Parte I · Capítulo X

As provas necessárias para autenticar uma revelação: a prova interna; a prova colateral

cerca de 16 minutos de leitura

O segundo tipo de prova, geralmente considerado necessário para atestar uma revelação divina, chama-se prova interna.

Já descrevemos esse tipo de prova como aquela que nasce da consideração das doutrinas ensinadas, enquanto coerentes com o caráter de Deus e voltadas a promover a virtude e a felicidade do homem. Esses são os fins para os quais se precisava de uma revelação da vontade de Deus, e para os quais ela deve ter sido dada, se for considerada um ato de graça e misericórdia.

Este assunto, como os dois ramos da prova externa, os milagres e a profecia, envolve princípios gerais importantes; e talvez precise ser examinado com cuidado ainda maior, porque as opiniões a respeito dele caíram em extremos. Alguns duvidaram que aquilo que se chama “a prova interna”, isto é, a excelência das doutrinas e a tendência de uma revelação, deva ser colocado no mesmo nível da prova principal dos milagres e da profecia, visto que a prova tirada dos milagres e da profecia é decisiva e absoluta. Pela mesma razão, porém, a profecia poderia ser excluída do nível de prova principal, já que os milagres, por si mesmos, são decisivos e absolutos naquilo que provam. Se, porém, alguém sustentasse que as provas tiradas dos milagres, da profecia e da prova interna são necessárias em conjunto para constituir prova suficiente da verdade de uma revelação, haveria razão para contestar a tese, entendendo por “prova suficiente” aquele grau de prova que tornaria altamente irracional, perverso e culpável que alguém rejeitasse a autoridade da revelação. Essa prova é fornecida apenas pelos milagres. Pois, se há alguma força no argumento tirado dos milagres, ele chega à plena medida de uma prova racional de atestação divina, tanto para aquele que testemunha pessoalmente a realização de um milagre verdadeiro quanto para aquele a quem o milagre é atestado de modo digno de crédito; e nada mais é absolutamente necessário para impor uma convicção racional. Mas, se agradar ao divino Autor de uma revelação acrescentar a prova ulterior da profecia, e também a da verdade evidente e da tendência benéfica de muitas partes dessa revelação (circunstâncias que necessariamente hão de ser muitas vezes manifestas), isso não deve ser desprezado no argumento a seu favor, nem tido como de pouca importância. Pois, ainda que não seja necessário para estabelecer uma prova racional e suficiente, pode ter uma necessidade secundária: despertar a atenção, deixar os opositores mais claramente sem desculpa, e também acomodar a revelação à variedade que existe na constituição mental dos homens, já que uma mente é despertada para a atenção e inclinada à convicção com mais força por um tipo de prova do que por outro.

A rigor, portanto, os milagres podem ser considerados a prova primária da verdade de uma revelação, e todas as outras espécies de prova, confirmatórias. A profecia e a prova interna são provas principais, mas nenhuma delas ocupa o primeiro lugar. A mesma abundância de prova percebemos na natureza, para a demonstração da existência e dos atributos de Deus. Provas da existência de uma Causa Primeira, todo-poderosa e infinitamente sábia, além do que é logicamente suficiente, nos cercam por toda parte. Mas quem pode duvidar de que, se metade dos exemplos de poder e sabedoria infinitos que se veem no universo material fosse aniquilada, não haveria prova suficiente para demonstrar ambas essas coisas como perfeições do Criador do universo? [N. do T.: assim no original; pelo argumento, Watson quer dizer que mesmo então ainda haveria prova suficiente.]

Por outro lado, há quem coloque em primeiro lugar a prova tirada da evidência interna, e faça a força da prova dos milagres e da profecia depender da excelência da doutrina que eles vêm confirmar, a qual deveria ser verificada primeiro. Nada, dizem eles, deve ser recebido como revelação de Deus se não contiver doutrinas dignas do caráter divino e voltadas a promover o bem da humanidade. “Uma marca necessária de uma religião que vem de Deus é que os deveres que ela impõe sejam todos tais que concordem com as nossas noções naturais de Deus, aperfeiçoem a natureza e conduzam à felicidade do homem.” (Dr. S. Clarke.)

Ora, embora se deva conceder de imediato que numa revelação de Deus não haverá nada contrário ao seu próprio caráter, e que, quando ela é feita como uma dispensação de misericórdia, não conterá nada senão o que tende a aperfeiçoar a natureza e promover a felicidade de suas criaturas, é claro que provar uma pretensa revelação pelas nossas próprias noções sobre o que é digno de Deus e benéfico à humanidade é supor que, independentemente de uma revelação, sabemos o que Deus é (do contrário, não poderíamos dizer o que é digno ou indigno dele); e que conhecemos também o caráter, as relações e as necessidades do homem tão perfeitamente a ponto de determinar o que lhe é benéfico. Em outras palavras, isso supõe que estamos numa condição em que não precisamos muito de instrução sobrenatural.

