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Parte II · Capítulo XVI

A humanidade de Cristo. A união hipostática. Erros quanto à pessoa de Cristo

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Em nossos dias, a controvérsia sobre a pessoa de Cristo se limita quase inteiramente à questão da sua divindade; mas, nas primeiras eras da Igreja, foi necessário estabelecer a sua verdadeira humanidade. A negação desta parece ter existido já no tempo de são João, que, em suas epístolas, exclui do âmbito da Igreja todos os que negavam que Cristo tivesse vindo em carne. Assim como o seu Evangelho, portanto, proclama a Divindade, as suas epístolas defendem também a doutrina da sua humanidade.

A fonte desse antigo erro parece ter sido de ordem filosófica. Tanto nas escolas orientais quanto nas gregas, era ideia predileta que tudo o que se unia à matéria ficava necessariamente contaminado por ela, e que a mais alta perfeição desta vida era a abstração das coisas materiais e, na outra, a separação total e definitiva do corpo. Essa opinião foi também, provavelmente, a causa que levou algumas pessoas, no tempo de são Paulo, a negar a realidade da ressurreição e a explicá-la em sentido figurado. Seja como for, ela foi um dos principais fundamentos da rejeição da verdadeira humanidade de Cristo entre os diversos ramos dos gnósticos, que, aliás, erraram quanto às duas naturezas. As coisas que as Escrituras atribuem à natureza humana de nosso Senhor eles não negavam; mas afirmavam que tinham acontecido apenas na aparência, e por isso foram chamados docetas e fantasiastas. Num período posterior, Eutiques caiu num erro semelhante, ao ensinar que a natureza humana de Cristo foi absorvida pela divina e que o seu corpo não tinha existência real. Esses erros passaram, e o perigo agora está apenas do outro lado. Não, por certo, porque os homens se tenham tornado menos sujeitos ou menos inclinados a errar, mas porque a filosofia (de cujas vãs pretensões, ou da orgulhosa confiança nela, brotam quase todos os grandes erros religiosos) assumiu, nas eras mais recentes, um caráter diferente.

Enquanto esses erros negavam a existência real do corpo de Cristo, a heresia apolinarista rejeitava a existência de uma alma humana em nosso Senhor e ensinava que a Divindade lhe ocupava o lugar. Assim, ambas as opiniões negavam a Cristo uma verdadeira humanidade, e ambas foram, por isso, condenadas pela Igreja universal.

Entre os que sustentavam a união de duas naturezas em Cristo, a divina e a humana, chamada em linguagem teológica união hipostática ou pessoal, fizeram-se também diversas distinções que levaram à diversidade de opiniões. Os nestorianos reconheciam duas pessoas em nosso Senhor, unidas de modo místico e mais estreito do que qualquer analogia humana pode explicar. Os monofisitas defendiam uma só pessoa e uma só natureza, supondo-se que as duas se tivessem confundido de alguma forma misteriosa. Os monotelitas reconheciam duas naturezas e uma só vontade. Várias outras sutilezas foram propagadas em diferentes épocas; mas o verdadeiro sentido da Escritura parece ter sido expresso com grande exatidão pelo concílio de Calcedônia, no século V: em Cristo há uma só pessoa; na unidade da pessoa, duas naturezas, a divina e a humana; e não há mudança, nem mistura, nem confusão dessas duas naturezas, mas cada uma conserva as suas propriedades distintivas. Com isso concorda o Credo Atanasiano, seja qual for a sua data: “Perfeito Deus e perfeito homem, subsistindo de alma racional e carne humana. O qual, embora seja Deus e homem, não é dois, mas um só Cristo: um, não pela conversão da Divindade em carne, mas pela assunção da humanidade em Deus; um inteiramente, não por confusão de substância, mas por unidade de pessoa; pois, assim como a alma racional e a carne são um só homem, assim Deus e homem são um só Cristo.” A Igreja da Inglaterra, ao adotar esse credo, adotou a sua doutrina sobre a união hipostática, e professou-a ainda no seu segundo artigo: “O Filho, que é o Verbo do Pai, gerado desde a eternidade pelo Pai, verdadeiro e eterno Deus, de uma só substância com o Pai, tomou a natureza humana no ventre da bem-aventurada Virgem, da substância dela; de modo que as duas naturezas, inteiras e perfeitas, isto é, a Divindade e a humanidade, foram unidas numa só pessoa, para nunca mais serem separadas, das quais resulta um só Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.”

