SERMÃO 12
O testemunho de nosso próprio espírito
A alegria de uma boa consciência — o testemunho do nosso próprio espírito.
“Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas pela graça de Deus, temos vivido no mundo.”
(2Co 1.12, NAA)Antes de ler
Qual é a fonte da alegria cristã? Seria apenas uma emoção passageira, provocada por boas circunstâncias, saúde ou prosperidade? Wesley responde que a verdadeira alegria nasce do testemunho de uma consciência que reconhece estar vivendo diante de Deus com simplicidade e sinceridade.
Essa consciência não se fundamenta em perfeição humana nem em mérito pessoal. Ela depende da graça de Deus, recebida pela fé em Jesus Cristo. É o Espírito Santo quem ilumina o coração, transforma as intenções, capacita para a obediência e permite ao cristão reconhecer a obra que Deus está realizando em sua vida.
O sermão também mostra que uma boa consciência não é uma consciência adormecida ou insensível. Quanto mais o cristão anda na luz, mais sensível se torna à menor aproximação do pecado. Sua alegria não consiste em ignorar suas falhas, mas em saber que, pela graça, está caminhando em amor e obediência.
— Bispo Ildo Mello
1. Esta é a voz de todo verdadeiro crente em Cristo enquanto permanece na fé e no amor. Nosso Senhor declara que aquele que o segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8.12). Enquanto possui essa luz, o cristão se alegra nela.
Assim como recebeu Cristo Jesus, o Senhor, continua andando nele. Enquanto caminha em Cristo, a exortação do apóstolo se realiza diariamente em sua vida:
“Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se!”
(Fp 4.4, NAA)
2. Contudo, para não construirmos nossa casa sobre a areia — de modo que, quando vierem a chuva, os ventos e as enchentes, ela caia com grande destruição —, desejo mostrar neste sermão qual é a natureza e o fundamento da alegria cristã.
Sabemos, em termos gerais, que ela consiste naquela paz feliz e naquela satisfação tranquila do espírito que nascem do testemunho da consciência descrito pelo apóstolo.
Para compreendermos isso mais profundamente, precisamos examinar cuidadosamente cada expressão do texto. Assim ficará claro o que significa consciência, o que é o testemunho da consciência e como a pessoa que possui esse testemunho pode alegrar-se continuamente.
3. Em primeiro lugar, o que devemos entender por consciência? O que significa essa palavra que está na boca de tantas pessoas?
Alguém poderia imaginar que seja extremamente difícil descobrir seu significado, considerando os muitos e extensos livros escritos sobre o assunto e todo o conhecimento antigo e moderno utilizado para explicá-lo.
Entretanto, é possível que todas essas investigações complicadas tenham lançado pouca luz sobre o tema. Muitos escritores não teriam tornado a questão mais confusa, obscurecendo algo que, em si mesmo, é simples e fácil de compreender?
Quando afastamos as palavras difíceis, toda pessoa de coração sincero pode entender o que é a consciência.
4. Deus nos criou como seres capazes de pensar, perceber aquilo que está acontecendo e refletir sobre o que aconteceu no passado.
Em particular, somos capazes de perceber aquilo que se passa em nosso coração e em nossa vida. Podemos conhecer o que sentimos e fazemos, tanto no momento em que acontece quanto depois.
É isso que queremos dizer quando afirmamos que o ser humano é um ser consciente. Ele possui uma percepção interior das coisas presentes e passadas relacionadas consigo mesmo, incluindo suas disposições interiores e seu comportamento exterior.
Entretanto, aquilo que normalmente chamamos de consciência inclui algo mais.
Não é apenas o conhecimento da vida presente ou a lembrança da vida passada. Recordar e testemunhar sobre coisas passadas ou presentes é somente uma das funções da consciência — e a menor delas.
Sua principal função é desculpar ou acusar, aprovar ou desaprovar, absolver ou condenar.
5. Alguns autores mais recentes deram a isso um novo nome: “senso moral”.
A palavra antiga, porém, parece preferível. Em primeiro lugar, porque é mais comum e familiar, sendo mais facilmente compreendida.
Para os cristãos, existe outra razão ainda mais importante: “consciência” é uma palavra bíblica. Foi o termo escolhido pela sabedoria de Deus nas Escrituras inspiradas.
De acordo com o sentido em que a palavra é normalmente empregada na Bíblia, especialmente nas cartas de Paulo, podemos definir a consciência como uma capacidade colocada por Deus em cada pessoa, pela qual ela percebe o que é certo ou errado no próprio coração e na própria vida, em suas disposições, seus pensamentos, suas palavras e suas ações.
