Já se provou que os milagres são possíveis, que são provas apropriadas, necessárias e satisfatórias de uma revelação vinda de Deus, e que, como os demais fatos, podem ser autenticados por testemunho digno de crédito. Estabelecidos esses pontos, as principais questões que temos diante de nós são estas: se os fatos apresentados como milagrosos no Antigo e no Novo Testamento têm direito suficiente a esse caráter, e se foram realizados para confirmar a doutrina e a missão dos fundadores da religião judaica e da religião cristã.
Convém repetir aqui a definição de verdadeiro milagre que adotamos: milagre é um efeito ou acontecimento contrário à constituição estabelecida ou ao curso estabelecido das coisas, ou uma suspensão perceptível das leis conhecidas da natureza, um controle sobre elas ou um desvio delas, realizado pelo ato imediato de Deus, ou com o seu concurso, ou com a sua permissão, para prova ou evidência de alguma doutrina particular, ou em atestação da autoridade de alguma pessoa em particular.
A força do argumento tirado dos milagres está nisto: como tais obras estão manifestamente acima do poder humano, e como nenhum ser criado pode realizá-las sem que o Autor da natureza lhe dê poder para isso, quando são realizadas com um fim como o mencionado na definição, devem ser consideradas autenticações de uma missão divina, por meio de uma intervenção especial e perceptível do próprio Deus.
Seria desnecessário apresentar todas as obras extraordinárias realizadas por Moisés e por Cristo. Naquelas que escolhemos para exame, o caráter milagroso aparecerá de modo suficiente para enquadrá-las em nossa definição. E há de lembrar-se o leitor de que já ficou estabelecido que os livros que contêm o relato desses fatos devem ter sido escritos pelos autores a quem são atribuídos, e que, se os próprios fatos não tivessem ocorrido como ali se relatam, seria impossível que o povo da época em que os relatos foram publicados fosse levado a crer neles. Sobre a base, portanto, dos argumentos já apresentados para provar esses grandes pontos, conclui-se que temos nas Escrituras um relato verdadeiro dos próprios fatos. Nada mais resta, pois, senão estabelecer o direito deles a serem considerados milagres.
Dentre os numerosos milagres realizados por intermédio de Moisés, escolhemos, além dos já mencionados no capítulo IX, a praga das trevas. Duas circunstâncias devem ser notadas no relato que se faz desse acontecimento (Êx 10). As trevas duraram três dias e afligiram somente os egípcios, pois “todos os filhos de Israel tinham claridade nas suas casas” (Êx 10.23). O fato aqui mencionado foi do tipo mais público possível, e, se não tivesse acontecido, todo egípcio e todo israelita poderiam ter contestado o relato. O fenômeno não foi produzido por um eclipse do sol, porque nenhum eclipse desse astro pode durar tanto. Alguns escritores romanos mencionam uma escuridão diurna tão grande que as pessoas não conseguiam reconhecer umas às outras; mas não temos notícia histórica de nenhuma outra escuridão tão prolongada como esta, e tão intensa que os egípcios não se levantaram “do seu lugar durante três dias” (Êx 10.23). Mas, ainda que tal circunstância tivesse voltado a ocorrer e se lhe pudesse atribuir uma causa natural, mesmo assim o caráter milagroso deste acontecimento permaneceria inabalável. Pois a que, senão a uma causa sobrenatural, se poderia atribuir a distinção feita entre os israelitas e os egípcios, quando habitavam uma parte do mesmo país e suas vizinhanças eram imediatamente contíguas? Eis aqui, portanto, as características de um verdadeiro milagre. O curso estabelecido das causas e efeitos naturais é interrompido por uma ação sobre aquele poderoso elemento, a atmosfera. Que não se tratou de uma irregularidade casual da natureza fica evidente pelo fato de o efeito seguir-se à vontade de um homem que agia em nome do Senhor da natureza, e de ter ficado restrito, por essa vontade, a determinada parte do mesmo país: “Moisés estendeu a mão” (Êx 10.22), e as trevas prevaleceram em toda parte, menos nas habitações de seu próprio povo. O fato foi estabelecido por argumentos anteriores, e, admitido o fato, segue-se necessariamente o milagre.