Sejam quais forem as objeções levantadas contra essas formulações pela simples razão humana, incapaz de compreender mistérios tão elevados, mas muitas vezes ousada o bastante para impugná-los, elas certamente apresentam a doutrina do Novo Testamento sobre esses importantes temas, ainda que expressa em outros termos. Nem se deve acusar esses formulários de terem originado tais distinções e de as terem acrescentado à simplicidade da Escritura, como muitas vezes injustamente o fazem aqueles que, seja por erros ocultos em sua própria mente, seja por uma vã afetação de independência da autoridade humana, são os mais inclinados a contestá-los. Tais exposições da fé se tornaram necessárias por causa das perigosas especulações e sutilezas humanas a que aludimos acima; e pretendiam ser (o que facilmente se prova pela Escritura que de fato são) sumários de doutrinas inspiradas. Não eram distinções novas, mas declarações do que o Espírito Santo já havia ensinado sobre a união hipostática das naturezas em Cristo; e a concordância desses admiráveis sumários com as próprias Escrituras será bem evidente a todos os que se renderem ao testemunho claro e não pervertido delas. Que Cristo é verdadeiro Deus já foi provado pelas Escrituras, com bastante extensão; que ele foi verdadeiramente homem, ninguém haverá que duvide; que ele é uma só pessoa fica suficientemente claro pelo fato de que nenhuma distinção em duas pessoas jamais foi feita por ele mesmo ou por seus apóstolos, e também pelo fato de que ações próprias da Divindade às vezes lhe são atribuídas sob os seus nomes humanos, e ações e sofrimentos próprios da humanidade lhe são igualmente atribuídos sob títulos divinos. Que nele não há confusão das duas naturezas fica evidente pelo modo absoluto com que as Escrituras constantemente falam de ambas. A sua Divindade não foi rebaixada ao unir-se a um corpo humano, pois “este é o verdadeiro Deus” (1Jo 5.20); a sua humanidade não foi, enquanto esteve na terra, elevada a propriedades que a tornassem diferente em espécie da humanidade das suas criaturas, pois, “visto que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Jesus, igualmente, participou dessas coisas” (Hb 2.14). Se a natureza divina nele fosse imperfeita, teria perdido o seu caráter essencial, pois é essencial à Deidade ser perfeita e completa; se lhe faltasse alguma das propriedades essenciais da natureza humana, ele não teria sido homem; se, como implicavam algumas das noções mencionadas, o divino e o humano se tivessem misturado e confundido nele, ele teria sido um ser composto, nem Deus nem homem. Nada faltava à sua humanidade, nada à sua divindade, e, no entanto, ele é um só Cristo. Esta é claramente a doutrina da Escritura, e está admiravelmente expressa nos credos citados acima; e, por isso, eles merecem grande respeito. Encarnam o pensamento de alguns dos maiores homens que já viveram na Igreja, numa linguagem pesada com o máximo cuidado e exatidão; e são registros veneráveis da fé de eras remotas.

Essas duas circunstâncias, a integridade de cada natureza e a união de ambas numa só pessoa, são a única chave da linguagem do Novo Testamento, e explicam e harmonizam o conjunto de forma tão completa que constituem a prova mais forte, depois das suas declarações verbais explícitas, da doutrina de que nosso Senhor é ao mesmo tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por outro lado, a impossibilidade de dar uma explicação coerente do testemunho de Deus “a respeito de seu Filho”, Jesus Cristo (Rm 1.3), segundo todas as outras hipóteses, refuta-as por completo. Todo aquele que fizer a experiência com honestidade descobrirá que todas as passagens da Sagrada Escritura a respeito da pessoa de Cristo só podem ser explicadas de uma destas duas maneiras: ou referindo-as, segundo a regra dos antigos Pais da Igreja, à theologia, termo com que designavam tudo o que dizia respeito à divindade do nosso Salvador, ou à oikonomia, termo com que designavam a sua encarnação e tudo o que ele fez na carne para obter a salvação da humanidade. Essa distinção se expressa, na linguagem teológica moderna, considerando que algumas coisas ditas de Cristo se referem à sua natureza divina e outras à sua natureza humana; e quem levar consigo esse princípio de interpretação raramente terá dificuldade em apreender o sentido dos escritores sagrados, ainda que os próprios assuntos sejam muitas vezes insondáveis para a mente humana.

