Estando assim completa a prova histórica da antiguidade e da genuinidade dos livros atribuídos a Moisés e daqueles que contêm a história de Cristo e o estabelecimento de sua religião, a questão que se apresenta em seguida é a integridade das cópias atualmente recebidas.
Quanto às Escrituras do Antigo Testamento, a lista de Josefo, a tradução da Septuaginta e o Pentateuco samaritano são provas suficientes de que os livros que recebemos como sagrados são os mesmos que os judeus e os samaritanos recebiam muito antes da era cristã. Quanto ao Novo Testamento, além das citações de quase todos os livros hoje incluídos nesse volume e das referências nominais a eles nos mais antigos escritores cristãos, publicaram-se em épocas muito remotas catálogos das Escrituras autênticas, os quais, diz o dr. Paley, embora numerosos e feitos em países muito distantes uns dos outros, diferem muito pouco, não diferem em nada de essencial, e todos contêm os quatro Evangelhos.
“Nos escritos de Orígenes que restam, e em alguns extratos preservados por Eusébio de obras suas hoje perdidas, há enumerações dos livros da Escritura nas quais os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos são especificados com clareza e com honra, e nas quais não aparece nenhum livro além dos que hoje são recebidos. (Lard. Cred., vol. III, p. 234 ss.; vol. VIII, p. 196.) A data das obras de Orígenes é 230 d.C.
“Atanásio, cerca de um século depois, apresentou formalmente um catálogo dos livros do Novo Testamento que contém as nossas Escrituras e nenhuma outra, do qual diz: ‘Somente nestes se ensina a doutrina da religião; ninguém lhes acrescente nem lhes tire coisa alguma’. (Lard. Cred., vol. VIII, p. 223.)
“Cerca de vinte anos depois de Atanásio, Cirilo, bispo de Jerusalém, publicou um catálogo dos livros da Escritura lidos publicamente naquele tempo na Igreja de Jerusalém, exatamente igual ao nosso, exceto que o Apocalipse é omitido. (Lard. Cred., vol. VIII, p. 270.)
“E, quinze anos depois de Cirilo, o concílio de Laodiceia apresentou um catálogo oficial da Escritura canônica, semelhante ao de Cirilo, igual ao nosso, com a omissão do Apocalipse.
“Os catálogos passam então a ser frequentes. Dentro de trinta anos depois da última data, isto é, do ano 363 até perto do fim do século IV, temos catálogos de Epifânio (Lard. Cred., vol. VIII, p. 368), de Gregório Nazianzeno (Lard. Cred., vol. IX, p. 132), de Filástrio, bispo de Bréscia, na Itália (Lard. Cred., vol. IX, p. 373), e de Anfilóquio, bispo de Icônio: todos eles, como às vezes são chamados, catálogos limpos (isto é, não admitem no número nenhum livro além dos que hoje recebemos), e todos, para qualquer finalidade de prova histórica, iguais ao nosso.1
“No mesmo período, Jerônimo, o mais erudito escritor cristão de sua época, apresentou um catálogo dos livros do Novo Testamento que reconhece todos os livros hoje recebidos, apenas insinuando uma dúvida quanto à Epístola aos Hebreus, e que não faz a menor menção de livro algum que hoje não seja recebido. (Lard. Cred., vol. X, p. 77.)
“Contemporâneo de Jerônimo, que vivia na Palestina, era santo Agostinho, na África, que publicou igualmente um catálogo, sem juntar às Escrituras, como livros de autoridade, nenhum outro escrito eclesiástico, e sem omitir um só dos que hoje reconhecemos.
(Lard. Cred., vol. X, p. 213.)
“E com estes concorda outro escritor contemporâneo, Rufino, presbítero de Aquileia, cujo catálogo, como o deles, é perfeito e sem mistura, e termina com estas palavras notáveis: ‘Estes são os volumes que os Pais incluíram no cânon, e com base nos quais quiseram que provássemos a doutrina da nossa fé’.” (Lard. Cred., vol. X, p. 187.)
