Além das objeções que foram antecipadas e respondidas no capítulo anterior, outras se levantaram contra o argumento tirado da profecia, as quais, embora extremamente fúteis, merecem uma breve menção, para que ninguém as julgue de maior importância.
Objetou-se, a respeito de algumas profecias, que foram escritas depois do acontecimento: por exemplo, a profecia de Isaías em que se encontra o nome de Ciro, e as profecias de Daniel. Essa alegação, que não se apoia em prova alguma e, na verdade, se opõe a provas em contrário, mostra quanto é desesperada a causa da incredulidade e proporciona um elevado triunfo à prova tirada da profecia. Pois o objetor de fato reconhece que essas predições não são obscuras, que o acontecimento correspondeu exatamente a elas e que estavam além da conjectura humana. Sem entrar nas questões relativas à data dos livros de Isaías e Daniel, que pertencem propriamente às obras sobre o cânon da Escritura, podemos observar que os autores dessa objeção afirmam, mas sem dar a menor prova, que Isaías escreveu as suas profecias para lisonjear Ciro e que o livro de Daniel foi composto por volta do reinado de Antíoco Epifânio. Admite-se, portanto, que ambos existiam, e em sua forma atual, antes da era cristã; mas, se é assim, perguntamos: a que fim serve a objeção? As Escrituras, tais como recebidas pelos judeus, foram confirmadas pela sentença de nosso Senhor e dos seus apóstolos; e, a menos que se possa refutar a inspiração deles, a objeção em causa é mera chicana. Antes que ela possa ter algum peso, é preciso derrubar toda a massa de provas que sustenta a missão e a autoridade divina do nosso Salvador e dos apóstolos; e só então se poderá, a rigor de raciocínio, sustentá-la. Mas, para não insistir nisso, a afirmação a respeito de Isaías opõe-se a um testemunho positivo: o testemunho do próprio profeta, que declara ter vivido “nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá” (Is 1.1); e o testemunho de uma testemunha independente, o autor do Segundo Livro dos Reis, em cujo capítulo vinte Isaías aparece ligado a um acontecimento público da história judaica, a perigosa enfermidade e a cura do rei Ezequias. A prova, portanto, é tão decisiva quanto os registros públicos de um reino podem torná-la: Isaías escreveu mais de cem anos antes do nascimento de Ciro.1
A época em que Daniel viveu e escreveu está igualmente entrelaçada com a história pública, e não só dos judeus, mas dos babilônios e dos persas; e não poderia ter sido antecipada a ponto de enganar os judeus, que receberam no seu cânon o livro que leva o seu nome como obra do mesmo Daniel que ocupara altos cargos nas cortes de Nabucodonosor e dos seus sucessores. Em favor de atribuir ao livro de Daniel uma data posterior, disse-se que ele contém muitos termos gregos e que não foi traduzido pelos LXX, sendo a tradução hoje inserida na Septuaginta de Teodócio. Quanto aos termos gregos, encontram-se principalmente nos nomes dos instrumentos musicais; e os gregos reconhecem que receberam a sua música das nações orientais. Quanto à segunda objeção, ela é infundada. Os autores da Septuaginta traduziram, sim, o livro de Daniel, e a sua versão é citada por Clemente Romano, Justino Mártir e muitos dos antigos Pais da Igreja; ocupava uma coluna da Héxapla de Orígenes e é citada por Jerônimo. A atual versão grega de Teodócio, inserida na Septuaginta, foi feita no século II e preferida por ser mais conforme ao original. A versão rejeitada foi publicada há alguns anos a partir de um antigo manuscrito descoberto em Roma.2
Os adversários da Escritura gostam de tentar rebaixar a dignidade e a autoridade das profecias sagradas comparando-as com os oráculos pagãos. O contraste absoluto entre elas já foi apontado (ver capítulo XVI); mas algumas observações adicionais talvez não sejam inúteis.
Dos inumeráveis oráculos estabelecidos e consultados pelos antigos pagãos, o mais célebre era o de Delfos; podemos, portanto, para mostrar mais perfeitamente o contraste entre o oráculo pítico e as profecias da Escritura, limitar a ele as nossas observações.
