Estudos do Bispo Ildo · Igreja e Ministério · Pastoreio e Liderança
É possível falar muito de Deus e continuar profundamente voltado para si mesmo? Alguém pode dedicar a vida à igreja e, ao mesmo tempo, usar a religião para conquistar admiração e controlar os outros? Como distinguir a firmeza pastoral do autoritarismo? E como examinar tudo isso sem transformar o discernimento em acusação precipitada?
Essas perguntas não são novas. A Bíblia trata com muita seriedade do uso da religião para promover a própria importância, e a resposta que ela dá passa pelo arrependimento pessoal, mas não para aí: alcança também o modo como a comunidade exerce a autoridade e cuida das pessoas. Como o centro da vida cristã é o amor a Deus e ao próximo, na forma em que o vemos no caráter de Jesus, é por esse centro que toda prática religiosa, inclusive a minha e a sua, precisa ser medida.
Neste estudo, procurarei primeiro esclarecer o que estou chamando de narcisismo religioso, para depois percorrer os principais textos bíblicos sobre o assunto: a parábola do fariseu e do publicano, o Sermão do Monte, Mateus 23, a terceira carta de João, Ezequiel 34 e alguns outros. Ao final, tratarei da resposta da graça, do arrependimento que precisa aparecer na conduta e de algumas perguntas para o exame pessoal e o estudo em grupo.
A expressão “narcisismo religioso” não aparece na Bíblia. Uso-a aqui para designar um padrão de atitudes em que a pessoa se serve da fé, do conhecimento bíblico, da posição eclesiástica ou da imagem de santidade para sustentar a própria superioridade, obter admiração e manter o controle sobre os outros.
É preciso, porém, distinguir algumas coisas que costumam ser confundidas. Uma coisa são as manifestações de orgulho, que precisam ser confrontadas em qualquer cristão, a começar por mim. Outra são os padrões persistentes de manipulação e abuso espiritual, que exigem proteção para quem sofre e responsabilização para quem pratica. Outra, ainda, é o transtorno de personalidade narcisista, cuja identificação depende de avaliação clínica: a Associação Americana de Psiquiatria o descreve como um padrão abrangente de grandiosidade, necessidade de admiração e dificuldade de empatia, e uma discordância, uma decisão firme ou um episódio de vaidade não bastam para caracterizá-lo.
Por isso não vou diagnosticar personagens bíblicos nem oferecer um teste para rotular pessoas. O que me interessa é o comportamento moral e espiritual que as Escrituras descrevem e condenam. Pela mesma razão, não devemos reduzir uma condição de saúde mental a uma explicação exclusivamente moral, nem supor que toda pessoa que recebeu esse diagnóstico pratique abuso religioso.
Também não se trata de negar a própria dignidade. Fomos criados à imagem de Deus (Gn 1.26-27), e Paulo, ao advertir contra a autoexaltação, não pede que ninguém se anule, mas que cada um pense de si mesmo “com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3). O problema começa quando a própria importância se torna a medida de todas as relações, de modo que Deus passa a ser invocado para confirmar as minhas pretensões e as pessoas passam a valer conforme me admiram ou me servem.
Uma pergunta ajuda a começar o exame: o que acontece comigo quando não sou reconhecido, quando outro recebe o destaque que eu esperava ou quando alguém demonstra que eu estava errado?
Quando Paulo descreve os “tempos difíceis” dos últimos dias, a lista começa justamente pelos “egoístas” e segue com a avareza, o orgulho, a arrogância, a ingratidão, a crueldade, a falta de domínio próprio e o amor aos prazeres mais do que a Deus (2Tm 3.1-5). O que mais chama a atenção, porém, é o fecho da lista: tudo isso convive com a “forma de piedade”. O apóstolo não está falando de gente sem religião, mas de uma religiosidade cuja expressão exterior não corresponde a uma vida transformada.
Note-se que Paulo termina mandando Timóteo ficar longe dessas pessoas, o que mostra que elas já estavam no horizonte do jovem pastor. A passagem, portanto, não serve apenas para denunciar uma geração futura; ela tem aplicação presente e começa pelo exame da nossa própria comunidade.
