SERMÃO 86
Um chamado aos desviados
Há caminho de volta: um apelo cheio de esperança aos que se desviaram da graça.
“Será que o Senhor nos rejeitará para sempre? Acaso, não voltará a ser propício? Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações?”
(Sl 77.7–8, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley se dirige especialmente àqueles que conheceram a graça de Deus, mas depois se afastaram da fé e perderam a segurança da salvação. Seu propósito é combater dois perigos opostos: a presunção, que trata levianamente o pecado, e o desespero, que conclui que já não existe possibilidade de restauração.
A compreensão wesleyana admite a possibilidade real de apostasia. Um verdadeiro crente pode abandonar a fé, perder a graça justificadora e até mesmo perder a experiência da inteira santificação. Wesley, porém, insiste que o desviado ainda pode arrepender-se e ser restaurado. A possibilidade de queda não significa que a misericórdia de Deus tenha chegado ao fim.
Ao interpretar Hebreus 6 e 10, Wesley relaciona essas advertências ao contexto de cristãos judeus que renegavam publicamente Cristo e declaravam que sua morte fora merecida. Essa reconstrução histórica pertence à interpretação de Wesley e deve ser preservada como tal. O ponto pastoral permanece: quem ainda deseja voltar-se para Cristo demonstra não ter cometido o pecado imperdoável e não deve abandonar a esperança.
— Bispo Ildo Mello
1. A presunção é uma das grandes armadilhas do diabo, na qual muitos dos filhos dos seres humanos são apanhados. Eles confiam tanto na misericórdia de Deus que se esquecem completamente de sua justiça.
Embora Deus tenha declarado expressamente que “sem santificação ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14), convencem a si mesmos de que, no fim, Deus será melhor do que sua palavra.
Imaginam que podem viver e morrer em seus pecados e, apesar disso, escapar da condenação do inferno.
2. Embora muitos sejam destruídos pela presunção, um número ainda maior perece pelo desespero. Refiro-me à falta de esperança, à ideia de que lhes é impossível escapar da destruição.
Depois de lutarem muitas vezes contra seus inimigos espirituais e serem sempre vencidos, abandonam as armas. Já não combatem, porque não possuem esperança de vitória.
Sabendo, por uma experiência dolorosa, que não possuem poder para ajudar a si mesmos e não esperando que Deus os ajude, deitam-se debaixo do próprio fardo.
Já não se esforçam, porque supõem ser impossível alcançar a salvação.
3. Nesse caso, assim como em milhares de outros, “o coração conhece a sua própria amargura, e da sua alegria não participará o estranho” (Provérbios 14.10).
Não é fácil compreender essa condição quando nunca a experimentamos. “Quem conhece as coisas do ser humano, senão o próprio espírito humano que nele está?” (1 Coríntios 2.11).
Quem sabe, a não ser por experiência própria, o que significa possuir um espírito ferido dessa espécie?
Consequentemente, são poucos os que sabem demonstrar verdadeira compaixão por aqueles que estão debaixo dessa terrível tentação.
Poucas pessoas consideraram devidamente sua situação. Poucas deixam de ser enganadas pelas aparências.
Veem pessoas prosseguindo numa vida de pecado e concluem que fazem isso por pura presunção. Na realidade, muitas vezes acontece exatamente o contrário: agem por puro desespero.
Ou não possuem esperança alguma — e, enquanto isso acontece, não se esforçam absolutamente —, ou experimentam alguns intervalos de esperança e, enquanto eles duram, lutam pela vitória.
Essa esperança, porém, logo desaparece. Então, deixam de lutar e são levadas cativas por Satanás, para fazerem a vontade dele.
4. Isso acontece frequentemente com aqueles que começaram a correr bem, mas logo se cansaram no caminho celestial, especialmente com aqueles que certa vez viram a glória de Deus na face de Jesus Cristo, mas depois entristeceram o Espírito Santo e naufragaram na fé.
Muitos deles correm para o pecado como um cavalo corre para a batalha. Pecam de maneira tão aberta e deliberada que apagam completamente o Espírito Santo de Deus. Por isso, Deus os entrega aos desejos do próprio coração e permite que sigam suas imaginações.