Pode-se considerar em seguida a destruição dos primogênitos dos egípcios. Aqui também há várias circunstâncias que devem ser cuidadosamente notadas. Esse juízo foi anunciado na presença de Faraó antes que qualquer das outras pragas viesse sobre ele e sobre o seu povo. Os israelitas também foram avisados de antemão. Receberam ordem de matar um cordeiro, aspergir o sangue nos batentes das portas e preparar-se para partir naquela mesma noite. O golpe atingiu somente os primogênitos dos egípcios, e não qualquer outro membro da família; ocorreu na mesma hora; os primogênitos dos israelitas escaparam sem exceção; e a festa da “Páscoa” foi instituída a partir daquela noite em memória do acontecimento. Uma festa como essa não poderia, pela própria natureza das coisas, ser estabelecida em alguma época posterior para comemorar um acontecimento que nunca ocorreu; e, se foi instituída naquela ocasião, o acontecimento deve ter ocorrido, porque de modo nenhum aquele grande número de homens poderia ter sido persuadido de que os seus primogênitos tinham sido poupados e os dos egípcios destruídos, se os fatos não tivessem acontecido diante de seus olhos. Estabelecida, pois, a história, segue-se o milagre. Porque a ordem da natureza é suficientemente conhecida para autorizar esta conclusão: se se supusesse que uma peste foi o agente dessa calamidade, uma doença epidêmica, por mais rápida e destrutiva que seja, não vem por ameaça de um mortal, nem faz uma seleção como a dos primogênitos de cada família.
O milagre da divisão das águas do mar Vermelho já foi mencionado, mas merece consideração mais detida. Neste acontecimento observamos, como nos outros, circunstâncias que excluem toda possibilidade de engano ou conluio. O objeto do milagre é o mar; as testemunhas são o exército de Israel, que passou a pé, e a nação egípcia, que perdeu o seu rei e todo o seu exército. As características milagrosas do acontecimento são estas: as águas se dividem e se levantam de cada lado; o instrumento é um forte vento leste, que começa a agir sobre as águas quando Moisés estende a mão e cessa ao mesmo sinal, e isso no momento exato em que o retorno das águas seria mais fatal para o exército egípcio que os perseguia.
Já se perguntou, é verdade, se não haveria alguns bancos de rocha onde a água fosse rasa, de modo que um exército pudesse atravessar em certas ocasiões, e se os ventos etésios, que no verão sopram fortemente do noroeste, não poderiam soprar com tanta violência contra o mar a ponto de retê-lo “em montão”. Mas, ainda que houvesse alguma força nessas perguntas, é claro que tais suposições deixariam sem explicação a destruição dos egípcios. Para mostrar que elas não têm peso algum, observe-se primeiro o lugar onde se deu a passagem do mar Vermelho. Alguns a situam perto de Suez, na extremidade do golfo; mas, se houvesse prova satisfatória disso, deveria também levar-se em conta que antigamente o golfo se estendia pelo menos vinte e cinco milhas ao norte de Suez, lugar onde hoje termina. (Lord Valentia, Travels, vol. III, p. 344.) Mas os nomes dos lugares, assim como a tradição, situam a passagem cerca de dez horas de viagem mais abaixo, em Clisma, ou no vale de Bedea. O nome dado por Moisés ao lugar onde os israelitas acamparam antes que o mar se dividisse foi Pi-Hairote, que significa “a boca da cordilheira”, isto é, daquela cadeia de montanhas que margeia a costa ocidental do mar Vermelho. E, como há uma única abertura nessa cadeia pela qual uma imensa multidão de homens, mulheres e crianças poderia passar ao fugir de seus inimigos, não pode haver dúvida nenhuma quanto à localização de Pi-Hairote. Os nomes modernos de lugares notáveis em suas vizinhanças provam que aqueles que lhes deram esses nomes acreditavam ter sido ali o lugar em que os israelitas atravessaram o mar a salvo e onde Faraó se afogou. Assim, temos bem perto de Pi-Hairote, no lado ocidental do golfo, um monte chamado Attaka, que significa livramento. Na costa oriental, defronte, há um promontório chamado Ras Musa, ou “o Cabo de Moisés”; um pouco mais abaixo, Hammam Faraun, “as Fontes de Faraó”; e, nesses lugares, o nome geral do próprio golfo é