O sistema de religião revelada contido no Antigo e no Novo Testamento opõe-se às inclinações naturais e corruptas dos homens e, muitas vezes, à sua prática efetiva; submete-os a regras às quais são avessos; ameaça-os com um desfecho que eles temem; não lhes oferece outros prazeres senão aqueles de que não gostam, nem outras vantagens senão as que eles trocariam de bom grado por uma vida perpétua de satisfação pecaminosa na terra. Por isso será considerado por muitos dos mais reflexivos entre eles como um sistema de restrição, e por isso há de provocar muitas vezes ou hostilidade direta ou a disposição de estimular e acolher sugestões que tendam a enfraquecer sua autoridade. Pode-se acrescentar que, como as Escrituras não podem ser conhecidas sem exame cuidadoso, o que implica um hábito sério que não se encontra na maioria, homens engenhosos levantaram muitas vezes objeções em grande ignorância do próprio volume contra o qual elas se dirigem; e essas objeções, apresentadas às vezes com base em alguma visão popular de um fato ou de uma doutrina, foram recebidas com o mesmo descuido com que foram proferidas. Também os filósofos construíram às vezes teorias apressadas sobre vários assuntos, que contradisseram, ou se julgou que contradiziam, algumas partes das Escrituras; e o aparato da ciência e o fascínio da novidade enganaram e desencaminharam igualmente o próprio teórico e seus discípulos. Desde o renascimento das letras, e nos países onde se permitiu a liberdade de discussão, surgiram opositores, e fizeram-se numerosas tentativas de abalar a fé da humanidade. Aquela espécie enganosa de incredulidade conhecida pelo nome de “deísmo” apareceu na Itália e na França por volta de meados do século XVI, e na Inglaterra no começo do século XVII. Sob esse nome e sob o de “religião da natureza”, ambos adotados para enganar os incautos, o ataque ao cristianismo foi a princípio cauteloso e acompanhado de muitas declarações de apreço por suas múltiplas excelências. Lorde Herbert de Cherbury foi o primeiro a defender esse sistema neste país. Ele estabelece cinco artigos primários de religião como contendo tudo o que é necessário crer; e, como sustenta que todos eles podem ser descobertos por nossas faculdades naturais, eles dispensam, informa-nos, a necessidade de uma revelação. São eles: que há um Deus supremo; que ele deve ser adorado acima de tudo; que a piedade e a virtude são a parte principal de sua adoração; que o arrependimento expia a ofensa; e que há um estado futuro de recompensas e castigos. A história da incredulidade a partir dessa época é um comentário notável às palavras de são Paulo: “Mas os perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2Tm 3.13). Pois, no avanço desse erro mortal, todos os cinco artigos de religião natural de lorde Herbert foram postos em dúvida ou abandonados por aqueles que o seguiram em seu princípio fundamental, “que nada pode ser admitido que não possa ser descoberto por nossas faculdades naturais”. Hobbes, que veio a seguir nessa guerra contra a Bíblia, embora reconheça que há um Deus, apresenta-o como corpóreo e nosso dever para com ele como uma quimera, sendo o magistrado civil supremo em todas as coisas, civis e sagradas. Shaftesbury insiste em que a doutrina das recompensas e dos castigos degrada o entendimento e prejudica a virtude moral. Hume nega a relação entre causa e efeito e assim tenta derrubar o argumento a favor da existência de Deus tirado da estrutura do universo. Outros rejeitaram como irracional a adoração a Deus, que lorde Herbert defende, porque ele não precisa de nossos louvores e não se deixa desviar de seus propósitos por nossas orações. Como nesse sistema se renuncia a toda lei de autoridade divina, “a piedade e a virtude” devem ser entendidas como aquilo que cada homem resolver considerá-las, o que equivale a aniquilá-las; e, quanto às recompensas e aos castigos futuros, a filosofia descobriu, depois dos dias de lorde Herbert, que a alma do homem é material, ou melhor, que, sendo mero resultado da organização do corpo, morre com ele. O grande princípio do primeiro incrédulo inglês, “a suficiência de nossas faculdades naturais para formarmos uma religião para nós mesmos e para decidirmos sobre os méritos da verdade revelada”, é, porém, o princípio de todos. E, uma vez concedido esse princípio, os exemplos que acabamos de dar provam suficientemente que a amarra se soltou e que cada um fica entregue a seguir o rumo para onde os ventos e as correntes impelirem seu barco sem piloto, sem carta de navegação e sem bússola. Esse grande princípio de erro, do qual o ateísmo absoluto dista apenas poucos passos, foi amplamente refutado nas páginas anteriores, e os direitos das Sagradas Escrituras a serem consideradas uma revelação de Deus foram estabelecidos por argumentos cuja força, em todos os outros casos, é sentida, reconhecida e seguida na prática até pelos próprios descrentes. Se isso foi feito de modo satisfatório, as objeções que restam têm pouco peso, ainda que fossem menos capazes de ser repelidas; e, se não se puder achar resposta para algumas das dificuldades que se podem levantar, essa circunstância concorda muito mais com a verdade de uma revelação do que concordaria com sua falsidade. “Não negamos”, diz um excelente escritor sobre as provas do cristianismo (o dr. Olinthus Gregory), “que o plano da revelação tenha suas dificuldades; pois, se as coisas da natureza são muitas vezes difíceis de compreender, seria de fato estranho que as questões sobrenaturais fossem tão simples, tão óbvias e tão adequadas a capacidades finitas que nunca nos sobressaltassem nem nos deixassem perplexos. Quem nega que a Bíblia tenha vindo de Deus por causa dessas dificuldades pode, exatamente pela mesma razão, negar que o mundo foi formado por ele.”
As meras chicanas dos escritores incrédulos podem ser despachadas depressa; as objeções mais plausíveis serão examinadas com mais vagar. Quanto às primeiras, poucas delas poderiam ter sido levantadas se aqueles que as apresentaram tivessem consultado as obras dos comentaristas e dos críticos bíblicos, escritos com os quais é evidente que têm pouca familiaridade; e assim mostraram quão pouco dispostos estavam a conhecer plenamente os assuntos que submeteram à sua crítica. A isso se pode acrescentar sua ignorância dos idiotismos do hebraico, a língua do Antigo Testamento; sua desatenção aos antigos costumes e usos dos países onde viveram os escritores sagrados, aos erros ocasionais na transcrição de numerosas cópias, que podem ser corrigidos pela colação, e às diferentes variantes do texto, que, para uma crítica imparcial, geralmente forneceriam a solução da dificuldade.
A Bíblia foi atacada com veemência porque apresenta Deus dando ordem aos israelitas de exterminar as nações de Canaã; mas algumas poucas observações bastarão para provar quão pouco peso há nas acusações feitas por esse motivo contra o autor do Pentateuco. A objeção não pode ser sustentada com o simples argumento de que é contrário à justiça ou à misericórdia divina exterminar um povo indiscriminadamente, do mais velho ao mais novo, pois isso acontece nos terremotos, nas pestes etc. O cólera-morbo, que há quatro anos vem devastando várias partes da Ásia, provavelmente destruiu meio milhão de pessoas de todas as idades. O caráter do Deus da natureza não é, portanto, contradito pelo que se atribui ao Deus da Bíblia. Toda a objeção se reduz a esta pergunta: era compatível com o caráter de Deus empregar agentes humanos nessa obra de destruição? Quem pode provar que não era? Ninguém; e, no entanto, é aí que repousa todo o peso da objeção. Os judeus não se tornaram mais cruéis por terem recebido tal incumbência, pois os encontramos muito mais misericordiosos em suas instituições do que outras nações antigas. Nem se pode alegar esse caso a favor das guerras de extermínio, pois houve nele uma incumbência especial para um propósito especial, e por ela o caso ficou limitado. Devem-se incluir também outras considerações. Os pecados dos cananeus eram de natureza tão grosseira que foi necessário marcá-los com castigos exemplares para o bem das nações vizinhas. O emprego dos israelitas como instrumentos, sob uma incumbência especial e proclamada publicamente, ligou o castigo à ofensa de modo mais visível do que se ele tivesse sido infligido pelo concurso dos elementos em luta, e os próprios israelitas ficariam mais profundamente impressionados com a culpa da idolatria e de seus ritos impuros e sanguinários, que sempre a acompanham. Por fim, os cananeus tinham sido poupados por longo tempo e, nesse intervalo, tinham sido advertidos por juízos parciais e repreendidos pelos adeptos remanescentes da religião patriarcal que viviam entre eles.
Assim, a objeção não tem fundamento algum. A destruição de crianças, sobre a qual tanto se insiste, ocorre na natureza e na providência. A objeção ao emprego de agentes humanos, que se baseia em que por esse meio se induziriam hábitos de desumanidade, supõe o que é falso de fato, pois esse efeito sobre os judeus foi impedido pela circunstância de saberem que agiam como ministros do desagrado divino e sob a incumbência dele. E é possível descobrir algumas razões importantes para que o juízo fosse executado por homens, sobretudo esta: que assim se mostrasse o mal de uma idolatria sanguinária e obscena.
Aquela lei de Deuteronômio que autoriza os pais, o pai e a mãe, a levar “um filho teimoso e rebelde”, que fosse também “comilão e beberrão”, aos anciãos da cidade, para que, se culpado, fosse apedrejado (Dt 21.18-21), tem sido chamada de desumana e brutal. Na realidade, porém, era uma disposição misericordiosa. Em quase todas as nações antigas os pais tinham o poder de tirar a vida dos filhos. Era um ramo da antiga autoridade patriarcal que não se fundiu de uma só vez nos governos monárquicos estabelecidos mais tarde. Há razão, portanto, para crer que os chefes de família entre os israelitas o possuíam e que essa foi a primeira tentativa de controlá-lo, obrigando que os crimes imputados aos filhos fossem provados perante magistrados regulares, e impedindo assim os efeitos das paixões desenfreadas.
A intenção de Abraão de oferecer Isaque também teve sua parcela de censura. A resposta é: 1. Que Abraão, que tinha o hábito de comunicação perceptível com Deus, não podia ter dúvida quanto à ordem divina e quanto ao direito de Deus de tirar a vida que ele mesmo dera.
