Parte I · Capítulo V

A origem das verdades que se encontram nos escritos e nos sistemas religiosos dos pagãos

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Vimos que algumas das principais verdades da religião e da moral, mencionadas pelos escritores pagãos ou pressupostas nos sistemas pagãos, são apresentadas como verdades já conhecidas do mundo e com as quais a humanidade estava familiarizada. Vimos também que nenhum legislador, poeta ou filósofo da Antiguidade jamais alegou ter descoberto as doutrinas da existência de Deus, da providência, de um estado futuro e das regras pelas quais se determina que as ações são boas ou más, quer essas opiniões fossem sustentadas por eles com plena convicção de sua certeza, quer apenas de modo duvidoso. Que elas foram transmitidas pela tradição desde uma época anterior, ou foram trazidas de alguma fonte paralela de informação, ou que derivaram de ambas as coisas: essas são, portanto, as únicas conclusões racionais.

Os mais sábios dentre os pagãos reconhecem muitas vezes que devem isso à tradição.

A ideia de uma época anterior de verdade, retidão e felicidade superiores, às vezes chamada de idade de ouro, era uma noção comumente aceita entre eles. Remonta pelo menos a Hesíodo, que rivaliza com Homero em antiguidade. Era também opinião comum que, em épocas anteriores à deles, existiram sábios que receberam conhecimento dos deuses e o comunicaram aos homens. Os pagãos mais sábios, apesar das muitas coisas grandiosas que dizem da natureza e da razão, derivam unicamente dos deuses a origem, a obrigação e a eficácia da lei. “Nenhum mortal”, diz Platão em sua República, “pode fazer leis com proveito.” Demóstenes chama a lei de εὕρημα καὶ δῶρον θεοῦ, “invenção e dom de Deus”. Eles falam de νόμοι ἄγραφοι, “leis não escritas”, e atribuem aos deuses tanto essas leis quanto as que foram introduzidas por seus vários legisladores. Xenofonte apresenta como opinião de Sócrates que as leis não escritas, recebidas em toda a terra, foram dadas pelos deuses, visto que era impossível que toda a humanidade as tivesse feito, falando línguas diferentes e não podendo reunir-se num só lugar.1 Platão é explícito sobre o assunto: “Depois de certo dilúvio, do qual poucos escaparam, quando a humanidade voltou a crescer, os homens não tinham letras, nem escrita, nem leis, mas obedeciam como a leis aos costumes e instituições de seus pais. Quando, porém, colônias se separaram deles, tomaram um ancião como chefe e, em seus novos assentamentos, conservaram os costumes de seus antepassados, sobretudo os que diziam respeito aos seus deuses. Assim os transmitiram à sua posteridade: imprimiram-nos na mente de seus filhos, e estes fizeram o mesmo com os filhos deles. Essa foi a origem das leis justas e das diferentes formas de governo.” (De Leg. 3.)

Isso se harmoniza com tanta exatidão com o relato mosaico a respeito do dilúvio de Noé, da origem das nações e da instituição divina da religião e das leis, que só resta uma destas possibilidades: ou as tradições patriarcais incorporadas nos escritos de Moisés tinham descido com grande exatidão até os tempos de Platão; ou os escritos de Moisés lhe eram conhecidos; ou ele havia recolhido a substância deles, em suas viagens, dos filósofos egípcios, caldeus ou magos.

E essa não é uma hipótese sem apoio. As provas são abundantíssimas de que a fonte primitiva de onde se tirou toda grande verdade religiosa e moral deve ser situada naquela parte do mundo onde Moisés coloca a morada dos patriarcas da raça humana, que andaram com Deus e receberam a lei de sua boca.2 Ali, nos tempos mais antigos, encontravam-se civilização e organização política, enquanto o resto da terra estava coberto de tribos selvagens. Isso é prova suficiente de que a Ásia foi o centro comum de onde se dispersou o restante da humanidade, a qual, à medida que se afastava dessas sedes primitivas e se dedicava mais à caça do que à agricultura, tornou-se bárbara na maioria dos casos.3

Nas superstições variadíssimas e desconcertantes de todas as nações descobrimos também um substrato muito notável de tradição comum e de fé religiosa.

A prática do sacrifício, que pode ser rastreada de imediato em todas as nações e até a mais remota Antiguidade, oferece uma prova eminente da origem comum da religião. Pois não se pode apresentar nenhuma razão, tirada da natureza do próprio rito ou das circunstâncias dos homens, que explique a universalidade dessa prática. E, como se trata claramente de uma instituição positiva, contrária aos interesses dos homens, ela só pode ser explicada por uma ordem dada num período muito remoto do mundo e imposta solenemente. Essa ordem, de fato, recebeu, seja de sua instituição original, seja de circunstâncias posteriores, uma força da qual a mente humana nunca conseguiu libertar-se. “Por muito tempo”, diz o dr. Shuckford, “continuaram entre as nações costumes que mostram ter havido uma antiga religião universal, cujos vestígios apareciam em vários ritos e cerimônias observados no culto religioso. Tal era o costume dos sacrifícios expiatórios e precatórios, tanto os sacrifícios de animais quanto as oblações de vinho, de azeite e dos frutos e produtos da terra. Essas e outras coisas, que estavam em uso entre os patriarcas, prevaleceram também entre os gentios.”

Os acontecimentos e algumas das principais opiniões das primeiras eras, mencionados nas Escrituras, também podem ser rastreados entre os povos mais bárbaros, bem como nos sistemas mitológicos orientais, gregos e romanos. Tais são: a formação do mundo; a queda e a corrupção do homem; a hostilidade de um agente poderoso e sobrenatural da maldade, sob o seu emblema apropriado e bíblico, a serpente; a destruição do mundo pela água; o repovoamento do mundo pelos filhos de Noé; a expectativa de sua destruição final pelo fogo; e, acima de tudo, a promessa de um grande e divino Libertador.4

A única maneira de explicar isso é admitir que as mesmas tradições foram transmitidas pelos progenitores das diferentes famílias da humanidade depois do dilúvio; que em alguns lugares elas foram fortalecidas e suas impressões aprofundadas por revelações sucessivas, as quais tomavam por base as primeiras tradições, como sendo de origem divina, e assim renovavam o conhecimento comunicado anteriormente ao mesmo tempo em que o ampliavam; e, ainda, que das revelações escritas feitas mais tarde a um só povo alguns raios de luz refletida incidiam constantemente sobre as nações vizinhas.

Tampouco temos dificuldade em rastrear essa comunicação da verdade, a partir de uma fonte comum, até as nações gentias, e também em mostrar que elas de fato receberam acréscimos de informação, direta e indiretamente, de um povo que conservava o sistema teológico primitivo em sua maior pureza.

Veremos razões suficientes, quando chegarmos a tratar desse assunto, para concluir que toda a humanidade descende de um único casal.

Se o homem é agora um agente moral, é preciso admitir que o primeiro homem foi um agente moral e, como tal, esteve sujeito a regras de obediência. E é muito mais provável que ele tenha sido instruído nessas regras por seu Criador mediante comunicação direta do que deixado a deduzir a vontade do Criador pela observação e pela experiência. Os que negam o relato bíblico da entrada da morte no mundo e pensam que a espécie humana sempre esteve sujeita a ela são obrigados a admitir uma revelação de Deus ao primeiro casal quanto à salubridade de certos frutos e aos hábitos destrutivos de certos animais. Do contrário, nossos primeiros progenitores teriam ficado muito mais expostos ao perigo dos frutos nocivos etc., e numa condição muito mais miserável por causa de seus temores do que qualquer de seus descendentes, porque não tinham experiência e não podiam ter informação nenhuma.5 Mas é muito mais provável que eles tivessem recebido informação expressa sobre a vontade de Deus a respeito de sua conduta. Pois, enquanto não tivessem estabelecido, por um processo de indução racional, o que era certo e o que era errado, não poderiam ser, propriamente falando, agentes morais. E, dadas as dificuldades de semelhante investigação, sobretudo enquanto não tivessem uma longa experiência do curso regular da natureza e do efeito de certas ações sobre si mesmos e sobre a sociedade, poderiam chegar a conclusões muito diferentes.6