Pergunta alguém, por exemplo, como Jesus Cristo, se era verdadeiramente Deus, podia nascer e morrer? Como podia crescer em sabedoria e estatura? Como podia estar sujeito à lei, ser tentado, ter necessidade de orar? Como a sua alma podia estar “profundamente triste até a morte” (Mt 26.38), ser “desamparado” pelo Pai (Mt 27.46), comprar a Igreja “com o seu próprio sangue” (At 20.28), ter diante de si “a alegria que lhe estava proposta” (Hb 12.2), ser exaltado, receber “toda a autoridade […] no céu e na terra” (Mt 28.18), etc.? A resposta é que ele era também homem.

Se, por outro lado, causa espanto que um homem visível curasse doenças à sua vontade, sem recorrer a nenhuma autoridade superior, como muitas vezes fez; que acalmasse os ventos e as ondas; que conhecesse os pensamentos do coração dos homens; que previsse a sua própria paixão em todas as suas circunstâncias; que perdoasse pecados com autoridade; que fosse exaltado ao domínio absoluto sobre toda criatura no céu e na terra; que estivesse presente onde quer que dois ou três estejam reunidos em seu nome; que estivesse com os seus discípulos até o fim do mundo; que reivindicasse a homenagem universal e o dobrar de joelhos de todas as criaturas diante do seu nome; que fosse associado ao Pai em solenes atribuições de glória e ação de graças, e que levasse até os tremendos nomes de Deus, nomes de descrição e de revelação, nomes que exprimem atributos divinos: qual é a resposta? Pode o sistema sociniano, que admite que ele seja apenas homem, oferecer uma réplica? Pode fornecer uma interpretação razoável dos textos da Sagrada Escritura que afirmam todas essas coisas? Pode sugerir alguma solução que não implique que os escritores sagrados foram não apenas escritores descuidados, mas escritores que, se tivessem procurado ser mal compreendidos, não poderiam ter-se expressado de modo mais enganoso? A única hipótese que explica todas essas declarações é que Cristo é Deus tanto quanto homem; e por ela se evidencia a coerência dos escritores sagrados, e se vê uma corrente harmoniosa de pensamento que une as Escrituras numa revelação concorde e ajustada em todas as suas partes.

Mas a união das duas naturezas em Cristo numa só hipóstase, ou pessoa, é tão essencial à plena exposição das Escrituras quanto a existência distinta das duas, a divina e a humana; e sem ela muitas passagens perdem toda a força, porque perdem todo o sentido. Em que sentido possível se poderia dizer do Verbo que ele “se fez (ou tornou-se) carne” (Jo 1.14), se não existisse essa unidade pessoal? Os próprios socinianos parecem reconhecer a força disso, e por isso traduzem “e o Verbo era carne”, afirmando falsamente, como vários críticos demonstraram abundantemente, que o sentido mais comum de ginomai é “ser”. Sem a união hipostática, como se poderia sustentar o argumento de nosso Senhor de que o Messias é ao mesmo tempo Filho de Davi e Senhor de Davi? Se isso se afirma de duas pessoas, o argumento desaparece; se de uma, então duas naturezas, uma que tinha autoridade como Senhor e outra capaz de descendência natural, estavam unidas numa só pessoa. Admitindo que tenhamos estabelecido que o nome “Filho de Deus” designa uma relação divina, sem essa união pessoal o Cristo visível não poderia ser, segundo a confissão de são Pedro, “o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16). Por essa doutrina aprendemos também como “a igreja de Deus” foi comprada “com o seu próprio sangue” (At 20.28). Mesmo que concedamos que a leitura genuína seja “do Senhor”, essa concessão nada rende aos socinianos, a menos que o termo Senhor fosse um título humano, o que já foi refutado, e a menos que um simples homem pudesse ser “Senhor tanto de mortos como de vivos” (Rm 14.9), pudesse exercer soberania universal e ter direito à homenagem universal. Se, pois, o título “o Senhor” é um nome da natureza superior de Cristo, em nenhum outro sentido se poderia dizer que a Igreja foi comprada com o seu próprio sangue, a não ser supondo a existência daquela união que chamamos pessoal. Essa união é a única coisa que distingue os sofrimentos de Cristo dos sofrimentos dos seus seguidores martirizados, lhes deu um mérito que os deles não tinham e tornou “o seu sangue” capaz de comprar a salvação da “igreja”. Pois, negada essa união, não vemos sentido possível em chamar o sangue de Cristo “o sangue de Deus”, ou, se preferirem, “do Senhor”, nem em que consistia aquela grande particularidade que o tornava capaz de comprar ou redimir.

