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Parte I · Capítulo XIX

Provas internas da verdade das Escrituras: provas colaterais

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Já se disse que a prova interna de uma revelação vinda de Deus é aquela que nasce da evidente excelência e da tendência benéfica da doutrina (ver cap. IX). Esta é, pelo menos, a sua característica principal, embora outros elementos também possam ser incluídos nessa espécie de prova, e serão apresentados.

O leitor há de se lembrar da distinção feita no capítulo há pouco mencionado entre prova racional e prova autenticadora. Observou-se ali que há algumas verdades, dadas a conhecer a nós por meio de uma revelação vinda de Deus, que, embora por natureza não possam ser descobertas pelas faculdades do homem sem auxílio, uma vez reveladas levam à nossa razão, na medida em que são de natureza tal que ela as possa compreender, a demonstração que acompanha a verdade de qualquer outro tipo (ver cap. IX). Mas essa afirmação só vale dentro do limite que acabamos de mencionar; pois devem entender-se assim somente as verdades que vêm acompanhadas de razões ou provas racionais na própria revelação, ou que, uma vez sugeridas à mente, dirigem os seus pensamentos e as suas observações para os fatos e as circunstâncias ao redor, ou para verdades estabelecidas com as quais podem ser comparadas e pelas quais são confirmadas. A prova interna das Santas Escrituras, portanto, no que diz respeito à doutrina, restringe-se a verdades dessa classe. De outras verdades que nos são reveladas na Bíblia, e essas, em muitos casos, fundamentais para o sistema do cristianismo, não temos prova desse tipo; elas, porém, repousam sobre a base firme da atestação divina e não sofrem nenhuma diminuição da sua autoridade pelo fato de as suas razões nos estarem ocultas para fins de disciplina moral ou de ultrapassarem as nossas faculdades. Se tivéssemos diante de nós as razões delas, não seriam mais autênticas, embora fossem mais evidentes ao entendimento. Tais são as doutrinas da trindade de pessoas na unidade da Divindade, da união hipostática das duas naturezas em Cristo, da sua filiação divina e eterna, etc. Tais são muitos fatos do governo divino, como a permissão do mal e o longo e aparente abandono das nações pagãs, as vantagens religiosas desiguais concedidas tanto a indivíduos quanto a nações, e muitas das circunstâncias da nossa provação moral individual na terra. Da verdade dessas doutrinas e da conveniência desses e de muitos outros fatos não temos prova interna nenhuma; mas uma classe muito grande de verdades que se encontram nas revelações da Escritura oferece, em maior ou menor medida, esse tipo de prova e apela tanto à nossa razão quanto à nossa fé. Em outras palavras, a sua razoabilidade é tal que, embora a grande demonstração não repouse sobre ela, oferece um argumento adicional para que sejam recebidas com gratidão e cridas de todo o coração.

A primeira e fundamental doutrina da Escritura é a existência de Deus, a grande e única Causa Primeira de todas as coisas: eterno, existente por si mesmo, presente em todos os lugares, conhecedor de todas as coisas, infinito em poder e sabedoria, e perfeito em bondade, justiça, santidade e verdade. Que essa concepção do Ser divino, que devemos somente às Escrituras, se apresenta à mente do homem com poderosa demonstração racional é ilustremente mostrado pela espantosa mudança de opinião sobre esse grande assunto que ocorreu nas nações pagãs com a promulgação do cristianismo e que, na Europa, continua até hoje substancialmente inalterada. Desapareceram não somente as noções grosseiras que prevaleciam entre o povo comum, mas também as pesquisas obscuras, incertas e contraditórias dos filósofos das diversas escolas; e a verdade a respeito de Deus, exposta na majestade e na simplicidade das Escrituras, foi, com poucas exceções, universalmente recebida, e isso até entre os próprios deístas esclarecidos. Essas descobertas da revelação satisfizeram a mente humana quanto a essa grande e primária doutrina e lhe deram um lugar de repouso que antes nunca encontrara, e do qual, se alguma vez se afasta, não encontra demonstração alguma enquanto não volta para a “maravilhosa luz” (1Pe 2.9) a que a religião revelada nos introduziu. Uma classe de ideias, as mais elevadas e sublimes, que as mentes mais profundas dos tempos antigos buscaram sem êxito, tornou-se assim familiar aos próprios camponeses das nações cristãs. Nada pode ser prova mais impressionante do apelo que o caráter de Deus apresentado pela Escritura faz à razão não adulterada da humanidade.1

Quanto ao estado e à condição do homem, tal como representados nos nossos escritos sagrados, a prova que vem dos fatos e da consciência do nosso próprio íntimo é copiosíssima. O que o homem é nas suas relações com Deus, o seu Criador e Governador, nunca o teríamos descoberto sem a revelação; mas, agora que isso foi dado a conhecer, os fatos confirmatórios afluem de todos os lados e oferecem a sua prova da verdade da doutrina.

O Antigo e o Novo Testamento concordam em representar a raça humana como de fato viciosa e capaz, sem freio e controle moral, das maiores enormidades, de modo que não só a felicidade individual, mas também a social, está constantemente obstruída ou ameaçada. Disso dá testemunho a história de todas as épocas, e a experiência presente oferece o seu próprio testemunho. Todos os Estados da Antiguidade ruíram ou foram subitamente arrasados pelos próprios vícios; e o caráter e a conduta gerais dos povos que os compunham podem ser lidos nas obras dos seus historiadores, poetas e satíricos que chegaram até os nossos tempos. Essas obras, quanto aos gregos e romanos, confirmam plenamente o colorido mais sombrio da sua condição moral que se encontra no bem conhecido primeiro capítulo da Epístola de são Paulo à Igreja de Roma e em outras passagens das suas diversas epístolas. Até hoje a mesma representação retrata a condição de quase todos os países pagãos e, em muitos aspectos, também de algumas partes da cristandade, onde a palavra de Deus tem sido escondida do povo e onde, consequentemente, não se permitiu que a sua influência moral se desenvolvesse. Também nos países onde esse corretivo foi aplicado com mais cuidado, embora sejam incomparavelmente superiores em princípios e hábitos justos, honrados, benevolentes e sóbrios, vê-se, junto com a ocorrência frequente de numerosos e graves crimes concretos, os mesmos apetites e paixões em luta constante com as leis do Estado, com o exemplo dos virtuosos e com a influência controladora da palavra de Deus, pregada por ministros fiéis, ensinada como parte do processo de educação e difundida pela sociedade pela multiplicação dos seus exemplares desde a invenção da imprensa. As Santas Escrituras, portanto, caracterizam o homem somente como ele de fato se encontra em todas as épocas e em todos os lugares, até os limites extremos das descobertas geográficas feitas graças ao espírito aventureiro dos navegadores modernos.

Mas elas não somente pressupõem que os homens são de fato viciosos, mas viciosos em consequência de uma mancha moral na sua natureza, original e inevitavelmente assim, não fossem as provisões da graça e os meios de santidade de que elas falam. E, como esse pressuposto é a base de todo o plano de restauração moral por meio da descendência da mulher, outrora prometida, e de Jesus, o Salvador, agora de fato dado, elas constantemente lembram ao homem que ele nasceu “na iniquidade” e em pecado foi concebido (Sl 51.5), e que, sendo nascido da carne, “não pode agradar a Deus” (Rm 8.8). O que assim se apresenta como doutrina apela à nossa razão por meio da prova de fatos incontestáveis. A forte inclinação do homem para o crime não pode ser negada. As leis penais civis não são promulgadas com outro propósito senão o de reprimi-la; multiplicam-se nos Estados mais civilizados para barrar o mal em todas as novas direções para as quais o impeliram as múltiplas relações do homem e o seu poder aumentado, que nasce do aumento da inteligência. Toda escritura legal, com os seus selos e testemunhas, dá testemunho daquela opinião sobre a natureza humana que a experiência do homem imprimiu no homem; e a própria história é principalmente um registro da culpa humana, porque os exemplos de crime foram, em toda parte e em todos os tempos, muito mais frequentes que os exemplos de virtude. Essa inclinação para o mal, dizem-nos as Escrituras, nasce do “coração”, isto é, da natureza e da disposição do homem, e não se pode explicá-la de outro modo. Alguns, é verdade, apresentaram a corrupção da raça como resultado da convivência e do exemplo; mas, se os homens fossem naturalmente inclinados ao bem e avessos ao mal, como se explica que não apenas alguns poucos indivíduos, mas a raça inteira, se tenham tornado maus pela convivência mútua? Isso seria fazer da causa mais fraca a mais eficaz, o que é manifestamente absurdo. É contrário também à razão do caso que o exemplo e a convivência de pessoas naturalmente bem dispostas produzam outro efeito que não o de confirmar e amadurecer as suas boas disposições, já que é efeito do exemplo e da convivência, entre pessoas de gostos e ocupações semelhantes, confirmar e aperfeiçoar o hábito que lhes dá origem. Igualmente pouco plausível é a opinião que explicaria essa corrupção geral pela má educação. Se o homem, em todas as épocas, tivesse tido inclinações morais retas, como teria começado um regime de educação nociva? E, uma vez começado, como explicar que aquilo que devia ser tão abominável a uma comunidade virtuosamente disposta não tenha sido detido e substituído por um sistema melhor de instrução? Mas o próprio fato pode ser negado, pois a pior educação inculca uma virtude superior à prática geral, e nenhum regime de educação jamais foi adotado de propósito para incentivar a imoralidade. Somente nas Escrituras encontramos uma causa que explica o fenômeno, e somos, portanto, obrigados pelas próprias regras da filosofia a admiti-la. É esta: o homem é, por natureza, propenso ao mal; e, como seria altamente irrazoável supor que essa disposição foi implantada nele pelo seu Criador benevolente e santo, somos igualmente obrigados pela razão a admitir a solução da Escritura: a queda da raça humana de um estado mais elevado e melhor.

Uma terceira concepção da condição do homem contida nas Escrituras é que ele não somente está sob a autoridade divina, mas que o governo do céu, quanto a ele, é de caráter misto: ele é tratado com severidade e também com bondade. Considerado tanto como corrupto na sua natureza e nas suas inclinações quanto como ofensor de fato em inúmeros casos, ele é colocado sob uma disciplina rigidamente restritiva, para atender ao seu caso no primeiro aspecto, e sob correção e regime penal quanto ao segundo. Por outro lado, como ele é objeto do amor do Deus a quem ofendeu, um ser para cujo perdão e recuperação a misericórdia divina fez provisão, a essas severidades estão ligados fins morais, e tanto a natureza e a providência quanto a revelação estão coroadas de exemplos da benevolência divina para com a raça pecadora. A prova dessas diferentes relações do homem com Deus nos rodeia naquela mistura de bem e mal, de indulgência e restrição, de felicidade e miséria, a que ele está tão manifestamente sujeito. Em todas as circunstâncias comuns sente-se que a vida é uma bênção; mas ela é breve e incerta, sujeita a doenças e acidentes. Muitos prazeres cabem aos homens; mas, para a maioria, são alcançados por meio de grandes e exaustivos trabalhos do corpo ou da mente, pelos quais os riscos à saúde e à vida se multiplicam muito; ou vêm acompanhados de tantas decepções, temores e cuidados que o seu número e a sua qualidade ficam muito diminuídos. O próprio globo, morada do homem, e de cuja fertilidade, estações, superfície exterior e estratificação interior depende tanto da felicidade exterior do homem, traz as marcas de um tipo misto de governo justo e misericordioso, apropriado a um ser como o homem no estado descrito nas Escrituras, e a nenhum outro. Não se pode supor que, se fosse habitada por uma raça de seres perfeitamente santos e no pleno gozo do favor divino, esta terra estaria sujeita a terremotos destrutivos, vulcões e inundações; a pragas e carestias, precursoras da fome; àquelas mudanças na atmosfera que provocam epidemias de vasta devastação; àquela esterilidade geral do solo que torna o trabalho necessário a tal ponto que ocupa por completo o tempo da maioria da humanidade, a impede de dedicar-se a ocupações dignas de uma natureza intelectual e lhe abate o ânimo; nem que os metais, tão necessários ao homem na vida civilizada, e, em muitos países, o material do fogo com que se há de repelir o frio, preparar o alimento e executar as artes mais importantes, estivessem escondidos nas profundezas da terra, de modo que um grande número de homens fosse condenado ao trabalho perigoso e humilhante de extraí-los! Esses e muitos outros exemplos2 mostram um regime de disciplina muito incompatível com as concepções mais esclarecidas do caráter divino, se o homem for considerado um ser inocente. Por outro lado, que ele esteja sob uma administração puramente penal é desmentido pelos fatos de que a terra ainda dá ordinariamente o seu fruto ao trabalho, de que as convulsões destrutivas da natureza são apenas ocasionais e de que, em geral, a saúde da raça humana predomina sobre a doença, e os seus prazeres animais sobre a miséria positiva. A essas diversas relações do homem com Deus, tais como expostas na Bíblia, os contrastes da natureza e da providência se ajustam com exatidão. Suponha-se que o homem seja qualquer outra coisa diferente do que a Escritura representa, e eles seriam discordantes e inexplicáveis; nessa concepção, harmonizam-se. O homem não é nem inocente nem definitivamente condenado: está caído e culpado, mas não excluído da compaixão, do cuidado e da benignidade do seu Deus.