2. Que ele se dispôs a executar a ordem de Deus com fé, como afirmou o apóstolo Paulo, de que Deus ressuscitaria seu filho dentre os mortos. Toda a ocorrência foi extraordinária e, por isso, não pode ser julgada pelas regras comuns; e só se poderia objetar a ela com justiça se tivesse sido narrada de modo a encorajar sacrifícios humanos. Aqui, porém, há salvaguardas suficientes: foi dada uma ordem divina indubitável; o sacrifício foi impedido pela mesma autoridade; e a história se encontra num livro que apresenta os sacrifícios humanos como abominação a Deus.
Algumas partes das Escrituras foram acusadas de indelicadeza e falta de pudor. Essa objeção tem em si algo que indica malignidade, mais do que uma crítica honesta e de princípios, pois em nenhum caso se faz qualquer declaração com o fim de incitar à impureza; e nada, em toda a Escritura, é apresentado como mais ofensivo a Deus, nem como mais certamente excludente do reino dos céus, do que a satisfação ilícita dos sentidos. Deve-se notar também que muitas das passagens contestadas estão nas leis e nas proibições de ambos os Testamentos; e com igual razão se poderiam repreender o direito escrito e o direito consuetudinário deste país e apresentá-los como tendentes a encorajar vícios de vários tipos, porque eles precisam descrevê-los com maior ou menor riqueza de pormenores. Devemos levar em conta, além disso, a simplicidade de costumes e de linguagem dos tempos antigos. Observamos, mesmo entre os camponeses dos Estados modernos, uma linguagem sobre os assuntos mencionados que é mais direta e que a sociedade refinada chamaria de grosseira; mas daí não se segue necessariamente maior indelicadeza real. Poderiam apontar-se países e classes de pessoas em que a linguagem que exprime a satisfação sensual tem mais cautela e mais rodeios, ao passo que os fatos conhecidos mostram que sua moral é extremamente corrompida.
Várias objeções levantadas contra personagens e ações dos livros de Juízes, Samuel e Reis dissipam-se com esta única consideração: onde essas ações são evidentemente imorais ou injustificáveis, nunca são aprovadas, mas apenas relatadas como fatos da história. A conduta de Eúde, de Sansão e de Jefté pode ser dada como exemplo.
O conselho de Davi em seu leito de morte a respeito de Joabe e de Simei foi atribuído a seu ressentimento pessoal. Não é esse o fato. Ele falou em seu caráter de rei e magistrado e deu seu conselho por razões públicas, ao entregar o reino a seu filho.
Também a conduta de Davi para com os amonitas, ao colocá-los “debaixo de serras e de grades de ferro” (2Sm 12.31), foi objeto de severa censura. Mas a expressão não significa mais do que ele os empregou em trabalhos pesados, como serrar, fazer grades de ferro, cortar lenha e fabricar tijolos, pois o prefixo hebraico significa tanto “a” quanto “debaixo de”. “Ele os pôs a serras e grades de ferro (alguns traduzem ‘minas de ferro’) e a machados de ferro, e os fez passar pelo forno de tijolos.” [N. do T.: Watson discute a redação da versão inglesa (under saws); a NAA já traduz no sentido que ele defende: “os fez trabalhar com serras, picaretas, machados de ferro e em fornos de tijolos”.]
Quanto às imprecações encontradas em muitas partes das Escrituras, que têm sido apresentadas como expressões de vingança e malícia, observou-se muitas vezes, e de modo satisfatório, que são predições e não anátemas, pois, segundo o idiotismo hebraico, o modo imperativo é usado em lugar do tempo futuro.
Esses exemplos foram apresentados como amostras das objeções levantadas pelos escritores incrédulos contra as Escrituras e da facilidade com que podem ser enfrentadas. Para outras de natureza semelhante, e para as respostas às objeções baseadas em supostas contradições entre diferentes passagens das Escrituras, é preciso remeter aos comentaristas.1 Com respeito a todas elas, observou-se com acerto “que um pouco de perícia nas línguas originais das Escrituras, em seus idiotismos e propriedades, e nos tempos, ocasiões e propósitos dos diversos livros, assim como nas antiguidades e costumes dos países que foram o cenário dos acontecimentos registrados, sempre esclarecerá as principais dificuldades”.
A algumas outras objeções de caráter filosófico, por terem aspecto mais imponente, as respostas podem ser mais extensas.
Entre a filosofia natural e a revelação, entre o livro da natureza e o livro de Deus, tem sido prática favorita dos descrentes estabelecer um contraste e opor a clareza e o caráter não contraditório de um aos mistérios e às dificuldades do outro. O fundamento comum sobre o qual repousam todas essas objeções é a relutância em admitir como verdade, e em receber como doutrina estabelecida e autorizada, o que é incompreensível. Sustentam que, se foi feita uma revelação, não pode haver mistério nela, pois isso seria uma contradição; e que, se se considerar que os mistérios, isto é, as coisas incompreensíveis, fazem parte dela, isso é fatal para suas pretensões de ser revelação. O sofisma é fácil de responder. Muitas doutrinas e muitos deveres são bastante compreensíveis; não envolvem mistério algum. E, quanto aos assuntos incompreensíveis, nada é mais indubitável, como já mostramos, do que um fato poder ser objeto de revelação, como o de que Deus é eterno e onipresente, e ainda assim continuar misterioso e incompreensível. O fato em si não está escondido, nem expresso em linguagem ou símbolo tão equívoco que torne o sentido difícil, único sentido em que o argumento poderia ser válido. Como fato, está claramente revelado que esses são atributos da natureza divina; mas ambos, apesar dessa revelação clara e indubitável, continuam incompreensíveis. Não está revelado como Deus é eterno e onipresente, nem se pretende tal revelação; mas está revelado que ele é assim. Não está revelado como uma trindade de pessoas existe em unidade de essência, mas que tal é o modo da existência divina. Se, porém, os homens hesitam em admitir assuntos incompreensíveis como matéria de fé, não se lhes pode permitir que fujam da revelação para a filosofia em busca de alívio, e muito menos que proclamem a superioridade da filosofia sobre as Sagradas Escrituras quanto à clareza da manifestação. Também ali se verá que o mistério e a revelação andam inseparavelmente juntos; que quem não admite o mistério não pode ter o benefício da revelação; e que quem aceita a revelação dos fatos abraça ao mesmo tempo o mistério de suas causas. Os fatos, por exemplo, da atração da gravitação, da coesão, da eletricidade, do magnetismo, do congelamento, do degelo e da evaporação são todos admitidos. A filosofia experimental e indutiva dos tempos modernos fez muitas revelações acerca das relações desses fenômenos e, em alguns casos, de suas causas próximas; mas as causas reais permanecem todas, como se confessa, ocultas. Com respeito à mecânica, diz um escritor que dedicou a vida aos estudos filosóficos (dr. Gregory, Letters on the Christian Religion): “Essa ciência trata da força, da matéria, do tempo, do movimento e do espaço; cada um deles ocasionou as mais elaboradas disquisições e as mais violentas disputas. Pergunte-se: que é a força? Se quem responde for imparcial, sua resposta será: ‘Não sei dizer de modo que satisfaça a todo indagador, ou de modo que penetre na essência da coisa.’ E ainda: que é a matéria? ‘Não sei dizer.’ Que é o movimento? ‘Não sei dizer’; e assim com o resto. O fato da comunicação do movimento de um corpo a outro é tão inexplicável quanto a comunicação das influências divinas. Como, então, se pode admitir o primeiro sem constrangimento, enquanto se nega o segundo unicamente com base em sua incompreensibilidade?
“Mas talvez me digam que, embora ocorram coisas incompreensíveis em nossas investigações físicas e mistas, elas não têm lugar na ‘matemática pura, onde tudo é não só demonstrável, mas inteligível’. Essa também é uma afirmação que não posso admitir, e peço licença para apresentar minhas razões para negá-la, pois isso, segundo creio, favorecerá ainda mais meu argumento geral. Ora, como se sabe, os geômetras podem demonstrar que há curvas que se aproximam continuamente de alguma linha reta fixa, sem possibilidade de jamais encontrá-la. Tais são, por exemplo, as hipérboles, que se aproximam continuamente de suas assíntotas, mas não podem de modo algum encontrá-las, a não ser que um espaço finito determinável possa tornar-se igual a nada. Tais são também as conchoides, que se aproximam continuamente de suas diretrizes, mas nunca podem encontrá-las, a não ser que certo ponto possa estar ao mesmo tempo além de uma linha dada e em contato com ela. Os matemáticos podem demonstrar também que um espaço infinito num sentido pode, por sua rotação, gerar um sólido de capacidade finita, como acontece com o sólido formado pela rotação de uma curva logarítmica de comprimento infinito em torno de seu eixo, ou com o formado pela rotação de uma hipérbole apoloniana em torno de sua assíntota. Podem mostrar ainda, em numerosos casos, que um espaço variável pode estar aumentando continuamente e, no entanto, nunca se tornar igual a certa quantidade finita; e frequentemente fazem transformações com grande facilidade e elegância por meio de expressões às quais não se pode associar nenhuma ideia definida. Podemos, por exemplo, ter alguma compreensão clara, ou mesmo alguma noção, do valor de uma potência cujo expoente é uma quantidade reconhecidamente imaginária, como x elevado a √-1? Podemos, do mesmo modo, ter alguma ideia distinta de uma série constituída de um número infinito de termos? Em cada caso, estou convencido, a resposta tem de ser negativa. No entanto, a ciência em que ocorrem esses e numerosos outros incompreensíveis chama-se Mathesis, A DISCIPLINA, por causa de sua incomparável superioridade sobre outros estudos em evidência e certeza e, portanto, de sua singular aptidão para disciplinar a mente. Como acontece, então, que, quando a investigação se volta para objetos que não podem ser compreendidos, a mente chega a algo em que descansa com certeza e se dá por satisfeita? Não é, evidentemente, porque tenhamos percepção distinta da natureza dos objetos da investigação (pois isso fica excluído pela hipótese e, de fato, pela exposição anterior), mas porque temos percepção distinta da relação que esses objetos guardam entre si e podemos determinar positivamente, sem perigo de erro, a relação exata, quanto à identidade ou à diversidade, das quantidades que temos diante de nós a cada passo do processo.”