O Dr. Pye Smith, em sua obra muito competente sobre a pessoa de Cristo, censurou de modo um tanto irrefletido os ortodoxos pela “falta muito grave de usar às vezes uma linguagem que aplica à natureza divina as circunstâncias e propriedades que só poderiam pertencer à sua humanidade”, por dar ocasião infeliz às objeções e zombarias dos seus adversários. Como não dá exemplos, ele tinha em vista, provavelmente, alguns casos extremos; mas, se pretendia fazer uma observação de aplicação geral, ela parece ter nascido de uma visão muito equivocada, e supõe que as objeções dos adversários se dirigem mais contra os termos do que contra a própria doutrina da divindade de Cristo.

Isso está tão longe de ser verdade que, se os ortodoxos atendessem à advertência que esse escritor faz sobre o assunto, não dariam um passo sequer a mais em direção à conversão dos que estão nesse erro fundamental, sustentado, como o é, por perversões tão manifestas e por críticas tão despudoradas. Não sou defensor, contudo, de verdadeiros “erros e faltas” na linguagem teológica; mas a prática mencionada, longe de ser “uma falta grave”, tem a autoridade dos escritores do Novo Testamento. Na argumentação, deve-se manter a distinção entre as naturezas divina e humana, segundo a regra dada acima; mas, quando se fala de passagem, partindo da verdade inquestionável da união hipostática das naturezas divina e humana (modo de falar que, espera-se, todos os verdadeiros cristãos adotam, por nascer das suas convicções firmes sobre esse ponto), aqueles mesmos termos, tão comuns entre os ortodoxos e tão censuráveis para os que “renegam o Soberano Senhor que os resgatou” (2Pe 2.1), devem ser mantidos apesar da “zombaria”. Do contrário, a linguagem do Novo Testamento terá de ser abandonada, ou ao menos usada com muita seleção, caso se adote essa cortesia perigosa e, no fim das contas, traiçoeira. Pois que ganha o Dr. P. Smith quando, advertindo o crente contra o uso da expressão “o sangue de Deus“, lhe lembra que há razão para preferir a leitura “a igreja do Senhor, a qual ele comprou com o seu próprio sangue”? Os ortodoxos sustentam que o nome “o Senhor“, quando aplicado ao nosso Salvador, é o seu título como Deus, e os heterodoxos sabem também que “o sangue do Senhor” é, para nós, uma expressão inteiramente equivalente a “o sangue de Deus“. Sabem ainda que não cremos que “Deus” ou “o Senhor” pudesse morrer; mas, ao usar a expressão consagrada, mantém-se e exibe-se a doutrina importantíssima de que existe entre as duas naturezas de nosso Senhor uma união tal que faz do sangue que ele derramou mais do que o sangue de um simples homem, mais do que o sangue da sua simples humanidade em si mesma; e, embora admitamos que Deus não podia morrer, há um sentido importantíssimo em que o sangue de Cristo foi “o sangue de Deus“.

Não tentamos explicar esse mistério, mas o encontramos registrado; e, de fato, aquela cuidadosa atribuição das propriedades de cada uma das duas naturezas à sua respectiva natureza, que o Dr. Pye Smith recomenda, não é muito frequente no Novo Testamento, por esta razão evidente: a questão da divindade de nosso Senhor é, em geral, introduzida como princípio indiscutido, e não objeto de argumentação. É verdade que o apóstolo Paulo afirma que nosso Senhor veio da descendência de Davi “segundo a carne” e foi “Filho de Deus […] segundo o Espírito de santidade” (Rm 1.3-4). Aqui está um exemplo da distinção; mas, em geral, os apóstolos não a observam, porque tinham sempre presente a doutrina igualmente fundamental de que a mesma pessoa que era carne era também verdadeiramente Deus. Por isso não hesitam em dizer que “o Senhor da glória” foi crucificado (1Co 2.8), que “o Autor da vida” foi morto (At 3.15) e que aquele que existia “na forma de Deus” se tornou “obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.6,8).

