SERMÃO 64
A nova criação
A restauração universal — novos céus e nova terra.
“Eis que faço novas todas as coisas.”
(Ap 21.5, NAA)Antes de ler
Este é o companheiro natural do Sermão 60: se lá Wesley falou da libertação da criação animal, aqui ele contempla a renovação de tudo — a restauração universal que sucederá à destruição universal. Partindo da única frase que o Cristo entronizado pronuncia em todo o Apocalipse — "faço novas todas as coisas" —, Wesley recusa de saída duas leituras que empobrecem o texto: a de que essas promessas já se cumpriram no tempo de Constantino, e a de que se referem apenas ao presente. Não: a linha da profecia vai além deste mundo, até o que virá quando este mundo não mais existir. E então ele percorre, com a imaginação de um poeta e o cuidado de um teólogo, o que será renovado — os céus, o ar sem tempestades, as águas límpidas, a terra sem espinhos nem terremotos, os animais sem crueldade (o lobo com o cordeiro), e, glória das glórias, os próprios filhos dos homens, livres da morte, da dor, do pranto e — a maior libertação de todas — do pecado. Uma nota de leitura: Wesley entremeia o texto de versos de Milton e Watts e de conjeturas científicas do seu tempo (o Sol, os cometas, os elementos), que ele mesmo trata como conjeturas — o alicerce é a Escritura, interpretada pela Escritura. Esta visão da nova criação, restaurada e glorificada, dialoga bem com a nossa leitura amilenista: a esperança cristã não é a fuga da matéria, mas a redenção do cosmo inteiro, coroada pela união íntima e ininterrupta com o Deus Trino.
— Bispo Ildo Mello
1. Que cena estranha se abre aqui à nossa vista! Quão remota de todas as nossas ideias naturais! Nem um vislumbre do que aqui se revela foi jamais visto no mundo pagão. Não só os pagãos modernos e incultos não têm a menor noção disto, mas era igualmente desconhecido dos refinados e polidos pagãos da antiga Grécia e Roma. E é quase tão pouco pensado ou entendido pela generalidade dos cristãos — não digo apenas os que o são de nome, que têm a forma de piedade sem o poder, mas até os que, em certa medida, temem a Deus e se esforçam por praticar a justiça.
2. Deve-se admitir que, depois de todas as pesquisas que possamos fazer, o nosso conhecimento desta grande verdade continua excessivamente curto e imperfeito. Sendo este um ponto de pura revelação, além do alcance de todas as nossas faculdades naturais, não podemos penetrar muito nele, nem formar dele concepção adequada. Mas pode ser um encorajamento, para os que em algum grau provaram os poderes do mundo vindouro, ir tão longe quanto pudermos, interpretando a Escritura pela Escritura, segundo a analogia da fé.
3. O apóstolo, arrebatado nas visões de Deus, diz-nos no primeiro versículo do capítulo: “Vi novo céu e nova terra”; e acrescenta (Ap 21.5): “Aquele que está assentado no trono disse” — creio que as únicas palavras que ele profere em todo o livro — “Eis que faço novas todas as coisas.”
4. Muitíssimos comentaristas nutrem a estranha opinião de que isto se refere apenas ao estado presente das coisas, e gravemente nos dizem que as palavras devem reportar-se ao estado florescente da Igreja que começou após as perseguições pagãs. Alguns deles até descobriram que tudo o que o apóstolo fala acerca do “novo céu e da nova terra” se cumpriu quando Constantino, o Grande, derramou riquezas e honras sobre os cristãos. Que modo miserável é este de tornar vão todo o conselho de Deus, quanto a toda aquela grande cadeia de acontecimentos, do tempo em que João estava em Patmos até o fim do mundo! Aliás, a linha desta profecia vai ainda mais longe: não termina com o mundo presente, mas nos mostra as coisas que virão quando este mundo não mais existir.