É verdade que isso prova apenas que os livros são substancialmente os mesmos; mas há prova abundante de que eles chegaram até nós sem nenhuma alteração essencial.
1. Antes daquele acontecimento [o tempo de Cristo], a consideração que os judeus lhes tinham, especialmente à lei, tornaria impossível qualquer falsificação ou mudança essencial em seu conteúdo. Como a lei fora o título pelo qual a terra de Canaã foi dividida entre os israelitas, é improvável que esse povo, que possuía a terra, permitisse que ela fosse alterada ou falsificada. A distinção das doze tribos e os seus interesses separados tornavam mais difícil alterar a sua lei do que a de outras nações menos zelosas que os judeus. Além disso, em certas épocas fixas, a lei era lida publicamente diante de todo o povo de Israel (Dt 31.9-13; Js 8.34-35; Ne 8.1-5); e foi determinado que fosse guardada na arca, como memorial constante contra os que a transgredissem (Dt 31.26). O rei era obrigado a escrever num livro uma cópia desta lei, feita a partir do livro que está com os sacerdotes levitas, e a ler nele todos os dias da sua vida (Dt 17.18-19); os sacerdotes também receberam ordem de ensinar aos filhos de Israel todos os estatutos que o Senhor lhes falara por meio de Moisés (Lv 10.11); e os pais eram encarregados não apenas de torná-la familiar a si mesmos, mas também de ensiná-la diligentemente a seus filhos (Dt 6.7; 11.19) [N. do T.: Watson indica Dt 17.18-19, que trata da cópia da lei feita pelo rei]. Além disso, acrescentou-se uma severa proibição de fazer qualquer acréscimo à lei ou de tirar algo dela (Dt 4.2; 12.32). Ora, preceitos como esses não poderiam ter sido dados por um impostor que estivesse fazendo acréscimos à lei e que desejasse que os homens a esquecessem, em vez de ordenar-lhes que a lembrassem. Pois, como todo o povo era obrigado, sob penas severas, a conhecer e observar a lei, ele era, de certo modo, depositário e guardião da lei, tanto quanto os sacerdotes e levitas. O povo, que devia ensinar os filhos, tinha de possuir cópias dela; os sacerdotes e levitas tinham de possuir cópias dela; e os magistrados tinham de possuir cópias dela, por ser a lei do país. Além disso, depois que o povo foi dividido em dois reinos, tanto o povo de Israel como o de Judá continuaram a conservar o mesmo livro da lei; e a rivalidade ou inimizade que havia entre os dois reinos impediu que qualquer deles alterasse a lei ou lhe fizesse acréscimos. Depois que os israelitas foram levados cativos para a
Assíria, outras nações foram postas nas cidades de Samaria em seu lugar; e os samaritanos receberam o Pentateuco, ou do sacerdote que foi enviado por ordem do rei da Assíria para lhes ensinar a maneira de servir o deus daquela terra (2Rs 17.26), ou vários anos depois das mãos de Manassés, filho do sumo sacerdote Joiada, que foi expulso de Jerusalém por Neemias por ter se casado com a filha de Sambalate, governador de Samaria, e que foi constituído por Sambalate o primeiro sumo sacerdote do templo de Samaria. (Ne 13.28 [N. do T.: Watson indica Ne 8.28]; Josefo, Ant. Jud., liv. XI, cap. 8; Works do bispo Newton, vol. I, p. 23.) Ora, por um desses meios ou por ambos, os samaritanos possuíam o Pentateuco tanto quanto os judeus, mas com esta diferença: o Pentateuco samaritano estava nos antigos caracteres hebraicos ou fenícios, nos quais permanece até hoje; ao passo que a cópia judaica foi transposta para os caracteres caldeus (nos quais também permanece até hoje), que eram mais belos e mais claros que os hebraicos, pois os judeus haviam aprendido a língua caldaica durante os setenta anos de permanência na Babilônia.