Mas, seja qual for o modo como o primeiro homem obteve seu conhecimento moral e religioso, se admitirmos que ele esteve sob uma lei eficaz, ele deve ter conhecido, ao menos para o devido governo de si mesmo, toda verdade essencial à religião e à moral pessoal, doméstica e social. A verdade sobre esses assuntos era tão essencial para ele quanto para seus descendentes, e mais ainda porque ele haveria de ser em breve o cabeça e o governante paterno, por uma relação natural, de uma raça numerosa, e de possuir, em virtude desse ofício, grande influência sobre ela. Se admitirmos, portanto, que o conhecimento do primeiro homem foi ensinado a seus filhos (e seria o maior dos absurdos supor o contrário), então, quer ele tenha recebido sua informação sobre as principais doutrinas da religião e as principais regras da moral por revelação expressa de Deus, quer pelo exercício de suas próprias faculdades naturais, todos os grandes princípios da religião e da moral pessoal, doméstica e social devem ter sido comunicados de imediato a seus filhos, que descendiam diretamente dele. E vemos com bastante clareza a razão por que os primeiros escritores sobre esses assuntos nunca alegam ter descoberto as principais verdades da moral e da religião, mas falam delas como opiniões familiares aos homens e geralmente aceitas. Esse sistema religioso e moral primitivo, no que se refere aos primeiros princípios e a todas as suas aplicações particulares importantes, era também completo; do contrário, não teria havido nem religião nem moral eficazes nas primeiras eras, o que contraria toda a tradição e toda a história. E que esse sistema foi de fato transmitido fica claro pelo seguinte: a sabedoria das eras mais antigas consistia não tanto na ciência natural e especulativa quanto em noções morais, regras de conduta e conhecimento das opiniões dos sábios de períodos ainda mais antigos.

O pequeno número de pessoas por meio das quais esse sistema foi transmitido até Noé (pois, de fato, Matusalém foi contemporâneo tanto de Adão quanto de Noé) tornava impossível qualquer grande corrupção. Por isso os crimes atribuídos aos antediluvianos são a violência e outras imoralidades, e não a corrupção da verdade; e Noé foi “pregador da justiça” (2Pe 2.5), e não um restaurador da doutrina.

O dilúvio,7 sendo uma declaração tão terrível e marcante da ira de Deus contra a violação das leis dessa religião primitiva, haveria de lhe dar grande força e sanção, como sistema religioso, na mente dos descendentes imediatos de Noé. A existência de Deus; sua providência; seu favor para com os bons; sua ira contra os que praticam o mal; as grandes regras da justiça e da misericórdia; a prática de um culto sacrificial; a observância do sábado; a promessa de um Libertador e outros princípios semelhantes estavam entre os artigos e ritos religiosos desse sistema primitivo. E não se pode dar nenhuma explicação satisfatória de por que eles foram transmitidos a tantos povos em diferentes partes do mundo, por que continuaram a bruxulear através das trevas do paganismo até hoje, por que os encontramos mais ou menos reconhecidos na mitologia, nas tradições e nos costumes de quase todas as épocas, antigas e modernas, a não ser que tenham recebido alguma sanção original de grande eficácia, que os fixou profundamente no coração dos patriarcas de todas as famílias humanas. Os que negam as revelações contidas nas Escrituras não têm meios de explicar esses fatos, que em si mesmos são indiscutíveis. Não têm a respeito deles nenhuma teoria que não seja pueril demais para merecer refutação séria, e geralmente preferem passá-los em silêncio. Mas quem crê na Bíblia pode explicá-los, e somente ele. A destruição dos ímpios pelo dilúvio pôs o selo do céu sobre o sistema religioso transmitido desde Adão; e, sob a força desse atestado divino e inequívoco de sua verdade, os filhos e descendentes de Noé partiram para os seus diferentes assentamentos, trazendo por muitas eras a profunda impressão de sua santidade e autoridade. É verdade que essa impressão acabou cedendo ao vício, à superstição e à falsa filosofia. A superstição, porém, perverteu a verdade mais do que a desalojou; e as doutrinas, a história e até as esperanças das primeiras eras nunca foram inteiramente banidas, nem mesmo daquelas fábulas que se tornaram substitutos funestos de sua simplicidade.

Na família de Abraão, o verdadeiro Deus era reconhecido. Melquisedeque era soberano de uma das nações de Canaã e sacerdote do Deus Altíssimo; seus súditos, portanto, devem ter sido adoradores da verdadeira Divindade. Abimeleque, o filisteu, e seu povo, tanto nos dias de Abraão quanto nos de Isaque, também eram adoradores de Jeová e reconheciam os mesmos princípios morais que eram tidos por sagrados na família eleita. As revelações e promessas feitas a Abraão ampliariam as fronteiras do conhecimento religioso, tanto entre os descendentes de Ismael quanto entre os de seus filhos com Quetura; assim como as feitas a Sem seriam transmitidas, juntamente com a teologia patriarcal, à sua posteridade: os persas, os assírios e os mesopotâmios.8 No Egito, já nos dias de José, ele e o rei do Egito falam do verdadeiro Deus como de um ser conhecido e reconhecido por ambos. Ao chegarem a Canaã, os israelitas encontraram naquela sede da idolatria, talvez a primitiva, algumas pessoas que reconheciam que Jeová é “Deus em cima nos céus e embaixo na terra” (Js 2.11). Pelo ramo de Esaú, o conhecimento da verdadeira religião passaria da família de Isaque, com seus esclarecimentos adicionais nas alianças feitas com Abraão, aos descendentes dele. Jó e seus amigos, que provavelmente viveram entre Abraão e Moisés, professavam a religião patriarcal, e seus discursos mostram que ela era um sistema ao mesmo tempo sublime e abrangente. As pragas do Egito, a fuga milagrosa dos israelitas e a destruição das nações cananeias foram, todas elas, partes de uma terrível controvérsia entre o verdadeiro Deus e a idolatria que se espalhava pelo mundo; e não podiam deixar de ser amplamente divulgadas entre as nações vizinhas e de tornar conhecida a religião dos israelitas. (Jenkin, Reasonableness of Christianity, vol. 1, cap. 2.) Balaão, um profeta gentio, entremeia suas predições com muitas afirmações breves, mas eloquentes, dos primeiros princípios da religião: a onipotência da Divindade, sua providência universal e a imutabilidade de seus desígnios. E os nomes e epítetos que ele aplica ao Ser Supremo são, como observa o bispo Horsley, exatamente os mesmos usados por Moisés, por Jó e pelos escritores inspirados dos judeus, a saber, Deus, o Todo-Poderoso, o Altíssimo e Jeová. Isso prova que, por mais grosseiras que se tivessem tornado as corrupções da idolatria, a religião patriarcal não fora esquecida, nem sua linguagem caíra em desuso.

As frequentes e públicas restaurações dos israelitas aos princípios da religião patriarcal, depois de terem caído na idolatria e sob o poder de outras nações, não podiam deixar de tornar conhecidas suas opiniões peculiares entre aqueles com quem mantinham tantas vezes relações de amizade ou de guerra, de escravidão ou de domínio. Temos provas, paralelas às das Escrituras, de que a construção do célebre templo de Salomão e a fama da sabedoria desse monarca produziram não apenas um rumor amplamente difundido, mas também, como era a intenção da sabedoria e da bondade divinas, efeitos morais sobre os povos de nações distantes; e de que os abissínios receberam a religião judaica depois da visita da rainha de Sabá, tendo provavelmente achado que os princípios dessa religião concordavam com as antigas tradições dos patriarcas que permaneciam entre eles.9 O intercâmbio entre os judeus e os Estados da Síria e da Babilônia, de um lado, e o Egito, de outro, potências que alcançaram grande eminência e influência no mundo antigo, manteve-se por muitas eras. Os frequentes cativeiros e dispersões dos judeus tenderiam a preservar em parte, e em parte a reavivar, o conhecimento da fé outrora comum e universal; pois temos exemplos de que, nos piores períodos de sua história, havia entre os israelitas cativos aqueles que se apegavam com heroica firmeza à sua própria religião. Temos o caso da jovem cativa na casa de Naamã, o sírio, e, num período posterior, o exemplo sublime dos três jovens hebreus e de Daniel na corte de Nabucodonosor. O decreto desse príncipe, depois do livramento de Sadraque e seus companheiros, não deve ser tratado de passagem. Continha uma proclamação pública da supremacia de Jeová, em oposição aos deuses de seu país. E esse monarca, depois de curado de uma doença singular, tornou-se ele mesmo adorador do verdadeiro Deus. Ambas as circunstâncias não podiam deixar de despertar a atenção de um povo culto e curioso para os princípios religiosos dos judeus. Podemos acrescentar ainda que grande número de judeus, conservando suas Escrituras e adorando publicamente o verdadeiro Deus, nunca voltou do cativeiro babilônico, mas permaneceu em várias partes daquele vasto império depois que ele foi conquistado pelos persas. As escolas filosóficas caldeias, às quais muitos dos sábios gregos recorreram em busca de instrução, nunca estiveram, portanto, sem meios de conhecer o sistema teológico dos judeus, por mais que seus sábios tenham degenerado com o passar do tempo, entregando-se à astrologia judiciária; e a essa mesma fonte sagrada a conquista da Babilônia conduziu os persas.