A primeira grande diferença está em que nenhuma das predições jamais proferidas pelo oráculo de Delfos penetrava fundo no futuro. Referem-se a acontecimentos prestes a ocorrer, cujas circunstâncias preparatórias eram conhecidas. Não havia sequer a pretensão de prever à distância de poucos anos; e, mesmo que fossem cem anos, esse seria um período muito limitado para o olhar dos profetas inspirados, que contemplavam o curso das eras sucessivas e davam prova, pela própria amplitude e alcance das suas predições, de que estavam sob a inspiração daquele para quem “um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia” (2Pe 3.8).
Um segundo contraste está na ambiguidade das respostas. As profecias da Escritura são às vezes obscuras, embora isso não se aplique às mais eminentes dentre as que se cumpriram de modo mais notável, como já vimos; mas nunca são equívocas. Por isso o oráculo pítico era notório. Os historiadores relatam que Creso, que gastara grandes somas com os agentes desse embuste, foi enganado por um equívoco, pelo qual, interpretando a resposta da maneira mais favorável a si mesmo, foi induzido a fazer contra Ciro uma guerra malsucedida. No cativeiro que se seguiu, ele censurou repetidas vezes o oráculo e acusou-o de falsidade. A resposta dada a Pirro foi do mesmo tipo e estava expressa de modo a ser verdadeira, quer Pirro vencesse os romanos, quer os romanos vencessem Pirro. Dão-se muitos outros exemplos do mesmo gênero, para não mencionar os oráculos frívolos, e até zombeteiros e jocosos, que às vezes se pronunciavam.3
A venalidade, a riqueza e o servilismo do oráculo de Delfos oferecem outro contraste com a pobreza e o desinteresse dos profetas judeus, a quem nenhuma dádiva podia subornar e nenhum poder intimidar no cumprimento do seu dever. Demóstenes, num dos seus discursos aos atenienses, acusa publicamente esse oráculo de ter sido “conquistado para os interesses do rei Filipe”; e os historiadores gregos dão outros exemplos em que ele fora corrompido por dinheiro, e a profetisa foi deposta, umas vezes por suborno, outras por devassidão.
Nem ameaças nem perseguições exerciam qualquer influência sobre os profetas judeus; mas parece que esse célebre oráculo de Apolo não resistia sequer à zombaria. A princípio dava as suas respostas em verso; mas, como os epicureus, os cínicos e outros zombavam tanto da pobreza da versificação, acabou por passar à prosa. “Era surpreendente”, diziam esses engenhosos filósofos, “que Apolo, o deus da poesia, fosse um poeta muito pior do que Homero, a quem ele mesmo inspirara.” Plutarco considera isso uma das principais causas da decadência do oráculo de Delfos. Sem dúvida ele já perdera muito do seu crédito no tempo de Plutarco; e a maior difusão do cristianismo completou a sua ruína.
Podem, então, as profecias da Escritura ser equiparadas a esses oráculos obscuros, venais e enganosos sem impiedade? E poderia desejar-se honra mais alta para os profetas judeus do que a comparação a que assim são submetidos com os agentes do paganismo em Delfos e em outros lugares? Eles não recorriam a palavras lisonjeiras nem a concessões às disposições e aos preconceitos dos homens. Não ocultavam nenhuma verdade que tivessem sido comissionados a declarar, por mais desagradável que fosse à sua nação e arriscada para si mesmos. Não precisavam de cavernas nem de recintos secretos de templos de onde proferir as suas mensagens; e os que os consultavam não eram manipulados pelas cerimônias desconcertantes impostas aos consulentes em Delfos. Profetizavam nas ruas, nos átrios e nos palácios, e no meio de grandes assembleias. As suas predições tinham um sentido claro, determinado e coerente; e descreviam acontecimentos futuros com tantas particularidades de tempo e lugar que tornavam quase impossível que fossem mal entendidas ou mal aplicadas.
Por mais puro e elevado que fosse o caráter dos profetas judeus, o atrevimento da incredulidade tentou difamá-lo, porque, segundo a narrativa da Escritura, houve falsos profetas e homens maus que levaram esse nome.
