SERMÃO 84
A pergunta decisiva
Um dos mais poderosos apelos evangelísticos de Wesley.
“Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”
(Mt 16.26, NAA)Antes de ler
Este é um dos grandes sermões evangelísticos de Wesley — construído inteiro sobre a pergunta de Jesus que ninguém consegue responder sem tremer. Wesley a desdobra em três: o que significa “ganhar o mundo inteiro” (todos os prazeres, a beleza, a honra, a riqueza); o que significa “perder a alma” (perder a alegria presente da fé e, depois da morte, a bem-aventurança dos santos); e, por fim, o que de fato aproveita ao homem essa troca. A parte final é uma desmontagem brilhante das três suposições que sustentam a má escolha: que a vida religiosa é infeliz (falso — religião é amor, e amor é a única felicidade sólida), que a vida no pecado é feliz (falso — nenhum homem mau é feliz), e que temos muitos anos garantidos (falso — ninguém tem sequer o dia de amanhã).
Duas observações. Sobre o juízo: este sermão descreve o destino dos perdidos em termos de tormento eterno e consciente. Trato o texto de Wesley com fidelidade; registro apenas, como pastor, que essa é uma doutrina a se sustentar com humildade e temor — há na Escritura argumentos tanto para o tormento eterno quanto para a destruição final, e a ambos se deve dar peso. O que não se cede é isto: a salvação é sempre pela fé, e a perdição não é um decreto, mas uma escolha. E aqui está a segunda observação, tão nossa: no início da terceira parte Wesley crava o coração arminiano — “Deus não força homem algum à condenação inevitável; ele jamais destinou uma só alma ao inferno antes de nascer, nem a condenou desde o ventre materno”. Guarde também a reformulação genial com que ele encerra: a escolha real não é entre um céu temporário e um inferno eterno, mas entre dois céus ou dois infernos — um antegozo agora e a plenitude depois. “Escolha a vida!” — este é um sermão feito para ser pregado.
— Bispo Ildo Mello
1. Há uma observação célebre, creio que nas obras de Pascal, de que, se um homem de baixa condição quer falar de coisas elevadas — do que toca a reis ou reinos —, não lhe é fácil achar expressões adequadas, pois pouco conhece coisas dessa natureza; mas, se alguém de linhagem real fala de coisas reais, do que concerne ao seu reino ou ao do seu pai, a sua linguagem sai livre e fácil, por lhe serem tais coisas familiares. Do mesmo modo, se um mero habitante deste mundo inferior fala das grandes coisas do reino de Deus, dificilmente acha expressões à altura do assunto. Mas, quando o Filho de Deus fala das coisas mais altas, que concernem ao seu reino celeste, toda a sua linguagem é fácil e natural — visto que, desde toda a eternidade, todas essas coisas lhe são conhecidas.
2. Quão fortemente esta observação se exemplifica na passagem diante de nós! O Filho de Deus, o grande Rei do céu e da terra, usa aqui as palavras mais simples e fáceis; mas quão altas e profundas são as coisas que por elas exprime! Nenhum dos filhos dos homens as pode conceber plenamente, até que, emergindo das trevas do mundo presente, se torne habitante da eternidade.
3. Mas podemos conceber um pouco destas coisas profundas, se considerarmos, primeiro, o que está implicado na expressão “ganhar o mundo inteiro”; segundo, o que está implicado em perder a própria alma; e então, terceiro, veremos, na luz mais forte, o que aproveita ao homem que ganha o mundo inteiro e perde a sua alma.
I. Ganhar o mundo inteiro
1. Consideremos, primeiro, o que está implicado em ganhar o mundo inteiro. Talvez, à primeira audição, isto pareça a alguns o mesmo que conquistar o mundo inteiro. Mas não tem relação alguma com isso; e, aliás, tal expressão envolve absurdo manifesto. Pois é impossível que algum nascido de mulher jamais conquistasse o mundo inteiro, quando mais não fosse porque a breve vida do homem não bastaria para empreendimento tão desvairado. Nenhum homem jamais conquistou a metade, nem a décima parte do mundo. Mas, façam o que fizerem outros, não havia perigo de que algum dos ouvintes do nosso Senhor pensasse nisto. Entre todos os pecados da nação judaica, não se achava o desejo de império universal.