Ciro, o célebre destruidor da monarquia babilônica, pertencia à religião dos magos, cujos adeptos adoravam a Deus sob o emblema do fogo, mas admitiam um princípio independente e eterno das trevas e do mal. Ele estava, porém, de certo modo preparado por sua hostilidade aos ídolos para dar ouvidos aos princípios dos judeus. E o seu favor para com eles mostra suficientemente que foi muito grande a influência exercida sobre sua mente pelo caráter de Daniel, pelos fatos notáveis ocorridos com ele nas cortes de Nabucodonosor e de Belsazar e pelas predições de seu próprio êxito feitas por Isaías. Em seu decreto para a reconstrução do templo, registrado em Esdras 1 e em 2 Crônicas 36.23, ele reconhece Jeová como o “Deus dos céus” (Ed 1.2), que lhe dera o seu reino e o encarregara de reconstruir o templo. Nem podia esse testemunho em favor do Deus dos judeus ficar sem efeito sobre os seus súditos. Uma prova disso, e da influência do judaísmo sobre os persas, é que pouco tempo depois do seu reinado ocorreu na religião dos magos um considerável aperfeiçoamento em alguns pontos, e alteração em outros, por uma evidente mistura com ela dos princípios e cerimônias dos judeus.10 E todos os aperfeiçoamentos que a teologia dos persas recebeu dessa maneira (e não foram poucos nem sem importância), toda a informação que eles adquiriram quanto à origem do mundo, aos acontecimentos das primeiras eras e às questões de moral e religião, assuntos sobre os quais os filósofos antigos faziam investigações agudas e ávidas, não podiam deixar de ser conhecidos pelos gregos cultos, cujo intercâmbio com os persas se manteve por tão longo período, e de ser transmitidos também àquela parte da Índia até onde os monarcas persas levaram suas conquistas.

É de fato incontestável que diversos fatores tornaram muito amplamente conhecidos os princípios dos judeus: o crédito de que gozavam no Império Persa; os acontecimentos singulares que os trouxeram à atenção dos monarcas persas; o favor que depois experimentaram da parte de Alexandre, o Grande, e de seus sucessores que reinaram no Egito, onde se tornaram tão numerosos e passaram a falar o grego de modo tão generalizado que se fez necessária uma tradução das Escrituras para essa língua; e o fato de terem, na maioria das principais cidades do Império Romano, mesmo quando este estava em sua maior extensão, e na verdade em todas as cidades célebres pelo refinamento e pela filosofia, suas sinagogas e seu culto público, em Roma, Alexandria e Antioquia, em Atenas, Corinto, Éfeso etc., como lemos nos Atos dos Apóstolos, e isso por muito tempo antes da era cristã. E, como esses acontecimentos ocorreram depois de sua reforma definitiva da idolatria, as opiniões que os distinguiam eram substancialmente as que se ensinam nas Escrituras. As declarações acima, para não falar do fato de que o caráter, o ofício, as opiniões e os escritos de Moisés eram conhecidos de muitos dos antigos filósofos e historiadores que o mencionam pelo nome e descrevem a religião dos judeus, bastam para explicar as opiniões e tradições que encontramos ocasionalmente nos escritos dos sábios gregos e romanos que mais se aproximam da verdade e melhor concordam com as Sagradas Escrituras. Elas fluíram até eles por muitos canais, que se ramificaram em diferentes épocas a partir da fonte da verdade. Mas eles geralmente as receberam como meras tradições ou noções filosóficas, que se julgavam livres para adotar, rejeitar, modificar ou perverter, conforme os levassem os princípios de suas escolas ou sua própria fantasia.

Deixemos, pois, de lado por ora toda questão relativa à inspiração, aos milagres e às profecias. As seguintes conclusões podem encerrar adequadamente estas observações:

1. Como história das opiniões e dos acontecimentos primitivos, as Escrituras têm pelo menos tanta autoridade quanto qualquer história dos tempos antigos. Mais ainda: a própria ideia de sua sacralidade, bem fundada ou não, torna seus pormenores históricos mais dignos de crédito, porque essa ideia levou a que fossem preservadas com mais cuidado.

2. Sua história é muitas vezes confirmada pelas antigas tradições e histórias pagãs, e em nenhum ponto relevante, ou com base em alguma prova sólida, é contradita.

3. Os princípios fundamentais daquilo que se chama religião natural, sustentados pelos teístas sensatos e por eles chamados de racionais, cuja descoberta eles atribuem ao entendimento humano sem auxílio, encontram-se nos mais antigos desses escritos sagrados, e ali se supõe que já existiam no mundo antes da data desses mesmos escritos.

4. Uma religião fundada em noções comuns e tradições comuns, abrangente tanto nas doutrinas quanto na moral, existiu em períodos muito antigos do mundo; e, pela concordância de quase todos os sistemas mitológicos em certas doutrinas, ritos e tradições, é razoável crer que essa teologia primitiva passou em alguma medida a todas as nações.

5. Ela foi conservada da forma mais perfeita entre aqueles descendentes de Abraão que formaram o Estado israelita e que subsistiram como nação, por muitas eras, paralelamente aos sucessivos grandes impérios da Antiguidade.

6. As frequentes dispersões de grande número desse povo, seja pela guerra, seja por escolha própria, e sua residência nas sedes do saber antigo ou perto delas, com seus livros sagrados e com o hábito de observar seu culto público, como na Caldeia, no Egito, na Pérsia e em outras partes do mundo antigo, bem como a notável atenção que eles e suas opiniões atraíram ocasionalmente, não podiam deixar de tornar muito amplamente conhecidas sua cosmogonia, sua teologia, suas leis e sua história.

7. O espírito de investigação de muitos dos filósofos antigos de diversos países levou-os a viajar em busca de informações precisamente sobre esses assuntos, e muitas vezes àqueles países onde a religião patriarcal havia existido outrora com grande pureza e onde os princípios dos judeus, que tendiam a reavivá-la ou restaurá-la, eram bem conhecidos.

8. Há provas suficientes de que esses princípios foram de fato conhecidos de muitos dos sábios de maior renome e de escolas de maior influência. Estes, porém, considerando-os apenas como tradições ou opiniões filosóficas, entreteceram em seus próprios sistemas os que melhor concordavam com suas ideias e rejeitaram ou sutilizaram outros, de modo que, afinal, não se elaborou entre eles nenhum sistema permanente e convincente de moral e religião; e, enquanto isso, deixaram o povo em geral na grosseira ignorância e idolatria em que estava mergulhado.11

9. Finalmente, longe de haver qualquer prova de que alguma das verdades fundamentais da religião ou da moral que aparecem ocasionalmente em seus escritos tenha sido descoberta por sua razão sem auxílio, podemos rastreá-las até uma época anterior e mostrar que eles tinham meios de acesso a fontes superiores de informação. Por outro lado, pode-se apresentar como prova da fraqueza da mente humana e da corrupção do coração humano o fato de que eles geralmente envolveram em dúvida os grandes princípios que assim receberam, construíram sobre eles sistemas fantasiosos que destruíam sua eficácia moral e os misturaram com erros do caráter mais degradante.12

A última observação será ilustrada mais plenamente no capítulo seguinte.

NOTA A. Página 27.

Os pormenores mencionados no parágrafo do qual se faz referência a esta nota podem ser ilustrados sob diferentes tópicos.