O zelo e o ódio que havia entre judeus e samaritanos tornavam impraticável que qualquer das duas nações corrompesse ou alterasse o texto em algo de importância sem ser com certeza descoberta; e a concordância geral entre as cópias hebraicas e samaritanas do Pentateuco que hoje existem é tal que demonstra claramente que as cópias eram originalmente as mesmas. Não se pode desejar melhor prova de que as Bíblias judaicas não foram corrompidas nem interpoladas do que esse mesmo livro dos samaritanos, o qual, depois de mais de dois mil anos de discórdia entre as duas nações, difere tão pouco do outro quanto qualquer autor clássico, em espaço de tempo menor, divergiu de si mesmo pelos inevitáveis lapsos e enganos de tantos copistas.2
“Depois do retorno dos judeus do cativeiro babilônico, os livros da lei e dos profetas eram lidos publicamente em suas sinagogas todos os sábados (At 13.14-15,27; Lc 4.17-20), o que era um excelente meio de garantir a sua pureza, bem como de reforçar a observância da lei. As paráfrases caldaicas e a tradução do Antigo Testamento para o grego, feitas depois, foram outras tantas garantias. A esses fatos podemos acrescentar que a reverência dos judeus por seus escritos sagrados é outra garantia de sua integridade. Tão grande era, de fato, essa reverência que, segundo as declarações de Fílon e de Josefo (Fílon, em Eusébio, De Praep. Evang., liv. VIII, cap. 2; Josefo, Contra Apion., liv. I, seção 8), eles sofreriam quaisquer tormentos, e até a própria morte, antes de mudar um único ponto ou iota das Escrituras. Promulgaram também uma lei que declarava culpado de pecado inexpiável quem ousasse fazer a mínima alteração possível em seus livros sagrados. Os doutores judeus, temendo acrescentar algo à lei, faziam passar as suas próprias ideias como tradições ou explicações dela; e tanto Jesus Cristo como os seus apóstolos acusaram os judeus de nutrir uma estima preconceituosa por essas tradições, mas nunca os acusaram de falsificar ou corromper as próprias Escrituras.
“2. Depois do nascimento de Cristo. Pois, desde esse acontecimento, o Antigo Testamento tem sido tido em alta estima tanto pelos judeus como pelos cristãos. Os judeus também sofreram muitas vezes o martírio por suas Escrituras, o que não teriam feito se suspeitassem que elas haviam sido corrompidas ou alteradas. Além disso, judeus e cristãos vigiavam-se mutuamente, o que deve ter tornado impossível qualquer corrupção essencial, se tivesse sido tentada; pois, se os judeus tivessem feito tal tentativa, teriam sido descobertos pelos cristãos. A execução de tal desígnio, na verdade, teria sido impraticável, pela impossibilidade moral de os judeus (dispersos por todos os países do mundo então conhecido) conseguirem reunir todas as cópias então existentes, com a intenção de corrompê-las ou falsificá-las. Por outro lado, se os cristãos tivessem feito tal tentativa, certamente teriam sido descobertos pelos judeus; nem poderia qualquer outro homem ou grupo de homens ter feito tal tentativa sem ser desmascarado tanto por judeus como por cristãos. A essas considerações pode-se acrescentar que a admirável concordância de todas as antigas paráfrases e versões, e dos escritos de Josefo, com o Antigo Testamento tal como existe hoje, juntamente com as citações que dele se fazem no Novo Testamento e nos escritos de todas as épocas até o presente, proíbem-nos de alimentar qualquer suspeita de corrupção essencial nos livros do Antigo Testamento, e nos dão toda a prova possível, de que um assunto desta natureza é capaz, de que esses livros estão hoje em nossas mãos genuínos e não adulterados.