A astronomia moderna mostrou a imensa extensão do universo e, por raciocínio analógico, tornou ao menos provável que os planetas do nosso e de outros sistemas sejam habitados por seres racionais e morais como nós. A partir dessas premissas, a filosofia incrédula argumentou, com aparente humildade, a favor da insignificância da raça humana e da improbabilidade de que uma pessoa divina tenha sido enviada a este mundo para sua instrução e salvação, quando ele, em comparação com o sistema solar, não passa de um ponto, e esse próprio sistema, em comparação com o universo, talvez não seja mais do que isso.
Por plausível que isso pareça, nada pode ter menos peso, mesmo que se leve em conta apenas a filosofia do caso, e não a teologia. A intenção com que se compara assim o homem com o universo é provar sua insignificância; e a comparação tem de ser feita ou entre o homem e a vastidão da matéria planetária e estelar, ou entre o número dos seres humanos e o número dos supostos habitantes dos planetas. Se for a primeira, podemos responder com o dr. Beattie: “A grande extensão é algo tão impressionante para nossa imaginação que às vezes, num momento de esquecimento, somos levados a pensar que nada pode ser importante senão o que tem vasta grandeza corpórea. E, no entanto, mesmo para nossa compreensão, quando queremos ser racionais, quanto mais sublime e interessante é uma mente como a de Newton do que a força pesada e a estupidez brutal de um monstro como o Polifemo que os poetas descrevem! Quem, se pudesse, hesitaria em destruir uma baleia para salvar uma criança? Mais ainda: comparada com a felicidade de uma única mente imortal, a maior acumulação imaginável de substância inanimada há de parecer coisa insignificante. ‘Se considerarmos’, diz Bentley, ‘a dignidade de um ser inteligente e a pusermos na balança contra a matéria bruta e inanimada, podemos afirmar, sem supervalorizar a natureza humana, que a alma de um único homem virtuoso tem mais valor e excelência do que o sol e seus planetas e todas as estrelas do mundo.’ Não façamos, pois, do volume o padrão do valor, nem julguemos a importância do homem pelo peso de seu corpo, ou pelo tamanho ou pela posição do planeta que é agora sua morada.”
No mesmo sentido, um escritor engenhoso e perspicaz comenta uma passagem de Saussure (Voyages dans les Alpes), que fala dos homens na linguagem da filosofia moderna como “os pequenos seres que rastejam sobre a superfície da terra” e que se reduzem a nada, tanto no “espaço” quanto no “tempo”, em comparação com as vastas montanhas e “as grandes épocas da natureza”. “Se”, diz o sr. Granville Penn (Comparative Estimate of the Mineral and Mosaic Geologies), “há algum sentido ou valor nessa reflexão, ele deve consistir em avaliar devidamente a importância relativa das duas grandezas e durações e em concluir logicamente a insignificância comparativa da menor. E então se seguirá necessariamente que a insignificância da menor diminuiria na mesma proporção em que ela aumentasse de volume. Se, portanto, os pequenos seres fossem ampliados nas proporções de 2, 3, 4 etc., sua insignificância em relação aos grandes acidentes do globo diminuiria necessariamente na mesma razão. Quanto menor a desproporção entre o homem e a montanha, menor seria a insignificância relativa do primeiro; e, por mais insignificante que fosse o aumento de grandeza do objeto menor, se é positivo e real, sua dignidade deve aumentar proporcionalmente na verdadeira natureza das coisas: quanto maior o ser que rasteja na superfície deste globo, menos absurda seria a suposição de que ele é o objeto final desta criação terrestre. O gigante irlandês, portanto, cuja altura passava de oito pés, superaria em dignidade relativa, na mesma proporção, Bacon e Newton, cuja estatura não chegava a seis pés. Se isso é absurdo, então também deve ser absurdo aquilo de que isso é a conclusão legítima, a saber, que as grandezas materiais dos pequenos seres, ou sua duração sobre a terra em que ‘rastejam’, determinam de algum modo sua importância na criação em relação às montanhas primordiais que se erguem acima dela, ou à extensão das regiões que se podem avistar de seus cumes. Pois, se esses mesmos seres fisicamente pequenos possuem outra grandeza, que pode ser referida a outra escala de cálculo, diferente da escala da grandeza física ou material, uma escala que supera infinitamente em importância as maiores medidas daquela grandeza, então não haverá nada de espantoso ou irracional nas suposições de que as montanhas mais altas, as regiões mais vastas e todo o sistema a que elas pertencem podem estar a serviço dos fins desses seres e daquele outro sistema a que eles pertencem, o qual se verá assim superior em importância ao primeiro. Tal é a escala pela qual se deve medir a natureza inteligente, moral e imortal do HOMEM, e que o historiador sagrado chama de formação ‘à imagem e semelhança de DEUS’, escala tão pouco levada em conta pela ciência da física pura. Mas, assim que essa escala moral de grandeza substitui a escala física na apreensão da mente; assim que a mente percebe que a duração dessa natureza moral e inteligente excede infinitamente a mais vasta ‘época da natureza’ que a imaginação da geologia mineral consegue representar para si; e que, embora a natureza física do homem esteja limitada a uma medida de tempo muito pequena, sua natureza moral é ilimitada no tempo e sobreviverá a todas as montanhas do globo, então ela percebe, no mesmo instante, a qualidade falsificada da reflexão que a princípio parecia tão sublime e tão humilde, tão profunda e tão devota. A sublimidade e a humildade revelam-se como depreciação e degradação de nossa natureza; a profundidade se mostra mera superfície, e a devoção, um retrocesso diante da luz da revelação.”
Se, então, a comparação do homem com a mera grandeza material não sustenta esse esforço de degradá-lo e de envergonhá-lo até que abandone sua confiança na bondade amorosa de seu Deus; se a comparação se faz entre coisas que não têm relações em comum e é, portanto, absurda, tampouco servirá a essa tentativa antinatural de rebaixar o homem à categoria de inseto e de inspirar-lhe sentimentos de réptil o concluir sua insignificância a partir do número de outros seres. Pois é evidente que o número deles não altera seu caráter real: ele continua imortal, ainda que miríades além dele sejam imortais, e continua tendo sua profunda capacidade de prazer e de dor. A menos, portanto, que se pudesse provar que o cuidado de Deus por cada um deve diminuir à medida que aumenta o número de suas criaturas, não há, como disse o sr. Penn, nem “sentido nem valor” em tais reflexões sobre a pequenez do homem; e elas implicam, na verdade, uma reflexão baixa e indigna sobre o próprio Criador supremo, como se ele não pudesse conceder a todos os seres que fez um cuidado e um amor adequados às suas circunstâncias. O que o homem é em relação a Deus só se pode inferir dos procedimentos divinos para com ele; e estes bastam para provocar as exclamações devotas do salmista: “Que é o homem, para que dele te lembres? E o filho do homem, para que o visites?” (Sl 8.4). Que ele não só foi feito por Deus, mas é governado por sua providência, ninguém senão os ateus negará; mas qualquer argumento tirado de premissas como as acima concluiria contra a providência com a mesma força com que se pode fazê-lo concluir contra a redenção. “Nosso Salvador”, diz o dr. Beattie, “como que para prevenir objeções dessa natureza, exprime de modo muito enfático o cuidado vigilante da Providência quando ensina que é Deus quem veste a erva do campo, que sem ele nenhum pardal cai em terra e que até os cabelos de nossa cabeça estão contados. E isso não é exagero; ao contrário, se Deus é onisciente e todo-poderoso, tem de ser literalmente verdadeiro. Por uma estupenda abundância de produção animal, vegetal e mineral, e por um aparato ainda mais estupendo (se isso fosse possível) para a distribuição da luz e do calor, ele fornece os meios de vida e de conforto aos habitantes de vida breve deste globo. Pode então parecer incrível, ou melhor, não torna essa consideração altamente provável, que ele tenha preparado também os meios de felicidade eterna para seres que formou para uma duração eterna, que dotou de faculdades tão nobres como as da alma humana e para cuja acomodação, principalmente, durante seu estado presente de prova, providenciou toda a magnificência deste mundo sublunar?”
Há, porém, outra consideração que confere uma grandeza sublime e esmagadora à visão bíblica da redenção da raça humana, e da qual os filósofos incrédulos, por falta de familiaridade com nossos escritos sagrados, parecem nunca ter tido a menor ideia. É a ligação moral deste mundo com todo o universo das criaturas inteligentes, e a “intenção” que havia na mente divina de transmitir a outros seres, por meio da história e dos grandes resultados de seu governo moral sobre um ramo de sua família universal, uma visão de suas próprias perfeições; dos deveres e perigos dos seres criados e finitos; da transgressão e da santidade, em seus princípios e em seus efeitos, por meio de um curso de ação muito mais influente do que a verdade abstrata. Indícios dessa visão grandiosa e impressionante encontram-se em várias passagens do Novo Testamento, e ela descortina um cenário de inconcebível magnificência moral: “para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida dos principados e das potestades nas regiões celestiais” (Ef 3.10).2
Objetou-se à cronologia mosaica que ela fixa a época da criação apenas cerca de quatro mil anos antes da era cristã; e contra isso se apresentaram provas tiradas de duas fontes: a cronologia de certas nações antigas e a estrutura da terra.
As objeções tiradas da primeira dessas fontes enfraqueceram-se rapidamente nos últimos tempos e, de fato, foram abandonadas por muitos cuja deferência à autoridade das Escrituras é muito pequena, embora poucos anos atrás nada fosse alegado com mais confiança pelos escritores céticos do que a refutação de Moisés pelas cronologias chinesa, hindu e egípcia, fundadas, como então se dizia, em observações astronômicas muito antigas conservadas até hoje. Agora, porém, está claramente provado que as tabelas astronômicas com base nas quais se tentou atribuir uma antiguidade prodigiosa aos hindus foram calculadas retroativamente (Cuvier, Theory of the Earth); e, entre os chineses, a mais antiga observação astronômica que parece apoiar-se em bons fundamentos revela-se agora como feita há não mais de dois mil e novecentos anos (Cuvier, Theory of the Earth). Quanto à conclusão tirada dos supostos zodíacos dos templos de Esna e Dendera, no Egito, há agora fortes dúvidas sobre se as figuras neles representadas são astronômicas ou mitológicas, isto é, se são de fato zodíacos. O caráter astronômico delas é firmemente negado pelo dr. Richardson, viajante recente, que as examinou com grande cuidado e apresenta amplas razões para sua opinião. Mesmo que se admita o caráter astronômico desses supostos zodíacos, verifica-se que nada provam. O sr. Biot, eminente matemático francês, fixou recentemente a data do mais antigo deles em apenas setecentos e dezesseis anos antes de Cristo.