Voltamos dessa digressão para examinar algumas outras passagens cujo sentido só pode ser desvendado pela doutrina da união pessoal das naturezas divina e humana em Cristo. “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). Não por tipo e figura, mas, como significa a palavra σωματικῶς, real e substancialmente; e, para a exposição completa, devemos acrescentar: por união pessoal. Pois não temos outra ideia com que explicar uma expressão nunca usada para indicar a habitação de Deus nos homens bons, e que aqui se aplica a Cristo de modo eminente e singular.1

“O qual, sendo o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa, depois de ter feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas” (Hb 1.3). [N. do T.: a NAA não traz “por si mesmo” nem “nossos”; Watson cita a KJV, e o argumento depende dessa expressão.] Também desta passagem a união hipostática é a única chave. De quem fala o apóstolo, quando diz “depois de ter feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados”, senão daquele que é “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser”? Ele, por si mesmo, fez “a purificação dos nossos pecados”; e, no entanto, isso foi feito pelo derramamento do seu sangue. Naquela natureza superior, porém, ele não podia sofrer a morte; e nada poderia fazer dos sofrimentos da sua humanidade uma purificação de pecados feita por si mesmo, a não ser uma união tal que constituísse uma só pessoa. Pois, se isso não for admitido, ou os traços de divindade dos versículos anteriores são traços de um ser meramente humano, ou aquela natureza superior era capaz de sofrer a morte; ou, se não era, a purificação não foi feita por ele mesmo, o que, no entanto, o texto afirma.

Em suma, todas as passagens que se enquadram nas classes seguintes (para não mencionar muitas outras) têm assim aberta a sua verdadeira interpretação, e, em geral, ficam totalmente sem sentido segundo qualquer outra hipótese.

1. As que, como algumas das anteriores, falam da eficácia dos sofrimentos de Cristo para a remissão dos pecados. Nesta classe, as duas seguintes podem servir de exemplo. Hebreus 2.14: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Jesus, igualmente, participou dessas coisas, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte”, etc. Aqui a eficácia da morte de Cristo é afirmada explicitamente; mas com a mesma clareza se diz que é a morte de alguém que participou de carne e sangue, isto é, que assumiu a natureza humana. O poder de libertar é atribuído àquele que assim se revestiu de uma natureza inferior à sua natureza original; mas nessa natureza inferior ele morre, e por essa morte liberta os que estavam sujeitos à escravidão por toda a vida. A segunda é Colossenses 1.14 e seguintes: “em quem temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados. Ele é a imagem do Deus invisível”, etc. [N. do T.: “pelo seu sangue” não consta da NAA neste versículo; Watson lê a KJV, e o seu argumento depende da expressão.] Nesta passagem, a elevada descrição que se faz da pessoa de Cristo está em ligação imediata com a menção da eficácia do “seu sangue”, e deve ser considerada a razão pela qual, por meio desse sangue, a redenção e a remissão dos pecados se tornaram alcançáveis. Assim, “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22); mas só o sangue de Jesus tem essa eficácia, porque ele é “a imagem do Deus invisível”, o “Criador” de todas as coisas. Não poderia ser o sangue dele, não fosse a união hipostática; e é igualmente verdade que, sem ela, ele não teria sangue para derramar, porque, como “a imagem do Deus invisível”, isto é, igual a Deus, ou o próprio Deus, a sua natureza era incapaz de morrer.

2. Na segunda classe estão todas as passagens que argumentam a partir da compaixão que nosso Senhor manifestou na sua humilhação, e da sua própria experiência de sofrimentos, para levar o seu povo a confiar nele nos perigos e nas aflições. Delas, a seguinte pode servir de ilustração. Hebreus 4.15-16: “Porque não temos sumo sacerdote que não possa se compadecer das nossas fraquezas; pelo contrário, ele foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Portanto, aproximemo-nos do trono da graça com confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça para ajuda em momento oportuno.” Várias passagens semelhantes ocorrem na primeira parte da Epístola aos Hebreus, e o argumento de todas é exatamente o mesmo. A humilhação de nosso Senhor e o seu conhecimento das dores humanas podem nos assegurar da sua compaixão; mas compaixão não é socorro. Por isso ele é apresentado como a fonte de “socorro” (Hb 2.18), como “o Autor da salvação” (Hb 5.9), “o Capitão da nossa salvação” (Hb 2.10) [N. do T.: assim na KJV; a NAA traz “o Autor da salvação deles”], em consequência dos sofrimentos que suportou; e todo o seu povo é orientado a recorrer a ele em oração para obter auxílio e, pela confiança inteira no seu poder, na sua graça e na sua presença, a ter certeza de que dele receberá socorro oportuno e a salvação final. Ora, também aqui fica claro que aquele que sofre e o Salvador são a mesma pessoa. O homem podia sofrer; mas os sofrimentos não podiam capacitar o homem a salvar; não podiam dar à natureza humana nenhuma qualificação nova, nem conferir a essa natureza nenhum direito novo. Mas, além da natureza que sofreu e aprendeu por experiência a amargura das dores humanas, há uma natureza que pode conhecer os sofrimentos de todos os outros, em todos os lugares, em todos os tempos; que pode também discernir com exatidão o “momento oportuno” e a “graça” adequada a ele; que pode eficazmente dar “ajuda” e sustentar as tristezas do próprio coração, poder exclusivo da Divindade; e que pode, por fim, conceder a “salvação eterna” (Hb 5.9). Essa natureza há de ser divina; mas está em união pessoal com aquela que sofreu e aprendeu a compaixão, e é essa união que constitui o “grande sumo sacerdote” da nossa confissão (Hb 4.14), aquele “misericordioso e fiel sumo sacerdote” (Hb 2.17) que é “poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.18). Assim, como bem se observou sobre esse assunto: “É pela união de duas naturezas numa só pessoa que Cristo está habilitado a ser o Salvador do mundo. Ele se fez homem para que, com a maior vantagem possível para aqueles a quem foi enviado a instruir, pudesse ensinar-lhes a natureza e a vontade de Deus; para que a sua vida fosse o exemplo deles; para que, tendo estado uma vez cercado das fraquezas da natureza humana, pudesse dar-lhes a certeza da sua compaixão; para que, sofrendo na cruz, pudesse fazer expiação pelos pecados deles; e para que na sua recompensa eles pudessem contemplar o penhor e o modelo da recompensa deles.