Os novos céus
5. Assim diz o Criador e Governador do universo: “Eis que faço novas todas as coisas” — tudo o que se inclui naquela expressão do apóstolo, “um novo céu e uma nova terra”. Um novo céu: a palavra original em Gênesis está no plural. E, de fato, esta é a linguagem constante da Escritura — não céu, mas céus. Por isso os antigos escritores judeus costumavam contar três céus; em conformidade com o que o apóstolo Paulo fala de ter sido “arrebatado ao terceiro céu”. É este, o terceiro céu, que se costuma supor ser a residência mais imediata de Deus — na medida em que se possa atribuir residência ao seu Espírito onipresente, que penetra e enche todo o universo. É ali (se falamos à maneira dos homens) que o Senhor se assenta no seu trono, cercado de anjos e arcanjos e de todos os seus ministros flamejantes.
6. Não podemos pensar que este céu sofra mudança alguma, tampouco o seu grande Habitante. Por certo este palácio do Altíssimo foi o mesmo desde a eternidade, e o será para todo o sempre. Só os céus inferiores estão sujeitos à mudança, o mais alto dos quais costumamos chamar de céu estrelado. Este, informa-nos Pedro, “está reservado para o fogo, até o dia do juízo e da perdição dos ímpios”. Naquele dia, “ardendo em fogo”, ele primeiro se enrolará como um pergaminho; depois “se dissolverá e passará com grande estrondo”; e por fim “fugirá da face daquele que está assentado no trono, e não se achará lugar para ele”.
7. Ao mesmo tempo, “as estrelas cairão do céu”, rompido o elo secreto que as retinha nas suas várias órbitas desde a fundação do mundo. Entretanto, o céu inferior, com os elementos que o compõem, “se derreterá com o calor ardente”, enquanto “a terra, e as obras que nela há, será queimada”. Esta é a introdução a um estado de coisas muito mais nobre, tal como ainda não penetrou no coração do homem conceber — a restauração universal, que há de suceder à destruição universal. Pois “esperamos”, diz o apóstolo, “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13).
8. Uma diferença considerável, sem dúvida, haverá no céu estrelado, quando for criado de novo: não haverá ali estrelas cadentes, nem cometas. Quer esses corpos horríveis e excêntricos sejam planetas semiformados, num estado caótico, quer sejam corpos que já passaram pela sua conflagração geral, certamente não terão lugar no novo céu, onde tudo será exata ordem e harmonia. Pode haver muitas outras diferenças entre o céu que agora existe e o que existirá após a renovação; mas estão acima da nossa compreensão: devemos deixar que a eternidade as explique.
O ar renovado
9. Podemos conceber mais facilmente as mudanças que se operarão no céu inferior, na região do ar. Já não será rasgado por furacões, nem agitado por furiosas tempestades. Meteoros perniciosos ou aterradores não mais terão nele lugar. Já não teremos ocasião de dizer:
Ali, como trombeta forte e possante,
o teu trovão sacode a nossa terra,
enquanto os rubros relâmpagos ondeiam,
estandartes do teu exército!
Não: tudo será então luminoso, belo e sereno, um vívido retrato do dia eterno.
10. Todos os elementos (tomada a palavra no sentido comum, para os princípios de que se compõem todos os seres naturais) serão verdadeiramente novos, inteiramente mudados quanto às suas qualidades, embora não quanto à sua natureza. O fogo é, no presente, o destruidor geral de todas as coisas debaixo do sol, dissolvendo tudo o que entra na esfera da sua ação. Mas, assim que tiver cumprido o seu último grande ofício de destruir os céus e a terra, as destruições operadas pelo fogo chegarão a fim perpétuo. Não destruirá mais; não consumirá mais; esquecerá o seu poder de queimar — que possui apenas durante o estado presente das coisas — e será tão inofensivo nos novos céus e na nova terra quanto agora o é no corpo dos homens e dos animais, e na substância das árvores e das flores, em todos os quais grandes quantidades de fogo etéreo estão alojadas. Mas provavelmente reterá o seu poder vivificante, ainda que despojado do poder de destruir.
