Do percurso preparatório de argumentação e observação que seguimos até aqui, passamos agora a investigar a questão de saber se há razões suficientes para concluir que uma revelação da verdade como aquela que vimos ser tão necessária para a instrução e a correção moral da humanidade se encontra nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. É uma questão da maior importância, visto que, se ela não se encontra ali, há razões fortíssimas para concluir que nunca foi concedida ao homem uma revelação, ou que ela se perdeu irremediavelmente.
Ninguém que viva num país esclarecido sustentará, nem por um momento, que o Alcorão de Maomé ou qualquer dos escritos tidos por sagrados entre os chineses, os hindus ou os budistas possa ser posto em competição com a Bíblia. Assim, é universalmente reconhecido entre nós que há um único livro no mundo cujas pretensões à autoridade divina são, à primeira vista, tão consistentes que merecem exame sério; e, portanto, se ao homem foi concedida a vantagem de uma instrução sobrenatural e infalível, pode-se concluir que ela se encontra somente nele. Essa consideração indica a disposição de espírito apropriada com que se deve abordar tal investigação.
Em vez de desejar descobrir que as pretensões das Escrituras à autoridade divina não têm fundamento (o que, receia-se, é o caso de muitíssimos), todo homem humilde e sincero, consciente da sua própria fraqueza intelectual e lembrando-se das perplexidades em que os mais sábios dos homens se enredaram nas questões religiosas e morais, desejará encontrar, enfim, um guia infalível. Examinará as provas da Bíblia com o ansioso desejo de achar razões suficientes para reconhecer a sua autoridade divina; e sentirá que, caso venha a se decepcionar, terá sofrido um infortúnio doloroso, e não algo de que se possa gloriar. Se essa disposição de espírito, que é perfeitamente compatível com um exame completo e até rigoroso das pretensões da Escritura, não existir, quem está desprovido dela não é um investigador sincero nem sério da verdade.
Podemos ir além e dizer, embora não desejemos prejulgar o argumento, que, se a pessoa que examina as Santas Escrituras para averiguar a verdade das suas pretensões à autoridade divina teve meios de conhecer o seu conteúdo ainda que de modo geral, ela deveria, se ama a virtude tanto quanto a verdade, estar predisposta a favor delas; e que, se não está, o estado moral do seu coração se torna muito suspeito.
Pois não se pode negar que o sistema teológico das Escrituras favorece as virtudes mais elevadas. Ele não só as prescreve, como oferece os motivos mais fortes possíveis para que sejam cultivadas. O amor a Deus e a toda a humanidade; a mansidão, a cortesia, a caridade; o governo dos apetites e das afeições dentro das regras da temperança; a renúncia às imaginações más e aos pecados do coração; a justiça exata em todos os nossos negócios: essas e, na verdade, todas as demais virtudes, civis, sociais, domésticas e pessoais, são claramente ensinadas e solenemente ordenadas. Poder-se-ia perguntar com toda a confiança a qualquer pessoa imparcial, por mais cética que seja, se a observância universal da moral das Escrituras, por todas as classes e nações, não produziria as mudanças mais benéficas na sociedade e não asseguraria a paz, a amizade e a felicidade universais. Isso ela não negaria; alguns escritores incrédulos chegaram a reconhecê-lo. E, se é assim, se depois de todas as especulações desnorteantes dos homens mais sábios sobre os assuntos religiosos e morais, as quais, como vimos, não levaram a nada definido nem eficaz, nos é apresentado um livro que mostra o que é a virtude e os meios de alcançá-la, que a reforça com sanções suficientes e que aponta a cada indivíduo e a cada comunidade um remédio seguro para todos os seus vícios, desordens e misérias, então teremos de renunciar a todo direito de ser considerados amantes da virtude e da nossa espécie se não nos sentirmos interessados em que as suas pretensões à autoridade divina fiquem estabelecidas. E, porque amamos a virtude, desejaremos que a prova desse ponto importante se mostre satisfatória. Certamente é essa a disposição de espírito que devemos trazer a tal investigação; e a rejeição das Escrituras por aqueles que não estão sob a sua influência é antes uma presunção a favor delas do que uma consideração que lance sobre elas o menor descrédito.
Além das provas já apresentadas da necessidade de uma revelação, tanto pela razão das coisas quanto pelas circunstâncias reais do mundo, ficou estabelecido que milagres realmente operados e profecias realmente proferidas e claramente cumpridas são provas satisfatórias da autoridade de uma comunicação da vontade de Deus por intermédio de homens. Afirmamos, porém, que, nos casos em que não somos testemunhas dos milagres nem ouvintes das predições, mas obtemos informação sobre eles por meio de algum registro, precisamos, antes de admitir a força do argumento que deles se extrai, ter a certeza de que o registro foi feito cedo e fielmente e foi conservado sem corrupção, no que diz respeito aos milagres; e, no que diz respeito às profecias, de que elas também foram proferidas e registradas antes de ocorrerem os acontecimentos que se alegam ser o seu cumprimento. Esses são pontos que precisam ser averiguados antes que valha a pena investigar se os supostos milagres têm algum direito a ser considerados milagrosos em sentido próprio, e as predições, revelações de um Ser onisciente e, por conseguinte, divino.
O primeiro passo nesta investigação é averiguar a existência, a época e os atos das principais pessoas mencionadas na Escritura como os instrumentos por meio dos quais, segundo ela mesma declara, foram dadas a conhecer as revelações que contém.
Quanto a essas pessoas, não é necessário que a nossa atenção se dirija a mais do que duas, Moisés e Cristo: um, o tido por agente da revelação mosaica; o outro, o autor da revelação cristã. Isso porque a prova que estabelece a existência e os atos de ambos, e a época de cada um, estabelecerá também tudo o que é declarado nos mesmos registros a respeito dos agentes subordinados e posteriores.
O registro bíblico declara que Moisés foi o líder e legislador da nação dos judeus cerca de mil e seiscentos anos antes da era cristã, segundo a cronologia comum. Isso se baseia na tradição e na história nacional dos judeus; e é certo que, longe de haver qualquer razão para duvidar do fato, e muito menos para supor, com a fantasia extravagante de alguns incrédulos modernos, que Moisés tenha sido um personagem mitológico, os mesmíssimos princípios de prova histórica que nos asseguram a verdade de qualquer fato incontestado da história profana nos asseguram a verdade deste. Não se pode duvidar de que os judeus existiram como nação desde tempos muito antigos. É igualmente certo que tem sido entre eles, em todas as épocas, tradição ininterrupta e universalmente aceita que Moisés os tirou do Egito e lhes deu pela primeira vez o seu sistema de leis e de religião. A história desse acontecimento eles a têm por escrito, assim como as leis atribuídas a ele. Nada nos acontecimentos principais da sua história é contradito pelos registros históricos autênticos que restam das nações com as quais estavam ligados geográfica e politicamente, de modo a justificar qualquer suspeita quanto à sua exatidão. E, como as suas instituições devem ter sido estabelecidas e impostas por alguma autoridade política, e trazem as marcas de uma organização sistemática, estabelecida de uma só vez, e não desenvolvida sob a ação das circunstâncias em períodos distantes, é muito razoável atribuí-las a uma mente superior e dominante. Os judeus as atribuem a Moisés; e, se isso for negado, não se pode oferecer prova alguma de que qualquer outra pessoa tenha direito a essa honra. A história, portanto, não é contradita por nenhuma prova em contrário, e só pode ser negada com base em algum princípio de ceticismo que abalaria igualmente os alicerces de toda e qualquer história.
As mesmas observações podem ser feitas quanto à existência do Fundador da religião cristã. Nos registros do Novo Testamento ele é chamado Jesus Cristo, porque declarou ser o Messias predito nas Escrituras judaicas e foi reconhecido como tal pelos seus seguidores; e o seu nascimento é situado há mais de dezoito séculos. Também este é, no mínimo, um testemunho incontestado. A religião cristã existe e deve ter tido um autor. Como as instituições de Moisés, ela traz a marca de ser obra de uma só mente; e, como sistema teológico, não apresenta indícios de uma elaboração gradual e sucessiva. Houve um tempo em que não existia religião como a do cristianismo e em que a idolatria pagã e o judaísmo prevaleciam universalmente; segue-se que floresceu, num dado momento, um mestre a quem ela deve a sua origem, e toda a tradição e toda a história se unem no testemunho de que esse legislador foi Jesus Cristo. Nenhuma outra pessoa, vivendo numa época posterior, jamais foi apontada como fundadora dessa forma de religião.
Quanto à existência dos fundadores da religião judaica e da cristã, e à antiguidade que as Escrituras atribuem a cada um, muitos escritores antigos dão amplo testemunho; e, não sendo eles mesmos nem da religião judaica nem da cristã, não se pode suspeitar que tivessem algum propósito de fornecer provas da verdade de qualquer delas. Mâneton, Queremon, Apolônio e Lisímaco, além de alguns outros antigos egípcios cujas histórias estão hoje perdidas, são citados por Josefo como existentes no seu tempo; e dele se recolhem passagens em que concordam que Moisés foi o líder dos judeus quando partiram do Egito e o fundador das suas leis. Estrabão, que floresceu no século anterior a Cristo (Geog. l. 16), faz uma descrição da lei de Moisés como proibindo imagens e limitando o culto divino a um único Ser invisível e universal. Justino, historiador romano, no seu livro 36, dedica um capítulo à origem dos judeus; apresenta-os como descendentes de dez filhos de Israel e fala de Moisés como o comandante dos judeus que saíram do Egito, da instituição do sábado e do sacerdócio de Arão. Plínio fala de Moisés como originador de uma seita de magos, provavelmente em referência à sua disputa com os magos do Egito. Tácito diz: “Moisés deu aos judeus uma nova forma de culto e um sistema de cerimônias religiosas, o reverso de tudo o que se conhecia em qualquer outra época ou país.” Juvenal, na sua Sátira 14, menciona Moisés como autor de um volume, conservado com grande cuidado entre os judeus, pelo qual eram proibidos o culto de imagens e o comer carne de porco, e rigorosamente ordenadas a circuncisão e a observância do sábado. Longino cita Moisés como o legislador dos judeus e louva a sublimidade do seu estilo no relato que faz da criação. Os versos órficos, que são muito antigos, inculcam o culto de um só Deus, conforme recomendado pela lei “que foi dada por aquele que foi tirado das águas e recebeu duas tábuas de pedra da mão de Deus” (Eus. Praep. Ev. l. 13, c. 12). Diodoro Sículo, no seu primeiro livro, ao tratar daqueles que consideram os deuses autores das suas leis, acrescenta: “Entre os judeus houve Moisés, que chamou Deus pelo nome de Iao“, isto é, Jeová. Justino Mártir diz expressamente que a maioria dos historiadores, poetas, legisladores e filósofos dos gregos menciona Moisés como o líder e príncipe da nação judaica. De todos esses testemunhos, e de muitos outros que se poderiam apresentar se fosse necessário, fica claro que era tão comumente aceito entre as nações antigas quanto entre os próprios judeus que Moisés foi o fundador e legislador do Estado judaico.