Aqueles que são entregues dessa maneira podem tornar-se totalmente insensíveis, sem medo, tristeza ou preocupação, completamente tranquilos e indiferentes a respeito de Deus, do céu ou do inferno.
O deus deste mundo contribui muito para isso, cegando e endurecendo o coração deles.
Mesmo essas pessoas, porém, não seriam tão indiferentes se não fosse o desespero. A grande razão pela qual não sentem tristeza ou preocupação é não possuírem esperança.
Acreditam verdadeiramente que provocaram Deus de tal maneira que ele já não poderá ser novamente procurado.
5. Apesar disso, não precisamos desistir inteiramente nem mesmo dessas pessoas. Conhecemos algumas das mais indiferentes que Deus visitou novamente e restaurou ao primeiro amor.
Podemos ter esperança muito maior para aqueles desviados que não são indiferentes e que ainda se sentem inquietos: aqueles que desejam escapar da armadilha do diabo, mas pensam que isso seja impossível.
Estão plenamente convencidos de que não podem salvar a si mesmos e acreditam que Deus não os salvará.
Acreditam que ele fechou irrevogavelmente sua misericórdia na indignação. Fortalecem essa crença por meio de grande quantidade de argumentos. Enquanto esses argumentos não forem claramente removidos, não poderão possuir esperança de libertação.
É para aliviar essas almas desesperadas e incapazes que pretendo, com a ajuda de Deus:
I. Examinar quais são os principais argumentos pelos quais tantos desviados são levados a abandonar a esperança e a imaginar que Deus se esqueceu de ser bondoso;
II. Apresentar uma resposta clara e completa a cada um desses argumentos.
Examinarei, primeiramente, os principais argumentos que levam tantos desviados a imaginar que Deus se esqueceu de ser bondoso.
Não digo todos os argumentos, pois são incontáveis aqueles que o coração mau ou a antiga serpente podem sugerir, mas os principais, os que parecem mais convincentes e, por isso, são mais comuns.
1. O primeiro argumento que leva muitos desviados a acreditar que o Senhor já não poderá ser procurado é extraído da própria natureza da questão.
“Caso uma pessoa se rebele contra um príncipe terreno”, dizem eles, “muitas vezes morre pela primeira ofensa. Paga com a própria vida por sua primeira transgressão. Talvez, caso o crime seja diminuído por alguma circunstância favorável ou alguém interceda poderosamente por ela, sua vida possa ser poupada.
Mas, se depois de receber um perdão completo e gratuito, ela se rebelar uma segunda vez, quem se atreverá a interceder em seu favor? Não poderá esperar misericórdia alguma.
Se aquele que se rebela contra um rei terreno, depois de ter sido gratuitamente perdoado, não pode razoavelmente esperar um segundo perdão, qual será a condição daquele que, depois de ser gratuitamente perdoado por sua rebelião contra o grande Rei do céu e da terra, rebela-se novamente contra ele?
O que poderá esperar, senão que a ira de Deus caia sobre ele definitivamente?”
1. Eles reforçam esse argumento extraído da razão por meio de várias passagens das Escrituras.
Uma das mais fortes encontra-se na Primeira Carta de João:
“Se alguém vir um irmão cometer pecado que não leva à morte, pedirá, e Deus dará vida aos que não pecam para a morte. Há pecado que leva à morte, e por esse não digo que se deva pedir” (1 João 5.16).
Com base nisso, argumentam:
“Certamente, ‘não digo que se deva pedir’ equivale a dizer: ‘Digo que não se deve pedir.’
O apóstolo considera aquele que cometeu esse pecado numa condição verdadeiramente desesperadora! Tão desesperadora que nem sequer podemos orar por seu perdão; não podemos pedir vida para ele.
E qual pecado poderia ser mais razoavelmente considerado um pecado para a morte do que uma rebelião voluntária depois de receber perdão completo e gratuito?”
2. “Considerem, em segundo lugar”, dizem eles, “aquelas terríveis passagens da Carta aos Hebreus, uma no capítulo seis e outra no capítulo dez.
Comecemos pela segunda:
’Se continuarmos a pecar de propósito, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados. Pelo contrário, resta apenas uma terrível expectativa de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários.