A formação do mundo a partir da matéria caótica. Alguns restos das concepções dos antigos caldeus estão preservados nas páginas de Sincelo, extraídos de Beroso e de Alexandre Polímata; e, quando a tradição é despida de sua roupagem fabulosa, podemos reconhecer no relato um caos aquoso primordial, uma separação das trevas e da luz e da terra e do céu, a formação do homem do pó da terra e uma infusão da razão divina no homem assim formado. A cosmogonia dos fenícios, conforme exposta por Sanconíaton, faz do princípio do universo um ar escuro e um caos turbulento. Os antigos persas ensinavam que Deus criou o mundo em seis tempos diferentes, numa alusão manifesta à obra dos seis dias descrita por Moisés. Nas Institutes of Menu (Leis de Manu), tratado hindu que Sir William Jones supunha ter sido composto 1.280 anos antes da era cristã, o universo é representado como envolto em trevas, quando o único poder existente por si mesmo, ele próprio invisível, tornou o mundo visível. Com um pensamento ele criou primeiro as águas, que são chamadas Nara, ou o Espírito de Deus; e, como elas foram o seu primeiro ayana, ou lugar de movimento, ele é por isso chamado Narayana, isto é, o que se move sobre as águas. Nas antigas tradições dos chineses, a ordem da criação é esta: primeiro foram formados os céus; em seguida foram lançados os fundamentos da terra; depois a atmosfera foi espalhada em torno do globo habitável; e, por último, foi criado o homem. A formação do mundo a partir do caos pode ser encontrada nas tradições de nossos antepassados góticos. Veja-se a Edda e Faber, Horae Mosaicae, vol. 1, p. 3.

Na antiga filosofia grega reconhecemos a mesma tradição, e Platão claramente tomou os materiais de seu relato sobre a origem das coisas, seja de Moisés, seja de tradições que procediam da mesma fonte. Moisés fala de Deus na forma plural: “No princípio, Deuses criaram os céus e a terra” [N. do T.: Watson verte literalmente o plural hebraico Elohim; a NAA traz “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1.1)]. E Platão tem uma espécie de trindade em seu τὸ ἀγαθόν, “o bem”; seu νοῦς, ou “intelecto”, que era propriamente o demiurgo, ou formador do mundo; e sua Psyche, ou alma universal do mundo, causa de todo o movimento que há no mundo. Ele também representa a matéria primeira, da qual o universo foi formado, como um caos informe. Nos poetas gregos e latinos temos frequentes alusões ao mesmo fato e, em alguns deles, descrições altamente poéticas do estado caótico do mundo e de sua redução à ordem. Quando a América foi descoberta, encontraram-se entre as nações semicivilizadas daquele continente tradições que guardavam uma semelhança notabilíssima com a história de Moisés em vários assuntos. Gómara afirma em sua história que os peruanos criam que, no princípio do mundo, veio do norte um ser chamado Con, que nivelou montanhas e ergueu colinas unicamente pela palavra de sua boca; que encheu a terra de homens e mulheres que ele havia criado, dando-lhes frutos e pão e todas as coisas necessárias à sua subsistência; mas que, ofendido com as transgressões deles, privou-os das bênçãos de que haviam desfrutado originalmente e afligiu suas terras com a esterilidade.

“O número de dias empregados na obra da criação”, diz o sr. Faber, “e o descanso divino no sétimo dia produziram aquela medida peculiar de tempo, a semana, que é puramente arbitrária e que não decorre, como o dia, o mês ou o ano, dos movimentos naturais dos corpos celestes. Por isso a adoção generalizada do período hebdomadário é, por si mesma, prova de quão amplamente o conhecimento do verdadeiro sistema cosmogônico se difundiu entre a posteridade de Noé.” Assim, em quase todas as partes do globo, da Europa às costas da Índia, e antigamente entre os gregos, romanos e godos, bem como entre os judeus, encontramos a semana usada como medida familiar de tempo e alguns vestígios do sábado.

A queda do homem. Que a raça humana foi outrora inocente e feliz é uma opinião de grande antiguidade e de grande difusão entre as nações gentias. São bem conhecidas as passagens nesse sentido nos poetas clássicos. Ela é afirmada na Edda, o registro das opiniões de nossos antepassados citas. “Não pode haver muita dúvida”, diz Maurice em sua History of Hindostan, “de que, pela idade Satya, ou idade da perfeição, os brâmanes aludem obscuramente ao estado de perfeição e felicidade de que o homem desfrutou no paraíso. Então a justiça, a verdade e a filantropia eram praticadas entre todas as ordens e classes da humanidade.” Que o homem é uma criatura caída é agora a crença universal dessa classe de pagãos; e a degeneração da alma humana, sua degeneração nativa e hereditária, perpassa grande parte da filosofia grega. A ocasião imediata da queda, a fraqueza da mulher, também a encontramos aludida tanto na fábula clássica quanto nas antigas tradições góticas e entre várias tribos bárbaras. Uma passagem curiosa nesse sentido aparece nas Travels de Campbell entre os hotentotes boschuanas.

A serpente. A ação de um espírito mau e maligno encontra-se também nessas antigas tradições tão difundidas. Não pode haver muita dúvida de que a noção geralmente aceita de demônios bons e maus se fundou no relato bíblico dos anjos bons e maus. O culto da serpente era extremamente difundido, sobretudo no Egito e no Oriente, e isso só pode ser explicado como originado de um temor supersticioso do demônio maligno que, sob a forma desse animal, trouxe a morte ao mundo e obteve sobre o homem um domínio destrutivo. Pode-se admitir que, nas esculturas e pinturas antigas, o símbolo da serpente às vezes representa a sabedoria, a eternidade e outras ideias morais. Mas muitas vezes ele aparece ligado a representações que provam que sob essa forma se adorava o princípio do mal e que se ofereciam sacrifícios humanos para satisfazer a crueldade daquele que foi “assassino desde o princípio” (Jo 8.44). No modelo do túmulo de Psamis, feito pelo sr. Belzoni e exibido recentemente em Londres, e nas gravuras que acompanham sua obra sobre o Egito, veem-se várias representações de serpentes monstruosas com o tributo de cabeças humanas que lhes haviam sido oferecidas. Isso é exemplificado de modo ainda mais impressionante numa cópia de parte do interior de um túmulo egípcio em Biban al-Muluk, nas Travels in Egypt de Richardson. Diante de uma serpente enorme estão representados três homens de joelhos, com a cabeça recém-decepada pelo carrasco, “enquanto a serpente ergue a crista à altura de suas gargantas, pronta para beber a torrente da vida que borbulha de suas veias”. Essa era provavelmente a serpente Tifão dos antigos egípcios, a mesma que o Píton dos gregos; e, como observa o sr. Faber, “a noção de que o Píton era oracular pode ter brotado da lembrança das respostas faladas que o tentador deu a Eva sob a figura emprestada daquele réptil”. Consultando o Hindu Pantheon de Moore, ver-se-á que a serpente Caliya é representada como a inimiga declarada do deus mediador Krishna, a quem ela persegue e a quem inflige vários sofrimentos, embora seja por fim vencida. Krishna apertado nas dobras da serpente e, depois, triunfando sobre ela ao esmagar-lhe a cabeça sob os pés, é o tema de um baixo-relevo hindu muito antigo, que traz em si mesmo a sua interpretação.

Na Edda, fábula 16, “diz-se que a grande serpente é uma emanação de Loki, o princípio do mal; e Hela, isto é, o inferno ou a morte, num veio poético de alegoria não indigno do nosso Milton, é celebrada como filha desse personagem e como irmã do dragão. Indignado com a rebelião obstinada do princípio do mal, o Pai universal enviou alguns dos deuses para lhe trazerem aqueles filhos. Quando chegaram, ele lançou a serpente ao fundo do oceano. Mas ali o monstro cresceu tanto que se enrolou em torno de todo o globo da terra. A Morte, entretanto, foi precipitada no inferno, onde possui vastos aposentos, solidamente construídos e cercados de grades de ferro. Seu salão é a dor; sua mesa, a penúria; a fome, sua faca; a demora, seu servo; o desfalecimento, seu pórtico; a doença e a dor, seu leito; e sua tenda, a maldição e o uivo.”

