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Parte I · Capítulo VIII

A necessidade da revelação: as religiões dos pagãos

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Não se pode negar que as religiões que prevaleceram entre as nações pagãs foram destrutivas da moralidade.

Até que ponto os princípios especulativos que elas encerravam tiveram esse efeito já foi mostrado; passamos à sua influência mais direta.

A superstição sombria que permeava a maioria delas fomentava disposições ferozes e cruéis.

A horrível prática de oferecer sacrifícios humanos prevaleceu em todas as regiões do mundo pagão, num grau quase inacreditável; e ainda prevalece em muitos países populosos onde o cristianismo ainda não foi dado a conhecer. Há provas incontestáveis de que ela existiu entre os egípcios, os sírios, os persas, os fenícios e todas as várias nações do Oriente. Era um dos pecados clamorosos dos cananeus. O contágio espalhou-se por todas as partes da Ásia, da África e da Europa. Os gregos e os romanos, embora menos envolvidos nessa culpa do que muitas outras nações, não estavam de todo isentos dela. Em ocasiões grandes e extraordinárias, recorriam ao que era tido como o sacrifício mais eficaz e meritório que se podia oferecer aos deuses, o derramamento de sangue humano.1 Mas entre nações mais bárbaras essa prática criou raízes mais firmes. Os citas e os trácios, os gauleses e os germanos, eram fortemente dados a ela; e a nossa própria ilha, sob o despotismo sombrio e feroz dos druidas, foi poluída com o assassinato religioso de seus habitantes. Nos reinos semicivilizados do lado ocidental da África, como Daomé, Achanti e outros, muitos milhares caem todos os anos vítimas da superstição. Na América, Montezuma oferecia vinte mil vítimas por ano ao sol; e os navegadores modernos encontraram essa prática em toda a extensão do vasto oceano Pacífico. Quanto à Índia, os clamores de suas superstições abomináveis e cruéis têm soado repetidamente aos ouvidos do público britânico e do seu Parlamento; e, incluindo crianças e viúvas, nada menos que dez mil vidas são sacrificadas todos os anos à idolatria em nossos domínios orientais!2

Não é preciso apontar a influência dessas práticas em endurecer o coração e dispô-lo à crueldade habitual; mas as religiões do paganismo foram tão produtivas de impureza quanto de sangue.

As Florálias, entre os romanos, eram celebradas durante quatro dias seguidos com as ações mais desavergonhadas; e os seus mistérios, em todos os países, qualquer que tenha sido a sua intenção original, tornaram-se horrivelmente corruptos. Era nos templos de muitas de suas divindades e em suas festas religiosas que toda espécie de impureza mais se praticava; e isso continua até o dia de hoje em todas as regiões do paganismo moderno.3

Essa tendência imoral de sua religião era confirmada e completada pelo próprio caráter e pelas ações de seus deuses, cujos nomes estavam constantemente em seus lábios, e cujas façanhas assassinas ou obscenas, cujas vilanias e trapaças, cujos ódios e contendas eram o assunto de suas lendas populares; e estas constituíam, de fato, a única teologia, se assim se pode chamar, da massa do povo. Não se podia esperar que eles fossem melhores do que os seus deuses, e piores não podiam ser. Divindades com tais atributos não podiam deixar de corromper, e eram invocadas não apenas para desculpar, mas para santificar as piores práticas. 4

Resumamos, pois, este argumento.

Todas as principais doutrinas em que a religião se apoia tinham sido, ou corrompidas entre as nações pagãs por uma superstição rasteira e imoral, ou então as especulações filosóficas de seus homens mais sábios tinham introduzido princípios destrutivos da responsabilidade do homem e de sua esperança presente e futura. Na própria moral, as regras originais foram geralmente pervertidas, limitadas ou rejeitadas; ao passo que os ritos religiosos e o caráter lendário das divindades adoradas, com exclusão do Deus verdadeiro, davam incitamento e estímulo diretos ao vício. Assim, a mais grosseira ignorância sobre as coisas divinas prevalecia universalmente; os doutos estavam envolvidos em perplexidades inextricáveis; e os indoutos recebiam como verdade as fábulas mais absurdas e monstruosas, todas elas, porém, favoráveis à satisfação viciosa. O estado real da moral também correspondia aos sistemas religiosos corruptos e aos princípios morais frouxos que eles adotavam; de modo que, em todo Estado pagão dos tempos antigos, a descrição do apóstolo Paulo no primeiro capítulo de Romanos é confirmada pelo testemunho de seus próprios historiadores e poetas. O mesmo se pode afirmar dos países pagãos modernos, cuja condição moral, por serem agora tão bem conhecidos graças ao nosso contato com eles, pode explicar mais plenamente o espírito e a tendência moral das antigas idolatrias, com as quais as da Índia e de outras partes do Oriente, especialmente, concordam tão exatamente.