Quanto a Cristo, basta apresentar o testemunho de dois historiadores cuja antiguidade ninguém jamais pensou em contestar. Suetônio o menciona pelo nome e diz que Cláudio expulsou de Roma os que aderiam à sua causa.1 Tácito registra o progresso que a religião cristã havia feito; a morte violenta que o seu fundador sofrera; que ele floresceu sob o reinado de Tibério; que Pilatos era então procurador da Judeia; e que “o autor original desta profissão foi Cristo”.2 Assim, não só a existência real do fundador do cristianismo, mas também a época em que viveu, ficam exatamente averiguadas por escritos cuja autenticidade nunca foi posta em dúvida.
A antiguidade dos livros que contêm a história, as doutrinas e as leis dos legisladores judeu e cristão é o próximo ponto a considerar, e a prova não é menos satisfatória. A importância desse fato no argumento é evidente. Se os escritos em questão foram feitos na época em que foram realizados os atos milagrosos que eles registram, ou muito perto dela, então a prova de que esses acontecimentos ocorreram fica mais forte, pois foram escritos quando ainda viviam muitos que poderiam ter contradito a narrativa, se fosse falsa. E é também maior a improbabilidade de que, na mesma época e no mesmo lugar em que se diz terem sido realizados aqueles acontecimentos, algum escritor tivesse ousado correr o risco de ser pronta, certa e vergonhosamente desmascarado. Isso é igualmente importante na prova pela profecia; pois, se as predições foram registradas muito antes de ocorrerem os acontecimentos que as cumpriram, então a única questão que resta é se o cumprimento é satisfatório, e nesse caso a prova se torna irresistível.
Quanto às Escrituras do Antigo Testamento, a língua em que foram escritas é uma forte prova da sua antiguidade. O hebraico deixou de ser falado como língua viva pouco depois do cativeiro babilônico, e os eruditos concordam que não se fez gramática do hebraico senão muitas eras depois. É evidente, portanto, a dificuldade de uma falsificação em qualquer época posterior a esse cativeiro. Desses livros também se fez uma tradução grega cerca de duzentos e oitenta e sete anos antes da era cristã, que foi depositada na biblioteca de Alexandria.
Josefo dá um catálogo dos livros sagrados dos judeus, no qual menciona expressamente os cinco livros de Moisés, treze dos Profetas e quatro de Hinos e Preceitos Morais; e se, como sustentam muitos críticos, Rute era acrescentado a Juízes, e as Lamentações de Jeremias às suas Profecias, o número coincide com o dos livros do Antigo Testamento tal como é recebido nos dias de hoje.
Os samaritanos, que se separaram dos judeus muitas centenas de anos antes do nascimento de Cristo, têm na sua língua um Pentateuco que, no essencial, concorda exatamente com o hebraico; e os escritores pagãos já citados, com muitos outros, falam de Moisés não só como legislador e príncipe, mas como autor de livros tidos por sagrados pelos judeus.3
Se, então, os escritos de Moisés não são autênticos, a falsificação deve ter ocorrido num período muito antigo; mas umas poucas considerações mostrarão que ela foi impossível em qualquer época.
Esses livros nunca poderiam ter sido lançados clandestinamente em nome de Moisés, como prova plenamente o argumento de Leslie: “É impossível que esses livros tivessem sido recebidos como dele, se não tivessem sido escritos por ele, porque falam de si mesmos como entregues por Moisés e guardados na arca desde o seu tempo: ‘Tendo Moisés acabado de escrever, integralmente, as palavras desta Lei num livro, deu ordem aos levitas que levavam a arca da aliança do Senhor, dizendo: Peguem este Livro da Lei e coloquem-no ao lado da arca da aliança do Senhor, seu Deus, para que fique ali como testemunha contra vocês’ (Dt 31.24-26). Uma cópia desse livro devia também ficar com o rei: ‘Também, quando se assentar no trono do seu reino, mandará escrever num livro uma cópia desta lei, feita a partir do livro que está com os sacerdotes levitas. O rei terá esse livro consigo e nele lerá todos os dias da sua vida’ etc. (Dt 17.18-19) [N. do T.: o original indica “Dt 18.18”; a passagem citada está em Dt 17.18-19]. Esse livro da lei fala assim de si mesmo, não só como uma história ou relato das coisas que foram feitas, mas como a lei e os estatutos permanentes e civis da nação dos judeus, que obrigavam o rei tanto quanto o povo. Ora, em qualquer época posterior a Moisés em que se suponha ter sido forjado esse livro, era impossível que fosse recebido como verdadeiro, porque não se encontrava então (como declarava encontrar-se) nem na arca, nem com o rei, nem em parte alguma; pois, quando foi inventado, todos teriam de saber que nunca haviam ouvido falar dele antes.
“Poderia alguém, hoje em dia, inventar um livro de estatutos ou de leis do Parlamento para a Inglaterra e fazê-lo passar perante a nação como o único livro de estatutos que ela jamais conheceu? Tão impossível era que os livros de Moisés (se foram inventados em alguma época posterior a Moisés) fossem recebidos pelo que eles mesmos declaram ser, a saber, os estatutos e a lei civil da nação dos judeus; e que se persuadisse os judeus de que eles haviam possuído e reconhecido esses livros durante todo o tempo, desde os dias de Moisés até o dia em que foram inventados pela primeira vez, isto é, que os haviam possuído antes de terem sequer ouvido falar deles. Mais ainda: a nação inteira teria de esquecer, num instante, as suas leis e o seu governo anteriores, se pudesse receber esses livros como sendo as suas leis anteriores. E não poderiam recebê-los de outra maneira, porque eles se apresentavam como tais. Permitam-me fazer aos deístas uma única e breve pergunta: houve alguma vez, desde que o mundo começou, um livro de leis fictícias, que não fossem as leis da nação, impingido a algum povo? Se não houve, com que cara podem dizer isso do livro das leis dos judeus? Por que diriam deles aquilo que confessam ser impossível em qualquer nação ou em qualquer povo?
“Mas eles têm de ser ainda mais insensatos. Pois os livros de Moisés têm uma demonstração da sua verdade ainda maior do que outros livros de leis; porque não só contêm as leis, como dão um relato histórico da sua instituição e da sua prática desde aquele tempo: como o da Páscoa, em memória da morte dos primogênitos no Egito (Nm 8.17-18); e que, no mesmo dia, todos os primogênitos de Israel, tanto de homens como de animais, foram, por lei perpétua, consagrados a Deus, e os levitas tomados em lugar de todos os primogênitos dos filhos de Israel. Que a vara de Arão, que floresceu, era guardada na arca, em memória da rebelião e da destruição prodigiosa de Corá, Datã e Abirão, e para a confirmação do sacerdócio na tribo de Levi. Do mesmo modo, o vaso de maná, em memória de terem sido alimentados com ele durante quarenta anos no deserto. Que se guardava a serpente de bronze (que permaneceu até os dias de Ezequias, 2Rs 18.4), em memória daquele livramento prodigioso, pelo simples olhar para ela, da mordida das serpentes abrasadoras (Nm 21.9). A festa de Pentecostes, em memória da terrível manifestação de Deus no monte Horebe etc.
“E, além dessas recordações de ações e ocorrências particulares, havia outras instituições solenes em memória do seu livramento do Egito em geral, que incluía todos os particulares. Como a do sábado (Dt 5.15). Os seus sacrifícios diários e a expiação anual; as suas luas novas e as várias festas e jejuns. De modo que havia recordações e reconhecimentos anuais, mensais, semanais e diários dessas coisas.
“E não só isso, mas os livros do mesmo Moisés nos dizem que uma tribo particular (a de Levi) foi designada e consagrada por Deus como seus sacerdotes, por cujas mãos, e de nenhum outro, deviam ser oferecidos os sacrifícios do povo e celebradas essas instituições solenes. Que era punido com a morte qualquer outro que se aproximasse do altar. Que o seu sumo sacerdote usava uma mitra gloriosa e vestes magníficas, de desenho do próprio Deus, com o milagroso Urim e Tumim no seu peitoral, de onde eram dadas as respostas divinas (Nm 27.21). Que à sua palavra o rei e todo o povo deviam sair e entrar. Que esses levitas eram também os principais juízes, mesmo em todas as causas civis, e que era punido com a morte quem resistisse à sua sentença (Dt 17.8-13; 1Cr 23.4). Ora, em qualquer época em que se possa supor que esses livros de Moisés foram forjados, algumas gerações depois de Moisés, é impossível que tivessem sido recebidos como verdadeiros, a não ser que os falsificadores conseguissem fazer a nação inteira crer que havia recebido esses livros dos seus pais, que fora instruída neles desde a infância e os ensinara aos seus filhos; e ainda que todos haviam sido circuncidados e circuncidavam os seus filhos, em cumprimento do que era ordenado nesses livros; que haviam observado a Páscoa anual, o sábado semanal, as luas novas e todas aquelas várias festas, jejuns e cerimônias ordenados nesses livros; que nunca haviam comido carne de porco nem outras carnes proibidas nesses livros; que tinham um tabernáculo magnífico, com um sacerdócio visível para ministrar nele, restrito à tribo de Levi, sobre o qual estava posto um sumo sacerdote glorioso, revestido de grandes e poderosas prerrogativas, cuja morte era a única coisa que podia libertar os que haviam fugido para as cidades de refúgio (Nm 35.25,28); e que esses sacerdotes eram os seus juízes ordinários, mesmo em matérias civis. Pergunto: seria possível persuadir uma nação inteira de que ela havia conhecido e praticado todas essas coisas, se não o tivesse feito? Ou, em segundo lugar, fazê-la receber como verdade um livro que dizia que ela as havia praticado e que apelava para essa prática?
“Mas desçamos agora ao último grau de suposição, a saber, que essas coisas eram praticadas antes de serem forjados esses livros de Moisés, e que esses livros apenas enganaram a nação, fazendo-a crer que ela guardara essas observâncias em memória de tais e tais coisas inseridas naqueles livros.
Pois bem, prossigamos com essa suposição (por mais infundada que seja): não ocorrerão as mesmas impossibilidades do caso anterior? Pois, em primeiro lugar, isso supõe que os judeus guardavam todas essas observâncias em memória de nada, ou sem saber coisa alguma da sua origem nem da razão por que as guardavam. Ao passo que essas mesmas observâncias exprimiam o fundamento e a razão por que eram guardadas, como a Páscoa, em memória de Deus ter passado por cima dos filhos dos israelitas naquela noite em que matou todos os primogênitos do Egito, e assim por diante.
