As provas geralmente oferecidas em favor da autoridade divina das Escrituras podem dividir-se em externas, internas e colaterais. As provas externas consistem nos milagres e na profecia; as provas internas são tiradas da consideração das doutrinas ensinadas, por serem coerentes com o caráter de Deus e tenderem a promover a virtude e a felicidade do homem; e as provas colaterais nascem de uma variedade de circunstâncias que, de modo menos direto que as anteriores, provam que a revelação é de autoridade divina, mas que, ainda assim, são consideradas de grande peso no argumento. Sobre cada uma dessas espécies de prova faremos algumas observações gerais, destinadas a preparar o caminho para uma demonstração da autoridade divina das Santas Escrituras.
As provas principais e mais apropriadas de uma revelação de Deus têm de ser externas à própria revelação. Isso já foi dito antes, mas talvez exija uma consideração mais ampla.
Uma revelação divina foi bem definida como “a descoberta de alguma proposição à mente, que não entrou nela pelo exercício habitual das suas faculdades, mas por alguma interposição e atestação divina miraculosa, mediata ou imediata” (Doddridge, Lectures, parte 5, definição 68). Não se considera necessário tentar provar que tal revelação é possível; pois, como se supõe que o nosso argumento se dirige a uma pessoa que reconhece não apenas que há um Deus, mas que ele é o Criador dos homens, seria absurdo que alguém assim negasse que aquele que nos deu mentes capazes de conhecimento é capaz de nos transmitir conhecimento, de modo instantâneo e imediato; e que aquele que nos deu o poder de comunicar ideias uns aos outros não tenha meios de se comunicar conosco diretamente, de si mesmo.
Não precisamos indagar se as provas externas de uma revelação são necessárias, em todos os casos, para aquele que a recebe de modo imediato e em primeiro lugar; pois a questão não é se Deus já fez revelações particulares a indivíduos e que provas se exigem para autenticá-las, mas que espécie de prova devemos exigir de alguém que declara ter recebido uma revelação da vontade de Deus, com a ordem de comunicá-la a nós e de impô-la à nossa aceitação e submissão como regra das nossas opiniões e dos nossos costumes.
Ele pode crer que uma comunicação divina lhe foi feita; mas a sua crença não tem autoridade para impor a nossa. Ele pode de fato tê-la recebido; mas não temos meios de sabê-lo sem prova.
Essa prova não é a natureza elevada e excelente das verdades que ele ensina; em outras palavras, aquilo que se chama prova interna não pode ser essa prova. Pois não podemos saber se as doutrinas que ele ensina, ainda que fossem passíveis de um grau de demonstração racional mais elevado do que quaisquer outras já apresentadas ao mundo, não seriam fruto do seu próprio trabalho mental. Ele pode ter consciência de que não são; mas não temos meio algum de conhecer aquilo de que ele tem consciência, a não ser pelo seu próprio testemunho. Para nós, portanto, elas não teriam outra autoridade senão a de opiniões de um homem cujas realizações intelectuais poderíamos admirar, mas a quem não poderíamos nos submeter como a um guia infalível; e tanto menos se alguma parte da doutrina por ele ensinada fosse misteriosa e acima da nossa razão, ou contrária aos nossos interesses, preconceitos e paixões.
Se, portanto, alguém declarasse ter recebido de Deus uma revelação da verdade para ensinar à humanidade, e que fora instruído a exigir dela obediência sob pena do desagrado divino, ser-lhe-ia pedida alguma autenticação externa da sua missão; e a racionalidade e a excelência das suas doutrinas não seriam aceitas em lugar dela. Estas poderiam dar-lhe direito a ser ouvido; mas nada menos que aquela seria considerado fundamento suficientemente forte para lhe prestarmos obediência absoluta. Sem ela, ele poderia raciocinar e ser ouvido com respeito, mas não poderia ordenar. Foi com base nesse fundamento muito razoável que os judeus, numa ocasião, perguntaram a nosso Senhor: “Com que autoridade você faz estas coisas?” (Mt 21.23), e, em outra: “Que sinal você nos mostra?” (Jo 2.18).
De acordo com isso, os autores tanto da revelação judaica quanto da cristã declaram ter autenticado a sua missão pelas duas grandes provas externas, os milagres e a profecia; e resta considerar se essa espécie de autenticação é razoavelmente suficiente para exigir a nossa fé e a nossa obediência.
A questão não é se podemos conceber provas externas da missão de Moisés, de Cristo e dos seus apóstolos diferentes daquelas que se supõe terem sido dadas, e mais convincentes. Fosse qual fosse o modo pelo qual se fizesse a autenticação, poderíamos ter concebido modos de prova diferentes em espécie ou mais amplos em suas circunstâncias; de modo que fundar uma objeção na ausência de uma espécie particular de prova, pela qual temos preferência, seria frívolo.1 Mas a questão é esta: uma missão de ensinar ao homem a vontade de Deus, sob a autoridade imediata dele, está suficientemente autenticada quando milagres são realmente realizados e profecias são de fato e inequivocamente cumpridas? Por ora, a investigação só precisa ir até esse ponto; pois a questão de saber se Moisés e Cristo realizaram milagres verdadeiros, e se de fato proferiram profecias que receberam cumprimento inequívoco, ficará reservada para uma etapa posterior da investigação.
Há um sentido popular, um sentido filosófico e um sentido teológico do termo milagre.
Um milagre, no sentido popular, é um prodígio, ou um acontecimento extraordinário que nos surpreende por sua novidade. Num sentido mais exato e filosófico, um milagre é um efeito que não decorre de nenhuma das leis regulares da natureza, ou que é incompatível com alguma lei conhecida dela, ou contrário à constituição estabelecida e ao curso das coisas. Por isso, todos os milagres pressupõem um sistema estabelecido da natureza, dentro de cujos limites eles operam e com cuja ordem eles discordam.
Do milagre no sentido teológico foram dadas muitas definições.2 A do Dr. Samuel Clarke é: “Um milagre é uma obra realizada de modo incomum, ou diferente do método comum e regular da providência, pela interposição do próprio Deus ou de algum agente inteligente superior ao homem, para prova ou evidência de alguma doutrina particular, ou em atestação da autoridade de alguma pessoa particular.”
O Sr. Horne define o milagre como “um efeito ou acontecimento contrário à constituição estabelecida ou ao curso das coisas, ou uma suspensão ou um controle perceptível das leis conhecidas da natureza, ou um desvio delas, realizado ou pelo ato imediato, ou pela assistência, ou pela permissão de Deus” (Introduction to the Critical Study of the Scriptures, vol. 1, cap. 4, seç. 2). Essa definição ficaria mais completa no sentido teológico se lhe fosse acrescentada a última cláusula da definição do Dr. S. Clarke: “para prova ou evidência de alguma doutrina particular, ou em atestação da autoridade de alguma pessoa particular”. Com esse acréscimo, a definição será suficientemente satisfatória, pois explica a natureza do fenômeno e dá a razão ou o fim da sua ocorrência.