“Mas, se Jesus fosse apenas homem, ou se fosse um dos espíritos que cercam o trono de Deus, não poderia ter realizado a obra que empreendeu. Pois, sendo toda a obediência de cada criatura devida ao Criador, nenhuma parte dessa obediência pode ser lançada na conta de outras criaturas, de modo a suprir as falhas do serviço delas ou a livrá-las do castigo que merecem. Por isso, as Escrituras revelam que aquele que apareceu na terra como homem é também Deus, e, como Deus, era poderoso para salvar; e, por essa revelação, ensinam-nos que o mérito da obediência de nosso Senhor e a eficácia da sua intervenção dependem da união hipostática.

“Todas as seitas cristãs modernas concordam em admitir que os maiores benefícios nos vêm do fato de o Salvador do mundo ser homem; mas os arianos e os socinianos sustentam com empenho que os seus sofrimentos não derivam nenhum valor do fato de ele ser Deus, e o seu raciocínio é especioso. Vocês dizem, argumentam eles, que Jesus Cristo, que sofreu pelos pecados dos homens, é ao mesmo tempo Deus e homem. Vocês têm de dizer ou que Deus sofreu, ou que ele não sofreu. Se dizem que Deus sofreu, de fato atribuem um valor infinito aos sofrimentos; mas afirmam que a Divindade é capaz de sofrer, o que é ao mesmo tempo ímpio e absurdo. Se dizem que Deus não sofreu, então, embora a pessoa que sofreu tivesse uma natureza divina e uma humana, os sofrimentos foram meramente os de um homem; pois, segundo o próprio sistema de vocês, as duas naturezas são distintas, e a divina é impassível.

“Em resposta a esse modo de argumentar, podemos admitir que a Divindade não pode sofrer, e não pretendemos explicar o tipo de amparo que a natureza humana recebeu da divina em seus sofrimentos, nem a maneira pela qual as duas estavam unidas. Mas, da linguagem uniforme da Escritura, que engrandece o amor de Deus ao dar o seu Filho unigênito, que fala nos termos mais elevados do valor precioso do sangue de Cristo, que o apresenta vindo, no corpo que lhe foi preparado, para fazer aquilo que sacrifícios e holocaustos não podiam fazer: de tudo isso inferimos que havia nos sofrimentos dessa pessoa um valor, um mérito, superior ao que pertencia aos sofrimentos de qualquer outra. E, como as mesmas Escrituras indicam, em inúmeros lugares, a mais estreita união entre a natureza divina e a humana de Cristo, atribuindo-lhe indistintamente as ações que pertencem a cada natureza, sustentamos que nos é impossível separar, em nossa imaginação, esse valor peculiar que elas atribuem aos seus sofrimentos da dignidade peculiar da sua pessoa.