A doutrina capital seguinte do cristianismo é a restauração do homem ao favor divino pelos méritos da morte vicária e sacrificial de Cristo, o Filho de Deus encarnado. Contra ela se levantaram muitas objeções; mas, por outro lado, muitas razões importantes para tal procedimento foram desconsideradas. A prova racional dessa doutrina, admitimos, é parcial e limitada; mas o leitor há de se lembrar de que já se provou que a autoridade e a verdade de uma doutrina não são afetadas por isso. Na verdade, não é irrazoável supor que a prova da conveniência e da necessidade de tal doutrina nos seja obscura. “A razão da coisa”, diz o bispo Butler, “e toda a analogia da natureza deveriam ensinar-nos a não esperar ter, a respeito da conduta divina, informação semelhante à que temos a respeito do nosso próprio dever.” Quaisquer que fossem os termos em que Deus se agradasse de oferecer perdão às suas criaturas, se algum outro fosse moralmente possível, não se deve supor que todas as razões da sua conduta, que naturalmente teriam de dizer respeito aos próprios princípios do seu governo em geral, estendendo-se não somente ao homem, mas a outros seres, pudessem ter sido explicadas; e é certo que aqueles a quem o benefício foi oferecido não teriam tido nenhum direito de exigi-lo.

A doutrina cristã da expiação, como intervenção misericordiosa necessária, fundamenta-se na sujeição do homem ao castigo em outra vida pelos pecados cometidos contra a lei de Deus nesta; e contra essa concepção das perspectivas futuras da humanidade não pode haver objeção de peso. Os homens são capazes de cometer pecado, e o pecado produz miséria e desordem. Essas proposições não podem ser negadas. Que violar as leis de Deus e desprezar a sua autoridade não são crimes leves fica claro quando os consideramos no seu efeito geral sobre a sociedade e sobre o mundo. Retirem-se da raça humana todos os efeitos produzidos pelo vício, diretos e indiretos, todas as misérias e calamidades interiores e exteriores que a humanidade poderia evitar inteiramente e que traz voluntariamente sobre si mesma e sobre os outros, e mal se daria um suspiro ou se ouviria um gemido em toda a terra, exceto os arrancados pelos males naturais (comparativamente pequenos em número). A grande soma da miséria humana é efeito de ofensas concretas; e, como é princípio da legislação humana mais sábia e perfeita avaliar a culpa dos atos individuais pela sua tendência geral e proporcionar o castigo a eles sob essa consideração, a mesma razão do caso favorece esse princípio tal como se encontra na Escritura; e, assim considerado, o demérito dos pecados de um indivíduo contra Deus torna-se incalculável. Tampouco há fundamento para supor que o castigo atribuído ao pecado pela designação judicial do Governador Supremo se limita à vida presente; pois, antes de podermos determinar isso, teríamos de ser capazes de avaliar o demérito de um ato de transgressão voluntária no seu princípio, nos seus hábitos e na sua influência, o que, como partes envolvidas, não estamos em estado de sentimento ou de juízo para tentar, ainda que o assunto estivesse mais ao nosso alcance. Mas a razão evidente do caso favorece a doutrina do castigo futuro; pois não só há uma administração desigual dos castigos na vida presente, de modo que muitos ofensores notórios passam pelo estado presente sem nenhuma manifestação visível do desagrado divino contra a sua conduta, como também há provas fortes e convincentes de que estamos colocados num estado de provação que continua por toda a vida, e cujo resultado só pode ser conhecido, e, consequentemente, nós mesmos só podemos tornar-nos objeto de recompensa ou castigo final, depois que a existência neste mundo termina. Das circunstâncias que acabamos de enumerar para indicar o tipo de governo exercido sobre a raça humana, devemos concluir que, admitindo-se que o Governador Supremo é sábio e justo, benevolente e santo, os homens não são tratados nem como inocentes nem como incorrigivelmente corruptos. Ora, que razão se pode dar para esse tipo misto de administração, senão que o aperfeiçoamento moral do homem é o objetivo por ela visado? A severidade desencoraja e refreia o vício; a união da felicidade interior em todos os casos (e da exterior em todos aqueles casos em que o resultado depende da conduta do indivíduo) com hábitos e atos santos recomenda-os e sanciona-os, e atrai ao uso dos meios que Deus proveu para nos capacitar a formá-los e praticá-los. Ao que parece, nenhuma outra causa final pode ser atribuída ao modo peculiar como somos governados na vida presente; e, se a severidade que dissuade e corrige, de um lado, e a bondade que atrai e instrui, de outro, as quais marcam a administração divina, continuam por toda a vida; se, em todo período da sua vida aqui, o homem é capaz, pelo uso dos meios prescritos, de formar novos hábitos e renunciar aos antigos, e assim cumprir os propósitos da disciplina moral sob a qual está colocado, então ele está num estado de provação por toda a vida; e, se é assim, é responsável por todo o curso da sua vida, e a sua recompensa ou o seu castigo definitivo deve dar-se num estado posterior ao presente.

É também doutrina da Escritura que esse castigo futuro dos incorrigíveis será definitivo e ilimitado, outra consideração de grande importância no exame da doutrina da expiação. Esta é uma doutrina de advertência que somente uma revelação poderia desvendar; mas, uma vez revelada, tem um grau não pequeno de prova racional. Ela supõe, é verdade, que nenhuma provação futura será concedida ao homem, tendo sido a presente negligenciada e abusada; e para isso há muita analogia nos procedimentos constantes do governo divino na vida presente. Quando muitos freios e advertências, vindos das instruções dos sábios e dos exemplos dos rebeldes, foram desconsiderados, sobrevêm a pobreza e a doença, a infâmia e a morte, em mil casos que a observação de qualquer pessoa pode fornecer; a provação de um indivíduo, que há de resultar na sua felicidade ou miséria presente, termina; e, longe de ser renovada com frequência, na esperança de que ele finalmente tire proveito de uma experiência amarga, as vantagens e as oportunidades, uma vez desperdiçadas, nunca podem ser recuperadas. Nada há, portanto, contrário aos princípios evidentes do governo divino, tal como se manifesta nesta vida, na doutrina que encerra o período da mais elevada e solene provação do homem dentro de certos limites e, além deles, lhe corta toda esperança. Mas considere-se esse assunto à luz lançada sobre ele pela circunstância de que a natureza do homem é imortal. Com os que negam que essa seja a prerrogativa do princípio pensante no homem, seria fútil sustentar este argumento; mas, com os que não o negam, considerar o assunto sob esse aspecto é importante.

A existência do homem jamais cessará. Daí se segue que, ou as provações futuras a serem concedidas aos que foram incorrigíveis na vida presente terão número limitado, ou, se fracassarem sucessivamente, se repetirão para sempre. Se for o segundo caso, não poderá haver juízo final, nem castigo ou recompensa, e, consequentemente, o governo divino, por implicar essas coisas (e sabemos que as implica pelo que acontece na vida presente), seria aniquilado. Se isso não pode ser sustentado, há razão suficiente para concluir que todos aqueles a quem se supõe concedida provação após provação, em circunstâncias novas e variadas, a fim de multiplicar, por assim dizer, as probabilidades da sua recuperação final da rebelião, serão por fim recuperados? Antes de responder, é preciso lembrar que nem um estado de sofrimento que forçasse a obediência, se supusermos que o mero sofrimento seja capaz de produzir esse efeito, nem um exercício de influência sobre o entendimento e a vontade que tornasse necessária uma escolha definida, podem ser admitidos como parte das circunstâncias de qualquer novo estado de provação. Toda provação futura desse tipo, para ser de algum modo probatória, isto é, para fazer aparecer a existência de um novo princípio moral e prová-lo por atos voluntários, tem de ser substancialmente semelhante à presente, ainda que as suas circunstâncias variem. O vício há de ter os seus atrativos; a virtude há de nascer da renúncia de si mesmo e ser levada à arena para lutar contra a dificuldade; muitos interesses e prazeres presentes hão de ser vistos ligados ao vício; as recompensas da obediência hão de ser, como agora, não somente mais refinadas do que aquilo que pode satisfazer os meros sentidos, mas também distantes; a mente há de ser capaz de errar na sua avaliação moral das coisas, por influência dos sentidos e das paixões, e estar em tal situação que essas opiniões errôneas só possam ser evitadas ou corrigidas pela vigilância e pela aplicação diligente à meditação, à oração e ao uso dos meios de instrução sobre assuntos morais que o Deus todo-poderoso tenha posto ao seu alcance. Não temos o direito, neste argumento, de imaginar uma condição futura em que a influência de toda circunstância seja dirigida a tornar o vício dificílimo de cometer e a virtude dificílima de evitar, pois isso não seria um estado de provação. E, se nesta vida presente os homens resistiram obstinadamente a todas as advertências do céu e se endureceram contra todas as comoventes demonstrações da bondade divina e contra as manifestações dissuasivas da majestade divina, é muito razoável concluir que pelo menos uma parte deles abusaria de provações sucessivas e frustraria o seu propósito, pelo apego à satisfação presente e sensual. Que será então deles? Se admitimos de algum modo um governo moral de criaturas racionais, a sua provação não pode ser eterna, pois isso não leva a resultado algum; se se estabelece uma provação, ela implica responsabilidade, uma decisão judicial e, no caso dos incorrigíveis, uma decisão judicial de castigo. Portanto, sempre que a provação, ou a série de provações, terminar para esses seres imortais, o castigo subsequente, seja de que tipo for, terá de ser eterno. Essa doutrina da Escritura repousa, portanto, sobre outras cuja prova racional é abundante e convincente: que o Deus todo-poderoso exerce um governo moral sobre as suas criaturas, que a vida presente é um estado de disciplina moral e de provação, e que o homem é imortal. Se isso se admite, a duração eterna dos castigos futuros, quanto aos obstinadamente ímpios, tem de seguir-se; e a sua concordância com os princípios que acabamos de mencionar é a sua prova racional.