O dilúvio de Noé. Josefo, em seu primeiro livro Contra Apião, afirma que Beroso, o historiador caldeu, relata, de modo semelhante a Moisés, a história do dilúvio e a preservação de Noé numa arca ou caixa. Na História da Assíria de Abideno, em passagens citadas por Eusébio, menciona-se um antigo príncipe chamado Sisitro, que foi avisado por Saturno de um dilúvio. Nesse relato são mencionados o navio, a soltura e o retorno das aves, a baixa das águas e o pouso do navio sobre um monte. (Eusébio, Praep. Evang., liv. 9, cap. 12; Grotius, Sobre a verdade da religião cristã, liv. 1, seç. 16.) Luciano, em seu livro sobre a deusa da Síria, menciona as tradições sírias acerca desse acontecimento. Ali Noé é chamado Deucalião; e que ele era a pessoa designada por esse nome torna-se indubitável pela menção da maldade dos antediluvianos, da piedade de Deucalião, da arca e da entrada nela dos animais da terra aos pares. As antigas tradições persas, como demonstrou o dr. Hyde, embora misturadas com fábulas, concordam substancialmente com o relato mosaico. No Industão, o antigo poema Bhagavat trata de um dilúvio que destruiu toda a humanidade, exceto um príncipe piedoso, com sete de seus servidores e as esposas deles. Os escritores chineses, do mesmo modo, mencionam um dilúvio universal. Nas lendas dos antigos egípcios, godos e druidas fazem-se referências impressionantes ao mesmo acontecimento (Edda, fábula 4; Davies, Mythology of the British Druids, p. 226), e ele é encontrado representado nas pinturas históricas dos mexicanos e entre as nações americanas. Os nativos do Taiti criam que o mundo fora outrora despedaçado pela ira de seus deuses; os habitantes das ilhas Sandwich têm a tradição de que o Etooa, que criou o mundo, depois o destruiu por uma inundação; e lembranças do mesmo acontecimento se conservam entre os neozelandeses, como o autor teve recentemente ocasião de verificar numa conversa com dois de seus chefes, por meio de um intérprete. Para amplas ilustrações deste ponto, veja-se a Heathen Mythology de Bryant e as Horae Mosaicae de Faber.

O sacrifício. O grande princípio das três dispensações da religião nas Escrituras, a patriarcal, a mosaica e a cristã, de que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22), fixou-se em todas as religiões pagãs dos tempos antigos e modernos. Pois, embora os seguidores de Buda sejam proibidos de lhe oferecer sacrifícios cruentos, eles os oferecem aos demônios a fim de afastar vários males; e a apresentação de flores e frutos ao próprio Buda mostra que uma parte do rito original do sacrifício foi conservada, embora a outra, por um refinamento filosófico, tenha sido abandonada. Oferecem-se, porém, sacrifícios na China, onde prevalece geralmente a forma mais antiga do budismo, o que faz presumir que o budismo do Ceilão e de algumas partes da Índia é um refinamento de um sistema mais antigo. “Que a prática de consagrar vítimas expiatórias prevaleceu, numa ou noutra época, em todas as partes do globo, e que foi adotada igualmente pelas nações mais bárbaras e pelas mais civilizadas, dificilmente se pode dizer que precise de prova regular e formal.”

A expectativa de um Libertador. Em meio às misérias das eras sucessivas, o antigo mundo pagão olhava sempre adiante, para o aparecimento de um grande Libertador e Restaurador; e essa expectativa era tão geral que é impossível explicá-la, a não ser pelas “promessas feitas aos nossos pais” (Rm 15.8), a começar pela promessa de vitória da descendência da mulher sobre o poder da serpente. É um fato singular, e ainda digno de nota, embora tantas vezes mencionado, que pouco antes da vinda de nosso Senhor havia entre as nações da Antiguidade uma expectativa geral do aparecimento iminente desse Libertador. “O fato”, diz o bispo Horsley, “é tão notório para todos os que têm algum conhecimento da Antiguidade que, se alguém o negasse, eu me recusaria a toda discussão com tal adversário, por ser ignorante demais para ser convencido ou desonesto demais para reconhecer o que no íntimo é obrigado a admitir.” Outro fato singular é que Virgílio, em seu Pólio, aplicando os versos sibilinos (que estão quase literalmente nos tons elevados e ardentes com que Isaías profetiza de Cristo) a um filho de seu amigo, um dos cônsules romanos, cujo nascimento era então esperado, e isso por uma bajulação extravagante, tenha chamado a atenção do mundo para aqueles livros singulares e misteriosos tão pouco tempo antes do nascimento daquele que era o único capaz de cumprir as profecias neles contidas. Para mais informações sobre os versos sibilinos, o leitor é remetido à Connection de Prideaux, às Dissertations do bispo Lowth e à Dissertation on the Prophecies of the Messiah, dispersed among the heathen do bispo Horsley. Basta dizer aqui que é fato histórico que os livros sibilinos existiram entre os romanos desde um período antigo; que esses oráculos da Sibila de Cumas eram tidos em tal veneração que o livro que os continha foi depositado num cofre de pedra no templo de Júpiter, no Capitólio, e confiado aos cuidados de duas pessoas nomeadas expressamente para esse ofício; que, cerca de um século antes do nascimento de nosso Salvador, o livro foi destruído no incêndio que consumiu o templo em que estava depositado; que o Senado romano sabia que existiam oráculos semelhantes entre outras nações, pois, para reparar aquela perda, enviou pessoas para fazer uma nova coleção desses oráculos em diferentes partes da Ásia, nas ilhas do arquipélago, na África e na Sicília, as quais voltaram com cerca de mil versos, que foram depositados no lugar dos originais e guardados com o mesmo cuidado; e que as predições que Virgílio entretece em sua quarta Écloga, sobre o aparecimento de um rei cuja monarquia seria universal e que concederia à humanidade as bênçãos que ele descreve, estavam contidas neles. Segue-se, portanto, que tais predições existiam antigamente entre os romanos; que foram encontradas em muitas outras partes da Europa, da Ásia e da África; e que tinham uma concordância tão maravilhosa com as predições dos profetas judeus que, ou eram em parte cópias delas, ou eram predições de uma inspiração igualmente sagrada, fragmentos de profecias muito antigas, provavelmente entretecidos com as fábulas de tempos posteriores. “Se”, como observa com razão o bispo Horsley, “algumas pessoas iletradas ouvissem a leitura do poema de Virgílio, com a omissão de umas poucas alusões à mitologia pagã que não afetariam o sentido geral, elas o declarariam sem hesitar uma profecia do Messias.” Pareceria, de fato, que o poeta apenas traduziu Isaías em muitas passagens, se ele não atribuísse expressamente à Sibila de Cumas as predições que introduziu em seu poema. E ele não o teria feito se tais passagens não se encontrassem nos oráculos, porque estes existiam então e seu conteúdo era conhecido de muitos. As falsificações posteriores desses oráculos nos primeiros séculos da Igreja também provam pelo menos isto: que os verdadeiros versos sibilinos continham passagens proféticas que podiam ser aplicadas com força ao verdadeiro Libertador universal, e essas fraudes piedosas visavam torná-las mais precisas e mais convincentes. Os que não leem latim podem consultar o “Messiah” de Pope, com as principais passagens de Virgílio nas notas, traduzidas e cotejadas com as profecias de Isaías, o que lhes dará a substância dessa produção singular e interessantíssima.

E não é somente nos pontos acima que percebemos as antigas tradições e opiniões conservadas em suas grandes linhas entre diferentes nações pagãs, mas também na doutrina bíblica da destruição do atual sistema da natureza material. Os pitagóricos, os platônicos, os epicureus e os estoicos tinham, todos, noções de uma conflagração geral. Segundo a doutrina dos estoicos, Ovídio fala assim (Metamorfoses, liv. 1):

“Esse quoque in fatis reminiscitur adfore tempus (Lembra-se também de que está nos fados que virá um tempo

Quo mare, quo tellus, correptaque regia caeli em que o mar, a terra e a morada do céu, tomados pelas chamas,

Ardeat, et mundi moles operosa laboret.” (arderão, e a laboriosa máquina do mundo sofrerá.)

Lembrando nos fados um tempo em que o fogo

aos baluartes do céu haveria de subir,

em que todos os seus mundos lá no alto arderiam em chamas

e todo o globo inferior se tornaria cinzas.

Dryden.

Sêneca, falando do mesmo acontecimento (ad Merciam, cap. final), diz: “Tempus adveniret quo sidera sideribus incurrent etc. Virá o tempo em que o mundo inteiro será consumido, para ser de novo renovado; em que as forças da natureza se voltarão contra ela mesma; em que astros se precipitarão sobre astros, e todo o mundo material, que agora se mostra tão resplandecente de beleza e harmonia, será destruído numa conflagração geral. Nessa grande catástrofe da natureza, todos os seres animados (com exceção da inteligência universal), homens, heróis, demônios e deuses, perecerão juntos.”

