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Parte I · Capítulo XIV

A credibilidade do testemunho dos escritores sagrados

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Apresentadas as provas da existência e dos atos de Moisés e de Cristo, fundadores das religiões judaica e cristã, juntamente com as da antiguidade e da preservação incorrupta dos registros que pretendem conter os fatos de sua história e as doutrinas que ensinaram, a única questão a decidir antes de examinarmos os milagres e as profecias em que se apoia a reivindicação de autoridade divina de sua missão é se esses registros relatam fielmente os acontecimentos de que nos dão notícia e sobre os quais se edifica a divindade de ambos os sistemas, o judaico e o cristão. Negar isso porque objetamos às doutrinas ensinadas é tão ilógico quanto perverso, pois equivale a supor falsa a doutrina antes de termos considerado toda a prova que se pode apresentar em seu favor; negá-lo porque já decidimos rejeitar os milagres é igualmente absurdo e ímpio. Já se provou que os milagres são possíveis; e se os acontecimentos relatados como tais nas Escrituras são ou não realmente miraculosos é uma investigação posterior àquela que diz respeito ao registro fiel deles. Se a prova deste for insuficiente, o exame dos milagres é desnecessário; se for forte e convincente, esse exame é assunto de importância muito séria.

Poderíamos com segurança fundamentar a fidelidade do registro bíblico no argumento de Leslie, já apresentado; mas, pela superabundância de provas que o caso oferece, podem-se acrescentar alguns desenvolvimentos, que limitaremos principalmente aos autores do Novo Testamento.

Há quatro circunstâncias que nunca deixam de dar credibilidade a uma testemunha, quer ela deponha oralmente, quer por escrito:

1. Que seja pessoa de caráter virtuoso e sóbrio.

2. Que tenha estado em condições de conhecer com certeza a verdade do que relata.

3. Que não tenha nenhum interesse em fazer valer a história.

4. Que o seu relato seja minucioso.

Essas garantias de um testemunho fiel e exato reúnem-se no mais alto grau nos evangelistas e apóstolos.

Que eram pessoas de virtude rigorosa e exemplar, todas as pessoas imparciais hão de reconhecer; tanto assim que nem os mais maliciosos inimigos do cristianismo jamais alegaram algo em contrário contra a integridade de sua conduta. A avareza e o interesse não podiam movê-los, pois abandonaram voluntariamente todos os seus vínculos temporais e se lançaram numa causa que o mundo considerava, no último grau, miserável e deplorável. Deram a maior prova de sua sinceridade na franqueza de seu testemunho, sem jamais afetar reserva nem fugir à investigação. Deram o seu testemunho diante de reis e príncipes, sacerdotes e magistrados, em Jerusalém e na Judeia, onde o seu Mestre viveu e morreu, e nas partes mais populosas, curiosas e cultas do mundo, submetendo as suas provas a um exame justo e imparcial.

“Seu espírito estava tão penetrado da convicção da verdade do evangelho que consideravam distinta honra e privilégio selar com os seus sofrimentos o testemunho que davam dele, e bendiziam a Deus por terem sido considerados dignos de sofrer afronta e vergonha por sua profissão de fé. Passavam por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros. Nunca abatidos, nunca intimidados por quaisquer tristezas e sofrimentos que suportassem; mas, quando apedrejados, presos e perseguidos numa cidade, fugiam para outra e ali pregavam o evangelho com ousadia intrépida e zelo inspirado do céu. Pacientes na tribulação, fervorosos de espírito, alegres sob a perseguição, calmos e serenos sob a calúnia e o opróbrio, orando por seus inimigos, e, nas masmorras, alegrando as horas silenciosas da noite com hinos de louvor a Deus. Enfrentavam a própria morte, nas formas mais terríveis com que a fúria perseguidora podia revesti-la, com uma serenidade e um júbilo que a filosofia estoica jamais conheceu. Em todas essas cenas públicas mostravam ao mundo um coração infinitamente acima do que os homens costumam chamar de grande e feliz, infinitamente distante da ambição, da cobiça do ouro e da paixão pelo aplauso popular. Trabalhavam com as próprias mãos para obter um sustento escasso, a fim de não serem pesados às comunidades que haviam formado; apresentavam a todos com quem conviviam, no espelho claro e fiel do seu próprio comportamento, a amabilidade e a excelência da religião que ensinavam; e, em toda cena e circunstância da vida, distinguiam-se por sua devoção a Deus, seu amor invencível pela humanidade, seu sagrado respeito pela verdade, seu domínio próprio, moderação, humanidade, sinceridade e toda virtude divina, social e moral que pode adornar e elevar um caráter. Tampouco há traços de fanatismo nos escritos que nos deixaram. Não encontramos neles fervores frenéticos permitidos, nem recomendação de um afastamento monástico do mundo, nem aprovação da mortificação do corpo, nem instituições contrárias à natureza estabelecidas, nem vãos voos da fantasia acalentados, nem doutrinas absurdas e irracionais ensinadas, nem estímulo à desobediência a qualquer forma de governo humano; ao contrário, todas as instituições civis e todos os vínculos sociais foram deixados no mesmo estado em que estavam antes do cristianismo. Tão longe estavam os apóstolos de ser fanáticos, impelidos por um frenesi religioso desvairado e sem discernimento a lançar-se nas garras da morte quando dela poderiam ter escapado honrosa e legitimamente, que os vemos, quando podiam, sem ferir a consciência, livrar-se legalmente da perseguição e da morte, alegar os seus privilégios de cidadãos romanos e apelar para a jurisdição suprema de César.” (Harwood, Introduction to the New Testament.)