Esses são os fatos. Eles não dizem respeito a uma pequena parte da humanidade, mas a todos os que não tiveram os benefícios das doutrinas e da moral das Sagradas Escrituras. Não há exceções a isso que tenham importância para o argumento, embora se possa admitir alguma diferença na moral dos Estados pagãos. Onde as Escrituras são desconhecidas, não há, nem nunca houve desde a corrupção da religião primitiva, um sistema religioso que contivesse noções justas de Deus e da verdade religiosa, a juízo dos próprios teístas de hoje; nenhum que prescrevesse uma moral correta, nem sequer opusesse qualquer barreira eficaz à deterioração dos costumes públicos. Esses fatos não podem ser negados, pois as alegações feitas outrora sobre a moralidade das nações pagãs modernas foram suficientemente refutadas por um conhecimento melhor delas; e a conclusão é irresistível: uma revelação expressa da vontade de Deus, acompanhada de instituições corretivas eficazes, tornara-se necessária, e ainda é exigida pela ignorância e pelos vícios, pelas misérias e desordens de todas as partes da terra em que o cristianismo não foi introduzido.

Mas podemos dar mais um passo. Essa exposição da condição moral das nações que não tiveram o benefício da renovação e republicação das verdades da religião patriarcal não só sustenta a conclusão de que eram necessárias novas e diretas revelações de Deus, mas as carências que essa condição tão evidentemente criou sustentarão outras presunções quanto à natureza e ao modo dessa revelação, caso tal dom fosse concedido no exercício da misericórdia divina. Pois, se há fundamento para presumir que Deus todo-poderoso, em sua compaixão por suas criaturas, não as deixaria à influência desenfreada do erro e do vício; nem, diante da corrupção daquela doutrina, culto e moral, simples mas abrangentes, comunicados aos progenitores de todos os grandes ramos da família humana que se espalharam pela terra, se recusaria a intervir para renovar e aperfeiçoar o sistema religioso que existiu em forma elementar nas eras mais remotas, e para dar-lhe uma forma menos sujeita à alteração e à decadência do que quando era deixado à transmissão só pela tradição; há igual fundamento para presumir que a revelação, quando quer que fosse concedida, seria de tal natureza e acompanhada de tais circunstâncias que cumprisse com a maior eficácia esse propósito benevolente.

As presunções quanto à maneira pela qual tal revelação seria feita para cumprir mais eficazmente os seus fins devem, na verdade, ser feitas com cautela, para não nos arvorarmos em juízes competentes num caso que envolve vastas perspectivas e amplas implicações do governo divino. Mas, sem violar essa regra, pode-se presumir, pela evidência do caso, que tal manifestação sobrenatural da verdade deveria: 1. conter informação explícita sobre aqueles assuntos importantes em que a humanidade tinha errado mais grave e mais fatalmente; 2. concordar com os princípios de revelações anteriores, dadas a homens no mesmo estado de culpa e incapacidade moral em que os encontramos no dia de hoje; 3. ter uma autenticação externa satisfatória; 4. conter disposições para sua promulgação eficaz entre todas as classes de homens. Admitidas a necessidade e a probabilidade de uma comunicação sobrenatural da vontade de Deus, tudo isso certamente se deve esperar; e, se a revelação cristã tem esse caráter, tem certamente a seu favor estas presunções: que atende a um evidente caso de necessidade e confere as vantagens que acabamos de enumerar.