6. Mas qual é a regra pela qual as pessoas devem julgar o certo e o errado? Por qual regra a consciência deve ser orientada?
A regra dos que não possuem a revelação bíblica é, como Paulo ensina, a lei escrita por Deus no coração. A consciência testemunha se caminham ou não de acordo com essa lei, enquanto seus pensamentos os acusam ou defendem (Rm 2.14–15).
Para o cristão, porém, a regra do certo e do errado é a Palavra de Deus: os escritos do Antigo e do Novo Testamento; tudo o que os profetas e os santos homens de Deus escreveram movidos pelo Espírito Santo.
Toda a Escritura foi inspirada por Deus e é útil para ensinar sua vontade, repreender aquilo que se opõe a ela, corrigir os erros e nos educar na justiça (2Tm 3.16).
Essa Palavra é lâmpada para os pés do cristão e luz para o seu caminho.
Somente ela é recebida como regra do bem e do mal. O cristão não considera verdadeiramente bom aquilo que não é ordenado pela Escritura, de maneira direta ou como consequência evidente. Também não considera mau aquilo que ela não proíbe, direta ou claramente.
Aquilo que a Escritura não ordena nem proíbe deve ser considerado indiferente em si mesmo: não é necessariamente bom nem mau.
Esta é a regra exterior pela qual a consciência cristã deve ser orientada em todas as coisas.
7. Quando a consciência é realmente dirigida pela Palavra de Deus, a pessoa possui uma boa consciência diante dele.
Uma “boa consciência” é o que Paulo chama, em outro lugar, de “consciência limpa”.
Em certa ocasião, o apóstolo declarou:
“Tenho vivido diante de Deus com toda a boa consciência até o dia de hoje.”
(At 23.1, NAA)
Em outro momento, expressou a mesma realidade dizendo:
“Por isso, também me esforço por ter sempre uma consciência limpa diante de Deus e das pessoas.”
(At 24.16, NAA)
Para possuir essa consciência, quatro coisas são absolutamente necessárias.
Primeiro, precisamos compreender corretamente a Palavra de Deus e sua vontade santa, agradável e perfeita, revelada nas Escrituras.
É impossível caminhar por uma regra cujo significado desconhecemos.
Segundo, necessitamos de verdadeiro conhecimento de nós mesmos: conhecimento tanto do coração quanto da vida, das disposições interiores e do comportamento exterior. Se não conhecemos a nós mesmos, não podemos comparar nossa vida com a regra divina.
Terceiro, é necessário que nosso coração e nossa vida — pensamentos, palavras e ações — estejam de acordo com a Palavra escrita de Deus. Sem essa concordância, a consciência só poderá ser uma consciência culpada.
Quarto, precisamos ter percepção interior dessa concordância com a regra. Essa percepção habitual, essa consciência interior, é propriamente uma boa consciência ou, na expressão do apóstolo, uma consciência limpa diante de Deus e das pessoas.
8. Aquele que deseja possuir uma consciência limpa deve assegurar-se de que está construindo sobre o fundamento correto.
Ninguém pode colocar outro fundamento além daquele que já foi posto: Jesus Cristo (1Co 3.11).
Ninguém constrói sobre esse fundamento sem uma fé viva. Ninguém participa verdadeiramente de Cristo enquanto não pode declarar:
“Esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”
(Gl 2.20, NAA)
Somente a fé nos dá certeza das realidades invisíveis. Por meio dela, os olhos de nosso entendimento são abertos e a luz divina é derramada sobre eles.
Então enxergamos as maravilhas da lei de Deus: sua excelência, sua pureza e a extensão de cada um de seus mandamentos.
Pela fé contemplamos a glória de Deus na face de Jesus Cristo. Nessa luz, percebemos como num espelho tudo o que existe em nós, até os movimentos mais secretos da alma.
Somente por meio da fé o amor de Deus é derramado em nosso coração, capacitando-nos a amar uns aos outros como Cristo nos amou.
Assim se cumpre a promessa:
“Porei as minhas leis na mente deles e também no seu coração as inscreverei.”
(Hb 8.10, NAA)
Deus produz na alma concordância com sua lei santa e perfeita e leva cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2Co 10.5).
Assim como uma árvore má não pode produzir bons frutos, uma árvore boa também não pode produzir frutos maus.
O coração do crente e também sua vida são conformados à regra dos mandamentos de Deus. Consciente dessa realidade, ele pode glorificar a Deus e dizer com o apóstolo:
“A nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas pela graça de Deus, temos vivido no mundo.”
9. “Temos vivido.”