“Mas, em segundo lugar, suponhamos, contra a razão e contra os fatos, que os judeus não soubessem razão alguma por que guardavam essas observâncias. Ainda assim, seria possível impor-lhes a crença de que haviam guardado essas observâncias em memória de algo de que nunca tinham ouvido falar antes daquele dia, seja qual for a época em que se suponha que esses livros de Moisés foram forjados pela primeira vez? Por exemplo, suponha que eu agora forjasse alguma história romanesca de coisas estranhas feitas há mil anos; e, para confirmá-la, procurasse persuadir o mundo cristão de que ele sempre guardou, desde aquele dia até hoje, o primeiro dia da semana em memória de tal herói, um Apolônio, um Barcosbas ou um Maomé; de que todos haviam sido batizados em seu nome, e juravam pelo seu nome, e sobre aquele mesmo livro (que eu então forjara e que eles nunca tinham visto antes), nos seus tribunais públicos; de que esse livro era o seu evangelho e a sua lei, que desde aquele tempo, nesses mil anos passados, eles haviam universalmente recebido e reconhecido, e nenhum outro. Eu perguntaria a qualquer deísta se ele julga possível que tal fraude pudesse passar, ou que tal lenda fosse recebida como o evangelho dos cristãos, e que eles pudessem ser levados a crer que nunca tiveram outro evangelho.
“Permitam-me dar mais um exemplo bem conhecido neste caso. Há o Stonehenge, na planície de Salisbury; todo mundo o conhece; e, no entanto, ninguém sabe a razão por que aquelas grandes pedras foram postas ali, nem por quem, nem em memória de quê.
“Ora, suponha que eu escrevesse amanhã um livro e dissesse às pessoas que essas pedras foram levantadas por Hércules, por Polifemo ou por Gargântua, em memória de tais e tais façanhas suas. E, para maior confirmação disso, dissesse nesse livro que ele foi escrito na época em que tais façanhas foram feitas, e pelos próprios autores delas, ou por testemunhas oculares. E que esse livro tinha sido recebido como verdade e citado por autores da maior reputação em todas as épocas desde então. Além disso, que esse livro era bem conhecido na Inglaterra e que uma lei do Parlamento ordenava que fosse ensinado às nossas crianças, e que nós o ensinávamos às nossas crianças e nos fora ensinado quando éramos crianças. Pergunto a qualquer deísta se ele julga que isso poderia passar na Inglaterra; e se, caso eu ou qualquer outro insistíssemos nisso, não seríamos mandados para o hospício de Bedlam em vez de recebermos crédito.
“Comparemos agora isso com o Stonehenge, por assim dizer, ou as doze grandes pedras levantadas em Gilgal, de que se fala no quarto capítulo de Josué. Ali se diz, no versículo 6, que a razão por que foram levantadas era que, quando os filhos deles, em gerações futuras, perguntassem o seu significado, isso lhes fosse explicado.
“E aquilo em memória de que foram levantadas era tal que não poderia de modo algum ser impingido àquela nação na época em que se dizia ter acontecido; era tão prodigioso e milagroso quanto a sua passagem pelo mar Vermelho.
“Pois os israelitas foram avisados na véspera desse grande milagre que se ia realizar (Js 3.5). Ele foi feito ao meio-dia, diante da nação inteira. E, quando as águas do Jordão se dividiram, não foi numa vazante qualquer, mas na época em que aquele rio transbordava sobre todas as suas ribanceiras (v. 15). E não se fez por meio de ventos, nem no longo tempo que os ventos levariam para fazê-lo, mas de repente: logo que ‘os seus pés se molharam na beira das águas’, ‘as águas que vinham de cima pararam de correr; levantaram-se num montão, numa grande distância, até a cidade de Adã, que fica ao lado de Sartã; e as águas que desciam ao mar da Arabá, que é o mar Salgado, foram completamente cortadas. Então o povo passou diante de Jericó. Porém os sacerdotes que levavam a arca da aliança do Senhor pararam firmes no meio do Jordão, e todo o Israel passou a pé enxuto, atravessando o Jordão. […] Quando os sacerdotes que levavam a arca da aliança do Senhor saíram do meio do Jordão, e as plantas dos seus pés se puseram na terra seca, as águas do Jordão voltaram ao seu lugar e corriam como antes, sobre todas as suas ribanceiras. O povo subiu do Jordão no dia dez do primeiro mês; e acamparam em Gilgal, do lado leste de Jericó. E foi em Gilgal que Josué levantou as doze pedras que haviam tirado do Jordão. E Josué disse aos filhos de Israel: Quando, no futuro, os filhos perguntarem a seus pais: “O que significam estas pedras?”, expliquem aos filhos de vocês, dizendo: “Israel passou em seco este Jordão.” Porque o Senhor, o seu Deus, fez secar as águas do Jordão diante de vocês, até que vocês tivessem passado, como o Senhor, o seu Deus, fez com o mar Vermelho, que ele secou diante de nós, até que tivéssemos passado. Para que todos os povos da terra saibam que a mão do Senhor é forte, a fim de que vocês temam o Senhor, seu Deus, todos os dias’ (Js 3.15-17; 4.18-24).
“Ora, para montar o nosso argumento, suponhamos que nunca tenha havido tal passagem pelo Jordão; que essas pedras de Gilgal tenham sido levantadas por alguma outra ocasião, numa época posterior; e que, então, algum homem astuto tenha inventado esse livro de Josué, dito que ele foi escrito por Josué naquela época e apresentado esse monumento de pedras em Gilgal como testemunho da sua verdade. Não lhe diriam todos: Conhecemos o monumento de pedras de Gilgal, mas nunca ouvimos falar antes dessa razão para ele, nem desse livro de Josué. Onde esteve ele todo esse tempo? E onde e como você veio a encontrá-lo, depois de tantas gerações? Além disso, esse livro nos diz que se ordenou que essa passagem pelo Jordão fosse ensinada aos nossos filhos, de geração em geração, e que, portanto, eles deviam ser sempre instruídos no significado daquele monumento de Gilgal, como memorial dela. Mas isso nunca nos foi ensinado quando éramos crianças, nem jamais ensinamos tal coisa aos nossos filhos. E não é provável que isso pudesse ter sido esquecido enquanto continuava de pé um monumento de pedras tão notável, levantado para aquele fim e nenhum outro!
“E se, pelas razões dadas acima, nenhuma impostura assim poderia ser impingida a nós quanto ao monumento de pedras da planície de Salisbury, quanto menos o poderia quanto ao monumento de pedras de Gilgal?
“E se, onde não sabemos a razão de um monumento simples e despido, não se pode impor uma razão fictícia, quanto mais impossível é enganar-nos em ações e observâncias que celebramos em memória de acontecimentos particulares? Quão impossível é fazer-nos esquecer acontecimentos que comemoramos diariamente, e persuadir-nos de que sempre guardamos tais instituições em memória de algo de que nunca ouvimos falar antes, isto é, de que o sabíamos antes de o sabermos!”
Esse raciocínio competente nunca foi refutado, nem pode sê-lo; e, se os livros da lei devem ter sido escritos por Moisés, é igualmente fácil provar que o próprio Moisés não poderia, pela natureza da coisa, ter enganado o povo por meio de uma impostura e de uma pretensa confirmação milagrosa, a fim de, como alguns legisladores posteriores entre os pagãos, levar o povo a submeter-se de mais boa vontade às suas instituições. Os próprios exemplos de milagre que ele apresenta tornavam isso impossível. “Suponha”, diz o mesmo escritor, “que alguém alegasse que ontem dividiu o Tâmisa na presença de todo o povo de Londres e levou a cidade inteira, homens, mulheres e crianças, para Southwark, em terra seca, ficando as águas como muralhas dos dois lados. Digo que é moralmente impossível que ele conseguisse persuadir o povo de Londres de que isso era verdade, quando todo homem, mulher e criança poderia contradizê-lo e dizer que isso era uma falsidade notória, pois não tinham visto o Tâmisa assim dividido, nem tinham atravessado em terra seca.
“Quanto a Moisés, suponho que me será concedido que ele não poderia ter persuadido seiscentos mil homens de que os havia tirado do Egito através do mar Vermelho, de que os alimentara durante quarenta anos sem pão, com o maná milagroso, e das outras questões de fato registradas nos seus livros, se não fossem verdadeiras. Porque os sentidos de todo homem que então vivia teriam de contradizê-lo. E, portanto, ele teria de enganar todos os sentidos deles, se conseguisse fazê-los crer nisso, sendo falso e não tendo sido feitas tais coisas.
“Pela mesma razão, era igualmente impossível que ele os fizesse receber os seus cinco livros como verdade, e não os rejeitar como uma impostura manifesta, uma vez que falavam de todas essas coisas como feitas diante dos seus olhos, se não tivessem sido feitas assim. Vejam com que firmeza ele lhes fala (Dt 11.2-8): ‘Considerem hoje, e não me dirijo aos filhos de vocês, que não conheceram nem viram a disciplina do Senhor, seu Deus, sim, considerem a grandeza do Senhor, a sua mão poderosa e o seu braço estendido. Considerem também os sinais e as obras que ele fez no meio do Egito contra Faraó, rei do Egito, e contra toda a sua terra. Também o que ele fez com o exército do Egito, com os seus cavalos e os seus carros de guerra, fazendo passar sobre eles as águas do mar Vermelho, quando estavam perseguindo vocês, e como o Senhor os destruiu até o dia de hoje. Considerem o que ele fez no deserto, até que vocês chegassem a este lugar. E ainda o que ele fez com Datã e Abirão, filhos de Eliabe, filho de Rúben; como a terra abriu a boca e os engoliu, junto com as famílias deles, as tendas e tudo o que os seguia, no meio de todo o Israel. Porque vocês viram com os seus próprios olhos todas as grandes obras que o Senhor fez’ etc.
“Daí temos de concluir que é impossível que esses livros de Moisés (se fossem uma impostura) pudessem ter sido inventados e impingidos ao povo que então vivia, quando se dizia que todas essas coisas estavam sendo feitas.”
Por esses argumentos4 ficam estabelecidas a genuinidade e a autenticidade dos livros de Moisés. Quanto aos livros dos profetas, que, juntamente com algumas predições dos escritos de Moisés, compõem o ramo profético da prova da autoridade divina das revelações que contêm, pode-se provar, tanto pela tradição judaica quanto pela lista de Josefo, pela tradução grega e pelo fato de serem citados por escritores antigos, que eles existiam muitas eras antes de ocorrerem vários dos acontecimentos a que nos referiremos no lugar próprio como exemplos eminentes e inequívocos de cumprimento profético. Também essa parte do argumento ficará, portanto, suficientemente estabelecida: mostrar-se-á que a profecia foi pronunciada muito antes do acontecimento, e provar-se-á que o acontecimento é um cumprimento da profecia. Um exame mais minucioso da data dos livros proféticos cabe antes àqueles que escrevem expressamente sobre o cânon da Escritura.