Quem tiver rejeitado a lei de Moisés morre sem misericórdia. De quanto mais severo castigo vocês acham que será julgado merecedor aquele que pisou o Filho de Deus, profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado e insultou o Espírito da graça?
Pois conhecemos aquele que disse: “A mim pertence a vingança; eu retribuirei.” E ainda: “O Senhor julgará o seu povo.” Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo’” (Hebreus 10.26-31).
“Não está o Espírito Santo declarando expressamente que nossa condição é desesperadora?
Não declara que, se, depois de recebermos o conhecimento da verdade — depois de a conhecermos por experiência —, continuarmos pecando deliberadamente, como certamente fizemos muitas vezes, já não resta sacrifício pelos pecados, mas apenas uma terrível expectativa de juízo e fogo vingador que consumirá os adversários?”
3. “A passagem do capítulo seis não é exatamente paralela a essa?
É impossível que aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, caso tenham caído — literalmente, ‘e caíram’ —, sejam renovados novamente para o arrependimento, visto que crucificam de novo o Filho de Deus e o expõem à vergonha pública” (Hebreus 6.4-6).
4. “É verdade que alguns consideram que as palavras ‘é impossível’ não devam ser compreendidas literalmente, indicando absoluta impossibilidade, mas apenas enorme dificuldade.
Não parece, porém, existir razão suficiente para abandonar o sentido literal, visto que ele não implica qualquer absurdo nem contradiz outras passagens das Escrituras.
Isso”, dizem eles, “não elimina toda a esperança, visto que certamente provamos o dom celestial e nos tornamos participantes do Espírito Santo?
Como seria possível renovar-nos novamente para o arrependimento, para uma transformação completa do coração e da vida, se crucificamos novamente o Filho de Deus e o expusemos à vergonha pública?”
5. “Uma passagem ainda mais terrível, se isso for possível, encontra-se no capítulo doze de Mateus:
‘Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos seres humanos, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no porvir’” (Mateus 12.31-32).
Exatamente paralelas são estas palavras de nosso Senhor registradas por Marcos:
“Em verdade lhes digo que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem. Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo jamais terá perdão; será réu de pecado eterno” (Marcos 3.28-29).
6. Alguns consideram que todas essas passagens se referem ao mesmo pecado: que não apenas as palavras de nosso Senhor, mas também as de João a respeito do pecado para a morte e as de Paulo a respeito de crucificar novamente o Filho de Deus, pisar o Filho de Deus e insultar o Espírito da graça referem-se à blasfêmia contra o Espírito Santo, o único pecado que nunca será perdoado.
Seja isso verdade ou não, é necessário admitir que essa blasfêmia é absolutamente imperdoável e que, para os culpados dela, Deus já não poderá ser procurado.
3. Para confirmar esses argumentos extraídos da razão e das Escrituras, eles apelam para os fatos.
Perguntam:
“Não é fato que aqueles que abandonam a graça justificadora e naufragam na fé, aquela fé da qual procede a salvação presente, perecem sem misericórdia?
Quanto menos poderão escapar aqueles que abandonam a graça santificadora, naufragando naquela fé pela qual foram purificados de toda impureza da carne e do espírito!
Já existiu algum exemplo de uma pessoa de qualquer desses grupos ser renovada novamente para o arrependimento?”
Caso existam exemplos dessa espécie, talvez não pareça exagerado o pensamento de nosso poeta:
Até Judas luta para dominar seu desespero; Quase floresce a esperança nas sombras do inferno.
Esses são os principais argumentos extraídos da razão, das Escrituras e dos fatos pelos quais os desviados costumam justificar o abandono da esperança, supondo que Deus tenha fechado completamente sua misericórdia na indignação.
Apresentei-os com toda a sua força, para podermos julgá-los melhor e verificar se cada um deles não pode receber uma resposta clara, completa e satisfatória.
1. Começo pelo argumento extraído da natureza da questão:
“Caso uma pessoa se rebele contra um príncipe terreno, poderá talvez ser perdoada na primeira ocasião. Mas, caso se rebele novamente depois de receber perdão completo e gratuito, não existe esperança de conseguir um segundo perdão. Deve esperar morrer sem misericórdia.