Do ponto de vista teológico, esse desvio pode ser entendido como uma forma de idolatria de si mesmo, uma aplicação do princípio de Romanos 1.21-25: quando a criatura ocupa o lugar que pertence ao Criador, os afetos e as relações se desordenam. No ambiente religioso, essa inversão pode acontecer sem que o vocabulário deixe de ser inteiramente cristão. A pessoa atribui os seus êxitos a Deus e, ainda assim, recebe toda crítica como ofensa intolerável; defende a santidade e, ao mesmo tempo, considera-se dispensada das regras que cobra dos outros. A incoerência costuma aparecer no momento em que a verdade cobra um preço pessoal.
Ninguém está imune a isso. O orgulho cresce tanto no púlpito quanto nos bancos, tanto em quem exerce autoridade quanto em quem se orgulha de combater autoridades.
Lucas explica a finalidade da parábola antes de contá-la: Jesus a dirigiu a “alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lc 18.9). O fariseu apresenta a Deus o seu jejum e os seus dízimos e monta uma comparação em que sai vencedor. O publicano, sem ousar levantar os olhos, bate no peito e pede misericórdia. E Jesus conclui que foi este, e não aquele, quem “desceu justificado para a sua casa” (Lc 18.14).
Jejuar e contribuir não são condenados. O desvio está em usar essas práticas como fundamento de superioridade, de modo que o outro homem vira um recurso para engrandecer a imagem de quem ora. Até a gratidão pode ser deformada quando o seu conteúdo é a satisfação de não ser “como os demais homens” (Lc 18.11).
A ligação entre justiça própria e desprezo merece atenção, porque uma coisa alimenta a outra. Quando considero a minha condição espiritual uma conquista que me distingue dos inferiores, fica difícil acolher o pecador, ouvir uma correção ou reconhecer uma virtude em quem discorda de mim. O publicano, por outro lado, não é aprovado por desprezar a si mesmo como pessoa; ele simplesmente abandona a pretensão de justificar-se e se lança sobre a misericórdia de Deus, que é exatamente o que Paulo descreve quando diz que somos salvos pela graça, mediante a fé, “não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9).
Há, porém, uma armadilha na leitura desta parábola: ela pode ser lida de modo farisaico, bastando agradecer a Deus por não sermos como o fariseu. Por isso a sua aplicação começa em nós. Quem conheceu a graça precisa tratar as pessoas de maneira graciosa.
Por fim, é preciso respeitar o contexto histórico. Jesus era judeu, e a sua crítica não autoriza caricaturar todos os fariseus nem o judaísmo. O comportamento que ele denuncia pode reaparecer em qualquer comunidade cristã, e é isso que nos interessa aqui.
No Sermão do Monte, Jesus examina três práticas centrais da piedade judaica, a esmola, a oração e o jejum, e em cada uma delas faz a mesma pergunta: para quem isso está sendo feito? Quando a finalidade é ser visto, a aprovação humana passa a ser a recompensa desejada, e Jesus adverte que ela será também a única recompensa recebida (Mt 6.1-18). A prática religiosa continua a mesma; o que mudou foi a sua direção interior.
Esse ensino precisa ser lido junto com Mateus 5.16, onde as boas obras são vistas pelas pessoas e as levam a glorificar o Pai. A visibilidade, por si só, não determina a infidelidade. A questão é a glória que se procura e o bem que de fato se realiza.
O mesmo princípio ajuda a examinar a presença cristã nas redes sociais, um tema que não existia nos dias de Jesus, mas que cai exatamente sob a sua palavra. Publicar uma mensagem, divulgar um trabalho ou prestar contas de uma campanha pode servir à missão. A dificuldade aparece quando pessoas necessitadas viram cenário de autopromoção, quando a exposição vale mais do que o cuidado ou quando o serviço perde o sentido se ninguém souber quem o realizou.
Não conhecemos perfeitamente as motivações alheias, e é bom não fingir que conhecemos. Podemos, entretanto, observar padrões e, sobretudo, examinar as nossas próprias escolhas. Consigo ajudar sem registrar? Aceito que outra pessoa conte a história? Consigo celebrar um resultado sem destacar a minha participação? O serviço em segredo, a oração no quarto fechado e a generosidade discreta são práticas formativas: elas nos acostumam a fazer o bem diante de Deus, inclusive quando isso não acrescenta nada ao nosso prestígio.