O mesmo autor de quem já citamos extensamente (Leslie) aplica as suas célebres quatro regras para determinar a verdade das questões de fato em geral, com igual força, aos fatos da história evangélica e aos contidos nos escritos mosaicos. As regras são: “1. Que a questão de fato seja tal que os sentidos externos dos homens, os seus olhos e ouvidos, possam julgá-la. 2. Que ela tenha sido feita publicamente, diante do mundo. 3. Que não só se mantenham monumentos públicos em memória dela, mas também se pratiquem algumas ações externas. 4. Que tais monumentos e tais ações e observâncias sejam instituídos e comecem a partir do tempo em que a questão de fato aconteceu.”
Vimos a maneira como essas regras são aplicadas aos livros de Moisés. O autor as aplica assim ao evangelho: “Passo agora a mostrar que, assim como nas questões de fato de Moisés, também todas essas quatro marcas se encontram nas questões de fato registradas no evangelho do nosso bendito Salvador. E o meu trabalho aqui será mais breve, porque tudo o que se disse antes de Moisés e dos seus livros se aplica em todos os aspectos a Cristo e ao seu evangelho. Ali se diz que as suas obras e os seus milagres foram feitos publicamente, diante do mundo, como ele argumentou aos seus acusadores: ‘Eu tenho falado francamente ao mundo. […] e não disse nada em segredo’ (Jo 18.20). Conta-se que três mil de uma vez (At 2.41) e, de outra vez, mais de cinco mil (At 4.4) se converteram pela convicção do que eles próprios tinham visto, do que fora feito publicamente diante dos seus olhos, coisas em que era impossível enganá-los. Aqui estavam, pois, as duas primeiras regras acima mencionadas.
“Quanto às duas seguintes: o batismo e a ceia do Senhor foram instituídos como memoriais perpétuos dessas coisas; e não foram instituídos em épocas posteriores, mas no exato tempo em que se dizia que essas coisas tinham sido feitas, e têm sido observados sem interrupção, em todas as épocas, por todo o mundo cristão, desde aquele tempo até hoje. E o próprio Cristo ordenou apóstolos e outros ministros do seu evangelho para pregar, administrar os sacramentos e governar a sua igreja; e isso para sempre, até o fim do mundo (Mt 28.20) [N. do T.: o original indica “Mt 18.20”].
Assim, eles têm continuado por sucessão regular até hoje, e sem dúvida continuarão enquanto a terra durar. De modo que o clero cristão é uma questão de fato tão notória quanto a tribo de Levi entre os judeus. E o evangelho é lei para os cristãos tanto quanto o livro de Moisés para os judeus. E, como faz parte das questões de fato relatadas no evangelho que uma tal ordem de homens foi designada por Cristo para continuar até o fim do mundo, segue-se que, se o evangelho fosse uma ficção, inventada (como teria de ser) em alguma época posterior a Cristo, então, no tempo em que foi inventado pela primeira vez, não poderia haver nenhuma ordem de clero que se derivasse da instituição de Cristo; o que desmentiria o evangelho e demonstraria que o todo é falso. E, como as questões de fato de Cristo são apresentadas como verdadeiras unicamente na medida em que havia naquele tempo (seja qual for a época em que os deístas queiram supor que o evangelho foi forjado) não só sacramentos públicos de instituição de Cristo, mas também uma ordem de clero designada por ele para administrá-los; e como era impossível que houvesse tais coisas antes de serem inventadas, é igualmente impossível que fossem recebidas quando inventadas. E, portanto, pelo que foi dito acima, era tão impossível enganar a humanidade nesse assunto, inventando-o em épocas posteriores, quanto no próprio tempo em que se dizia que essas coisas tinham sido feitas.
“Às questões de fato de Maomé, ou ao que se fabula das divindades pagãs, falta sempre alguma das quatro regras mencionadas, pelas quais se demonstra a certeza das questões de fato. Primeiro, quanto a Maomé, ele não alegou fazer milagres, como ele mesmo nos diz no seu Alcorão (c. 6 etc.); e os que comumente se contam dele passam entre os próprios maometanos apenas por fábulas lendárias e, como tais, são rejeitados pelos sábios e eruditos entre eles, assim como as lendas dos seus santos o são na Igreja de Roma. Veja-se a Life of Mohammed do Dr. Prideaux, p. 34.
“Mas, em segundo lugar, aos que se contam dele faltam todas as duas primeiras regras mencionadas. Pois a sua pretensa conversa com a lua, a sua Mersa, ou viagem noturna de Meca a Jerusalém e dali ao céu etc., não foram feitas diante de ninguém. Temos apenas a palavra dele a respeito delas. E elas são tão infundadas quanto as ilusões de Fox ou de Muggleton entre nós. O mesmo se deve dizer (em segundo lugar) das fábulas dos deuses pagãos, de Mercúrio a furtar ovelhas, de Júpiter a transformar-se em touro e coisas semelhantes, além da tolice e da indignidade de milagres pretensos tão insensatos.
“É verdade que as divindades pagãs tinham os seus sacerdotes; tinham também festas, jogos e outras instituições públicas em sua memória. Mas a todas essas falta a quarta marca, a saber, que tal sacerdócio e tais instituições comecem a partir do tempo em que se dizia terem sido feitas as coisas que comemoram; do contrário, não podem resguardar as épocas posteriores da impostura, desmascarando-a no tempo em que foi inventada pela primeira vez, como se argumentou antes. Mas as bacanais e outras festas pagãs foram instituídas muitas eras depois do tempo em que se dizia ter acontecido o que se relatava desses deuses e, portanto, não podem ser prova alguma. E os sacerdotes de Baco, de Apolo etc. não foram ordenados por esses supostos deuses, mas designados por outros, em épocas posteriores, apenas em sua honra. E, portanto, essas ordens de sacerdotes não são prova alguma das questões de fato que se relatam dos seus deuses.
“Apliquemos agora o que foi dito. Podem-se desafiar todos os deístas do mundo a mostrar alguma ação fabulosa que tenha todas as quatro regras ou marcas mencionadas. Não, é impossível. E (para retomar um pouco o que foi tratado antes) as histórias do Êxodo e do evangelho nunca poderiam ter sido recebidas se não fossem verdadeiras, porque nelas se relatam a instituição do sacerdócio de Levi e do de Cristo, do sábado, da Páscoa, da circuncisão, do batismo e da ceia do Senhor etc., como descendo sem interrupção desde aqueles tempos. E é tão impossível persuadir os homens de que tinham sido circuncidados ou batizados, de que tinham circuncidado ou batizado os seus filhos, celebrado páscoas, sábados, sacramentos etc., sob o governo e a administração de uma certa ordem de sacerdotes, se não tivessem feito nenhuma dessas coisas, quanto fazê-los crer que tinham atravessado mares em terra seca, visto mortos ressuscitados etc. E, sem crer nessas coisas, era impossível que a Lei ou o evangelho pudessem ter sido recebidos.
E, como a verdade das questões de fato do Êxodo e do evangelho só é apresentada aos homens na medida em que eles praticaram tais instituições públicas, isso equivale a apelar para os sentidos da humanidade quanto à verdade delas; e torna impossível que alguém tenha inventado tais histórias em épocas posteriores sem que a fraude fosse palpavelmente desmascarada quando inventada pela primeira vez; tão impossível quanto enganar os sentidos da humanidade no tempo em que se dizia terem sido feitas tais questões de fato públicas.”5
Mas, além da que decorre desse raciocínio convincente, podem-se apresentar outras provas da verdade da história evangélica.
Em primeiro lugar, a narrativa dos evangelistas quanto às ações etc. de Cristo não pode ser rejeitada sem renunciar a toda fé na história, assim como não se pode negar que ele realmente existiu.
“Temos a mesma razão para crer que os evangelistas nos deram uma história verdadeira da vida e dos feitos de Jesus que temos para crer que Xenofonte e Platão nos deram uma narrativa fiel e justa do caráter e das doutrinas do excelente Sócrates. Os escritores sagrados estavam, em todos os aspectos, habilitados a dar um relato real e circunstanciado da vida e da religião da pessoa cujas memórias nos transmitiram. Eram os companheiros escolhidos e os amigos íntimos do herói da sua história. Tinham livre e amplo acesso a ele em todos os momentos. Assistiam aos seus discursos públicos, e, nos seus momentos de recolhimento, ele lhes abria toda a alma, sem disfarce. Eram testemunhas diárias da sua sinceridade e da bondade do seu coração. Eram espectadores das obras assombrosas que ele realizava e da maneira silenciosa e sem ostentação com que as realizava. Em particular, ele lhes explicava as doutrinas da sua religião na conversa mais familiar e afetuosa, e gradualmente os iniciava nos princípios do seu evangelho, na medida em que os seus preconceitos judaicos o permitiam. Alguns desses escritores foram seus acompanhantes inseparáveis, desde o começo do seu ministério público até a sua morte, e podiam dar ao mundo uma narrativa tão verdadeira e fiel do seu caráter e dos seus ensinos quanto Xenofonte pôde publicar da vida e da filosofia de Sócrates. Se Platão esteve em todos os aspectos habilitado a compor um relato histórico do comportamento do seu mestre na prisão e dos discursos filosóficos que ele dirigiu aos amigos antes de beber a taça de veneno, visto que o acompanhou constantemente naquelas cenas infelizes e esteve presente naqueles encontros tristes,6 do mesmo modo o apóstolo João estava preparado para compor uma narração justa e genuína dos últimos discursos de consolo que o nosso Senhor dirigiu aos seus seguidores abatidos, pouco antes dos seus últimos sofrimentos, e da sua infeliz saída deste mundo, com as circunstâncias que a acompanharam, das quais ele foi espectador pessoal. O fundamento dessas coisas não pode ser invalidado sem invalidar a fé da história. Nenhum escritor teve oportunidades mais propícias, e poucos jamais tiveram oportunidades tão favoráveis quanto os evangelistas, para publicar relatos justos de pessoas e coisas. A maior parte dos historiadores gregos e romanos viveu muito depois das pessoas que imortalizam e dos acontecimentos que registram. Os escritores sagrados celebram ações que viram, discursos que ouviram, perseguições que suportaram; descrevem caracteres com os quais conviviam familiarmente e feitos ocorridos em cenas nas quais eles mesmos estavam intimamente interessados. As páginas da sua história trazem impresso todo traço de credibilidade: uma simplicidade sem artifício caracteriza todos os seus escritos. Nada pode estar mais longe da vã ostentação e do aplauso popular. Nenhuma arte estudada para enfeitar uma fábula engenhosamente inventada. Nenhuma declamação vã depois de qualquer milagre do nosso Salvador que relatam. Registram essas obras assombrosas com a mesma frieza desapaixonada com que registrariam acontecimentos comuns, sem aquela fanfarronice ostentosa que os fanáticos e os impostores universalmente empregam. Dão-nos uma narração simples e sem adornos desses feitos assombrosos de poder sobrenatural, nada dizendo antes para despertar a nossa expectativa, nem prorrompendo depois em qualquer exclamação, mas deixando ao leitor tirar a conclusão. Os escritores desses livros se distinguem, acima de todos os autores que jamais escreveram relatos de pessoas e coisas, pela sua sinceridade e integridade. Os fanáticos e os impostores nunca proclamam ao mundo a fraqueza do seu entendimento e os defeitos do seu caráter. Os evangelistas informam honestamente o leitor da baixeza da sua condição, da pobreza das suas circunstâncias, do arraigamento dos seus preconceitos nacionais, da sua lentidão de entendimento, da fraqueza da sua fé, das suas pretensões ambiciosas e das acaloradas disputas que travaram entre si. Chegam a contar-nos como abandonaram vilmente o seu Mestre, numa fuga vergonhosa e precipitada, quando ele foi preso pelos seus inimigos; e que, depois da sua crucificação, todos tinham voltado às suas antigas ocupações seculares, renunciando para sempre a todas as esperanças que antes haviam acalentado com tanto afeto e abandonando a causa em que por tanto tempo estiveram empenhados, apesar de todas as provas que lhes tinham sido apresentadas e da convicção que antes tinham de que Jesus era o Messias e de que a sua religião vinha de Deus. Eis um retrato fiel, posto diante do leitor para que contemple os verdadeiros traços da mente do escritor. Homens como esses estavam tão longe de ser enganados quanto eram incapazes de impingir uma falsidade a outros. O sagrado respeito que tinham pela verdade aparece em tudo o que relatam. Mencionam, com muitas circunstâncias comoventes, a incredulidade obstinada e irracional de um dos seus companheiros, que só se convenceu por uma demonstração ocular e sensível. Poderiam ter ocultado do mundo as suas próprias faltas e loucuras, ou, se tivessem preferido mencioná-las, poderiam ter alegado razões plausíveis para suavizá-las e atenuá-las. Mas relataram sem disfarce os acontecimentos e os fatos tal como ocorreram, e deixaram que falassem a sua própria linguagem. De modo que rejeitar uma história assim circunstanciada e impugnar a veracidade de escritores dotados dessas qualificações para dar os relatos mais justos de caracteres pessoais e de feitos que eles tiveram a melhor oportunidade de observar e conhecer com exatidão é uma afronta à razão e ao entendimento da humanidade; um solecismo contra as leis da verdade e da história, que, com igual razão, levaria os homens a não acreditar em nada do que se relata em Heródoto, Tucídides, Diodoro Sículo, Lívio e Tácito; a confundir toda a história com a fábula e a ficção, a verdade com a falsidade e a veracidade com a impostura; e a não dar crédito a coisa alguma, por mais bem atestada que seja, nem sequer a que houve reis como os Stuarts, ou lugares como Paris e Roma, só porque não nos é concedida a convicção ocular deles. A verdade da história evangélica [independentemente da questão da inspiração dos escritores sagrados] repousa sobre a mesma base que a verdade de outros livros antigos, e as suas pretensões devem ser examinadas imparcialmente pelas mesmas regras pelas quais julgamos a credibilidade de todos os outros monumentos históricos. E, se compararmos o mérito dos escritores sagrados, como historiadores, com o de outros escritores, ficaremos convencidos de que eles não são inferiores a nenhum dos que jamais escreveram, quer quanto ao conhecimento das pessoas, quer quanto à familiaridade com os fatos, à imparcialidade de espírito e ao respeito pela verdade.” (Harwood, Introduction to the New Testament.)