A expiação pelos pecados dos homens, realizada pela morte de Cristo, é apresentada no sistema cristão como o meio pelo qual a humanidade pode ser livrada dessa terrível catástrofe, isto é, das penas judiciais impostas pelo desagrado de um Governador cuja autoridade foi desprezada e cuja vontade foi resistida, penas que não conhecerão mitigação no seu grau nem limite na sua duração; e, se um fim supremamente grande e benevolente pode recomendar-nos algum procedimento, a doutrina bíblica da expiação recomenda à nossa atenção esse tipo de apelo. Ela declara alcançar esse fim por meios que, quanto ao próprio Governador Supremo, preservam o seu caráter de ser mal compreendido e mantêm a autoridade do seu governo; e, quanto ao homem, lhe dão o mais forte motivo possível de esperança e tornam mais favoráveis as circunstâncias da sua provação terrena. São considerações que mostram de forma tão manifesta, pela própria constituição interna do cristianismo, a sua suprema importância e excelência, que seria extremamente culpável desconsiderá-las.

Como o pecado pode ser perdoado sem levar a concepções erradas do caráter divino que incentivem a desobediência e, assim, enfraqueçam a influência do governo divino, deve ser considerado um problema de solução muito difícil. Um governo que não admitisse nenhum perdão lançaria os culpados no desespero; um governo que nunca castiga a ofensa é uma contradição: não pode existir. Não castigar é dissolver a autoridade; castigar sem misericórdia é destruir e, onde todos são culpados, tornar a destruição universal. Que não podemos pecar impunemente é questão resolvida. O Governante do mundo não é indiferente à conduta das suas criaturas; pois que consequências penais estão ligadas à ofensa não é assunto de discussão, mas fica evidente pela observação diária dos acontecimentos e das circunstâncias da vida presente. É, portanto, princípio já estabelecido que a autoridade de Deus deve ser preservada; e convém observar que, naquele tipo de administração que refreia o mal pela pena e incentiva a obediência pelo favor e pela esperança, nós e todas as criaturas morais somos as partes interessadas, e não o próprio Governador divino, a quem, por causa da sua natureza independente e eficaz, as nossas transgressões não podem prejudicar. As razões, portanto, que o obrigam a manter a sua autoridade não terminam nele mesmo. Se ele se torna parte contra os ofensores, é por nossa causa e por causa da ordem moral do universo, para a qual o pecado, se incentivado por uma administração negligente e por impunidade total ou frequente, seria fonte de desordem e miséria sem fim. E, se a concessão do perdão à ofensa é guardada com firmeza e até com severidade, devemos atribuí-lo à necessidade moral do caso, tal como nasce do bem geral de criaturas responsáveis, sujeitas ao profundo mal do pecado, e não a alguma relutância da parte do nosso Criador em perdoar, muito menos a qualquer coisa vingativa na sua natureza, acusações que foram levantadas da maneira mais irrefletida e injusta contra a doutrina cristã dos sofrimentos vicários de Cristo. Se, então, é verdade que a libertação do homem ofensor do castigo futuro e a sua restauração ao favor divino deviam, pelos interesses da própria humanidade e para instrução e advertência de outros seres, ser concedidas de modo que não se desse nenhuma licença à ofensa; que o próprio Deus, ao manifestar a sua compaixão, não parecesse menos justo, menos santo do que exige a manutenção de uma autoridade eficaz e até temível; que os seus mandamentos fossem sentidos como tão obrigatórios, e a desobediência nos sujeitasse tão verdadeiramente (embora não de modo tão incondicional) à pena merecida, como se nenhuma esperança de perdão tivesse sido apresentada, perguntamos: em que plano, senão no que se desenvolve no Novo Testamento, se provê a essas condições necessárias? Necessárias elas são, a menos que defendamos uma licença e uma impunidade que anulariam o controle eficaz do universo, coisa que nenhum homem razoável defenderá; e, se não as defende, então tem de admitir uma prova interna da verdade da doutrina da Escritura, que faz a oferta de perdão depender somente das garantias que mencionamos antes. Se se disser que o pecado pode ser perdoado pelo exercício da prerrogativa divina, a resposta é que, se essa prerrogativa fosse exercida só para com uma parte da humanidade, seria difícil conciliar com o caráter divino a omissão dos demais; e, se o benefício se estendesse a todos, o governo chegaria ao fim. Esse plano de pôr os homens ao alcance do exercício da misericórdia não resolve, portanto, a dificuldade evidente do caso; nem melhora quando se limita o ato de graça somente aos criminosos arrependidos. Pois, diante do perigo iminente, que ofensor, cercado pelos destroços dos prazeres de antes, sentindo a vaidade dos prazeres culpados, agora passados para sempre, e vendo aproximar-se o castigo adiado, mas ameaçado, não se arrependeria? Se esse princípio regulasse os governos humanos, todo criminoso escaparia, e as formas judiciais se tornariam objeto de ridículo. Tampouco é esse o princípio segundo o qual o Ser divino age na sua conduta para com os homens no estado presente, embora neste mundo os castigos não sejam definitivos e absolutos. O arrependimento não restaura a saúde arruinada pela intemperança, os bens desperdiçados pela prodigalidade, nem a reputação uma vez manchada por práticas desonrosas. Se só o arrependimento pode garantir o perdão, então todos devem ser perdoados, e o governo se dissolve, como no caso do perdão pelo exercício da mera prerrogativa; se se faz uma seleção, então se introduzem na administração divina princípios de governo diferentes e discordantes, o que é uma suposição depreciativa.

Para escapar à força dessas dificuldades evidentes, alguns acrescentaram ao arrependimento a reforma de vida e quiseram restringir o perdão somente aos que, além da sua penitência, seguem dali em diante um curso de obediência à lei divina. Nessa opinião faz-se uma concessão importante em favor da doutrina da expiação tal como exposta nas Escrituras. Pois perguntamos: por que um ato de graça haveria de ser assim restringido? Não é a única razão o fato de que todos veem que perdoar a ofensa, seja por mera prerrogativa, seja sob a condição do arrependimento, anularia toda pena e, consequentemente, incentivaria o vício? O princípio pressuposto é, então, este: o vício não deve ser incentivado por um exercício descuidado da misericórdia divina; a autoridade do governo deve ser mantida; o Deus todo-poderoso não deve parecer indiferente às ações humanas, nem de outro modo senão como um Deus que “odeia a iniquidade” e “ama a justiça” (Sl 45.7). Ora, é exatamente sobre esses princípios que repousa a doutrina cristã da expiação. Ela os leva mais alto; ensina que outros meios foram adotados para garantir o objetivo; mas os fins propostos são os mesmos. Assim, ao princípio sobre o qual repousa essa grande doutrina o objetor não pode fazer nenhuma objeção. Esse ponto ele já entregou e tem de limitar-se a comparar a eficácia dos respectivos modos pelos quais os propósitos do governo moral podem ser atendidos no exercício da misericórdia para com os culpados, no seu próprio sistema e no do cristianismo. Não insistiremos com o nosso oponente, para provar “a sabedoria” tanto quanto a graça da doutrina da Bíblia sobre esse assunto, no fato, por importante que seja, de que, à luz que nos foi concedida sobre as regras do governo de Deus sobre os homens com referência apenas ao estado presente, não vemos razão para concluir nada com certeza quanto à eficácia da reforma de vida. Uma mudança de conduta, assim como o arrependimento, não repara os danos da má conduta anterior. Nem mesmo a sobriedade do homem que reformou a sua vida sempre lhe restaura a saúde; e o trabalho e a economia de quem antes era negligente e esbanjador não reparam as perdas da extravagância. Nem é preciso deter-se na consequência que essa teoria acarreta para todos os princípios de governo estabelecidos entre os homens, os quais, em casos flagrantes, nunca suspendem o castigo na expectativa de uma mudança de conduta, mas, ao aplicar a pena, olham com firmeza para o crime de fato cometido e para a necessidade de vindicar a majestade violada das leis. O argumento poderia, na verdade, parar aqui; mas vamos além e mostramos que a reforma esperada é ilusória, porque é impraticável.

Para deixar isso claro, é preciso lembrar que aqueles que opõem essa teoria da reconciliação humana com Deus à das Escrituras deixam de fora não apenas o sacrifício vicário de Cristo, mas outras doutrinas importantes, e especialmente aquela ação do Espírito Santo que desperta os descuidados para a reflexão e estimula e auxilia os seus esforços para alcançar um caráter mais elevado e começar um novo curso de conduta. O homem fica, portanto, entregue aos seus próprios esforços, sem auxílio e sem influência, nas circunstâncias peculiares e não aliviadas do seu estado moral real. Qual é esse estado, já vimos. Argumentou-se que nada pode explicar a corrupção prática da humanidade senão uma mancha moral no nosso coração, uma propensão da natureza para o mal e não para o bem, e que todo outro modo de explicar os fenômenos morais que a história do homem e a experiência diária apresentam é inconclusivo e contraditório. Como há de começar, então, essa suposta reforma? Não falamos da troca de um vício por outro, aquele tipo enganoso de reforma pelo qual muitos se iludem, pois devemos conceder ao objetor o mérito de pretender uma reforma que implique amor à pureza dos mandamentos divinos, respeito sincero pela autoridade do nosso Criador e obediência não parcial, mas universal. Mas, se a disposição natural e sem freio da mente é para o mal, e se não se admite auxílio sobrenatural, “quem poderá tirar coisa pura daquilo que é impuro?” (Jó 14.4). À propensão natural devemos ainda acrescentar, neste caso, já que a questão é a reforma de vida, o poder do hábito, proverbialmente difícil de romper; embora o homem, de fato, não esteja na condição sem auxílio que o erro aqui combatido supõe. Toda essa teoria pressupõe que a natureza humana é o que ela não é; e daí tem de resultar necessariamente uma conclusão enganosa. Se o homem é totalmente corrupto, os únicos princípios de que a reforma poderia proceder não existem na sua natureza; e, ainda que admitamos apenas que a propensão para o mal nele é mais forte que a propensão para o bem, é absurdo supor que, entre propensões opostas, a mais fraca resista à mais poderosa, que a corrente do riacho abra caminho contra as marés do oceano. A reforma, portanto, que haveria de expiar os seus vícios é impraticável.

A pergunta proposta em abstrato, “Como se pode estender misericórdia a criaturas ofensoras, súditas do governo divino, sem incentivar o vício por meio do rebaixamento do caráter justo e santo de Deus e da autoridade do seu governo, em cuja manutenção todo o universo de seres está interessado?”, é, portanto, ao mesmo tempo uma das mais importantes e uma das mais difíceis que podem ocupar a mente humana. Nenhuma das teorias que se opuseram ao cristianismo oferece uma solução satisfatória do problema. Elas pressupõem princípios ou destrutivos do governo moral, ou impossíveis de pôr em prática nas circunstâncias do homem. A única resposta se encontra nas Santas Escrituras. Somente elas mostram, e de fato somente elas se propõem mostrar, como Deus pode ser justo e, ainda assim, justificador do ímpio. Outros planos mostram como ele pode ser misericordioso; mas a dificuldade não está aí. Este a enfrenta declarando “a justiça de Deus” (Rm 3.21) ao mesmo tempo que proclama a sua misericórdia. Os sofrimentos voluntários de uma pessoa divina encarnada, “por nós”, em nosso lugar e em nossa vez, engrandecem a justiça de Deus, exibem o seu ódio ao pecado, proclamam a transgressão em “toda a sua força de pecado” (Rm 7.13) pelo sofrimento profundo e doloroso do substituto, advertem o ofensor que persiste da terribilidade, bem como da certeza, do seu castigo e abrem as portas da salvação a todo penitente. Faz parte do mesmo plano divino empenhar a influência do Espírito Santo para despertar essa penitência e reconduzir a alma errante a ele mesmo; renovar em justiça a natureza caída do homem no momento em que ele é justificado pela fé; e colocá-lo em circunstâncias nas quais possa, dali em diante, viver “não segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.4). Todos os fins do governo são aqui atendidos. Nenhuma licença é dada à ofensa; a lei moral não é revogada; o dia do juízo continua marcado; os castigos futuros e eternos continuam a exibir as suas terríveis sanções; oferece-se uma demonstração nova e singular da temível pureza do caráter divino; e, no entanto, o perdão é oferecido a todos os que o buscam, e o mundo inteiro pode ser salvo!