“A união hipostática é, pois, a pedra angular da nossa religião. Estamos por demais acostumados, em todas as nossas investigações, a perceber que certas coisas estão unidas sem que possamos investigar o laço que as une, para nos surpreendermos de não poder responder a todas as perguntas que homens engenhosos propuseram sobre esse assunto. Mas podemos discernir claramente, nos propósitos da encarnação do Filho de Deus declarados pelas Escrituras, a razão por que elas se detiveram tão longamente na sua divindade. E, se tivermos o cuidado de abranger com o olhar toda a descrição que elas dão da pessoa por quem foi trazido o remédio do evangelho; se, em nossas especulações a respeito dele, não perdermos de vista as duas partes claramente reveladas, nem esquecermos aquela união entre as duas partes, que não podemos compreender, mas que está necessariamente implícita na revelação delas, perceberemos no caráter do Messias uma integridade e uma adequação ao propósito da sua vinda que, por si mesmas, criam uma forte presunção de que interpretamos corretamente as Escrituras.” (Dr. Hill.)

Nessa prova tirada das Sagradas Escrituras repousa a doutrina da divindade de nosso bendito Salvador. No argumento tirado da antiguidade os meus limites não me permitem entrar. Se a grande “apostasia” predita por são Paulo (2Ts 2.3) tivesse envolvido, de modo geral, essa elevada doutrina; se tanto a Igreja latina quanto a grega se tivessem afastado inteiramente da fé, em vez de se unirem, sem interrupção, para dizer: “Tu és o Rei da glória, ó Cristo”, “Tu és o Filho eterno do Pai”, nem por isso a verdade de Deus teria sido “anulada” (Rm 3.3). Deus continuaria verdadeiro, ainda que todo ser humano, desde a era da inspiração, se tivesse tornado “mentiroso” (Rm 3.4). Os socinianos têm mostrado, nos últimos anos, grande empenho em obter da antiguidade alguns votos a seu favor, e reuniram todos os exemplos possíveis de afastamento precoce da fé. Poderiam, de fato, ter encontrado a depravação herética e os seus adeptos sem sair do Novo Testamento: homens não apenas próximos da era apostólica, mas dos próprios dias dos apóstolos, que rejeitavam a ressurreição, que não concordavam com as “sãs palavras” (1Tm 6.3), que vieram a “naufragar na fé” (1Tm 1.19), tanto quanto na boa consciência, que “negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Jd 4), “o Soberano Senhor que os resgatou” (2Pe 2.1). Essa espécie de antiguidade está, na verdade, a favor deles; e, como a natureza humana é substancialmente a mesma em todas as eras, há tanta razão para esperar erros numa era quanto em outra. Mas não conseguiram provar que algum grupo de cristãos, que mereça em algum sentido ser considerado ramo reconhecido da Igreja de Cristo, possa ser encontrado nos tempos primitivos dando qualquer apoio às suas opiniões e interpretações da Escritura. Para informação completa sobre as opiniões das igrejas primitivas, e para a plena refutação de todas as pretensões que arianos e socinianos, nestes últimos tempos, levantaram de estarem, em parte, apoiados pela autoridade primitiva, devem ser consultadas as obras do bispo Bull, do Dr. Waterland e do bispo Horsley;2 e o resultado mostrará que, na interpretação das Escrituras dada acima, somos apoiados pelos testemunhos sucessivos e concordes de tudo o que há de verdadeiramente autorizado naquelas ilustres eras que forneceram tantos escritos imperecíveis para a edificação da Igreja futura, e tantos mártires e confessores da “verdade em Jesus” (Ef 4.21).

Entre os numerosos erros a respeito da pessoa de nosso Senhor que surgiram outrora na Igreja e foram combatidos pelas suas autoridades com zelo sempre vigilante, só três podem ser considerados de grande influência em nossos dias: o arianismo, o sabelianismo e o socinianismo. Em nosso país, os dois primeiros estão quase inteiramente absorvidos no último, cuja característica é a tese da simples humanidade de Cristo. Ário, que deu nome ao primeiro, parece ter elaborado alguns dos erros dispersos de tempos anteriores numa espécie de sistema, que, no entanto, sofreu várias modificações entre os seus seguidores. A tese distintiva desse sistema era que Cristo foi a primeira e a mais exaltada das criaturas; que foi produzido de maneira peculiar e dotado de grandes perfeições; que por meio dele Deus fez o mundo; que só ele procedeu imediatamente de Deus, enquanto as outras coisas foram produzidas por meio dele, de modo mediato; e que todas as coisas foram postas sob a sua administração. Os semiarianos se separaram dos arianos, mas ainda divergiam dos ortodoxos, ao se recusarem a admitir que o Filho fosse homoousios, ou da mesma substância que o Pai; reconheciam-no, porém, como homoiousios, de substância semelhante à do Pai. Mas só na aparência chegavam mais perto da verdade do que os próprios arianos, pois sustentavam que essa semelhança com o Pai na essência não era por natureza, mas por privilégio peculiar. No sistema deles, portanto, Cristo não passava de uma criatura. Um refinamento ainda maior dessa doutrina foi defendido, em nosso país, pelo Dr. Samuel Clarke; e o Dr. Waterland, seu grande e ilustre adversário, mostrou que, apesar dos termos ortodoxos empregados, ele ainda implicava que Cristo era um ser criado, a menos que se admitisse um absurdo evidente.3