Farmer, em sua Dissertation on Miracles, nega a quaisquer inteligências criadas, por elevadas que sejam, o poder de realizar milagres quando agem apenas por si mesmas. Essa disputa só pode ser resolvida por uma definição rigorosa dos termos; mas, seja qual for o poder que se conceda a seres superiores para produzir efeitos miraculosos, ou aparentemente miraculosos, pelo controle que se supõe exercerem sobre os objetos naturais, ainda assim, como todos eles estão sob o governo de Deus, certamente não têm poder para interferir à vontade na obra dele e na ordem da sua providência. O que quer que façam, portanto, seja em virtude de um poder natural, seja de um poder especialmente comunicado, têm de fazê-lo por comissão, ou pelo menos por licença.
Os milagres de que tratamos são efeitos que correspondem à definição que acabamos de dar e que são realizados ou imediatamente pelo próprio Deus, para atestar a missão divina de determinadas pessoas e autenticar as suas doutrinas; ou por seres superiores comissionados por ele para o mesmo fim; ou pelas próprias pessoas que declaram possuir essa autoridade divina, a fim de provar que foram investidas dela por Deus.
A possibilidade de milagres realizados pelo poder de Deus não pode ser negada senão por ateus, ou por aqueles cujo sistema é substancialmente ateu. Espinosa nega que algum poder possa sobrepor-se ao da natureza, ou que alguma coisa possa perturbar ou interromper a ordem das coisas; e, de acordo com isso, define o milagre como “um acontecimento raro que ocorre em consequência de algumas leis que nos são desconhecidas”. Essa é a definição de um prodígio, não de um milagre; mas, se os milagres no sentido próprio forem admitidos, isto é, se os próprios fatos que comumente se chamam miraculosos não forem contestados, esse modo de explicá-los é evidentemente absurdo ao extremo, uma vez que supõe que essas leis desconhecidas por acaso entraram em operação exatamente quando o desejavam homens que declaravam estar dotados de poderes miraculosos, embora essas leis lhes fossem desconhecidas. Por exemplo, quando Moisés disputou com os magos do Egito, embora essas leis lhe fossem desconhecidas, ele se arriscou a depender da sua operação, e por acaso elas serviram ao seu propósito.
Para quem crê num Criador supremo de todas as coisas e na dependência de todas as coisas em relação ao seu poder e à sua vontade, as interposições miraculosas têm de ser admitidas como possíveis; e não há nelas nada que repugne às nossas ideias da sabedoria e da imutabilidade dele e da perfeição das suas obras. São afastamentos do curso ordinário da operação de Deus; mas isso não nasce de nenhuma necessidade natural de remediar um mal imprevisto ou de reparar imperfeições na sua obra. As razões delas são razões morais, e não naturais, e os fins que se destinam a realizar são fins morais. Quando ocorrem, lembram-nos de que há um poder superior à natureza e de que toda a natureza, até as suas primeiras e mais uniformes leis, depende dele. Estão entre os principais meios pelos quais aquele que por natureza é invisível se torna, por assim dizer, visível às suas criaturas, tão inclinadas a esquecê-lo inteiramente ou a perdê-lo de vista por causa do véu dos objetos materiais que se interpõe.3
Admitida, então, a possibilidade de uma interposição miraculosa da parte do grande Autor da natureza, em ocasiões especiais e para grandes fins, de que modo e em que circunstâncias tal interposição autentica a missão divina daqueles que declaram ser enviados por ele para ensinar à humanidade a sua vontade?
O argumento é que, assim como o curso conhecido e estabelecido da natureza foi fixado por aquele que é o Criador e Preservador de todas as coisas, ele nunca pode ser violado, alterado ou controlado senão imediatamente por ele mesmo, ou mediatamente por outros seres sob as suas ordens e com a sua assistência ou permissão; pois, se isso não for admitido, teremos de negar ou a onipotência divina ou o seu governo natural; e, se estes forem admitidos, o outro decorre. Todo milagre verdadeiro é uma obra de Deus, feita especialmente por ele, com a sua permissão ou com o seu concurso.
Para distinguir um milagre verdadeiro, é necessário que se compreenda o curso comum da natureza; pois, sem algum conhecimento prévio da operação das causas físicas, um acontecimento poderia ser julgado miraculoso quando é apenas estranho e, pela nossa ignorância, inexplicável. Se ocorresse um terremoto num país que, na memória dos homens, nunca tivesse sido atingido por tal calamidade, os ignorantes poderiam considerá-lo miraculoso; ao passo que um terremoto é um efeito regular das leis da natureza presentemente estabelecidas.
Mas, como o curso da natureza e a operação das causas físicas são compreendidos apenas em parte, e talvez nunca venham a ser plenamente compreendidos pelas mentes mais indagadoras, parece necessário que os milagres destinados a autenticar qualquer sistema religioso, promulgado para o benefício comum da humanidade, sejam efeitos produzidos sobre objetos cujas propriedades tenham sido assunto de observação comum e prolongada; que o efeito seja contrário a alguma lei conhecida pela qual se tenha observado, de modo uniforme e por longo tempo, que os objetos em questão são governados; ou que se saiba que a causa próxima do efeito não tem poder nem adequação suficientes para produzi-lo. Quando essas circunstâncias ocorrem separadamente, e mais ainda quando combinadas, existe um conhecimento prévio suficiente do curso da natureza para autorizar a conclusão de que o efeito é miraculoso, ou, em outras palavras, de que é produzido pela interposição especial de Deus.
Se as obras atribuídas a Moisés e a Cristo e registradas nas Escrituras foram de fato realizadas por eles, isso será considerado em outro lugar; mas aqui convém observar que, supondo a sua ocorrência real, elas são de tal natureza que não deixam nenhuma dúvida razoável sobre o seu caráter miraculoso; e delas podemos tomar alguns exemplos para ilustrar as observações anteriores, sem prejulgar o argumento.
A vara lançada da mão de Moisés torna-se uma serpente. Aqui o objeto era bem conhecido: era uma vara, um ramo separado de uma árvore; e era evidentemente contrário ao curso conhecido e estabelecido da natureza que ela sofresse uma transformação tão notável. Se o fato puder ser provado, o milagre, portanto, tem de decorrer dele.
O mar se divide ao estender-se a vara de Moisés. Aqui não há adequação da causa próxima para produzir o efeito, que era evidentemente oposto às qualidades conhecidas da água. Um recuo do mar a partir das praias teria feito baixar toda a massa de água a partir da extremidade do golfo; mas aqui as águas se dividem e, contra a sua natureza, levantam-se de cada lado, deixando passagem para o exército de Israel.