Bahr-al-Kolsum, “a Baía da Submersão”, na qual há um redemoinho chamado Birket Faraun, “o Poço de Faraó”. Este, portanto, foi o lugar da passagem dos israelitas. A profundidade do mar ali é dada por Bruce, que pode ser consultado sobre essas localidades, em cerca de catorze braças, e a largura entre três e quatro léguas. Mas ali não há nenhum “banco de rocha”; e, quanto ao “vento etésio”, o mesmo viajante observa: “Se o vento etésio, soprando do noroeste no verão, pudesse manter o mar como um muro de cinquenta pés de altura à direita, ainda restaria a dificuldade de levantar o muro à esquerda, ou ao norte. Se os ventos etésios tivessem feito isso uma vez, teriam de tê-lo repetido muitas vezes, antes ou depois, pelas mesmas causas.” O vento que de fato soprou, segundo a história, quer como instrumento para dividir as águas, quer (o que é mais provável) como instrumento para secar o solo depois que as águas foram divididas pela energia imediata do poder divino, não foi um vento norte, mas um “vento leste” (Êx 14.21). E, como observa o dr. Hales, ele “parece ter sido introduzido por antecipação, para excluir a ação natural a que mais tarde se poderia recorrer para explicar o milagre; pois é digno de nota que a monção no mar Vermelho sopra do norte durante a metade do ano correspondente ao verão e do sul durante a metade correspondente ao inverno, e nenhuma das duas poderia produzir o milagre em questão”.
O caráter milagroso deste acontecimento é, portanto, muitíssimo acentuado. Uma extensão de água, e essa água um mar de nove a doze milhas de largura, sabidamente muito sujeito a agitações, é dividida, e forma-se um muro de água de cada lado, que proporciona aos israelitas uma passagem em terra seca. Além disso, o fenômeno ocorre justamente quando o exército egípcio está a ponto de alcançar os fugitivos, e cessa no momento em que estes chegam a salvo à margem oposta e seus inimigos estão no meio da passagem, na única posição em que o fechamento do muro de águas de cada lado poderia assegurar a destruição completa de uma força tão grande!
A queda do maná no deserto durante quarenta anos é outro milagre incontestável, e um milagre em que não poderia haver nem engano da parte dos que eram sustentados por ele nem fraude da parte de Moisés. Que esse acontecimento não foi produzido pelo curso ordinário da natureza torna-se certo pelo fato de que o mesmo deserto tem sido percorrido por indivíduos e por grandes grupos de homens desde as eras mais antigas até hoje, e nunca se encontrou tal provisão de alimento, a não ser nessa ocasião. Seu caráter milagroso é ainda marcado pelas seguintes circunstâncias: 1. Caía só seis dias por semana. 2. Caía em quantidades tão prodigiosas que sustentava três milhões de almas. 3. Toda sexta-feira caía o dobro, para servir aos israelitas no dia seguinte, que era o seu sábado. 4. O que se recolhia nos cinco primeiros dias da semana cheirava mal e criava bichos, se fosse guardado mais de um dia; mas o que se recolhia na sexta-feira conservava-se bom por dois dias. 5. Continuou caindo enquanto os israelitas permaneceram no deserto, mas cessou assim que saíram dele e passaram a ter cereal para comer na terra de Canaã. (Universal History, l. 1, c. 7.) Considerem-se esses pormenores tão extraordinários, e eles ao mesmo tempo confirmam o fato e estabelecem inequivocamente o milagre. Nenhum povo poderia ser enganado nessas circunstâncias; ninguém poderia persuadi-lo da verdade delas, se não tivessem ocorrido; e o conjunto estava tão claramente fora do curso regular da natureza que assinalava de modo inequívoco a intervenção de Deus. À maioria dos numerosos milagres registrados no Antigo Testamento aplicam-se as mesmas observações, e neles estão impressas, de modo igualmente indubitável, as mesmas características milagrosas. Se passarmos aos de Cristo, a prova se torna, se possível, ainda mais indubitável. Estavam claramente acima do poder tanto da ação humana como das causas naturais; foram públicos; foram de tal natureza que não admitiam conluio nem engano; foram realizados em circunstâncias que tornavam impossível que as testemunhas e os que os relataram se enganassem; muitas vezes