1. Ela dá informação sobre os assuntos mais importantes para o homem, e que o mundo havia obscurecido com os maiores erros: a natureza e as perfeições, as reivindicações e as relações de Deus; a sua vontade 5 como regra do bem e do mal moral; os meios de obter o perdão e de vencer o vício; o verdadeiro Mediador entre Deus e o homem; a providência divina; o sumo bem do homem, a respeito do qual somente se contaram mais de trezentas opiniões diferentes entre os antigos sábios; a imortalidade e a responsabilidade do homem, e um estado futuro.

2. Requer-se também que uma revelação concorde com os princípios de revelações anteriores, caso alguma tenha sido dada.

Pois, sendo um primeiro princípio que Deus não pode errar nem nos enganar, na medida em que uma revelação renova ou explica alguma verdade de outra precedente, deve concordar com a comunicação anterior; e, no que acrescenta a uma revelação precedente, não pode contradizer nada do que ela contém, se isso for apresentado como verdade de caráter imutável ou dever de obrigação perpétua.

Ora, qualquer que seja a prova direta que se apresente em favor da autoridade divina das revelações judaica e cristã, pelo menos isto se pode alegar com confiança como evidência a seu favor: que elas têm um acordo e uma harmonia substanciais entre si e com aquele antigo sistema tradicional que existiu nas eras mais remotas, cujos fragmentos encontramos espalhados entre todas as nações. Quanto ao sistema religioso patriarcal, a que tantas vezes se fez referência, além das notícias dele espalhadas por toda parte no livro de Gênesis, temos informação ampla e muito satisfatória no antigo livro de Jó, do qual se pode dar prova suficiente de que foi escrito não depois do tempo de Moisés, e de que o próprio Jó viveu entre o dilúvio de Noé e a chamada de Abraão. Da religião dos patriarcas, tal como existia justamente no período em que o sabeísmo, ou culto dos astros celestes, começou a aparecer e foi reprimido pela autoridade dos “juízes”, que eram os chefes de tribos ou famílias, e tal como existiu nas eras precedentes, conforme vemos pela referência que Jó e seus amigos fazem à autoridade de seus “pais”, esse livro contém um registro amplo e muito satisfatório; e dessa venerável relíquia se poderia recolher um corpo muito copioso de teologia doutrinária e prática. Mas os seguintes pormenores bastarão para o presente argumento.

Um único Ser Supremo é reconhecido em todo o livro como objeto de adoração, culto, esperança, confiança e temor; ele é representado como de majestade infinita e insondável, eterno, onipresente, onisciente, todo-poderoso e de perfeita sabedoria, justiça e bondade; que governa todas as coisas, observa e julga os indivíduos, atenta para os bons, castiga os maus, é aplacável e ouve as orações do penitente. Afirma-se também a corrupção natural da natureza do homem e a sua própria incapacidade de purificar o coração do pecado. O homem, diz-se, não pode ser justo diante de Deus e, portanto, precisa de um intercessor. Os sacrifícios, como de instituição divina e de natureza propiciatória, são também mencionados como prática comum. Faz-se referência expressa a um Redentor divino e à sua futura encarnação, como objeto de esperança. As doutrinas de um espírito imortal no homem, da ressurreição do corpo e de um juízo futuro têm todas lugar nesse sistema. A criação é atribuída a Deus; e não só a doutrina geral da providência, mas também aquele seu ramo tão interessante, a ligação das dispensações de prosperidade e aflição com fins morais. O homicídio, o furto, a opressão, a injustiça, o adultério e a intemperança são todos apontados como violações das leis de Deus, assim como a ira, a inveja e outras paixões más. A pureza de coração, a bondade, a compaixão para com os pobres etc. são mencionadas como virtudes da mais alta obrigação; e o temor e o amor de Deus são ordenados, com uma submissão calma e alegre à sua vontade, na humilde confiança de que a escuridão dos acontecimentos presentes será por fim dissipada e se mostrará compatível com a sabedoria, a justiça, a santidade e a verdade de Deus. Os mesmos pontos de doutrina e de moral podem também ser recolhidos do livro de Gênesis.