Uma segunda fonte de provas da verdade da história dos evangelistas pode ser tirada dos testemunhos de adversários e pagãos sobre os principais fatos que eles registram.
Os chefes judeus nunca publicaram nenhuma contestação desta história para deter o progresso de uma religião odiosa, embora tivessem todos os motivos para contestá-la, tanto para se justificarem a si mesmos, já que eram publicamente acusados de “assassinos” do “Justo” (cf. At 7.52), quanto para preservar o povo do contágio da ilusão que se espalhava. Nenhuma contestação desse tipo nos foi transmitida, e nenhuma é mencionada ou citada por qualquer escritor antigo. Esse silêncio não é prova sem importância; mas os testemunhos diretos dos fatos são numerosos e importantes.
Já citamos os testemunhos de Tácito e de Suetônio sobre a existência de Jesus Cristo, o Fundador da religião cristã, e sobre a sua crucificação no reinado de Tibério, durante a procuradoria de Pôncio Pilatos, época em que os evangelistas situam esse acontecimento. Poderiam ser dadas outras referências a autores pagãos que aludem incidentalmente a Cristo, à sua religião e aos seus seguidores, como Marcial, Juvenal, Epiteto, Trajano, Plínio, o Jovem, Adriano, Apuleio, Luciano de Samósata e outros; alguns dos quais também dão testemunho da destruição de Jerusalém, no tempo e nas circunstâncias preditos pelo nosso Salvador, e da antiguidade e genuinidade dos livros do Novo Testamento. Mas, como observa muito bem o erudito Lardner, na sua Collection of Jewish and Heathen Testimonies (vol. 4, p. 330): “Entre todos os testemunhos ao cristianismo que encontramos nos primeiros séculos, nenhum é mais valioso e importante do que os testemunhos daqueles filósofos eruditos que escreveram contra nós: Celso, no segundo século, Porfírio e Hiérocles, no terceiro, e Juliano, no quarto.” Remetendo a Lardner para uma informação completa sobre esse ponto, uma breve exposição das concessões desses adversários será satisfatória.
Celso escreveu contra o cristianismo não muito mais de cento e trinta anos depois da ascensão do nosso Senhor, e os seus livros foram respondidos pelo célebre Orígenes. O que segue é um resumo, feito por Leland, das referências desse escritor à história evangélica (Answer to Christianity as Old as the Creation, vol. 2, c. 5). As passagens por extenso podem ser vistas nos Testimonies de Lardner.
Celso, inimigo amargíssimo do cristianismo, que começou a escrever no segundo século, apresenta muitas passagens dos Evangelhos. Representa Jesus como tendo vivido havia poucos anos. Menciona o seu nascimento de uma virgem; a aparição do anjo a José por ocasião da gravidez de Maria; a estrela que apareceu no seu nascimento; os magos que vieram adorá-lo quando era criança; e o massacre das crianças por Herodes; a fuga de José com o menino para o Egito, por advertência de um anjo; o Espírito Santo descendo sobre Jesus como uma pomba quando foi batizado por João, e a voz do céu declarando que ele era o Filho de Deus; as suas andanças com os discípulos, as suas curas de doentes e coxos e a ressurreição de mortos; a predição dos seus próprios sofrimentos e da sua ressurreição; o fato de ter sido traído e abandonado pelos seus próprios discípulos; o seu sofrimento, tanto por vontade própria quanto em obediência ao seu Pai celestial; a sua tristeza e angústia e a sua oração: Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice!; o tratamento ignominioso que recebeu; o manto que lhe puseram, a coroa de espinhos, o caniço posto na sua mão; o ter bebido vinagre e fel, e o ter sido açoitado e crucificado; o ter sido visto depois da ressurreição por uma mulher fanática (como ele a chama, referindo-se a Maria Madalena) e pelos seus próprios companheiros e discípulos; o ter-lhes mostrado as mãos traspassadas, as marcas do seu castigo. Menciona também os anjos vistos junto ao seu sepulcro, e que uns diziam que era um anjo e outros que eram dois; com o que alude à aparente variação nos relatos que os evangelistas dão do fato.
É verdade que ele menciona todas essas coisas apenas com o intuito de ridicularizá-las e expô-las ao desprezo. Mas elas nos fornecem uma prova incontestada de que o evangelho já existia então. Por isso ele diz expressamente aos cristãos: Estas coisas nós as tiramos dos vossos próprios escritos (p. 106). E supõe o tempo todo que eles foram escritos pelos próprios discípulos de Cristo, que viveram e conviveram com ele, embora alegue que eles inventaram muitas coisas para honra do seu Mestre (p. 69, 70). E alega que poderia contar muitas outras coisas a respeito de Jesus, além das que os seus próprios discípulos escreveram sobre ele, mas que de bom grado as deixava de lado (p. 67). Podemos concluir das suas expressões tanto que ele estava ciente de que esses relatos foram escritos pelos próprios discípulos de Cristo (e, de fato, nunca pretende contestar isso) quanto que não era capaz de apresentar relatos contrários para invalidá-los, como certamente teria feito se estivesse ao seu alcance, já que ninguém jamais escreveu com maior virulência contra o cristianismo do que ele. E, de fato, como seria possível que dez ou onze publicanos e barqueiros, como ele chama, por desprezo, os discípulos de Cristo (p. 47), impingissem tais coisas ao mundo, se não fossem verdadeiras, a ponto de persuadir multidões tão vastas a abraçar uma religião nova e desprezada, contra todos os seus preconceitos e interesses, e a crer em alguém que fora crucificado!
“Há várias outras coisas que mostram que Celso conhecia o evangelho. Ele apresenta várias das palavras do nosso Salvador ali registradas, como a de que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus; a de que, a quem nos bate numa face, devemos oferecer também a outra; a de que não é possível servir a dois senhores; o seu preceito contra a preocupação com o dia de amanhã, por uma comparação tirada dos corvos e dos lírios; a sua predição de que surgiriam falsos profetas e fariam prodígios. Menciona também algumas passagens do apóstolo Paulo, como estas: O mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo; a sabedoria do homem é loucura diante de Deus; o ídolo nada é.
“O uso que eu faria de tudo isso é que aqui se vê, com uma prova incontestada, pelo testemunho de um dos adversários mais maliciosos e virulentos que a religião cristã jamais teve, homem também de talentos e erudição consideráveis, que os escritos dos evangelistas existiam no seu tempo, que era o século seguinte àquele em que viveram os apóstolos; e que esses relatos foram escritos pelos próprios discípulos de Cristo e, por conseguinte, que foram escritos na mesma época em que se deram os fatos relatados, por homens a quem, portanto, teria sido a coisa mais fácil do mundo convencer de falsidade, se não fossem verdadeiros.”