2. Deixando isto, achamos um sentido muito mais fácil e natural da expressão. “Ganhar o mundo inteiro” pode muito bem implicar ganhar todos os prazeres que o mundo pode dar. Pode-se, pois, supor que o homem de quem falamos tenha ganho tudo o que gratifica os seus sentidos — em particular, tudo o que pode aumentar o prazer do paladar, todas as delícias da comida e da bebida; e igualmente tudo o que possa gratificar o olfato ou o tato, tudo o que ele pode desfrutar em comum com os brutos. Pode ter toda a fartura e toda a variedade desses objetos que o mundo pode oferecer.
3. Podemos ainda supô-lo ter ganho tudo o que gratifica “o desejo dos olhos”, tudo o que (principalmente pelo olho) transmite algum prazer à imaginação. Os prazeres da imaginação nascem de três fontes: a grandeza, a beleza e a novidade. Que ele esteja, pois, cercado das coisas mais grandiosas, mais belas e mais inéditas que se possam achar em parte alguma. Pois tudo isto está manifestamente implicado em ganhar o mundo inteiro.
4. Mas há também outra coisa aqui implicada, que os homens de espírito mais elevado preferiram a todos os prazeres dos sentidos e da imaginação juntos: a honra, a glória, o renome. Quase nenhum princípio na mente humana é de maior força que este. Triunfa sobre as mais fortes inclinações da natureza, sobre todos os nossos apetites e afetos. Falavam eles do amor à pátria; mas isto nunca os teria levado até o fim, se não houvesse também a “imensa sede de louvor”. Ora, o homem de quem falamos ganhou disto em abundância: é louvado, se não admirado, por todos ao seu redor. Aliás, o seu nome se espalhou por terras distantes, por assim dizer, até os confins da terra.
5. Acrescente-se a isto que ele ganhou riqueza em abundância; que não há fim para os seus tesouros; que ajuntou prata como o pó e ouro como a areia do mar. Ora, quando um homem obteve todos esses prazeres, tudo o que gratifica os sentidos ou a imaginação; quando ganhou um nome honrado e também entesourou muito para muitos anos — então se pode dizer, num sentido fácil e natural, que ele “ganhou o mundo inteiro”.
II. Perder a própria alma
1. O ponto seguinte a considerar é o que está implicado em perder a própria alma. Aqui, porém, entramos numa cena mais profunda, e precisamos de atenção mais firme. Pois é fácil resumir tudo o que se implica em “ganhar o mundo inteiro”, mas não é fácil entender tudo o que se implica em “perder a própria alma”. Ninguém, de fato, o pode conceber plenamente, até haver passado do tempo para a eternidade.
2. A primeira coisa que isto inegavelmente implica é a perda de todos os prazeres presentes da religião, todos os que ela concede aos homens verdadeiramente religiosos, já nesta vida. “Se há alguma consolação em Cristo, se algum conforto de amor” — no amor de Deus e de toda a humanidade —, “se alguma alegria no Espírito Santo”, se há uma paz de Deus que excede todo o entendimento, se há algum regozijo no testemunho de uma boa consciência para com Deus — é manifesto que tudo isto se perde por inteiro no homem que perde a sua alma.
3. Mas a vida presente logo terá fim: sabemos que passa como uma sombra. Está próxima a hora em que o espírito será convocado a voltar a Deus, que o deu. Naquele momento solene,
deixando o velho, ambos os mundos de uma vez contemplam
os que estão no umbral do novo.