Mateus 23 reúne as advertências mais duras de Jesus contra a incoerência entre ensino e conduta: cargas pesadas impostas aos outros sem um dedo para ajudar, obras feitas para serem vistas, o gosto pelos primeiros lugares e pelas saudações públicas, a negligência da justiça e da misericórdia, o contraste entre a aparência respeitável e a corrupção interior (Mt 23.3-7,23-28). O discurso é dirigido às multidões e aos discípulos, e é assim que deve ser recebido por quem o lê: como advertência para nós, não como munição contra os outros.
Na aplicação à igreja, uma pergunta é particularmente reveladora: o nosso sistema religioso facilita que as pessoas sejam cuidadas ou exige que elas preservem a imagem dos seus dirigentes? Quando um irmão ferido precisa ficar em silêncio para não prejudicar o prestígio de alguém, a ordem do cuidado foi invertida.
A preocupação de Jesus com os primeiros lugares também ajuda a avaliar a nossa relação com cargos e títulos. O Novo Testamento reconhece funções de liderança e recomenda consideração por quem trabalha na comunidade (Ef 4.11-13; 1Ts 5.12-13). A função ministerial, porém, não altera a condição fundamental de irmãos sujeitos ao mesmo Senhor, como o próprio Jesus lembra logo adiante: “um só é Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos” (Mt 23.8). Nenhum título concede superioridade moral automática nem imunidade à correção.
A incoerência denunciada em Mateus 23 pode aparecer em situações bem comuns: exigir sacrifícios que nunca se está disposto a fazer; julgar com severidade a falha de um membro e minimizar a mesma conduta em um dirigente; defender uma regra quando ela protege o próprio grupo e ignorá-la quando favorece um adversário. O exame bíblico alcança tanto os atos quanto os critérios com que os julgamos, e a fidelidade exige que a verdade tenha o mesmo peso quando nos beneficia e quando nos corrige.
A terceira carta de João oferece um retrato concentrado do abuso de influência dentro da igreja. Diótrefes, “que gosta de exercer a primazia”, não acolhe a autoridade do remetente, profere palavras caluniosas, não recebe os irmãos itinerantes, impede os que querem recebê-los e chega a expulsá-los da igreja (3Jo 9-10). O texto informa o que ele fazia, mas não permite reconstruir todos os detalhes da sua posição na comunidade, e muito menos autoriza um diagnóstico.
O que a sequência mostra é como a exaltação pessoal contamina a vida comunitária. O desejo de ocupar o primeiro lugar passa a determinar quem será ouvido, quem poderá cooperar e quem permanecerá no grupo, até que a comunhão fique condicionada à vontade de uma única pessoa.
A reação do ancião é instrutiva. Ele anuncia que, quando for, fará lembrar as obras de Diótrefes, isto é, vai torná-las conhecidas. Confrontar uma conduta destrutiva pode ser parte necessária do cuidado com a igreja, e o apelo à paz não deve impedir que os fatos sejam examinados. Ao mesmo tempo, a carta apresenta Gaio e Demétrio como referências positivas de hospitalidade e bom testemunho, e a segunda carta lembra que acolhimento cristão não significa aprovação indiscriminada de qualquer ensino (2Jo 7-11). O discernimento precisa considerar a verdade e a conduta, sem transformar preferências pessoais em condição para a comunhão.
Hoje, esse texto nos leva a perguntar: as decisões da nossa igreja são justificadas com razões que podem ser examinadas? Quem discorda pode falar sem ser humilhado? Existe alguém autorizado a corrigir o dirigente? O acesso ao ministério depende de fidelidade cristã ou de lealdade pessoal irrestrita? Uma comunidade amadurece quando os seus membros crescem na obediência a Cristo e na responsabilidade mútua; a dependência permanente da aprovação de uma só pessoa impede esse amadurecimento.
