Abraão · Aula 5Lição

A aliança e a pressa

“Abrão creu no Senhor, e isso lhe foi atribuído para justiça.”Gênesis 15.6 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 15; Gn 16; Rm 4.1-12; Gl 3.6-9

Depois da vitória

O medo que vem depois

“Depois destes acontecimentos, a palavra do Senhor veio a Abrão, numa visão, dizendo: Não tenha medo, Abrão, eu sou o seu escudo, e lhe darei uma grande recompensa” (Gn 15.1).

Repare quando isso é dito: logo depois da vitória do capítulo 14. Deus não diz “não temas” a um homem em derrota, e sim a um homem que acabara de enfrentar quatro reis e de recusar a riqueza de Sodoma. O medo costuma chegar quando a adrenalina passa.

E a resposta de Abraão é surpreendentemente franca: “Senhor Deus, que me darás, se continuo sem filhos?” (Gn 15.2). Ele não finge gratidão. Diz a Deus, com todas as letras, que a promessa central ainda não saiu do papel e que o herdeiro provável é um servo da casa.

Guarde isto para a vida devocional: a Escritura não repreende a franqueza de Abraão. Deus responde ao lamento levando-o para fora e mandando contar as estrelas. Quem cala a dúvida por medo de ofender a Deus perde a conversa que Abraão teve.

O versículo decisivo

“Creu no Senhor, e isso lhe foi atribuído para justiça”

Deus o leva para fora, manda contar as estrelas e diz: assim será a tua descendência (Gn 15.5). E vem o versículo que o Novo Testamento não larga mais.

Três observações que a classe precisa ouvir:

Antes da circuncisão

Paulo faz questão de notar que isso foi dito no capítulo 15, e a circuncisão só aparece no 17. Logo, a justificação não veio pelo sinal (Rm 4.9-11).

Antes da Lei

Séculos antes de Moisés. Portanto, a justificação pela fé não é invenção do Novo Testamento nem exceção tardia; é o modo como Deus sempre operou (Gl 3.6-9).

Fé não é mérito

A fé não é uma obra boa que compensa as outras. Ela é a mão vazia que recebe. Se fosse mérito, teríamos apenas trocado a moeda.

A cerimônia

A aliança em que só um passa

Abraão pede um sinal: “como saberei que vou herdar essa terra?” (Gn 15.8). Deus responde com um rito impressionante.

Manda partir animais ao meio e dispor as metades umas diante das outras (Gn 15.9-10). No costume da época, os dois pactuantes passavam entre as partes, como quem diz: que me aconteça o mesmo se eu quebrar a aliança.

Cai então um sono profundo sobre Abraão, e trevas. E quem passa entre os pedaços é “um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo” (Gn 15.17), símbolos da presença de Deus. Abraão está dormindo. Não passa.

A queda

A tentativa de ajudar Deus

Entre a aliança do capítulo 15 e o nascimento de Isaque passam-se muitos anos. E, no meio, vem o capítulo 16.

“Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos” (Gn 16.1). A proposta parte dela: toma a serva, Agar; talvez por ela eu venha a ter filhos. E o texto registra a frase mais dura do episódio: “Abrão concordou com o plano de Sarai” (Gn 16.2).

Do ponto de vista da época, era um arranjo legal e comum. Do ponto de vista da promessa, era um atalho. E note de onde veio Agar: era egípcia (Gn 16.1). A descida ao Egito ainda estava cobrando a conta, como a aula 3 antecipou.

O que a fé faria

Esperar. Deus não havia dito quando, mas havia dito que sim.

O que a pressa fez

Buscar um meio humano de produzir um resultado divino, usando uma pessoa como instrumento.

As consequências chegam rápido. Agar concebe e despreza a senhora; Sarai culpa Abraão; Abraão lava as mãos (“você continua a ter controle sobre a sua serva”); e Sarai a humilha até que ela foge (Gn 16.4-6). Ninguém sai bem dessa história. A Escritura não maquia os patriarcas.

A surpresa

O Deus que vê a mulher descartada

O capítulo poderia terminar no deserto. Mas então acontece algo que muda o tom.