Cita-se Balaão, embora não fosse profeta judeu; mas que ele tenha sido sempre um homem mau carece de prova. O provável é que a sua virtude tenha sido vencida pelas ofertas de Balaque; e o espírito profético não lhe foi retirado porque havia, da parte de Deus, o evidente propósito de tornar mais visível o seu favor para com Israel, obrigando um profeta relutante a abençoar quando queria amaldiçoar, e isso na própria presença de um rei hostil. Terminada essa obra, Balaão foi entregue ao castigo que merecia.
Quanto aos falsos profetas judeus, é um procedimento singular condenar os verdadeiros por causa deles e argumentar que, porque homens maus assumiram as suas funções e imitaram as suas maneiras com propósitos corruptos, os profetas universalmente aceitos da nação (homens que, pelas provas que deram da sua inspiração, tiveram a sua missão reconhecida até por aqueles que os odiavam, e cujos escritos foram recebidos no cânon judaico) também eram homens maus. Considere-se o caráter de Moisés, Samuel, Elias, Eliseu, Natã, Isaías, Jeremias,4 Daniel e dos autores dos outros livros proféticos; e quão verdadeiras são as palavras do apóstolo de que eles eram “santos homens da antiguidade”, assim como de que eram “movidos pelo Espírito Santo”! [N. do T.: Watson cita 2Pe 1.21 pela versão inglesa, que diz “santos homens de Deus”; a NAA traz “homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”.] Que os profetas que profetizavam “coisas agradáveis” (Is 30.10) nunca foram considerados verdadeiros profetas, a não ser por algum tempo e por uns poucos que desejavam ver lisonjeadas as suas esperanças, fica claro por isto: nenhum dos seus escritos foi preservado pelos judeus. As predições deles não abundariam em repreensões e ameaças, como as de Isaías e Jeremias; e, no entanto, as palavras daqueles profetas que eram pessoalmente os mais desagradáveis aos judeus da época em que viveram foram preservadas, ao passo que toda profecia lisonjeira foi deixada cair no esquecimento quase tão logo foi proferida. Podemos ter prova mais decisiva do que esta de que os falsos profetas eram uma classe de homens inteiramente distinta, os imitadores venais desses “santos homens da antiguidade”, mas que nunca deram, nem mesmo aos mais dispostos a ouvir as suas profecias enganosas, uma prova satisfatória da sua missão profética?
Houve tentativas de mostrar que algumas das profecias da Escritura falharam. Os principais exemplos são os seguintes. Disse-se que foi feita uma promessa falsa a Abraão quando se lhe prometeu que os seus descendentes possuiriam o território situado entre o Eufrates e o rio do Egito. Mas essa objeção é claramente feita por ignorância das Escrituras; pois o fato é que Davi conquistou esse território, e que os domínios de Salomão se estenderam assim. (Ver 2Sm 8; 1Cr 18.)
Voltaire objeta que os profetas fizeram aos judeus promessas das mais ilimitadas riquezas, domínio e influência, de tal modo que só poderiam ter-se cumprido se eles conquistassem ou convertessem ao seu credo o globo habitável inteiro. Ao contrário, diz ele, perderam as suas possessões em vez de obter bens ou poder; e, portanto, as profecias são falsas.
O caso está aqui exposto de modo injusto. Os profetas nunca fizeram promessas tão exageradas. Predizem muitas bênçãos espirituais a serem concedidas nos tempos do Messias, sob figuras tiradas da opulência e do poder mundanos, cuja linguagem figurada nenhum leitor atento pode confundir. Prometem também muitas vantagens civis, mas apenas sob a condição da obediência da nação; e falam em termos elevados do estado da nação judaica na sua restauração final, pela qual os objetores terão de esperar antes de poderem declarar falsas as predições. Mas não sabia Voltaire que a perda da sua própria terra pelos judeus, de que ele fala, foi predita da maneira mais clara? E não teria ele visto, se não estivesse cego pelos seus preconceitos, que a sua própria objeção reconhece a verdade da profecia? As promessas dos profetas não foram desmentidas no exemplo dado; mas as suas ameaças cumpriram-se de modo notável.