Se aquele que se rebela novamente contra um rei terreno não pode esperar um segundo perdão, como poderá esperar misericórdia aquele que se rebela uma segunda vez contra o grande Rei do céu e da terra?”
2. Respondo: esse argumento, extraído da analogia entre as coisas terrenas e celestiais, parece convincente, mas não é sólido, por esta razão evidente: não existe analogia nesse caso.
Não pode existir proporção alguma entre a misericórdia de qualquer filho dos seres humanos e a misericórdia do Deus Altíssimo.
“Com quem vocês querem me comparar?”, diz o Senhor (Isaías 40.25). Com quem, seja no céu, seja na terra?
“Quem entre os deuses é semelhante ao Senhor?” (Salmo 89.6).
“Eu disse: vocês são deuses”, declara o salmista, referindo-se aos magistrados supremos (Salmo 82.6). Tamanhas são a dignidade e a autoridade deles em comparação com as pessoas comuns.
Mas o que são eles em comparação com o Deus do céu? Uma bolha sobre a onda.
O que é o poder deles comparado ao poder de Deus? O que é a misericórdia deles comparada à sua misericórdia?
Daí procede esta palavra consoladora: “Eu sou Deus e não homem” (Oseias 11.9); por isso, a casa de Israel não é consumida.
Porque ele é Deus, e não homem, suas misericórdias não têm fim.
Ninguém pode concluir que, porque um rei terreno não perdoará aquele que se rebelou contra ele uma segunda vez, o Rei dos Céus também não perdoará.
Sim, ele perdoará — não apenas até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Ainda que suas rebeliões se multiplicassem como as estrelas do céu e fossem mais numerosas do que os cabelos de sua cabeça, volte-se para o Senhor, e ele terá misericórdia de você; volte-se para o nosso Deus, porque ele é rico em perdoar.
3. “Mas João não elimina essa esperança por meio daquilo que diz a respeito do pecado para a morte?
A declaração ‘não digo que se deva pedir’ não equivale a dizer: ‘Digo que não se deve pedir’?
Isso não significa que Deus decidiu não ouvir essa oração e não conceder vida a esse pecador, nem mesmo por meio da oração de uma pessoa justa?”
4. Respondo: “Não digo que se deva pedir” certamente significa que não se deve pedir.
Sem dúvida, isso indica que Deus não concederá vida àqueles que cometeram esse pecado; que a sentença deles foi pronunciada e que Deus decidiu que não será revogada.
Ela não pode ser alterada nem mesmo pela oração fervorosa e eficaz que, em outros casos, pode muito em seus efeitos.
5. Pergunto, porém: em primeiro lugar, qual é o pecado para a morte? Em segundo lugar, qual é a morte ligada a esse pecado?
1. Primeiramente, qual é o pecado para a morte?
Há muitos anos, estando entre as pessoas mais experientes nas coisas de Deus que eu já havia conhecido, perguntei a algumas delas:
“O que vocês compreendem pela expressão ‘pecado para a morte’, mencionada na Primeira Carta de João?”
Elas responderam:
“Quando alguém está enfermo entre nós, chama os presbíteros da Igreja. Eles oram sobre ele, e a oração da fé salva o enfermo, e o Senhor o levanta.
Caso tenha cometido pecados que Deus estava castigando por meio daquela enfermidade, esses pecados lhe são perdoados.
Algumas vezes, porém, nenhum de nós consegue orar para que Deus o levante. Somos obrigados a dizer-lhe: ‘Receamos que você tenha cometido um pecado para a morte’, um pecado que Deus decidiu castigar com a morte. Não podemos orar por sua recuperação.
E nunca conhecemos um só caso em que semelhante pessoa tenha se recuperado.”
2. Não vejo absurdo algum nessa interpretação. Ela parece apresentar pelo menos um dos significados da expressão “pecado para a morte”: um pecado que Deus decidiu castigar com a morte do pecador.
Portanto, caso você tenha cometido um pecado dessa espécie e seu pecado o tenha alcançado; caso Deus o esteja disciplinando com alguma enfermidade grave, não será útil orar pela preservação de sua vida. Você foi irrevogavelmente sentenciado a morrer.