Contra a antiguidade excessiva atribuída a alguns Estados antigos, ou reivindicada por eles, a ciência da geologia acabou por apresentar seu protesto; e, embora, como veremos logo adiante, ela tenha dado origem a objeções cronológicas contra a data mosaica da criação, quanto à origem das nações fez plena concessão à história das Escrituras. Cuvier observa: “Por uma investigação cuidadosa do que se passou na superfície do globo desde que ela ficou seca pela última vez e seus continentes assumiram sua forma atual, ao menos nas partes um tanto elevadas acima do nível do oceano, pode-se ver claramente que essa revolução, e por consequência o estabelecimento de nossas sociedades atuais, não pode ter sido muito antiga.” (Theory of the Earth.) D’Aubuisson observa “que os solos de todas as planícies foram depositados no seio de uma água tranquila; que sua ordem atual só pode ser datada a partir da retirada dessa água; e que a data desse período não é muito antiga” (Traité de Géognosie). “Dolomieu, Saussure, De Luc e os mais distintos naturalistas da época coincidiram nessa conclusão, à qual foram levados pela prova de vários monumentos e cronômetros naturais que a terra exibe, e que permanecem como garantias perpétuas da veracidade da cronologia mosaica quanto à época da revolução que a história mosaica relata.”3
Pela ausência de qualquer prova em contrário nos registros das nações antigas, assim como por essas conclusões filosóficas, que devem ser consideradas concessões feitas à cronologia do Pentateuco, podemos, portanto, concluir que, quanto à origem das nações e ao período do dilúvio universal, o testemunho das Escrituras permanece inabalado.
A geologia, porém, fez objeção à data mosaica da criação da terra, a qual, diz-se, oferece um período limitado demais para explicar vários fenômenos que as pesquisas modernas trouxeram à consideração. Admite-se que à última inundação geral da terra não se pode atribuir data mais remota do que a que Moisés atribui ao dilúvio de Noé; mas sustenta-se a ocorrência de várias revoluções, cada uma das quais mudou a superfície da terra, separadas entre si por longos intervalos de tempo. E, acima de tudo, supõe-se que os elementos das terras primitivas estavam contidos num “fluido caótico original” e que, obedecendo às leis da afinidade de composição, se uniram e se agruparam de diferentes maneiras e se puseram em ordem, segundo certas leis da matéria, depois de uma série indeterminável de eras. Essas são as opiniões de Cuvier, D’Aubuisson, De Luc e outros escritores eminentes sobre o assunto; e, qualquer que fosse a intenção deles próprios, elas foram usadas pelos incrédulos para desacreditar a autoridade do historiador sagrado. Respondeu-se que, não tendo a Bíblia o propósito de ensinar filosofia, não é justo julgá-la por um padrão filosófico. Isso, porém, não se pode sustentar no caso que temos diante de nós, embora a observação seja pertinente em outros, como quando se diz que o sol parou, caso em que se adota a linguagem popular para tornar as Escrituras inteligíveis. Se Moisés declara dar, por inspiração divina, um relato do modo como o mundo foi formado, ele deve descrever os fatos tal como ocorreram; e, se atribuiu uma data à criação do mundo a partir do nada, essa data, se dada por uma autoridade infalível, não pode ser contradita pela verdadeira filosofia.
Para dar tempo suficiente aos processos graduais de “precipitação e cristalização” pelos quais, segundo se diz, se efetuaram as primeiras formações da terra sólida, outros concederam aos geólogos dessa classe que se pode admitir uma antiguidade da terra muito maior do que a que aparece à primeira vista no relato mosaico, sem contradizê-lo, e até deduzi-la dele. Interpretam, por isso, os “dias” mencionados no primeiro capítulo de Gênesis como períodos sucessivos de eras, e a tarde e a manhã desses dias se tornam os começos e os fins desses períodos imaginários.4 Essa interpretação, porém, é forçada demais para ser admitida no caso de uma narrativa tão simples como a de Moisés; e haveria igual razão para estender assim a duração do termo “dia”, sempre que ocorre em seus escritos, a um período indefinido, com a destruição de toda exatidão cronológica e de toda sobriedade de escrita. Nenhum verdadeiro amigo da revelação desejará ver Moisés defendido contra os ataques da filosofia de um modo que, obrigando-nos a achar em seus escritos um sentido muito distante da visão dos leitores comuns, os tornaria inaplicáveis ao propósito da instrução ordinária. Além disso, se devemos entender que o primeiro dia teve duração indefinida, cem, mil ou um milhão de anos, por exemplo, por que não também o sétimo, o sábado? Essa opinião não pode, portanto, ser sustentada com coerência, e devemos concluir com Rosenmüller: Dies intelligendi sunt naturales, quorum unusquisque ab una vespera incipiens, altera terminatur; quo modo Judaei, et multi alii antiquissimi populi, dies numerarunt, isto é, devemos entender dias naturais, cada um dos quais, começando numa tarde, termina na seguinte, maneira pela qual os judeus e muitos outros dos povos mais antigos contavam os dias.
Outros crentes na revelação, que deixaram passar sem questionamento os dois princípios estabelecidos pelos geólogos, a saber, a liquidez original da terra, que mantinha em solução os elementos de todas as formações posteriores, e a necessidade de um longo curso de eras para completar os processos pelos quais a terra seria posta em estado adequado, por assim dizer, para a obra dos seis dias (obra que, nesse caso, deve limitar-se a mero ordenamento), adotaram outra interpretação de Moisés, certamente menos objetável do que a que faz de seus dias e noites naturais termos para períodos indefinidos de tempo. “Diz Moisés em algum lugar que, quando Deus criou os céus e a terra, fez, no tempo a que se alude, mais do que transformá-los a partir de materiais previamente existentes? Ou diz ele em algum lugar que não houve um intervalo de muitas eras entre o primeiro ato de criação, descrito no primeiro versículo do livro de Gênesis e que se diz ter sido realizado no princípio, e as operações mais pormenorizadas cujo relato começa no segundo versículo e que nos são descritas como realizadas em tantos dias? Ou, por fim, dá-nos ele a entender em algum lugar que as genealogias do homem iam além de fixar a antiguidade da espécie e que, por consequência, deixavam a antiguidade do globo como assunto livre para as especulações dos filósofos? Não nos responsabilizamos pela verdade de uma ou de todas essas suposições, nem é necessário que o façamos. Basta que qualquer delas seja infinitamente mais racional do que a rejeição do cristianismo diante de sua prova histórica.” (Chalmers, Evidences of the Christian Revelation.) “Quanto ao período em que essa massa foi feita, Moisés diz apenas que foi ‘no princípio’, período que pode ter sido um milhão de anos antes de seu ordenamento.” (Mantell, Geology of Sussex.)
A todas essas suposições, embora não lhes falte o apoio da autoridade de alguns grandes críticos, há objeções consideráveis; e, mesmo que a dificuldade de conciliar os fenômenos geológicos com a cronologia mosaica fosse maior do que parece, nenhuma delas deveria ser admitida às pressas. Que a criação, no primeiro versículo de Gênesis, significa produção a partir do nada, e não a partir de matéria preexistente, embora a palavra original possa ser usada nos dois sentidos, é estabelecido como matéria de fé pelo apóstolo Paulo, que nos diz que “as coisas que se veem não foram feitas de coisas que aparecem” (Hb 11.3) [N. do T.: a NAA traz “o visível veio a existir das coisas que não são visíveis”; o argumento segue a redação da versão inglesa], μὴ ἐκ φαινομένων τὰ βλεπόμενα γεγονέναι, o que basta para resolver esse ponto. Pela mesma importante passagem fica também determinado que “os mundos foram produzidos instantaneamente a partir do nada, tanto em sua forma quanto em sua substância; do contrário, não seria verdade que não foram feitos de coisas visíveis”. “O apóstolo declara que essas coisas não foram feitas a partir de uma matéria preexistente; pois, se o fossem, essa matéria, por mais que fosse estendida ou modificada, teria de aparecer na coisa em que foi composta e modificada; portanto, não se poderia dizer que as coisas que se veem não foram feitas de coisas que aparecem. E ele nos mostra também, por essas palavras, que a presente estrutura do mundo não foi formada nem reformada a partir de outra anterior, como alguns supõem.” (Dr. A. Clarke, in loc.) No relato da criação feito por Moisés não se admite nenhum intervalo de tempo entre o criar e o formar dos mundos (isto é, simplesmente os céus e a terra), criados e formados de uma só vez pela palavra de Deus. Assim se preserva também o sentido natural da expressão “no princípio”. Lançada, por assim dizer, na eternidade, sem referência ao tempo, ela não tem sentido algum, ou no máximo um sentido muito obscuro; mas, ligada ao tempo, ao começo de nossa cronologia terrena, tem um sentido definido e evidente. Moisés começa sua contagem a partir do primeiro ato criador, da criação dos “céus e a terra”, que foi, portanto, parte da obra do primeiro dia natural. “No primeiro desses dias naturais, toda a estrutura mineral deste globo foi formada de uma só vez, com o tamanho e a figura, com as propriedades, com as proporções em relação ao espaço e com a disposição de seus materiais que mais conduziam aos fins para os quais Deus a criou.”5
Observar-se-á agora que, se tais interpretações do relato mosaico não podem ser admitidas, as decisões das Escrituras e algumas das especulações modernas da geologia ficam em oposição direta umas às outras, e sua hostilidade nesse ponto não pode ser atenuada pelos defensores da acomodação. Por esse motivo, o crente não precisa alarmar-se, pois “não há […] conselho contra o Senhor” (Pv 21.30); e o progresso da verdadeira filosofia sempre, no resultado final, acrescentará provas à verdade da revelação. Quanto à antiguidade da raça humana, a geologia já foi obrigada a dar seu testemunho da exatidão de Moisés, e provavelmente não está longe o tempo em que se extrairá dela testemunho semelhante quanto à antiguidade do globo.