Com tal prova de adequação ao caso da humanidade e sob concepções tão elevadas da sua ligação com os princípios e os fins do governo moral apresenta-se a doutrina da expiação. Mas não faltam outras considerações importantes que assinalam a sabedoria e a bondade unidas daquele método de estender misericórdia aos culpados que o cristianismo nos ensina ter sido de fato e exclusivamente adotado. Ele se torna, sem dúvida, “digno de toda aceitação” (1Tm 1.15) pela circunstância de enfrentar as dificuldades em que acabamos de nos deter, dificuldades que, de outro modo, não poderiam deixar de causar uma impressão sombria em todo ofensor despertado para a consciência do seu perigo espiritual. Mas seria preciso considerá-lo com muita desatenção para que ele não se recomendasse ainda mais a nós, não apenas por remover os temores que poderíamos sentir quanto à justiça do Legislador divino, mas por exaltá-lo na nossa estima como o Senhor justo que “ama a justiça” (Sl 11.7), que entregou o seu Filho amado ao sofrimento e à morte para que a influência da bondade moral não se enfraquecesse no coração das suas criaturas; como um Deus de amor, que oferece neste caso uma visão da ternura e da benignidade da sua natureza infinitamente mais impressionante e comovente do que qualquer descrição abstrata poderia transmitir ou qualquer ato de poder e graça criadores e providenciais poderia fornecer, e, portanto, a mais apropriada para vencer aquela inimizade que crescera de modo antinatural no coração das suas criaturas e que elas, quando corrompidas, tão facilmente transferem de uma lei que refreia a sua inclinação para o próprio Legislador. Se é importante para nós conhecer a extensão e a realidade do nosso perigo, ela é exibida pela morte de Cristo, não em descrição, mas na ação mais impressionante; se é importante que tenhamos a certeza de que Deus está disposto a reconciliar-se conosco, ela recebe aqui uma demonstração que não admite certeza maior; se a gratidão é o motivo mais poderoso da obediência futura, e um motivo que torna o mandamento, de um lado, e o serviço ativo, do outro, “não difíceis”, mas motivo “de alegria”, a lembrança de obrigações tais como as que o “amor de Cristo” (2Co 5.14) nos impôs é uma fonte perpétua para esse afeto enérgico e será o meio de elevá-lo a uma atividade cada vez mais alta e deleitosa para sempre. Tudo o que pode ilustrar com mais força a ternura e a temível majestade de Deus unidas, e o caráter odioso do pecado; tudo o que pode reconquistar o coração do homem para o seu Criador e Senhor e fazer da obediência futura questão de afeto e deleite, e não apenas de dever; tudo o que pode extinguir as paixões iradas e malignas do homem contra o homem; tudo o que pode inspirar benevolência mútua e dispor a uma caridade abnegada em benefício dos outros; tudo o que pode despertar pela esperança ou tranquilizar pela fé encontra-se na morte vicária de Cristo e nos princípios e propósitos pelos quais ela foi suportada.

“A história antiga fala-nos de certo rei que fez uma lei contra o adultério, na qual se determinava que o ofensor fosse castigado com a perda dos dois olhos. O primeiro ofensor foi o seu próprio filho. O caso era muito aflitivo, pois o rei era um pai afetuoso, bem como um magistrado justo. Depois de muita deliberação e de luta interior, ordenou por fim que lhe arrancassem um dos seus próprios olhos e um dos olhos do filho. É mais fácil imaginar do que descrever quais devem ter sido os sentimentos do filho nessas circunstâncias tão comoventes. A sua ofensa lhe apareceria sob uma nova luz; apareceria a ele não simplesmente como ligada a consequências dolorosas para si mesmo, mas como a causa dos sofrimentos de um pai e como uma ofensa ao amor de um pai. Se o rei tivesse deixado a lei inteiramente de lado em favor do filho, não teria demonstrado nenhuma consideração pela justiça e teria dado uma prova muito inferior de afeto.

“Se supusermos que a felicidade da vida do jovem dependia da erradicação dessa inclinação criminosa, não é fácil imaginar como o rei poderia ter promovido esse objetivo benevolente de maneira mais sábia ou mais eficaz. A ação não era simplesmente uma representação correta do caráter do rei; continha também em si um apelo adaptadíssimo aos sentimentos do criminoso. Justificava o rei no exercício da clemência; tranquilizava a mente do filho, por ser um penhor da realidade e da sinceridade das intenções bondosas do pai para com ele; e identificava o objeto da sua estima com o objeto da sua gratidão. A mera gratidão, não atraída por um objeto de valor moral, jamais poderia ter imprimido uma marca de valor moral no seu caráter, que era o propósito último do pai. Poderíamos supor a existência desse mesmo caráter sem que ele produzisse tal ação; poderíamos supor que um conflito de sentimentos opostos se desenrolasse na mente sem demonstrar, na conduta dele resultante, toda a veemência do conflito, ou sem definir o ajuste entre os sentimentos opostos; mas não podemos supor nenhum modo de conduta tão admiravelmente apropriado para imprimir a marca do caráter do pai na mente do filho, ou para associar o amor ao que é certo e a aversão ao que é errado com os instintos mais poderosos do coração. O velho não só desejava agir em perfeita coerência com as suas próprias concepções do dever, mas também produzir um efeito salutar na mente do filho; e é a união plena e eficaz desses dois objetivos que forma a parte mais bela e impressionante dessa notável história.

“Há uma semelhança singular entre essa demonstração moral e a comunicação que Deus se agradou de fazer de si mesmo no evangelho. Não podemos deixar de amar e admirar o caráter desse excelente príncipe, embora não tenhamos nele nenhum interesse direto; e recusaremos o nosso amor e a nossa admiração ao Rei e Pai da raça humana, que, com uma bondade e condescendência indizíveis, ao chamar os seus filhos errantes a voltar ao dever e à felicidade, apresentou a cada um de nós um semblante semelhante de ternura e pureza e usou um argumento que faz o apelo mais direto e irresistível aos princípios mais familiares e, ao mesmo tempo, mais poderosos do coração do homem?

“Um perdão sem sacrifício só poderia ter feito um apelo fraco e obscuro ao entendimento ou ao coração. Não poderia ter demonstrado o mal do pecado; não poderia ter demonstrado a bondade graciosa de Deus; e, portanto, não poderia ter levado o homem nem a odiar o pecado nem a amar a Deus. Se o castigo do pecado, assim como a sua culpa, consiste numa oposição ao caráter de Deus, o perdão mais pleno será perfeitamente inútil enquanto essa oposição permanecer no coração; e a utilidade real do perdão dependerá de estar ligado a circunstâncias que tenham uma tendência natural e poderosa a remover essa oposição e a criar uma semelhança. O perdão do evangelho está ligado a tais circunstâncias; pois o sacrifício de Cristo associou o pecado ao sangue de um benfeitor, bem como aos nossos próprios sofrimentos pessoais, e a obediência à súplica de um amigo que, ao morrer, exala por nós uma vida torturada, bem como à nossa própria glória sem fim na sua bendita companhia. Esse ato, como o da ilustração anterior, justifica Deus como legislador ao dispensar misericórdia aos culpados; dá um penhor da sinceridade e da realidade dessa misericórdia; e, ao associar o princípio à misericórdia, identifica, no coração do pecador, o objeto da gratidão com o objeto da estima.”3

Inseparavelmente ligada à grande doutrina da expiação, e adaptada às novas circunstâncias de provação em que a raça humana foi colocada em consequência da queda dos nossos primeiros pais, está a doutrina da influência do Espírito Santo; e esta, embora muitos a julguem a mais distante da prova racional, nem pode ser combatida por nenhum argumento satisfatório, nem deixa de ter uma razoabilidade evidente.

As Escrituras apresentam o homem, no estado presente, como sujeito não apenas a diversos estímulos sensíveis à transgressão, e como influenciado a resistir à tentação pelo conhecimento da lei de Deus e das suas sanções, pelo seu próprio senso do certo e do dever e pelos exemplos dos males da ofensa que o rodeiam, mas também como solicitado à obediência pela influência do Espírito Santo e à rebelião persistente pelas seduções dos espíritos malignos.

Esta é a doutrina da revelação; e, se as provas dessa revelação puderem ser refutadas, ela pode ser rejeitada; se não, tem de ser admitida, quer se possa oferecer em seu favor alguma prova argumentativa, quer não. Que ela não é irrazoável pode ser estabelecido em primeiro lugar.

Que Deus, que nos fez e que é Espírito puro, não possa ter acesso imediato aos nossos pensamentos, aos nossos afetos e à nossa vontade, seria certamente muito mais irrazoável negar do que admitir; e, se o grande e universal Espírito possui esse poder, fica removida pelo menos toda objeção física à doutrina em questão, e espíritos finitos e sem corpo podem ter o mesmo tipo de acesso à mente do homem, embora não em grau tão perfeito e íntimo. Antes que se possa alegar qualquer impossibilidade natural contra essa comunicação de espírito com espírito, teríamos de conhecer aquilo que nenhum filósofo, por mais profundas que fossem as suas investigações das causas dos fenômenos da mente, jamais afirmou conhecer: as leis da percepção, da memória e da associação. Podemos sugerir pensamentos e razões uns aos outros e, assim, influenciar mutuamente as nossas vontades e afetos. Usamos para isso o meio dos sinais e das palavras; mas sustentar que esses são os únicos meios pelos quais o pensamento pode ser transmitido ao pensamento, ou que os seres espirituais não podem produzir os mesmos efeitos de modo imediato, é fundar uma objeção inteiramente na nossa ignorância. Toda a razão que o caso, considerado em si mesmo, oferece está certamente a favor dessa opinião. Temos acesso à mente uns dos outros; podemos sugerir pensamentos, despertar afetos, influenciar a vontade dos outros; e a analogia favorece, portanto, a conclusão de que, embora por meios diferentes e ocultos, os espíritos sem corpo têm o mesmo acesso uns aos outros e a nós.

Se nenhuma impossibilidade física se opõe a essa representação das circunstâncias da nossa provação, certamente nenhuma razão moral pode ser alegada contra o próprio princípio que nos torna sujeitos às solicitações contrárias de outros seres. Que Deus, nosso Pai celestial, se preocupe com o nosso bem-estar, sem dúvida deve ser admitido; e que possa haver seres invisíveis desejosos, por diversos motivos, alguns dos quais podem ser concebidos e outros são desconhecidos, de nos atrair para o mal, torna-se provável pelo fato de que, entre os homens, todo caráter vicioso busca companhia nos seus vícios e emprega diversas artes de sedução, mesmo quando não tem interesse no êxito, para não ficar sozinho no pecado. De fato, vemos esse princípio de provação moral em operação constante no que diz respeito aos nossos semelhantes. Quem não é aconselhado, advertido e rogado pelos bons? Quem não é convidado à ofensa pelos maus? Que são todas as instituições instrutivas, esclarecedoras e influentes que homens bons e benevolentes estabelecem e dirigem, senão meios pelos quais outros podem ser atraídos e influenciados para o que é certo? E que são todos os estabelecimentos e artifícios destinados a multiplicar as satisfações e os prazeres da humanidade, senão meios empregados por outros para incentivar a frivolidade religiosa e a indiferença às coisas devotas e espirituais, e muitas vezes para seduzir ao vício nas suas formas mais grosseiras? O princípio está, portanto, em operação manifesta; e quem quiser objetar a essa doutrina da Escritura terá também de objetar ao governo divino, tal como se manifesta nos fatos da experiência, o qual claramente faz que seja uma circunstância da nossa provação neste mundo estarem as nossas opiniões, os nossos afetos e a nossa vontade sujeitos à influência de outros, tanto para o bem quanto para o mal.

