Uma Só Carne · Curso para CasaisAula 1

Aliança, mais que contrato

“Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.”Gênesis 2.24 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 2.18-25; Mt 7.24-27; Ml 2.10-16

Para começar

Por que os casamentos desmoronam com tanta facilidade?

Vivemos um tempo de forte depreciação da família. Antes de aprender técnicas de convivência, precisamos responder à pergunta que sustenta todas as outras: o que é, afinal, o casamento?

Este curso nasce de uma convicção: o casamento não é apenas um contrato entre duas partes que se desfaz quando uma delas se julga prejudicada. Ele tem, sim, uma dimensão jurídica e contratual legítima; o problema não é ser contrato, é ser reduzido a contrato. Antes de tudo, o casamento é uma aliança estabelecida por Deus, e é a aliança que sustenta o amor nos dias em que o sentimento fraqueja, e não o contrário. Na leitura wesleyana, o lar é, por excelência, um ambiente de santificação: a oração a dois, a Palavra, o culto, a comunhão da igreja e a Ceia são os meios de graça de que o casamento se alimenta. Ao longo de nove aulas, vamos tratar do alicerce, do amor como decisão, das prioridades do lar, da comunicação, dos conflitos, das crises, da sexualidade, do dinheiro e do trabalho, e dos recomeços, sempre com a Bíblia aberta e os pés no chão da vida real.

Como usar este curso a dois. Cada aula termina com uma seção chamada “Para conversar a dois”: perguntas para o casal conversar em particular, sem plateia e sem juiz. Reservem um momento tranquilo da semana e conversem com honestidade e mansidão. Melhor ainda: façam de cada aula uma visita do casal à própria vinha, como em Cantares 7.11-12 (“Vem, meu amado, saiamos ao campo… vejamos se florescem as vides”): uma noite marcada, a mesa posta com um café ou um jantar simples, as telas desligadas e a aula como roteiro da conversa. O curso também funciona para grupos de casais na igreja; nesse caso, as respostas do casal continuam sendo só do casal.

O diagnóstico

Individualismo e a cultura do descarte

A mentalidade utilitarista tomou conta da sociedade: cada um busca o que é seu, cada um quer levar vantagem em tudo.

É aquele patrão que suga do empregado e o dispensa quando já não lhe interessa. A mesma mentalidade descartável se observa no casamento, quando as pessoas parecem perguntar mais “que vantagem eu levo?” do que “o que eu estou trazendo para o casamento?”. Quando a relação deixa de satisfazer expectativas imediatas, o descarte é o caminho mais comum.

Os votos, “na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe”, são quebrados com a maior facilidade. Quase tudo virou desculpa para a separação. A cultura contemporânea tornou o rompimento dos vínculos socialmente mais aceitável e, em muitos ambientes, enfraqueceu a disposição de perseverar diante das dificuldades comuns do casamento: em vez de unir forças, esforço e criatividade para superar o obstáculo juntos, a tendência é desistir do compromisso ao primeiro sinal de dificuldade.

A definição

O que é o casamento?

Seria meramente um contrato social entre duas pessoas? A falta de amor seria desculpa legítima para dissolvê-lo? A resposta bíblica começa no Éden.

No relato da criação, o casamento é apresentado como a união em “uma só carne” estabelecida por Deus (Gn 2.24). Não foi invenção humana, nem arranjo cultural: é ordenança do Criador, anterior a qualquer cultura e a qualquer cartório. Jesus confirmou: “Portanto, o que Deus ajuntou, não separe o homem” (Mt 19.6). E Malaquias revela o quanto Deus leva essa aliança a sério: ele é testemunha “entre você e a mulher da sua mocidade”, e odeia o repúdio (Ml 2.14-16).

Eis a inversão que muda tudo: não é apenas o amor que sustenta o casamento; é o casamento, como aliança sagrada, que passa a sustentar o amor. Quem entende isso para de perguntar se o sentimento de hoje autoriza o compromisso, e passa a perguntar como o compromisso vai nutrir o sentimento de amanhã.

Mateus 7.24-27

A tempestade e o alicerce

No Sermão do Monte, as chuvas caem, os rios transbordam e os ventos sopram contra as duas casas, a do prudente e a do insensato. A tempestade não escolhe endereço.

Jesus não fala ali especificamente de casamento; fala de toda vida construída sobre o ouvir e praticar a sua Palavra. Mas o princípio se aplica com força ao lar. O diferencial do casamento cristão não é a ausência de problemas, brigas ou dificuldades financeiras. As crises são inevitáveis para todos. A diferença está no alicerce: a casa firmada na rocha é a vida fundamentada na prática da Palavra de Deus. O mesmo temporal que derruba uma casa apenas comprova a solidez da outra.