Porfírio floresceu por volta do ano 270; era homem de grande capacidade, e a sua obra contra os cristãos, em quinze livros, foi por muito tempo estimada pelos gentios e julgada digna de resposta por Eusébio e por outros de grande reputação de erudição. Ele conhecia bem os livros do Antigo e do Novo Testamento; e nos seus escritos há referências claras aos Evangelhos de Mateus, Marcos e João, aos Atos dos Apóstolos e à Epístola aos Gálatas, e referências prováveis às outras epístolas de são Paulo. Por volta do ano 303, Hiérocles, homem erudito e magistrado, escreveu contra os cristãos em dois livros. Ele conhecia bem as nossas Escrituras e levantou muitas objeções contra elas, dando com isso testemunho da sua antiguidade e do grande respeito que os cristãos lhes tributavam; pois se referiu tanto aos Evangelhos quanto às Epístolas. Menciona Pedro e Paulo pelo nome e não negou a verdade dos milagres do nosso Salvador; mas, para derrubar o argumento que os cristãos construíam sobre eles, apresentou os supostos milagres de Apolônio de Tiana como rivais. O imperador Juliano, que sucedeu a Constâncio no ano 361, também escreveu contra os cristãos e, na sua obra, deu sem querer um valioso testemunho à história e aos livros do Novo Testamento. Ele admite que Jesus nasceu no reinado de Augusto, na época de um recenseamento feito na Judeia por Cirênio. Que a religião cristã surgiu e começou a ser propagada nos tempos dos imperadores romanos Tibério e Cláudio. Dá testemunho da genuinidade e da autenticidade dos quatro Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João e dos Atos dos Apóstolos. E os cita de tal modo que dá a entender que esses eram os únicos livros históricos recebidos pelos cristãos como dotados de autoridade, e as únicas memórias autênticas de Jesus Cristo, dos seus apóstolos e das doutrinas por eles pregadas. Admite a data antiga dos Evangelhos e até argumenta a favor dela. Cita os Atos dos Apóstolos, ou se refere claramente a eles, como já se disse, e às Epístolas de são Paulo aos Romanos, aos Coríntios e aos Gálatas. Não nega os milagres de Jesus Cristo, mas admite que ele curou cegos, coxos e endemoninhados, que repreendeu os ventos e andou sobre as ondas do mar. Procura, de fato, diminuir essas obras, mas em vão. Procura também reduzir o número dos primeiros crentes em Jesus, mas reconhece que havia multidões deles na Grécia e na Itália antes de são João escrever o seu Evangelho. Do mesmo modo, finge diminuir a condição social dos primeiros crentes; e, no entanto, reconhece que, além de servos e servas, Cornélio, centurião romano em Cesareia, e Sérgio Paulo, procônsul de Chipre, foram convertidos à fé em Jesus antes do fim do reinado de Cláudio. E fala muitas vezes, com grande indignação, de Pedro e Paulo, aqueles dois grandes apóstolos de Jesus e pregadores bem-sucedidos do seu evangelho; de modo que, no conjunto, deu sem querer testemunho da verdade de muitas coisas registradas nos livros do Novo Testamento. Pretendeu derrubar a religião cristã, mas a confirmou. Os seus argumentos contra ela são perfeitamente inofensivos e insuficientes para abalar o cristão mais fraco.
As citações de Porfírio, Hiérocles e Juliano podem ser consultadas em Lardner, que assim resume as suas observações sobre o testemunho deles: “Eles dão aos livros do Novo Testamento, aos fatos da história evangélica e às coisas dos cristãos um testemunho mais pleno e mais valioso do que todas as nossas outras testemunhas juntas. Propuseram-se derrubar os argumentos a favor do cristianismo. Visavam trazer de volta ao paganismo os que o haviam abandonado e deter o progresso que o cristianismo fazia pela adição de novos convertidos. Mas nesses propósitos tiveram muito pouco êxito no seu próprio tempo; e as suas obras, compostas e publicadas nos primeiros tempos do cristianismo, são hoje um testemunho a nosso favor e servirão para a defesa do cristianismo até as mais remotas gerações.
“Mais uma coisa que se pode notar é esta: os restos dos nossos antigos adversários confirmam os sentimentos que hoje prevalecem entre os cristãos acerca dos livros do Novo Testamento que chamamos canônicos e que têm entre nós a maior autoridade. Pois os seus escritos mostram que esses mesmos livros, e não outros quaisquer hoje geralmente chamados apócrifos, são os livros que sempre gozaram da mais alta reputação entre os cristãos e eram então a regra da sua fé, como são agora da nossa.”
No mesmo sentido vão as observações de Paley. Esses testemunhos “provam que nem Celso, no segundo século, nem Porfírio, no terceiro, nem Juliano, no quarto, suspeitaram da autenticidade desses livros, nem sequer insinuaram que os cristãos estivessem enganados quanto aos autores a quem os atribuíam. Nenhum deles exprimiu sobre esse assunto uma opinião diferente da que os cristãos sustentam. E, quando consideramos quanto lhes teria valido lançar dúvida sobre esse ponto, se pudessem, e quão prontos se mostraram a tirar todo proveito ao seu alcance, e que eram homens de erudição e de pesquisa, a sua concessão, ou antes o seu voto sobre o assunto, é extremamente valiosa.”
Que os fatos e as declarações registrados na história evangélica não foram falsificações de um período posterior torna-se ainda mais indubitável pelo fato de que os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos são citados ou aludidos por uma série de cristãos, a começar pelos que foram contemporâneos dos apóstolos ou que vieram imediatamente depois deles, e prosseguindo em sucessão estreita e regular desde o seu tempo até o presente. “O meio de prova enunciado nesta proposição”, observa o Dr. Paley, “é, entre todos, o mais incontestável, e não se enfraquece com o passar das eras. O bispo Burnet, na History of His Own Times, insere vários extratos da History de lorde Clarendon. Uma única inserção dessas prova que a History de lorde Clarendon existia quando o bispo Burnet escreveu, que ele a lera e recebera como obra de lorde Clarendon e a considerava um relato autêntico dos acontecimentos que narra; e será prova desses pontos daqui a mil anos. A aplicação desse argumento à história evangélica é evidente. Se os diferentes livros que os cristãos recebem como contendo essa história são citados por uma série de escritores como genuínos quanto aos seus autores e autênticos quanto à sua narrativa, até a época em que viveram os seus autores, então é claro que esses livros devem ter existido antes do mais antigo dos escritos em que são citados, e que eram então admitidos como autênticos.” “A sua genuinidade se demonstra tanto pelos argumentos gerais que comprovam a genuinidade dos restos menos contestados da antiguidade quanto por provas peculiares e específicas: por citações deles em escritos pertencentes a um período imediatamente contíguo àquele em que foram publicados; pela consideração especial que os primeiros cristãos prestavam à autoridade desses livros (consideração que se manifestou no fato de os reunirem num volume, de darem a esse volume títulos de especial respeito, de os traduzirem para várias línguas, de os disporem em harmonias, de escreverem comentários sobre eles e, de modo ainda mais notável, de os lerem nas suas assembleias públicas em todas as partes do mundo); por um acordo universal quanto a esses livros, enquanto se tinham dúvidas a respeito de alguns outros; pelo fato de seitas rivais apelarem para eles; por muitos catálogos formais deles, como escritos certos e dotados de autoridade, publicados em partes diferentes e distantes do mundo; por fim, pela ausência ou deficiência dos mencionados gêneros de prova quando aplicados a quaisquer outras histórias do mesmo assunto.” (Paley, Evidences, cap. 10.)
Todas as partes desse argumento podem ser vistas claramente demonstradas por passagens citadas dos escritores das primeiras eras da igreja cristã, na Credibility do Dr. Lardner, nas Evidences do Dr. Paley e em muitos outros escritores em defesa do cristianismo. Ele é exposto com grande força também no primeiro volume da Introduction to the Study of the Scriptures de Horne.
NOTA A.
Os documentos que alegam ter sido assim transmitidos à posteridade são os cinco livros atribuídos ao próprio Moisés, habitualmente chamados Pentateuco. Ora, a questão que temos diante de nós é se eles foram de fato escritos ao mesmo tempo que o Êxodo, ou se foram compostos em nome de Moisés num período muito posterior.
“Que os judeus reconheceram a autenticidade do Pentateuco, desde o presente até a época do nascimento do nosso Senhor, um período de mais de dezoito séculos, não admite a menor possibilidade de dúvida. Mas essa época é muito posterior à do próprio Moisés; será necessário, portanto, para estabelecer o ponto em discussão, retroceder passo a passo, até onde pudermos penetrar com segurança, segundo as regras estabelecidas da prova moral.
“Cerca de duzentos e setenta e sete anos antes da era cristã, no reinado de Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, o Pentateuco, com os outros livros do Antigo Testamento, foi traduzido para o grego para uso dos judeus de Alexandria; e, pela prevalência quase universal dessa língua, ele passou desde então a ser amplamente difundido e se tornou assim acessível aos eruditos e curiosos de todos os países.
“Ora, essa tradução grega, que ainda existe e está nas mãos de quase todos, demonstra que o Pentateuco hebraico deve ter existido duzentos e setenta e sete anos antes de Cristo, porque há entre os dois uma correspondência que prova amplamente que aquela deve ter sido uma versão deste. Mas, se ele certamente existia duzentos e setenta e sete anos antes de Cristo, deve ter existido nos dias de Esdras, na época do regresso da Babilônia, no ano quinhentos e trinta e seis antes de Cristo; porque não há nenhum ponto entre essas duas épocas ao qual possamos atribuir a sua composição com sombra de probabilidade. Ele existia, portanto, no ano quinhentos e trinta e seis antes da era cristã.
Assim ganhamos um passo para trás: vejamos agora se, com igual certeza, podemos ganhar outro.
“Como não se pode negar racionalmente que o Pentateuco existe desde o regresso dos judeus da Babilônia, no ano quinhentos e trinta e seis antes da era cristã, alguns houveram por bem sustentar, a partir daí, que ele foi obra de Esdras, sendo uma compilação ordenada das tradições confusas e fabulosas desse povo, que, como a maioria das nações da antiguidade, as possuía em grande abundância.
“A essa opinião, quando examinada a fundo, há objeções insuperáveis, por mais plausível que pareça a um observador apressado.
“No livro de Esdras, a lei de Moisés, homem de Deus, é mencionada especificamente como um documento escrito bem conhecido, que então existia de fato; e, no livro seguinte, de Neemias, temos um relato amplo do modo como esse mesmo documento escrito foi lido publicamente ao povo, sob o nome preciso de Livro da Lei de Moisés, que o Senhor havia ordenado a Israel. E isso não é tudo: não foi Esdras quem apresentou um volume novo e convocou os judeus a recebê-lo como a lei autêntica de Moisés; foi o próprio povo que pediu a Esdras que trouxesse e lesse aquele livro, como obra com a qual estavam havia muito familiarizados. A lei de Moisés, portanto, devia ser bem conhecida como existente por escrito antes do regresso da Babilônia; e, assim como Esdras não poderia ter apresentado com esse nome uma simples compilação de tradições orais, também não poderia ter suprimido o antigo volume da lei e posto no seu lugar o volume que os judeus, desde então, sempre receberam como o Pentateuco autêntico. O seu próprio livro fornece prova positiva de que se sabia ter existido anteriormente alguma lei escrita de Moisés; e o pedido do povo para que lhe fosse lida demonstra que ela não poderia ter perecido havia muito tempo, pois, se a obra estivesse reconhecidamente perdida por muitos anos, o povo não poderia ter pedido aquilo que nem eles nem os seus pais jamais haviam visto. Se, então, ela tivesse sido suprimida por Esdras em favor de uma composição espúria sua, ele teria de ter conseguido apoderar-se de todas as cópias existentes da obra genuína e teria de ter persuadido um povo inteiro a receber como genuíno aquilo que quase todos entre eles teriam percebido imediatamente ser espúrio. Pois, se a obra genuína existia até o próprio tempo de Esdras, ponto claramente implícito no pedido do povo para que lhe fosse lida, e se o povo estava havia muito acostumado a ouvi-la ler, ponto igualmente implícito no pedido registrado que fez a Esdras, todos deviam conhecer suficientemente o seu conteúdo; e as classes mais altas entre eles deviam tê-la lido repetidas vezes e, portanto, conhecê-la por inteiro tão intimamente quanto o próprio Esdras. Mas aquilo que era assim universalmente familiar não poderia ser posto de lado pela simples ordem de um indivíduo em favor de uma composição espúria sua, assim como o Pentateuco não poderia agora ser posto de lado em toda a cristandade em favor de algum volume recém-apresentado que alegasse ser a lei genuína de Moisés. Acrescente-se a isso que, quando foram lançados os alicerces do segundo templo, viviam muitas pessoas que se lembravam bem do primeiro. Estas, por conseguinte, deviam saber se havia ou não uma lei escrita de Moisés anterior ao cativeiro; e não poderiam ser enganadas pela apresentação de alguma composição nova por Esdras.