Paine, seguindo escritores anteriores das mesmas opiniões, afirma que a profecia de Isaías a Acaz não foi confirmada pelo acontecimento, e o bispo Watson lhe responde assim (Apology, carta V): “A profecia é citada pelo senhor para provar (e é o único exemplo que o senhor apresenta) que Isaías era ‘um profeta mentiroso e um impostor’. Ora, eu sustento que esse mesmo exemplo prova que ele era um verdadeiro profeta, e não um impostor. A história da profecia, tal como é dada no capítulo sétimo, é esta: Rezim, rei da Síria, e Peca, rei de Israel, fizeram guerra contra Acaz, rei de Judá, não meramente, ou talvez de modo algum, por causa do saque ou da conquista de território, mas com o propósito declarado de fazer uma revolução completa no governo de Judá, de destruir a casa real de Davi e de colocar outra família no trono. O propósito deles é expresso assim: ‘Vamos atacar e amedrontar o reino de Judá. Vamos conquistá-lo para nós e fazer reinar no meio dele o filho de Tabeal’ (Is 7.6). Ora, que comissionou o Senhor a Isaías dizer a Acaz? Comissionou-o a dizer: Os reis não te amedrontarão? Não. Os reis não te conquistarão? Não. Os reis não terão êxito contra ti? Não. Comissionou-o a dizer: ‘Isso (o propósito dos dois reis) não tem nenhuma chance de acontecer’ (Is 7.7). Eu pergunto: subsistiu? Aconteceu? Efetuou-se alguma revolução? A casa real de Davi foi destronada e destruída? Tabeal foi alguma vez feito rei de Judá? Não. A profecia cumpriu-se perfeitamente. O senhor diz: ‘Em vez de esses dois reis fracassarem na sua tentativa contra Acaz, eles tiveram êxito: Acaz foi derrotado e destruído.’ Nego o fato: Acaz foi derrotado, mas não destruído; e mesmo os ‘duzentos mil: mulheres, filhos e filhas’ (2Cr 28.8), que o senhor apresenta como levados para o cativeiro, não foram levados para o cativeiro. Foram feitos prisioneiros, mas não foram levados para o cativeiro; pois os principais homens de Samaria, advertidos por um profeta, não permitiram que Peca trouxesse os prisioneiros para a terra: ‘Os homens que foram citados nominalmente se levantaram, cuidaram dos prisioneiros e, com as roupas que estavam no meio dos despojos, vestiram todos os que estavam nus. Deram-lhes roupas, sandálias, comida, bebida, e os ungiram. Fizeram montar em jumentos todos os que estavam fracos (alguma humanidade, como o senhor vê, entre esses israelitas, que o senhor apresenta em toda parte como brutos bárbaros), e os levaram até Jericó, a cidade das palmeiras, a seus irmãos’ (2Cr 28.15). Os reis fracassaram, sim, na sua tentativa: a tentativa deles era destruir a casa de Davi e fazer uma revolução; mas não fizeram revolução nenhuma; não destruíram a casa de Davi, pois Acaz descansou com seus pais, e Ezequias, seu filho, da casa de Davi, reinou em seu lugar.”