foram feitos na presença de inimigos malignos, perscrutadores e inteligentes, os governantes judeus, que reconheciam os fatos mas os atribuíam a um agente sobrenatural mau; e não há interrupção no testemunho, desde a época em que foram realizados até hoje. Seria brincar com o leitor examinar casos cujas circunstâncias são tão conhecidas. A mais leve lembrança da multiplicação dos pães para as multidões no deserto; da cura do paralítico que, por causa da multidão, foi descido pelo telhado da casa; da cura instantânea da mão ressequida na sinagoga, perto de Jerusalém, onde os fariseus “observavam Jesus, procurando ver se ele faria uma cura no sábado” (Lc 6.7); da ressurreição da filha de Jairo, do filho da viúva e de Lázaro; e de muitos outros exemplos de poder milagroso, bastará para convencer qualquer mente sincera de que neles se reúnem todas as características de milagres reais e suficientemente atestados. Aquele grande milagre, porém, a ressurreição do próprio Senhor dentre os mortos, tantas vezes invocado pelos primeiros mestres de sua religião, pode ser apropriadamente apresentado aqui, com suas circunstâncias convincentes e irrefutáveis, como remate deste ramo da prova externa.
Não se pode duvidar de que é milagre no sentido mais elevado que uma pessoa realmente morta ressuscite a si mesma para a vida; e, quando realizado, como foi a ressurreição de Cristo, em atestação de uma comissão divina, é prova da espécie mais irrefutável. Assim o consideraram os incrédulos, que voltaram contra ele toda a sua força; e assim o considerou a Providência divina, que tornou suas provas amplas e indubitáveis na proporção de sua importância. Examinemos, pois, as circunstâncias tal como estão registradas na história.
Em primeiro lugar, a realidade da morte de Cristo é declarada com pormenores e de modo completo, embora, ainda que nenhuma prova circunstancial tivesse sido apresentada, não seja de supor que aqueles que tinham buscado a sua morte com tanta avidez descuidassem da plena execução da sentença que haviam reclamado aos gritos. A execução foi pública; ele foi crucificado com malfeitores comuns, no lugar habitual das execuções. Os soldados não lhe quebraram as pernas (prática usual quando queriam apressar a morte do malfeitor), observando que já estava morto. Seus inimigos sabiam que ele havia predito a sua ressurreição e, por isso, teriam o cuidado de que não fosse retirado da cruz antes que a morte de fato tivesse ocorrido. E Pilatos recusou-se a entregar o corpo para sepultamento até ter perguntado expressamente ao oficial de serviço se ele já estava morto. Tampouco foi levado para um túmulo desconhecido ou distante. José de Arimateia não fez segredo do lugar onde o sepultou. Era o túmulo de sua própria família, e os fariseus sabiam para onde mandar a guarda designada para proteger o corpo contra a aproximação de seus discípulos. A realidade da morte de Cristo está, portanto, estabelecida.
2. Mas ambas as partes, os fariseus de um lado e os discípulos do outro, concordavam em que o corpo havia desaparecido e que, no estado de morte, nunca mais foi visto! O sepulcro foi bem guardado, a pedra da entrada foi selada e uma guarda de sessenta soldados romanos foi designada para vigiá-lo; e, contudo, o corpo não foi encontrado. Vejamos, então, como cada parte explica esse fato. Os discípulos afirmam que duas pessoas do seu grupo, indo de madrugada ao sepulcro para embalsamar o corpo, viram um anjo descer, remover a pedra, sentar-se sobre ela e convidá-las a ver o lugar onde o Senhor havia jazido, informando-as de que ele tinha ressuscitado e ordenando-lhes que contassem o fato aos outros discípulos; que outros foram ao sepulcro e não encontraram o corpo, embora os lençóis tivessem ficado ali; que, em diferentes ocasiões, ele lhes apareceu, tanto separadamente como quando estavam reunidos; que conversaram com ele; que ele participou de sua comida; que tocaram o seu corpo; que ele continuou a aparecer entre eles por quase seis semanas e então, depois de muitas instruções, finalmente os levou para fora até Betânia e, na presença de todos eles, subiu às nuvens do céu. Esta é a declaração dos discípulos.
A maneira pela qual o Sinédrio judeu explica a ausência do corpo do Senhor no sepulcro é que, tendo os soldados romanos dormido em seus postos, os discípulos furtaram o cadáver. Não conhecemos nenhum outro relato. Nem em seus livros mais antigos nem em suas tradições existe qualquer outra tentativa de explicar a alegada ressurreição de Jesus. Temos, portanto, o direito de concluir que os fariseus nada tinham além disso para opor ao testemunho positivo dos discípulos. Estes acrescentaram ainda, e publicaram ao mundo, que os soldados romanos contaram aos fariseus “tudo o que havia acontecido” (Mt 28.11), o terremoto, a aparição do anjo etc., mas que foram subornados para dizer: “Os discípulos dele vieram de noite, enquanto estávamos dormindo, e roubaram o corpo” (Mt 28.13).
Sobre a declaração dos fariseus podemos observar que, embora os que não haviam sido convencidos pelos milagres anteriores do Senhor estivessem num estado de espírito disposto a resistir à impressão causada por sua ressurreição, nessa tentativa de destruir o testemunho dos apóstolos ficaram abaixo da sua habitual sutileza, ao fazer circular uma história que trazia consigo a própria refutação. Isso, no entanto, pode ser explicado pela pressa e pela agitação do momento e pela necessidade em que se viram de inventar alguma coisa para entreter o povo, que não estava longe de acusá-los pela morte de Jesus. É claro que os fariseus temiam isso, “temendo o povo” nesta como em ocasiões anteriores. Isso se vê pela maneira como o Sinédrio se dirigiu aos apóstolos: “Não é verdade que ordenamos expressamente que vocês não ensinassem nesse nome? No entanto, vocês encheram Jerusalém com a doutrina de vocês e ainda querem lançar sobre nós o sangue desse homem” (At 5.28). A maioria do povo não era inimiga de Jesus, embora os fariseus o fossem; e foi uma turba de homens vis e de forasteiros, dos quais Jerusalém estava cheia por ocasião da Páscoa, que tinha sido incitada a clamar por sua morte. O grosso da população judaica o ouvia com prazer; grande número deles tinha ficado profundamente impressionado com a ressurreição de Lázaro, nas proximidades imediatas de Jerusalém, e em consequência disso o havia acompanhado com aclamações públicas, como o Messias, na entrada em Jerusalém. Esses sentimentos do povo de Jerusalém para com o Senhor foram transferidos aos apóstolos. Pois, depois que Pedro e João curaram o homem à porta do templo e se recusaram a obedecer ao conselho que lhes mandava guardar silêncio a respeito de Cristo, os principais sacerdotes, “ameaçando-os mais ainda, os soltaram, não tendo achado como os castigar, por causa do povo” (At 4.21).