É da natureza das nuvens serem levadas de um lado para outro pelo vento; mas a nuvem que ia adiante dos israelitas no deserto pousava sobre o seu tabernáculo, movia-se quando eles recebiam ordem de marchar e dirigia o seu caminho; pousava quando deviam armar as suas tendas e era uma coluna de orientação durante o dia; e, de noite, quando é da natureza das nuvens tornarem-se escuras, por não serem mais atravessadas pelos raios do sol, essa nuvem brilhava com o resplendor do fogo.
Em todos esses casos, se os fatos forem estabelecidos, não pode haver dúvida quanto ao seu caráter miraculoso.
“Se um médico desse instantaneamente a vista a um cego, ungindo-lhe os olhos com um preparado químico de cuja natureza e qualidades fôssemos absolutamente ignorantes, a cura nos pareceria, sem dúvida, maravilhosa; mas não poderíamos declará-la miraculosa, porque poderia ser o efeito físico da ação do unguento sobre o olho. Mas, se ele desse a vista ao seu paciente apenas ordenando-lhe que a recebesse, ou ungindo-lhe os olhos com saliva, declararíamos com a maior confiança que a cura era um milagre; porque sabemos perfeitamente que nem a voz humana nem a saliva humana têm, pela constituição estabelecida das coisas, tal poder sobre as doenças dos olhos. Ninguém ignora que pessoas aparentemente mortas são muitas vezes restituídas às suas famílias e aos seus amigos ao serem tratadas, durante a suspensão da vida, do modo recomendado pela Humane Society. Para o vulgo, e às vezes até para homens de ciência, essas reanimações parecem muito maravilhosas; mas, como se sabe que são efetuadas por agentes físicos, não podem ser consideradas desvios miraculosos das leis da natureza. Por outro lado, ninguém poderia duvidar de ter testemunhado um milagre verdadeiro se tivesse visto uma pessoa que estava morta havia quatro dias sair viva do sepulcro ao chamado de outra, ou se tivesse mesmo visto uma pessoa que apresentasse todos os sinais comuns da morte ser instantaneamente reanimada apenas por lhe ser dito que vivesse.” (Edição de Gleig da History of the Bible de Stackhouse, vol. iii, p. 241.)
Em todos esses casos, o curso comum da natureza é suficientemente conhecido para sustentar a conclusão de que o poder que assim interfere nele e o controla, e que produz efeitos para os quais se sabe que as causas naturais visíveis não são adequadas, é Deus.4
Mas também é necessário, para provar que mesmo esses acontecimentos miraculosos são autenticações de uma missão divina, que se estabeleça uma conexão direta entre o poder de Deus, exercido num ato miraculoso, e o mensageiro e a sua mensagem.
As seguintes circunstâncias pareceriam bastar para estabelecer tal conexão. 1. Quando os milagres ocorrem no tempo em que aquele que declara ter uma missão divina recebida de Deus está ocupado em dar a conhecer à humanidade a vontade de Deus, comunicando a revelação que recebeu e realizando outros atos relacionados com o seu ofício. 2. Quando, embora sejam obras acima do poder humano, são realizadas pelo próprio mensageiro ou se seguem às suas volições. A força desse argumento pode ser exposta assim: quando milagres tão inequívocos quanto os que indicamos ocorrem apenas em conexão com uma declaração efetiva, feita por certas pessoas, de que possuem autoridade divina para ensinar e dar ordens à humanidade, isso é uma forte presunção de que as obras são realizadas por Deus para autenticar essa pretensão; mas, quando são realizadas imediatamente por essas mesmas pessoas, por sua própria vontade e com o propósito expresso de estabelecer a sua missão, então, uma vez admitido que são milagres verdadeiros, que nenhum poder senão o de Deus pode efetuar, fica claro que Deus está com elas e que a cooperação dele é um selo autenticador e visível posto sobre a sua comissão.
Não é necessário, nesta etapa, especificar as regras pelas quais se devem distinguir os milagres verdadeiros dos pretensos, nem indagar se as Escrituras admitem que, em alguns casos, foram realizados milagres em apoio da falsidade. Ambos os assuntos serão examinados quando chegarmos a falar dos milagres das Escrituras. O fundamento estabelecido é que os milagres são possíveis e que, quando milagres verdadeiros ocorrem nas circunstâncias que mencionamos, são provas satisfatórias de uma missão divina.
Mas, ainda que isso seja admitido, e também que as testemunhas oculares de tais milagres estariam obrigadas a admitir a prova, tem-se levantado a questão de saber se o testemunho delas oferece a outros razão suficiente para admitir o fato de que tais acontecimentos realmente se deram e, por conseguinte, se estamos obrigados a reconhecer a autoridade da missão em cuja atestação se diz que os milagres foram realizados.
Se isso for admitido, os benefícios de uma revelação terão de ficar restritos àqueles que presenciaram a sua atestação por milagre, ou então atestações semelhantes terão de ser concedidas a cada indivíduo; pois, como nenhuma revelação pode ser um benefício se não possuir autoridade divina, a única que pode marcar infalivelmente a distinção entre a verdade e o erro, se a autenticação for parcial, o benefício da comunicação de uma doutrina infalível também terá de ser parcial. Todos nós temos tanto interesse nisso, já que nenhum sistema religioso pode alegar a autenticação de um milagre perpétuo, que a questão merece consideração especial. Ou esse princípio é falso, ou temos de abandonar toda esperança de descobrir uma religião de autoridade divina.
Como os milagres são fatos, podem, como outros fatos, ser relatados a outros. E como, no caso dos milagres em questão, que têm as características que foram descritas, não se pode duvidar da competência de qualquer homem de entendimento comum para determinar se de fato foram realizados, é razoável que, se as testemunhas forem dignas de crédito, o seu testemunho seja admitido. Pois, se o testemunho for tal que, nos assuntos de maior importância para nós nos negócios da vida comum, não hesitaríamos em agir com base nele; se for tal que, nos assuntos mais importantes, os homens agem uniformemente com base num testemunho semelhante ou até mais fraco, seria pura obstinação rejeitá-lo no caso em questão, e isso revelaria antes uma aversão à doutrina assim provada do que qualquer dúvida racional sobre a suficiência da própria prova.