Em Ezequiel 34, o Senhor pronuncia um “ai” contra os pastores de Israel “que apascentam a si mesmos”: comem a gordura, vestem-se da lã, mas não fortalecem as fracas, não curam as doentes, não enfaixam as quebradas, não trazem de volta as desgarradas nem buscam as perdidas; ao contrário, dominam sobre elas “com força e tirania” (Ez 34.2-4). Deus anuncia que vai pedir contas a esses pastores e que ele mesmo buscará as suas ovelhas (Ez 34.10-16). No contexto original, a imagem alcança a liderança de Israel, especialmente os seus governantes, e a aplicação pastoral à igreja deve respeitar essa origem. O princípio, contudo, é claro: quem recebe autoridade para cuidar responderá pelo modo como trata os que lhe foram confiados. A vulnerabilidade dos membros não dá ao dirigente o direito de explorá-los.
Essa responsabilidade pode ser avaliada em situações bem concretas. O que acontece quando alguém adoece e deixa de produzir? Quando uma família precisa reduzir a sua participação para cuidar de um filho? Quando um voluntário diz que chegou ao limite? Se a pessoa só é valorizada enquanto oferece trabalho, dinheiro ou prestígio, o cuidado já foi comprometido.
Pedro aplica diretamente aos presbíteros o mesmo dever: pastorear o rebanho de Deus “não por ganância, mas de boa vontade; não como dominadores dos que lhes foram confiados, mas sendo exemplos para o rebanho” (1Pe 5.2-3). O rebanho pertence a Deus, e os pastores prestarão contas ao Supremo Pastor quando ele se manifestar (1Pe 5.4).
A responsabilidade, porém, não é só dos líderes. Em Ezequiel 34.17-22, Deus julga também a opressão exercida entre as próprias ovelhas, as gordas que empurram as magras. Membros influentes, grupos internos e grandes contribuintes também podem intimidar pessoas. Toda forma de poder dentro da comunidade precisa submeter-se ao amor e à justiça.
Paulo situa os dons espirituais no contexto da edificação da comunidade (1Co 12-14) e, no centro dessa exposição, coloca o capítulo do amor. Mesmo as realizações mais extraordinárias, línguas, profecia, fé que remove montanhas e a doação de todos os bens, perdem o seu valor espiritual quando separadas do amor; e o amor que ele descreve “não se envaidece, não é orgulhoso” e “não busca os seus interesses” (1Co 13.1-7).
Em Mateus 7.21-23, pessoas apelam às suas realizações religiosas, profecia, expulsão de demônios e milagres em nome de Jesus, como fundamento da sua aprovação, e ouvem: “Eu nunca conheci vocês”. O texto não nos obriga a aceitar como autêntica cada obra alegada; o que ele mostra é que credenciais espirituais não substituem a obediência à vontade do Pai e não resolvem a questão da fidelidade.
Sendo assim, eloquência, crescimento numérico, popularidade, manifestações emocionais e relatos de milagres não bastam para estabelecer a maturidade de alguém. É verdade que também não provam, por si mesmos, que haja manipulação. O exame precisa alcançar a vida, o ensino e o modo de tratar as pessoas. Por isso as qualificações de 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9 incluem a aptidão para ensinar, mas dão um peso enorme ao domínio próprio, à hospitalidade, à integridade e à ausência de violência e arrogância. A igreja precisa avaliar os seus dirigentes por esses critérios, inclusive, e talvez sobretudo, quando eles possuem capacidades excepcionais.
Um líder pode errar e receber correção com humildade. Uma pessoa dominada pela preservação da própria imagem, ao contrário, transforma qualquer questionamento em ataque à obra de Deus. O que decide não é a ausência de erros, mas a disposição comprovada de submeter-se à verdade e mudar.
Vale a pena examinar também o orgulho doutrinário, talvez a forma de narcisismo mais tentadora para quem ensina. Defender uma interpretação correta não autoriza desprezar quem ainda não a compreendeu. A maneira de ensinar precisa corresponder ao conteúdo do evangelho: “o servo do Senhor não deve andar metido em brigas, mas deve ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem a ele” (2Tm 2.24-25).
O abuso espiritual quase sempre se serve de textos bíblicos para tornar uma vontade humana incontestável. Alguns deles exigem cuidado especial.