Naquilo em que a geologia agora se opõe a essa autoridade, pode servir para repreender o dogmatismo com que ela tem contestado as Escrituras observar que, estritamente falando, a própria ciência ainda não tem meio século de existência e trata não só da superfície da terra, mas de seus estratos interiores, que até agora só foram examinados em parte. É, portanto, cedo demais para teorizar com tanta confiança; e o modo ávido com que suas especulações apressadas foram adotadas contra o relato mosaico só pode lembrar aos homens que pensam o modo igualmente ávido com que outrora se agarraram às cronologias da China e do Industão e aos supostos zodíacos dos templos egípcios, pela mesma razão e, podemos justamente temer, pelos mesmos motivos. Será tempo suficiente, na verdade, para empreender uma defesa formal de Moisés quando os geólogos concordarem entre si quanto aos princípios fundamentais. Cuvier dá um relato bastante divertido das especulações estranhas e contraditórias de seus irmãos cientistas (Theory, ed. Jamieson, p. 41-47), todas as quais ele naturalmente condena, julgando-se a si mesmo, como todos eles se julgaram antes dele, um teórico bem-sucedido. A veemência com que as duas grandes seitas geológicas rivais, a netunista e a plutonista, disputaram entre si, num grau quase sem precedentes na era moderna da filosofia, acrescenta pouca autoridade às decisões de qualquer delas, visto que a disputa se funda num suposto conhecimento dos fatos e, portanto, mostra que os próprios fatos só são apreendidos de modo indistinto em suas relações mútuas e que o conjunto dos fenômenos de ambos os lados ainda precisa ser ordenado e sistematizado sob a orientação de alguma mente serena, modesta e magistral.6
Em todas essas especulações nota-se que se supõe de imediato que a filosofia e o relato mosaico são incompatíveis, e em geral sem que se tenha tomado o cuidado de entender o próprio relato. No entanto, como esse relato declara provir daquele que foi ao mesmo tempo o autor e a testemunha dos fenômenos em questão, seria de supor que se recorreria de bom grado ao auxílio do testemunho junto com a indução. Publicou-se recentemente uma obra competente sobre esse assunto, do sr. Granville Penn, que ao mesmo tempo repreendeu a filosofia ousada que exclui a ação de Deus e se ocupa apenas das causas segundas e expôs o relato mosaico de duas grandes revoluções da terra, uma das quais ocorreu quando “as águas se ajuntaram num só lugar” (Gn 1.9), e a outra no dilúvio, quando “romperam-se todas as fontes do grande abismo” (Gn 7.11);7 e as aplicou para explicar aqueles fenômenos que se pretendeu exigirem uma teoria inconciliável com o historiador sagrado.8
Voltaire objetou à filosofia do relato mosaico que ele apresenta a formação de um firmamento sólido, no qual as estrelas estão fixas como numa muralha de diamante. Essa objeção foi feita na ignorância do sentido da palavra original, traduzida por firmamentum na Vulgata, que significa uma expansão e se refere evidentemente à atmosfera. A Septuaginta parece ter traduzido רקיע (raqia) por στερέωμα (stereōma), que significa um apoio firme, com referência à função da atmosfera de sustentar, tão eficazmente como por algum apoio sólido, as águas contidas nas nuvens. O relato de Moisés é filosoficamente verdadeiro: a atmosfera expandida ou difusa faz “separação entre águas e águas” (Gn 1.6), entre as águas das nuvens e as águas da terra e do mar; e a objeção só mostra ignorância da língua original ou desatenção a ela.
É mais difícil explicar a parte do relato mosaico que apresenta a luz como criada no primeiro dia, e o sol somente no quarto; seria cansativo expor as várias soluções que já foram propostas. Uma das mais recentes, a que supõe que se fala da criação do calor e da luz latentes, certamente não pode ser sustentada; pois a luz que no primeiro dia obedeceu à sublime ordem divina não estava latente, mas em estado de excitação, e reuniu-se num corpo suficiente para produzir a distinção entre dia e noite, o que não poderia ter acontecido se ela estivesse em estado latente ou difundida por toda parte em forma excitada. A dificuldade, porém, longe de desacreditar o relato mosaico, oferece-lhe uma notável confirmação. Se ele tivesse sido composto segundo as noções populares, jamais teria entrado na mente de um homem que tirasse toda a sua filosofia apenas das aparências ópticas da natureza que a luz, suficiente para formar a distinção entre dia e noite, tivesse sido criada independentemente do sol. A conclusão, portanto, é que o relato foi recebido por inspiração ou por uma tradição pura desde a sua fonte original, que correu até o tempo de Moisés sem se misturar com as corrupções populares.
“Sir William Herschel”, diz o sr. Granville Penn, “descobriu que o corpo do sol é uma substância opaca, e que a matéria esplêndida que distribui ao mundo luz e calor é uma atmosfera luminosa (Phil. Trans. de 1795, p. 46, e de 1801, p. 265) presa à sua superfície, de modo figurado, embora não físico, como a chama está presa ao pavio de uma lâmpada ou de uma tocha. Assim, a criação do sol, como parte do ‘exército dos céus’, não implica necessariamente a criação da luz; e, inversamente, a criação da luz não implica necessariamente a criação do corpo do sol. Na primeira criação ‘dos céus e da terra’, portanto, não só os orbes planetários, mas o próprio orbe solar foi criado nas trevas, à espera da luz que, por uma simples operação divina, seria comunicada de uma vez a todos. Quando, então, a Palavra todo-poderosa, ao ordenar a luz, ordenou a primeira iluminação da atmosfera solar, a sua luz nova foi imediatamente captada e refletida pelo espaço por todos os membros do sistema planetário. E bem podemos imaginar que, naquela primeira, súbita e magnífica iluminação do universo, as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus gritavam de alegria” (Jó 38.7).
Mas, se a descoberta de Herschel for verdadeira, a passagem que acabamos de citar supõe que o orbe solar foi revestido de sua atmosfera luminosa no primeiro dia, e a dificuldade em questão continua intocada, embora a passagem explique admiravelmente como “os céus”, isto é, o nosso sistema solar, puderam ser criados por um só ato e, ainda assim, exigir uma segunda ordem divina para serem revestidos de luz. Outra maneira de enfrentar a dificuldade é dizer que os luzeiros que, segundo o texto, foram feitos no quarto dia não foram de fato criados nesse dia, mas destinados a certos usos. Assim Rosenmüller: “Se alguém familiarizado com a índole do hebraico, e livre de qualquer preconceito anterior em seu juízo, ler as palavras deste artigo em sua conexão natural, perceberá imediatamente que elas significam a direção ou destinação dos corpos celestes a certos usos que deveriam prestar à terra. As palavras יהי מארת não devem ser separadas do restante, nem traduzidas por fiant luminaria, ‘façam-se luzeiros’, isto é, sejam produzidos luzeiros; mas antes por ‘sejam luzeiros’, isto é, sirvam na expansão do céu (inserviant in expanso coelorum) para fazer separação entre o dia e a noite; e sejam, ou sirvam, para sinais etc. Pois devemos observar que o verbo היה, ser, construído com o prefixo ל, para, é geralmente empregado para exprimir a direção ou destinação de uma coisa a um fim, e não a produção da coisa: por exemplo, Nm 10.31; Zc 8.19, e em muitos outros lugares.”
A isso se opõe uma objeção óbvia: essa explicação não atribui nenhuma obra, propriamente falando, ao quarto dia. E não se pode conceber como, sem que nesse dia lhes fosse dado o ser nem se efetuasse nenhuma mudança em suas qualidades ou relações, os luzeiros poderiam ser destinados a certos usos, a não ser pela informação dada aos homens sobre esses usos; e o homem ainda não tinha sido criado. O sr. Penn, de fato, supõe que os corpos celestes tinham estado ocultos da terra por vapores até o quarto dia; que então esses vapores foram dissipados pela primeira vez; e, como ele diz eloquentemente, “o assombroso calendário dos céus, ordenado para servir à marcação do tempo em todos os assuntos humanos, civis e religiosos, enquanto durassem o tempo e o homem, devia, portanto, ser então desdobrado pela primeira vez diante da terra, com todos os índices visíveis do tempo pelos quais as suas medidas seriam dali em diante marcadas, distinguidas e computadas; e a esplêndida causa, que até então havia produzido o seu efeito de luz através de um meio interposto, passaria a distribuir essa luz à terra imediatamente, na plena manifestação do seu fulgor”.
A noção de que a terra esteve, do primeiro ao quarto dia, envolta em vapor, de modo que, como numa neblina, a distinção entre dia e noite era manifesta, embora os orbes celestes não fossem visíveis, é porém uma suposição e não parece muito científica. E, embora a dispersão desses vapores da atmosfera atribua uma obra ao quarto dia, essa obra dificilmente parece ter importância suficiente para condizer com a linguagem da história. Seria melhor supor, com outros, que no quarto dia começou o movimento anual da terra, que até então apenas girava sobre o seu eixo, e com ele o movimento anual da lua e dos planetas em suas órbitas. Esse voo maravilhosamente rápido e, no entanto, regular dos corpos celestes exibe de modo tão imponente o poder do grande Artífice ao comunicar e alimentar constantemente o poderoso impulso, e é tão essencial à medida do tempo, que sem ele os “luzeiros” não poderiam existir, ou servir, “para sinais, para estações” e “para dias” solenes, festas religiosas e comemoração de acontecimentos importantes, e “para anos”. Atribui-se assim uma obra sublime ao quarto dia, e a dificuldade parece em grande parte removida. Mas ainda se pode duvidar se não se faz alguma violência à letra do relato; e a dificuldade, que, como vimos, se admitida em toda a sua força, prova mais a favor do relato mosaico do que contra ele, é melhor que seja mantida do que permitir que se perca um só iota do sentido estritamente gramatical e contextual da Escritura.