“3. Por fim, a concordância de todos os manuscritos do Antigo Testamento que se sabe existirem (em número de quase mil cento e cinquenta) é prova clara de sua preservação incorrupta. Esses manuscritos, é verdade, não estão todos completos; uns contêm uma parte, outros outra. Mas é absolutamente impossível que todos os manuscritos, seja no hebraico original, seja em qualquer versão ou paráfrase antiga, tivessem sido ou pudessem ser deliberadamente alterados ou falsificados nas mesmas passagens sem que isso fosse descoberto por judeus ou por cristãos. Os manuscritos hoje existentes estão, reconhecidamente, sujeitos a erros e enganos provenientes do descuido, da negligência ou da imprecisão dos copistas; mas não são todos uniformemente incorretos do começo ao fim, nem nas mesmas palavras ou passagens; o que está incorreto num lugar está correto em outro. Embora as variantes descobertas por homens eruditos, que se dedicaram a reunir todos os manuscritos conhecidos das Escrituras hebraicas, cheguem a muitos milhares, essas diferenças têm tão pouca importância real que essas laboriosas colações quase não nos oferecem oportunidade de corrigir o texto sagrado em passagens importantes. Longe, porém, de serem triviais ou inúteis essas extensas e profundas pesquisas, delas obtivemos de fato a maior vantagem que poderia desejar qualquer verdadeiro amigo da religião revelada, a saber, o conhecimento seguro da concordância das cópias das antigas Escrituras hoje existentes em sua língua original, entre si e com as nossas Bíblias.” (Bispo Tomline, Elements of Christian Theology, vol. I, p. 31.)
“Igualmente satisfatória é a prova da integridade e da incorrupção do Novo Testamento em tudo o que é essencial. Os testemunhos apresentados na seção anterior em favor da genuinidade e da autenticidade do Novo Testamento aplicam-se, em grande medida, para mostrar que ele nos foi transmitido inteiro e incorrupto. Mas, para sermos mais específicos, observamos que a preservação incorrupta dos livros do Novo Testamento é manifesta:
“1. Pelo seu conteúdo; pois, já nos dois primeiros séculos da era cristã, encontramos universalmente recebidos pelos cristãos exatamente os mesmos fatos e exatamente as mesmas doutrinas que nós, nos dias de hoje, cremos com base no crédito do Novo Testamento.
“2. Porque uma corrupção universal desses escritos era impossível, nem se pode encontrar na história o menor vestígio de tal corrupção. Eles não poderiam ser corrompidos durante a vida de seus autores; e, antes da morte destes, já havia cópias espalhadas entre as diversas comunidades de cristãos, dispersas por todo o mundo então conhecido. Dentro de vinte anos após a ascensão, formaram-se Igrejas nas principais cidades do Império Romano; e em todas essas Igrejas os livros do Novo Testamento, especialmente os quatro Evangelhos, eram lidos como parte do culto público, assim como os escritos de Moisés e dos profetas eram lidos nas sinagogas judaicas.3 Nem o seu uso se limitaria ao culto público; pois esses livros não ficavam, como os oráculos sibilinos, trancados longe da leitura do público, mas estavam expostos ao exame público. Quando os livros do Novo Testamento foram publicados pela primeira vez ao mundo, os cristãos naturalmente teriam a mais alta estima e reverência por escritos que transmitiam uma história autêntica e inspirada da vida e das doutrinas de Jesus Cristo, e desejariam possuir tesouro tão inestimável. Por isso, como sabemos por autoridade incontestável, as cópias se multiplicaram e se difundiram tão rapidamente quanto se ampliavam as fronteiras da Igreja; e fizeram-se traduções para tantas línguas quantas eram faladas pelos que a professavam, algumas das quais permanecem até hoje; de modo que muito cedo se tornaria absolutamente impossível corromper esses livros em uma só palavra ou frase importante. Ora, não se pode supor (sem violar toda probabilidade) que todos os cristãos concordassem num plano de mudar ou corromper os livros originais; e, se apenas alguns fizessem a tentativa, as cópias incorruptas continuariam a existir para desmascará-los. E, supondo que houvesse algum erro numa tradução ou cópia, ou algo mudado, acrescentado ou suprimido, havia muitas outras cópias e outras traduções com cuja ajuda o descuido ou a fraude poderia ser, ou seria, corrigido.