O mesmo escritor faz uma tentativa semelhante de imputar a Jeremias a acusação de falsa profecia, e o bispo de Llandaff lhe responde assim: “‘No capítulo trinta e quatro há uma profecia de Jeremias a Zedequias, nestas palavras, versículo 2: Assim diz o Senhor: Eis que entregarei esta cidade nas mãos do rei da Babilônia, o qual a queimará. Você não escapará das mãos dele; pelo contrário, será preso e entregue nas suas mãos. Você verá o rei da Babilônia face a face, e ele falará com você pessoalmente. E você será levado para a Babilônia. No entanto, ouça a palavra do Senhor, ó Zedequias, rei de Judá: Assim diz o Senhor a respeito de você: Você não morrerá à espada, mas morrerá em paz. Queimarão perfumes em sua honra, como queimaram em honra aos seus pais, os reis que o precederam. E eles o prantearão, dizendo: Ai, senhor! Pois sou eu quem está dizendo isto, diz o Senhor (Jr 34.2-5). Ora, em vez de Zedequias ver o rei da Babilônia face a face e falar com ele pessoalmente, e morrer em paz, com a queima de perfumes como nos funerais de seus pais (conforme Jeremias declarou que o próprio Senhor havia pronunciado), aconteceu o contrário, segundo o capítulo cinquenta e dois. Ali se diz (versículo 10) que o rei da Babilônia mandou matar os filhos de Zedequias à vista deste; mandou furar os olhos de Zedequias, amarrou-o com correntes, levou-o à Babilônia e o conservou no cárcere até o dia da sua morte (Jr 52.10-11). Que podemos dizer desses profetas, senão que são impostores e mentirosos?’ Posso dizer isto: que a profecia que o senhor apresentou se cumpriu em todas as suas partes; e que se há de dizer, então, dos que chamam Jeremias de mentiroso e impostor? Aqui, pois, estamos claramente em desacordo: o senhor afirma que a profecia não se cumpriu, e eu afirmo que se cumpriu em todas as suas partes. ‘Entregarei esta cidade nas mãos do rei da Babilônia, o qual a queimará’: assim diz o profeta. Que diz a história? ‘Os caldeus [as forças do rei da Babilônia] queimaram a Casa de Deus e derrubaram a muralha de Jerusalém. Queimaram todos os seus palácios’ (2Cr 36.19). ‘Você não escapará das mãos dele; pelo contrário, será preso e entregue nas suas mãos’: assim diz o profeta. Que diz a história? ‘Todos os homens de guerra fugiram de noite […]. Fugiram na direção do vale do Jordão, mas o exército dos caldeus perseguiu o rei Zedequias e o alcançou nas campinas de Jericó; e todo o exército deste se dispersou e o abandonou. Então Zedequias foi preso e levado ao rei da Babilônia, em Ribla’ (2Rs 25.4-6). O profeta prossegue: ‘Você verá o rei da Babilônia face a face, e ele falará com você pessoalmente.’ Circunstância nada agradável para Zedequias, que provocara o rei da Babilônia ao rebelar-se contra ele. A história diz que o rei da Babilônia ‘lhe pronunciou a sentença’ (Jr 52.9), ou, como se traduz mais literalmente do hebraico, ‘falou juízos com ele em Ribla’. O profeta conclui essa parte com: ‘E você será levado para a Babilônia’; a história diz: ‘amarrou-o com correntes de bronze, levou-o à Babilônia e o conservou no cárcere até o dia da sua morte’ (Jr 52.11). ‘Você não morrerá à espada.’ Ele não morreu à espada; não caiu em batalha. ‘Mas morrerá em paz.’ Ele morreu, sim, em paz: não expirou no potro de tortura nem no cadafalso; não foi estrangulado nem envenenado, sorte nada incomum de reis cativos; morreu pacificamente na sua cama, ainda que essa cama estivesse numa prisão. ‘Queimarão perfumes em sua honra, como queimaram em honra aos seus pais.’ Não posso provar pela história que essa parte da profecia se cumpriu, nem o senhor pode provar que não se cumpriu. O provável é que se tenha cumprido, e tenho duas razões em que fundamento essa probabilidade. Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, para nada dizer de outros judeus, eram homens de grande autoridade na corte do rei da Babilônia antes e depois do início da prisão de Zedequias; e Daniel continuou no poder até a subversão do reino da Babilônia por Ciro. Ora, parece-me muito provável que Daniel e os outros grandes homens dos judeus tivessem tanto a disposição de pedir quanto influência suficiente junto ao rei da Babilônia para obter permissão de sepultar o seu falecido príncipe Zedequias à maneira de seus pais. Mas, ainda que não houvesse na Babilônia judeus de importância bastante para fazer tal pedido, ainda assim é provável que o rei da Babilônia tivesse ordenado aos judeus que sepultassem e pranteassem o seu príncipe falecido à maneira do seu país. Os monarcas, como os demais homens, têm consciência da instabilidade da condição humana; e, quando cessou a pompa da guerra, quando a insolência da conquista se abrandou e a fúria do ressentimento se aplacou, raramente deixam de reverenciar a realeza, mesmo em ruínas, e de conceder, sem relutância, exéquias dignas aos restos de reis cativos.”
Ezequiel é atacado da mesma maneira. “O senhor cita”, diz o mesmo escritor, “uma passagem de Ezequiel, no capítulo vinte e nove, onde, falando do Egito, se diz: ‘Não passará por ela pé humano, nem pata de animal passará por ela, nem será habitada durante quarenta anos’ (Ez 29.11). Isso, diz o senhor, ‘nunca aconteceu e, consequentemente, é falso, como o são todos os livros que já examinei’. Ora, de que a invasão predita de fato aconteceu temos, como observa o bispo Newton, ‘os testemunhos de Megástenes e Beroso, dois historiadores pagãos que viveram cerca de trezentos anos antes de Cristo; um dos quais afirma expressamente que Nabucodonosor conquistou a maior parte da África; e o outro o afirma em substância, ao dizer que, quando Nabucodonosor soube da morte de seu pai, tendo resolvido os seus negócios no Egito e confiado a alguns dos seus amigos os cativos que tomara no Egito, para que os levassem atrás dele, apressou-se em ir diretamente para a Babilônia’. E, se não possuíssemos nenhum testemunho em apoio da profecia, seria uma conclusão precipitada a de que ela nunca se cumpriu, visto que a história do Egito, numa época tão remota, não é relatada em parte alguma com exatidão e pormenor. Admito que não se pode apontar nenhum período, desde a época de Ezequiel até hoje, em que não se tenha visto pé de homem ou de animal durante quarenta anos em todo o Egito; mas alguns pensam que aqui se fala apenas de uma parte do Egito;5 e certamente o senhor não espera o cumprimento literal de uma expressão hiperbólica, que denota grande desolação, significando que o comércio do Egito, que então se fazia, como hoje, por caravanas, pelo pé do homem e do animal, seria aniquilado.”
A isso podemos acrescentar que a passagem sobre o despovoamento do Egito está no meio de uma longa profecia que teve o cumprimento mais notável, e que ela ilustra, talvez de modo tão impressionante quanto qualquer outra coisa que se possa apresentar, o espírito capcioso da incredulidade, e prova que a verdade jamais poderia ser o objetivo de discussões conduzidas dessa maneira. Eis uma passagem sobre a qual paira alguma obscuridade. Ninguém, porém, pode provar que ela não se cumpriu, e até tão plenamente que as expressões pudessem ser usadas sem violenta hipérbole; pois a invasão de Nabucodonosor teve o mesmo caráter avassalador e devastador da sua invasão e conquista da Judeia. E sabemos que a maior parte dos habitantes daquele país foi destruída ou levada cativa, e que a terra, de modo geral, ficou sem cultivo durante setenta anos, embora não tenha ficado absolutamente sem habitantes. Na linguagem comum dos homens, podia-se dizer que a Judeia não era habitada, tão prodigioso foi o extermínio do seu povo; e, em tais circunstâncias, pela cessação total de todo o intercâmbio anterior, comercial ou de outro tipo, entre as diferentes partes do reino, podia-se também dizer, sem exagero, que nem pé de homem nem pata de animal “passava por ela”, pois as idas de uma parte a outra, a negócios ou para o culto em Jerusalém, estavam inteiramente suspensas. Ora, como não temos razão para supor que o monarca babilônio tenha sido mais misericordioso com o Egito do que com a Judeia, as mesmas expressões, em sentido popular, poderiam ser usadas a respeito daquele país. Aqui, porém, a incredulidade pensou que se poderia levantar uma chicana, e deixou de lado por completo (não poderíamos dizer deliberadamente?) uma predição que vem logo em seguida, que nenhuma sagacidade humana