O primeiro é “Não toquem nos meus ungidos” (Sl 105.15). No contexto, a proteção dos ungidos se refere aos patriarcas e à preservação divina durante as suas peregrinações, quando Deus impediu que fossem oprimidos por reis estrangeiros (Sl 105.12-15). O texto não estabelece uma proibição universal de examinar, questionar ou corrigir dirigentes religiosos. A recusa de Davi em matar Saul, tantas vezes lembrada nesse contexto, também não equivale à aprovação da conduta do rei: Davi reconhece a posição de Saul e, ao mesmo tempo, denuncia abertamente a injustiça da perseguição que sofre (1Sm 24.8-15). Respeitar uma função pode coexistir com a confrontação do mal.
Hebreus 13.17 ensina uma relação real de submissão e cooperação com a liderança, mas o mesmo versículo apresenta os líderes como quem “deve prestar contas”. A autoridade cristã está sujeita ao Senhor e à sua Palavra. Pedro exclui o governo dominador (1Pe 5.3); os apóstolos afirmam que “é mais importante obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29); e, em Gálatas 2.11-14, até Pedro é corrigido publicamente quando a sua conduta contradiz o evangelho.
A advertência “Não julguem” (Mt 7.1) também precisa ser lida com o que vem depois. Jesus condena o julgamento hipócrita e exige que o julgador enfrente primeiro o próprio pecado; em seguida, no mesmo capítulo, ensina a discernir os falsos profetas pelos seus frutos (Mt 7.3-5,15-20). O autoexame torna o discernimento responsável; não o proíbe.
Mateus 18.15-17 orienta a correção fraterna e a busca da restauração. Como aplicação pastoral, esse texto não deve ser transformado em exigência de que uma pessoa ameaçada ou coagida se encontre sozinha com quem a feriu. O próprio ensino bíblico prevê a participação da comunidade e a responsabilização pública nas situações que a exigem.
Primeira Timóteo 5.19-21 reúne três coisas que precisam permanecer juntas: a exigência de duas ou três testemunhas antes de se aceitar denúncia contra um presbítero, a repreensão pública de quem persiste no pecado e a proibição de qualquer parcialidade (1Tm 5.19-21). A cautela contra acusações infundadas não justifica descartar automaticamente um relato isolado, sem escuta nem apuração; acolher um relato, por sua vez, não equivale a declarar a culpa antecipadamente. As duas atitudes decorrem do compromisso do texto com a verdade e a justiça.
Em suma, as Escrituras não podem ser usadas para colocar o dirigente acima daquilo que elas mesmas exigem dele. Uma interpretação que concede imunidade à liderança precisa ser confrontada com o conjunto do ensino bíblico.
O quadro a seguir compara condutas observáveis. A sua finalidade é orientar o exame pastoral, não atribuir diagnósticos nem supor que uma ocorrência isolada explique a vida inteira de alguém.
| Situação | Autoridade exercida com responsabilidade | Autoridade usada para engrandecimento pessoal |
|---|---|---|
| Uma decisão é questionada | Explica as razões e aceita revisão | Trata o questionamento como deslealdade |
| Um erro é demonstrado | Assume a responsabilidade e procura reparar | Oculta os fatos ou transfere a culpa |
| Outra pessoa se destaca | Reconhece a contribuição e abre espaço para o crescimento | Desqualifica ou procura controlar o espaço do outro |
| Um membro estabelece limites | Considera a saúde e as responsabilidades da pessoa | Recorre à culpa ou a ameaças espirituais |
| Surge uma denúncia | Garante escuta protegida e apuração imparcial | Prioriza a imagem institucional e intimida quem fala |
| Há recursos a administrar | Presta contas e aceita supervisão | Trata a fiscalização como afronta pessoal |
O contexto continua indispensável. Nem toda decisão impopular é abusiva; a liderança precisa, às vezes, corrigir, negar pedidos e aplicar disciplina, e pode fazer isso com respeito, critérios conhecidos e possibilidade de recurso. O autoritarismo aparece quando a posição de poder é usada justamente para se dispensar dessas responsabilidades.
Também não é possível identificar esse padrão pela aparência. Extroversão, segurança ao falar e visibilidade não são provas de narcisismo, assim como um discurso de modéstia não comprova humildade. A avaliação tem de acompanhar a conduta, e especialmente a resposta à correção, ao longo do tempo.