Várias objeções foram levantadas em diferentes épocas contra o relato mosaico do dilúvio. O fato, porém, não só se conserva nas tradições de todas as nações, como já vimos, mas, depois de todos os argumentos filosóficos que antes se alegavam contra ele, a filosofia acabou reconhecendo que a atual superfície da terra deve ter estado submersa debaixo das águas. “Não só em todas as regiões da Europa”, diz Kirwan, “mas também dos dois continentes, o antigo e o novo, foram descobertas imensas quantidades de conchas marinhas, dispersas ou reunidas. Esse e vários outros fatos parecem provar que pelo menos grande parte da terra atual foi, antes da última convulsão geral a que foi submetida, o leito de um oceano que, naquele tempo, se retirou dela. Outros fatos parecem provar também com suficiente evidência que essa não foi uma retirada gradual das águas que outrora cobriam as regiões hoje habitadas pelos homens, mas uma retirada violenta, como se pode supor a partir do breve, mas enfático relato de Moisés. A ação violenta da água deixou os seus vestígios em vários fenômenos incontestáveis. Existem montanhas estratificadas de várias alturas em diferentes partes da Europa e dos dois continentes, em cujos estratos e entre eles repousam diversas substâncias de origem marinha, e alguns vegetais de origem terrestre, quer em seu estado natural, quer petrificados” (Kirwan, Geological Essays). “Para cobrir as planícies do círculo ártico com as conchas dos mares da Índia e com os corpos de elefantes e rinocerontes, cercados de massas de vegetação submarina; para acumular num único lugar, como em La Bolca, em confusão promíscua, as produções marinhas das quatro partes do globo, que instrumento concebível seria eficaz, senão o ímpeto de águas poderosas?” (Gisborne, Testimony of Natural Theology etc.). Esses fatos, sobre os quais não há disputa e que são reconhecidos pelos defensores de cada uma das teorias geológicas predominantes, dão atestação suficiente ao dilúvio de Noé, no qual “romperam-se todas as fontes do grande abismo” (Gn 7.11), e do qual se poderia esperar que se seguissem precisamente tais fenômenos. A isso se pode acrescentar, como prova menos decisiva, mas certamente forte como evidência presuntiva, que o próprio aspecto da superfície da terra exibe sinais interessantes tanto da ação violenta como da rápida baixa das águas, além de oferecer um exemplo interessantíssimo da bondade divina, que converteu o que era a própria ruína em utilidade e beleza. A grande armação da superfície variada da terra habitável foi provavelmente assentada por uma força mais poderosa que a da água: ou quando, no terceiro dia, as águas debaixo dos céus foram ajuntadas num só lugar e a crosta da terra primitiva foi rompida para recebê-las, a fim de que “aparecesse a porção seca” (Gn 1.9), ou por aquelas poderosas convulsões que parecem ter acompanhado o dilúvio universal. Mas o arredondamento, por assim dizer, do que era áspero, onde a substância cedia, e as graciosas ondulações de colinas e vales que frequentemente se apresentam, foram provavelmente efetuados pelas águas ao se retirarem. O dilúvio passou, mas os solos que ele depositou permanecem; e os vales pelos quais as suas últimas correntes foram escoadas para o oceano, com muitos redemoinhos e cursos sinuosos, ainda existem, exibindo provas visíveis de sua ação e marcados com formas tão adequadas ao benefício do homem, e muitas vezes tão agradáveis ao gosto mais refinado, que se pode dizer que, quando o dilúvio “se voltou”, “deixou uma bênção” atrás de si (cf. Jl 2.14).
Assim, as objeções outrora feitas ao fato de um dilúvio universal foram muito enfraquecidas pelo progresso do conhecimento científico e podem mesmo ser consideradas quase abandonadas, como a antiga noção da grande antiguidade da raça humana, fundada nas cronologias e pretensas histórias chinesas e egípcias. A filosofia chegou até a descobrir, por fim, que há água suficiente no oceano, se fosse convocada, para cobrir as montanhas mais altas até a altura indicada por Moisés, conclusão que antes negava obstinadamente. Keill calculou outrora que seriam necessários vinte e oito oceanos para esse fim, mas agora somos informados de “que um progresso maior no conhecimento matemático e físico mostrou que os diferentes mares e oceanos contêm pelo menos quarenta e oito vezes mais água do que então se supunha; e que a simples elevação da temperatura de toda a massa do oceano a um grau não maior do que aquele em que vivem os animais marinhos nos mares rasos entre os trópicos o dilataria tanto que produziria mais do que a altura acima das montanhas indicada no relato mosaico”. Quanto ao dilúvio de Noé, portanto, a incredulidade perdeu quase inteiramente o auxílio da filosofia para formular objeções contra as Escrituras.
As dimensões da arca e a preservação dos animais nela contidos ainda são, porém, objeto de zombaria ocasional, embora com pouco fundamento. O dr. Hales prova que a arca tinha a capacidade de 42.413 toneladas e pergunta: “Podemos duvidar de que ela fosse suficiente para conter oito pessoas e cerca de duzentos ou duzentos e cinquenta pares de quadrúpedes (número a que, segundo o sr. Buffon, podem ser reduzidas todas as várias espécies distintas), junto com todo o sustento necessário para um ano inteiro, com as aves do céu e os répteis e insetos que não podem viver debaixo d’água? Todos esses vários animais eram controlados pelo poder de Deus, cuja ação especial se supõe em toda a ocorrência, e ‘o leão foi levado a deitar-se com o cabrito’.”
Duvidou-se de que Noé tenha recebido ordem de levar consigo para a arca um par de todas as criaturas vivas, consideradas zoológica e numericamente. Como, durante o longo período entre a criação e o dilúvio, os animais devem ter-se espalhado por grande parte da terra antediluviana, e certos animais provavelmente se tornaram, como hoje, nativos de certos climas, os pares salvos teriam, nesses casos, de viajar distâncias imensas. A história não dá nenhuma indicação de tais marchas, e isso parece tornar provável que os animais que Noé devia “levar consigo” para a arca fossem os animais, puros e impuros, da região em que ele morava, os quais, pela evidente capacidade da arca, devem ter sido de grande variedade e número. É verdade que os termos usados são universais, e é satisfatório saber que, se forem tomados no seu sentido mais amplo, havia amplo espaço na arca. Contudo, os termos universais na Escritura nem sempre devem ser tomados matematicamente; e, na visão de Pedro, a expressão πάντα τὰ τετράποδα τῆς γῆς, “todos os quadrúpedes da terra”, deve ser entendida como varii generis quadrupedes (quadrúpedes de vários gêneros), conforme a paráfrase de Schleusner [N. do T.: a NAA traz “todo tipo de quadrúpedes” (At 10.12)]. Nesse caso podemos facilmente explicar os despojos de animais cujas espécies já não existem e que foram descobertos em vários lugares. O número dessas espécies extintas foi provavelmente muito exagerado por Cuvier, mas do fato, em grau considerável, não pode haver dúvida. Deve-se notar também que não somos obrigados a recorrer à interpretação restrita da ordem dada a Noé sobre os animais que seriam preservados na arca para explicar esse fato. Pois, sem adotar a teoria totalmente antibíblica de um mundo anterior, ou de revoluções da terra mais gerais do que as que as Escrituras relatam (revoluções parciais, que afetaram grandes regiões, podem ter ocorrido), não conhecemos nenhum princípio na palavra de Deus que nos leve a concluir que todos os animais que Deus criou no princípio devessem ser preservados até o fim dos tempos. Em muitos países, espécies inteiras de animais selvagens pereceram com o progresso do cultivo, processo que no fim deverá produzir a extinção total dessas mesmas espécies em toda parte. As funções que muitas outras criaturas foram destinadas a cumprir na economia da natureza podem ter terminado com as novas circunstâncias em que foram colocadas as regiões que elas principalmente habitavam. Assim pode ter sido antes do dilúvio, e em muitos lugares depois dele. Desse modo, é de esperar que apareçam os despojos de espécies extintas. Além disso, se supusermos que, durante os períodos antediluvianos, animais de vários tipos se tinham estabelecido em diferentes porções do oceano e em diferentes climas da terra primitiva, e que, dentre os animais terrestres nativos de partes da terra distantes de Noé e do mundo habitado, algumas espécies não foram recebidas na arca, os seus restos também serão ocasionalmente descobertos e apresentarão a prova de formas de existência animada que hoje não têm paralelo. Entre os restos fósseis, causou surpresa que nenhum esqueleto humano, ou só uns poucos, e esses em formações recentes, tenha sido encontrado. A razão, porém, não é difícil de dar. Se admitirmos que os continentes atuais eram o fundo do oceano antediluviano e que o oceano mudou de lugar, então as antigas habitações dos homens estão submersas e os seus restos estão fora do alcance humano. Se alguma parte da terra antediluviana ainda permanece, é provavelmente a região à qual Noé e sua família foram restituídos ao sair da arca; e nesses países a geologia ainda não começou as suas pesquisas no interior da terra, e tais restos fósseis podem existir ali. Há esta diferença entre a raça humana e os animais inferiores: enquanto estes, por cerca de dois mil anos, vagavam pela vasta terra, aquela se confinou a uma só região. Pois os cálculos extravagantes que alguns fizeram sobre a população da terra no tempo do dilúvio não podem ser sustentados pela autoridade da Escritura, na qual professam apoiar-se, uma vez que é certo que as Escrituras apresentam Noé como pregador da justiça a todo o “mundo” de homens então existente durante o tempo em que a arca era preparada, cento e vinte anos. A raça humana, portanto, por mais populosa que fosse, deve ter vivido na mesma região, e estado ou em comunicação pessoal com ele, ou ao alcance da notícia distinta de suas doutrinas e daquele grande e público ato de sua fé, a preparação da arca, pela qual “ele condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé” (Hb 11.7). Até Cuvier apresenta como razão para não se encontrarem esqueletos humanos em estado fóssil “que o lugar então habitado pelos homens pode ter afundado no abismo, e que os ossos daquela raça destruída podem ainda permanecer sepultados sob o fundo de alguns mares atuais”.