“Tal é a prova fornecida pelos próprios livros de Esdras e de Neemias da existência de uma lei escrita de Moisés anterior ao regresso da Babilônia, uma lei familiarmente conhecida de todo o povo. Mas há ainda outra prova no mesmo sentido, análoga à que é fornecida pela tradução grega dos Setenta.
“Temos hoje duas cópias hebraicas da lei de Moisés: uma recebida pelos judeus, a outra reconhecida pelos samaritanos, cada um sustentando que a sua é o registro genuíno. Ora, se examinarmos essas duas cópias, veremos que a sua coincidência é tal, do começo ao fim, que não podemos duvidar nem por um momento da sua identidade original em cada palavra e em cada frase.
“Lemos que, depois que o rei da Assíria deportou as dez tribos e colonizou os seus territórios com uma multidão mista vinda de várias partes dos seus domínios, os novos habitantes foram infestados pelas incursões de feras. Essa calamidade, de acordo com a noção corrente de deuses tutelares locais, eles a atribuíram ao fato de não adorarem o deus da terra segundo a maneira que ele mesmo prescrevera. Para remediar a falta, portanto, um dos sacerdotes levíticos deportados foi enviado a eles, para lhes ensinar, como se exprimiu o monarca assírio, a maneira de servir o deus daquela terra. O sacerdote, assim, veio para o meio deles, ficou morando em Betel e lhes ensinava como deviam temer a Jeová; mas, embora recebessem devidamente as suas instruções, misturavam o serviço do Deus verdadeiro com o serviço dos seus ídolos nativos. Por isso, no que diz respeito a esse ponto particular, somos informados de que não faziam segundo os seus estatutos e juízos, nem segundo a lei e o mandamento que Jeová ordenou aos filhos de Jacó.
“Ora, é evidente que todo esse relato supõe que eles tinham uma cópia do Pentateuco; pois, se o sacerdote devia instruí-los na lei do Senhor, naturalmente lhes comunicaria uma cópia dessa lei; e, embora as suas antigas superstições os levassem a desprezar as proibições dela, ainda assim não se poderia dizer com propriedade deles que não faziam segundo os seus estatutos e juízos, nem segundo a lei e o mandamento que Jeová ordenou aos filhos de Jacó, se o tempo todo desconhecessem inteiramente aqueles estatutos e aqueles juízos, aquela lei e aquele mandamento. É manifesto, portanto, que eles devem ter recebido naquela época a cópia do Pentateuco que sempre conservaram religiosamente depois. Mas essa cópia é exatamente a mesma que os judeus e nós ainda recebemos. Por conseguinte, como os samaritanos a receberam alguns anos antes até do cativeiro babilônico de Judá, e como ela é exatamente o mesmo código que alguns de bom grado atribuiriam a Esdras, podemos ter a certeza de que aquele escriba erudito não poderia de modo algum ter sido o seu autor, mas que nos transmitiu a lei genuína de Moisés com a máxima boa-fé e integridade.
“Aqui não podemos deixar de observar a providência de Deus em suscitar um testemunho tão irrepreensível quanto o dos samaritanos. Eles e os judeus se odiavam cordialmente, e ambos possuíam uma cópia do Pentateuco. Por isso, se houvesse qualquer disposição para adulterar o texto, eles atuavam como freio um do outro; e o resultado foi que talvez não se possa apontar nenhuma alteração deliberada, exceto o texto relativo a Gerizim e Ebal.
“A aceitação universal do Pentateuco como a lei inspirada de Moisés em toda a comunidade de Israel, antes de sua ruptura em dois reinos hostis, o magnífico templo de Salomão e todo o ritual a ele ligado dependem claramente, por inteiro, de um Pentateuco previamente existente. E esse código proíbe tão rigorosamente mais de uma prática de Salomão que, mesmo sem falar da objeção geral fundada na novidade, é inacreditável que ele tenha sido seu autor ou que o livro tenha sido escrito sob sua aprovação e autoridade.
“Tampouco podemos, com algum grau de probabilidade, atribuí-lo a Davi. Sua vida foi ocupada por perturbações e guerras quase incessantes; e é difícil conceber como um livro escrito por esse príncipe poderia, no espaço de pouquíssimos anos, ser universalmente recebido como composição inspirada de Moisés, quando ninguém jamais ouvira dizer que Moisés tivesse deixado algum código legislativo.
“O Pentateuco poderia ser atribuído a Samuel com mais plausibilidade do que a qualquer desses dois príncipes; mas essa suposição não resiste por um momento sequer ao teste da investigação racional. Continuaremos a enfrentar a mesma dificuldade de antes: ainda teremos de mostrar como seria possível que Samuel persuadisse todo o Israel a adotar, como lei inspirada e autorizada de Moisés, uma simples composição moderna de sua própria lavra, da qual ninguém jamais ouvira falar.
“Subimos agora até menos de quatro séculos depois do êxodo do Egito e da alegada promulgação da lei no monte Sinai; e, de Esdras até Samuel, não encontramos ninguém a quem se possa atribuir a composição do Pentateuco com alguma aparência de razão ou probabilidade. A única questão que resta é se se pode pensar que ele tenha sido escrito durante os trezentos e cinquenta e seis anos que decorreram entre a entrada dos israelitas na Palestina e a nomeação de Saul como rei de Israel.
“Ora, toda a história que temos desse período proíbe inteiramente tal suposição. Os israelitas, embora caíssem continuamente na idolatria, são descritos de modo uniforme como reconhecendo a autoridade de uma lei escrita de Moisés; e essa lei, de geração em geração, é apresentada como a norma pela qual os juízes governavam o povo. Assim, Samuel se refere expressamente a um mandamento bem conhecido de Jeová e à missão divina de Moisés e Arão, num discurso que fez aos israelitas reunidos. Assim, o homem de Deus, em sua ameaça profética a Eli, refere-se de modo semelhante ao fato conhecido, registrado no Pentateuco, de que a casa de seu antepassado fora escolhida para o sumo sacerdócio dentre todas as tribos de Israel. Assim, quando se enumeram as nações que foram deixadas para pôr o povo à prova, diz-se que foram deixadas com este propósito: para que se soubesse se os israelitas dariam ouvidos aos mandamentos de Jeová, que ele ordenara a seus pais por meio de Moisés. Assim, declara-se que Josué escreveu o livro que traz o seu nome como suplemento de um livro anterior, chamado o livro da lei de Deus. Assim também ele afirma especificamente que esse livro da lei de Deus é o livro da lei de Moisés; fala com familiaridade de preceitos que estão escritos nesse livro; apresenta-se lendo o seu conteúdo a todo o povo reunido, de modo que nenhum deles pudesse ignorar o seu teor; e menciona que escreveu uma cópia dele na presença dos filhos de Israel. E assim, finalmente, ouvimos falar do original do qual se declara ter sido tirada essa cópia, no próprio volume do Pentateuco; pois ali nos é dito que Moisés, com a própria mão, escreveu as palavras desta lei num livro; e que então ordenou aos levitas que tomassem este livro da lei e o pusessem ao lado da arca da aliança, para que ali estivesse como testemunha, em todas as eras seguintes, contra os israelitas, caso violassem os seus preceitos.” (Resumido de Horae Mosaicae, de Faber.)
NOTA B.
“Em acontecimentos tão públicos e tão notáveis, não havia lugar para engano ou fraude. De todos os milagres registrados nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, não há um só cuja prova seja tão multiplicada quanto a da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes; pois ela não repousa no testemunho daqueles, fossem muitos ou poucos, que estavam todos reunidos no mesmo lugar. É atestada por toda Jerusalém e pelos naturais de regiões muito distantes de Jerusalém; pois, diz o historiador, ‘estavam morando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Assim, quando se divulgou a inspiração dos discípulos, afluiu a multidão, que foi tomada de perplexidade, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. Estavam atônitos e se admiravam, dizendo uns aos outros: Vejam! Não são galileus todos esses que aí estão falando? Então como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes. Como os ouvimos falar sobre as grandezas de Deus em nossas próprias línguas?’ (At 2.5-11).
“A incredulidade objetou contra a ressurreição de Cristo que ele deveria ter aparecido publicamente em todos os lugares onde aparecera antes de sua crucificação. Mas aqui está um milagre exibido muito mais amplamente do que a ressurreição de Cristo poderia ter sido, se ele tivesse pregado abertamente e operado milagres durante quarenta dias no templo e nas sinagogas de Jerusalém, como fizera antes; e esse milagre está tão ligado à ressurreição que, admitido que os apóstolos falaram uma variedade de línguas, a ressurreição de Jesus não pode ser negada. Em resposta àqueles (provavelmente os naturais de Jerusalém) que, imaginando que os apóstolos proferiam algaravia, os acusavam de estar cheios de vinho novo, são Pedro disse: ‘Homens da Judeia e todos vocês que moram em Jerusalém, tomem conhecimento disto e prestem atenção no que vou dizer. Estes homens não estão bêbados, como vocês estão pensando, porque são apenas nove horas da manhã. Jesus, o Nazareno, homem aprovado por Deus diante de vocês com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou entre vocês por meio dele, como vocês mesmos sabem, a este, conforme o plano determinado e a presciência de Deus, vocês mataram, crucificando-o por meio de homens maus. Deus ressuscitou este Jesus, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado, pois, à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vocês estão vendo e ouvindo’ (At 2.14-15,22-23,32-33).
“Assim, pela efusão miraculosa do Espírito Santo no dia de Pentecostes, a ressurreição e a ascensão de Cristo foram provadas a uma variedade de nações da Ásia, da África e da Europa, todas as partes do globo então conhecidas, tão completamente como se ele tivesse de fato aparecido no meio daquela multidão mista em Jerusalém, repreendido o sumo sacerdote e o conselho dos judeus por sua incredulidade e dureza de coração, e então subido ao céu na presença deles. Tinham prova incontestável de que são Pedro e os outros apóstolos eram inspirados pelo Espírito de Deus. Não podiam deixar de saber, como todo teísta admite, que o Espírito de Deus nunca foi, nem jamais será, derramado para capacitar qualquer classe de homens a propagar com êxito a falsidade. Um daqueles que, por essa inspiração, falavam corretamente uma variedade de línguas assegurou-lhes que Jesus de Nazaré, a quem eles haviam matado, ressuscitara dentre os mortos e fora exaltado à direita de Deus; e que esse mesmo Jesus, segundo a sua promessa, derramara sobre os apóstolos aquilo que eles viam e ouviam. A consequência de tudo isso, segundo nos é dito, foi que três mil dos seus ouvintes se converteram imediatamente à fé e, no mesmo dia, foram incorporados à Igreja pelo batismo.