“Além disso, assim como esses livros não poderiam ser corrompidos durante a vida de seus respectivos autores e enquanto vivia grande número de testemunhas para atestar os fatos que registram, tampouco poderia ocorrer qualquer alteração essencial depois da morte deles sem ser descoberta, enquanto os manuscritos originais eram preservados nas Igrejas. Os cristãos instruídos pelos apóstolos ou por seus sucessores imediatos viajaram por todas as partes do mundo levando consigo cópias de seus escritos, das quais outras cópias se multiplicaram e foram preservadas. Ora, como já vimos, temos uma série ininterrupta de testemunhos da genuinidade e da autenticidade do Novo Testamento, que pode ser seguida para trás desde o século IV da era cristã até o próprio tempo dos apóstolos; e esses mesmos testemunhos servem igualmente para provar a sua preservação incorrupta. Além disso, compuseram-se desde a Antiguidade harmonias dos quatro Evangelhos; escreveram-se comentários sobre eles, bem como sobre os outros livros do Novo Testamento (muitos dos quais ainda existem); colacionaram-se manuscritos e publicaram-se edições do Novo Testamento. Esses registros sagrados, sendo universalmente considerados a norma suprema da verdade, eram recebidos por todas as classes de cristãos com respeito singular, como composições divinas e dotadas de uma autoridade que não pertencia a nenhum outro livro. Por isso, quaisquer que fossem as controvérsias surgidas entre as diversas seitas (e a Igreja muito cedo foi dilacerada por violentas disputas sobre pontos doutrinários), as Escrituras do Novo Testamento eram recebidas por todas elas, e todas apelavam a elas como decisivas em todas as questões controvertidas. Consequentemente, era moralmente impossível que qualquer homem ou grupo de homens as corrompesse ou falsificasse em algum artigo fundamental, nelas introduzisse uma única expressão para favorecer as suas opiniões particulares ou apagasse uma única frase, sem ser descoberto por milhares.
“Se os ortodoxos tivessem tentado alguma alteração essencial, ela teria sido descoberta pelos hereges; e, por outro lado, se um herege tivesse inserido, alterado ou falsificado alguma coisa, teria sido desmascarado pelos ortodoxos ou por outros hereges. É bem sabido que no século IV começou uma divisão entre as Igrejas oriental e ocidental, que, por volta de meados do século IX, se tornou irreconciliável e subsiste até hoje. Ora, teria sido impossível alterar todas as cópias do império oriental; e, se isso tivesse sido possível no Oriente, as cópias do Ocidente teriam revelado a alteração. Mas, de fato, as cópias orientais e as ocidentais concordam, o que não se poderia esperar se umas ou outras tivessem sido alteradas ou falsificadas. A preservação incorrupta do Novo Testamento é ainda evidente:
“3. Pela concordância de todos os manuscritos. Os manuscritos existentes do Novo Testamento são muito mais numerosos que os de qualquer autor clássico, seja ele qual for; mais de trezentos e cinquenta foram reunidos por Griesbach para a sua célebre edição crítica. É verdade que esses manuscritos não estão todos completos: a maioria contém apenas os Evangelhos; outros, os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos e as Epístolas; e alguns poucos contêm o Apocalipse ou Revelação de João. Mas todos foram escritos em partes do mundo muito diferentes e distantes; vários deles têm mais de mil e duzentos anos e nos dão os livros do Novo Testamento, em todos os pontos essenciais, em perfeita concordância uns com os outros, como qualquer pessoa pode facilmente verificar examinando as edições críticas publicadas por Mill, Küster, Bengel, Wetstein e Griesbach. As