A objeção é apresentada em sua forma mais forte pelo Sr. Hume, em seus Essays, e a sua substância é esta: a experiência é o fundamento do crédito que damos ao testemunho humano; mas essa experiência não é de modo algum constante, pois muitas vezes vemos os homens faltarem com a verdade e enganarem. Por outro lado, é igualmente a experiência que nos assegura daquelas leis da natureza em cuja violação consiste a noção de milagre; mas essa experiência é constante e uniforme. Um milagre é um acontecimento que, por sua natureza, é incompatível com a nossa experiência; mas a falsidade do testemunho não é incompatível com a experiência. É contrário à experiência que os milagres sejam verdadeiros, mas não é contrário à experiência que o testemunho seja falso; e, portanto, nenhum testemunho humano pode, em caso algum, torná-los dignos de crédito.
Esse argumento foi enfrentado extensamente por muitos autores,5 mas os trechos seguintes oferecem uma refutação ampla. “O princípio dessa objeção é que é contrário à experiência que um milagre seja verdadeiro, mas não é contrário à experiência que o testemunho seja falso.
“Ora, parece haver uma pequena ambiguidade no termo ‘experiência’ e nas expressões ‘contrário à experiência’ ou ‘que contradiz a experiência’, que talvez seja necessário remover em primeiro lugar. Estritamente falando, a narrativa de um fato só é contrária à experiência quando se relata que o fato existiu num tempo e num lugar em que nós, estando presentes, não o percebemos existir; como se se afirmasse que, numa determinada sala, e numa determinada hora de certo dia, um homem foi ressuscitado dentre os mortos, quando nós, estando presentes nessa sala e no tempo especificado, e olhando, não percebemos que tal acontecimento tivesse ocorrido.
“Aqui a afirmação é contrária à experiência propriamente dita; e essa é uma contrariedade que nenhuma prova pode superar. Pouco importa que o fato seja de natureza miraculosa ou não. Mas, embora essa seja a experiência e a contrariedade que o arcebispo Tillotson alegou na citação com que o Sr. Hume abre o seu ensaio, certamente não é essa a experiência, nem essa a contrariedade, que o próprio Sr. Hume pretendeu objetar. E, aquém disso, não conheço nenhum significado inteligível que se possa atribuir à expressão ‘contrário à experiência’ senão um, a saber: o de nós mesmos não termos experimentado nada semelhante à coisa relatada, ou de tais coisas não serem geralmente experimentadas por outros. Digo ‘não geralmente’, pois afirmar, a respeito do fato em questão, que nada semelhante jamais foi experimentado, ou que a experiência universal é contra ele, é pressupor o próprio objeto da controvérsia.
“Ora, a improbabilidade que nasce da falta de experiência (pois isso é propriamente uma falta, e não uma contradição) é apenas igual à probabilidade que há de que, se a coisa fosse verdadeira, experimentaríamos coisas semelhantes a ela, ou de que tais coisas seriam geralmente experimentadas. Suponhamos, então, que seja verdade que se realizaram milagres na primeira promulgação do cristianismo, quando nada senão milagres poderia decidir a sua autoridade: é certo que tais milagres seriam repetidos com tanta frequência e em tantos lugares a ponto de se tornarem objeto de experiência geral? É uma probabilidade que se aproxima da certeza? É uma probabilidade de alguma grande força ou vigor? É tal que nenhuma prova possa enfrentá-la? E, no entanto, essa probabilidade é exatamente a inversa e, portanto, a medida exata da improbabilidade que nasce da falta de experiência e que o Sr. Hume apresenta como invencível pelo testemunho humano.
“Não é como alegar uma nova lei da natureza ou uma nova experiência na filosofia natural; porque, quando estas são relatadas, espera-se que, nas mesmas circunstâncias, o mesmo efeito se siga universalmente; e, na medida em que essa expectativa é justamente alimentada, a falta de uma experiência correspondente desmente a narrativa. Mas esperar a respeito de um milagre que ele se repita com êxito é esperar aquilo que o faria deixar de ser um milagre, o que é contrário à sua natureza como tal e destruiria totalmente o uso e o propósito para os quais foi realizado.
“A força da experiência, como objeção aos milagres, funda-se na presunção de que o curso da natureza é invariável, ou de que, se alguma vez variar, as variações serão frequentes e gerais. Foi demonstrada a necessidade dessa alternativa? Permita-se-nos chamar o curso da natureza de ação de um Ser inteligente: há alguma boa razão para julgar provável esse estado de coisas? Não deveríamos antes esperar que tal Ser, em ocasiões de importância especial, possa interromper a ordem que havia estabelecido, mas que essas ocasiões voltem raramente; que essas interrupções, consequentemente, se restrinjam à experiência de poucos; e que a falta dessa experiência em muitos, portanto, não seja motivo de surpresa nem de objeção?
“Mas, como continuação do argumento tirado da experiência, diz-se que, quando apresentamos relatos de milagres, indicamos efeitos sem causas, ou atribuímos efeitos a causas inadequadas para o fim, ou a causas de cuja operação não temos experiência. De que causas, podemos perguntar, e de que efeitos fala a objeção? Se se responder que, quando atribuímos a cura da paralisia a um toque, a da cegueira à unção dos olhos com barro, ou a ressurreição dos mortos a uma palavra, nos expomos a essa acusação, respondemos que não atribuímos tais efeitos a tais causas. Não percebemos nessas coisas mais virtude ou energia do que em outras coisas da mesma espécie. São meramente sinais, para ligar o milagre ao seu fim. O efeito nós o atribuímos simplesmente à volição da Divindade, de cuja existência e poder, para não dizer de cuja presença e ação, temos prova prévia e independente. Temos, portanto, tudo o que procuramos nas obras de agentes racionais: um poder suficiente e um motivo adequado. Numa palavra, uma vez que se creia que há um Deus, os milagres não são incríveis!
“O Sr. Hume apresenta o caso dos milagres como uma disputa entre improbabilidades opostas, isto é, como a questão de saber se é mais improvável que o milagre seja verdadeiro ou que o testemunho seja falso; e considero isso um relato justo da controvérsia. Mas noto aqui uma falta de justiça na argumentação: ao descrever a improbabilidade dos milagres, ele suprime todas as circunstâncias atenuantes que resultam do nosso conhecimento da existência, do poder e da disposição da Divindade; do seu envolvimento na criação; do fim atendido pelo milagre; da importância desse fim e da sua subordinação ao plano seguido nas obras da natureza. Da maneira como o Sr. Hume apresentou a questão, os milagres são igualmente incríveis para quem está previamente seguro da ação constante de um Ser divino e para quem crê que não existe tal Ser no universo. São igualmente incríveis quer se relate que foram realizados nas ocasiões mais dignas e para os propósitos mais benéficos, quer sem nenhum fim que se possa indicar, quer para um fim reconhecidamente frívolo ou pernicioso. Isso certamente não pode ser uma exposição correta. Também ao ajustar o outro lado da balança, a força e o peso do testemunho, esse autor providenciou uma resposta a todo possível acúmulo de prova histórica, dizendo-nos que não somos obrigados a explicar como surgiu a história ou a prova. Ora, penso que somos obrigados: não talvez a mostrar, por relatos positivos, como de fato surgiu, mas a mostrar, por uma hipótese provável, como poderia ter acontecido. A existência do testemunho é um fenômeno; a verdade do fato resolve o fenômeno. Se rejeitamos essa solução, devemos ter alguma outra em que descansar; e nenhuma pode ser admitida, nem mesmo pelos nossos adversários, que não seja coerente com os princípios que regulam atualmente os negócios e a conduta humana, ou que faça dos homens de então uma espécie de seres diferente do que são agora.