Tal era o abrangente sistema da teologia patriarcal; e não é necessário deter-nos para mostrar que esses grandes princípios são todos reconhecidos e retomados nas revelações sucessivas por meio de Moisés e de Cristo. Temos assim três sistemas religiosos, muito diferentes em suas circunstâncias, introduzidos em épocas muito distantes e por agentes muito diferentes em condição e circunstâncias, mas que se harmonizam exatamente em todos os pontos doutrinários principais e concordam na grande impressão moral que deixam sobre a humanidade: perfeita pureza de coração e de conduta.

3. Que ela fosse acompanhada de uma autenticação externa explícita e impressionante, de tal natureza que tornasse a sua verdade evidente para a massa da humanidade e não deixasse dúvida razoável sobre a sua autoridade divina.

A razão disso é evidente. Uma simples impressão da verdade no entendimento não poderia, por si mesma, ser distinguida de uma descoberta feita pelo intelecto humano, e não poderia ter autoridade, como declaração da vontade de um superior, para a pessoa que a recebesse; e, quanto aos outros, só poderia passar pela opinião do indivíduo que a promulgasse. (Veja-se o cap. 3.) Uma autenticação de um sistema de verdade que professa ser a vontade, a lei, daquele que, tendo-nos feito, tem o direito de nos ordenar, autenticação externa ao conteúdo da própria doutrina, é portanto necessária para lhe dar autoridade e criar a obrigação de obediência. Isso concorda com a opinião de todas as nações até as eras mais remotas, e estava tão profundamente gravado no senso comum da humanidade que todos os legisladores pagãos da antiguidade alegavam uma comissão divina, e todas as religiões falsas se apoiaram em pretensas sanções sobrenaturais. As provas disso são tão numerosas e conhecidas que é desnecessário apresentá-las.

A autoridade da antiga religião patriarcal repousava em prova externa a ela mesma. Não examinamos agora a verdade de suas alegadas autenticações: elas eram admitidas, e a força da revelação dependia delas no juízo da humanidade. Temos um livro antiquíssimo que registra as opiniões das eras anteriores a Moisés. A teologia dessas eras já foi exposta; e pela história contida nesse livro aprendemos que a opinião aceita era a de que o próprio Legislador todo-poderoso conversou com os nossos primeiros pais e com os patriarcas sob aparências celestiais; e que as suas misericórdias para com os homens, ou os seus juízos, não deixavam de seguir ordinariamente a observância ou a violação das leis assim entregues, o que era de fato uma autenticação delas renovada de tempos em tempos. O curso da natureza, que manifesta o eterno poder e a divindade, assim como as visitações da providência, era para eles uma confirmação constante de várias das principais verdades da teologia que tinham recebido. E só pela profunda marca de divindade que esse sistema recebeu nas eras mais remotas, mediante o testemunho de juízos singulares, e especialmente do dilúvio, se pode explicar racionalmente que ele tenha sido transmitido universalmente e tenha travado uma guerra tão longa contra as corrupções religiosas.

Mas, apesar da autenticação da religião primitiva como matéria de revelação divina, e dos efeitos que ela produziu no mundo durante muitas eras, e que de fato ainda produz em seu estado muito fragmentado e corrompido, condenando muitas ações pecaminosas, de modo a deixar os crimes dos pagãos sem desculpa, aquele sistema era tradicional e sujeito a ser alterado pela transmissão. À medida também que os acontecimentos históricos se confundiam com o passar do tempo, e que as migrações e as convulsões políticas das nações davam origem a histórias fabulosas, a evidência externa de autenticação se enfraquecia; e assim, como vimos, uma intervenção misericordiosa da parte de Deus tornou-se necessária pela ignorância geral da humanidade. De fato, as revelações primitivas pressupunham outras futuras e não eram consideradas completas em si mesmas. Mas, se apenas uma republicação da verdade fosse necessária, a antiga evidência externa estava tão enfraquecida pelo passar das eras, que, quanto à maioria das nações, haviam rompido a linha do testemunho histórico em que ela tanto se apoiava, que exigia uma nova autenticação, numa forma adaptada às circunstâncias do mundo; e, se fosse concedida uma revelação ampliada, cada acréscimo à vontade declarada de Deus precisaria de uma autenticação do mesmo tipo que a primeira.