A mesma tradição apresenta-se, sob formas diferentes, em todos os principais sistemas do paganismo moderno.

NOTA B. Página 32.

Da controvérsia a respeito de Zoroastro, Zeratusht ou Zertushta, e dos livros sagrados que se diz terem sido escritos por ele, chamados Zend ou Zendavesta, que dividiu críticos tão eminentes, não traria nenhum proveito importante apresentar um resumo. Os que desejarem informação sobre o assunto podem consultar a Religio Veterum Persarum de Hyde; a Connection de Prideaux; a Divine Legation de Warburton; a Mythology de Bryant; a Universal History; as Works de Sir W. Jones, vol. 3, p.

115; o sr. Du Perron; e a Dissertation de Richardson anteposta ao seu Persian and Arabic Dictionary. Mas, seja qual for a autoridade do Zendavesta, no todo ou em parte, e por mais fábulas que se misturem à história do reformador da religião dos magos, os eruditos concordam em geral que tal reforma ocorreu por seu intermédio. “Zeratusht”, diz Sir W. Jones, “reformou a antiga religião com o acréscimo de gênios ou anjos, de novas cerimônias na veneração prestada ao fogo, de uma nova obra que ele alegava ter recebido do céu e, sobretudo, estabelecendo a adoração efetiva do Ser Supremo.” E acrescenta: “A religião reformada da Pérsia continuou em vigor até que aquele país foi conquistado pelos muçulmanos; e, sem estudar o Zend, temos ampla informação sobre ela nos escritos persas modernos de vários que a professam. Bahman sempre mencionava Zeratusht com reverência; era na verdade um teísta puro, rejeitava com veemência qualquer adoração do fogo ou de outros elementos e negava que a doutrina de dois princípios coeternos, um supremamente bom e outro supremamente mau, fizesse parte de sua fé.” “O Zeratusht da Pérsia, ou o Zoroastro dos gregos”, diz Richardson, “foi altamente celebrado pelos povos mais perspicazes da Antiguidade; e seus princípios, segundo nos dizem, foram abraçados com a maior avidez e rapidez pelos homens de mais alta posição e pelos mais sábios do Império Persa.” (Dissertation anteposta ao seu Persian Dictionary.) Ele se distinguiu por negar que o bem e o mal, representados pela luz e pelas trevas, fossem princípios coeternos e independentes, e por afirmar a supremacia do verdadeiro Deus, em exata conformidade com a doutrina contida numa parte daquela célebre profecia de Isaías em que Ciro é mencionado pelo nome: “Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não há Deus” (Is 45.5), nenhum poder coeterno. “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz, ou o bem, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Is 45.7) [N. do T.: a NAA traz “promovo a paz e crio os conflitos”; Watson segue a redação da KJV, da qual depende o argumento contra os dois princípios]. O fogo, para Zerdushta, parece ter sido usado apenas como emblema; e as cerimônias que ele introduziu para conservá-lo e transmiti-lo foram manifestamente tomadas dos judeus e do fogo sagrado de seu tabernáculo e de seu templo.

A antiga religião dos persas foi corrompida pelo sabeísmo, isto é, o culto do exército dos céus, com a superstição que o acompanha. A doutrina dos magos, fosse qual fosse no início, havia degenerado, e introduziram-se dois princípios eternos, o bem e o mal. Ela era, portanto, necessariamente também idólatra e, como todos os outros sistemas falsos, lisonjeira para os hábitos viciosos do povo. Um aperfeiçoamento tão grande do caráter moral e da influência da religião de uma nação inteira, como o que foi realizado por Zoroastro, mudança que certamente não tem paralelo na história da religião da humanidade, dificilmente pode, portanto, ser considerado possível, a não ser que suponhamos uma intervenção divina, seja direta, seja pela ocorrência de alguns acontecimentos muito impressionantes. Ora, como há tantas autoridades para fixar a época de Zoroastro ou Zeratusht não muitos anos depois da morte do grande Ciro, os acontecimentos a que nos referimos no texto são os que explicam, e na verdade os únicos que explicam, o seu êxito na reforma da religião de que foi autor. Pois, se a mente dos homens não tivesse sido preparada para essa mudança por algo extraordinário, não é de supor que tivessem adotado dele uma fé mais pura. Que ele lhes deu uma doutrina melhor fica claro pelas admissões até do deão Prideaux, que muito injustamente o tachou de impostor. Lembremos, então, que, como “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens” (Dn 4.17), ele muitas vezes dirige grandes acontecimentos políticos para fins morais. Os judeus foram enviados ao cativeiro na Babilônia para serem curados de suas inclinações idólatras, e sua reforma começou com a sua calamidade. Ali se operou um milagre em favor dos três hebreus que confessavam um só Deus, e isso em circunstâncias que envergonharam um ídolo popular na presença do rei e de “todos os oficiais das províncias” (Dn 3.2), para que o desfecho dessa controvérsia entre Jeová e a idolatria se tornasse conhecido em todo aquele vasto império. Uns poucos cativos hebreus recusaram adoração ao ídolo, e o ídolo não teve poder para punir a afronta pública. Os servos de Jeová foram lançados numa fornalha, e ele os livrou ilesos; e um decreto real declarou que “não há outro deus que possa livrar como este” (Dn 3.29). O próprio monarca orgulhoso é ferido com uma doença singular; permanece sujeito a ela até reconhecer o verdadeiro Deus; e, ao se recuperar, atribui publicamente a ele tanto a justiça quanto a misericórdia do castigo. Esse acontecimento se dá também em cumprimento de um sonho que nenhum dos sábios da Babilônia conseguira interpretar. Ele foi interpretado por Daniel, que fez o cumprimento redundar em honra do verdadeiro Deus, atribuindo-lhe a perfeição de conhecer o futuro, que nenhum dos falsos deuses invocados pelos sábios caldeus possuía, como provou suficientemente a incapacidade de seus servos de interpretar o sonho. Depois desses acontecimentos singulares, Ciro toma a Babilônia e encontra ali o sábio e estadista Daniel, adorador do Deus “que cria tanto o bem como o mal”, “que faz a luz e forma as trevas”. Há certeza moral de que a ele e aos principais persas de todo o império seria mostrada a profecia de Isaías a respeito de Ciro, proferida mais de cem anos antes de seu nascimento e na qual seu nome estava registrado, juntamente com as circunstâncias preditas da tomada da Babilônia; pois todas as razões, religiosas e políticas, impeliam os judeus a tornar a predição notória. E pelo decreto de Ciro em Esdras é certo que ele a conhecia, porque há no decreto uma referência óbvia à profecia. Essa profecia, cumprida de modo tão extraordinário, daria grande força à doutrina ligada a ela e que ela proclama com tanta majestade:

“Eu sou Jeová, e nenhum outro;

que formo a luz e crio as trevas;

que faço a paz e crio o mal;

eu, Jeová, sou o autor de todas estas coisas.”

Tradução de Lowth.

Aqui o grande princípio do magismo corrompido era atacado diretamente; e, na medida em que o cumprimento da profecia era sentido como singular e impressionante, a doutrina misturada com ela atrairia a atenção. Sua força foi sentida e reconhecida, como vimos no decreto de Ciro para a reconstrução do templo. Nele, Ciro reconheceu o verdadeiro Deus como supremo e, assim, renunciou à sua fé anterior; e o exemplo, o exemplo público de um príncipe tão amado e cujo reinado foi tão extenso, não podia deixar de influenciar as opiniões religiosas de seu povo. Sabemos que o efeito não terminou em Ciro, pois pelo livro de Esdras se vê que tanto Dario quanto Artaxerxes fizeram decretos em favor dos judeus, nos quais se dá repetidamente a Jeová o título enfático de “o Deus do céu” (Ed 7.12), os mesmos termos usados pelo próprio Ciro. Nem devemos supor que a impressão tenha ficado restrita à corte. Pois a história dos três jovens hebreus; do sonho, da doença e da conversão de Nabucodonosor da idolatria; da interpretação da escrita na parede por Daniel, servo do Deus vivo; de seu livramento dos leões; e a publicidade da profecia de Isaías a respeito de Ciro eram fatos recentes demais, públicos demais e impressionantes demais por sua natureza para não serem comentados muitas vezes e amplamente. Além disso, na profecia a respeito de Ciro, a intenção do Deus todo-poderoso ao registrar o nome desse monarca num livro inspirado e ao mostrar de antemão que o havia escolhido para derrubar o Império Babilônico é expressamente mencionada como tendo em vista dois grandes objetivos: primeiro, o livramento de Israel; segundo, tornar conhecida a sua divindade suprema entre as nações da terra. Cito outra vez a tradução de Lowth:

“Por amor de meu servo Jacó

e de Israel, meu escolhido,

eu te chamei pelo teu nome,

dei-te um sobrenome, embora não me conhecesses.