Outra objeção a fazer da prova interna o critério primário de uma revelação é que ela torna o testemunho externo inútil, ou relativamente sem importância. “Certamente”, observa um engenhoso escritor recente, “num sistema que se apresenta como revelação do céu, que pretende conter uma história do trato de Deus com os homens e desenvolver verdades a respeito do governo moral do universo, cujo conhecimento e crença conduzirão à felicidade aqui e no além, podemos esperar encontrar (se as suas pretensões têm fundamento) uma prova da sua verdade que seja independente de todo testemunho externo.” (Erskine, on the Internal Evidence etc.) Se isso é verdade, a utilidade da prova dos milagres torna-se muito questionável. Ou ela é desnecessária, ou é subordinada e dependente; e nenhuma dessas duas coisas pode ser sustentada com coerência, pelo menos por teólogos cristãos. Eles não podem afirmar que os milagres são desnecessários, porque creem que eles de fato foram realizados. E a ideia de que são provas subordinadas e dependentes da suficiência da prova interna é contrariada por todo o teor das Escrituras, que os apresentam como sendo, em si mesmos, demonstração absoluta da missão e da doutrina dos profetas a pedido dos quais foram realizados, e nunca nos mandam considerar as suas doutrinas como critério dos milagres. Os milagres de Cristo, em particular, foram uma demonstração, não parcial e condicional, mas completa e absoluta, da sua missão da parte de Deus; e “pode-se observar, a respeito de todos os milagres do Novo Testamento, que a sua divindade, considerada neles mesmos, é sempre ou expressamente afirmada ou claramente implícita; e são, por isso, apresentados como prova decisiva e absoluta da divindade da doutrina e do testemunho daqueles que os realizam, sem nunca levar em consideração a natureza da doutrina ou do testemunho a ser confirmado.”

Contra esse modo de apresentar a prova interna pesa ainda esta objeção lógica: é argumentar em círculo. Os milagres são provados pela doutrina, e depois a doutrina pelos milagres. É uma objeção da qual aqueles que adotaram a ideia de que a prova interna tem nível superior ou igual não conseguiram, com todo o seu engenho e esforço, escapar de verdade.

Os milagres, portanto, devem ser considerados a prova principal e absoluta de uma revelação de Deus. “O que para mim”, diz um escritor sensato, “é, a priori, um forte argumento de que eles o são, é a evidente incoerência das outras hipóteses com a própria condição daquele povo por causa do qual Deus levantaria, em qualquer tempo, os seus mensageiros extraordinários, dotados de tais poderes miraculosos. Pois, se Deus alguma vez favorece a humanidade com uma revelação especial da sua vontade e com instruções do céu de modo sobrenatural, é certamente naquela conjuntura infeliz em que os princípios e as práticas dos homens estão tão miseravelmente depravados e corrompidos que precisam extremamente da luz e do auxílio da revelação, e são (humanamente falando) totalmente incorrigíveis sem ela. Ora, dizer que, nessas circunstâncias particulares, os homens não devem confiar em milagres reais, mas que, antes de admiti-los como prova da missão divina do profeta, devem examinar cuidadosamente a sua doutrina, para ver se ela é perfeitamente boa e verdadeira, é ou supor esse povo provido dos princípios e do conhecimento necessários para isso, o que contraria frontalmente a verdade real da sua situação; ou então afirmar que aqueles que estão totalmente destituídos dos princípios e do conhecimento necessários para essa obra devem, mesmo assim, empreendê-la sem eles, e julgar a verdade da doutrina e da autoridade do profeta pelos seus falsos princípios de religião e de moral. Isso, em suma, é fixá-los imovelmente onde já estão, nos velhos princípios errôneos, contra quaisquer princípios novos e verdadeiros que lhes fossem oferecidos. Especialmente com a massa da humanidade, cheia de trevas e preconceito, essa seria inevitavelmente a consequência; e quanto mais precisassem de uma reforma nos princípios, tanto menos capazes seriam de recebê-la por esse método. Por exemplo: se um mestre fosse enviado do céu, com sinais e prodígios, a uma nação de idólatras, e eles tivessem sido previamente instruídos a não dar atenção a nenhum milagre dele enquanto não estivessem plenamente satisfeitos com a bondade da sua doutrina, é fácil prever por qual regra eles provariam a sua doutrina e que sucesso ele teria entre eles. Acrescente-se a isso o que também é extremamente importante: as grandes demoras e perplexidades que acompanham esse modo de proceder. Pois, se cada artigo da doutrina tivesse de ser discutido e esquadrinhado por cada pessoa a quem fosse oferecido, que lentos progressos faria uma revelação divina entre esse povo! Centenas provavelmente morreriam antes de chegarem ao fim das suas perguntas, e o profeta poderia ficar decrépito de velhice antes de ganhar vinte prosélitos numa nação.” (Chapman, Eusebius.)