Se presumimos, portanto, que uma nova revelação era necessária, devemos presumir que, quando dada, ela teria uma autenticação externa de que vinha de Deus, contra a qual não pudesse haver apelação razoável; e por isso concluímos que, visto que as revelações mosaica e cristã professam tanto republicar quanto ampliar revelações anteriores, o fato de apoiarem suas pretensões na evidência externa dos milagres e da profecia é uma presunção a seu favor. Se a evidência que oferecem é decisiva ou não, é questão para mais adiante; mas, ao apresentarem tal evidência, elas concordam com a razão da coisa e com o senso comum de todas as épocas.

4. Presume-se, além disso, que, caso fosse feita uma revelação da verdade religiosa e da vontade de Deus, ela proveria meios para a sua comunicação eficaz a todas as classes de homens.

Como a revelação suposta deve destinar-se a restaurar e ampliar as comunicações da verdade, e como, pelo crescimento e pela dispersão da raça humana, a tradição se tornara um meio imperfeito de transmiti-la, é uma presunção justa que as pessoas por meio das quais a comunicação foi feita a registrassem por escrito. Uma revelação a cada indivíduo não poderia manter a força de sua autenticação original, porque, devendo o seu testemunho ser de natureza sobrenatural, a sua recorrência constante o despojaria desse caráter, ou enfraqueceria a sua força ao colocá-lo entre os acontecimentos comuns e ordinários. Uma revelação a poucos, ao contrário, devida e publicamente atestada por ocorrências sobrenaturais, não precisava de repetição; mas o modo mais natural e eficaz de preservar a comunicação, uma vez feita, seria transmiti-la por escrito. Qualquer corrupção do registro se tornaria impraticável por ele ter sido ensinado publicamente desde o início, por se preservar com cuidado uma cópia padrão, ou por se espalhar um número tal de cópias que desafiasse qualquer alteração substancial. Essa presunção também se realiza nas revelações judaica e cristã, como se verá quando se discutir o tema da autoridade das Sagradas Escrituras. Elas foram primeiro ensinadas publicamente, depois postas por escrito, e as cópias se multiplicaram.

Outro método de preservar e difundir o conhecimento de uma revelação, uma vez feita, seria a instituição de ritos públicos comemorativos, que preservassem ao mesmo tempo a memória do fato e da doutrina a ele ligada entre grandes massas de pessoas, e as levassem a indagações periódicas que pudessem preservar ambos com a maior exatidão. Também esses encontramos nas instituições de Moisés e de Cristo; e o seu peso no argumento em favor da verdade da missão de cada um será apresentado no lugar próprio.

Se é razoável presumir que uma revelação seria concedida, é igualmente razoável presumir que ela conteria algumas ordens favoráveis à sua propagação entre homens de todas as condições. Pois, como a compaixão de Deus pelas necessidades morais de suas criaturas, em geral, é o fundamento em que repousa um favor tão grande, não podemos supor que se permitiria a uma classe de homens fazer desse benefício um monopólio; isso seria para eles uma grande tentação de publicar suas próprias opiniões favoritas ou interesseiras sob uma pretensa sanção divina, e tenderia a contrariar o próprio propósito para o qual a revelação foi dada. Esse monopólio foi reivindicado pelos sacerdotes das antigas nações pagãs, e seguiu-se aquele efeito fatal. Foi reivindicado por algum tempo por um ramo do sacerdócio cristão, contrariamente às obrigações da própria instituição, e as consequências foram semelhantes. Entre os pagãos, o efeito desse tipo de monopólio foi que aqueles que fomentavam a superstição e a ignorância no povo logo perderam eles mesmos a verdade que, por uma política perversa, ocultavam; e o mesmo poderia ter acontecido na cristandade, não fossem os registros sagrados e aquelas testemunhas da verdade que profetizaram e sofreram, mais ou menos, ao longo das eras mais escuras.6

Essa expectativa razoável também se realiza nas revelações mosaica e cristã: ambas providenciaram a sua publicação geral; ambas instituíram uma ordem de homens, não para ocultar, mas para ler e ensinar a verdade que lhes fora confiada; ambas reconheceram ao povo o direito de examinar o registro e, por meio dele, julgar o ministério dos sacerdotes; ambas tornaram obrigatório que o povo fosse ensinado; e ambas separaram um dia em sete para dar tempo livre a esse propósito.