Com referência a esse fato, podemos também mostrar a futilidade da objeção à doutrina da influência sobrenatural tirada da liberdade de ação do homem. As Escrituras não ensinam que a influência sobrenatural, boa ou má, destrói a nossa liberdade e a nossa responsabilidade. Como, então, pergunta-se, conciliar uma com a outra? A resposta é que temos certeza de que não são incompatíveis, porque, embora possamos ser fortemente influenciados e solicitados a uma conduta boa ou má por pessoas virtuosas ou viciosas; embora elas possam reforçar os seus respectivos desejos com argumentos, persuasões, esperanças ou temores; embora possam cuidadosamente levar-nos a circunstâncias mais calculadas para minar ou fortalecer resoluções virtuosas, temos, no entanto, consciência de que somos livres para ceder ou resistir. E sobre essa consciência, igualmente comum a todos, funda-se aquele juízo comum acerca da conduta dos que, ainda que cuidadosamente bem aconselhados ou assiduamente seduzidos, são sempre tratados pela opinião pública como agentes livres, e elogiados ou censurados conforme o caso. O caso é o mesmo quando a influência é sobrenatural; só é diferente o modo como ela é aplicada. Num caso, ela atua de fora sobre as molas que mais poderosamente movem a vontade e os afetos; no outro, atua mais imediatamente de dentro; mas em nenhum dos casos se deve supor que quaisquer outros seres possam querer ou escolher por nós. O modo de operar, em ambos os casos, pode ser inexplicável; mas, embora o poder de influenciar a nossa escolha possa pertencer a outros, o poder de escolher é exclusiva e necessariamente nosso.

Visto, portanto, que nenhuma razão física ou moral pode ser alegada contra a doutrina da influência divina, e que o princípio sobre o qual ela se funda, como circunstância da nossa provação na terra, se mostra inteiramente de acordo com as disposições efetivas do governo divino em outros casos, fica removido tudo o que poderia obstruir a nossa visão da excelência desse encorajador ensino da revelação divina. A impotência moral do homem tem sido universalmente sentida e universalmente reconhecida. Ver o bem e seguir o mal tem sido a queixa de todos; e é precisamente a tal estado que a doutrina da influência divina se adapta. Assim como a expiação de Cristo se inclina até a miséria judicial do homem, a promessa do Espírito Santo atende ao caso da sua miséria moral. Uma o encontra sem nenhum meio de satisfazer as exigências da justiça de modo a isentá-lo do castigo; a outra o encontra sem a inclinação nem a força para valer-se até mesmo da clemência proclamada e do perdão oferecido, e torna-se o meio de despertar o seu juízo e de estimular, auxiliar e coroar os seus esforços para obter essa dádiva e as bênçãos que dela decorrem. Uma o livra da pena do pecado; a outra, da sua doença. A primeira restitui ao homem o favor de Deus; a outra o renova à sua imagem.

A essa notável adaptação da doutrina à condição do homem podemos acrescentar a comovente visão que ela desvenda do caráter divino. Aquela ternura e compaixão de Deus para com as suas criaturas ofensoras, aquela relutância em que elas pereçam, aquela divina e solidária ansiedade, por assim dizer, de realizar a sua salvação, que foram exibidas pela “cruz de Cristo” (1Co 1.17), estão aqui em manifestação contínua e ativa. Vê-se um Agente divino “buscar”, para “salvar”, “o perdido” (Lc 19.10); seguir a ovelha perdida “no deserto” (Lc 15.4), para levá-la para casa “cheio de alegria” (Lc 15.5); deleitar-se em testificar de Cristo por causa da salvação que ele obteve; acompanhar com a sua influência a sua revelação escrita, porque só ela contém “palavras mediante as quais” os homens podem ser “salvos” (At 11.14); conceder auxílio especial aos ministros, porque são os mensageiros de Deus que proclamam a paz; e, numa palavra, bater à porta do coração humano, despertar a consciência, suscitar desejos espirituais, abrir mais claramente os olhos da mente para discernir o sentido e a aplicação da palavra revelada e abrandar o coração para receber a sua impressão eficaz. E isso também sem acepção de pessoas, fazendo seu ofício e obra especial convencer os que estão enganados, despertar os indiferentes, consolar os penitentes e humildes, plantar, nutrir e levar à maturidade, no coração dos obedientes, toda graça e virtude. Essas são concepções de Deus que não poderíamos ter tido sem essa doutrina; e a sua tendência evidente é encher o coração de gratidão por uma condescendência tão maravilhosa e uma solicitude tão terna; imprimir em nós uma profunda convicção do valor de hábitos renovados, já que o próprio Deus se inclina para produzi-los em nós; e advertir-nos da importância infinita de uma experiência pessoal dos benefícios da morte de Cristo, já que os meios do nosso perdão e da nossa santificação, se não forem aplicados, de nada nos podem valer.

Podemos acrescentar (e não é argumento fraco em favor da excelência desse ramo da doutrina cristã) que por ela somos encorajados a aspirar a um caráter mais elevado de pureza moral e a um estado mais perfeito de virtude, bem como a empenhar-nos em deveres mais difíceis. Se fôssemos deixados inteiramente aos nossos próprios recursos, desesperaríamos; e talvez seja exatamente na proporção em que essa promessa do Espírito Santo é apreendida pelos que verdadeiramente recebem o cristianismo que eles elevam o padrão do progresso moral possível. Que Deus “efetua em” nós “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” é razão para que “desenvolvamos a nossa salvação com temor e tremor” (Fp 2.12-13); pois, como a nossa liberdade não é destruída, e como até o Espírito pode ser “entristecido” (Ef 4.30) e “apagado” (1Ts 5.19), a nossa queda seria indizivelmente agravada pelas nossas vantagens. Mas a operação de Deus em nós é também motivo para que desenvolvamos a nossa salvação até o fim, para que aperfeiçoemos a nossa santificação até a vida eterna. Ninguém que olhe com firmeza para essa grande doutrina e a abrace de coração pode desesperar de vencer qualquer mau hábito; ninguém pode desesperar de ser plenamente renovado à imagem de Deus, quando sabe que um dos ofícios do Espírito Santo é efetuar essa renovação; e ninguém que repouse habitualmente na promessa de Deus para todo o auxílio que a palavra escrita o autoriza a esperar nos deveres difíceis e dolorosos, e naqueles empreendimentos generosos em benefício dos outros a que um zelo santificado possa levá-lo, desanimará em nenhum deles. “Em nome do nosso Deus” (Sl 20.5), essas pessoas têm, em todas as épocas, hasteado os seus pendões e foram assim elevadas a uma decisão, uma ousadia, uma iniciativa e uma perseverança que nenhuma outra consideração ou confiança poderia inspirar. Esses são os efeitos práticos dessa doutrina. Ela impele a progressos em santidade interior e em virtude exterior que seria quimérico considerar possíveis sem o auxílio de uma influência divina; e leva a esforços em benefício dos outros cujo êxito, de outro modo, seria duvidoso demais para encorajar o empreendimento.

Seria fácil apresentar muitas outras doutrinas da nossa religião que, pela sua evidente excelência e pela sua correspondência com a experiência e as circunstâncias da humanidade, fornecem muita prova interna interessante em favor da sua divindade. Mas, como isso excederia muito os limites de um capítulo, e como já foram consideradas as doutrinas contra as quais se levantaram as objeções mais veementes, em nome de supostos princípios racionais (o estado e a condição moral do homem, a expiação feita pela morte de Cristo pelos pecados do mundo e as influências do Espírito Santo), talvez tenha bastado para o argumento mostrar que mesmo essas doutrinas vêm acompanhadas de razões importantes e interessantes e que recomendam poderosamente o cristianismo à aceitação universal. O que se disse deve ser considerado apenas uma amostra da prova racional que acompanha muitas das doutrinas da revelação, e que uma mente ponderada pode ampliar com facilidade por numerosos outros exemplos tirados dos seus preceitos, das suas promessas e daquelas esperanças futuras e enobrecedoras que ela põe diante de nós. A admirável concordância de doutrina entre os escritores dos numerosos livros de que a Bíblia se compõe, que viveram em épocas muito distantes umas das outras e escreveram em circunstâncias tão variadas quanto se possa conceber, pode fechar adequadamente esta parte da prova interna. “Em todas as relações, partes e propósitos do livro de Deus encontraremos uma harmonia, uma conveniência e uma adaptação impressionantíssimas das suas partes componentes a um todo belo, estupendo e unido; e veremos que todas as suas partes se unem e terminam numa exibição magnificentíssima da glória de Deus, do esplendor dos seus atributos, da perfeição estrita e verdadeira do seu governo moral, da grandeza e da extensão da sua graça e do seu amor, especialmente como se manifestam na salvação e na felicidade do homem, na sua recuperação da depravação moral e na sua restauração à capacidade de alcançar a felicidade eterna.” (Lloyd, Horae Theologicae.) Esse argumento é expresso com tanta justeza e força na citação seguinte que dispensa maior elucidação: “O volume sagrado é composto por uma vasta variedade de escritores, homens de todas as categorias e condições, de toda diversidade de caráter e de feitio de espírito: o monarca e o plebeu, o iletrado e o erudito, o mais talentoso e o moderadamente dotado de vantagens naturais, o historiador e o legislador, o orador e o poeta. Cada um tem o seu campo peculiar: ‘uns para profetas, outros para apóstolos, outros para evangelistas’ (cf. Ef 4.11), vivendo em épocas distantes umas das outras, sob diferentes formas de governo civil, sob diferentes dispensações da economia divina, preenchendo um período de tempo que se estendeu desde a primeira aurora da luz celestial até o seu fulgor do meio-dia. O Antigo Testamento e o Novo, a lei e o evangelho; os profetas que predizem os acontecimentos e os evangelistas que os registram; os escritores de epístolas, doutrinais e ao mesmo tempo didáticos, e aquele que fechou o cânon sagrado na visão do Apocalipse: todos esses forneceram as suas respectivas porções e, no entanto, todas se encaixam com uma correspondência perfeitamente ajustada; todos os diferentes materiais se unem com uma completude das mais satisfatórias, com uma concordância das mais incontestáveis.

“Esse exemplo de uniformidade sem intenção, de concordância sem artifício; essa coerência mantida através de uma longa série de séculos, sem possibilidade dos métodos ordinários para conduzir tal plano; essas congruências sem paralelo, essas coincidências sem exemplo formam, em conjunto, uma espécie de prova da qual não há outro exemplo na história de todos os demais livros do mundo.

“Todos esses escritores de dons tão variados, aqui enumerados, concordam nesta grande peculiaridade: todos têm em vista o mesmo fim, todos apontam para o mesmo objeto; todos, sem nenhum conluio planejado, fazem avançar o mesmo plano. Cada um traz o seu contingente particular sem nenhuma consideração aparente de como ele há de unir-se às porções trazidas pelos outros contribuintes, sem nenhum espírito de acomodação, sem nenhuma intenção visível de montar um caso, na verdade sem nenhuma semelhança efetiva, a não ser esta: como cada porção separada deriva da mesma fonte, cada uma deve ser governada por um princípio comum, e esse princípio, sendo a própria verdade, deve produzir natural e concordemente assimilação, conformidade, concordância. Que podemos concluir de tudo isso, senão aquilo que é de fato a conclusão inevitável, uma conclusão que se impõe à mente e obriga a submissão do entendimento: que tudo isso, sob diferenças de administração, é obra de um só e mesmo grande Espírito, onisciente e eterno!” (Sra. More, Character of St. Paul.)

O segundo ramo da prova interna das Escrituras consiste na sua tendência moral; e aqui, como na doutrina, o crente pode tomar a posição mais elevada e mais dominante.

Se, quanto às verdades nelas reveladas, o antes “Deus desconhecido”, desconhecido até dos filósofos de Atenas, nos foi “anunciado” (At 17.23); se a verdadeira condição moral do homem, os seus perigos e as suas esperanças foram revelados; se se “manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor” (Tt 3.4) pelo homem; se a verdadeira propiciação foi desvendada e as portas da salvação foram abertas; se, pelas influências prometidas do Espírito Santo, a renovação da nossa natureza à imagem de Deus que o homem originalmente trazia, a imagem da sua santidade, se torna possível a todos os que a buscam; se temos, no sistema concorde de doutrina que encontramos nas Escrituras, toda orientação moral que pode guiar com segurança, toda promessa que pode transmitir uma bênção apropriada à nossa condição e toda esperança que pode, ao mesmo tempo, sustentar-nos no sofrimento e animar-nos a percorrer o nosso curso de provação e a aspirar às altas recompensas de outra vida, então a influência moral de tal sistema é tão poderosa quanto as suas revelações de doutrina são elevadas e importantes.

Um dos exemplos mais flagrantes daquela malignidade de coração com que alguns escritores incrédulos atacaram as Escrituras, e que, mais do que qualquer outra coisa, mostra que não é a falta de provas, mas uma hostilidade nascida de uma fonte menos honrosa, que os leva, em espírito de inimizade e malícia, a difamar deliberadamente aquilo que deveriam adorar, é terem afirmado ousadamente que a Bíblia tem uma tendência imoral. Para isso, a principal prova que alegam oferecer é que ela registra as falhas e os vícios de alguns dos personagens principais do Antigo e do Novo Testamento.

O fato não é negado; mas eles omitem o que é igualmente verdadeiro: que esses vícios nunca são mencionados com aprovação, que os personagens manchados por eles não nos são propostos, nesses aspectos, como modelo para imitação e que as suas fraquezas são registradas como advertência. Detêm-se nos crimes de Davi e zombam de ter ele sido chamado “homem segundo o seu coração” (1Sm 13.14), isto é, segundo o coração de Deus; mas omitem o fato de que ele foi assim chamado muito antes de cometer esses crimes, e de que em nenhum momento foi declarado aceitável a Deus com referência à sua conduta privada como homem, mas com respeito à sua conduta pública como rei. Tampouco dizem que esses crimes, nas mesmas Escrituras, são apresentados como terrivelmente punidos pelo desagrado do Todo-Poderoso, tanto na vida de Davi quanto na condição futura da sua família. Com tais objetores a Bíblia nada pode sofrer, porque a injustiça dos seus ataques implica uma homenagem forçada à força da verdade. Essa própria objeção fornece um argumento tão forte em favor da sinceridade e da honestidade dos escritores sagrados que confirma a credibilidade deles naquilo que os incrédulos negam, bem como naqueles relatos que eles, com intenção hostil, admitem de bom grado. Se as Escrituras tivessem sido escritas por impostores astutos, tais confissões de crimes e fraquezas dos seus personagens mais ilustres, e de alguns dos próprios escritores, não teriam sido feitas.

“Os evangelistas concordam todos neste traço inequívoco de veracidade: o de se incriminarem a si mesmos. Registram os seus próprios erros e ofensas com a mesma simplicidade com que relatam os milagres e os sofrimentos do seu Senhor. Na verdade, a sua lentidão, os seus enganos e as suas falhas estão tão intimamente entremeados com a história dele, pelas contínuas exigências que fazem à sua paciência e tolerância, que formam parte nada pequena nem desimportante dela. Essa fidelidade é igualmente admirável tanto na composição quanto na preservação do Antigo Testamento, livro que em toda parte testemunha contra aqueles cuja história contém, e não raro contra os próprios narradores. O autor do Pentateuco proclama, nos termos mais incisivos, a ingratidão daquele povo escolhido para com Deus. Profetiza que eles continuarão a encher a medida das suas ofensas, chama o céu e a terra como testemunhas contra eles de que livrou a sua própria alma e declara que, assim como adoraram deuses que não eram deuses, Deus os castigará chamando um povo que não era povo. E, no entanto, esse livro, tão vergonhoso para o seu caráter nacional, esse registro das suas próprias ofensas, eles prefeririam morrer a perdê-lo. ‘Este’, diz o admirável Pascal, ‘é um exemplo de integridade que não tem precedente no mundo nem raiz na natureza.’ No Pentateuco e nos Evangelhos, portanto, esses exemplos paralelos e sem igual de sinceridade são provas incontestáveis da verdade de ambos.” (Sra. More, Character of St. Paul.)

É justo dizer que a maligna absurdidade e a perversidade de acusar as Escrituras de tendência imoral não foram cometidas por todos os que se esforçaram, mesmo com zelo, por minar a sua autoridade divina. Muitos deles fazem concessões importantes sobre esse ponto. Mostram no seu próprio caráter o efeito da sua incredulidade e, provavelmente, a principal causa dela: Blount suicidou-se porque foi impedido de contrair um casamento incestuoso; Tyndal era notoriamente infame; Hobbes mudava de princípios conforme os seus interesses; Morgan continuou a professar o cristianismo enquanto escrevia contra ele. O caráter moral de Voltaire era mesquinho e detestável; Bolingbroke era um libertino e um político celerado. Collins e Shaftesbury habilitaram-se para cargos civis recebendo o sacramento, enquanto se esforçavam por provar que a religião da qual ele é uma expressão solene de fé era mera impostura; Hume era vingativo, repugnantemente vaidoso e defensor do adultério e do suicídio; Paine era escravo de hábitos baixos e degradantes; e Rousseau, um sensualista devasso e culpado das ações mais vis, que não hesita em relatar e atenuar. Contudo, até alguns desses admitiram a pureza superior da moral da revelação cristã. O eloquente elogio de Rousseau ao evangelho e ao seu Autor é bem conhecido; é uma passagem singular e mostra que é o estado do coração, e não o juízo, que leva à rejeição do testemunho de Deus.4

Nem é de surpreender que uma verdade tão evidente arranque concessões até dos adversários. Em nenhum outro lugar senão nas Escrituras temos um sistema perfeito de moral; e as deficiências da moral pagã apenas exaltam a pureza, a abrangência e a praticabilidade da nossa. O caráter do Ser reconhecido como Supremo há de sempre imprimir-se no sentimento e na prática morais, cuja obrigação repousa na sua vontade. Já vimos as concepções dos pagãos sobre esse ponto da maior importância e os seus efeitos. O Deus da Bíblia é “santo” sem mácula; “justo” sem interrupção nem parcialidade; “bom”, isto é, ilimitadamente benevolente e benfazejo; e a sua lei é a imagem dele mesmo: “santo, justo e bom” (Rm 7.12). Essas grandes qualidades morais não são, como entre os pagãos, na medida em que eles as apreendiam, meramente abstratas e, portanto, comparativamente fracas na sua influência. Na pessoa de Cristo, nosso Deus encarnado, vemo-las exemplificadas em ação, manifestando-se em meio às relações humanas e às circunstâncias concretas da vida humana. Entre os pagãos, a autoridade das regras morais era ou a opinião dos sábios ou a tradição dos antigos, confirmada, é verdade, em certo grau, pela observação e pela experiência; mas a nós elas são dadas como mandamentos vindos imediatamente do Governador Supremo e ratificadas como dele pelas atestações mais solenes e explícitas. Entre eles, muitos grandes princípios morais, apreendidos de modo indistinto, eram matéria de dúvida e debate; para nós, o modo explícito como são dados exclui ambas as coisas. Pois não se pode questionar se nos é ordenado amar o próximo como a nós mesmos; fazer aos outros o que queremos que nos façam, preceito que abrange quase toda a moral das relações num só princípio simples; perdoar os nossos inimigos; amar toda a humanidade; viver de forma “justa” e “sensata”, bem como “piedosa” (Tt 2.12); que os magistrados devem ser terror só para os que praticam o mal e louvor para os que praticam o bem; que os súditos devem dar honra a quem se deve honra e tributo a quem se deve tributo; que os senhores devem ser justos e misericordiosos, e os servos, fiéis e obedientes. Esses e muitos outros preceitos familiares são explícitos demais para serem mal entendidos e autorizados demais para serem contestados, dois dos meios mais poderosos de tornar uma lei eficaz. Os que nunca gozaram do benefício da revelação nunca conceberam de modo justo e abrangente aquele estado moral do coração do qual somente pode fluir uma conduta reta e benfazeja; e, portanto, quando falam das mesmas virtudes que o cristianismo prescreve, deve-se entender que lhes atribuem uma ideia inferior. Nisso se mostra a superioridade infinita do cristianismo. O princípio da obediência não é somente o senso do dever para com Deus e o temor do seu desagrado, mas um terno amor, despertado pelas suas compaixões infinitas para conosco no dom do seu Filho, que recua diante da ideia de ofendê-lo. A esse motivo influente, como razão da obediência, acrescenta-se outro, tirado do seu fim, não menos influente, mas que os moralistas pagãos jamais conheceram: o testemunho de que agradamos a Deus, manifestado na aceitação das nossas orações e numa comunhão espiritual e feliz com ele. Pelo cristianismo, a impureza do pensamento e do desejo é refreada no mesmo grau que os seus atos manifestos nos lábios e na conduta. A humanidade, a mansidão, a brandura, a disposição para a reconciliação, o desinteresse e a caridade são todos prescritos com a mesma clareza e solenidade com que os vícios mais grosseiros são proibidos; e na própria língua indomável se imprime “a instrução da bondade” (Pv 31.26). Nem são fracas as prescrições; são estritamente lei, e não mero conselho e recomendação. Sem a santificação “ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14); e assim a nossa entrada no céu e a nossa fuga da perdição dependem dessa preparação da mente. A tudo isso se acrescenta a possibilidade, ou antes a certeza, de alcançá-lo, se usarmos os meios designados. Um pagão podia traçar, embora não com linhas tão perfeitas, um ideal de virtude que nunca julgou alcançável; mas a “plena certeza da esperança” (Hb 6.11) é dada pela religião de Cristo a todos os que buscam a renovação moral da sua natureza, porque “Deus é quem efetua em” nós “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13).