“Mas a breve consideração que, independentemente de todas as outras, me convence de que não há fundamento sólido para a conclusão do Sr. Hume é a seguinte. Quando se propõe um teorema a um matemático, a primeira coisa que ele faz é testá-lo num caso simples; e, se produzir um resultado falso, ele tem certeza de que há algum erro na demonstração. Ora, procedendo desse modo com aquilo que se pode chamar de teorema do Sr. Hume: se doze homens, cuja probidade e bom senso eu conhecesse havia muito tempo, me relatassem com seriedade e com todos os pormenores um milagre realizado diante dos seus olhos, e no qual fosse impossível que tivessem sido enganados; se o governador do país, ouvindo um rumor desse relato, chamasse esses homens à sua presença e lhes fizesse uma proposta breve, a de confessar a impostura ou de se sujeitar a ser pendurados numa forca; se eles se recusassem a uma só voz a reconhecer que havia no caso qualquer falsidade ou impostura; se essa ameaça lhes fosse comunicada separadamente, mas sem nenhum efeito diferente; se ela fosse por fim executada; se eu mesmo os visse, um após outro, consentirem em ser torturados no cavalete, queimados ou estrangulados, antes de renunciar à verdade do seu relato: ainda assim, se a regra do Sr. Hume for o meu guia, não devo acreditar neles. Ora, atrevo-me a dizer que não existe no mundo um cético que não acreditasse neles, ou que defendesse tal incredulidade.” (Paley, Evidences, Considerações preliminares.)
“O ensaísta”, diz o bispo de Llandaff, “que mais elaboradamente desenvolveu esse argumento confunde o assunto ao tentar ajustar, numa espécie de balança metafísica de sua própria invenção, os graus de probabilidade que resultam do que lhe apraz chamar experiências opostas, a saber: a experiência da veracidade dos homens, de um lado, e a experiência da constituição firme e inalterável das leis da natureza, do outro. Mas a falácia desse modo de raciocinar é evidente. Pois, em primeiro lugar, os milagres, no máximo, só podem ser contrários à experiência dos que nunca os viram realizar-se; dizer, portanto, que são contrários à experiência geral (incluindo, ao que parece, a experiência até daqueles que declaram tê-los visto e examinado) é pressupor o próprio ponto em questão. E, em segundo lugar, é igualmente falacioso alegar contra eles a experiência da constituição inalterável das leis da natureza; porque, a menos que se investigue previamente o fato de saber se essas leis alguma vez foram alteradas ou suspensas, isso também é uma suposição gratuita.
“Na verdade, essa alardeada balança de probabilidades só poderia ser empregada com efeito, na causa da incredulidade, contrapondo ao testemunho daqueles que declararam ter visto milagres o testemunho daqueles (se houvesse algum) que, nas mesmas circunstâncias e com as mesmas oportunidades de formar juízo, declarassem ter-se convencido de que as coisas que viram não eram milagres, mas meras imposturas e ilusões. Aí haveria de fato experiência contra experiência; e um cético poderia ocupar-se bem em avaliar o peso comparativo do testemunho de cada lado, a fim de julgar a credibilidade ou a incredibilidade das coisas propostas à sua crença. Mas, quando ele pesa apenas a experiência daqueles a quem nunca foi concedida a oportunidade de julgar um milagre por observação pessoal contra a experiência daqueles que se declaram testemunhas oculares do fato, em vez de experiências opostas, propriamente ditas, ele está apenas pondo na balança a total inexperiência, de um lado, contra a experiência positiva, do outro.
“Nem adiantará nada dizer que essa inexperiência particular daqueles que nunca viram milagres é compensada pela sua experiência geral do curso inalterável da natureza. Pois, como já observamos, isso é inteiramente uma mera petição de princípio. É argumentar com base numa suposição totalmente incapaz de prova, a de que o curso da natureza está de fato tão inalteravelmente fixado que nem o próprio Deus, por quem as suas leis foram ordenadas, pode, quando julgar conveniente, suspender a operação delas.
“Há, portanto, uma falácia palpável (por mais que um metafísico sutil tente disfarçá-la com engenhosa sofística) em apresentar a experiência da humanidade como oposta ao testemunho em que se funda a nossa crença nos milagres. Pois as experiências opostas, como são chamadas, não são contraditórias entre si, já que ‘não há’ (como foi justamente observado) ‘nenhuma incoerência em acreditar em ambas’. Um milagre supõe necessariamente um curso das coisas estabelecido e geralmente inalterado (embora não inalterável); pois é na interrupção de tal curso que está a própria essência de um milagre, tal como aqui o entendemos. A nossa experiência do curso da natureza leva-nos, portanto, a esperar a sua continuação e a agir de acordo com isso; mas não anula nenhuma prova, fornecida por testemunho válido, de um desvio dele. Nem o fato de não termos conhecimento pessoal de um fato ocorrido há mil anos, ou numa parte distante do mundo, pode autorizar-nos a descrer do testemunho de testemunhas pessoais desse fato. O senso comum revolta-se diante do absurdo de considerar a ignorância ou a inexperiência de um homem como contrapeso ao conhecimento e à experiência que outro homem tem de um fato. E, no entanto, não parece repousar em fundamento melhor esse argumento favorito dos incrédulos.”
A substância da resposta do Dr. Campbell ao argumento do Sr. Hume foi apresentada assim: “A prova que nasce do testemunho humano não deriva unicamente da experiência; ao contrário, o testemunho tem uma influência natural sobre a crença, anterior à experiência. O assentimento precoce e ilimitado que as crianças dão ao testemunho vai se restringindo gradualmente à medida que avançam na vida; é, portanto, mais conforme à verdade dizer que a nossa desconfiança do testemunho é resultado da experiência do que dizer que a nossa fé nele tem esse fundamento. Além disso, a uniformidade da experiência em favor de qualquer fato não é prova contra a possibilidade de que ele seja invertido num caso particular. A prova que nasce do testemunho isolado de um homem de veracidade conhecida irá mais longe no sentido de estabelecer a crença de que ele foi de fato invertido. Se o seu testemunho for confirmado por alguns outros do mesmo caráter, não podemos negar o nosso assentimento à verdade dele. Ora, embora as operações da natureza sejam governadas por leis uniformes, e embora não tenhamos o testemunho dos nossos sentidos em favor de qualquer violação delas, ainda assim, se em casos particulares temos o testemunho de milhares de nossos semelhantes, e estes, além disso, homens de estrita integridade, não movidos por motivos de ambição ou de interesse e governados pelos princípios do senso comum, de que foram de fato testemunhas dessas violações, a constituição da nossa natureza nos obriga a acreditar neles.