É fácil descobrir as causas que levaram a esses enganos quanto à verdadeira função da prova interna de uma revelação divina.

Em primeiro lugar, supôs-se um caso hipotético e perguntou-se: “Se uma doutrina absurda e perversa fosse atestada por milagres, deveria ela ser admitida como divina, com base na autoridade deles?” A resposta é que esse é um caso que, pela natureza das coisas, não pode ocorrer, e por isso não pode servir de base para um argumento. Já vimos que um milagre verdadeiro não pode ser operado senão por Deus, ou por comissão dele, porque a suposição contrária o excluiria do governo do mundo que ele fez e preserva. Sempre que ocorre um milagre verdadeiro, portanto, para atestar alguma doutrina, essa doutrina não pode ser irracional nem ímpia; e, se ela nos parecer assim depois de verificada a realidade do milagre (o que ordinariamente não é provável), o nosso juízo deve estar errado. O milagre prova a doutrina; ou então é preciso abandonar o fundamento sobre o qual se admite que os milagres tenham alguma força de prova, seja suprema ou subordinada, absoluta ou dependente. Pois a força de prova deles consiste nisto: que são obras de Deus.

A segunda causa do erro foi confundir a prova racional das verdades contidas numa revelação com a prova que a autentica. Uma vez feita a exposição do caráter, dos planos e das leis de Deus, embora sejam por natureza totalmente impossíveis de descobrir pelas faculdades humanas, eles levam à razão do homem, na medida em que são de natureza a ser compreendidos por ela, a demonstração que acompanha a verdade de qualquer outro tipo. Pois, assim como o olho foi formado para receber a luz, as faculdades racionais do homem foram formadas para receber convicção quando a coerência das proposições se torna evidente. Isso é prova racional, mas não é prova que autentica. Suponhamos que não haja nenhum testemunho externo de milagres ou de profecia concedido para atestar que o mestre, por meio de quem recebemos essas doutrinas que nos parecem tão sublimes, tão importantes, tão verdadeiras, as recebeu de Deus, com a missão de transmiti-las a nós. Ele mesmo não tem meios de saber que elas vêm de Deus, nem de distingui-las de alguma feliz sequência de pensamentos à qual a sua mente foi levada pela própria força; e, mesmo que tivesse, nós não temos meios de concluir que sejam mais do que as opiniões de uma mente superior à nossa em vigor e alcance. Elas podem ser verdadeiras, mas não estão atestadas como divinas. Não temos garantia da sua verdade infalível, porque as nossas próprias faculdades racionais não são infalíveis, nem as da mente humana mais dotada. Acrescente-se, então, o testemunho externo, e temos a atestação requerida. A prova racional da doutrina é a mesma nos dois casos; mas a prova racional, embora seja para nós a prova da verdade da doutrina (na medida, e só na medida, em que podemos reivindicar infalibilidade para o nosso juízo), não é prova nenhuma de que Deus a revelou. Só no testemunho externo se encontra essa prova. O grau de prova racional que temos da verdade e da excelência da doutrina pode ser uma recomendação adicional dela para nós, mas não faz parte da sua autoridade.

A partir dessa distinção, pode-se ilustrar ainda mais a importância relativa da prova externa e da prova interna de uma revelação. A prova racional das doutrinas que nos são propostas, quando se pode tê-la, serve para estabelecer a sua verdade, na medida em que podemos confiar no nosso juízo; mas o testemunho externo, se for satisfatório, estabelece a sua autoridade divina, e portanto a sua verdade absoluta, e não nos deixa recurso. Mais ainda: uma revelação que dependesse só da prova interna não poderia conter doutrinas nem impor deveres, a não ser aqueles cuja prova para a nossa razão fosse completa. A menor objeção fundada numa razão contrária plausível enfraqueceria a sua força, e a ausência de uma percepção clara da sua coerência com alguns princípios anteriores, admitidos como verdadeiros, seria a ausência de toda e qualquer prova da sua verdade. Por outro lado, uma revelação com prova racional de atestação divina torna possível a nossa instrução em muitas doutrinas e deveres cuja prova racional de verdade nos falta. E como algumas doutrinas podem ser verdadeiras e altamente importantes para nós sem serem capazes desse tipo de prova (isto é, sem serem tão plenamente conhecidas a ponto de poderem ser comparadas com proposições aceitas e determinadas por elas), o nosso conhecimento, desse modo, é grandemente ampliado. Os benefícios da revelação se estendem, e o todo se torna obrigatório, e portanto eficaz para fins morais, porque traz sobre si o selo de uma autoridade infalível.