Assim como era contrário ao seu caráter tentar enganar os outros, também não podiam eles mesmos ser enganados. Não podiam equivocar-se no caso da alimentação dos cinco mil e da cura repentina de leprosos, coxos e cegos; não podiam deixar de saber se aquele com quem conviveram durante quarenta dias era o mesmo Jesus com quem haviam tido trato diário e familiar muito antes de sua crucificação. Não podiam equivocar-se quanto à sua ascensão ao céu; quanto ao fato de eles mesmos terem sido repentinamente dotados do poder de falar línguas que nunca haviam aprendido; e quanto a serem capazes de operar milagres e de comunicar o mesmo poder a outros.

Não apenas eram desinteressados em seu testemunho, mas os seus interesses estavam do lado do silêncio. Um dos evangelistas, Mateus, ocupava uma posição lucrativa quando foi chamado por Jesus e era evidentemente um homem abastado; os pescadores da Galileia viviam pelo menos em condições confortáveis, e o seu Mestre nunca lhes acenou com nenhum atrativo mundano; Nicodemos era um líder entre os judeus; José de Arimateia, “um homem rico” (Mt 27.57); e são Paulo, por sua educação, relações e talentos, tinha perspectivas animadoras na vida. Mas ele fala de si mesmo e de seus companheiros de trabalho, e descreve todas as recompensas terrenas que obtiveram por testemunhar a judeus e gregos que Jesus era o Cristo: “Até a presente hora, sofremos fome, sede e nudez; somos esbofeteados e não temos morada certa; […] Até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos” (1Co 4.11,13). Por fim, selaram em muitos casos o seu testemunho com o próprio sangue, circunstância da qual haviam sido advertidos de antemão por seu Mestre e na expectativa diária da qual viviam. Daí ser irresistível a conclusão do dr. Paley: “Esses homens não podiam ser enganadores. Bastava não darem testemunho para evitarem todos os seus sofrimentos e viverem tranquilos. Homens em tais circunstâncias alegariam ter visto o que nunca viram, afirmariam fatos de que não tinham conhecimento, andariam mentindo para ensinar a virtude e, embora não só convencidos de que Cristo era um impostor, mas tendo visto o resultado de sua impostura na crucificação, ainda assim persistiriam em levá-la adiante, e persistiriam a ponto de atrair sobre si mesmos, em troca de nada e com pleno conhecimento das consequências, inimizade e ódio, perigo e morte?”