Nada senão uma revelação assim, e acompanhada de tais circunstâncias, parece capaz de atender ao caso real da humanidade e de instruí-la eficazmente e colocá-la sob controle moral;7 e, quer se possa provar que a Bíblia tem autoridade divina, quer não, pelo menos isto se deve admitir: que ela se apresenta a nós nessas circunstâncias e reclama, por isso mesmo, a atenção mais séria e imparcial.

NOTA A.

Diferentes opiniões têm sido sustentadas quanto ao fundamento da obrigação moral. Grotius, Balguy e o Dr. S. Clarke o colocam na eterna e necessária conveniência das coisas. A isso há duas objeções. A primeira é que deixa a distinção entre a virtude e o vício, em grande medida, arbitrária e indefinida, dependente da nossa percepção da conveniência e da inconveniência, que em diferentes indivíduos variará muito. A segunda é que, quando se prova uma conveniência ou inconveniência, isso não é mais do que a descoberta de uma diferença ou congruência natural e essencial, que por si só não pode constituir uma obrigação moral de escolher o que é conveniente e rejeitar o que é inconveniente. Quando provamos a conveniência de certo curso de ação, não provamos que ele é obrigatório. É necessário um segundo passo antes de chegarmos a essa conclusão. Cudworth, Butler, Price e outros sustentam que a virtude traz em si mesma a sua própria obrigação; que o entendimento percebe imediatamente que certa ação é reta e que, portanto, ela deve ser praticada. Várias objeções se levantam contra essa noção. 1. Ela supõe que o entendimento dos homens decide exatamente da mesma maneira a respeito de todas as ações virtuosas e viciosas, o que é contrário aos fatos. 2. Supõe uma regra prévia pela qual se determina que a ação é reta; mas, se a vontade revelada de Deus não for levada em consideração, que regra comum existe entre os homens? Evidentemente não há tal regra e, portanto, não há meio de determinar com certeza o que é reto. 3. Se um padrão comum fosse conhecido entre os homens, e se o entendimento dos homens decidisse da mesma maneira quanto à conformidade, ou não, de uma ação com esse padrão, o que torna uma questão de obrigação que alguém a pratique? Deve-se provar que a regra obriga, ou nenhum fundamento de obrigação fica estabelecido.

Uma ação é obrigatória, dizem outros, porque está de acordo com o senso moral. Essa é a teoria de lorde Shaftesbury e do Dr. Hutchinson. Por senso moral parece entender-se uma aprovação instintiva do certo e uma aversão instintiva ao errado, anteriores a toda reflexão sobre a natureza deles ou sobre as suas consequências. Se por ele se entendesse outra coisa, então o senso moral teria de ser o mesmo que a consciência, que sabemos variar conforme o juízo e que, por isso, não pode ser a base da obrigação moral. Se não se quer dizer a consciência, então o senso moral tem de ser considerado instintivo, noção que certamente é refutada por toda a história moral do homem. Pode-se, de fato, conceder que a constituição da alma humana é tal que, quando aquelas distinções entre as ações que foram ensinadas pela tradição religiosa ou pela revelação direta são conhecidas em sua natureza, relações e consequências, o juízo calmo e sóbrio dos homens as aprovará; e que, especialmente quando são consideradas em abstrato, isto é, enquanto não afetam nem controlam imediatamente os seus próprios interesses e paixões, a virtude pode inspirar satisfação, e o vício, provocar aversão. Mas que, independentemente da reflexão sobre a natureza ou as consequências delas, exista no homem um princípio instintivo que abomina o mal e ama o bem, isso é contradito pela variedade de opiniões e sentimentos acerca dos vícios e das virtudes que se observa em todas as nações não instruídas. Nós aplaudimos o perdão de uma ofensa como magnânimo; um selvagem o despreza como mesquinho. Consideramos um dever sustentar e cuidar dos pais idosos; muitas nações, ao contrário, os abandonam como inúteis e os lançam aos animais do campo. Inúmeros exemplos dessa contrariedade poderiam ser apresentados, e todos eles contrariam a noção de um sentimento instintivo. Os instintos operam de modo uniforme, mas esse suposto senso moral não. Além disso, se amar a virtude e abominar o vício é mera questão de sentimento, independente do juízo, a moralidade do exercício desse princípio é questionável; pois seria difícil mostrar que há mais moralidade, propriamente falando, nas afeições e nas repugnâncias do instinto do que nas do paladar. Se o juízo, isto é, o conhecimento e a comparação das coisas, estiver incluído, então esse princípio supõe uma revelação individual, uniforme e universal, feita a cada homem, quanto à natureza das coisas, ou uma faculdade intuitiva de determinar a qualidade moral delas; e ambas as hipóteses são absurdas demais para ser sustentadas.