Casa na areia

Fundada no sentimento do momento, nas expectativas de consumo e na pergunta “o que eu ganho?”. Ao primeiro vento forte, desiste.

Casa na rocha

Fundada na aliança, na obediência à Palavra e na pergunta “o que eu posso construir?”. Apanha as mesmas chuvas, e permanece de pé.

O segredo

O temor do Senhor, base dos relacionamentos

“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10). E é também a base de sustentação do casamento.

Repare nas expressões que acompanham os mandamentos conjugais: sujeitem-se uns aos outros “no temor de Cristo” (Ef 5.21), a esposa ao marido “como ao Senhor” (Ef 5.22), o marido ame a esposa “como Cristo amou a igreja” (Ef 5.25), “como convém no Senhor” (Cl 3.18). O casamento cristão não se sustenta olhando um para o outro apenas, mas olhando os dois para Cristo.

Então o casal, no temor do Senhor, deve levar a sério sua aliança: nutrir o amor e os afetos, esforçar-se por preservar a unidade e a harmonia, promovendo a felicidade do lar. É disso que tratam as próximas oito aulas.

Para o casal

Para conversar a dois

Reservem um momento a sós esta semana. Sem celular por perto, sem pressa e sem acusações: a regra é falar de si, não do outro.

1. Toda casa nova é construída com material que veio de algum lugar. Que modelo de casamento cada um de nós viu na casa em que cresceu? O que dessa herança queremos assentar no nosso alicerce, e o que pedimos a Deus a graça de fazer diferente?
2. Quando nos casamos, o que cada um de nós esperava receber do casamento? E o que estávamos dispostos a trazer para ele? O que mudou de lá para cá?
3. Em que momentos o nosso casamento já se comportou como “contrato” (cobrança, vantagem, ameaça de desistir)? E em que momentos se comportou como “aliança”?
4. Qual foi a maior tempestade que já atravessamos juntos? O que ela revelou sobre o nosso alicerce?

Exercício da semana: escrevam juntos, à mão, os votos que fariam hoje um ao outro, com a maturidade de quem já conhece os defeitos do outro, e guardem o papel na Bíblia de vocês. Releiam na próxima crise.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Não é o amor que sustenta o casamento; é o casamento que sustenta o amor.” Em que essa inversão muda a maneira de enfrentar uma fase fria da vida a dois?Ver resposta sugerida
Muda o ponto de apoio. Se o amor é o alicerce e o compromisso é a consequência, então a fase fria é uma sentença: acabou o sentimento, acabou a razão de ficar. Mas, se a aliança é o alicerce, a fase fria vira um canteiro de obras: o compromisso permanece firme enquanto o sentimento é replantado, regado e cultivado, e a história de muitos casais maduros testemunha que ele volta, mais profundo do que na juventude. É o que os votos sempre disseram: prometemos amar “na alegria e na tristeza”, justamente porque haverá tristeza. Deus trata conosco da mesma forma: sua aliança não depende do nosso desempenho de cada dia (2Tm 2.13), e é exatamente essa fidelidade que nos dá segurança para crescer. O casal que se sabe seguro na aliança tem coragem para conversar sobre o que está frio, sem medo de que a conversa termine em abandono.
Como ajudar, com mansidão, um casal amigo que fala em desistir “porque o amor acabou”?Ver resposta sugerida
Primeiro, ouça de verdade, sem minimizar a dor: por trás de “o amor acabou” quase sempre há feridas concretas que precisam ser nomeadas. Depois, com carinho, questione a premissa: o amor bíblico não é um raio que cai ou deixa de cair sobre nós; é verbo, atitude e decisão (1Co 13.4-8; Ef 5.25), e o que se planta pode ser replantado. Convide-os a olhar para o alicerce e não apenas para a tempestade: as chuvas caem sobre todas as casas (Mt 7.24-27); a pergunta não é “por que estamos sofrendo?”, mas “sobre o que estamos construídos?”. Sugira passos concretos: buscar o pastor ou um aconselhamento sério, reservar tempo a dois, e cada um assumir a sua parte diante de Deus em vez de auditar a parte do outro. E ore com eles: casamentos ressuscitam, e Deus é especialista nisso (Is 61.3).

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Os temas do lar são tratados também na seção Família e Casamento dos Estudos do Bispo Ildo.

Tarefas

Ler Gênesis 2.18-25, Malaquias 2.10-16 e Mateus 7.24-27, anotando o que cada texto diz sobre a natureza do vínculo conjugal; e fazer, a dois, o exercício dos votos reescritos.

Aula 2

Amor é mandamento, não apenas sentimento: os verbos de 1Coríntios 13, a diferença entre paixão e amor, e as maneiras práticas de reacender a chama. Ir para a Aula 2 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello