A primeira objeção ao caráter conclusivo do argumento que se tira dos milagres a favor dos sistemas mosaico e cristão baseia-se em fatos e doutrinas que se supõe estarem nas próprias Escrituras.
Afirma-se que as Escrituras declaram terem sido realizados atos milagrosos em oposição à missão e à doutrina daqueles que se apresentaram como instrumentos credenciados para tornar conhecidas à humanidade revelações da vontade de Deus; e que os escritores sagrados falam frequentemente de tais acontecimentos como possíveis, e até como ocorrências futuras certas, mesmo quando ainda não aconteceram. A questão, portanto, é como os milagres poderiam ser provas conclusivas da verdade, quando de fato foram ou podem ser realizados como prova da falsidade. “Haverá um milagre de confirmar a crença em um só Deus e não confirmar a crença em mais de um Deus, se for realizado com esse propósito?” (Bispo Fleetwood, on Miracles.) Os casos que costumam ser apresentados são as façanhas dos magos egípcios em oposição a Moisés e a evocação de Samuel pela feiticeira de En-Dor. As presunções de que tais obras são consideradas possíveis tiram-se de uma passagem de Moisés no livro de Deuteronômio, de uma predição a respeito de falsos cristos no Evangelho de Mateus e da predição do homem do pecado nos escritos de Paulo. Todas essas passagens advertem o leitor contra ser seduzido e afastado da verdade por “sinais e prodígios” realizados por falsos mestres.
Quanto aos milagres, ou pretensos milagres, realizados pelos magos de Faraó, devem notar-se algumas considerações preliminares.
1. Quer as pessoas chamadas magos fossem sacerdotes regulares, quer formassem uma classe distinta de homens, eram conhecidas por sua perícia em produzir efeitos singulares e transformações aparentes em objetos naturais, pois, depois que Moisés começou suas operações maravilhosas, Faraó mandou chamá-las para opor o poder e a habilidade delas aos dele.
2. Tiveram êxito, ou pareceram ter êxito, em três tentativas de imitar as obras de Moisés, e então foram contidos, ou tentaram uma obra acima de seu poder, e foram obrigados a reconhecer-se vencidos pelo “dedo de Deus” (Êx 8.19). Os demais milagres realizados por Moisés prosseguiram sem nenhuma tentativa de imitação.
3. Essas obras, de qualquer natureza que fossem, foram realizadas para apresentar os ídolos do Egito como iguais em poder a Jeová, o Deus de Moisés e dos israelitas. Esta é uma consideração importante, e o fato é facilmente provado. Se eles eram meros prestidigitadores e realizavam seus prodígios por destreza das mãos, não queriam que o povo soubesse disso, pois do contrário sua influência sobre ele não poderia ser mantida. Usavam, portanto, “encantamentos” [N. do T.: a KJV traz enchantments; a NAA traz “ciências ocultas” (Êx 7.11, 22; 8.7, 18)], cerimônias, ritos e oferendas estranhos e incongruentes, que entre todos os povos supersticiosos se supõe terem um efeito poderoso para obter a influência de seres sobrenaturais a seu favor e sujeitá-los à sua vontade. Temos um exemplo desse uso de “encantamentos” no caso de Balaão, que viveu na mesma época; e esse exemplo contribui muito, pensamos, para determinar o sentido em que os magos usavam “encantamentos”. Pois, embora a palavra original empregada seja diferente, o seu significado conceitual também pode aplicar-se aos ritos de encantação, e esse sentido é confirmado por toda a narrativa.1 Qualquer que seja, pois, a ligação que se suponha existir entre os “encantamentos” usados e as obras realizadas, ou ainda que se negue toda ligação, essa espécie de rito religioso era praticada, e o povo entendia, como se pretendia que entendesse, que os prodígios realizados pelos magos eram feitos sob a influência de suas divindades. O objetivo de Faraó e dos magos era mostrar que os deuses deles eram tão poderosos quanto o Deus que havia comissionado Moisés, e que podiam protegê-los do desagrado dele, ainda que se recusassem a deixar ir o seu povo, conforme a ordem de seu servo comissionado.
Mas, qualquer que fosse a pretensão de auxílio sobrenatural, vários escritores de grande e merecida autoridade sustentam que nessas ocasiões não se realizou milagre algum: que, por destreza e preparação prévia, os magos substituíram as varas por serpentes; que se infundiu uma matéria corante numa porção de água; e que, como as rãs, por causa do milagre anterior de Moisés, abundavam por toda parte na terra do Egito, facilmente se poderia arranjar um número suficiente delas para cobrir um espaço determinado. E argumentam ainda que, quando os milagres de Moisés passaram a ser tais que desafiavam a possibilidade da mais remota imitação, nesse ponto cessaram as simulações dos magos.
A objeção óbvia a isso é que “Moisés descreve as obras dos magos exatamente com a mesma linguagem com que descreve as suas próprias, e, portanto, há razão para concluir que foram igualmente milagrosas”. A isso se responde que nada é mais comum do que falar dos prestidigitadores declarados como se fizessem o que pretendem ou parecem fazer, e que essa linguagem nunca induz ao erro. Mas também se observa, e a observação tem grande peso, que a expressão usada por Moisés tem grande amplitude: “fizeram o mesmo”, isto é, de modo semelhante, o que significa que tentaram alguma imitação de Moisés; pois ela é usada quando falharam na tentativa: os magos “fizeram o mesmo com as suas ciências ocultas para produzirem piolhos, mas não conseguiram” (Êx 8.18). Além disso, o sr. Farmer, o dr. Hales e outros sustentam que a raiz da palavra traduzida por “encantamentos” exprime adequadamente quaisquer “artifícios secretos ou métodos de engano, pelos quais se impõem falsas aparências aos espectadores”. Para uma explicação e defesa mais completas dessa hipótese, dá-se no fim do capítulo um extrato da Dissertation on Miracles de Farmer.2
Por mais que essas observações mereçam atenção, pode-se duvidar muito de que a mera destreza manual e o jogo de mãos possam explicar suficientemente os efeitos de fato produzidos, se apenas agentes humanos estivessem envolvidos. E não parece impraticável enfrentar qualquer dificuldade que possa surgir de admitir uma ação sobrenatural maligna na imitação dos três primeiros prodígios realizados por Moisés.
Antes de tudo, porém, deve-se declarar que a história que temos diante de nós não pode, com justiça, ser julgada como uma declaração isolada, independente dos princípios e doutrinas da revelação em que se encontra. Está ligada a essa revelação e deve ser julgada à luz de sua doutrina. Nenhum incrédulo que queira encontrar na Escritura um argumento contra a Escritura tem o direito de considerar qualquer passagem separadamente, ou de aplicar-lhe a regra de sua própria teoria sobre assuntos religiosos, a não ser que primeiro, por argumentação justa e honesta, tenha dado conta das provas das próprias Escrituras. Ele precisa refutar a autenticidade do registro sagrado e a verdade dos fatos nele contidos; precisa desembaraçar-se de toda prova da missão divina de Moisés e da evidência de seus milagres, antes de ter direito a isso. E, se não for capaz dessa tarefa, só poderá considerar o caso como uma dificuldade que repousa sobre o que as próprias Escrituras admitem e que deve ser explicada, tanto quanto possível, segundo os princípios daquele sistema geral de religião que as próprias Escrituras fornecem. Nisto não se pede mais do que justiça na argumentação. A mesma regra é ainda mais obrigatória para os intérpretes que professam crer na autoridade divina dos registros sagrados; pois é certamente com o auxílio de seus princípios gerais e de suas doutrinas inequívocas que toda dificuldade que eles professam extrair desses registros deve ser examinada, a fim de averiguar o seu verdadeiro caráter. Qual é, no entanto, a verdadeira dificuldade no presente caso, supondo-se admitido que os magos realizaram obras superiores ao poder de qualquer agente meramente humano e, portanto, sobrenaturais? É tanto mais necessário resolver isso porque a dificuldade que se supõe decorrer dessa admissão tem sido exagerada.
Parece ter-se suposto, de modo geral, que essas contra-obras foram realizadas para contradizer a missão divina de Moisés, e que, admitindo que foram sobrenaturais, caímos na dificuldade de supor que Deus pode autenticar a missão de seus servos por milagres e que também se podem realizar milagres para contradizer essa atestação, o que nos deixaria num estado de incerteza. Essa visão, porém, não encontra apoio algum na história. Não há indicação de que os magos realizaram seus prodígios para provar que não havia um Deus como Jeová, ou que Moisés não fora comissionado por ele. Pois, como não negavam que as obras de Moisés fossem realmente realizadas, não podiam negar que ele as fazia pelo poder do seu Deus, assim como não negariam que eles próprios realizavam as suas façanhas com o auxílio dos seus deuses. Era esse, sem dúvida, o ponto que desejavam incutir em Faraó e no povo, e para o qual ambos estavam preparados por sua crença anterior nos seus ídolos e no efeito dos encantamentos. Pois supor que Faraó mandasse chamar homens para fazer meros truques de prestidigitação, sabendo que eram meros prestidigitadores, parece absurdo demais para ser admitido por um momento sequer, a não ser, como alguns supuseram, que ele julgasse as obras de Moisés enganos de destreza manual, que poderia desmascarar pelas imitações de seus próprios prestidigitadores. Mas nada disso é sequer insinuado na história, e pelo menos a segunda obra de Moisés foi de tal natureza que exclui inteiramente essa ideia: a água se tornou sangue em toda a terra do Egito. Não se pretendia, com essas obras dos magos egípcios, contestar a existência de Jeová, pois nada havia no politeísmo que exigisse negar que cada povo tivesse as suas próprias divindades locais; nada, aliás, que exigisse dos seus devotos negar a existência até mesmo de uma Divindade suprema, o “Pai dos deuses e dos homens”. E que Moisés fora comissionado por esse Jeová, “o Deus dos hebreus” (Êx 5.3), para ordenar a Faraó que deixasse ir o seu povo, era, de fato, antes reconhecido do que negado, quando admitiam as obras dele e tentavam imitá-las. Segundo os próprios princípios deles, o argumento era certamente tão forte a favor de Moisés quanto a favor dos sacerdotes egípcios. Se as obras extraordinárias destes provavam que eram servos de seus deuses, as obras de Moisés provavam que ele era servo do seu Deus.
Assim, nessa série de acontecimentos singulares, não houve nenhuma prova tirada de contramilagres, ainda que se admita que foram realizados milagres reais, que anulasse ou invalidasse a missão de Moisés, ou que negasse a existência do verdadeiro Jeová, ou sequer pusesse em dúvida qualquer de seus atributos. Tudo o que se pode dizer é que foram realizadas obras singulares, destinadas a passar por milagrosas, não para refutar coisa alguma que Moisés afirmava, mas para provar que as divindades egípcias tinham poder igual ao do Deus dos judeus. E nessa disputa os seus devotos acabaram fracassando, pois essa pretensão foi abundantemente refutada pela natureza transcendente e pelo número das obras de Moisés, e pelo fato de serem “pragas” das quais os objetos de sua idolatria não podiam livrá-los, e que, aliás, como mostrou o erudito Bryant, se destinavam expressamente a humilhar a própria idolatria e a cobri-la de vergonha aberta e amarga.
Se neste caso não vemos nada que contrarie a prova dos milagres como atestações da comissão divina de Moisés, também não o vemos em nenhum outro caso registrado na Escritura. A evocação do espírito de Samuel pela feiticeira de En-Dor é, de fato, o único caso de algo que se aproxime de ação milagrosa atribuída a um espírito mau, a não ser que acrescentemos o poder exercido por Satanás sobre Jó e o fato de ele ter levado o Senhor pelos ares e colocado sobre um monte muito alto. Mas se esses acontecimentos foram propriamente milagrosos é mais do que duvidoso; e, se o foram, nem eles nem a evocação de Samuel pretendem dar qualquer prova contra a missão de algum servo de Deus ou contra as doutrinas por ele ensinadas. Pelo contrário, as Escrituras estão tão longe de oferecer exemplos de milagres, reais ou simulados, realizados em oposição direta à missão e à doutrina teológica dos mensageiros inspirados de Deus em qualquer época, que, nos casos em que a autoridade do mensageiro foi de fato posta em questão, os exemplos são de natureza inteiramente diferente. Elias levou a questão a uma decisão: se Jeová ou Baal era Deus; e, enquanto os sacerdotes de Baal não obtiveram “voz, nem resposta” (1Rs 18.29) a todas as suas orações, o Deus de Israel respondeu ao seu próprio profeta com fogo e, por meio disso, ratificou diante de todo o Israel a comissão de seu servo e a sua própria Divindade. Os demônios, nos dias do Senhor, confessaram que ele era o Filho do Deus Altíssimo. A jovem possuída por um espírito adivinhador em Tiatira [N. do T.: o episódio narrado em At 16.16-18 se passou em Filipos.] deu testemunho da missão do apóstolo Paulo e de seus companheiros. Não lemos de nenhum ato particular realizado por Elimas, o mágico; mas, fosse o que fosse que ele pudesse realizar, quando tentou afastar Sérgio Paulo da fé, ficou cego. E assim vemos que a Escritura em parte alguma apresenta milagres realmente realizados em contradição com a autoridade de qualquer pessoa que Deus tenha comissionado para ensinar a sua vontade à humanidade.
Mas que as Escrituras supõem isso possível argumenta-se a partir de Deuteronômio 13.1 e seguintes, onde se ordena ao povo que não siga um profeta ou sonhador que queira induzi-lo à idolatria, ainda que ele anuncie “um sinal ou prodígio” e “esse sinal ou prodígio” aconteça (Dt 13.1-2). Aqui, porém, vê-se que não se fala de um milagre, mas de uma profecia de algum acontecimento extraordinário, pois esse sinal ou prodígio havia de acontecer. Nem a predição pode ser considerada mais do que algum palpite sagaz e casual, seja da parte dele mesmo, seja com o auxílio de algum agente sobrenatural maligno (assunto que logo consideraremos), mas que de fato fica aquém de uma verdadeira predição, embora em alguns aspectos seja extraordinário. Porque no capítulo dezoito desse mesmo livro o cumprimento das palavras de um profeta é apresentado como prova conclusiva de sua comissão divina, e não podemos supor que o mesmo escritor se contradiga a poucas frases de distância.
Em Mateus 24.24 prediz-se que surgirão falsos cristos e falsos profetas, “operando grandes sinais e prodígios”, capazes de enganar os homens, embora não “os próprios eleitos”. E em 2 Tessalonicenses 2.8-9 diz-se que o aparecimento do homem do pecado é “segundo a ação de Satanás, com todo poder, sinais e prodígios da mentira”. Esta última predição refere-se indubitavelmente ao papado e a obras realizadas para afastar os homens da verdadeira interpretação do evangelho, embora não para anular minimamente a autoridade divina de Cristo e de seus apóstolos. A primeira supõe obras que, por serem realizadas por falsos cristos, se opõem à comissão do Senhor; e é, de fato, o único caso em que se fala de uma disputa direta entre os milagres que atestam a autoridade de um mensageiro divino e “grandes sinais e prodígios” realizados para atestar uma autoridade oposta e contraditória. É necessário, portanto, averiguar o que podem ser esses “sinais e prodígios”.
Em Tessalonicenses eles são atribuídos à “ação de Satanás”; e, para aplicar os princípios gerais da revelação das Escrituras a essas partes mais obscuras e difíceis dela (regra a que a justiça nos obriga), deve-se observar:
1. Que a entrada do pecado no mundo é atribuída à malícia e à astúcia sedutora de um poderoso espírito mau, cabeça e chefe de inúmeros outros. 2. Que, quando se prometeu um Redentor ao homem, essa promessa, em seu primeiríssimo anúncio, indicou uma luta longa e árdua entre ele e esses agentes sobrenaturais malignos. 3. Que é fato que desde então se tem travado no mundo uma luta poderosa entre a verdade e o erro, entre a idolatria, a superstição e o culto de invenção humana, de um lado, e o culto puro e autorizado do verdadeiro Deus, do outro. 4. Que as Escrituras representam uniformemente o Redentor e Restaurador à frente de um partido de homens nessa luta, e Satanás à frente do outro, cada um servindo-se de homens como seus instrumentos, embora de modo compatível com a liberdade de ação geral deles. 5. Que o Deus todo-poderoso leva adiante os seus propósitos de reconduzir o homem à obediência a ele pela exposição da verdade, com as suas provas próprias, por mandamentos, promessas, ameaças, castigos e punições finais; e que Satanás se opõe a esse desígnio por meio de exposições do erro e de religião falsa, agradáveis às paixões e apetites corrompidos dos homens, e procura especialmente influenciar agentes poderosos entre os homens para que seduzam outros com o seu exemplo e destruam a verdade pela perseguição e pela força. 6. Que as falsas religiões dos pagãos, assim como as corrupções do cristianismo, surgiram sob essa influência diabólica; e que os ídolos dos pagãos não eram apenas invenções de demônios, mas muitas vezes os próprios demônios,3 tornados objetos do culto dos homens, seja por sua maldade, seja por seu suposto poder de causar dano.4
Ora, como a objeção que estamos considerando é declaradamente tirada da Escritura, a doutrina dela sobre este assunto deve ser explicada por ela mesma, e por essa razão foram introduzidos os pormenores acima; mas a investigação precisa ir além. Esses espíritos maus estão em estado de hostilidade contra a verdade e se opõem a ela procurando seduzir os homens a opiniões errôneas e a um culto corrompido. Pode-se esperar, portanto, que todo o seu poder seja empregado na realização de seus desígnios. Mas até onde se estende esse poder? Esta é uma questão importante, e as Escrituras nos dão não pouca ajuda para decidi-la.
1. Eles não podem realizar nenhuma obra de criação, pois em toda a Escritura esta é constantemente atribuída a Deus e invocada por ele como prova de sua própria Divindade, em oposição aos ídolos e a todos os seres, quaisquer que sejam: “Com quem vocês vão me comparar? A quem eu seria igual?, diz o Santo. Levantem os olhos para o alto e vejam. Quem criou estas coisas?” (Is 40.25-26). Essa reivindicação necessariamente exclui de qualquer outro ser o poder de criar em qualquer grau, isto é, de fazer alguma coisa do nada; pois um ser que possuísse o poder de criar do nada um átomo não poderia carecer da capacidade de fazer um mundo. Mais ainda: nesta passagem nega-se a qualquer outro, senão a Deus, a criação até em seu sentido inferior, isto é, a formação de objetos naturais belos e perfeitos, como aqueles de que estão cheios os céus e a terra, a partir de uma matéria preexistente, assim como ele formou todas as coisas a partir da matéria desorganizada e caótica. Nenhum “sinal”, portanto, nenhum “prodígio” que implique criação é possível a seres finitos; e, qualquer que seja o poder que algum deles tenha sobre a matéria, ele não pode estender-se a nenhum ato de criação.
2. A vida e a morte estão fora do poder dos espíritos maus. O domínio sobre elas é reivindicado de modo tão exclusivo pelo próprio Deus em muitas passagens bem conhecidas da Escritura que não é preciso citá-las: “com Deus, o Senhor, está o escaparmos da morte” (Sl 68.20); “eu mato e eu faço viver” (Dt 32.39). Nenhum “sinal ou prodígio”, portanto, que implique domínio sobre elas, isto é, o poder de produzir um ser vivo ou de dar vida aos mortos, está ao alcance dos espíritos maus; essas são obras de Deus.
3. O conhecimento dos acontecimentos futuros, especialmente daqueles que dependem de causas livres ou contingentes, não é alcançável pelos espíritos maus. Esta é uma propriedade de Deus, que nela fundamenta a prova de sua Divindade e, por isso, a exclui de todos os demais: “Anunciem-nos as coisas que ainda hão de vir, para que saibamos que vocês são deuses” (Is 40.25-26; 41.23). Eles não podem, portanto, proferir uma predição no sentido estrito e próprio; embora, por seu grande conhecimento dos assuntos humanos e por seus longos hábitos de observação, as suas conjeturas possam ser surpreendentes e muitas vezes se cumprir, e assim, se proferidas por algum de seus servos, possam em alguns casos ter a aparência de profecias.
4. Eles não conhecem com certeza os pensamentos e o caráter dos homens. Pode-se admitir, como observa Agostinho, “que têm grande facilidade em descobrir o que há na mente dos homens pelo menor sinal exterior que estes dão disso, e tal que os homens mais sagazes não conseguem perceber”; que podem ter também outros meios de acesso à mente além desses sinais exteriores; e que uma observação constante do caráter humano, a que são levados por sua obra favorita, a tentação, lhes dá grande discernimento do caráter, das disposições e das fraquezas dos indivíduos. Mas que o conhecimento absoluto, imediato e infalível dos pensamentos e do caráter pertence somente a Deus é claramente a doutrina da Escritura. É o Senhor “que sonda os corações” (Rm 8.27) e que “sabia o que era a natureza humana” (Jo 2.25); e em Jeremias 17.9-10 [N. do T.: Watson indica Jr 7.9-10.] o conhecimento do coração é atribuído exclusivamente a Deus.
Considerem-se, pois, todas essas coisas, e seremos capazes de determinar, ao menos em parte, os limites dentro dos quais essa ação maligna pode operar ao opor-se à verdade e ao dar curso à falsidade. Ao menos poderemos mostrar que as Escrituras não atribuem a essa “ação de Satanás” nenhum poder de opor-se à verdade por meio de “sinais e prodígios” como muitos supuseram. Em nenhum caso os espíritos maus podem opor-se à verdade, não dizemos por milagres e profecias iguais ou quase iguais, mas por milagres e profecias reais; quanto a ambos, as obras deles não passam de simulações. Tomemos o caso dos milagres. Uma criatura não pode criar: essa é a doutrina da Escritura, e ela servirá para explicar os prodígios dos magos egípcios. Eles estavam, pensamos, muito acima da destreza manual de meros homens sem auxílio; e vimos que, como a idolatria é diabólica, e é até mesmo o culto dos próprios demônios e o instrumento de sua oposição a Deus, as Escrituras os supõem extremamente ativos em sustentá-la. É perfeitamente coerente com esse princípio, portanto, concluir que os sacerdotes de Faraó tiveram tanto auxílio dos demônios de quem eram ministros quanto estes eram capazes de prestar. Mas os grandes princípios que acabamos de deduzir da Escritura nos obrigam a limitar esse poder. Não era um poder de realizar milagres reais, mas de simulá-los, a fim de sustentar o crédito da idolatria. Ora, os três milagres de Moisés que foram simulados envolviam, todos, uma energia criadora. Uma serpente foi criada da matéria da vara; as rãs, por sua imensa quantidade, parecem também ter sido criadas; e o sangue foi formado da matéria da água. Mas nas imitações dos magos não houve criação: a doutrina da Escritura nos proíbe de admiti-lo; e, portanto, deve ter havido engano e substituição de uma coisa por outra, o que, embora realizado de maneira aparentemente muito acima da habilidade humana, poderia estar bem dentro do poder de um grupo de espíritos invisíveis e ativos. Em um país onde abundam serpentes, estas poderiam ser postas no lugar das varas; as rãs, que depois de terem sido trazidas sobre a terra por Moisés eram bastante numerosas, poderiam ser lançadas de repente sobre um lugar limpo; e a água, que só se podia obter cavando (porque a praga de Moisés estava sobre todos os rios e reservatórios, e a quantidade, por consequência, era muito limitada), poderia facilmente, pela atividade invisível deles, ser misturada com sangue ou com uma matéria corante. Em tudo isso houve algo da impostura dos sacerdotes e muito do auxílio de Satanás; mas, no sentido estrito, nenhum milagre foi realizado por qualquer deles, ao passo que as obras de Moisés, por sua extensão, foram inequivocamente milagrosas.
Pelas razões que demos, nenhum milagre aparente realizado em apoio da falsidade pode, nem por um momento, tornar-se rival dos grandes milagres pelos quais as revelações da Escritura são atestadas. Por exemplo, nada semelhante a alimentar vários milhares de pessoas com alguns pães e peixes pode ocorrer, pois isso supõe a criação da matéria e da forma do pão e do peixe; nada semelhante a dar vida aos mortos, pois “o escaparmos da morte” pertence exclusivamente a Deus (Sl 68.20). Por isso, nos “sinais e prodígios” realizados pelos falsos profetas e falsos cristos preditos em Mateus, quer os suponhamos meros impostores, quer também agentes imediatos de Satanás, não encontramos nada desse tipo decisivo que ateste a sua missão. Teudas prometeu dividir o Jordão e seduziu muitos a segui-lo, mas foi morto pelas tropas romanas antes de poder realizar o seu milagre. Outro prometeu que os muros de Jerusalém cairiam, mas também os seus seguidores foram passados a fio de espada por Félix.
O falso cristo Barcochebas reuniu um grande partido, mas não se registra nenhum milagre seu. Outro surgiu no ano 434 d.C. e alegou que dividiria o mar; mas escondeu-se depois que muitos de seus seguidores enfatuados se lançaram nele, na fé de que o mar se retiraria diante deles, e morreram afogados. Muitos outros falsos cristos apareceram em diferentes épocas, mas o mais notório foi Sabbatai Sevi, em 1666. O engano dos judeus a respeito dele foi muito grande. Muitos de seus seguidores ficaram estranhamente afetados, profetizaram a grandeza dele e pareciam, por suas contorções, estar sob alguma influência sobrenatural. Mas o grão-senhor [N. do T.: o sultão otomano], tendo prendido Sabbatai, deu-lhe a escolha de provar a sua condição de Messias deixando que um corpo de arqueiros atirasse nele, depois do que, se não ficasse ferido, o sultão o reconheceria como o Messias; ou, se recusasse isso, seria empalado, ou então se tornaria turco [N. do T.: isto é, se converteria ao islamismo]. Ele escolheu esta última opção, e o engano se dissipou.
Ora, quaisquer que sejam os “sinais ou prodígios” que algum desses tenha realizado, fica claro, pela ausência de todo registro de algum milagre inequívoco, que eram ilusões ou imposturas.
O mesmo raciocínio aplica-se à profecia. Conhecer com certeza o futuro é prerrogativa especial de Deus. Não se deve supor, portanto, que o falso profeta antevisto por Moisés em Deuteronômio, que havia de proferir predições maravilhosas que “acontecessem”, fosse proferir predições estrita e verdadeiramente, fundadas num conhecimento absoluto do futuro. Um homem perspicaz pode adivinhar com felicidade em alguns casos, e suas conjecturas, quando cumpridas, podem parecer “um sinal ou prodígio” a um povo disposto a ser enganado, por amar a idolatria à qual ele queria conduzi-lo. Mais ainda, a doutrina da Escritura não desabona a ideia de um agente sobrenatural maligno “operando” com ele; e então a sagacidade superior dos espíritos malignos pode dar às suas conjecturas, fundadas na previsão natural que eles mesmos têm das probabilidades, um ar mais decidido de profecia, e assim ajudar o propósito perverso de seduzir os homens, afastando-os do culto a Deus. Mas a profecia real e inequívoca lhes é impossível, e de fato não temos nenhum exemplo de algo que se aproxime dela entre os falsos profetas registrados na história judaica. Os oráculos pagãos também podem servir-nos de comentário sobre isso. Eram extremamente numerosos; muitos deles eram muito célebres; todos professavam revelar o futuro; contam-se a respeito deles algumas histórias maravilhosas; e é difícil atribuir tudo à impostura dos sacerdotes, embora muito dela tenha sido afinal descoberto. Mantiveram o seu crédito por dois mil anos e foram silenciados pela difusão do evangelho, e isso quase inteiramente antes da época do estabelecimento do cristianismo por Constantino, como reconhecem os próprios autores pagãos; e em muitos casos foram silenciados por cristãos individualmente, como se declara abertamente nas apologias dos Pais da Igreja, de modo que a inspiração pítica nunca pôde ser renovada. Todos esses fatos são, no mínimo, fortes presunções de que, nesse arremedo do Oráculo de Sião, nessa contrafação da prova permanente que a profecia dá à verdade, houve muito de ação diabólica, embora grandemente misturada com impostura.5 Contudo, a ambiguidade e a obscuridade com que os oráculos zombavam da credulidade dos pagãos e os seduziam miseravelmente, muitas vezes às mais diabólicas perversidades, e ainda assim, em muitos casos, acontecesse o que acontecesse, conservavam a aparência de ter dito a verdade, provaram suficientemente a falta de um conhecimento certo e claro do futuro. E, segundo o testemunho dos próprios escritores pagãos, nada jamais foi proferido por um oráculo que, considerado como profecia, possa por um momento ser posto em comparação com a menos notável daquelas predições da Escritura que se apresentam como prova da verdade das Escrituras. Quando são postos em comparação, os mais célebres deles parecem desprezíveis.6 Podemos, então, concluir com muita confiança que, assim como a Escritura em parte alguma representa “sinais ou prodígios” como de fato realizados para contradizer a prova da comissão divina de Moisés, de Cristo e de seus apóstolos, assim também, nas passagens em que supõe que eles possam ocorrer e prediz que serão realizados em favor da falsidade (e, no caso dos falsos cristos, em oposição ao verdadeiro Messias), ela não dá nenhum apoio à noção de que milagres reais possam ser realizados, ou predições reais proferidas, mesmo com a permissão de Deus, em favor da falsidade. Pois nenhuma permissão, propriamente falando, pode ser dada a algum ser para fazer o que ele não tem poder natural para efetuar; e a permissão, neste caso, para significar alguma coisa, teria de implicar que o próprio Deus realizou os milagres e deu as predições, por intermédio de uma criatura, é verdade, mas que de fato empregou o seu poder divino em oposição à sua própria verdade, pensamento desonroso que certamente não se pode sustentar. Sua permissão, contudo, pode estender-se a uma licença para que homens maus, e também espíritos maus, empreguem contra a verdade, e para a sedução dos homens, qualquer poder natural que possuam. Isso é perfeitamente coerente com a doutrina geral da Escritura; mas essa permissão é concedida sob regra e limite. Assim, a história de Jó é muito importante, pois mostra que os espíritos maus não podem empregar o seu poder contra um homem bom sem permissão expressa. Um acontecimento na história de Jesus ensina também que eles não podem destruir nem mesmo um animal do tipo mais vil, um porco, sem a mesma licença. Também havia fins morais a alcançar em ambos os casos: ensinar a doutrina da providência às gerações futuras pelo exemplo de Jó, e punir os gadarenos em seus bens pela violação da lei por cobiça. Tão inteiramente estão sob controle esses opositores invisíveis da verdade e dos planos de Cristo; e, como os fins morais estão tão explicitamente marcados nesses casos, podem ser inferidos quanto a todos os outros em que se concede permissão para causar mal ou dano. Nos casos que temos diante de nós, aliás, tais propósitos morais não repousam inteiramente em inferência, mas tornam-se evidentes pela própria história. A ação de Satanás foi permitida em apoio da idolatria no Egito apenas para tornar mais ilustre o triunfo do Deus verdadeiro sobre os ídolos e para justificar os seus severos juízos sobre os egípcios. Os falsos profetas antevistos em Deuteronômio foram permitidos, como ali se declara, para pôr o povo “à prova”. Introduzia-se uma nova circunstância de provação, que os levaria a comparar as pretensas predições do falso profeta com a ilustre e bem sustentada série de milagres esplêndidos pelos quais a economia judaica fora estabelecida, comparação que não poderia deixar de confirmar na verdade os homens racionais e virtuosos e de tornar mais indesculpáveis as pessoas levianas e vãs que porventura fossem seduzidas. Esta observação também pode ser aplicada ao caso dos falsos cristos. Em alguns desses casos há também algo de judicial. Quando os homens se entregaram ao vício a ponto de buscar no erro a sua desculpa, parece ser um princípio do governo divino fazer do pecado deles o seu castigo. Os egípcios estavam enfatuados com suas idolatrias; tinham rejeitado as mais claras provas da verdade e foram entregues aos enganos dos demônios que adoravam. Os israelitas, nos períodos de sua história a que Moisés se refere, eram apaixonadamente inclinados à idolatria; desejavam qualquer pretexto ou sanção para ela e estavam prontos a seguir todo sedutor. O que buscavam, encontraram: ocasiões de se desviar, que não teriam tido efeito algum sobre eles se o seu coração fosse reto para com Deus. Os judeus rejeitaram um Messias espiritual, com todas as provas de sua missão, mas estavam prontos a seguir qualquer impostor que lhes prometesse vitória e domínio; estavam dispostos, portanto, a dar ouvidos a todo pretexto e a tornar-se vítimas de toda ilusão. Mas em nenhum caso a tentação foi irresistível, nem mesmo forte, a não ser na medida em que se tornou assim pelas suas próprias inclinações violentas para o mal e pela sua propensão a encontrar pretextos para ele. Em todos os casos aqui supostos, a tentação ao erro nunca esteve presente senão em circunstâncias em que era confrontada com a prova infinitamente superior da verdade, e isso não apenas no número ou na grandeza dos milagres e predições, mas na própria natureza dos “sinais”: uns eram inquestionavelmente milagrosos, os outros eram, no máximo, estranhos e surpreendentes, sem caráter milagroso ou profético decidido. A substituição súbita e imperceptível das varas dos magos por serpentes poderia, se a coisa tivesse terminado ali, ter neutralizado o efeito da transformação real da vara de Arão; mas a serpente de Moisés engoliu as outras. Quando as rãs já estavam por toda a terra do Egito, a imitação deve ter-se limitado a algum lugar propositalmente livre delas e, por essa razão, não teve caráter inequívoco; nem a transformação em sangue da água de um poço (coisa nada difícil de simular) podia rivalizar por um instante com a conversão das águas do poderoso Nilo, e dos inumeráveis canais e reservatórios alimentados por ele, naquela substância repugnante. A isso devemos acrescentar os milagres que se seguiram e que obrigaram até os magos a confessar “o dedo de Deus” (Êx 8.19). O povo que o falso profeta mencionado em Deuteronômio tentasse desviar da Lei conhecia todas as provas magníficas dela: a glória de Deus estava então entre os querubins; o Urim e o Tumim davam as suas respostas; e o governo era um milagre permanente. Os que seguiram falsos cristos conheciam as provas da missão de Jesus; os seus milagres inequívocos, coisa singular, nunca foram negados por aqueles mesmos judeus que, sempre à espreita de engano, clamavam a respeito do Cristo esperado: “Olhem! Aqui está o Cristo!” ou: “Olhem! Ali está ele!” (Mc 13.21). A “ação de Satanás” e os “prodígios da mentira” mencionados em Tessalonicenses (2Ts 2.9) haviam de ocorrer no meio de um povo que não só tinha as palavras de Cristo e de seus apóstolos, mas também reconhecia a autoridade divina delas, estabelecida por milagres e profecias cujo caráter inequívoco os prodígios deles nunca pretenderam sequer igualar. Assim, em nenhum dos casos aduzidos no argumento houve exposição a um erro inevitável por alguma prova em favor da falsidade; a prova da verdade estava em todos esses casos à mão e apresentava-se com um caráter obviamente distinto e superior. Concluímos, portanto, que a objeção ao caráter conclusivo da prova da verdade das Escrituras tirada dos milagres e das profecias, fundada na suposta admissão de que milagres podem ser realizados e profecias proferidas em favor do erro, não só é sem fundamento, mas que, até onde vai a prova escriturística sobre este assunto, a natureza demonstrativa dos milagres e profecias reais fica abundantemente confirmada por aquilo que a Escritura realmente admite quanto à “ação de Satanás”. Ela não admite que milagres reais possam ser realizados, nem profecias reais proferidas; e nunca supõe milagres simulados, quando opostos à verdade revelada, senão em circunstâncias em que podem ser descobertos, ou que lhes dão um caráter equívoco, e em que podem ser comparados com milagres e predições verdadeiros, de modo que ninguém pode ser enganado por eles, a não ser os que estão violentamente decididos ao erro e à transgressão.
Outra objeção ao caráter conclusivo da prova tirada dos milagres é extraída dos pretensos milagres pagãos de Aristeas, Pitágoras, Alexandre do Ponto, Vespasiano e Apolônio de Tiana, e dos relatos de milagres na Igreja romana. Mas, como essa objeção tem sido apresentada muito debilmente pelos adversários do cristianismo, como se eles mesmos se envergonhassem do argumento, a nossa consideração dela será breve. Para um exame completo da objeção, remetemos aos autores mencionados abaixo.7
Quanto à maior parte desses pretensos milagres, podemos observar que era natural esperar que se fizessem pretensões a poderes milagrosos sob todas as formas de religião, visto que a opinião das eras mais antigas era favorável à ocorrência de tais acontecimentos; e, como a verdade tinha sido assim sancionada, não é de surpreender que o erro tentasse contrafazer a sua autoridade. Mas todos eles carecem de provas. Muitos são, de fato, absurdos e têm ar de fábula; e quanto a outros, bem observa o dr. Macknight (Truth of the Gospel History) que “não nos são abonados por nenhum testemunho capaz de levar um homem prudente a dar-lhes crédito. Não são relatados por nenhuma testemunha ocular, nem por nenhuma das pessoas em quem foram operados. Os que os relatam nem sequer alegam tê-los recebido de testemunhas oculares; só os conhecemos por boatos vagos, cuja origem ninguém consegue traçar com exatidão. Os milagres atribuídos a Pitágoras só foram relatados várias centenas de anos depois de sua morte; e os de Apolônio, cem anos depois da morte dele”. Muitos dos casos apresentados, especialmente entre os papistas, podem ser explicados pela imaginação; outros, tanto papistas como pagãos, pelo artifício de sacerdotes que pertenciam ao partido dominante e, por isso, não temiam castigo algum, mesmo quando descobertos. E em quase todos os casos verificamos que foram realizados em favor da religião dominante e diante de pessoas cujos preconceitos religiosos deviam ser lisonjeados e fortalecidos por eles, e, naturalmente, pessoas muito dispostas a tornar-se vítimas. O bispo Douglas estabeleceu no seu Criterion as seguintes regras, decisivas e claras, para provar os milagres: podemos razoavelmente suspeitar que quaisquer relatos de milagres são falsos se não forem publicados senão muito tempo depois da época em que se diz que foram realizados; ou se não foram publicados primeiro no lugar onde se diz que foram operados; ou se provavelmente se deixou que passassem sem exame no tempo e no lugar em que surgiram. Estes são motivos gerais de suspeita, aos quais se podem acrescentar outros particulares, oriundos de quaisquer circunstâncias que indiquem claramente impostura e artifício, de um lado, ou credulidade e imaginação, do outro.
Diante de tais provas, todos os milagres pretensos, pagãos, papistas e outros, sem exceção, encolhem-se; e não devem por um momento ser postos em comparação com obras realizadas publicamente, à vista de milhares de pessoas, e muitas vezes de opositores do sistema que elas haviam de estabelecer; obras que nenhum engenho, seja qual for, pode explicar como artifício, de um lado, ou como efeito da imaginação, do outro; obras realizadas diante de eruditos, estadistas, governantes, perseguidores, das quais os exemplos são numerosos e os lugares em que ocorreram, variados; obras publicadas no próprio tempo e no próprio local; obras não em favor de um sistema dominante, mas dirigidas contra todos os demais estabelecimentos religiosos debaixo do céu; e por darem testemunho delas, as testemunhas originais tinham, portanto, de esperar, e de fato receberam sucessivamente, opróbrio, açoites, prisão e morte.
Também é importante observar que, quaisquer que fossem esses pretensos milagres, fossem relatos falsos ou exagerados, ou imposturas astutas, ou mesmo que admitíssemos que alguns deles foram ocorrências de natureza extraordinária e inexplicável, eles são, na maior parte, quer pagãos, quer papais, uma espécie de ocorrências isoladas, que nem sequer professam provar coisa alguma de interesse comum para o mundo. Assim como estão destituídos de marcas convincentes de credibilidade, também não têm nenhuma conveniência intrínseca, nem qualquer ligação perceptível com um desígnio de importância para a humanidade. Mas “as Escrituras do Antigo Testamento registram uma sucessão contínua de obras maravilhosas, ligadas também de maneira muito notável ao sistema conduzido desde a queda de Adão até a vinda de Cristo. A primeira promessa de um Redentor, que esmagaria a cabeça da serpente, parece ter sido acompanhada de um milagre assinalado, pelo qual a natureza da raça das serpentes foi instantaneamente mudada e reduzida a um estado de degradação e baixeza, expressivo da derrota final daquele espírito maligno por cujos enganos o homem caíra de sua inocência e glória. O sinal posto em Caim foi provavelmente alguma mudança milagrosa em sua aparência exterior, transmitida à sua posteridade e servindo de memorial da primeira apostasia da verdadeira religião. O dilúvio universal foi um exemplo assinalado de castigo milagroso infligido a toda a raça humana, quando ela se afastara do Deus vivo e se tornara inteiramente incorrigível. A dispersão de Babel e a confusão das línguas indicaram o propósito divino de impedir a mistura de idólatras e ateus com o culto do Deus verdadeiro. Os prodígios operados no Egito pela mão de Moisés foram dirigidos expressamente contra as idolatrias insensatas e abomináveis daquele país condenado, e manifestamente destinados a expor o seu absurdo e falsidade, bem como a efetuar a libertação de Israel, o povo de Deus. Os milagres subsequentes no deserto tinham uma tendência evidente a desapegar os israelitas da afeição pelas falsas divindades das nações vizinhas e a instruí-los, por representações figuradas, naquela ‘superior aliança instituída com base em superiores promessas’ (Hb 8.6), da qual a instituição mosaica fora destinada a ser sombra e tipo. O estabelecimento dos israelitas em Canaã, sob o seu líder Josué, e a sua permanência ali por uma longa sucessão de eras foram acompanhados de uma série de prodígios, todos concorrendo para aquele único propósito do Todo-Poderoso: a separação de seu povo de um mundo perverso e apóstata e a preservação de uma descendência escolhida, por meio da qual todas as nações da terra seriam abençoadas. Todo milagre operado sob a teocracia judaica parece ter tido a intenção ou de corrigir as superstições e impiedades das nações vizinhas e levá-las à convicção de que o Senhor Jeová era o Deus verdadeiro e de que além dele não havia outro; ou de reconduzir os judeus, sempre que mostravam disposição de recair nas abominações pagãs e de abandonar aquela verdadeira religião que o Todo-Poderoso se comprometera a sustentar através de todas as eras e para cuja consumação ele estava então, em sua sabedoria infinita, dispondo todos os acontecimentos humanos.
“Nos milagres que nosso Senhor realizou, ele não só demonstrou o seu poder divino, mas cumpriu muitas profecias importantes que se referiam a ele como o Messias. Assim, eles forneciam uma dupla prova de sua autoridade. Em vários deles percebemos também uma referência notável ao objetivo especial de sua missão. Continuamente ele aplicava essas obras maravilhosas ao propósito de inculcar e estabelecer doutrinas não menos maravilhosas e interessantes para os filhos dos homens.
“O mesmo se pode observar igualmente dos milagres registrados dos apóstolos, depois da partida de nosso Senhor deste mundo, em nenhum dos quais encontramos coisa alguma feita por mera ostentação, mas uma evidente atenção ao grande propósito do evangelho, o de converter os homens ‘das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus’ (At 26.18).
“Parece impossível a qualquer homem que pense considerar desta maneira o desígnio e o uso peculiares dos milagres da Escritura e não perceber neles os conselhos infalíveis de uma sabedoria infinita, bem como os indubitáveis exercícios de um poder infinito. Quando vemos as várias partes deste estupendo plano assim harmonizando-se e cooperando para alcançar um objetivo específico, da mais alta importância para toda a raça humana, não podemos deixar de ser tomados pela convicção da absoluta impossibilidade de impostura ou entusiasmo em qualquer parte do procedimento. Somos obrigados a reconhecer que eles exibem provas de uma ação divina, conduzida numa série contínua, tal como nenhum outro sistema jamais pretendeu, tal que não só ultrapassa todo engenho humano, mas que parece impossível ter sido efetuada por qualquer combinação de seres criados.” (Van Mildert, Boyle Lectures.)
Sobre milagres, portanto, como os que atestam a missão de Moisés e a de Cristo, podemos com segurança fundar a prova da autoridade de ambos e dizer a cada um deles, embora com o devido senso da superioridade do “Filho” em relação ao “servo” (Hb 3.5-6): “Rabi, sabemos que o senhor é Mestre vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que o senhor faz, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2).
NOTA A
Em resposta à objeção de que “Moisés descreve as obras dos magos exatamente com a mesma linguagem com que descreve as suas próprias, e que, portanto, há razão para concluir que elas eram igualmente milagrosas”, o dr. Farmer observa:
“1. Que nada é mais comum do que falar de prestidigitadores profissionais como se fizessem o que alegam e parecem fazer, e que essa linguagem nunca induz em erro, quando refletimos sobre o tipo de homens de que se fala, a saber, meros enganadores da vista. Por que, então, Moisés não poderia usar a linguagem popular comum ao falar dos magos, sem nenhum perigo de interpretação errada, uma vez que o assunto de que tratava, todas as circunstâncias da narrativa e a opinião, sabidamente sustentada pelo historiador, sobre a ineficácia e a impostura da magia concorriam todos para impedir enganos?
“2. Moisés não afirma que houve conformidade perfeita entre as suas obras e as dos magos. Ele não encerra os respectivos relatos de cada um de seus milagres dizendo que os magos fizeram aquela coisa, ou que, conforme o que ele fez, assim fizeram eles (forma de expressão usada nesta ocasião nada menos que três vezes num só capítulo para descrever a correspondência exata entre as ordens de Deus e o procedimento de seus servos); mas escolhe uma palavra de grande latitude, que não exprime necessariamente nada mais que uma semelhança geral, compatível com uma diferença em muitos aspectos importantes: fizeram assim, ou de modo semelhante ao que ele fizera [N. do T.: a NAA traz “fizeram o mesmo” (Êx 7.11, 22; 8.7)]. Que uma imitação perfeita não podia ser indicada por essa palavra é evidente por ela ser aplicada a casos em que tal imitação era absolutamente impraticável: pois, quando Arão converteu em sangue todas as águas do Egito, dizem-nos que os magos fizeram assim, isto é, algo do mesmo gênero. Nem se pode supor que eles tenham coberto a terra do Egito de rãs; isso já tinha sido feito; eles só podiam parecer trazê-las sobre algum pequeno espaço limpo para esse fim. Mas o que é mais decisivo: a palavra não indica nada mais que a tentativa deles de alguma imitação de Moisés, pois é usada quando falharam na tentativa: ‘fizeram o mesmo com as suas ciências ocultas para produzirem piolhos, mas não conseguiram’ (Êx 8.18).
“3. Moisés está tão longe de atribuir os truques dos magos à invocação e ao poder de demônios, ou a quaisquer seres superiores, que refere da maneira mais expressa tudo o que eles fizeram ou tentaram em imitação dele ao artifício humano e à impostura. As palavras originais, que na versão inglesa se traduzem por enchantments [encantamentos],8 são inteiramente diferentes da que se traduz por enchantments em outras passagens da Escritura, e não trazem em si nenhuma espécie de referência à feitiçaria ou à magia, nem à interposição de quaisquer agentes espirituais; indicam engano e ocultação, e deveriam ter sido traduzidas por artimanhas secretas ou prestidigitações, e assim são traduzidas até por aqueles que adotam a hipótese comum a respeito dos magos. Essas artimanhas secretas e prestidigitações são referidas expressamente aos magos, não ao diabo, que nem sequer é mencionado na história. Se, portanto, nos perguntarem,9 como aconteceu que, caso as obras dos magos fossem realizadas por destreza das mãos, Moisés não tenha dado nenhum indício disso, respondemos: ele não se contentou com um indício dessa espécie, mas, ao mesmo tempo em que atribui os seus próprios milagres a Jeová, reduziu nos termos mais diretos tudo o que se fez em imitação deles inteiramente às maquinações fraudulentas de seus opositores, ao ilusionismo ou destreza das mãos, em contraste com encantamentos mágicos. Moisés, portanto, não podia ter a intenção de representar as obras deles como milagres reais, no exato momento em que as estigmatizava como imposturas.
“Resta apenas mostrar que as obras realizadas pelos magos não excederam a causa a que são atribuídas; ou, em outras palavras, que os magos não foram além, na imitação de Moisés, do ponto a que o artifício humano podia permitir-lhes chegar (ao passo que os milagres de Moisés não estavam sujeitos à mesma acusação e traziam em si as mais claras assinaturas daquele poder divino a que são referidos). Se isso puder ser provado, a interposição do diabo nesta ocasião aparecerá como uma hipótese inventada sem nenhuma espécie de necessidade, assim como certamente o é sem nenhuma autoridade do texto sagrado.
“1. Quanto à primeira tentativa dos magos, a de transformar varas em serpentes, não se pode considerar extraordinário que parecessem ter êxito nela, quando consideramos que esses homens eram famosos pela arte de ofuscar e enganar a vista, e que com serpentes, primeiro tornadas dóceis e inofensivas, como facilmente podem ser, já se fizeram mil truques diferentes, para espanto dos espectadores.
“2. Quanto à tentativa seguinte dos magos de imitar Moisés, que já havia transformado em sangue todas as águas correntes e paradas do Egito, não há dificuldade em explicar o êxito deles, na medida em que o tiveram. Pois foi durante a vigência desse juízo, quando não se podia obter água senão cavando ao redor do rio, que os magos tentaram, por meio de algumas preparações adequadas, mudar a cor da pequena quantidade que lhes foi trazida (procurando provavelmente persuadir Faraó de que poderiam com a mesma facilidade ter transformado em sangue uma quantidade maior). Num caso dessa natureza, a impostura podia ocorrer e, como aprendemos da história, muitas vezes ocorreu. Valério Máximo relata (livro 1, cap. 6) que o vinho derramado na taça de Xerxes foi três vezes mudado em sangue. Mas feitos insignificantes como esses de modo algum podiam depreciar o milagre de Moisés, cuja vasta extensão o elevava acima da suspeita de fraude e imprimia em todo coração que não estivesse endurecido contra toda convicção a mais forte impressão de sua divindade. Pois ele transformou em sangue os seus ribeiros, rios, lagoas e a água de todos os seus reservatórios. ‘Os peixes que estavam no rio [o Nilo] morreram, o rio cheirou mal’ (Êx 7.19-21).
“3. Como Faraó não cedeu diante dessa prova, Deus passou a castigos maiores e cobriu de rãs toda a terra do Egito.10 Antes que essas rãs fossem removidas, os magos se dispuseram a trazer um novo suprimento delas para algum lugar limpo para esse fim, o que podiam fazer facilmente, havendo tanta abundância à mão por toda parte. Também aqui a pequena extensão da obra a expunha à suspeita de ser efetuada por arte humana, à qual o milagre de Moisés não estava sujeito, pois o número infinito de rãs que encheram todo o reino do Egito (de modo que os seus fornos, camas e mesas fervilhavam delas) era prova de sua produção imediata e milagrosa. Além disso, os magos foram incapazes de obter a remoção delas, que foi efetuada por Moisés, a pedido submisso de Faraó, e no exato momento que o próprio Faraó escolheu, para convencê-lo mais claramente de que Deus era o autor desses juízos milagrosos e de que a imposição ou a remoção deles não dependia da influência dos elementos ou dos astros, em tempos fixos ou em conjunturas críticas (Êx 8.8).
“4. A história da última tentativa dos magos confirma o relato aqui dado de todas as anteriores. Moisés transformou em piolhos todo o pó da terra; e essa praga, como as duas anteriores, sendo infligida à palavra de Moisés e estendida a todo o reino do Egito, deve necessariamente ter-se devido não à arte humana, mas a um poder divino. Contudo, os motivos pelos quais os magos de início entraram na disputa com Moisés, a vergonha de desistir e algumas leves aparências de êxito em suas tentativas anteriores levaram-nos a continuar ainda a impostura e a tentar produzir piolhos ‘com as suas ciências ocultas’, ‘mas não conseguiram’ (Êx 8.18). Com toda a sua perícia em magia e com toda a sua destreza em enganar os espectadores, não conseguiram ir nem tão longe quanto tinham ido em casos anteriores, produzindo uma contrafação aparente dessa obra de Moisés. Se até então tivessem realizado milagres reais com o auxílio do diabo, como é que desistiram agora? Não pode ser maior milagre produzir piolhos do que transformar varas em serpentes, água em sangue e criar rãs. Tem-se dito, é verdade, muitíssimas vezes, que o diabo foi então posto sob restrição; mas até hoje não se produziu nenhuma prova dessa afirmação. A Escritura silencia tanto sobre o diabo ter sido então impedido de interpor-se mais em favor dos magos quanto sobre ele lhes ter prestado auxílio nas ocasiões anteriores. Mas, se concordarmos com Moisés em não atribuir aos magos nada além do artifício e da destreza que pertenciam à sua profissão, veremos que a falta de êxito em sua última tentativa se deveu à natureza e às circunstâncias diferentes de seu empreendimento.”
NOTA B
“Mas, se em algum momento os espíritos malignos, por sua sutileza e experiência e pelo conhecimento dos negócios do mundo, predisseram coisas que de fato aconteceram, eram coisas que se deram pouco tempo depois, e comumente coisas a que eles mesmos incitavam e instigavam os homens. Assim, quando a conspiração contra César estava a ponto de ser executada e o diabo tinha os seus agentes envolvidos nela, ele podia predizer o tempo e o lugar de sua morte. Mas fora predito antes a Pompeu, a Crasso e ao próprio César, como Túlio [Cícero] nos informa por seu próprio conhecimento, que todos morreriam em suas camas e numa velhice honrada, e, no entanto, todos tiveram morte violenta. Homens sábios e observadores às vezes conseguiram fazer predições surpreendentes sobre o estado dos negócios; e, portanto, os espíritos podem ser muito mais capazes de fazê-lo. Os espíritos malignos podiam predizer aquilo que lhes era permitido infligir ou provocar: poderiam ter predito as calamidades de Jó, ou a morte de Acabe em Ramote-Gileade.
“O diabo nem sempre podia predizer o que havia de acontecer, e por isso os seus agentes precisavam de suas abóbadas e estátuas ocas e de outros artifícios para ocultar a sua ignorância e socorrê-los quando suas artes de conjuração falhavam. Mas não temos razão para pensar que o diabo, tão diligente em promover os seus fins malignos por todos os meios possíveis, deixasse de aproveitar uma oportunidade como a que lhe dava a opinião que os pagãos tinham de seus oráculos; e as provas que Creso e Trajano fizeram bastam para mostrar que havia neles algo de sobrenatural e diabólico. Creso mandou consultar muitos oráculos num momento determinado, e a pergunta a lhes ser feita era o que o próprio Creso estava fazendo naquele momento; e ele resolveu ocupar-se da coisa mais improvável que se pudesse imaginar, pois estava cozinhando juntos uma tartaruga e um cordeiro numa panela de bronze; e, no entanto, o oráculo de Delfos revelou aos mensageiros o que o rei estava fazendo naquele momento. Trajano, quando ia partir para a Pártia, enviou a um oráculo da Assíria um papel em branco lacrado, pedindo resposta; o oráculo devolveu-lhe outro papel em branco, para mostrar que não se deixava enganar assim.
“Mas, embora coisas de interesse presente fossem reveladas tanto a Creso como a Trajano além de todo poder humano de conhecê-las, ambos foram enganados por respostas ambíguas quando consultaram sobre coisas futuras, das quais o diabo não podia alcançar o conhecimento.
“Muitos dos próprios sacerdotes pagãos, ao serem examinados, confessaram publicamente que vários de seus oráculos eram imposturas e revelaram todas as maquinações e o manejo do engano, o que foi registrado. E, quanto aos demais, o poder do diabo foi sempre tão limitado e contido que deixou meios suficientes para desenganar os homens, embora muitas de suas predições pudessem cumprir-se.” (Jenkins, Reasonableness of Christianity.)
“Muitos eruditos consideram todos os oráculos pagãos como resultado da mais grosseira impostura. Alguns os consideram obra de espíritos malignos. Outros são de opinião que, por meio desses oráculos, algumas profecias reais foram ocasionalmente concedidas ao mundo gentio para sua instrução e consolação. Mas, seja qual for a opinião a que nos inclinemos, não será difícil descobrir uma diferença radical entre esses oráculos e as profecias da Escritura.
“Nos oráculos pagãos não conseguimos discernir nenhum sinal claro e inequívoco de profecia genuína. Eram destituídos de dignidade e importância, não tinham ligação uns com os outros, não visavam a nenhum objeto de interesse geral e nunca olhavam para tempos distantes dos seus. Lemos apenas de algumas poucas predições e prognósticos, espalhados pelos escritos de poetas e filósofos, a maior parte dos quais, além de muito fracamente autenticados, parecem ter sido respostas a perguntas de interesse meramente local, pessoal e temporário, relativas ao desfecho de negócios então efetivamente em andamento e a acontecimentos que logo se decidiriam. Longe de tentar formar alguma cadeia de profecias a respeito de coisas muito distantes no tempo ou no espaço, ou de assuntos contrários à probabilidade humana e que exigissem ação sobrenatural para se efetuarem, os sacerdotes e adivinhos pagãos nem sequer pretendiam ter um plano sistemático e coerente. Mal ousavam, na verdade, assumir o caráter profético em toda a sua força, mas ficavam, por assim dizer, tremendo à beira do futuro, conscientes de sua incapacidade de se aventurar além das profundezas da conjectura humana. Por isso as suas predições se tornaram tão passageiras, tão fúteis, tão desinteressantes, que nunca foram reunidas como dignas de preservação, mas logo caíram em descrédito e em quase total esquecimento.
“As profecias da Escritura, por outro lado, constituem uma série de predições relativas principalmente a um grande objeto de importância universal, a obra da redenção do homem, e conduzidas em progressão regular através das dispensações patriarcal, judaica e cristã, com uma harmonia e uniformidade de desígnio que indicam claramente um só e mesmo Autor divino, o único que podia dizer: ‘Lembrem-se das coisas passadas, das coisas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim. Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade revelo as coisas que ainda não sucederam. Eu digo: o meu conselho permanecerá em pé, e farei toda a minha vontade’ (Is 46.9-10). Os profetas genuínos do Todo-Poderoso contemplaram essas coisas com olhar claro e firme; declararam-nas com autoridade e confiança; e deram, além disso, sinais do céu para a convicção dos outros. Por isso os seus escritos foram transmitidos de geração em geração, preservados com escrupulosa fidelidade e sempre considerados com reverência, por causa das muitas provas incontestáveis de seu cumprimento e de sua ligação inseparável com as esperanças e expectativas religiosas da humanidade.” (Bispo de Llandaff.)
1. “Eles, os sábios do Egito, ‘fizeram também o mesmo com as suas ciências ocultas’ (Êx 7.11). A palavra להטים, lahatim, vem de להט, lahat, queimar, pôr fogo; e provavelmente significa encantamentos que exigiam fogos lustrais, sacrifícios, fumigações, queima de incenso, drogas aromáticas e odoríferas etc., como meios de evocar espíritos de falecidos, ou demônios auxiliares, por cujo ministério, é provável, os magos em questão operaram alguns de seus milagres enganosos; pois, como o termo milagre significa propriamente algo que excede o poder da natureza ou da arte para produzir (veja o versículo 9), não pode ter havido neste caso milagre algum senão os operados pelo poder de Deus, por meio do ministério de Moisés e Arão.” (Dr. Adam Clarke, comentário sobre a passagem.) ↩
2. Veja a nota A no fim do capítulo. ↩
3. Alguns dos demônios adorados pelos pagãos tinham reputação benévola, e estes sem dúvida foram sugeridos pela tradição dos anjos bons; outros eram malignos, e não eram outros senão os anjos maus, os diabos, transmitidos pela mesma tradição. Assim diz Plutarco: “É opinião muito antiga que há demônios malévolos, que invejam os homens bons e se opõem a eles em suas ações” etc. ↩
4. A paixão de Satanás por ser adorado aparece fortemente marcada na tentação de nosso Senhor: “Tudo isso lhe darei se, prostrado, você me adorar” (Mt 4.9). Em todas as eras, seres maus e sanguinários foram deificados. Assim era no tempo de Moisés, e assim continua até hoje na Índia e na África, onde o culto ao diabo é professado abertamente. No Ceilão, nada é mais comum; e em muitas partes da África cada aldeia tem a sua casa do diabo. ↩
5. Este assunto é discutido com agudeza e erudição em An Answer to M. de Fontenelle’s History of Oracles, translated from the French by a Priest of the Church of England. ↩
6. Veja a nota B no fim do capítulo. ↩
7. Macknight, Truth of the Gospel History; Douglas, Criterion; Campbell, on Miracles; e Paley, Evidences. ↩
8. A palavra original usada em Êx 8.11 [N. do T.: assim no original; a forma belahatehem ocorre em Êx 7.11] é belahatehem; e a que ocorre em Êx 7.22 e 8.7, 18 é belatehem. A primeira deriva provavelmente de lahat, que significa queimar, e, como substantivo, uma chama ou a lâmina reluzente de uma espada, e é aplicada à espada flamejante que guardava a árvore da vida (Gn 3.24). Os que antigamente praticavam o ilusionismo ofuscavam e enganavam a vista dos espectadores pela arte de brandir as espadas, e às vezes pareciam comê-las e enfiá-las no corpo; e a expressão parece insinuar que o fato de os magos parecerem transformar suas varas em serpentes se devia a terem iludido os olhos dos espectadores por um manejo destro de suas espadas. Nos casos seguintes usaram algum expediente diferente, pois a segunda palavra, belatehem, vem de laat, cobrir ou esconder (de onde alguns pensam que também vem a primeira palavra), e por isso exprime apropriadamente quaisquer artifícios secretos ou métodos de engano pelos quais se impõem falsas aparências aos espectadores. ↩
9. Como nos pergunta o dr. Macknight em sua Truth of the Gospel History, p. 372. ↩
10. Êx 8.6-8. Nem se pode imaginar, na verdade, que, depois de removida esta praga ou a anterior, Faraó ordenasse aos seus magos que renovassem qualquer uma delas. ↩