11. Já se observou que o ar calmo e plácido não mais será perturbado por tempestades. Não haverá mais meteoros, com o seu horrível clarão, a apavorar os pobres filhos dos homens. Não podemos acrescentar (embora à primeira vista soe como paradoxo) que não haverá mais chuva? É digno de nota que não a havia no paraíso, circunstância que Moisés menciona particularmente (Gn 2.5–6): “O Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra; mas subia da terra uma neblina que regava toda a face do solo”, com umidade suficiente para todos os fins da vegetação. Temos toda razão de crer que assim será quando o paraíso for restaurado. Por consequência, não haverá mais nuvens nem névoas, mas um só dia brilhante e refulgente. Muito menos haverá vapores venenosos ou rajadas pestilentas; mas apenas brisas agradáveis e saudáveis, abanando a terra com asas perfumadas.
As águas
12. Mas que mudança sofrerá o elemento água, quando todas as coisas forem feitas novas! Será, em toda parte do mundo, clara e límpida, pura de toda mistura desagradável ou insalubre, brotando aqui e ali em fontes cristalinas, para refrescar e adornar a terra “com o curso líquido de um regato murmurante”. Pois, sem dúvida, como havia no paraíso, haverá vários rios deslizando mansamente, para o uso e o prazer do homem e do animal. Mas o escritor inspirado declarou expressamente: “já não haverá mar” (Ap 21.1). Temos toda razão de crer que, no princípio do mundo, quando Deus disse “Ajuntem-se as águas debaixo do céu num só lugar, e apareça a porção seca” (Gn 1.9), a terra seca se estendeu sobre a face das águas e a cobriu de todos os lados. E assim parece ter permanecido, até que, para o dilúvio geral, “abriram-se as comportas do céu e romperam-se as fontes do grande abismo”. Mas o mar então se recolherá aos seus limites primevos e não mais aparecerá na superfície da terra. Pois já não haverá necessidade do mar: ou, como supõe o antigo poeta, toda terra produzirá todas as coisas — cada parte da terra naturalmente produzirá o que os seus habitantes precisarem —, ou toda a humanidade obterá o que a terra inteira oferece por um transporte muito mais fácil. Pois todos os habitantes da terra, informa-nos o nosso Senhor, serão então “iguais aos anjos”, à altura deles tanto em rapidez quanto em força, de modo que poderão, tão rápido quanto o pensamento, transportar-se, ou ao que precisarem, de um lado ao outro do globo.
A nova terra
13. Mas, ao que parece, uma mudança maior se operará na terra do que mesmo no ar e na água. Não que eu possa crer naquela maravilhosa “descoberta” de Jacob Böhme, que muitos tão avidamente defendem — que a própria terra, com todo o seu mobiliário e habitantes, será então transparente como vidro. Não parece haver o menor fundamento para isto, nem na Escritura nem na razão. Certamente não na Escritura: não conheço um só texto no Antigo ou no Novo Testamento que afirme tal coisa. Nem consigo conceber que tenha fundamento na razão. Alegou-se, de fato, com calor, que todas as coisas seriam muito mais belas se fossem de todo transparentes. Mas não posso compreendê-lo; aliás, compreendo justamente o contrário. Suponha que cada parte de um corpo humano fosse feita transparente como cristal: pareceria mais bela do que agora? Não; antes nos chocaria além da medida. A superfície do corpo, e em particular “o divino rosto humano”, é sem dúvida um dos objetos mais belos que se acham debaixo do céu; mas, se você pudesse olhar através da face rosada e da fronte lisa, e distintamente ver tudo o que jaz por dentro, apartaria dela a vista com repugnância e horror!
14. Consideremos, a seguir, as mudanças que razoavelmente supomos que se darão na terra. Ela não mais será presa de frio intenso, nem ressecada por calor extremo, mas terá tal temperatura que será a mais favorável à sua fertilidade. Se, para punir os seus habitantes, Deus antigamente inclinou obliquamente o globo, ocasionando frio violento numa parte e calor violento noutra, ele sem dúvida ordenará então que se restaure a posição original; de modo que haverá fim, de um lado, do calor abrasador que torna algumas partes dela mal habitáveis e, de outro, do rigor do frio eterno.