Em Marcos 10.35-45, Tiago e João pedem os lugares de honra no reino. Jesus reúne os discípulos e redefine a grandeza em termos de serviço: “quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de todos” (Mc 10.43-44). E fundamenta a instrução na entrega da própria vida, pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10.45). Não é por acaso que essa conversa acontece no caminho para Jerusalém, logo depois do anúncio da paixão: a busca de posição é confrontada pela forma concreta da missão de Cristo.
Filipenses 2.3-11 aprofunda esse fundamento. Paulo liga a vida comunitária, em que nada se faz “por interesse pessoal ou vaidade”, à atitude de Cristo, que assumiu a condição de servo e se humilhou até a morte de cruz (Fp 2.3-8). O esvaziamento de que Paulo fala se explica pela encarnação e pelo serviço obediente; não é preciso entendê-lo como abandono da divindade. A aplicação aos cristãos é o abandono da rivalidade e a consideração pelo bem do outro.
João 13.3-17 acrescenta um detalhe precioso: Jesus lava os pés dos discípulos sabendo que “o Pai tinha confiado tudo às suas mãos” (Jo 13.3). A segurança da sua identidade se expressa em serviço. A humildade, portanto, não exige negar os dons recebidos; exige empregá-los em favor das pessoas. Para o discípulo, a filiação divina oferece um fundamento de identidade que não depende da posição ocupada na igreja (Rm 8.15-17), e quem recebe a própria vida como graça consegue reconhecer o valor do outro sem sentir isso como perda de valor pessoal.
O serviço de Cristo também orienta a maneira como o poder deve ser limitado. A disposição de Jesus para entregar-se voluntariamente não dá a nenhum líder o direito de exigir que outra pessoa aceite violência. O chamado ao serviço responsabiliza quem exerce autoridade pelo bem daqueles que estão sob os seus cuidados.
A resposta bíblica ao orgulho espiritual começa pela graça. A justificação exclui qualquer pretensão de superioridade diante de Deus, porque todos pecaram e todos dependem da mesma misericórdia (Rm 3.23-28). O novo nascimento e a santificação, por sua vez, apontam para a renovação da vida inteira, inclusive das motivações e das relações (Jo 3.3-8; Tt 3.5; Ef 4.22-24).
Na compreensão armínio-wesleyana, que é a minha, a iniciativa dessa transformação pertence a Deus, cuja graça desperta e capacita a resposta humana; mas essa graça precisa ser acolhida em fé e obediência. Filipenses 2.12-13 une as duas coisas: “desenvolvam a sua salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar”. O reconhecimento da nossa dependência não elimina a responsabilidade pelas nossas escolhas.
O fruto do Espírito oferece critérios concretos para acompanhar essa transformação: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23) precisam alcançar a conversa difícil, a administração dos recursos e a maneira de receber uma crítica. A profissão de santidade tem de corresponder a essas relações.
John Wesley, no sermão A circuncisão do coração, descreve a santidade como humildade, fé, esperança e amor, e define a humildade como “uma compreensão correta de nós mesmos”, que purifica a mente “das ideias exageradas sobre nossa própria perfeição e da opinião indevida sobre nossas capacidades e realizações”. É difícil encontrar descrição mais exata daquilo que o narcisismo religioso nega. Em Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, Wesley também insiste em que os cristãos amadurecidos no amor “não estão livres da ignorância, nem tampouco do erro”, de modo que a possibilidade de crescer na santidade permanece sempre acompanhada da necessidade de Cristo. Daí uma aplicação pastoral direta: alegar maturidade espiritual não dispensa ninguém de correção ou supervisão.
A formação cristã, por fim, se dá pelos meios de graça: oração, estudo das Escrituras, comunhão dos irmãos, Ceia do Senhor, obras de misericórdia e relacionamentos de prestação de contas. Quando há sofrimento psicológico ou padrões persistentes que exigem cuidado clínico, o acompanhamento profissional faz parte desse cuidado, e a igreja deve evitar prometer que uma experiência religiosa isolada resolverá automaticamente um transtorno de personalidade.
Paulo distingue a tristeza segundo Deus, que “produz arrependimento para a salvação”, da tristeza do mundo, que produz morte, e descreve a primeira pelos seus efeitos: cuidado, indignação, temor, zelo e desejo de ver o culpado punido (2Co 7.10-11). Em Lucas 19.8-9, a transformação de Zaqueu inclui a devolução, quatro vezes mais, do que ele havia roubado. Esses textos ajudam a avaliar pedidos de perdão: palavras e emoções precisam vir acompanhadas de verdade, reparação e mudança.