Sendo tal a tendência moral do cristianismo, como é evidente sua tendência benéfica, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade! O indivíduo é libertado de toda paixão que consome, queima, inquieta e enfraquece o espírito, e sua paz interior torna alegre e voluntária a sua obediência. Poderíamos apelar aos próprios incrédulos e perguntar se, caso os princípios morais do evangelho fossem gravados no coração e encarnados na conduta de todos os homens, o mundo não seria feliz; se, caso os governos governassem e os súditos obedecessem segundo as leis de Cristo; se, caso as regras de estrita justiça que nos são ordenadas regulassem todas as transações entre os homens e entrasse em ação toda aquela misericórdia para com os aflitos que somos ensinados a sentir e a praticar; e se, caso os preceitos que descrevem e impõem os deveres de maridos, esposas, senhores, servos, pais e filhos governassem plena e universalmente todas essas relações, não se realizaria uma era melhor do que aquela que os poetas chamaram de idade de ouro, e o verso de Virgílio, “já volta também a Virgem, voltam os reinos de Saturno”, não seria fraco demais para exprimir a poderosa mudança. Tal é a tendência do cristianismo. Em imenso número de indivíduos ele produziu essas mudanças morais; todas as nações onde ele foi apresentado plena e fielmente trazem, em meio aos vícios que nelas ainda restam, a marca de sua influência santificadora e benfazeja; e ele está agora em ação, em muitas das partes mais escuras e piores da terra, para levar a elas as mesmas bênçãos. Quem quisesse deter seu avanço, se pudesse, apagaria a única esperança que resta ao nosso mundo e se mostraria inimigo não só de si mesmo, mas de toda a humanidade. Que prova tudo isso, então, perguntamos, senão que as Escrituras são dignas de Deus e propõem exatamente os fins que tornaram necessária uma revelação? De todo o sistema de religião prática que elas contêm podemos dizer o mesmo que se disse do sistema contido no Sermão do Monte de nosso Senhor, nas palavras de alguém que, numa série de sermões sobre essa composição divina, penetrou profundamente em seu espírito e apresentou um retrato muito instrutivo do caráter que ela pretendia formar: “Eis o cristianismo em sua forma nativa, tal como foi entregue por seu grande Autor. Vede um retrato de Deus, até onde ele pode ser imitado pelo homem, desenhado pela própria mão de Deus. Que beleza aparece no conjunto! Que justa simetria! Que exata proporção em cada parte! Quão desejável é a felicidade aqui descrita! Quão venerável, quão amável é a santidade!” (Sermões de Wesley.) “Se”, diz o bispo Taylor, “a sabedoria, a misericórdia, a justiça, a simplicidade, a santidade, a pureza, a mansidão, o contentamento e a caridade são imagens de Deus e raios da Divindade, então a doutrina na qual todas essas coisas brilham tão gloriosamente, e na qual nada mais entra como ingrediente, tem de vir de Deus. Ainda que o santo Jesus tivesse vindo ao mundo com menos esplendor de poder e menos demonstrações poderosas, a excelência do que ele ensinou também o torna digno de ser o Mestre do mundo.” (Moral Demonstration of the Truth of the Christian Religion.)

A PROVA INTERNA da verdade das Escrituras também pode ser recolhida de seu estilo. Ele é variado, e assim concorda com o que elas declaram ser, isto é, uma coleção de livros escritos por diferentes indivíduos. Cada um tem sua peculiaridade, tão fortemente marcada e tão uniformemente mantida ao longo do livro ou dos livros que lhe são atribuídos, que isso constitui prova vigorosa de autenticidade. Os estilos de Moisés, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, dos evangelistas e de são Paulo são todos notavelmente diferentes. Os escritores do Novo Testamento empregam idiotismos, palavras e expressões hebraicas. O grego em que escreveram não é o grego clássico, mas, como observa o bispo Marsh, “é um dialeto tal como seria usado por pessoas educadas num país onde o caldeu ou o siríaco era falado como língua vernácula, mas que também adquiriram conhecimento do grego pelo convívio frequente com estrangeiros”. Isso fornece, portanto, um argumento de prova interna de que os livros foram escritos pelas pessoas cujos nomes eles trazem. E o mesmo prelado mostrou que, como esse estilo particular se modificou depois da destruição de Jerusalém, essa mesma língua mista não poderia ter sido escrita em nenhuma outra época senão no primeiro século; também dessa fonte, portanto, se obtém prova a favor da antiguidade das Escrituras do Novo Testamento. Michaelis tira um argumento a favor do mesmo ponto, a antiguidade, da concordância da história evangélica e das epístolas apostólicas com a história e os costumes da época a que se referem. “Um cristão grego ou romano”, observa ele, “que vivesse no segundo ou no terceiro século, ainda que tão versado nos escritos dos antigos quanto Eustácio ou Ascônio, ainda assim seria deficiente em literatura judaica; e um judeu convertido naquelas épocas, mesmo o mais erudito rabino, seria igualmente deficiente no conhecimento da Grécia e de Roma. Se, então, o Novo Testamento, assim exposto a ser descoberto (caso fosse uma impostura), se mostra, depois das mais rigorosas pesquisas, em harmonia com a história, os costumes e as opiniões do primeiro século, e se, quanto mais minuciosamente investigamos, mais perfeita achamos a coincidência, temos de concluir que estava fora do alcance das capacidades humanas realizar um engano tão maravilhoso.”

A maneira dos escritores sagrados também prova que eles tinham consciência da verdade do que relatam. Toda a narrativa é simples e natural. Mesmo nos relatos da criação, do dilúvio, da saída do Egito e dos acontecimentos da vida e da morte de Cristo, onde homens mal-intencionados se sentiriam mais inclinados a tentar reforçar a impressão com descrições ardentes e elaboradas, conserva-se a mesma simplicidade sóbria. “Esses sóbrios registradores dos acontecimentos mais assombrosos nunca são arrastados pelas circunstâncias que relatam a nenhuma pompa de linguagem, a nenhum uso de superlativos. Talvez não haja em todo o Evangelho uma única interjeição, nem uma exclamação, nem qualquer artifício para chamar a atenção do leitor para as maravilhas de que os narradores foram testemunhas. Absortos em sua santa tarefa, nenhuma ideia alheia se apresenta à mente deles: o objeto que têm diante de si a enche por completo. Nunca fazem digressões; nunca são desviados pelas solicitações da vaidade ou pelas sugestões da curiosidade. Nenhuma imagem surge para distrair sua atenção. Há, de fato, nos Evangelhos muitas imagens, muitas alusões, muitas alegorias, mas elas procedem do Senhor deles e são registradas como dele. Os escritores nunca preenchem os intervalos entre os acontecimentos. Deixam que as circunstâncias produzam sua própria impressão, em vez de ajudar o leitor com reflexões próprias. Sentem sempre a terra santa em que pisam. Conservam a gravidade da história e a severidade da verdade, sem alargar o contorno nem inflar a expressão.” (Sra. More, Character of St. Paul.)

Outra fonte de PROVA INTERNA, que nasce de coincidências incidentais as quais, por “seu caráter oculto e minucioso”, devem ser supostas como tendo seu fundamento na verdade, é exposta e habilmente ilustrada pelo dr. Paley em sua obra Horae Paulinae, que recompensará bem a leitura.

Grande parte da PROVA COLATERAL da verdade das Escrituras em geral, e do cristianismo em particular, já foi antecipada no curso desta discussão e não precisa ser retomada. Já se mostrou a concordância da revelação final da vontade de Deus, por meio do ministério de Cristo e de seus apóstolos, com revelações anteriores devidamente autenticadas, de modo que o todo constitui um só corpo de doutrinas harmoniosas, introduzidas gradualmente e por fim plenamente desdobradas e confirmadas. A adequação da revelação cristã ao estado do mundo no tempo em que foi comunicada decorre da exposição que fizemos da necessidade não só de uma revelação em geral, mas de uma revelação tal como a que a misericórdia de Deus concedeu ao mundo por meio de seu Filho. Também se mostrou que seus fatos históricos concordam com as histórias e tradições dignas de crédito da mesma época; que restam monumentos que atestam sua verdade, nas instituições da Igreja cristã; e que seus adversários fizeram concessões a seu favor.5 Nossas observações adicionais sobre esse assunto, embora pudessem abranger muitos outros pormenores interessantes, devem limitar-se a dois pontos, cada um, porém, de caráter muito convincente. O primeiro é a maravilhosa difusão do cristianismo nos três primeiros séculos; o segundo é o efeito benéfico real que o cristianismo produziu e ainda produz na humanidade.

Quanto ao primeiro, o fato a ser explicado é que os primeiros pregadores do evangelho, embora sem o apoio do poder humano e sem a recomendação da sabedoria filosófica, e até em oposição a ambos, conseguiram efetuar nas opiniões e nos costumes de grande parte do mundo civilizado uma revolução que não tem paralelo na história da humanidade.6 “Embora difamados pela calúnia dos maliciosos e expostos à espada dos poderosos, em curto espaço de tempo induziram multidões de várias nações, igualmente distintas pela peculiaridade de seus costumes e pela diversidade de suas línguas, a abandonar a religião de seus antepassados. Os convertidos que fizeram abandonaram cerimônias e instituições que eram defendidas por vigorosa autoridade, santificadas por remota antiguidade e associadas à mais sedutora satisfação das paixões.” (Kett, Sermons at the Bampton Lecture.)

Depois da morte deles, as mesmas doutrinas foram ensinadas e os mesmos efeitos se seguiram, embora sucessivos imperadores e magistrados inferiores movessem perseguições sucessivas e terríveis contra todos os que professavam a fé em Cristo. Tácito, por volta de 62 d.C., falando do cristianismo, diz: “Essa perniciosa superstição, embora contida por algum tempo, irrompeu de novo e se espalhou não só pela Judeia, mas chegou também à cidade de Roma. A princípio foram presos apenas os que confessavam pertencer a essa seita; depois se descobriu uma vasta multidão, que foi cruelmente punida.” Plínio, governador do Ponto e da Bitínia, quase oitenta anos depois da morte de Cristo, em sua conhecida carta a Trajano, observa: “O contágio dessa superstição invadiu não só as cidades, mas também as vilas menores e todo o campo.” Fala também dos templos dos ídolos como “quase abandonados”. No mesmo sentido falam os Pais da Igreja. Por volta de 140 d.C., Justino Mártir escreve: “Não há nação, grega ou bárbara, ou de qualquer outro nome, mesmo entre os que vagueiam em tribos e vivem em tendas, entre a qual não se ofereçam orações e ações de graças ao Pai e Criador do universo em nome do Jesus crucificado.” Em 190 d.C., Tertuliano, em sua Apologia, apela aos governadores romanos: “Somos de ontem, e enchemos vossas cidades e vilas, o acampamento, o senado e o fórum.” Em 220 d.C., Orígenes diz: “Pela boa providência de Deus, a religião cristã floresceu e cresceu de tal modo que agora é pregada livremente e sem perturbação.” Essas descrições, sustenta Gibbon, são exageros de ambos os lados, produzidos pelos temores de Plínio e pelo zelo dos Pais da Igreja. Mas, mesmo admitindo algum grau de exagero, nascido não de propósito, mas de sentimentos ardentes, um acontecimento incontestável prova a futilidade das objeções que o elegante mas incrédulo historiador levantou contra essas declarações. O grande fato é que, no ano 300 d.C., o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano e o paganismo foi abolido. Desse acontecimento se segue que a religião que assim triunfou depois de provações e sofrimentos sem paralelo deve ter-se estabelecido, antes de receber a sanção do Estado, na crença de uma grande maioria dos cento e vinte milhões de pessoas que se supõe o império contivesse. Do contrário, nenhum imperador teria sido insensato a ponto de tentar mudar a religião de um Estado tão vasto, nem, se o tentasse, poderia ter tido êxito.