No texto original, o apóstolo expressa essa ideia com uma única palavra, mas seu significado é extremamente amplo. Ela abrange toda a nossa maneira de viver, tanto interior quanto exteriormente, em relação à alma e ao corpo.
Inclui cada movimento do coração, da língua, das mãos e dos demais membros do corpo.
Estende-se a todas as ações e palavras, ao uso de todas as nossas capacidades e à maneira como empregamos cada talento que recebemos, tanto em relação a Deus quanto às pessoas.
10. “Temos vivido no mundo” — até mesmo no mundo dos que não conhecem a Deus.
Não apenas entre os filhos de Deus, o que seria comparativamente mais simples, mas entre aqueles que permanecem no maligno (1Jo 5.19).
Que mundo é este! Como está profundamente impregnado pelo espírito que continuamente respira!
Assim como nosso Deus é bom e faz o bem, o deus deste mundo e seus filhos praticam o mal, na medida em que lhes é permitido, contra os filhos de Deus.
Como seu pai, ficam à espreita e andam ao redor procurando alguém para devorar (1Pe 5.8).
Utilizam fraude ou violência, armadilhas ocultas ou perseguição aberta, para destruir aqueles que não pertencem ao mundo.
Lutam continuamente contra nossa alma e, com armas antigas ou novas e todo tipo de estratégia, procuram arrastá-la novamente para a armadilha do diabo e para o caminho largo que conduz à destruição.
11. Em um mundo assim, “temos vivido com simplicidade e sinceridade de Deus”.
Primeiro, com simplicidade.
É isso que nosso Senhor recomenda quando fala de olhos bons ou simples:
“Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.”
(Mt 6.22, NAA)
O que os olhos representam para o corpo, a intenção representa para nossas palavras e ações.
Se os olhos da alma estiverem fixados em uma única direção, toda a nossa vida será cheia da luz do céu, do amor, da paz e da alegria no Espírito Santo.
Possuímos simplicidade de coração quando os olhos da mente estão exclusivamente fixados em Deus; quando, em todas as coisas, buscamos somente a ele como nosso Deus, nossa porção, nossa força, nossa felicidade, nossa grande recompensa e nosso tudo, no tempo e na eternidade.
Simplicidade é ter uma intenção firme e única de promover a glória de Deus, cumprir sua bendita vontade e aceitar aquilo que ele permitir.
Essa intenção atravessa toda a alma, enche o coração e se torna a fonte constante de nossos pensamentos, desejos e propósitos.
12. Em segundo lugar, “temos vivido no mundo com sinceridade de Deus”.
A diferença entre simplicidade e sinceridade parece ser principalmente esta: a simplicidade se refere à intenção; a sinceridade, à realização dessa intenção.
A sinceridade não se limita às palavras, mas alcança toda a nossa maneira de viver.
Aqui ela não deve ser entendida apenas no sentido de falar a verdade, evitar a fraude, a astúcia ou a falsidade. Possui um sentido mais amplo: significa atingir efetivamente o alvo para o qual a simplicidade apontava.
Assim, implica que realmente falamos e fazemos tudo para a glória de Deus; que nossas palavras não apenas pretendem alcançar esse objetivo, mas realmente contribuem para ele.
Significa que todas as nossas ações seguem uma direção uniforme, servindo a esse grande propósito; e que, ao longo de toda a vida, caminhamos continuamente em direção a Deus pela estrada da santidade, da justiça, da misericórdia e da verdade.
13. Essa sinceridade é chamada pelo apóstolo de “sinceridade de Deus”.
A expressão evita que a confundamos com a sinceridade que podia ser encontrada entre os pagãos, pela qual eles também demonstravam grande respeito.
Ela também indica o objeto e o objetivo de toda virtude cristã. Tudo aquilo que não conduz finalmente a Deus permanece entre os elementos pobres e fracos deste mundo.
A expressão indica ainda o autor dessa sinceridade: o Pai das luzes, de quem procedem toda boa dádiva e todo dom perfeito (Tg 1.17).
Isso é afirmado ainda mais claramente nas palavras seguintes:
“Não com sabedoria humana, mas pela graça de Deus.”
14. “Não com sabedoria humana.”
É como se Paulo dissesse:
“Não podemos viver dessa maneira no mundo pela força natural de nosso entendimento, nem pelo conhecimento ou sabedoria que conseguimos adquirir.
Não podemos alcançar essa simplicidade nem praticar essa sinceridade apenas por meio do bom senso, da amabilidade natural ou da boa educação.
Isso está além de toda coragem e determinação naturais e de todos os ensinamentos da filosofia.
A força dos costumes não consegue nos treinar para essa vida, nem mesmo as melhores regras da educação humana.