poderia conjecturar e contra a qual é inútil alegar que foi escrita depois do acontecimento; pois o cumprimento da profecia se estende até os dias de hoje e é tão palpável e evidente quanto a história passada e a situação política atual daquele país: “O Egito se tornará o mais humilde dos reinos e nunca mais se exaltará sobre as nações” (Ez 29.15); “Não haverá mais príncipe na terra do Egito” (Ez 30.13). (Ver Ez 29 e 30.) Faz mais de dois mil anos que a profecia foi proferida, e o Egito nunca recuperou as suas liberdades, mas está até hoje sob o jugo de estrangeiros. Foi conquistado pelos babilônios; depois pelos persas; e, sucessivamente, passou ao domínio dos macedônios, dos romanos, dos sarracenos, dos mamelucos e dos turcos. Nenhum príncipe nativo do Egito jamais restituiu ao seu país a independência e subiu ao trono dos seus antepassados; e os descendentes dos antigos egípcios estão até hoje na condição mais humilde e oprimida. E, no entanto, foi no Egito que a mente humana fez alguns dos seus primeiros e mais auspiciosos esforços. Os estupendos monumentos de arte e de poder, cujas ruínas jazem amontoadas às margens do Nilo, ou ainda desafiam os estragos do tempo, atestam a grandeza dos desígnios e a extensão do poder dos seus príncipes. O Egito possuía também grandes vantagens naturais. A sua posição era singularmente adequada para protegê-lo contra invasões estrangeiras, enquanto a sua grande fertilidade prometia preservar da pobreza, da humilhação e da sujeição o país que ela enriquecia. Contudo, depois de um longo período de grandeza, e em contradição com as suas vantagens naturais, Ezequiel declarou que o reino seria “o mais humilde dos reinos” e que não haveria “mais príncipe na terra do Egito”. Assim foi o acontecimento, e assim permanece. E que essa profecia admirável seja passada em silêncio pelos incrédulos, enquanto escolhem dela uma passagem que prometia dar alguma aparência à objeção, é profundamente característico do estado da sua mente. Não é por falta de provas que a palavra de Deus é rejeitada por eles. O mal não é a falta de luz, mas o amor às trevas.
Muito se ridicularizaram os profetas por aquelas ações simbólicas com que ilustravam as suas predições: como quando Jeremias esconde o seu cinto de linho na fenda de uma rocha e quebra um vaso de oleiro à vista do povo; quando Ezequiel pesa numa balança os cabelos da sua cabeça e da sua barba; e muitos outros exemplos conhecidos dos que leem as Escrituras. Mas esse ridículo só pode proceder da ignorância. Nas primeiras eras do mundo, a deficiência da linguagem era frequentemente suprida por sinais; e, quando a linguagem se aperfeiçoou, “a prática permaneceu”, diz o bispo Warburton, “depois de passada a necessidade, especialmente entre os orientais, cujo temperamento natural os inclinava a esse modo de conversação. As acusações de absurdo e fanatismo levantadas contra os profetas desvanecem-se, portanto, por si mesmas. O absurdo de uma ação consiste em ela ser extravagante e sem significado; mas o uso e uma aplicação fixa tornavam as ações em questão sóbrias e pertinentes. O fanatismo de uma ação consiste no gosto por ações incomuns e por modos de falar estranhos; mas as dos profetas eram idiomáticas e familiares.” Podemos acrescentar que várias dessas ações foram realizadas em visão; e que, considerando-se o caráter do povo a quem eram dirigidas, eram muito apropriadas para despertar fortemente a sua atenção, que era o fim para o qual eram adotadas.