Observe, porém: isso não se refere à morte eterna.
De maneira alguma significa que você foi condenado a sofrer a segunda morte. Pelo contrário, indica que o corpo é destruído para que a alma escape da destruição.
Ao longo de muitos anos, eu mesmo vi numerosos exemplos disso.
Conheci muitos pecadores — principalmente desviados notórios que haviam alcançado altos graus de santidade e dado grande ocasião para os inimigos da religião blasfemarem — cuja vida Deus abreviou no meio de sua jornada, antes mesmo que chegassem à metade de seus dias.
Creio que essas pessoas cometeram um pecado para a morte. Por isso, foram retiradas, algumas mais rapidamente e outras mais lentamente, por um golpe inesperado.
Na maioria desses casos, porém, observou-se que a misericórdia triunfou sobre o juízo.
As próprias pessoas ficaram plenamente convencidas tanto da bondade quanto da justiça de Deus. Reconheceram que ele destruía o corpo para salvar a alma.
Antes de partirem deste mundo, Deus curou seus desvios. Assim, morreram para que pudessem viver eternamente.
3. Muitos anos atrás, ocorreu um exemplo bastante notável.
Um jovem mineiro de Kingswood, próximo a Bristol, havia sido um pecador notório e, depois, tornou-se um santo destacado.
Pouco a pouco, porém, renovou a convivência com seus antigos companheiros. Gradualmente, eles o influenciaram, até que abandonou completamente a religião e se tornou duas vezes mais filho do inferno do que anteriormente.
Certo dia, trabalhava na mina com um jovem sério que, de repente, parou e gritou:
“Ó Tommy, que homem você já foi! Como suas palavras e seu exemplo estimularam muitos ao amor e às boas obras! E o que você é agora? O que aconteceria com você se morresse nessa condição?”
“Deus me livre!”, respondeu Thomas. “Porque, se isso acontecesse, cairia diretamente no inferno! Vamos clamar a Deus!”
Fizeram isso durante bastante tempo, um depois do outro.
Clamaram a Deus com fortes gritos e lágrimas, lutando com ele em poderosa oração.
Depois de algum tempo, Thomas exclamou:
“Agora sei que Deus curou meu desvio. Sei novamente que meu Redentor vive e que me lavou dos meus pecados com seu próprio sangue. Estou pronto para ir até ele.”
Naquele instante, parte da mina desabou e o esmagou, matando-o imediatamente.
Portanto, seja você quem for que tenha cometido um pecado para a morte, leve isso ao coração!
Talvez Deus exija sua alma numa hora em que você não espera. Mas, caso o faça, existe misericórdia no meio do juízo: você não morrerá eternamente.
6. “Mas o que você diz daquela outra passagem, o capítulo dez de Hebreus?
Ela deixa alguma esperança aos desviados notórios de que não morrerão eternamente, poderão recuperar o favor de Deus ou escapar da condenação do inferno?
’Se continuarmos a pecar de propósito, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas apenas uma terrível expectativa de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários.
Quem tiver rejeitado a lei de Moisés morre sem misericórdia. De quanto mais severo castigo será considerado merecedor aquele que pisou o Filho de Deus, profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado e insultou o Espírito da graça?’”
7. “A condição desesperadora e irrecuperável dos desviados voluntários não é plenamente confirmada pela passagem paralela do capítulo seis?
‘É impossível que aqueles que uma vez foram iluminados e se tornaram participantes do Espírito Santo — e caíram, como diz o original — sejam renovados novamente para o arrependimento, visto que crucificam de novo o Filho de Deus e o expõem à vergonha pública.’”
8. Essas passagens realmente me parecem paralelas e merecem nossa mais profunda consideração.
Para compreendê-las, será necessário saber: primeiro, quem são as pessoas mencionadas; segundo, qual foi o pecado que cometeram e que tornou sua condição quase, se não inteiramente, desesperadora.
1. Quanto ao primeiro ponto, ficará evidente a todos os que considerarem e compararem imparcialmente essas duas passagens que as pessoas mencionadas são aquelas — e somente aquelas — que haviam sido justificadas.