E, quer olhe para trás, quer para diante, quão aprazível é a perspectiva para o que salva a sua alma! Se olha para trás, tem “a calma lembrança de uma vida bem vivida”. Se olha para diante, há uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, e vê o cortejo de anjos pronto a levá-lo ao seio de Abraão. Mas como é, naquela hora solene, com o homem que perde a sua alma? Se olha para trás, que conforto há nisto? Nada vê senão cenas de horror, motivo de vergonha, remorso e autocondenação — um antegozo do “verme que não morre”. Se olha para diante, que vê? Nenhuma alegria, nenhuma paz! Nenhum lampejo de esperança de ponto algum do céu! Anos atrás, um homem que voltara, como o cão ao seu vômito, foi ferido em pleno curso do pecado. Um amigo, ao visitá-lo, orou: “Senhor, tem misericórdia dos que estão a ponto de deixar o corpo e não sabem quem os receberá à entrada do outro mundo, se um anjo ou um demônio!” O enfermo gritou com um brado dilacerante: “Um demônio! Um demônio!”, e morreu. Fim assim pode esperar todo o que perde a sua alma.
4. Mas em que situação está o espírito de um homem bom, ao entrar na eternidade? O cortejo o aguarda, a hoste servidora de amigos invisíveis. Recebem o espírito recém-nascido e o conduzem em segurança ao seio de Abraão, às delícias do Paraíso, o jardim de Deus, onde a luz do seu rosto perpetuamente brilha. É apenas um dentre mil louvores desta antessala do céu que “ali os perversos deixam de perturbar, ali repousam os cansados”. Pois ali eles têm inumeráveis fontes de felicidade que não podiam ter na terra. Ali encontram os gloriosos mortos dos tempos antigos. Conversam com Adão, o primeiro dos homens; com Noé, o primeiro do mundo novo; com Abraão, o amigo de Deus; com Moisés e os profetas; com os apóstolos do Cordeiro; com os santos de todas as eras; e, acima de tudo, estão com Cristo.
5. Quão diferente, ai! é o caso do que perde a sua alma! No momento em que entra na eternidade, encontra o diabo e os seus anjos. Triste cortejo para o mundo dos espíritos! Ou é lançado em cadeias de trevas, reservado para o juízo do grande dia; ou, na melhor das hipóteses, vagueia de um lado a outro, buscando descanso e não o achando — talvez o busque, como o espírito imundo lançado do homem, por lugares secos, áridos e desolados. E pouco conforto pode achar aqui, visto que tudo contribui para aumentar, não remover, a temerosa expectativa da indignação ardente que devorará os ímpios.
6. Pois mesmo isto é para ele apenas o começo das dores. Ainda um pouco, e ele verá “o grande trono branco descer do céu, e aquele que nele se assenta, de cuja face fogem a terra e o céu, e não se acha lugar para eles”. E “os mortos, pequenos e grandes, estão diante de Deus, e são julgados, cada um segundo as suas obras”. “Então dirá o Rei aos que estão à sua direita” (Deus permita que o diga a você!): “Venham, benditos de meu Pai! Herdem o reino que lhes está preparado desde a fundação do mundo.” E os anjos afinarão as suas harpas e cantarão: “Levantem, ó portais, as suas cabeças; levantem-se, ó portas eternas, para que entrem os herdeiros da glória.” E então eles “resplandecerão como o fulgor do firmamento, e como as estrelas, para todo o sempre”.
7. Quão diferente será a sorte do que perde a sua alma! Nenhuma sentença de alegria será pronunciada sobre ele, mas uma que o traspassará de horror indizível (Deus nos livre de que seja pronunciada sobre algum de vocês que aqui estão diante de Deus!): “Apartem-se de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos!” E quem pode duvidar de que aqueles espíritos infernais executarão de imediato a sentença, arrastando os abandonados de Deus para o seu próprio lugar de tormento — para aquelas
regiões de tristeza, sombras lúgubres, onde a paz
e o descanso jamais podem habitar; onde a esperança nunca chega,
a esperança que chega a todos os filhos dos homens que estão deste lado da eternidade. Mas não a eles: o abismo está agora fixado, e não o podem transpor. Desde o momento em que são lançados no lago de fogo que arde com enxofre, os seus tormentos não só são sem intermissão, mas também sem fim. Pois “não têm descanso, nem de dia nem de noite, e a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre”.