A única conclusão satisfatória sobre esse assunto é a que atribui a obrigação moral à vontade de Deus. “A obrigação”, diz Warburton, “implica necessariamente alguém que obriga, e aquele que obriga deve ser diferente daquele que é obrigado, e não um e o mesmo com ele. A obrigação moral, isto é, a obrigação de um agente livre, implica além disso uma lei, que ordena e proíbe; mas uma lei é a imposição de um superior inteligente, que tem poder para exigir conformidade com ela.” Esse legislador é Deus. E, sejam quais forem as razões que o levaram a ordenar isto e a proibir aquilo, é evidente que a obrigação de obedecer não está apenas na conveniência e na propriedade de uma criatura obedecer a um Criador infinitamente sábio e bom, embora essa conveniência exista, mas no fato de essa obediência ter sido ordenada.

Alguns, admitindo isso, querem levar a questão mais adiante, em busca de um fundamento mais remoto da obrigação. Fazem a pergunta: “Por que sou obrigado a obedecer à vontade de Deus?”, e nos dão a resposta: “Porque a obediência aos mandamentos de um Deus benevolente tem de produzir, no conjunto, a felicidade do agente.” Mas isso é lançar-se outra vez ao mar alto. Pois, 1. Não se pode provar que a consideração da nossa própria felicidade seja de modo algum um fundamento de obrigação moral, a não ser num sentido vago como aquele em que usamos o termo obrigação quando dizemos: “Somos obrigados a fazer exercício, se quisermos conservar a saúde.” 2. Correríamos o risco de estabelecer um padrão pelo qual julgar a conveniência de obedecer a Deus, quando, na verdade, somos juízes inadequados daquilo que, no conjunto, é para a nossa felicidade:

ou, 3. Isso faria a obrigação moral repousar sobre a nossa crença de que Deus só pode querer a nossa felicidade, o que é um princípio singular sobre o qual edificar a nossa obediência. Ao contrário, o princípio simples de que a obrigação moral repousa sobre a vontade de Deus, seja qual for o meio pelo qual essa vontade venha a ser conhecida, está livre de todas essas dificuldades. Pois, 1. Ele se funda num claro princípio de justiça. Aquele que nos fez tem sobre nós um direito absoluto de propriedade e pode, portanto, dar-nos ordens; e, tendo-nos de fato dado ordens, não podemos alegar nenhum direito de isenção: somos dele. 2. Ele uniu a recompensa à obediência e o castigo à desobediência e, por isso, tornou necessário que obedeçamos, se quisermos assegurar a nossa própria felicidade. Assim, somos obrigados tanto pela força do princípio abstrato quanto pelo motivo que resulta de um mandamento sancionado; ou, na linguagem das escolas, somos obrigados pela razão e obrigados pelo interesse, mas cada uma dessas obrigações procede evidentemente da vontade de Deus. Outras considerações, como a excelência e a beleza da virtude, a sua tendência para a felicidade individual e para a ordem universal etc., podem aplainar o caminho da obediência e tornar “jubilosos os seus mandamentos”; mas a obrigação, estritamente falando, só pode repousar na vontade do poder superior que ordena.

NOTA B.

Embora alguns admitam a ignorância dos tempos antigos, pensam que a razão aperfeiçoada do homem é agora mais capaz de descobrir a verdade moral.

“Afirmam que o mundo estava então na infância do conhecimento e argumentam como se os ilustres sábios da antiguidade (a quem, no entanto, às vezes exaltam em termos de panegírico extravagante) fossem verdadeiras crianças em filosofia, como as que os sábios das eras posteriores contemplam com uma espécie de comiseração desdenhosa.