No cuidado pastoral, alguns sinais são relevantes: nomear os atos praticados, em vez de falar genericamente em erros; abandonar as justificativas que culpam os prejudicados; aceitar supervisão; interromper a conduta; e respeitar o tempo necessário para que a confiança seja reconstruída. A pessoa arrependida não impõe à vítima a tarefa de defender a sua reputação, nem a de provar que já a perdoou.
Perdão, reconciliação, confiança e aptidão para uma função ministerial são questões relacionadas, mas exigem discernimentos distintos. A disposição de perdoar pode coexistir com limites de contato e com consequências. A retomada de uma relação requer condições de verdade e segurança. E a responsabilidade por um cargo precisa considerar as qualificações bíblicas e a gravidade do dano causado. Por isso o perdão não torna automática a volta ao púlpito: conforme a situação, o afastamento pode ser prolongado ou definitivo, e a pessoa pode continuar recebendo cuidado espiritual sem voltar a ocupar a posição em que feriu outras.
A comunidade também tem a sua parte. Canais de escuta acessíveis, supervisão efetiva, prestação de contas financeira e procedimentos imparciais reduzem a possibilidade de que o prestígio de alguém impeça a correção, e aplicam na prática o dever bíblico de cuidar, examinar os fatos e evitar favoritismo. Quanto às pessoas feridas, devem ser ouvidas sem pressão para se reconciliarem depressa ou para confrontarem sozinhas quem as intimidou. Conforme o caso, podem precisar de acompanhamento pastoral independente, de apoio psicológico e de encaminhamento às autoridades competentes. O processo eclesiástico jamais deve servir para encobrir violência ou suspeita de crime.
Que o pecado esteja presente em todos nós é razão para humildade no julgamento; não é razão para igualar a responsabilidade de quem abusou do poder à de quem sofreu o abuso. Em Gálatas 6.1, a restauração de quem caiu é feita “com espírito de brandura”, e com cuidado para que o restaurador não seja também tentado. É isso que permite unir compaixão, verdade e responsabilidade.
Antes de aplicar este estudo a alguém, é preciso deixar que a Palavra examine as nossas próprias atitudes. O autoexame não substitui a proteção de quem sofre, mas impede que a denúncia do orgulho se transforme em mais uma ocasião de superioridade.
O estudo bíblico produz o seu fruto quando essas perguntas chegam a decisões reais: uma conversa sem intimidação, um erro reconhecido, uma prestação de contas aberta, uma pessoa ferida finalmente ouvida. Quem diz que ama a Deus, mas odeia o irmão, é mentiroso, escreve João, porque o amor a Deus se torna visível na maneira como tratamos aqueles que ele nos confiou (1Jo 4.20-21).
Escrevo como pastor e como bispo, isto é, como alguém que exerce autoridade na igreja e que, por isso mesmo, precisa deste estudo antes de qualquer outro leitor. Na tradição armínio-wesleyana em que me situo, a santidade nunca foi entendida como posição conquistada, mas como amor recebido de Deus e devolvido a ele e ao próximo; e o amor, como Paulo lembra, “não busca os seus interesses” (1Co 13.5).
Senhor, examina o nosso coração e mostra-nos o que ainda resiste à tua verdade. Dá-nos coragem para reconhecer os nossos pecados, disposição para reparar o mal que causamos e sabedoria para proteger quem sofre. Forma em nós o caráter de Cristo e ensina-nos a exercer toda responsabilidade com humildade e amor. Amém.
Nota: neste estudo as passagens bíblicas são, em geral, resumidas e comentadas, e não transcritas. As citações e os links seguem a Nova Almeida Atualizada (Sociedade Bíblica do Brasil, 2017). Recomendo ler cada passagem por inteiro, no seu contexto, durante o estudo.
Bispo Ildo Mello
Este estudo virou curso. Narcisismo religioso, em seis aulas com quiz, cartões de memorização, reflexões e PDF. As sete aulas estão no ar, da definição do problema ao que o Manual da Igreja prevê para a comunidade.