III. Que aproveita ao homem?
Por mais rápida que seja esta vista das coisas, não ficaria alguém assombrado de que um homem, uma criatura dotada de razão, voluntariamente escolhesse — digo, escolhesse, pois Deus não força homem algum à condenação inevitável; ele jamais
destinou uma só alma, antes de nascer, ao inferno,
nem a condenou desde o ventre materno —
escolhesse assim perder a sua alma, ainda que fosse para ganhar o mundo inteiro? Mas, para abrandar um pouco o nosso assombro, observemos as suposições que um homem geralmente faz antes de reconciliar-se com essa escolha fatal.
1. Ele supõe, primeiro, que “a vida religiosa é uma vida de miséria”. Que a religião é miséria! Como é possível que alguém nutra pensamento tão estranho? Se você o imagina, a razão é clara: você não sabe o que é a religião. “Sei, sim, tão bem quanto você.” E o que é, então? “Ora, é não fazer mal a ninguém.” Não é assim; muitas aves e feras não fazem mal a ninguém, e nem por isso são capazes de religião. “Então é ir à igreja e à ceia.” Não é. Isto pode ser excelente ajuda à religião, e todo o que deseja salvar a alma deve frequentá-las em toda oportunidade; e, contudo, é possível que você as frequente todos os seus dias e ainda não tenha religião alguma. A religião é coisa mais alta e mais profunda que qualquer preceito exterior.
2. Que é, então, a religião? É fácil responder, se consultarmos os oráculos de Deus. Segundo estes, ela se resume num só ponto: não é mais nem menos que amor; é o amor que “é o cumprimento da lei, o alvo do mandamento”. A religião é o amor de Deus e do próximo — isto é, de todo homem debaixo do céu. Este amor, governando toda a vida, animando todos os nossos temperamentos, dirigindo todos os nossos pensamentos, palavras e ações, é “a religião pura e sem mácula”.
3. Ora, haverá alguém tão ousado a ponto de dizer que o amor é miséria? É miséria amar a Deus, dar-lhe o meu coração, a ele, o único digno dele? Antes, é a mais verdadeira felicidade; sim, a única felicidade verdadeira que se acha debaixo do sol. Assim, toda a experiência prova a justeza daquela reflexão feita há muito: “Tu nos fizeste para ti, e o nosso coração não descansa enquanto não descansa em ti.” Ou imagina alguém que o amor ao próximo é miséria — o amar cada homem como a nossa própria alma? Tão longe disto que, depois do amor de Deus, é este que proporciona a maior felicidade de que somos capazes.
4. Isto todo homem razoável há de admitir. Mas ele pode objetar: “Há mais que isto implicado na religião. Ela implica não só o amor de Deus e do próximo, mas também muito fazer e sofrer. E como pode isto conciliar-se com a felicidade?” Há certamente alguma verdade nesta objeção. A religião implica fazer e sofrer. Consideremos, pois, com calma, se isto diminui ou aumenta a nossa felicidade. A religião implica, primeiro, fazer muitas coisas. Pois o amor de Deus naturalmente nos levará, em toda oportunidade, a conversar com aquele que amamos, a falar-lhe na oração pública ou particular, e a ouvir as palavras da sua boca, que “nos são mais preciosas que milhares de peças de ouro e prata”. Mas, suponhamos que fazemos tudo isto: diminuirá isso a nossa felicidade? Justamente o contrário. É claro que todos esses frutos do amor são meios de aumentar o amor de que brotam e, por consequência, aumentam a nossa felicidade na mesma proporção.