O Anjo do Senhor encontra Agar junto a uma fonte e a chama pelo nome e pela condição: “Agar, serva de Sarai, de onde você vem e para onde vai?” (Gn 16.8). Ele ouve a aflição dela, promete descendência e manda que volte.

O nome que ela deu a Deus

“Tu és o Deus que vê”

Agar é a primeira pessoa na Bíblia a dar um nome a Deus. E quem faz isso não é o patriarca: é uma escrava estrangeira, grávida, humilhada e fugitiva. Ela chama o filho de Ismael, que significa “Deus ouve”.

Gênesis 16.13-15

Este é um dos pontos mais pastorais de toda a história de Abraão. O erro dos poderosos não cancela o cuidado de Deus com quem foi usado por eles. Deus não trata Agar como dano colateral do plano com Abraão. Ele a procura, a nomeia e a promete.

Cuidado com uma leitura frequente e errada: dizer que Ismael é “o fruto da carne” e parar aí, como se ele fosse um erro sem valor. O texto mostra Deus abençoando Ismael e cuidando de Agar duas vezes (Gn 16 e Gn 21.17-20). Consequências reais convivem com misericórdia real.

Aplicação

O que aprendemos

Toque em cada lição para abrir.

1Dúvida dita em oração não é incredulidade+

Abraão perguntou “que me darás, se continuo sem filhos?” e “como saberei?”. Deus não o repreendeu: respondeu com estrelas e com uma aliança. Há uma diferença entre levar a dúvida a Deus e usá-la para justificar um atalho.

2A justificação sempre foi pela fé+

Gênesis 15.6 vem antes da circuncisão e séculos antes da Lei. Paulo constrói sobre isso em Romanos 4 e Gálatas 3: se Abraão foi justificado por crer, ninguém precisa da Lei para ser aceito por Deus.

E fé não é mérito: é a mão vazia que recebe.

3A aliança depende de Deus, não do nosso desempenho+

Abraão dormia enquanto o fogo passava entre os pedaços. Deus assumiu as duas pontas. É por isso que a promessa sobreviveu ao Egito, a Agar e a tudo o mais.

4A pressa é o atalho da fé cansada+

Ninguém propõe um atalho no primeiro dia. Agar aparece depois de anos de espera. A tentação não é abandonar a promessa, é realizá-la por conta própria, e quase sempre há um arranjo legal e socialmente aceito à disposição.

5Deus vê quem foi usado+

Agar é a primeira pessoa da Bíblia a dar um nome a Deus, e o nome é “Tu és o Deus que vê”. O erro dos poderosos não cancela o cuidado de Deus com quem pagou a conta.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Onde, na sua vida, você está tentado a produzir por conta própria aquilo que só Deus pode dar?Ver resposta sugerida

Note que o atalho de Abraão e Sarai não foi imoral aos olhos da sociedade deles. Era legal, comum e prático. Os nossos atalhos costumam ter a mesma cara: uma solução aceita por todos, que resolve depressa e não parece pecado.

Um teste útil: o meu plano usa alguém como instrumento? Agar não teve voz na decisão que mudou a vida dela. Quando o nosso jeito de resolver depende de tratar uma pessoa como meio, já saímos do caminho, por mais legal que seja.

E o segundo teste: estou fazendo isso porque Deus disse não, ou porque Ele ainda não disse quando? A promessa não estava em dúvida; o prazo é que incomodava.

Como acolher alguém que hoje é a “Agar” de uma história, usada e depois descartada?Ver resposta sugerida

Comece pelo que o próprio texto faz: Deus a encontra, chama pelo nome e pergunta de onde vem e para onde vai. Não começa com repreensão nem com sermão sobre a hierarquia da casa. Começa vendo.

Depois observe o que Ele não faz: não trata Agar como dano colateral do plano com Abraão, nem manda que ela se conforme em silêncio. Ouve a aflição, promete futuro e a devolve à situação difícil com uma palavra que sustenta.

Na prática pastoral, isso significa não pedir à pessoa ferida que proteja a reputação de quem a feriu. E significa dizer com clareza que erro dos poderosos não cancela o cuidado de Deus. O nome que ela deu a Deus continua verdadeiro: Ele vê.

A aliança e a pressa · Curso “Abraão, o pai da fé”.