“O raciocínio do Sr. Hume funda-se numa visão demasiado limitada das leis e do curso da natureza. Se considerarmos as coisas devidamente, veremos que a matéria sem vida é inteiramente incapaz de obedecer a quaisquer leis ou de ser dotada de quaisquer poderes; e que, portanto, aquilo que geralmente se chama curso da natureza não pode ser outra coisa senão a vontade e o beneplácito soberanos de Deus, agindo continuamente sobre a matéria segundo certas regras de uniformidade, que ainda assim guardam relação com as contingências. De modo que é tão fácil para o Ser Supremo alterar aquilo que os homens pensam ser o curso da natureza quanto preservá-lo. Os efeitos que são produzidos no mundo de modo regular e incessante, e que geralmente se chamam obras da natureza, provam a providência constante da Divindade; aqueles, ao contrário, que, em alguma ocasião extraordinária, são produzidos de tal maneira que é manifesto não poderem ter sido produzidos nem pelo poder humano nem por aquilo que se chama acaso, provam inegavelmente a interposição imediata da Divindade nessa ocasião especial. Deus, é preciso lembrar, é o Governador do mundo moral tanto quanto do mundo físico; e, como o bem-estar moral do universo tem mais importância do que a sua ordem e regularidade físicas, segue-se evidentemente que as leis segundo as quais o mundo material parece ser geralmente regulado estão subordinadas, e podem ocasionalmente ceder, às leis pelas quais o mundo moral é governado. Embora, portanto, um milagre seja contrário ao curso habitual da natureza (e de fato perderia o seu efeito benéfico se não o fosse), não se pode inferir daí que seja ‘uma violação das leis da natureza’, admitindo-se que o termo inclua a consideração das tendências morais. As leis pelas quais um Deus sábio e santo governa o mundo não podem (a menos que lhe apraza revelá-las) ser aprendidas de outro modo senão pelo testemunho; pois, nessa suposição, nada senão o testemunho pode nos dar a conhecer a série completa das suas dispensações, e esse tipo de conhecimento é absolutamente necessário antes que possamos inferir corretamente essas leis. O testemunho, portanto, tem de ser admitido como o principal meio de descobrir as leis reais pelas quais o universo tem sido regulado; esse testemunho nos assegura de que o curso aparente da natureza foi muitas vezes interrompido para produzir efeitos morais importantes; e não devemos desprezar ao acaso tal testemunho, porque, ao avaliar a sua credibilidade, devemos olhar quase infinitamente mais para as circunstâncias morais do que para as circunstâncias físicas ligadas a qualquer acontecimento particular.”6
Uma revelação pode, então, receber uma prova como a dos milagres, transmitida a tempos distantes por um testemunho satisfatório. A aptidão desse tipo de prova para fazer dessa revelação um benefício imediato e universal, onde quer que chegue, é igualmente evidente; pois, como observa o Sr. Locke (Reasonableness of Christianity), “a maior parte da humanidade não tem tempo nem capacidade para a demonstração, nem consegue acompanhar uma cadeia de provas; mas, quanto ao Operador de milagres, todas as suas ordens se tornam princípios; não é preciso outra prova daquilo que ele diz senão o fato de que o disse, e não é preciso mais do que ler os livros inspirados para ser instruído”.
Tendo assim mostrado que os milagres são possíveis; que, em certas circunstâncias, a sua realidade pode ser verificada; que, quando acompanhados de outras circunstâncias que também mencionamos, estão ligados a um fim definido e se ligam à missão divina daqueles que os realizam e à verdade da sua doutrina; que, como fatos, são objeto de testemunho humano, e que o testemunho digno de crédito a respeito deles estabelece um fundamento competente para a nossa crença neles e nas revelações que eles claramente se destinam a atestar, fica preparado o caminho para a consideração dos milagres registrados nas Escrituras.
A profecia é o outro grande ramo das provas externas de uma revelação; e a natureza e a força desse tipo de prova podem convenientemente ser indicadas antes que se examinem os milagres ou as profecias da Bíblia; pois, verificando os princípios gerais sobre os quais repousa esse tipo de prova, a consideração dos casos particulares se tornará mais fácil e satisfatória.
Nenhum argumento a priori contra a possibilidade da profecia pode ser tentado por quem crê na existência e na natureza infinitamente perfeita de Deus.
O autor incrédulo de The Moral Philosopher, é verdade, antes insinua do que procura estabelecer plenamente um dilema com o qual embaraçar aqueles que consideram a profecia uma das provas de uma revelação divina. Ele pensa que ou a profecia tem de referir-se a “acontecimentos necessários, por dependerem de causas necessárias, que poderiam ser conhecidos de antemão e preditos com certeza”, ou então, se as ações humanas são livres e os efeitos contingentes, é preciso renunciar à possibilidade da profecia, pois ela implica presciência, a qual, se fosse admitida, os tornaria necessários.
A primeira parte dessa objeção seria aceita se não houvesse outras predições a apresentar em favor de uma pretensa revelação senão as que se referem a acontecimentos que a experiência humana ensinou dependerem de alguma causa cuja existência e operação necessária estão ao alcance do conhecimento humano. Mas predizer tais acontecimentos não seria profetizar, assim como não o é dizer que amanhã ao meio-dia haverá luz, ou que em certo dia e hora do próximo ano ocorrerá um eclipse do sol ou da lua, quando esse acontecimento já foi previamente verificado por cálculo astronômico.
Se, porém, se admitisse que todos os acontecimentos dependem de uma cadeia de causas necessárias, ainda assim, numa variedade de casos, o argumento da profecia não seria em nada afetado; pois predizer resultados necessários em certas circunstâncias está além da inteligência humana, porque eles só podem ser conhecidos por aquele por cujo poder foram dispostas as causas necessárias de que dependem e que prescreveu os tempos da sua operação. Para tomar um caso das Escrituras, a título de ilustração, embora as pretensões das suas predições não estejam agora em questão: admitamos que uma profecia como a de Isaías a respeito da tomada da Babilônia por Ciro tenha sido proferida, como ela pretende ter sido, mais de um século antes de Ciro nascer, e que todas as ações de Ciro e do seu exército, assim como as do monarca babilônio e do seu povo, fossem necessitadas: há de se sustentar que a cadeia de causas necessitantes que atravessa mais de um século poderia ser rastreada por uma mente humana, de modo a descrever a maneira precisa pela qual essa fatalidade se desdobraria, até o desvio do rio, a orgia de embriaguez dos habitantes e a negligência em fechar as portas da cidade? Como se sabe, por experiência uniforme e universal, que isso está acima de toda apreensão humana, isso provaria, portanto, que a predição foi feita em consequência de uma comunicação de uma Inteligência superior e divina. Se, portanto, os acontecimentos estivessem sujeitos a um destino e a uma necessidade invencíveis, ainda assim poderia haver profecia.