5. Deve-se também admitir que, assim como o amor de Deus naturalmente conduz às obras de piedade, o amor do próximo naturalmente conduz às obras de misericórdia. Inclina-nos a alimentar o faminto, a vestir o nu, a visitar os doentes e os presos, a ser olhos para o cego e pés para o coxo, amparo para a viúva e pai para o órfão. Mas você poderia supor que fazer isto impeça ou diminua a sua felicidade — sim, ainda que você fizesse tanto a ponto de ser como um anjo da guarda para todos ao seu redor? Pelo contrário, é verdade infalível que todas as alegrias do mundo são menores que a única alegria de fazer o bem. Anos atrás, perguntaram a um homem dado aos prazeres: “Capitão, qual foi o maior prazer que já teve?” Após breve pausa, ele respondeu: “Quando marchávamos pela Irlanda, num dia muito quente, parei numa cabana à beira da estrada e pedi um pouco de água. A mulher me trouxe uma caneca de leite. Dei-lhe uma moeda de prata; e a alegria que aquela pobre criatura demonstrou me deu o maior prazer que já tive na vida.” Ora, se fazer o bem deu tanto prazer a quem agiu por mera generosidade natural, quanto mais não dará a quem o faz por um princípio mais nobre — o amor conjunto de Deus e do próximo!
6. “Talvez isto também se admita. Mas a religião implica, segundo a conta cristã, não só fazer, mas sofrer. E como pode o sofrimento conciliar-se com a felicidade?” Perfeitamente. Muitos séculos atrás, observou Crisóstomo: “O cristão tem as suas tristezas, bem como as suas alegrias; mas a sua tristeza é mais doce que a alegria.” Ele pode acidentalmente sofrer perda, pobreza, dor; mas em todas essas coisas é mais que vencedor. Pode testemunhar: o trabalho é descanso, e a dor é doce, enquanto tu, meu Deus, aqui estás. Pode dizer: “O Senhor deu, o Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor!” Há de sofrer, mais ou menos, opróbrio, pois “o servo não é maior que o seu Senhor”; mas tanto mais “o Espírito da glória e de Deus repousa sobre ele”. Sim, o próprio amor será, em várias ocasiões, fonte de sofrimento: o amor de Deus produzirá frequentemente a doce ferida, o derreter de um coração quebrantado; e o amor do próximo dará origem à tristeza solidária, levando-nos a visitar o órfão e a viúva na sua aflição e a “misturar as nossas lágrimas de compaixão com as dos que choram”. Mas não podemos bem dizer que estas são “lágrimas que deleitam, e suspiros que sobem ao céu”? Tão longe estão todos esses sofrimentos de impedir ou diminuir a nossa felicidade que grandemente contribuem para ela. De modo que não pode haver suposição mais falsa que a de que a vida religiosa é uma vida de miséria, visto que a verdadeira religião, considerada na sua natureza ou nos seus frutos, é felicidade verdadeira e sólida.
7. O homem que escolhe ganhar o mundo pela perda da alma supõe, segundo, que “a vida no pecado é uma vida de felicidade”. Que a maldade é felicidade! Até um velho poeta pagão poderia tê-lo ensinado melhor. O próprio Juvenal descobriu: “nenhum homem mau é feliz.” E quão expressamente o próprio Deus declara: “Não há paz para os perversos!” Nenhuma paz de espírito; e, sem esta, não pode haver felicidade. Mas, sem nos valermos da autoridade, pesemos a coisa na balança da razão. Pergunto: que pode fazer feliz um homem mau? Você responde: “Ele ganhou o mundo inteiro.” Admitimos; e o que isto implica? Que ganhou tudo o que gratifica os sentidos, em particular tudo o que pode agradar ao paladar. É verdade; mas podem o comer e o beber fazer feliz um homem? Nunca fizeram, e é certo que nunca farão. Isto é alimento grosseiro demais para um espírito imortal. Mas, suponhamos que lhe desse uma pobre espécie de felicidade durante os momentos em que engolia: que fará ele com o resto do tempo? Não lhe pesará nas mãos? Não gemerá sob muitas horas tediosas?
8. Para remover, ou ao menos abrandar, esse estranho desassossego, que ele acrescente os prazeres da imaginação. Que se cubra de prata e ouro, que edifique palácios esplêndidos e os mobilie do modo mais elegante, que trace passeios e jardins embelezados com tudo o que a natureza e a arte podem oferecer. E por quanto tempo isto lhe dará prazer? Só enquanto for novo. Assim que a novidade se vai, o prazer também se vai. Depois de contemplá-los uns poucos meses ou anos, já não lhe dão satisfação alguma. O homem que salva a sua alma leva-lhe vantagem justamente neste aspecto. Pois pode dizer: nos prazeres que as posses do rico ostentam, sem inveja reivindico a minha parte; enquanto todo belo objeto que o meu olho contempla contribui para alegrar o meu coração.
9. “Contudo, ele tem ainda outro recurso: o aplauso, a glória. E não o fará isto feliz?” Não fará. Pois ele não pode ser aplaudido por todos os homens — nenhum jamais o foi. Alguns o louvarão, talvez muitos, mas não todos. É certo que alguns o censurarão; e quem é ávido de aplauso sentirá mais dor com a censura de um do que prazer com o louvor de muitos. De modo que todo o que busca felicidade no aplauso infalivelmente se decepcionará, e achará, no cômputo geral, muito mais dor que prazer.
10. Mas, para abreviar a questão, tomemos o exemplo de um que ganhou mais deste mundo do que provavelmente qualquer homem hoje vivo. Fizeram-no feliz todas as suas conquistas? Responda por si mesmo! Disse então Hamã: “Tudo isto, porém, de nada me aproveita, enquanto eu vir o judeu Mordecai sentado à porta.” Pobre Hamã! Um só temperamento ímpio — fosse orgulho, inveja, ciúme ou vingança — deu-lhe mais dor, mais vexame de espírito, do que todo o mundo lhe poderia dar prazer. E assim há de ser, pela própria natureza das coisas; pois todos os temperamentos ímpios são temperamentos infelizes. A ambição, a cobiça, a vaidade, o afeto desregrado, a malícia, o desejo de vingança carregam consigo o próprio castigo e se vingam na alma em que habitam. Que são estes — sobretudo quando combinados com uma consciência desperta — senão os cães do inferno, já roendo a alma, proibindo que a felicidade se aproxime? Não viram isto até os pagãos? De que ri você? — diz o poeta — “Muda o nome, e a fábula fala de ti!” A luxúria, o desejo tolo, a inveja, a malícia ou a ira estão agora rasgando o seu peito; o amor ao dinheiro ou ao louvor, o ódio ou a vingança estão agora devorando o seu pobre espírito. Tal é a felicidade que há no vício! Tão vã é a suposição de que a vida no pecado é uma vida de felicidade!
11. Mas ele faz uma terceira suposição: que certamente viverá quarenta, ou cinquenta, ou sessenta anos. Você conta com isto? Com viver sessenta anos? Quem lhe disse que viveria? Não é senão o inimigo de Deus e do homem, o assassino das almas. Não lhe dê crédito; ele foi mentiroso desde o princípio. É eminentemente mentiroso nisto, pois nem lhe daria a vida, se pudesse. Se Deus o permitisse, ele o arrastaria agora mesmo ao seu próprio lugar. E não lhe pode dar a vida, ainda que quisesse: o fôlego do homem não está nas suas mãos. Ele não é o dispensador da vida e da morte; esse poder pertence ao Altíssimo. Foi um dos seus mais fiéis servos que gritou, anos atrás: “Uma semana de vida! Uma semana de vida! Trinta mil libras por uma semana de vida!” Mas não pôde comprar sequer um dia. Naquela noite, Deus lhe pediu a alma! E quão cedo pode pedi-la de você? Você tem certeza de viver sessenta anos? Tem certeza de viver um ano, um mês, uma semana, um dia? Ó, apresse-se a viver! Por certo, o homem que pode morrer esta noite deveria viver hoje.
12. Tão absurdas são todas as suposições feitas por quem ganha o mundo e perde a alma. Mas imaginemos por um momento que a maldade seja felicidade, e que ele certamente viverá sessenta anos; ainda assim eu perguntaria: que lhe aproveita ganhar o mundo inteiro por sessenta anos, e depois perder a alma eternamente? Pode tal escolha ser feita por alguém que considera o que é a eternidade? Melâncton, o mais douto dos reformadores alemães, relata o seguinte (não emito juízo sobre isto, apenas o registro quase com as suas palavras): “Quando eu estava em Wittenberg, saindo numa tarde de verão com vários colegas, ouvimos um canto incomum e, seguindo o som, vimos uma ave de figura estranha. Um de nós perguntou: ‘Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que és tu?’ Respondeu ela: ‘Sou um espírito condenado’; e, ao desvanecer-se, pronunciou estas palavras: ‘Ó eternidade, eternidade! Quem pode dizer a extensão da eternidade?’” E quão cedo esta será a linguagem do que vendeu a alma por sessenta anos de prazer!
13. De que modo impressionante isto é ilustrado por um dos antigos pais! “Suponha uma bola de areia do tamanho de toda a terra. Suponha que um grão dela fosse aniquilado a cada mil anos. Que seria mais desejável: ser feliz enquanto essa bola se consumisse à razão de um grão por milênio, e miserável depois para sempre; ou ser miserável enquanto ela se consumisse nessa proporção, e feliz depois para sempre?” Um homem sábio não poderia hesitar um só momento na escolha, visto que todo o tempo em que essa bola se consumiria guarda proporção infinitamente menor com a eternidade do que uma gota de água com todo o oceano. Admitindo, então, que a vida religiosa fosse de miséria, e a vida no pecado de felicidade, e que um homem tivesse garantido gozar dessa felicidade por sessenta anos — que lhe aproveitaria, se depois tivesse de ser miserável por toda a eternidade?
14. Mas ficou provado que o caso é bem outro: que a religião é felicidade, que a maldade é miséria, e que nenhum homem tem garantido viver sessenta dias. E, se assim é, haverá algum tolo, algum louco debaixo do céu, comparável ao que lança fora a própria alma, ainda que fosse para ganhar o mundo inteiro? Pois qual é o real estado da questão? Que escolha propõe Deus às suas criaturas? Não é: “Você quer ser feliz sessenta anos e depois miserável para sempre, ou miserável sessenta anos e depois feliz para sempre?” Não é: “Você quer primeiro um céu temporário e depois o inferno eterno, ou primeiro um inferno temporário e depois o céu eterno?” Mas é simplesmente isto: “Você quer ser miserável sessenta anos e miserável para sempre, ou feliz sessenta anos e feliz para sempre? Você quer um antegozo do céu agora e depois o céu para sempre, ou um antegozo do inferno agora e depois o inferno para sempre? Você quer dois infernos, ou dois céus?”
15. Dir-se-ia que não é preciso grande sagacidade para responder a esta pergunta. E esta é a própria pergunta que agora lhe proponho, em nome de Deus. Você quer ser feliz aqui e no porvir, no mundo que agora é e no que há de vir? Ou quer ser miserável aqui e no porvir, no tempo e na eternidade? Qual é a sua escolha? Que não haja demora: agora, tome uma ou outra! Tomo hoje o céu e a terra por testemunhas de que ponho diante de você a vida e a morte, a bênção e a maldição. Ó, escolha a vida! A vida de paz e amor agora; a vida de glória para sempre! Pela graça de Deus, escolha agora aquela boa parte, que nunca lhe será tirada! E, uma vez fixada a escolha, nunca recue; mantenha-a a todo custo. Prossiga em nome do Senhor, a quem você escolheu, e no poder da sua força! A despeito de toda oposição — da natureza, do mundo, de todos os poderes das trevas —, combata o bom combate da fé e lance mão da vida eterna! E então lhe está reservada uma coroa, que o Senhor, o justo Juiz, lhe dará naquele dia!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.