15. E ela então não conterá em si nenhum princípio discordante ou destruidor. Não mais terá aquelas convulsões violentas nas próprias entranhas. Não mais será abalada ou fendida pela força impetuosa dos terremotos, e por isso não precisará nem do Vesúvio, nem do Etna, nem de montanhas em chamas para preveni-los. Não haverá mais rochas horríveis nem precipícios assustadores; nem desertos agrestes, nem areias estéreis; nem pântanos intransponíveis a engolir o viajante desavisado. Haverá, sem dúvida, desigualdades na superfície da terra, que não são defeitos, mas belezas. Pois, embora eu não afirme, com o poeta, que a terra tem essa variedade do céu, não posso pensar que colinas suavemente elevadas sejam algum defeito, mas antes um ornamento da terra recriada. E sem dúvida teremos então ocasião de dizer:
Eis que a sua admirável arte reveste
os campos de um verde alegre;
mil ervas a sua mão exibe,
e mil flores entre elas!
16. E qual será a produção geral da terra? Não espinhos, sarças ou abrolhos; não erva inútil ou fétida; não planta venenosa, nociva ou desagradável; mas toda a que possa, de algum modo, contribuir para o nosso uso ou prazer. Quão além de tudo o que a mais viva imaginação é agora capaz de conceber! Não mais lamentaremos a perda do paraíso terrestre. Pois toda a terra será então um paraíso mais belo do que Adão jamais viu.
Os viventes e o homem
17. Tal será o estado da nova terra quanto às suas partes inanimadas. Mas, por maior que seja esta mudança, é pouco, é nada, em comparação com a que se dará por toda a natureza animada. Na parte viva da criação viram-se os efeitos mais deploráveis da apostasia de Adão. Toda a criação animada, tudo o que tem vida, do leviatã ao mais ínfimo ácaro, foi por ela sujeita a tal futilidade como as criaturas inanimadas não puderam ser. Foram sujeitas àquele monstro cruel, a morte, o conquistador de tudo o que respira; e ao seu arauto, a dor, nas suas dez mil formas — embora “Deus não tenha feito a morte, nem se comprazer na perdição de nenhum vivente”. Quantos milhões de criaturas no mar, no ar e em toda parte da terra só conseguem agora preservar a própria vida tirando a vida de outras, despedaçando e devorando os seus pobres, inocentes e indefesos semelhantes! Provavelmente não só dois terços da criação animal, mas noventa e nove em cem, estão na necessidade de destruir outras para preservar a própria vida! Mas nem sempre será assim. Aquele que está assentado no trono logo mudará a face de todas as coisas e dará prova cabal a todas as suas criaturas de que “a sua misericórdia está sobre todas as suas obras”. Na nova terra, nenhuma criatura matará, ferirá ou causará dor a outra. O escorpião não terá ferrão venenoso; a víbora, dentes peçonhentos. O leão não terá garras para rasgar o cordeiro. Aliás, nenhuma criatura, fera, ave ou peixe, terá inclinação alguma de ferir outra, pois a crueldade estará bem longe, e a ferocidade será esquecida. De modo que não mais se ouvirá violência, nem se verá desolação na face da terra. “O lobo habitará com o cordeiro” (as palavras podem entender-se tanto literal quanto figuradamente), “e o leopardo se deitará junto ao cabrito; não farão mal nem dano”, do nascer ao pôr do sol.
18. Mas a mais gloriosa de todas será a mudança que então se dará nos pobres, pecadores e miseráveis filhos dos homens. Estes haviam caído, assim como de maior altura, também em maior profundidade que qualquer outra parte da criação. Mas eles “ouvirão grande voz vinda do céu, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles; eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles” (Ap 21.3). Daí surgirá um estado sem mistura de santidade e felicidade, muito superior ao que Adão desfrutou no paraíso. De que bela maneira o descreve o apóstolo: “Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima, e já não haverá morte, nem tristeza, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram!” Assim como não haverá mais morte, nem dor ou doença que a ela prepare; assim como não mais haverá pranto por amigos, nem separação deles; assim não haverá mais tristeza nem clamor. Aliás, haverá libertação maior que tudo isto: pois não haverá mais pecado. E, para coroar tudo, haverá uma profunda, íntima e ininterrupta união com Deus; uma constante comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo, pelo Espírito; um contínuo gozo do Deus Três-e-Um, e de todas as criaturas nele!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.