Os olhos do entendimento delas foram abertos e iluminados para contemplar a luz da glória de Deus na face de Jesus Cristo.
Somente elas provaram o dom celestial, isto é, a remissão dos pecados, chamada assim em sentido especial.
Elas se tornaram participantes do Espírito Santo, tanto de seu testemunho quanto de seu fruto.
Essa descrição não pode ser propriamente aplicada a ninguém além daqueles que foram justificados.
Também haviam sido santificados, pelo menos no primeiro grau, como acontece com todos os que recebem a remissão dos pecados.
A segunda passagem declara expressamente: “profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado.”
Segue-se que esse texto se refere somente àqueles que foram justificados e, pelo menos em parte, santificados.
Portanto, todos vocês que nunca foram iluminados pela luz da glória de Deus; todos os que nunca provaram o dom celestial, nunca receberam a remissão dos pecados; todos os que nunca se tornaram participantes do Espírito Santo, de seu testemunho e de seu fruto; em resumo, todos os que nunca foram santificados pelo sangue da aliança eterna não estão incluídos nessa passagem.
Outras passagens das Escrituras poderão condená-los, mas é certo que vocês não são condenados nem pelo capítulo seis nem pelo capítulo dez de Hebreus.
Essas duas passagens falam inteiramente e exclusivamente de apóstatas de uma fé que vocês nunca possuíram.
Não era possível que a perdessem, pois ninguém pode perder aquilo que nunca possuiu.
Portanto, quaisquer que sejam os juízos anunciados nesses textos, não são anunciados contra vocês. Vocês não são as pessoas ali descritas.
2. Perguntemos agora qual foi o pecado cometido pelas pessoas descritas nessas passagens.
Para compreendê-lo, devemos lembrar que, sempre que os judeus conseguiam convencer um cristão a apostatar, exigiam que declarasse publicamente, diante da assembleia, que Jesus de Nazaré era um enganador do povo e que não havia sofrido castigo maior do que aquele que seus crimes justamente mereciam.
Esse é o pecado que Paulo, na primeira passagem, chama enfaticamente de “cair”, “crucificar novamente o Filho de Deus” e “expô-lo à vergonha pública”.
É também aquilo que, na segunda passagem, chama de profanar o sangue da aliança, pisar o Filho de Deus e insultar o Espírito da graça.
Qual de vocês caiu dessa maneira? Qual de vocês crucificou novamente o Filho de Deus?
Nenhum de vocês fez isso. Nenhum o expôs dessa maneira à vergonha pública.
Caso tivessem renunciado formalmente àquele único sacrifício pelos pecados, não restaria outro sacrifício, e vocês teriam de perecer sem misericórdia.
Mas essa não é a condição de vocês.
Nenhum de vocês renunciou dessa maneira ao sacrifício pelo qual o Filho de Deus realizou plena e perfeita satisfação pelos pecados do mundo inteiro.
Apesar de toda a sua maldade, vocês estremecem diante desse pensamento. Portanto, esse sacrifício ainda permanece disponível para vocês.
Venham, então! Abandonem seus temores desnecessários. Aproximem-se com confiança do trono da graça.
O caminho continua aberto. Vocês obterão novamente misericórdia e encontrarão graça para ajuda em momento oportuno.
9. “Mas as conhecidas palavras do próprio Senhor não eliminam toda a nossa esperança de misericórdia?
Ele não disse: ‘Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos seres humanos, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, jamais lhe será perdoado, nem neste mundo nem no porvir’?
Portanto, está claro que, caso tenhamos cometido esse pecado, não existe espaço para misericórdia.
A mesma coisa não é repetida por Marcos, quase com as mesmas palavras?
‘Em verdade lhes digo’ — introdução solene, que sempre demonstra a grande importância daquilo que vem a seguir — ‘que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem. Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo jamais terá perdão; será réu de pecado eterno.’”
1. Como é imenso, em todas as nações do mundo cristão, o número daqueles que foram mais ou menos perturbados por causa dessa passagem!
Quantas multidões, em nosso reino, ficaram profundamente perplexas por esse motivo!