Tais são as principais objeções levantadas contra a profecia da Escritura enquanto prova da verdade da Escritura. Que sejam tão poucas e tão fracas, quando inimigos tão curiosos e capazes se empenharam com tanto zelo mal empregado em descobrir algum ponto vulnerável, é o triunfo da verdade. A sua futilidade foi demonstrada; e todo o peso das provas anteriores em favor da verdade do Antigo e do Novo Testamento permanece inabalado. Na verdade, apenas lançamos um olhar sobre algumas dessas extraordinárias revelações do futuro, não para expor a prova tirada da profecia, o que exigiria um volume à parte, mas para explicar a sua natureza e mostrar a sua força. Às profecias do Antigo Testamento, o investigador atento acrescentará as de nosso Senhor e dos seus apóstolos, que não parecerão menos extraordinárias em si mesmas nem menos ilustres no seu cumprimento, na medida em que já se cumpriram. Muitas profecias, tanto do Antigo como do Novo Testamento, apontam claramente para tempos futuros; e, por isso, esse tipo de prova se acumulará com o passar dos séculos e poderá estar entre os meios pelos quais judeus, maometanos e pagãos serão convertidos à fé cristã. Em todo caso, a profecia, mesmo a não cumprida, já serve agora a um fim importante. Ela abre a nossa perspectiva para o futuro; e, ainda que o pormenor seja obscuro, apesar do grande combate que ainda se trava entre poderes e princípios opostos, vemos como a luta terminará e sabemos, para usar uma expressão profética, que “mesmo depois de anoitecer ainda será dia claro” (Zc 14.7).
Ciro foi escrita depois do acontecimento, leia a sentença contra a Babilônia: foi também ela escrita depois do acontecimento? Tinham já os medos sido despertados contra a Babilônia? Fora a Babilônia, a joia dos reinos, a glória dos caldeus, já derrubada e feita como Sodoma e Gomorra? Estava já desabitada? Já não servia nem para a tenda do árabe nem para o aprisco do pastor? Repousavam já ali os animais do deserto? Uivavam já as feras das ilhas nas suas casas desoladas, e os chacais nos seus palácios de prazer? Tinham já sido exterminados Nabucodonosor e Belsazar, o filho e o neto? Tornara-se já a Babilônia possessão do ouriço e lugar de pântanos? Fora já varrida com a vassoura da destruição, e tão varrida que o mundo hoje não sabe onde encontrá-la?” (Bispo Watson, Apology.)
1. “Mas, se o senhor persistir em crer que a profecia a respeito de ↩
2. Porfírio, nos seus livros contra a religião cristã, foi o primeiro a atacar as profecias de Daniel; e, nos tempos modernos, Collins, no seu Scheme of Literal Prophecy, voltou toda a sua força contra um livro tão cheio de provas da verdade do cristianismo e da inspiração da profecia antiga. As suas onze objeções foram refutadas da maneira mais satisfatória, e mostradas como meras chicanas, por dois doutos adversários: o bispo Chandler, na sua Vindication da sua Defence of Christianity, e o dr. Sam. Chandler, na sua Vindication of Daniel’s Prophecies. ↩
3. Eusébio preservou alguns fragmentos de um filósofo chamado Enomau, que, ressentido por ter sido tantas vezes enganado pelos oráculos, escreveu uma ampla refutação de todas as suas impertinências. “Quando viemos consultar-te”, diz ele a Apolo, “se vês o que está no futuro, por que usas expressões que não serão entendidas? Se o fazes de propósito, tens prazer em zombar de nós; se não, informa-te conosco e aprende a falar com mais clareza. Digo-te que, se pretendias um equívoco, a palavra grega com que afirmaste que Creso derrubaria um grande império foi mal escolhida, e que ela não podia significar outra coisa senão a vitória de Creso sobre Ciro. Se as coisas têm necessariamente de acontecer, por que nos entreténs com as tuas ambiguidades? Que fazes tu, miserável que és, em Delfos, ocupado em murmurar profecias ociosas?” ↩
4. Alguns escritores incrédulos fizeram uma fraca tentativa de imputar a Jeremias uma acusação de falsidade no caso da sua entrevista confidencial com o rei Zedequias. Uma refutação satisfatória é dada pelo bispo Watson na sua resposta a Paine, carta VI. ↩
5. A opinião do bispo de que a profecia não se referia a todo o território que hoje se chama Egito parece receber confirmação das seguintes passagens das Travels in Egypt de Richardson, em 1817: “O Delta, segundo a tradição dos jônios, é a única parte que, a rigor, tem direito a ser chamada Egito, a qual é representada hieroglificamente pela figura de um coração, comparação nada imprópria.” “Os principais lugares mencionados nos nossos escritos sagrados, Zoã, Nofe e Tafnes, referem-se todos ao Delta. Provavelmente pouco resta deles.” ↩