Tais são as principais provas da verdade da Santa Escritura e do sistema religioso que ela desdobra, desde a primeira promessa feita ao primeiro homem caído até a sua exposição completa no Novo Testamento. O cristão examinará esses fundamentos sólidos e inabaláveis de sua fé com alegria indizível. Eles não deixam sem provisão nenhum de seus interesses morais no tempo e põem diante dele uma imortalidade certa e feliz. O cético e o incrédulo podem ser rogados, por todo sentimento de compaixão, a considerar com mais seriedade as provas deste sistema divino, bem como as dificuldades e a falta de esperança do seu próprio sistema; e devem ser lembrados das palavras de um escritor moderno: “Se o cristianismo é verdadeiro, é tremendamente verdadeiro.” Voltem-se eles para um Salvador insultado, mas ainda assim misericordioso, que mesmo agora ora pelos que o blasfemam com as palavras que outrora dirigiu ao céu em favor dos que o matavam: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem! (Lc 23.34).
NOTA A.
Da obra mencionada no texto, os seguintes trechos serão lidos com interesse.
O sr. Penn primeiro contesta a noção dos geólogos que pensam que a terra era originalmente uma massa fluida. Como eles invocam a autoridade de Sir Isaac Newton, que teria concluído, a partir da forma da terra (um esferoide achatado), que ela era originalmente uma massa maleável, o sr. Penn mostra que Newton apresentou isso apenas como hipótese, e que declarou expressamente como sua convicção, não que houve primeiro um oceano caótico e depois um processo gradual de primeiras formações, mas que “Deus no princípio formou todas as coisas materiais com as figuras e propriedades que mais convinham ao fim para o qual as formou”; e que julgava pouco científico atribuí-las a qualquer causa mediata ou secundária, como leis da natureza operando num caos. O sr. Penn passa então a mostrar que, embora aquilo que os geólogos chamam de primeiras formações possa ter a aparência de ter sido produzido por um processo, digamos de cristalização ou qualquer outro, isso não prova que elas não tenham sido formadas pelo ato imediato de Deus, como nos ensinam as Escrituras. Ele confirma isso com exemplos das primeiras formações nos reinos animal e vegetal e sustenta que as primeiras formações do reino mineral devem cair sob a mesma regra. “Se um osso do primeiro homem criado ainda existisse e estivesse misturado com outros ossos pertencentes a uma raça gerada, e se fosse submetido à inspeção e ao exame de um anatomista, que opinião e que juízo os seus fenômenos perceptíveis sugeririam quanto ao modo de sua primeira formação, e qual seria a conclusão dele? Se ele não estivesse informado de sua verdadeira origem, sua mente não veria nos fenômenos perceptíveis senão as leis da ossificação; assim como a geologia mineral ‘nada vê nos pormenores da formação dos minerais senão precipitações, cristalizações e dissoluções’ (D’Aubuisson, i, 326-7). Ele naturalmente declararia, portanto, a respeito desse osso, como de todos os outros ossos, que as suas ‘fibras eram originalmente moles’, até que, no abrigo do ventre materno, ele adquiriu ‘a dureza de uma cartilagem e depois de osso’; que esse efeito ‘não foi produzido de uma vez, nem em muito pouco tempo’, mas ‘aos poucos’; e que, depois do nascimento, ele aumentou em dureza ‘pelo acréscimo contínuo de matéria ossificante, até deixar inteiramente de crescer’.
“Por mais fisicamente verdadeiro que esse raciocínio parecesse, seria, no entanto, moral e realmente falso. Por que seria falso? Porque concluiu, a partir de meros fenômenos perceptíveis, a certeza de um fato que não podia ser estabelecido apenas pela evidência de fenômenos perceptíveis, a saber, o modo da primeira formação da substância do osso criado.
“Passemos da matéria animal para a vegetal, e consideremos a primeira árvore criada, sob a qual o homem criado repousou pela primeira vez e da qual colheu o seu primeiro fruto. Essa árvore deve ter tido um caule, ou tronco, pelo qual a seiva era conduzida da raiz ao fruto, e pelo qual ela podia sustentar os ramos em que crescia o fruto.
“Se uma porção dessa árvore criada ainda existisse, e se uma seção de sua madeira estivesse misturada com outras seções de árvores propagadas e fosse submetida à inspeção e ao exame de um naturalista, que opinião e que juízo os seus fenômenos perceptíveis lhe sugeririam quanto ao modo de sua primeira formação, e qual seria a conclusão dele? Se ele não estivesse informado de sua verdadeira origem, sua mente não veria nos fenômenos perceptíveis senão as leis da lignificação; assim como o geólogo mineral ‘nada vê nos pormenores das formações da rocha primitiva senão precipitações, cristalizações e dissoluções’. Ele naturalmente declararia a respeito dela, portanto, como de todas as outras seções de madeira, que as suas ‘fibras’, quando saíram pela primeira vez da semente, ‘eram moles e herbáceas’; que ‘não passaram subitamente à dureza da madeira perfeita’, mas ‘depois de muitos anos’; que a dureza de suas camadas, ‘que indicam o crescimento de cada ano’, foi, portanto, produzida somente ‘aos poucos’; e que, ‘como a natureza nada faz senão por um curso progressivo, não é de surpreender que a sua substância só tenha adquirido a dureza pouco a pouco’.
“Por mais fisicamente verdadeiro que o naturalista aqui parecesse raciocinar, o seu raciocínio, como o do anatomista, seria moral e realmente falso. E por que seria falso? Pela mesma razão: porque concluiu, a partir de meros fenômenos perceptíveis, a certeza de um fato que não podia ser estabelecido apenas pela evidência de fenômenos perceptíveis, a saber, o modo da primeira formação da substância da madeira criada.
“Resta agora considerar apenas o terceiro, o reino mineral, deste sistema terrestre. E parece provável à razão e à filosofia, por evidência à primeira vista, que o princípio que determina o modo das primeiras formações em duas partes dessa divisão tríplice da matéria deve ter igual autoridade nesta terceira parte. E, de fato, depois da mais cuidadosa investigação do assunto, não conseguimos descobrir nenhum fundamento para supor que esta terceira parte esteja isenta da autoridade daquele princípio comum, ou que as ciências físicas sejam um pouco mais competentes para dogmatizar sobre o modo das primeiras formações, a partir apenas da evidência dos fenômenos, no reino mineral do que se mostraram ser no animal ou no vegetal; ou para afirmar, pelas indicações do primeiro, que o modo de suas primeiras formações foi mais gradual e lento que o dos outros dois.
“Ponhamos este ponto à prova prosseguindo com a nossa comparação: consideremos a primeira rocha criada, como consideramos o primeiro osso e a primeira madeira criados, e perguntemos: o que é a rocha em sua natureza e composição?
“A essa pergunta a mineralogia responde: ‘Pela palavra rocha entendemos toda massa mineral de tamanho tal que seja considerada parte essencial da estrutura do globo (D’Aubuisson, i, p. 272). Entendemos pela palavra mineral um corpo natural, inorgânico, sólido, homogêneo, isto é, composto de moléculas integrantes da mesma substância (D’Aubuisson, i, p. 271). Talvez possamos declarar que uma massa é essencial quando o seu deslocamento ocasionaria a queda de outras massas colocadas sobre ela (D’Aubuisson, i, p. 272). Assim são aquelas montanhas altas e antigas, os primeiros e mais sólidos ossos, por assim dizer, deste globo (les premiers, les plus solides ossemens), que mereceram o nome de primitivas porque, desdenhando todo apoio e toda mistura estranha, repousam sempre sobre bases semelhantes a elas mesmas e não encerram em sua substância nenhuma matéria que não seja da mesma natureza (Saussure, Voyages des Alpes, Disc. Prel., pp. 6, 7). Essas são as montanhas primordiais, que atravessam os nossos continentes em várias direções, elevando-se acima das nuvens, separando umas das outras as bacias dos rios, servindo, por meio de suas neves eternas, como reservatórios que alimentam as fontes, e formando de certo modo o esqueleto, ou, por assim dizer, a armação rústica da terra (Cuvier, sec. 7, p. 39). Essas massas primitivas trazem a marca de uma formação inteiramente cristalina, como se fossem de fato produto de uma precipitação tranquila’ (D’Aubuisson, ii, p. 5).
“Se a geologia mineral se tivesse contentado com essa simples exposição mineralógica, teríamos raciocinado assim a respeito dos fenômenos cristalinos das primeiras formações minerais, de acordo com os princípios que reconhecemos. Assim como o osso do primeiro homem e a madeira da primeira árvore, cuja solidez era essencial para ‘dar forma, firmeza e sustentação’ aos seus respectivos sistemas, não foram, nem podiam ter sido, formados pelos processos graduais de ossificação e lignificação, dos quais, no entanto, devem ter exibido os fenômenos perceptíveis, ou indicações aparentes, assim também a razão nos leva a concluir que a rocha primitiva, cuja solidez era igualmente essencial para dar forma, firmeza e sustentação ao sistema mineral deste globo, não foi, nem podia ter sido, formada pelo processo gradual de precipitação e cristalização, não obstante quaisquer fenômenos perceptíveis aparentemente indicativos desses processos que ela possa exibir. Concluímos, antes, que no reino mineral, como nos reinos animal e vegetal, o agente criador antecipou em suas formações, por um ato imediato, efeitos cujos fenômenos perceptíveis não podiam determinar o modo de sua formação, porque o modo real estava em contradição direta com as indicações aparentes dos fenômenos.