Eu sou Jeová, e nenhum outro;

além de mim não há Deus;

eu te cingirei, embora não me tenhas conhecido,

para que saibam, desde o nascente do sol

e desde o poente, que não há nenhum além de mim” etc.

A intenção desse procedimento da Providência era, portanto, ensinar não somente a Ciro, mas também ao povo de seu vasto império e às nações vizinhas: primeiro, que ele era Jeová, o Deus que subsiste por si mesmo, o Deus eterno; segundo, que ele era o único Deus, não havendo nenhuma divindade além dele; e, terceiro, que o bem e o mal, representados pela luz e pelas trevas, não eram substâncias independentes nem eternas, mas grandes instrumentos dele e sujeitos ao seu controle.

Os persas, que haviam ampliado tão enormemente seu império pela conquista dos países antes dominados pelos monarcas da Babilônia, foram assim preparados para uma reforma de sua religião como a que Zoroastro realizou. Os princípios que ele defendeu já tinham sido adotados por vários dos monarcas persas e, provavelmente, por muitas das principais pessoas daquela nação. O próprio Zoroastro tomou conhecimento, desse modo, das grandes verdades contidas nessa famosa profecia, que atacava os próprios fundamentos de todo sistema idólatra e maniqueísta. Dos outros livros sagrados dos judeus, que se misturavam com os persas em todas as partes do império, ele evidentemente aprendeu mais. Isso é suficientemente provado pelos muitos pontos de semelhança entre sua religião e o judaísmo. Ainda que não se admita que ele falasse tanto no estilo das Sagradas Escrituras quanto algumas passagens do Zendavesta dariam a entender, o fato é que ele encontrou o povo “preparado” pelo Senhor (cf. Lc 1.17) para aceitar suas reformas, e as levou adiante. Não posso deixar de ver nisso um exemplo das várias dispensações misericordiosas de Deus para com o mundo gentio, por meio de seu povo peculiar, os judeus, pelas quais as idolatrias dos pagãos foram muitas vezes refreadas e a luz da verdade foi reacendida entre eles. Sob esse aspecto, os antigos judeus evidentemente consideravam a Igreja judaica como destinada não somente a preservar, mas também a expandir a verdadeira religião: “Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe […] para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação” (Sl 67.1-2). Isso torna as nações pagãs ainda mais evidentemente “indesculpáveis” (Rm 1.20). É certo que essa dispensação de misericórdia foi depois negligenciada entre os persas. Quanto tempo durou o efeito, não sabemos, nem até onde se estendeu; talvez mais tempo e mais longe do que agora se pode perceber com clareza. Se os magos que vieram do Oriente para ver Cristo eram persas, parece que alguns verdadeiros adoradores de Deus permaneceram na Pérsia até aquele tempo; e se, como é provável, as profecias de Isaías e de Daniel se conservavam entre eles, eles podiam estar entre os que “esperavam a redenção” (Lc 2.38), não em Jerusalém, mas numa parte distante do mundo. Os parses, que quase foram exterminados pelo fanatismo maometano, eram acusados por seus opressores de idolatria do fogo, e isso provavelmente era verdade quanto à multidão. Alguns de seus escritores, porém, defenderam-se com ardor dessa acusação. Um número considerável deles permanece na Índia até hoje e afirma possuir os livros de Zoroastro.

Esta nota contém uma digressão considerável, mas sua ligação com o argumento do texto é evidente. Quem rejeita a autoridade das Escrituras não será influenciado pelo que se disse das profecias de Isaías ou dos acontecimentos da vida de Daniel. Mesmo assim, não se pode negar que, enquanto subsistiu o Império Persa, floresceu um filósofo moral persa que ensinava doutrinas sublimes e que suas opiniões tiveram grande influência. A ligação entre judeus e persas é um fato histórico inegável. Os princípios atribuídos a Zoroastro trazem as marcas de uma origem judaica, porque estão mesclados com alguns dos ritos e circunstâncias peculiares do templo judaico. Dessa fonte a teologia dos persas recebeu aperfeiçoamentos, especialmente em noções corretas e eficazes acerca da Divindade, e foi enriquecida com a história e as doutrinas dos registros mosaicos. Os negócios dos gregos estavam tão entrelaçados com os dos persas que os sábios da Grécia não podiam ignorar as opiniões de Zertushta, conhecido deles pelo nome de Zoroastro; e dessa escola derivaram algumas de suas melhores noções.

NOTA C. Página 35.

As maiores corrupções da religião devem ser atribuídas à superstição e àquele hábito vão e desnorteante de filosofar que prevaleceu entre os antigos. A superstição era o pecado característico dos ignorantes; a especulação vã, o dos inteligentes. Ambas brotaram do estado vicioso do coração: a expressão era diferente, mas o efeito era o mesmo. O mal provavelmente surgiu no Egito e foi amplamente desenvolvido pelos filósofos da Grécia e da Índia. Sistemas, hipóteses, cosmogonias etc. são todos obra da filosofia; e deles brotaram os erros mais sutis e desnorteantes, como a eternidade da matéria, a metempsicose, a absorção da alma humana na morte etc. A sabedoria antiga, tanto religiosa quanto moral, estava contida em grandes princípios, expressos em máximas, sem pretensão de relação e ordenação sistemáticas e sem qualquer pesquisa profunda das razões e causas. No momento em que a filosofia tentou fazer isso, a fraqueza e a extravagância da mente humana começaram a se manifestar. Teorias surgiram umas após outras; e a confusão e a contradição acabaram produzindo ceticismo em todos e, em muitos, amadureceram-no em total incredulidade. O hábito especulativo afetou ao mesmo tempo as opiniões da antiga África e da Ásia; e na Índia a filosofia do Egito e da Grécia permanece até hoje, amadurecida em sua plena produção de frutos nocivos.

A semelhança entre os sistemas grego e asiático moderno é, de fato, um assunto muito curioso, pois neste último se exibe até hoje a filosofia do paganismo, enquanto em outros lugares a falsa religião se vê apenas, ou principalmente, em sua forma simples de superstição. A coincidência entre a mitologia hindu e a grega foi demonstrada por Sir W. Jones, e suas opiniões sobre o assunto são fortemente confirmadas pela coincidência ainda mais impressionante nas doutrinas das seitas filosóficas hindus e gregas. “A época”, diz o sr. Ward (View of the History of the Hindoos etc.), “em que floresceram os mais eminentes filósofos hindus ainda está envolta em muita obscuridade. Mas a aparente concordância, em muitos pormenores impressionantes, entre os sistemas de filosofia hindu e grego não somente sugere a ideia de alguma união em sua origem, mas argumenta fortemente a favor de pertencerem à mesma época, não obstante a antiguidade insondável que os hindus reivindicam. E, depois que o leitor tiver comparado os dois sistemas, o autor está persuadido de que ele não considerará improvável a conjectura de que Pitágoras e outros de fato visitaram a Índia, ou de que Goutumu e Pitágoras foram contemporâneos, ou quase.” (Vol. 4.)

“Muitos dos assuntos discutidos entre os hindus eram exatamente os assuntos que provocavam as disputas nas academias gregas, como a eternidade da matéria; a causa primeira; Deus como alma do mundo; a doutrina dos átomos; a criação; a natureza dos deuses; as doutrinas do destino, da transmigração, das sucessivas revoluções dos mundos, da absorção no Ser divino” etc. (Ibid., p. 115.)