Também é evidente o terreno mais firme sobre o qual repousa uma revelação fundada numa prova externa razoável de autoridade. As doutrinas em que precisamos ser instruídos são: a natureza de Deus; as nossas próprias relações com esse Ser invisível; a sua vontade a nosso respeito; os meios de obter ou garantir o seu favor; os princípios do seu governo; e uma vida futura. Essas doutrinas, e outras de espécie semelhante, envolvem grandes dificuldades, como a história do conhecimento moral entre os homens prova suficientemente. E isso não só entre os que nunca tiveram os benefícios da revelação bíblica sobre esses assuntos, mas também entre os que, não a considerando como autoridade, se entregaram ao espírito filosofante e julgaram essas doutrinas apenas pela sua prova racional. Essa prova, aparecendo pela natureza das coisas sob aspectos diferentes a mentes diferentes, produziu entre eles quase tanta contrariedade de opinião quanto a que encontramos entre os sábios da antiguidade pagã. Sendo, portanto, a mera prova racional da verdade de tais doutrinas, por sua natureza, obscura em muitos aspectos importantes e sujeita à diversidade de opinião, ela ofereceria um fundamento muito precário e instável para a fé em qualquer revelação de Deus destinada a remover a ignorância do homem em pontos tão importantes de doutrina e tão essenciais a uma religião e uma moral eficazes.

Por outro lado, o processo de obter uma prova racional da atestação divina de uma doutrina, por meio de milagres, por exemplo, é da espécie mais simples e decisiva, e dá à incredulidade o caráter de evidente perversidade e incoerência. Perversidade, porque há no caso uma clara oposição da vontade, mais do que do juízo; incoerência, porque os próprios objetores agem, nos assuntos mais importantes da sua vida, com base num grau de prova muito inferior. Pois quem, tendo visto um morto ressuscitado, por apelo ao Senhor da vida, em confirmação de uma doutrina que se diz ensinada por autoridade dele, deixaria de reconhecer um testemunho divino, a menos que uma perversidade voluntária se interpusesse? E quem, tendo ouvido o fato relatado pelo testemunho de homens honestos e observadores competentes, em circunstâncias nas quais nenhuma ilusão pode ocorrer, não deveria ser acusado de incoerência, se tratasse o relato com ceticismo, quando, com base na mesma espécie e quantidade de prova, daria tanto crédito a qualquer relato sobre os seus próprios negócios a ponto de arriscar neles os maiores interesses? Em doutrinas difíceis, de natureza a dar origem a uma variedade de opiniões, a prova racional vem acompanhada de dúvida; num caso como o do milagre que supusemos, ela repousa sobre princípios sustentados pela experiência universal e constante da humanidade: 1. Que ressuscitar mortos está acima do poder humano; 2. Que homens indiscutivelmente virtuosos em todos os outros aspectos não costumam propagar uma falsidade deliberada; e 3. Que contraria todos os motivos de ação conhecidos na natureza humana que eles o façam, não só sem vantagem, mas com risco de opróbrio, perseguição e morte. A prova de tal atestação é, portanto, tão indubitável quanto esses próprios princípios.

O quarto tipo de prova pelo qual uma revelação de Deus pode ser confirmada é a colateral. Sobre ela, por ora, não precisamos dizer mais do que apresentar alguns exemplos, apenas para ilustrar esse tipo de testemunho.

A prova colateral de uma revelação de Deus pode ser: a sua concordância de princípio com todas as revelações anteriores, caso revelações anteriores tenham sido concedidas; o fato de ter sido claramente adequada às circunstâncias do mundo no tempo em que foi comunicada; o de estar apta a produzir os grandes fins morais a que se propõe, e de os ter de fato produzido; o de que, se contiver um registro de fatos, além de doutrinas, esses fatos históricos concordem com as tradições e histórias dignas de crédito dos mesmos tempos; o de que restem monumentos, naturais ou instituídos, para atestar a verdade da sua história; o de que adversários tenham feito concessões em seu favor; e o de que, se ela se apresenta como revelação universal e definitiva da vontade e da misericórdia de Deus para com o homem, mantenha até hoje a sua adequação à condição do gênero humano e a sua eficácia. Essas e muitas outras circunstâncias podem ser classificadas sob o título de prova colateral, e algumas delas serão aplicadas, no lugar próprio, às Santas Escrituras.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).