“Mas a geologia mineral não se contentou com essa simples exposição mineralógica, nem tirou a conclusão que nós tiramos, em conformidade com os princípios e em observância das regras da filosofia de Newton. Ela afirma ‘que os caracteres com que a geologia está escrita no livro da natureza, no qual deve ser estudada, são os minerais’ (D’Aubuisson, Disc. Prel., p. 29); e ela ‘nada vê’ nesse livro da natureza senão ‘precipitações, cristalizações e dissoluções’; e por isso, porque nada mais vê, conclui sem hesitar dos fenômenos cristalinos para a cristalização efetiva. Assim, ao tentar o impossível, isto é, deduzir um princípio universal, a saber, o modo das primeiras formações, da análise de um único elemento, a saber, a matéria mineral, separada da matéria animal e vegetal que lhe é coordenada, e ao concluir dessa análise defeituosa para a lei geral das primeiras formações, ela partiu com luz insuficiente, e não admira que tenha terminado em absoluta escuridão. Pois tal é o seu caos elementar e a sua precipitação química deste globo: uma doutrina tão semelhante à desacreditada filosofia atomista da escola epicurista que é preciso uma inspeção muito atenta e laboriosa para descobrir um único traço pelo qual se possam distinguir uma da outra.”
Esse argumento é amplamente sustentado e ilustrado na obra; e assim, ao referir as primeiras formações de toda espécie a um ato imediato de Deus, tornam-se desnecessários aqueles imensos períodos de tempo que a geologia exige para os seus processos químicos. Das primeiras formações, o sr. Penn passa a combater a noção de que a terra passou por muitas revoluções gerais, e pensa que todos os fenômenos geológicos podem ser mais bem explicados pelo registro mosaico, que limita essas revoluções gerais a duas. O percurso das observações do sr. Penn se verá pela seguinte recapitulação da segunda e da terceira partes de sua obra.
“Que este globo, assim constituído em sua origem, passou por duas, e somente duas, mudanças ou revoluções gerais de sua substância, cada uma das quais foi causada pela vontade, inteligência e poder imediatos de Deus, exercidos sobre a obra que ele havia formado e dirigindo as leis ou forças que ele havia ordenado dentro dela.
“Que, pela primeira mudança ou revolução (a de ajuntar as águas num só lugar e fazer aparecer a porção seca), uma parte ou divisão da superfície do globo foi súbita e violentamente fraturada e rebaixada, a fim de formar, em primeiro lugar, um receptáculo ou leito para as águas difundidas universalmente sobre aquela superfície, e de expor a outra parte, para que se tornasse morada da vida animal. Havia, porém, um desígnio ulterior: que o receptáculo das águas se tornasse no fim o principal teatro da existência animal, quando a parte exposta primeiro sofresse uma fratura e um rebaixamento semelhantes e se tornasse, por sua vez, o receptáculo das mesmas águas, que então seriam transferidas para ela, deixando vazio e seco o seu antigo receptáculo.
“Que essa primeira revolução ocorreu antes da existência, isto é, antes da criação de quaisquer seres organizados.
“Que o mar, recolhido nessa vasta cavidade fraturada da superfície do globo, continuou a ocupá-la durante 1656 anos [da criação ao dilúvio]; e que, durante esse longo período de tempo, as suas águas agiram de vários modos, químicos e mecânicos, sobre os diversos solos e fragmentos que formavam o seu leito, e matéria orgânica marinha, animal e vegetal, foi gerada e acumulada em vasta abundância.
“Que, expirados esses 1656 anos, aprouve a Deus, numa segunda revolução, executar o seu desígnio ulterior, repetindo a assombrosa operação pela qual havia disposto a primeira terra; e, pela ruptura e rebaixamento dessa primeira terra abaixo do nível do leito do primeiro mar, produzir um novo leito, para o qual as águas desceram de seu leito anterior, deixando-o para tornar-se o teatro das futuras gerações da humanidade.
“Que esta terra atual era aquele leito anterior.
“Que ela deve, portanto, necessariamente exibir provas manifestas e universais das vicissitudes por que passou, a saber: da vasta ruína aparente ocasionada pela sua primeira ruptura e rebaixamento violentos; da presença e da ação do fluido marinho durante o longo intervalo que se seguiu; e da ação e dos efeitos desse fluido em sua retirada final.
“Dentro dos limites deste esquema geral devem ser confinadas todas as especulações que aspirem à qualidade de geologia sólida; e, no entanto, vasto e sublime é o campo que ele abre para exercitar a inteligência e a experiência de uma mineralogia e de uma química sóbrias e científicas. Nesse terreno legítimo, aqueles muitos escritores valiosos que, sem cautela, emprestaram a sua ciência para sustentar e propagar a viciosa doutrina de uma geogonia caótica podem geologizar com plena segurança, e podem ali concorrer para promover aquele verdadeiro avanço da filosofia natural que Newton considera inseparável de um avanço proporcional da filosofia moral. Devem assim, por fim, conseguir aperfeiçoar uma verdadeira geologia científica, que jamais poderá existir a não ser que o princípio de Newton forme o fundamento, e o relato de Moisés, o plano de trabalho.”
1. Ver também uma abundante coleção dessas supostas contradições, com explicações judiciosas, no Apêndice ao vol. 1 da Introduction de Horne etc. ↩
2. “Neste nosso primeiro período de existência, o nosso olhar não consegue penetrar além da cena presente, e a raça humana parece uma grande comunidade separada; mas com outros mundos e outras comunidades provavelmente podemos estar ligados no futuro, e todo argumento a favor da verdade da nossa religião nos dá razão para pensar que estaremos. E se, pelo nosso comportamento, podemos, mesmo enquanto estamos aqui, como nosso Senhor afirma positivamente, aumentar em algum grau a felicidade dos anjos, a nossa salvação poderá no futuro ser assunto de importância não só para nós, mas para muitas outras ordens de seres imortais. Eles, é verdade, não sofrerão pela nossa culpa, nem serão recompensados pela nossa obediência. Mas não é absurdo imaginar que a nossa queda e a nossa restauração lhes possam ser úteis como exemplo, e que a graça divina manifestada na nossa redenção possa elevar a sua adoração e gratidão a arrebatamentos mais altos e avivar o seu ardor para investigar, com deleite sempre novo, as dispensações da sabedoria infinita. Isso não é mera conjetura. Tira plausibilidade de muitas analogias da natureza, bem como da Santa Escritura, que apresenta o mistério da nossa redenção como objeto da curiosidade de seres superiores, e o nosso arrependimento como ocasião de sua alegria” (Dr. Beattie, Evidences of the Christian Religion. Ver também Dr. Chalmers, Discourses on the Modern Astronomy). ↩
3. Penn, Comparative Estimate etc. O professor Jameson, em suas Mineralogical Illustrations of Cuvier’s Theory, observa: “A frente dos Salisbury Crags, perto de Edimburgo, oferece um belo exemplo do cronômetro natural descrito no texto. A encosta está coberta de massas soltas que caíram da própria colina, e a quantidade de detritos é proporcional ao tempo decorrido desde que as águas do oceano cobriram outrora a região vizinha. Se tivesse decorrido um período imenso desde que a superfície da terra assumiu o seu aspecto atual, é evidente que há muito tempo toda esta colina estaria envolta em seus próprios detritos. Temos aqui, então, uma prova do período relativamente curto desde que as águas deixaram a superfície do globo, um período que não excede alguns milhares de anos.” ↩
4. “A maioria dos leitores tem presumido que cada noite e cada dia mencionados no primeiro capítulo de Gênesis devem limitar-se estritamente ao prazo de vinte e quatro horas, embora não possa haver dúvida de que Moisés nunca pretendeu tal coisa. Pois como poderia Moisés pretender limitar a duração do dia ao seu comprimento atual antes que, segundo a sua própria exposição, o sol tivesse começado a separar o dia da noite?” (Mantell, Geology of Sussex). ↩
5. Essa visão é totalmente incompatível com a noção favorita de certos geólogos modernos de um oceano caótico primitivo, que conteria, como o dos poetas pagãos, os elementos de todas as coisas. É uma noção que aqueles que desejam conciliar o relato de Gênesis com a geologia moderna se dispuseram a conceder-lhes, com base em que Moisés disse que a terra era “sem forma e vazia” (Gn 1.2). Mas não consideraram que foi “a terra”, e não uma massa líquida, que assim se caracteriza: rodeada de água, é verdade, mas não misturada com ela. A Septuaginta traduz a expressão תהו ובהו, tohu vabohu, por ἀόρατος καὶ ἀκατασκεύαστος, invisível e desprovida, invisível tanto por causa das trevas como da água que a cobria, e desprovida porque ainda destituída de vegetais e de animais. “É de admirar”, diz Rosenmüller, “como tantos intérpretes puderam imaginar que se descrevia um caos nas palavras תהו ובהו, tohu vabohu. Essa noção teve origem, sem dúvida, nas ficções dos poetas gregos e latinos, que esses intérpretes transferiram para Moisés.” Essas ficções baseiam-se, podemos acrescentar, em tradições recebidas dos tempos mais antigos; mas os acréscimos da fantasia poética não devem ser aplicados para interpretar as Escrituras. ↩
6. O sr. L. A. Necker de Saussure (Voyage en Écosse), falando das disputas entre wernerianos e huttonianos, diz: “Os primeiros valeram-se da superioridade que lhes dava um estudo mais minucioso dos minerais para depreciar as observações de seus adversários. Negaram a existência de fatos que estes haviam descoberto, ou procuraram diminuir a sua importância. Daí resultou que fenômenos importantes para a história natural da terra nunca foram dados a conhecer e apreciados como deveriam ter sido pelos geólogos mais capazes de avaliar as suas consequências.” ↩
7. Ver a nota A no fim do capítulo. ↩
8. Um periódico científico de grande reputação, editado na Royal Institution, fez uma honrosa rejeição das teorias que contradizem as Escrituras e fala com elogio da obra do sr. Penn: “Não estamos inclinados, ainda que tivéssemos tempo, a entrar nos méritos comparativos das fantasias do fogo e da água, mal chamadas de teorias; mas temos certos preconceitos antiquados que, nestes dias esclarecidos de ceticismo e incredulidade, serão sem dúvida considerados extremamente ridículos, mas que, mesmo assim, nos levam a hesitar antes de concordar com uma ou com a outra. Há outro modo de explicar o estado atual da estrutura da terra, com base em princípios pelo menos tão racionais, do ponto de vista científico, quanto o plutoniano ou o netuniano; e, por ser mais coerente com a história sagrada e fundado nela, incomparavelmente superior (ver a obra do sr. Granville Penn, Comparative Estimate of the Mineral and Mosaical Geologies).” ↩