O êxito do cristianismo nos três séculos anteriores a Constantino foi justamente considerado, num sentido nada desprezível, como milagroso e, como tal, uma prova ilustre de sua divindade. “Os obstáculos que se opuseram à primeira recepção do cristianismo eram tão numerosos e formidáveis, e os instrumentos humanos empregados para sua difusão tão aparentemente fracos e insuficientes, que uma comparação entre eles não só mostrará que as paixões e a oposição do homem, longe de impedirem os desígnios divinos, podem por fim tornar-se os meios de seu perfeito cumprimento, mas também demonstrará plenamente a origem divina do cristianismo, ao revelar o poderoso auxílio que o Todo-Poderoso forneceu para seu estabelecimento.” (Kett, Sermons.) O assombroso êxito do cristianismo em tais circunstâncias, e numa época tão remota, confirma fortemente a verdade dos milagres, porque os pressupõe. Não se pode conceber nenhum outro meio pelo qual uma atenção tão geral tivesse sido despertada para uma religião que não só carecia da sanção da autoridade e da posição social, mas era combatida por ambas; cujo cenário dos fatos ficava numa província de povo desprezado; e cujas doutrinas não ofereciam nada além de conquistas espirituais. Pelo efeito dos milagres durante a vida dos primeiros pregadores, a curiosidade pública foi despertada, e eles obtiveram um auditório que de outro modo não teriam conseguido reunir. Esse poder de operar milagres foi transmitido a seus sucessores e continuou até que os propósitos da Sabedoria infinita se cumprissem. Os milagres diminuíram em número no segundo século e deixaram apenas alguns vestígios no fim do terceiro.7 O crescimento do número de cristãos implicava ainda mais do que milagres. Tal era o caráter santo da maioria deles enquanto duraram o opróbrio e as perseguições que acompanhavam o nome cristão, tal a paciência com que sofriam e a firmeza com que morriam, que a influência de Deus sobre seus corações é tão manifesta no caráter novo e santificado que os distinguia, e nas virtudes mansas, perdoadoras e passivas que exibiam, para assombro dos pagãos, quanto o seu poder nos milagres pelos quais a atenção deles foi a princípio atraída para examinar aquela verdade em que depois creram e à qual se apegaram até a morte.

O efeito real que essa nova religião produziu na sociedade, e que ainda está produzindo, é outro ponto da prova colateral:

pois o cristianismo não só tem aptidão para melhorar a condição da sociedade, e sua excelência não se deve apenas argumentar a partir de seus efeitos apresentados em circunstâncias hipotéticas, mas ele de fato conquistou suas vitórias morais e em todas as épocas exibiu seus troféus. Em todo país pagão onde prevaleceu, aboliu a idolatria com seus ritos sanguinários e impuros. Efetuou também esta poderosa revolução: que as sanções da religião deixassem de favorecer as piores paixões e práticas e passassem a ser dirigidas contra elas. Elevou o padrão da moralidade e, por esse meio, mesmo onde não se permitiu que seus efeitos plenos se manifestassem, melhorou insensivelmente os costumes de todo Estado cristão. O que as nações pagãs são em matéria de moral é agora bem conhecido, e a informação sobre esse assunto, que vem aumentando há vários anos, tirou dos incrédulos a possibilidade de alegar a superioridade dos costumes da China ou do Industão. Aboliu o infanticídio e os sacrifícios humanos, tão comuns entre os pagãos antigos e modernos; pôs fim à poligamia e ao divórcio; e, pela instituição do casamento como vínculo indissolúvel, deu origem a uma felicidade e a uma santidade no círculo doméstico que este jamais conhecera. Exaltou a condição e o caráter da mulher e, por esse meio, humanizou o homem; deu refinamento e delicadeza à sociedade; e criou no peito humano um afeto novo e importante, o amor à mulher fundado na estima, afeto geralmente desconhecido dos pagãos mais refinados.8 Aboliu a escravidão doméstica na Europa antiga, e de seus princípios tira sua energia a luta que agora se trava contra a escravidão africana, que promete um triunfo igualmente completo. Deu um caráter mais brando à guerra e ensinou as nações modernas a tratar seus prisioneiros com humanidade e a devolvê-los a seus respectivos países por meio de troca. Lançou as bases de uma jurisprudência mais justa e equitativa; deu direitos civis aos súditos e impôs limites ao poder absoluto; e coroou suas realizações com sua caridade. Hospitais, escolas e muitas outras instituições para o auxílio dos idosos e dos pobres são quase exclusivamente criações suas, e abundam mais onde sua influência é mais poderosa. Os mesmos efeitos resultam até hoje de sua influência nos países pagãos aos quais o evangelho foi levado por missionários enviados deste e de outros Estados cristãos. Em alguns deles a idolatria foi abandonada; crianças, viúvas e idosos que teriam sido imolados a seus deuses ou abandonados por sua crueldade foram preservados e agora são “os vivos que louvam o seu divino Autor, como o fazem hoje”. Em outros casos a luz está prevalecendo contra as trevas, e aqueles sistemas de superstição tenebrosa e sanguinária que se mantiveram por séculos apenas para poluir e oprimir, sem nenhum sinal de decadência, agora revelam os abalos que sofreram pela pregação do evangelho de Cristo e cambaleiam rumo à sua queda final.9

“O Ser eterno, independente e existente por si mesmo. O Ser cujos propósitos e ações brotam de si mesmo, sem motivo ou influência alheia; aquele que é absoluto em domínio; a mais pura, mais simples e mais espiritual de todas as essências; infinitamente benevolente, benfazejo, verdadeiro e santo; a causa de todo ser, o sustentador de todas as coisas; infinitamente feliz, porque infinitamente bom; e eternamente suficiente a si mesmo, sem necessidade de nada do que fez. Ilimitado em sua imensidade, inconcebível em seu modo de existência e indescritível em sua essência; plenamente conhecido só de si mesmo, porque uma mente infinita só pode ser compreendida por si mesma. Numa palavra, um Ser que, por sua infinita sabedoria, não pode errar nem ser enganado, e que, por sua infinita bondade, não pode fazer senão o que é eternamente justo, reto e bondoso.”

princípio do livro, portanto, é mostrar a excelência do cristianismo pelo fato de ele encarnar os princípios abstratos da religião natural em ação inteligível e palpável, um fundamento gratuito e sem consistência.

“Que preconceito, que cegueira é preciso para comparar o filho de Sofronisco (Sócrates) ao Filho de Maria! Que desproporção infinita há entre eles! Sócrates, morrendo sem dor nem ignomínia, sustentou facilmente seu caráter até o fim; e se sua morte, por mais serena, não tivesse coroado sua vida, poderia duvidar-se de que Sócrates, com toda a sua sabedoria, fosse algo mais do que um sofista vaidoso. Ele inventou, diz-se, a teoria da moral. Outros, porém, já a haviam posto em prática antes dele; ele só teve de dizer o que eles tinham feito e reduzir seus exemplos a preceitos. Mas onde poderia

Jesus ter aprendido, entre seus competidores, aquela moral pura e sublime da qual só ele nos deu tanto o preceito quanto o exemplo? A morte de Sócrates, filosofando tranquilamente com seus amigos, parece a mais agradável que se poderia desejar; a de Jesus, expirando em meio a dores agonizantes, ultrajado, insultado e acusado por uma nação inteira, é a mais horrível que se poderia temer. Sócrates, ao receber a taça de veneno, abençoou o carrasco que chorava ao entregá-la; mas Jesus, em meio a torturas atrozes, orou por seus impiedosos algozes. Sim! Se a vida e a morte de Sócrates foram as de um sábio, a vida e a morte de Jesus foram as de um Deus. Suporemos que a história evangélica seja mera ficção? Na verdade, meu amigo, ela não traz as marcas da ficção; ao contrário, a história de Sócrates, de que ninguém ousa duvidar, não é tão bem atestada quanto a de Jesus Cristo. Tal suposição, de fato, apenas desloca a dificuldade, sem resolvê-la; é mais inconcebível que várias pessoas se tenham posto de acordo para escrever tal história do que um só ter fornecido o assunto dela. Os autores judeus eram incapazes daquele estilo e estranhos à moral contida no evangelho, cujas marcas de verdade são tão impressionantes e inimitáveis que o inventor seria um homem mais assombroso do que o herói.”

Notas de Richard Watson

1. O caráter que as Escrituras atribuem ao Ser divino é descrito de modo impressionante pelo dr. A. Clarke em sua nota sobre Gênesis 1.1: ↩

2. Veja-se o argumento exposto de forma ampla e engenhosa em Gisborne, Testimony of Natural Theology. ↩

3. Remarks on the Internal Evidence of the Truth of Revealed Religion, de Thomas Erskine, Esq. Esse volume popular e interessante contém muitas observações muito notáveis, justas e eloquentes que ilustram a prova interna de várias doutrinas do Novo Testamento, especialmente a da expiação. É de lamentar, porém, que parta de um princípio falso e construa tanta verdade sobre a areia. “O senso de obrigação moral é o padrão ao qual a razão ensina o homem a ajustar seu sistema de religião natural”, e esse é “o critério pelo qual ele deve provar todas as pretensões à religião”. O ↩

4. “Confesso-vos que a majestade das Escrituras me enche de admiração, assim como a pureza do evangelho exerce sua influência sobre meu coração. Percorrei as obras de nossos filósofos, com toda a sua pompa de linguagem: como são mesquinhas, como são desprezíveis comparadas com as Escrituras! Será possível que um livro ao mesmo tempo tão simples e tão sublime seja mera obra de homem? Será possível que o sagrado personagem cuja história ele contém seja ele mesmo um simples homem? Vemos que ele tenha assumido o tom de um entusiasta ou de um sectário ambicioso? Que doçura, que pureza em seus modos! Que graça comovente em sua fala! Que sublimidade em suas máximas! Que profunda sabedoria em seus discursos! Que presença de espírito em suas respostas! Quão grande o domínio sobre suas paixões! Onde está o homem, onde o filósofo, que soubesse viver e morrer assim, sem fraqueza e sem ostentação? Quando Platão descreveu seu imaginário homem justo, coberto de toda a vergonha da culpa e ainda assim merecedor das mais altas recompensas da virtude, descreveu exatamente o caráter de Jesus Cristo: a semelhança era tão impressionante que todos os Pais da Igreja a perceberam. ↩

5. O testemunho colateral a certos fatos mencionados nas Escrituras, tirado de moedas, medalhas e mármores antigos, pode ser visto bem aplicado em Horne, Introduction to the Study of the Scriptures, vol. 1, p. 238. ↩

6. O êxito de Maomé, embora às vezes apresentado como paralelo, é na verdade, tanto pelos meios empregados quanto pelo efeito produzido, um perfeito contraste. Os meios foram a conquista e a coação; o efeito foi legalizar e, por assim dizer, santificar as paixões naturais dos homens pelo saque e pela satisfação sensual. E certamente revela um juízo muito fraco, ou uma disposição culpável, levantar como objeção um contraste tão marcado, apresentando-o como correspondência. Os homens eram persuadidos, quando não forçados, a juntar-se às fileiras do impostor árabe pela esperança do saque e de uma vida presente e futura de satisfação brutal. Os homens eram persuadidos a juntar-se aos apóstolos pela evidência da verdade e pela esperança de bênçãos espirituais futuras, mas com a certeza de desonra e sofrimento no presente. ↩

7. Tentou-se negar a existência de poderes miraculosos nas épocas imediatamente posteriores à dos apóstolos, mas ela se apoia no testemunho unânime e sucessivo dos Pais da Igreja. Gibbon, nesse assunto, tomou emprestadas suas objeções da Free Inquiry do dr. Middleton, cuja crença no cristianismo é muito suspeita. Esse livro recebeu muitas respostas competentes, mas nenhuma mais competente do que a do rev. John Wesley. É um triunfo para a verdade poder declarar que o dr. Middleton se viu obrigado a abandonar sua posição, deslocando a questão. ↩

8. Entre os gregos, a educação das mulheres se restringia principalmente às cortesãs. ↩

9. Para uma ilustração ampla dos efeitos reais do cristianismo sobre a sociedade, vejam-se o bispo Porteus, Beneficial Effects of Christianity, e Ryan, History of the Effects of Religion on Mankind. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).