São poucas as pessoas verdadeiramente convencidas do pecado e seriamente empenhadas em salvar a própria alma que não tenham experimentado algum temor de terem cometido ou de poderem cometer esse pecado imperdoável.
Aquilo que frequentemente aumentava sua perturbação era o fato de dificilmente encontrarem alguém capaz de consolá-las.
Seus conhecidos, até mesmo os mais religiosos, compreendiam o assunto tão pouco quanto elas mesmas. Também não encontravam algum escritor que tivesse publicado uma explicação satisfatória.
É verdade que, nos Sete Sermões do senhor Russell, obra bastante conhecida entre nós, existe um sermão dedicado expressamente ao assunto. Entretanto, ele proporciona pouco consolo a um espírito perturbado.
O autor fala longamente sobre o assunto, mas não chega a conclusão alguma. Trabalha muito, porém erra completamente o alvo.
2. Poderia existir prova mais lamentável da pequenez do entendimento humano, mesmo naqueles que possuem um coração sincero e desejam conhecer a verdade?
Como seria possível alguém que lê a Bíblia permanecer em dúvida sobre esse assunto durante uma única hora, quando o próprio Senhor, exatamente na passagem citada, explicou claramente o que é essa blasfêmia?
“Aquele que blasfemar contra o Espírito Santo jamais terá perdão […] porque diziam: ‘Está possuído de um espírito imundo’” (Marcos 3.29-30).
Portanto, esta — e somente esta, caso permitamos que nosso Senhor compreenda o próprio significado — é a blasfêmia contra o Espírito Santo: dizer que Cristo possuía um espírito impuro; afirmar que realizava seus milagres pelo poder de um espírito maligno ou, mais especificamente, que expulsava demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios.
Você fez isso? Afirmou que Cristo expulsava demônios pelo príncipe dos demônios?
Não fez isso mais do que degolou seu vizinho e incendiou a casa dele.
Como é extraordinário que tenha sentido medo onde não existia motivo algum para temer!
Abandone esse terror inútil. Daqui em diante, permita que seu temor seja mais racional.
Tema ceder ao orgulho. Tema entregar-se à ira. Tema amar o mundo ou as coisas que há no mundo. Tema os desejos insensatos e prejudiciais.
Mas nunca mais tenha medo de cometer a blasfêmia contra o Espírito Santo! Você não corre maior perigo de fazer isso do que de retirar o Sol do firmamento.
10. Vocês não possuem, portanto, razão alguma nas Escrituras para imaginar que o Senhor se esqueceu de ser bondoso.
Como podem ver, os argumentos extraídos delas não possuem peso algum e são inteiramente inconclusivos.
Existe maior peso no argumento extraído da experiência ou dos fatos?
1. Essa é uma questão que pode ser determinada com exatidão e com a maior certeza.
Caso se pergunte: “Algum verdadeiro apóstata encontra misericórdia diante de Deus? Alguém que naufragou na fé e na boa consciência recupera aquilo que perdeu?
Você conhece ou viu algum exemplo de pessoas que encontraram redenção no sangue de Jesus, depois caíram e, apesar disso, foram restauradas, renovadas novamente para o arrependimento?”
Sim, certamente! Não apenas uma ou cem pessoas, mas, estou convencido, vários milhares.
Em todos os lugares nos quais o braço do Senhor se revelou e muitos pecadores se converteram a Deus, encontramos várias pessoas que voltaram atrás, abandonando o santo mandamento que lhes havia sido entregue.
Para grande parte delas, teria sido melhor nunca terem conhecido o caminho da justiça. Isso apenas aumenta sua condenação, pois morrem em seus pecados.
Existem outras, porém, que olham para aquele a quem traspassaram e lamentam, recusando-se a ser consoladas.
Mais cedo ou mais tarde, Deus certamente faz a luz de seu rosto brilhar novamente sobre elas.
Fortalece as mãos enfraquecidas, firma os joelhos vacilantes e as ensina novamente a dizer: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Lucas 1.46-47).
São incontáveis os exemplos dessa espécie: pessoas que haviam caído, mas agora permanecem em pé.