Foi, portanto, num estado de considerável agitação que esse boato absurdo, que se denunciava a si mesmo, foi preparado às pressas e às pressas publicado. Podemos acrescentar também que foi às pressas abandonado. Pois é digno de nota que os fariseus nunca fazem referência a ele em nenhum dos processos legais instaurados em Jerusalém contra os primeiros pregadores de Cristo como o Messias ressuscitado, poucos dias depois do próprio acontecimento alegado. Primeiro, Pedro e João são levados perante o seu grande conselho; depois, todo o corpo dos apóstolos, duas vezes. Em todas essas ocasiões eles afirmam o fato da ressurreição diante dos próprios homens que haviam originado a história do furto do corpo, e em nenhum desses casos os principais sacerdotes opuseram essa história ao testemunho explícito dos discípulos, de que tinham visto e tocado Jesus e conversado com ele depois da sua paixão. Esse silêncio não se explica senão pela suposição de que, ao menos na presença dos apóstolos, eles não queriam arriscar-se a ver a história desmascarada. Se em algum momento os guardas romanos poderiam ter sido apresentados com proveito para confrontar os apóstolos, era quando todo o corpo destes estava preso e diante do conselho, onde, de fato, a grande questão em litígio entre as partes era se Jesus tinha ou não ressuscitado dentre os mortos. De um lado, os apóstolos estão diante dos governantes afirmando o fato e prontos a entrar nos pormenores de seu testemunho. O único testemunho que se poderia opor a esse é o dos soldados romanos; mas nenhum dos sessenta é apresentado, e eles nem sequer aludem ao boato que os governantes haviam espalhado. Pelo contrário, um deles, Gamaliel, aconselha o conselho a não tomar nenhuma outra providência, mas a deixar a questão seguir o seu curso, pela razão de que, se fosse dos homens, se desfaria, mas, se fosse de Deus, não poderiam destruí-la, e se achariam lutando contra o próprio Deus. Ora, é evidente que, se os fariseus mesmos acreditassem na história que tinham posto na boca dos soldados romanos, nenhum doutor da lei como Gamaliel teria dado tal conselho; e é igualmente impossível que o conselho tivesse concordado com ele por unanimidade. Tendo nas mãos provas honestas de uma impostura, nunca teriam assim entregado mansamente o povo ao engano e a própria reputação à infâmia; nem, se o tivessem feito, poderiam ter fundamentado a sua não interferência no princípio adotado por Gamaliel. O próprio princípio da decisão dele supõe que ambos os lados reconheciam algo muito extraordinário, que poderia revelar-se obra de Deus, e que o tempo o tornaria manifesto. Admitia, de fato, que Jesus poderia ter ressuscitado. Todo o conselho, ao adotar a decisão de Gamaliel, admitiu essa possibilidade; ou, do contrário, como poderia o tempo mostrar se toda a obra, edificada inteiramente sobre esse fato, era ou não obra de Deus? E assim Gamaliel, certamente sem o pretender, forneceu uma prova a favor da ressurreição do Senhor, tanto mais poderosa por ser incidental.
O absurdo contido no único testemunho jamais apresentado contra a ressurreição do Senhor tornou de fato impossível sustentar a história. Que uma guarda romana fosse encontrada fora de seu posto, ou dormindo (falta que a lei militar daquele povo punia com a morte), era sumamente incrível. Que, se estavam dormindo, os tímidos discípulos de Cristo ousassem fazer a tentativa, quando o ruído de remover a pedra e de carregar o corpo poderia acordá-los, é muito improvável. E, acima de tudo, como muitas vezes se observou, ou os soldados estavam acordados ou dormindo: se acordados, por que permitiram que alguns camponeses e mulheres desarmados levassem o corpo? E, se dormindo, como vieram a saber que foram os discípulos?
Contra a ressurreição de Cristo, portanto, podemos dizer com confiança que não há testemunho algum. Ela permanece, como todos os demais fatos da história evangélica, inteiramente incontestada desde as eras mais antigas até hoje. E, embora admitamos que não se segue que, por não aceitarmos o relato dado pelos judeus sobre a ausência do corpo do Senhor no sepulcro, devamos por isso aceitar o dos apóstolos, ainda assim a própria incapacidade dos primeiros que contestaram o fato da ressurreição de explicar a ausência do corpo, que estivera inteiramente em seu poder, oferece uma presunção muito forte a favor da declaração dos discípulos. Em tais circunstâncias, o desaparecimento do corpo tornou-se ele mesmo um acontecimento extraordinário. O túmulo foi cuidadosamente fechado e selado por oficiais designados para isso, colocou-se uma guarda, e, contudo, o corpo desaparece. A história dos fariseus de modo nenhum explica o fato; é absurda demais para merecer crédito por um momento sequer; e, a menos que se aceite a história dos evangelistas, esse fato singular continua sem explicação.