O outro ramo do dilema funda-se na noção de que, se admitirmos a liberdade moral das ações humanas, a profecia é impossível, porque a presciência certa é contrária a essa liberdade e fixa o acontecimento e o torna necessário.
A isso se responde que a objeção se funda numa falsa suposição, já que a presciência divina não tem mais influência para efetuar ou tornar certo qualquer acontecimento do que a presciência humana, no grau em que ela possa existir; pois não há absolutamente nenhuma causalidade moral no conhecimento. Esta reside na vontade, que é o princípio determinante e atuante em todo agente; ou, como o expressou o Dr. Samuel Clarke em resposta a outro tipo de objetor: “O juízo infalível de Deus a respeito das verdades contingentes não altera mais a natureza das coisas, nem as faz ser necessárias, do que o nosso juízo correto, em qualquer momento, a respeito de uma verdade contingente a faz deixar de ser contingente; ou do que o nosso conhecimento de uma verdade presente é causa de que ela seja verdadeira ou presente. Aqui, portanto, está a falácia do argumento do nosso autor. Porque, do fato de Deus conhecer de antemão a existência de coisas que dependem de uma cadeia de causas necessárias, segue-se que a existência dessas coisas tem de ser necessária, ele conclui que, do fato de Deus julgar infalivelmente a respeito de coisas que dependem não de causas necessárias, mas de causas livres, também essas coisas dependem não de causas livres, mas necessárias. Isso é contrário, digo eu, à suposição do argumento; pois não se deve primeiro supor que as coisas são necessárias por sua própria natureza, mas, a partir do poder de julgar infalivelmente a respeito de acontecimentos livres, é preciso provar que coisas de outro modo supostas livres se tornarão por isso inevitavelmente necessárias.” Toda a questão está nisto: o simples conhecimento de uma ação é causa necessitante dessa ação? E a resposta tem de ser negativa, como a consciência de cada homem lhe assegurará. Se a isso se mistura a causalidade da influência, seja imediata, seja pela disposição de acontecimentos que constrangem, o terreno muda, e já não se trata de uma questão relativa à simples presciência.
Não tendo essa objeção metafísica nenhum fundamento na verdade, fica evidente a força da prova que nasce das predições de acontecimentos distantes, fora do alcance da sagacidade humana para antecipá-los, e proferidas como autenticações de uma comissão divina. “Tais predições, seja na forma de declaração, de descrição ou de representação de coisas futuras”, como justamente observa o Sr. Boyle, “são coisas sobrenaturais e podem com propriedade ser contadas entre os milagres” (Boyle, Christian Virtuoso). Pois quando, por exemplo, os acontecimentos distam muitos anos ou séculos do momento em que a própria predição foi proferida, dependendo de causas que nem sequer existiam quando a profecia foi falada e registrada, e igualmente de várias circunstâncias e de uma longa série arbitrária de coisas e das incertezas flutuantes das volições humanas, e especialmente quando não dependem de modo algum de quaisquer circunstâncias externas nem de qualquer ser criado, mas nascem unicamente dos conselhos e da determinação do próprio Deus, tais acontecimentos só podem ser conhecidos de antemão por aquele Ser de quem um dos atributos é a onisciência, e só podem ser preditos por aquele a quem o “Pai das luzes” (Tg 1.17) os revelar. De modo que quem quer que esteja manifestamente dotado desse poder preditivo tem de, nesse caso, falar e agir por inspiração divina, e o que ele declara desse tipo tem de ser recebido como palavra de Deus; e, para nos assegurar disso, nada mais é necessário do que um testemunho digno de crédito de que tais predições foram proferidas antes do acontecimento, ou uma prova conclusiva de que os registros que as contêm têm a antiguidade que pretendem ter. (Ver Chapman, Eusebius, p. 158; Cudworth, Intellectual System, p. 866; Vitringa, sobre Isaías, cap. 41.)
“Ora, visto que se mostrou que não temos princípios da razão com base nos quais julgar de antemão como seria de esperar que a revelação fosse deixada, ou o que seria mais adequado ao plano divino de governo em qualquer dos aspectos mencionados, tem de ser inteiramente frívolo objetar depois, quanto a qualquer deles, contra o fato de ela ter sido deixada de um modo e não de outro; pois isso seria objetar contra coisas por serem diferentes das nossas expectativas, o que se mostrou não ter razão. E assim vemos que a única questão a respeito da verdade do cristianismo é se ele é uma revelação real, e não se vem acompanhado de todas as circunstâncias que teríamos esperado; e, a respeito da autoridade das Escrituras, se elas são o que pretendem ser, e não se são um livro de tal espécie e promulgado de tal modo como homens fracos tendem a imaginar que deveria ser um livro que contém uma revelação divina. E, portanto, nem a obscuridade, nem a aparente imprecisão do estilo, nem as variantes textuais, nem as antigas disputas acerca dos autores de partes particulares, nem quaisquer outras coisas do mesmo tipo, ainda que fossem em grau muito mais consideráveis do que são, poderiam derrubar a autoridade das Escrituras, a menos que os profetas, os apóstolos ou nosso Senhor tivessem prometido que o livro que contém a revelação divina estaria livre dessas coisas.” (Butler, Analogy.)
“É impossível”, diz um oráculo dos incrédulos modernos (Voltaire), “que um Ser infinitamente sábio faça leis para violá-las. Ele não desarranjaria a máquina que ele mesmo construiu, a não ser para aperfeiçoá-la. Mas, sendo Deus, ele sem dúvida a fez tão perfeita quanto possível; ou, se tivesse previsto alguma imperfeição que dela pudesse resultar, certamente a teria prevenido desde o princípio, e não estaria na necessidade de mudá-la depois. Ele é ao mesmo tempo imutável e onipotente e, portanto, não pode ter nenhum desejo de alterar o curso da natureza, nem nenhuma necessidade de fazê-lo.”