O sr. Ward trata extensamente dessa coincidência em suas observações introdutórias ao quarto volume, ao qual o leitor é remetido. Observe-se apenas que aquelas especulações e os argumentos sutis há pouco mencionados, tanto no ramo grego quanto no asiático da filosofia pagã, deram origem ao ateísmo absoluto. Várias das seitas filosóficas gregas, como é bem sabido, eram declaradamente ateístas. Cudworth enumera quatro formas assumidas por essa espécie de incredulidade. Os mesmos princípios que distinguem essas seitas podem ser encontrados em várias das seitas dos hindus; e, acima de tudo, o sistema ateísta de Buda ramificou-se da filosofia vã das escolas bramânicas e estendeu-se mais longe do que o próprio hinduísmo. A razão de tudo isso é apresentada com acerto pelo bispo Warburton quanto aos gregos, e ela se aplica igualmente à filosofia asiática dos dias de hoje, que é tão claramente uma só e a mesma, bem como a muitos erros que se infiltraram na própria Igreja de Cristo. “A filosofia dos gregos”, observa ele, levava à incredulidade “porque era refinada e especulativa além da medida, costumava determinar-se mais por princípios metafísicos do que por princípios morais e apegava-se a todas as consequências, por mais absurdas que fossem, que se via decorrerem de tais princípios.”

“Existe, de fato, uma lei verdadeira, a reta razão, conforme à natureza, difundida em todos, constante, eterna, que chama ao dever ordenando e afasta da fraude proibindo; que, contudo, nem ordena ou proíbe em vão aos bons, nem move os maus com suas ordens ou proibições. Não é lícito ab-rogar esta lei, nem é permitido derrogar coisa alguma dela, nem ela pode ser abolida por inteiro. Nem pelo senado nem pelo povo podemos ser desobrigados desta lei, e não se deve buscar outro que a explique ou interprete. Não haverá uma lei em Roma e outra em Atenas, uma agora e outra depois; mas uma só lei, eterna e imutável, abrangerá todos os povos e todos os tempos; e haverá um só Deus, mestre comum e soberano de todos, autor, árbitro e promulgador desta lei. Quem não lhe obedecer fugirá de si mesmo e desprezará a natureza humana, e por isso mesmo sofrerá as maiores penas, ainda que escape a todos os outros castigos que se julgam existir.” Disso fica claro que Cícero reconhecia uma lei anterior a todas as instituições civis humanas e independente delas, obrigatória para todos, constante e perpétua, a mesma em todos os tempos e lugares, não uma coisa em Roma e outra em Atenas; de autoridade tão elevada que nenhum poder humano tinha o direito de alterá-la ou anulá-la; tendo Deus por autor, em seu caráter de Mestre e Soberano universal; apoderando-se da própria consciência dos homens e perseguindo-os com suas censuras, ainda que escapassem da mão dos homens e das penas dos códigos humanos.

Foi conversando com um cristão que Epicteto aprendeu a reformar a doutrina e a abater o orgulho dos estoicos; e não se deve imaginar que Marco Antonino, Máximo de Tiro e outros ignorassem a doutrina cristã.

Rousseau admite que o filósofo moderno tira suas melhores noções sobre muitos assuntos daquelas mesmas Escrituras que ele insulta; das primeiras impressões da educação; de viver e conviver num país cristão, onde essas doutrinas são ensinadas publicamente e onde, a despeito de si mesmo, ele absorve alguma porção daquele conhecimento religioso que os escritos sagrados difundiram por toda parte. (Works, vol. 9, p. 71; 1764.)

Notas de Richard Watson

1. Xenofonte, Mem., liv. 4, cap. 4, seç. 19-20. No mesmo sentido vai aquela nobre passagem de Cícero, citada por Lactâncio, de sua obra De Republica: ↩

2. “O Oriente foi a fonte do conhecimento, de onde ele foi comunicado às partes ocidentais do mundo. Ali se encontravam os mais preciosos restos da tradição antiga. Para lá viajaram os mais célebres filósofos gregos em busca da ciência, ou do conhecimento das coisas divinas e humanas, e para lá recorreram os legisladores a fim de serem instruídos nas leis e na organização civil.” (Leland.) ↩

3. As especulações dos incrédulos sobre o progresso gradual dos primeiros homens a partir da vida selvagem, a invenção da linguagem, das artes, das leis etc., têm sido demasiadamente favorecidas por filósofos que levam o nome de Cristo, alguns deles ocupando até o ofício de mestres de sua religião. Os escritos de Moisés mostram suficientemente que nunca houve um período em que as tribos originais dos homens estivessem em estado selvagem; e o processo gradual de desenvolvimento rumo a uma condição superior é uma quimera. Para os que professam crer nas Escrituras, o testemunho delas deveria bastar; para os que não creem, elas são, pelo menos, tão boa história quanto qualquer outra. ↩

4. Veja-se a nota A no fim deste capítulo. ↩

5. Veja-se Delaney, Revelation Examined with Candour, dissertações 1 e 2. ↩

6. “É muito provável”, diz Pufendorf, “que Deus tenha ensinado aos primeiros homens os principais pontos da lei natural.” ↩

7. Seja o que for que se pense das circunstâncias do dilúvio mencionadas por Moisés, nada há nesse acontecimento, considerado como castigo de uma raça culpada e como atestado da aprovação de Deus a princípios retos e a uma conduta reta, a que um teísta coerente possa objetar. Pois, se a vontade de Deus deve ser deduzida da observação do curso da natureza e da providência, é de esperar que ocorram em seu governo acontecimentos tão notáveis e marcantes como o dilúvio, quer universal, quer apenas da mesma extensão que a raça humana então existente; sobretudo quando um castigo quase universal, ligado a uma maldade quase universal, indicava de modo tão impressionante um governo atento e justo. ↩

8. Vejam-se as Dissertations do bispo Horsley, já mencionadas, e a View of the Necessity of Revelation de Leland, parte 1, cap. 2. ↩

9. Os príncipes da Abissínia alegam descender de Menelik, filho de Salomão com a rainha de Sabá. Os abissínios dizem que ela se converteu à religião judaica. A sucessão é hereditária na linhagem de Salomão, e a divisa de seus reis é um leão passante, de sua cor natural, em campo de goles, com o lema: “Venceu o leão da raça de Salomão e da tribo de Judá.” O eunuco abissínio que Filipe encontrou não era propriamente um prosélito judeu, mas um abissínio que cria em Moisés e nos profetas. O cristianismo espalhou-se nesse país num período antigo, mas muitos de seus habitantes professam até hoje a religião judaica. Também Tiro deve ter recebido um acréscimo de informação religiosa de seu intercâmbio com os israelitas no tempo de Salomão, e encontramos o rei Hirão bendizendo o Senhor, Deus de Israel, como aquele “que fez os céus e a terra” (2Cr 2.12). ↩

10. Veja-se a nota B no fim deste capítulo. ↩

11. A prontidão dos filósofos da Antiguidade em se apoderar de toda noção que pudesse auxiliá-los em suas especulações manifesta-se pelo uso que aqueles dentre eles que viveram quando o cristianismo começou a ser conhecido e a ganhar crédito fizeram de suas descobertas para dar maior brilho a seus próprios sistemas. A sede de conhecimento levou os antigos sábios às pessoas e aos lugares mais distantes em busca de sabedoria; e os filósofos posteriores, assim como os incrédulos modernos, não negligenciaram a luz superior do cristianismo quando ela chegou à sua porta, mas foram igualmente relutantes em reconhecer a dívida. “Assim como os antigos”, diz Justino Mártir, “haviam tomado emprestado dos profetas, assim os modernos o fizeram do evangelho.” Tertuliano observa em sua Apologia: “Qual dos vossos poetas, qual dos vossos sofistas não bebeu das fontes dos profetas? É dessas fontes sagradas também que os vossos filósofos refrescaram seus espíritos sedentos; e, se encontravam nas Sagradas Escrituras algo que agradasse à sua fantasia ou servisse às suas hipóteses, desviavam-no para os seus próprios fins e faziam-no servir à sua curiosidade, sem considerar esses escritos sagrados e inalteráveis e sem entender o seu sentido, cada um tomando ou deixando, adotando ou remodelando, conforme o levava a imaginação. Nem me admiro de que os filósofos tenham feito tais trapaças com o Antigo Testamento, quando encontro alguns da mesma geração entre nós que tomaram as mesmas liberdades com o Novo e compuseram uma mistura mortal de evangelho e opinião, levados por uma vaidade filosofante.” ↩

12. Veja-se a nota C no fim deste capítulo. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).