Na verdade, a queda e a restauração de um crente estão tão longe de ser incomuns que é mais difícil encontrar crentes que não estejam conscientes de terem se afastado de Deus, em grau maior ou menor e talvez mais de uma vez, antes de serem firmados na fé.
2. “Mas aqueles que caíram da graça santificadora foram restaurados à bênção que haviam perdido?”
Essa também é uma questão de experiência. Tivemos oportunidade de repetir nossas observações durante muitos anos, de uma extremidade do reino à outra.
3. Primeiramente, conhecemos grande número de pessoas, de todas as idades e de ambos os sexos, desde a primeira infância até a velhice extrema, que apresentaram todas as evidências possíveis de que haviam sido completamente santificadas.
Foram purificadas de toda impureza da carne e do espírito. Amavam o Senhor, seu Deus, com todo o coração, entendimento, alma e força.
Apresentavam continuamente a alma e o corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.
Como consequência disso, alegravam-se sempre, oravam sem cessar e davam graças em todas as circunstâncias.
Isso — e nada diferente disso — é aquilo que consideramos verdadeira santificação bíblica.
4. Em segundo lugar, é comum que as pessoas santificadas dessa maneira acreditem que não podem cair.
Imaginam ser colunas no templo de Deus, de onde jamais sairão.
Apesar disso, vimos alguns dos mais fortes entre elas serem, depois de algum tempo, removidos de sua firmeza.
Algumas vezes de repente, mas geralmente por graus lentos, cederam à tentação. O orgulho, a ira ou desejos insensatos nasceram novamente em seu coração.
Algumas chegaram a perder completamente a vida de Deus, e o pecado recuperou domínio sobre elas.
5. Em terceiro lugar, várias dessas pessoas, depois de reconhecerem plenamente sua queda e ficarem profundamente envergonhadas diante de Deus, foram novamente preenchidas por seu amor.
Não apenas foram aperfeiçoadas nesse amor, mas também firmadas, fortalecidas e estabelecidas.
Receberam novamente a bênção que possuíam anteriormente, com aumento abundante.
É notável que muitas pessoas que haviam caído da graça justificadora ou santificadora — e caído tão profundamente que dificilmente poderiam ser incluídas entre os servos de Deus — foram restauradas.
Isso raramente aconteceu antes de serem, por assim dizer, sacudidas sobre a entrada do inferno. Entretanto, muitas vezes foram restauradas num único instante a tudo aquilo que haviam perdido.
Recuperaram imediatamente tanto a consciência do favor de Deus quanto a experiência de seu amor puro.
Num único momento, receberam novamente a remissão dos pecados e uma herança entre os santificados.
6. Ninguém, porém, conclua da longanimidade de Deus que ele tenha dado autorização para pecar.
Ninguém se atreva a permanecer no pecado por causa desses exemplos extraordinários da misericórdia divina.
Essa é a presunção mais desesperada e irracional e conduz à destruição completa e irrecuperável.
Em toda a minha experiência, nunca conheci uma só pessoa que se fortalecesse no pecado, presumindo que Deus a salvaria no fim, e que não fosse miseravelmente decepcionada e deixada morrer em seus pecados.
Transformar a graça de Deus em incentivo para o pecado é o caminho certo para o mais profundo inferno!
7. As considerações anteriores não se destinam a esses filhos desesperados da perdição, mas àqueles para quem a lembrança dos pecados é dolorosa e cujo peso é insuportável.
Colocamos diante deles uma porta aberta de esperança.
Que entrem por ela e deem graças ao Senhor! Que saibam que o Senhor é bondoso e misericordioso, paciente e cheio de bondade.
Assim como os céus se elevam acima da terra, ele afastará deles os seus pecados.
Não repreenderá para sempre nem conservará perpetuamente a sua ira.
Apenas determine em seu coração: “Entregarei tudo para receber tudo”, e sua oferta será aceita.
Entregue-lhe todo o seu coração!
Que tudo o que existe em você clame continuamente:
“Tu és o meu Deus, e eu te darei graças; tu és o meu Deus, e eu te exaltarei” (Salmo 118.28).
“Este Deus é o nosso Deus para todo o sempre; ele será nosso guia até a morte” (Salmo 48.14).
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.