“Esse argumento”, diz o Dr. Van Mildert, “baseia-se numa concepção errônea, ou numa deturpação, do propósito dos milagres, que não é remediar algum defeito físico, nem retificar imperfeições originais ou acidentais nas leis da natureza, mas manifestar ao mundo a interposição do Todo-Poderoso para propósitos especiais de natureza moral. É simplesmente dar a conhecer à humanidade que é ele quem se dirige a ela, e que tudo o que vem acompanhado desse tipo de prova vem dele e reclama dela crença e obediência implícitas. A perfeição ou a imperfeição das leis da natureza, portanto, nada tem a ver com a questão. Toda a natureza está subordinada à vontade de Deus; e, assim como a sua existência e os seus atributos se manifestam no curso ordinário da natureza, assim também, na obra extraordinária dos milagres, a sua vontade se manifesta pela demonstração da sua soberania absoluta sobre o curso da natureza. Assim, em ambos os casos, o Criador é glorificado em suas obras, e fica patente que ‘nele tudo subsiste’ (Cl 1.17) e que ‘por tua vontade elas vieram a existir e foram criadas’ (Ap 4.11). Isso parece resposta suficiente a qualquer raciocínio a priori contra os milagres, baseado na sua suposta incompatibilidade com as perfeições divinas.”
“Admito”, são palavras dele, “que talvez possa haver milagres, ou violações do curso habitual da natureza, de tal espécie que admitam prova pelo testemunho humano, embora talvez [nisto ele é bastante modesto, nada afirma; talvez] seja impossível encontrar algum desse tipo em todos os registros da história.” A essa declaração ele acrescenta a seguinte suposição: “Suponha-se que todos os autores, em todas as línguas, concordem em que, a partir de primeiro de janeiro de 1600, houve uma escuridão total sobre toda a terra durante oito dias; suponha-se que a tradição desse acontecimento extraordinário ainda seja forte e viva entre o povo; que todos os viajantes que voltam de países estrangeiros nos tragam relatos das mesmas tradições, sem a menor variação ou contradição: é evidente que os nossos filósofos atuais, em vez de duvidar desse fato, deveriam recebê-lo como certo e deveriam procurar as causas de onde poderia derivar.” Poderia alguém imaginar que a pessoa que fez o reconhecimento acima, pessoa, além disso, a quem todos os que conhecem os seus escritos justamente atribuem uma penetração e uma capacidade filosófica incomuns, fosse o mesmo indivíduo que tão pouco tempo antes afirmara que “um milagre”, ou uma violação do curso da natureza, “apoiado por qualquer testemunho humano, é mais propriamente objeto de zombaria do que de argumentação”?
A objeção de “que o testemunho sucessivo diminui, e tão rapidamente que, depois de alguns séculos no máximo, já não obtém assentimento algum” não merece uma refutação tão completa, já que é evidente que “o testemunho continua digno de crédito enquanto é transmitido com todas as circunstâncias e condições que primeiro lhe granjearam certo grau de mérito entre os homens. Quem se queixa de uma deterioração das provas em relação aos feitos de Alexandre, Aníbal, Pompeu ou César? Nunca ouvimos pessoas desejarem ter vivido séculos antes, para poderem ter melhor prova de que Ciro foi o conquistador da Babilônia, de que Dario foi derrotado em várias batalhas por Alexandre” etc. (Ver Dr. O. Gregory, Letters on the Christian Revelation, vol. i, p. 196.)
1. “Não sabemos de antemão que grau ou tipo de informação natural seria de esperar que Deus concedesse aos homens, a cada um pela sua própria razão e experiência, nem até que ponto ele os capacitaria e os disporia eficazmente a comunicá-la uns aos outros, fosse ela qual fosse; nem se a prova dela seria certa, altamente provável ou duvidosa; nem se seria dada a todos com igual clareza e convicção. Nem poderíamos conjeturar, com algum bom fundamento, quero dizer, se o conhecimento natural, ou mesmo a própria faculdade pela qual somos capazes de alcançá-lo, a razão, nos seria dado de uma vez ou gradualmente. Do mesmo modo, ignoramos inteiramente que grau de conhecimento novo seria de esperar que Deus desse à humanidade por meio de uma revelação, supondo que ele concedesse uma; ou até que ponto, ou de que modo, ele interviria miraculosamente para habilitar aqueles a quem fizesse originalmente a revelação a comunicar o conhecimento por ela dado, e para assegurar que o fizessem à época em que vivessem, e assegurar que ele fosse transmitido à posteridade. Ignoramos igualmente se a prova dela seria certa, ou altamente provável, ou duvidosa; ou se todos os que recebessem dela algum grau de instrução, e algum grau de prova da sua verdade, teriam o mesmo; ou se o plano seria revelado de uma vez ou desdobrado gradualmente. Mais ainda: não somos de modo algum capazes de julgar se seria de esperar que a revelação fosse posta por escrito, ou deixada para ser transmitida pela tradição oral, e consequentemente corrompida por ela e, por fim, sucumbir a ela, se assim aprouvesse à humanidade, e durante o tempo em que aos homens é permitido, no grau em que evidentemente o é, agir como querem. ↩
2. O leitor pode ver várias delas enumeradas e examinadas nas Lectures de Doddridge, parte 5. ↩
3. O bispo Butler mostrou satisfatoriamente, em sua Analogy (parte ii, cap. 11), que não pode haver contra os milagres nenhuma presunção capaz de torná-los de algum modo incríveis que não valesse igualmente contra fenômenos tão incomuns como os cometas, e contra a existência na natureza de poderes como o magnetismo e a eletricidade, tão contrários às propriedades de outros corpos que não são dotados desses poderes. Mas ele observa: “Levem-se em conta a religião, ou o sistema moral do mundo, e então vemos razões distintas e particulares para os milagres: proporcionar à humanidade uma instrução adicional à da natureza e atestar a verdade dela; e o fato de sermos capazes de discernir razões para eles dá uma credibilidade positiva à história deles, nos casos em que essas razões se aplicam.” ↩
4. É digno de nota que nenhum milagre parece ter sido realizado por intermédio humano antes do tempo de Moisés e Arão, em cujos dias não apenas o mundo já existia havia muito tempo, mas, consequentemente, o curso da natureza vinha sendo observado por um longo período; e, além disso, esses primeiros milagres foram realizados no meio de um povo refinado e observador, que tinha os seus filósofos, para quem o curso da natureza e a operação das causas físicas eram objeto de investigação aguda. ↩
5. Ver Campbell, Dissertation on Miracles; Price, Four Dissertations, dissertação 4; Paley, Evidences; Adam, Essay on Miracles; bispo Douglass, Criterion; Dwight, Theology, vol. ii; Dr. Hey, Norrisian Lectures, vol. i; Van Mildert, Boyle’s Lectures, vol. i. ↩
6. Seria estranho, se não conhecêssemos as incoerências do erro, que o próprio Sr. Hume, como mostra o Dr. Campbell, abandonasse o seu próprio argumento. ↩