A doutrina sabeliana se opõe igualmente ao trinitarismo e ao sistema ariano. Contra este, afirma a divindade do Filho e do Espírito; contra aquele, nega a personalidade de ambos. Sabélio ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são apenas denominações de uma só hipóstase; em outras palavras, que há uma só pessoa na Divindade, e que o Filho ou Verbo são apenas virtudes, emanações ou funções. No Antigo Testamento, Deus deu a lei como Pai; no Novo, habitou entre os homens, ou se encarnou, como Filho; e desceu sobre os apóstolos como Espírito. Como o seu sistema, ao negar uma filiação real, os obrigava a reconhecer que foi o Pai quem sofreu pelos pecados dos homens, os sabelianos eram muitas vezes chamados, nas primeiras eras, patripassianos.

Não é necessário deter-se na refutação desses erros, tanto porque hoje têm pouca influência, como principalmente porque ambos estão envolvidos na questão sociniana e ficam decididos pelo estabelecimento da doutrina bíblica de uma trindade de pessoas divinas na unidade da Divindade. Se Jesus Cristo é o Filho divino de Deus; se ele foi “enviado” por Deus e “voltou” para Deus; se ele se distinguiu do Pai tanto na sua natureza divina quanto na humana, dizendo quanto à primeira: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30), e quanto à segunda: “o Pai é maior do que eu” (Jo 14.28); se há algum sentido na sua declaração: “Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho” (Mt 11.27), palavras que de modo algum podem ser ditas de uma distinção de funções, ou de uma emanação ou operação; então todas essas passagens provam uma personalidade real e não podem ser explicadas por uma personalidade apenas modal. Essa é a resposta à opinião sabeliana. Quanto à hipótese ariana, ela cai, juntamente com o socinianismo, diante da série de provas já apresentadas a partir das Sagradas Escrituras para estabelecer a eternidade, a consubstancialidade, a coigualdade e, por conseguinte, a verdadeira divindade do nosso Redentor. E talvez a verdadeira razão por que nem mesmo o semiarianismo, defendido com tanta sutileza pelo Dr. Samuel Clarke, conseguiu manter alguma influência entre nós deva ser atribuída menos aos escritos competentes e eruditos do Dr. Waterland e de outros, que perseguiram o erro através de todas as suas mutáveis transformações, do que à manifesta impossibilidade de conceber um ser que não seja nem verdadeiramente Deus nem criatura, e à total ausência, nas Escrituras, por mais que sejam torturadas, de qualquer apoio a essa opinião. O socinianismo assume alguma plausibilidade em alguns dos seus aspectos, porque Cristo foi de fato homem; mas o semiarianismo é mera hipótese, que mal consegue encontrar um texto da Escritura para perverter.

Notas de Richard Watson

1. “σωματικῶς, isto é, verdadeiramente, perfeitissimamente, não de modo típico e em sombra, como Deus se manifestou no Antigo Testamento. E essa habitação é uma união pessoal e absolutamente singular.” (Glassius.) ↩

2. Veja também Illustration of the Method of explaining the New Testament by the early Opinions of Jews and Christians concerning Christ, de Wilson, e Vindication, etc., do Dr. Jamieson. ↩

3. A hipótese do Dr. Samuel Clarke era que há um só Ser supremo, que é o Pai, e dois seres subordinados, derivados e dependentes. Mas ele se recusava a chamar Cristo de criatura, julgando-o algo entre uma natureza criada e uma natureza existente por si mesma. O Dr. Clarke apelou para os Pais da Igreja; e Petavius, erudito jesuíta, em seus Dogmata Theologica, já havia procurado provar que os Pais anteriores ao Concílio de Niceia se inclinavam para o arianismo. O bispo Bull, em sua grande obra sobre o assunto, e o Dr. Waterland podem ser considerados os que encerraram de vez essa questão, em oposição a ambos. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).