, da misericórdia e da verdade. O pagão não mais terá motivo de dizer: “Homem cristão toma minha mulher; homem cristão muito bêbado; homem cristão mata homem!” Antes, vendo o quanto os cristãos excedem os seus próprios conterrâneos em tudo o que é amável e de boa fama, adotará linguagem bem diferente. A vida santa dos cristãos será um argumento a que não saberão resistir; e, vendo os cristãos praticarem constantemente o que é conforme à lei escrita no próprio coração deles, os seus preconceitos logo morrerão, e eles receberão de bom grado “a verdade como ela é em Jesus”.
23. Podemos razoavelmente crer que as nações pagãs misturadas aos cristãos, e as que, fazendo fronteira com nações cristãs, têm com elas constante intercâmbio, serão algumas das primeiras a aprender a adorar a Deus em espírito e em verdade — as que vivem no continente americano, por exemplo, ou nas ilhas que receberam colônias da Europa; e igualmente os habitantes das Índias Orientais vizinhos de estabelecimentos cristãos. A estes se podem acrescentar numerosas tribos de tártaros, as partes pagãs da Rússia, e os habitantes da Noruega, da Finlândia e da Lapônia. Provavelmente estes serão seguidos por aquelas nações mais distantes com quem os cristãos comerciam, aos quais impartirão o que é de valor infinitamente maior que as pérolas terrenas, ou o ouro e a prata. O Deus de amor preparará então os seus mensageiros e abrirá caminho para as regiões polares, para os mais profundos recessos da América, para as partes interiores da África, sim, para o coração da China e do Japão. E “a sua voz” então “sairá por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo!”
24. Mas ainda resta uma dificuldade considerável: há muitíssimas nações pagãs no mundo que não têm intercâmbio algum, por comércio ou qualquer outro meio, com cristãos de espécie alguma — como os habitantes das numerosas ilhas do mar do Sul. Ora, que se fará por esses pobres desterrados? “Como crerão”, diz o apóstolo, “naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” Sim; mas não pode Deus enviá-los? Não pode levantá-los, por assim dizer, das pedras? E pode faltar-lhe meio de enviá-los? Não: se não houvesse outro meio, ele pode “tomá-los pelo seu Espírito”, como fez a Ezequiel, ou pelo seu anjo, como fez a Filipe, e pô-los onde lhe aprouver. Sim, ele pode achar mil caminhos desconhecidos ao homem insensato. E certamente o fará: pois o céu e a terra podem passar, mas a sua palavra não passará; ele dará ao seu Filho “os confins da terra por sua possessão”.
As promessas e a esperança final
25. E assim também todo o Israel será salvo. Pois “o endurecimento veio em parte a Israel”, como observa o grande apóstolo, “até que a plenitude dos gentios entre”. Então “virá de Sião o Libertador e afastará de Jacó as impiedades”. “Deus encerrou a todos na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos.” E ele de tal modo usará de misericórdia para com todo o Israel que lhes dará todas as bênçãos, temporais e espirituais. Pois esta é a promessa: “O Senhor, teu Deus, te reunirá de todos os povos entre os quais te espalhou. E te circuncidará o coração, e o coração de tua descendência, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Dt 30.3–6). E ainda: “Eu os congregarei de todas as terras para onde os lancei; e os farei habitar em segurança. Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam para sempre. Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jr 32.37–40). E de novo: “Eu os tomarei dentre as nações, e os congregarei de todos os países, e os levarei à sua própria terra. Então aspergirei água pura sobre vocês, e ficarão purificados; e serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 36.24–28).
26. Naquele tempo se cumprirão todas aquelas gloriosas promessas feitas à Igreja cristã, que já não estará confinada a esta ou àquela nação, mas incluirá todos os habitantes da terra. “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte” (Is 11.9). “Não se ouvirá mais violência na tua terra, nem desolação dentro dos teus limites; mas aos teus muros chamarás Salvação, e às tuas portas, Louvor. Já não te servirá o sol para luz do dia, nem com o seu resplendor a lua te alumiará; mas o Senhor será a tua luz perpétua, e o teu Deus, a tua glória. Também todos os do teu povo serão justos… o renovo por mim plantado, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado. Porque, como a terra produz os seus renovos, e como o jardim faz brotar o que nele se semeia, assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante de todas as nações” (Is 60.18–21; 61.11).
27. Esta, entendo, é a resposta — sim, a única resposta plena e satisfatória que se pode dar — à objeção contra a sabedoria e a bondade de Deus, tirada do estado presente do mundo. Não será sempre assim: estas coisas são apenas permitidas por um tempo pelo grande Governador do mundo, para que ele tire um bem imenso e eterno deste mal temporário. Esta é a própria chave que o apóstolo nos dá: “Deus encerrou a todos na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos.” Em vista deste glorioso acontecimento, bem podemos exclamar: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria quanto do conhecimento de Deus!” — ainda que, por um tempo, “os seus juízos fossem insondáveis, e os seus caminhos, inescrutáveis”. Basta que estejamos certos deste ponto: que todos esses males passageiros terão bom termo, feliz conclusão, e que “a misericórdia, do princípio ao fim, reinará”. Toda pessoa sem preconceito pode ver com os próprios olhos que ele já está renovando a face da terra; e temos forte razão de esperar que a obra que ele começou a levará adiante até o dia do Senhor Jesus — que nunca interromperá esta bendita obra do seu Espírito, até haver cumprido todas as suas promessas, posto fim ao pecado, à miséria, à enfermidade e à morte, e restabelecido a santidade e a felicidade universais, fazendo todos os habitantes da terra cantar a uma só voz: “Aleluia! Reina o Senhor, o nosso Deus, o Todo-Poderoso!” “Ao nosso Deus, o louvor, a glória, a sabedoria, a honra, o poder e a força, para todo o sempre!”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.