“Alguém em seu juízo perfeito teria escrito uma narrativa de acontecimentos como esses no exato tempo em que se diz terem ocorrido, e em qualquer um daqueles países a cujos habitantes ele apela como testemunhas de sua veracidade, se não soubesse que essa veracidade não podia ser posta em dúvida? Algum falsificador de um livro como os Atos dos Apóstolos, num período próximo daquele em que, segundo relata, tão espantosos acontecimentos haviam ocorrido, teria apelado sem necessidade, para a veracidade de sua narrativa, ao povo de todas as nações, saindo assim do seu caminho para fornecer aos leitores inúmeros meios de descobrir a sua impostura? Na verdade, em período algum livros forjados, como os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos, poderiam ter sido recebidos como autênticos, a não ser que todos os acontecimentos que registram, naturais ou sobrenaturais, tivessem sido cridos, todas as doutrinas principais recebidas e todos os ritos religiosos que prescrevem praticados, desde o próprio período em que apresentam o Filho de Deus peregrinando na terra, lançando o fundamento de sua Igreja, morrendo numa cruz, ressuscitando dentre os mortos e subindo ao céu. Talvez o argumento não possa ser empregado para provar a autenticidade de todas as epístolas que formam parte tão grande do Novo Testamento; mas certamente se aplica a algumas delas tanto quanto aos Evangelhos e ao livro chamado Atos dos Apóstolos.
Os apóstolos, como bem observa Michaelis (Introduction to the New Testament, cap. II, seção 1), ‘aludem com frequência, em suas epístolas, ao dom de milagres que haviam comunicado aos cristãos convertidos pela imposição de mãos, em confirmação da doutrina transmitida em seus discursos e escritos, e às vezes a milagres que eles próprios haviam realizado’. Ora, se essas epístolas são realmente genuínas, os milagres a que se referem certamente foram operados, e as doutrinas pregadas eram divinas; pois nenhum homem em seu juízo perfeito teria escrito a comunidades numerosas que não somente realizara milagres na presença delas, em confirmação da origem divina de certas doutrinas, mas também lhes comunicara os mesmos dons extraordinários. Ou, se pudermos supor que algum ser humano tivesse descaramento suficiente para escrever dessa maneira a alguma comunidade, é evidente que, longe de ganhar crédito para a sua doutrina com tais afirmações, se não se soubesse que eram verdadeiras, ele se teria exposto ao máximo ridículo e desprezo, e teria arruinado, com conduta tão absurda, a causa que procurava sustentar.
“A primeira Epístola de são Paulo aos Tessalonicenses é dirigida a uma Igreja cristã que ele fundara pouco antes e à qual pregara o evangelho por apenas três sábados. Uma perseguição repentina obrigou-o a deixar essa comunidade antes de lhe ter dado a devida consistência; e, o que é importante no presente caso, ele não estava protegido nem pelo poder do magistrado nem pelo favor do povo. Um suposto operador de prodígios que tenha atraído a plebe para o seu partido pode facilmente realizar as suas façanhas e proclamá-las com segurança. Mas essa mesma plebe, por instigação dos judeus, havia provocado o tumulto que obrigou são Paulo a deixar a cidade. Ele envia, portanto, aos tessalonicenses, que haviam recebido o evangelho, mas cuja fé, temia ele, poderia vacilar sob a perseguição, credenciais e provas de sua missão divina, das quais a primeira e principal são os milagres e os dons do Espírito Santo (1Ts 1.5-10).* Ora, é possível que são Paulo, sem perder toda pretensão de bom senso, pudesse, ao escrever a uma Igreja que estabelecera pouco antes, falar de milagres realizados e de dons do Espírito Santo comunicados, se nenhum membro daquela Igreja tivesse visto uns ou recebido os outros; mais ainda, se muitos membros não tivessem testemunhado tanto a realização dos milagres como as efusões do Espírito Santo? Mas é igualmente impossível que a epístola, fazendo esse apelo a milagres e dons espirituais, pudesse ter sido recebida como autêntica, se tivesse sido forjada em nome de são Paulo em qualquer período posterior, durante a existência de uma Igreja cristã em Tessalônica. Nos dois primeiros capítulos, ela apresenta o seu autor e dois de seus companheiros como tendo estado pouco antes naquela cidade, e apela à Igreja quanto à maneira como se haviam conduzido enquanto estiveram ali, e quanto ao zelo e ao êxito com que haviam pregado o evangelho; e conclui com estas palavras solenes: ‘Eu vos conjuro (ὁρκίζω ὑμᾶς) pelo Senhor que esta epístola seja lida a todos os santos irmãos’ [N. do T.: a NAA traz “Peço, com insistência, em nome do Senhor, que esta carta seja lida para todos os irmãos” (1Ts 5.27)], isto é, a todos os cristãos da comunidade. Se são Paulo, Timóteo e Silvano nunca tivessem estado em Tessalônica, ou se lá se tivessem conduzido de modo diferente, em qualquer aspecto, do que se diz nos dois primeiros capítulos, esses capítulos teriam convencido de falsificação o autor desta epístola, em qualquer época em que ela tivesse aparecido pela primeira vez. Se eles tivessem estado realmente lá, pregado e operado milagres exatamente como se diz que fizeram, e algum impostor, sabendo disso, tivesse forjado a epístola que temos diante de nós a uma distância considerável de tempo, a adjuração no fim dela teria imediatamente denunciado a fraude. Todo cristão tessalonicense de bom senso teria dito: ‘Como é que nunca ouvimos falar desta epístola antes? O seu autor apresenta a si mesmo e a dois de seus amigos como tendo nos convertido à fé muito pouco tempo antes de ela ser escrita e enviada a nós; e ele ordena àqueles a quem ela foi enviada diretamente, da maneira mais solene possível, que a façam ler a cada um de nós. Nenhum cristão de Tessalônica teria ousado, num assunto dessa natureza, desobedecer à autoridade de um apóstolo, sobretudo quando reforçada por adjuração tão solene; e, no entanto, nem nós nem nossos pais jamais ouvimos falar desta epístola até agora, quando Paulo, Silvano e Timóteo já estão todos mortos e, portanto, incapazes de confirmar ou refutar a sua autenticidade!’ Tal epístola, se não fosse genuína, jamais poderia ter sido recebida por comunidade alguma.
“O mesmo apóstolo, em sua primeira Epístola aos Coríntios, corrige o abuso de certos dons espirituais, particularmente o de falar diversas espécies de línguas, e prescreve regras para o emprego desses talentos sobrenaturais. Entra numa descrição pormenorizada deles, tal como existiam na Igreja de Corinto; discorre sobre o valor e a excelência de cada um; diz que eram limitados em sua duração, que não eram sinal distintivo do favor divino, nem tinham tanta importância quanto a fé e a virtude, o amor a Deus e a caridade para com o próximo. Ora, se essa epístola foi realmente escrita por são Paulo aos coríntios, e eles na verdade não haviam recebido dons espirituais, nenhum poder, comunicado por meios extraordinários, de falar línguas estrangeiras, o lugar que lhe caberia não seria entre os impostores, mas entre os que perderam o juízo. Um prestidigitador pode enganar pela destreza das mãos e persuadir os ignorantes e crédulos de que são necessários meios mais que humanos para realizar os seus feitos extraordinários; mas dificilmente persuadirá aqueles cujo entendimento permanece intacto de que também comunicou aos espectadores o poder de operar milagres e de falar línguas que nunca aprenderam, se eles tiverem consciência de sua incapacidade de fazer uma coisa ou de falar a outra. Portanto, se a epístola foi escrita durante a vida de são Paulo e recebida pela Igreja de Corinto, é impossível duvidar de que são Paulo foi o seu autor e de que entre os coríntios prevaleciam aqueles dons espirituais cujo abuso ele se esforça por corrigir. Se esses dons nunca prevaleceram entre os cristãos de Corinto, e essa epístola não foi vista por eles até a geração seguinte, ela não poderia ter sido recebida pela Igreja de Corinto como escrito genuíno do apóstolo. Pois os membros daquela Igreja certamente saberiam que, se os dons de que ela fala tivessem sido realmente possuídos e tão amplamente exibidos por seus pais, como ela os representa, alguns deles certamente teriam ouvido seus pais mencioná-los. E, como a epístola trata de alguns dos assuntos mais importantes que já ocuparam a mente humana, a entrada da morte no mundo por meio de Adão e a ressurreição dos mortos por meio de Cristo, eles teriam concluído que seus pais não teriam escondido de seus filhos um tratado sobre temas tão interessantes para todo o gênero humano.” (Edição de Gleig da History of the Bible de Stackhouse, vol. III, Introd., p. 11 e seguintes.)
* Veja-se o Greek Testament de Hardy; Whitby sobre a passagem; e os léxicos de Schleusner e Parkhurst, no verbete δύναμις.
1. “Expulsou de Roma os judeus, que, por instigação de Cristo, viviam provocando tumultos.” (Suetônio, Edit. Var., p. 544.) ↩
2. “O autor desse nome, Cristo, foi executado no reinado de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos.” (Annal. l. 5.) ↩
3. Veja-se a nota A no fim deste capítulo, para uma prova mais ampla dos pormenores acima. ↩
4. O raciocínio de Leslie, tão incontestável quanto aos quatro últimos livros do Pentateuco, não se aplica tão plenamente ao livro de Gênesis. Poucos, porém, contestarão a genuinidade deste, se for concedida a dos outros livros de Moisés. É certo, porém, que o livro de Gênesis deve ter sido escrito antes dos outros livros do Pentateuco, pois Êxodo se refere constantemente a acontecimentos que não estão registrados em parte alguma senão no livro de Gênesis; e, sem o livro de Gênesis, o começo abrupto de Êxodo teria sido tão ininteligível para os judeus quanto o seria para nós. O Pentateuco deve, portanto, ser considerado um só livro, em cinco divisões, com coerência e dependência mútuas. ↩
5. Veja-se a nota B no fim deste capítulo, na qual o mesmo tipo de argumento é ilustrado pelo dom miraculoso de línguas. ↩
6. “Que direi de Sócrates”, diz Cícero, “cuja morte costumo chorar ao ler Platão?” (De Natura Deorum, p. 329, edição de Davies, 1723.) Veja-se também o Fédon de Platão, passim, particularmente as páginas 311 e 312, edição de Forster, Oxford, 1741. ↩