Para completar o caráter do seu testemunho, ele é minucioso no mais alto grau. Nunca vemos que relatos forjados ou falsos sejam abundantes em pormenores; e, onde se relatam muitos pormenores de tempo, lugar, pessoas etc., há sempre forte presunção de verdade, e o contrário também se dá. Aqui a prova é mais do que presuntiva. A história dos evangelistas e dos Atos dos Apóstolos está tão cheia de referências a pessoas então vivas, e muitas vezes pessoas de importância, e a lugares onde milagres e outros acontecimentos se deram publicamente e não em segredo; e a aplicação de todos esses fatos pelos primeiros propagadores da religião cristã, para dar crédito à sua autoridade divina, foi tão frequente e explícita, e muitas vezes tão repreensiva para os seus opositores, que, se não fossem verdadeiros, teriam sido contestados; e, se contestados com boas provas, os autores teriam ficado esmagados de confusão. Esse argumento se torna ainda mais forte quando se considera que “nada se passou em algum lugar escondido” (At 26.26), nem era aquela uma época obscura e iletrada, propensa a aceitar fábulas. A época de Augusto foi a mais culta que o mundo já viu. O amor às artes, às ciências e à literatura era a paixão universal em quase todas as partes do Império Romano onde o cristianismo foi primeiro ensinado em suas doutrinas e proclamado em seus fatos; e foi nessa era curiosa e perspicaz que ele surgiu, floresceu e se estabeleceu, com muita resistência às suas doutrinas, mas sem que a verdade de seus fatos históricos fosse questionada uma só vez.

E, no entanto, com que facilidade poderiam ter sido refutados, se fossem falsos: que Herodes, o Grande, não era o soberano da Judeia quando nosso Senhor nasceu; que magos do Oriente não vieram informar-se do lugar do seu nascimento; e que Herodes não convocou o Sinédrio para indagar onde haveria de nascer o Messias esperado; que as crianças de Belém não foram massacradas; que no tempo de Augusto toda a Judeia não foi recenseada por um edito imperial; que Simeão não tomou o menino nos braços e o proclamou a esperada salvação de Israel, o que, segundo se diz, foi feito publicamente no templo, diante de todo o povo; que as numerosas pessoas, das quais muitas são mencionadas pelo nome, e algumas parentes de autoridades e centuriões, não foram curadas milagrosamente nem ressuscitadas dentre os mortos; que a ressurreição de Lázaro, que se diz ter ocorrido publicamente, perto de Jerusalém, sendo ele mesmo pessoa respeitável e bem conhecida, não aconteceu; que as circunstâncias do julgamento, da condenação e da crucificação de Cristo não se deram como as relatam os seus discípulos; em particular, que Pilatos não lavou as mãos diante deles nem deu testemunho do caráter de nosso Senhor; que não houve trevas sobrenaturais do meio-dia às três da tarde no dia da crucificação; e que não houve terremoto: fatos que, se não tivessem ocorrido, poderiam ter sido contestados por milhares. Por fim, que esses homens iletrados e bem conhecidos, os apóstolos, não foram ouvidos falando em línguas por muitos que estavam presentes na assembleia em que se diz que isso ocorreu. Mas poderíamos escolher quase todas as circunstâncias dos quatro Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos e mostrar que, na maior parte, podiam ser contestadas no tempo em que foram publicadas pela primeira vez; e que o imenso número de circunstâncias mencionadas teria fornecido, em tempos posteriores, a investigadores perspicazes da história os meios de descobrir a sua falsidade, se ela não fosse indubitável, seja comparando os diversos relatos entre si, seja comparando-os com fatos bem autenticados de histórias paralelas acreditadas. Ao contrário, as pequenas variações na narrativa dos evangelistas são confirmações do seu testemunho, pois provam que não havia entre eles nenhum conluio para enganar o mundo, e não afetam em nada os fatos da própria história; ao passo que, na medida em que a história paralela, ou imediatamente posterior, deu o seu testemunho, já vimos que ela confirma a exatidão e a precisão dos escritores sagrados.

Por todas essas razões, as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento devem ser tomadas como registro fiel e incorrupto dos acontecimentos que apresentam; e nada mais parece necessário agora senão examinar esse registro, a fim de determinar se tem direito a ser admitido como o depósito das revelações permanentes da vontade de Deus à humanidade. A prova da genuinidade e da autenticidade dos livros de que se compõe, ao menos daqueles que são necessários ao argumento, é plena e completa; e, se se provar que certos fatos que eles relatam são realmente miraculosos, e que as profecias que registram são preditivas no sentido próprio, então, segundo os princípios já estabelecidos, a conclusão deve ser que as doutrinas que eles atestam são divinas. Este será o próximo assunto a examinar, ficando adiadas as objeções menores, que serão respondidas num capítulo posterior.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).