Mas, além dessa presunção, reúnam-se as circunstâncias que dão credibilidade ao testemunho dos discípulos, e a prova se torna indubitável.
O relato dado pelos discípulos nem sequer era improvável. Admitidos os milagres realizados por Cristo durante a sua vida, a ressurreição segue-se como conclusão natural. Pois, antes que se possa sustentar que esse acontecimento é improvável, mesmo no grau mais baixo, seria preciso provar que toda a história de sua vida pública é uma fábula, e isso contra o testemunho não apenas dos evangelistas, mas, como vimos, dos próprios judeus e pagãos.
A maneira como esse testemunho é dado depõe a seu favor. Longe de terem escrito de comum acordo, os evangelistas dão um relato do acontecimento tão variado que deixa claro que escreveram independentemente uns dos outros. E, contudo, concordam tanto nos fatos principais, e são tão facilmente conciliáveis naquelas circunstâncias miúdas em que à primeira vista aparece alguma discrepância, que o seu testemunho traz, em todas as suas partes, o ar da honestidade e da verdade.
O próprio relato deles prova suficientemente que se mostraram incrédulos quanto ao fato quando lhes foi anunciado e, portanto, não estavam dispostos a deixar-se enganar pela imaginação. Isso, aliás, era impossível: as aparições de Cristo foram numerosas demais e se prolongaram por tempo demais, quarenta dias. Eles não podiam enganar-se, e é igualmente impossível que enganassem os outros. Impossível que mais de quinhentas pessoas a quem Cristo apareceu tivessem sido persuadidas por uns poucos astutos de que tinham visto Cristo e conversado com ele; ou que concordassem, não apenas sem recompensa, mas com renúncia a todos os interesses e com exposição a todos os perigos e à própria morte, em continuar afirmando uma falsidade.
Tampouco se passou um longo período antes que o fato da ressurreição fosse proclamado, nem se escolheu um lugar distante para fazer dele o primeiro anúncio. Essas teriam sido circunstâncias suspeitas. Pelo contrário, os discípulos testificam o fato desde o próprio dia da ressurreição. Um deles o afirma num discurso público na festa de Pentecostes, dirigido a uma multidão heterogênea; e o mesmo testemunho é dado por todo o colégio dos apóstolos, duas vezes, perante o grande conselho. Isso, além do mais, foi feito em Jerusalém, cenário de todo o acontecimento, e na presença dos mais interessados em descobrir a falsidade. O testemunho deles foi dado não somente diante de pessoas particulares, mas também de pessoas públicas, diante de magistrados e tribunais, “diante de filósofos e rabinos, diante de cortesãos, diante de juristas, diante de pessoas peritas em examinar e reinquirir testemunhas”; e, contudo, que cristão jamais acusou os seus cúmplices, ou revelou essa pretensa impostura, ou foi apanhado em contradição, ou mesmo foi acareado com outros que pudessem contradizê-lo quanto a este ou a qualquer outro fato relativo à sua religião? A esse testemunho dos apóstolos acrescentou-se o selo dos milagres, realizados tão publicamente, tão inequívocos em sua natureza, tão expostos à investigação pública e tão numerosos como os de seu próprio Senhor. O milagre do dom de línguas foi prova da ressurreição e da ascensão de Jesus Cristo; e os milagres de cura foram realizados pelos apóstolos em nome de seu Mestre e, portanto, eram provas tanto da ressurreição dele como da comissão deles. De fato, os judeus, antigos inimigos do cristianismo, nunca se queixaram da falta de prova sobrenatural. Admitiam os milagres tanto de Cristo como de seus apóstolos; mas, ao atribuí-los a Satanás e considerá-los ilusões diabólicas e prodígios realizados para afastá-los da lei, as suas admissões servem ao mesmo tempo de prova da verdade da história do evangelho e nos permitem explicar a resistência deles a uma prova tão majestosa e esmagadora.1
1. As provas da ressurreição do Senhor são expostas plenamente em West, on the Resurrection, em Sherlock, Trial of the Witnesses, e no dr. Cook, Illustration of the Evidence of Christ’s Resurrection. ↩