“Mas não nos será permitido perguntar de onde surgiu essa suposta superioridade dos filósofos modernos sobre os antigos, e de onde veio esse extraordinário afluxo de luz sobre estes últimos tempos? Haverá alguém tão cego pela admiração da época presente a ponto de pensar seriamente que as faculdades intelectuais do homem são agora mais fortes e mais perfeitas do que costumavam ser, ou que os talentos particulares dele mesmo, ou de algum de seus contemporâneos, são superiores aos que brilharam nos luminares do mundo gentio? Os nomes, mesmo os de Locke, Cudworth, Cumberland, Clarke, Wilkins ou Wollaston (homens tão justamente eminentes nos tempos modernos e que trabalharam tão incansavelmente para aperfeiçoar a teoria da religião natural), transmitem-nos a ideia de uma capacidade intelectual maior do que a dos consumados mestres do Pórtico, da Academia ou do Liceu? Como é, então, que os defensores da perfeição natural, ou da perfectibilidade, da razão humana não percebem que, por toda a superioridade dos tempos presentes sobre os anteriores no que diz respeito ao conhecimento religioso, devemos ser devedores a alguma causa interveniente, e não a algum alargamento real das faculdades humanas? Pode-se crer que algum homem da época presente, de quaisquer talentos naturais que seja dotado, teria avançado um só passo além dos filósofos pagãos em sua busca da verdade divina, se tivesse vivido no tempo deles e desfrutado apenas da luz que lhes foi concedida? Ou pode-se provar honestamente que, apenas pela luz da natureza, ou raciocinando somente com base nos dados que possuem os homens que nunca ouviram falar da religião revelada, alguma verdade moral ou religiosa tenha sido descoberta desde os dias em que Atenas e Roma pretendiam dar leis ao mundo intelectual, assim como ao político? Não é preciso negar que, desde então, foram feitos grandes progressos na elaboração de sistemas de ética, de metafísica e daquilo que se chama teologia natural. Mas esses progressos podem facilmente ser atribuídos a uma causa evidente: a luz amplamente difundida do evangelho, que, tendo brilhado com maior ou menor esplendor sobre todas as nações, comunicou até aos mais simples e iletrados dentre os filhos dos homens um grau de conhecimento sobre esses assuntos que, sem ela, seria inatingível pelos mais doutos e profundos.” (Van Mildert, Boyle’s Lectures.)

eu, pobre homenzinho, não o faria?” (Eunuchus, ato 3, cena 5.) Ele apenas imitava Júpiter. E diz Sexto Empírico: “Não pode ser injusto o que é feito pelo deus Mercúrio, o príncipe dos ladrões; pois como pode um deus ser mau?” (Citado por Eusébio, Praeparatio, liv. 6, cap. 10.)

Notas de Richard Watson

1. Plutarco, nas Vidas de Temístocles, Marcelo e Aristides. (Tito Lívio, liv. 22, cap. 57; Floro, liv. 1, cap. 13; Virgílio, Eneida x, 518; xi, 81.) ↩

2. Ver Indian Antiquities, de Maurice; os escritos do Dr. Claudius Buchanan; Ward, sobre os hindus; Dubois, sobre os costumes hindus etc.; History of America, de Robertson; Account of Ashantee, de Bowditch; Hindoo Pantheon, de Moore; e Porteus e Ryan, sobre os efeitos do cristianismo. ↩

3. Ver Leland e Whitby, sobre a necessidade de uma revelação; e os escritores sobre os costumes da Índia já mencionados: Ward, Dubois, Buchanan e Moore. ↩

4. Daí que Quéreas, em Terêncio, pergunte com bastante propriedade: “O que fez aquele que sacode com o seu estrondo os altos templos do céu, ↩

5. Ver a nota A no fim do capítulo. ↩

6. O bispo Warburton procura provar, por um argumento elaborado em sua Divine Legation, que nos Grandes Mistérios se ensinavam constantemente a unidade divina e os erros do politeísmo. Isso, porém, é refutado de modo muito satisfatório pelo Dr. Leland, em sua Advantage and Necessity of a Divine Revelation; o leitor é remetido a ambas as obras para informações sobre essas singulares instituições, os mistérios pagãos. ↩

7. Ver a nota B no fim do capítulo. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).