trinta mil variantes que, segundo se diz, se encontram nos manuscritos colacionados pelo dr. Mill, e as cento e cinquenta mil que a edição de Griesbach supostamente contém, em nada afetam o crédito geral e a integridade do texto. Na verdade, quanto mais se multiplicam as cópias, e quanto mais numerosas são as transcrições e traduções do original, tanto mais provável é que o texto genuíno e a verdadeira leitura original sejam investigados e determinados. Os clássicos antigos mais corretos e exatos hoje existentes são aqueles de que temos o maior número de manuscritos; e as edições mais deturpadas, mutiladas e inexatas dos escritores antigos são aquelas de que temos menos manuscritos, e talvez um só manuscrito existente. Tais são Ateneu, Clemente Romano, Hesíquio e Fócio. Mas, dessa formidável massa de variantes reunidas pela diligência dos colacionadores, nem um décimo, ou melhor, nem um centésimo, faz ou pode fazer qualquer alteração perceptível, ou pelo menos qualquer alteração essencial, no sentido, em qualquer versão moderna. Consistem quase inteiramente em erros evidentes de transcrição, diferenças gramaticais e verbais, como a inserção ou omissão de um artigo, a substituição de uma palavra por seu equivalente e a transposição de uma ou duas palavras numa frase. Mesmo as poucas que mudam o sentido só o afetam em passagens relativas a circunstâncias históricas e geográficas sem importância ou a outros assuntos secundários; e o número ainda menor das que introduzem alguma alteração em coisas de importância nem por isso nos deixa em incerteza absoluta. Pois ou a verdadeira leitura pode ser descoberta pela colação dos outros manuscritos, das versões e das citações encontradas nas obras dos antigos, ou, se estes não nos derem a informação necessária, podemos explicar a doutrina em questão por outras passagens incontestadas da Sagrada Escritura.
“4. O último testemunho a apresentar em favor da integridade e da incorrupção do Novo Testamento é fornecido pela concordância das versões antigas e das citações que dele se fazem nos escritos dos cristãos dos três primeiros séculos e nos dos Pais da Igreja posteriores.
“O testemunho das versões e a prova fornecida pelos Pais eclesiásticos já foram considerados como prova da genuinidade e da autenticidade do Novo Testamento. As citações do Novo Testamento nos escritos dos Pais são tão numerosas que (como muitas vezes se observou) todo o corpo dos Evangelhos e das Epístolas poderia ser compilado a partir das diversas passagens espalhadas em seus comentários e outros escritos. E, embora essas citações fossem, em muitos casos, feitas de memória, como sempre foram feitas com a devida atenção ao sentido e ao significado, e quase sempre com respeito às palavras e à ordem das palavras, correspondem aos registros originais dos quais foram extraídas. Eis aqui um argumento irrefutável da pureza e da integridade com que o Novo Testamento foi preservado.” (Horne, Introduction to the Critical Study and Knowledge of the Holy Scriptures, vol. I, cap. 2, seção 3.)
1. Epifânio omite os Atos dos Apóstolos. Isso deve ter sido um engano acidental, dele ou de algum copista de sua obra; pois em outro lugar ele se refere expressamente a esse livro e o atribui a Lucas. ↩
2. Dr. Bentley, Remarks on Freethinking, parte I, observação 27 (vol. V, p. 144, do Enchiridion Theologicum do bispo Randolph, in-8º, Oxford, 1792). ↩
3. O dr. Lardner reuniu numerosos exemplos na segunda parte de sua Credibility of the Gospel History; as referências a eles podem ser vistas no índice geral de suas obras, verbete Scriptures. Vejam-se particularmente os testemunhos de Justino Mártir, Tertuliano, Orígenes e Agostinho. ↩