Nem eu, Paulo, poderia alcançá-la, apesar de todas as vantagens que possuía, enquanto permanecia em meu estado natural e a buscava somente por meio da sabedoria humana.”
Se alguma pessoa pudesse alcançar essa vida por meio da sabedoria natural, Paulo provavelmente o teria conseguido.
Ele possuía grandes capacidades naturais e recebeu toda a vantagem da educação. Estudou em Tarso e, depois, foi instruído aos pés de Gamaliel, um dos homens mais respeitados de toda a nação judaica por seu conhecimento e integridade.
Também recebeu uma rigorosa educação religiosa. Era fariseu, filho de fariseu, e foi formado na seita mais severa do judaísmo.
Progrediu mais do que muitos de sua idade, sendo extremamente zeloso por tudo aquilo que imaginava agradar a Deus. Quanto à justiça baseada na lei, considerava-se irrepreensível (Fp 3.6).
Apesar de tudo isso, não conseguiu alcançar simplicidade e sinceridade de Deus.
Todo seu esforço foi inútil. Finalmente, profundamente convencido disso, declarou:
“O que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo.”
(Fp 3.7, NAA)
15. Paulo não poderia alcançar essa vida sem o conhecimento incomparável de Jesus Cristo, nosso Senhor, ou, em outras palavras, sem a graça de Deus.
Em algumas passagens, “graça de Deus” significa o amor gratuito e a misericórdia imerecida pela qual eu, pecador, sou reconciliado com Deus pelos méritos de Cristo.
Neste texto, porém, parece significar especialmente o poder de Deus, o Espírito Santo, que opera em nós tanto o querer quanto o realizar, segundo sua boa vontade (Fp 2.13).
Assim que a graça de Deus no primeiro sentido — seu amor perdoador — é manifestada à nossa alma, a graça no segundo sentido — o poder do Espírito — começa a operar dentro de nós.
Agora podemos realizar, por meio de Deus, aquilo que era impossível às forças humanas. Podemos ordenar corretamente nossa maneira de viver.
Podemos fazer todas as coisas na luz e no poder desse amor, por meio de Cristo, que nos fortalece.
Então possuímos o testemunho da consciência, que jamais poderia ser produzido pela sabedoria humana: o testemunho de que, pela graça de Deus, temos vivido no mundo com simplicidade e sinceridade.
16. Esse é propriamente o fundamento da alegria cristã.
Podemos compreender como a pessoa que possui esse testemunho pode alegrar-se continuamente.
Ela pode dizer:
“Minha alma engrandece ao Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
Alegro-me naquele que, por seu amor imerecido e por sua misericórdia gratuita e bondosa, chamou-me para este estado de salvação no qual agora permaneço por seu poder.
Alegro-me porque seu Espírito confirma ao meu espírito que fui comprado pelo sangue do Cordeiro e que, crendo nele, sou membro de Cristo, filho de Deus e herdeiro do Reino dos Céus.
Alegro-me porque a percepção do amor de Deus por mim produziu em meu coração amor por ele e, por amor a ele, por cada ser humano que criou.
Alegro-me porque Deus me permite sentir dentro de mim a mesma atitude que houve em Cristo Jesus.”
Essa atitude inclui simplicidade: olhos fixados exclusivamente em Deus em cada movimento do coração; capacidade de contemplar continuamente aquele que me amou e se entregou por mim; intenção de buscar somente a ele e sua vontade em tudo o que penso, digo e faço.
Inclui pureza: não desejar nada além de Deus; crucificar a carne com suas paixões e seus desejos; buscar as coisas do alto, e não as da terra.
Inclui santidade: a restauração da imagem de Deus e a renovação da alma segundo sua semelhança.
Inclui sinceridade de Deus: dirigir todas as palavras e ações para que contribuam para a sua glória.
Também me alegro porque minha consciência confirma, no Espírito Santo e pela luz que ele continuamente derrama sobre ela, que vivo de maneira digna da vocação que recebi.
Abstenho-me de toda forma de mal, fugindo do pecado como alguém foge de uma serpente. Quando tenho oportunidade, pratico todo o bem possível, de todas as maneiras, a todas as pessoas.
Sigo meu Senhor em cada passo e pratico aquilo que é agradável aos seus olhos.
Alegro-me porque vejo e sinto, pela ação do Espírito Santo, que minhas obras são realizadas em Deus e que é ele quem realiza sua obra dentro de mim.
A luz de Deus que brilha em meu coração mostra que recebi poder para andar em seus caminhos e que, por sua graça, não me desvio nem para a direita nem para a esquerda.
17. Esse é o fundamento e a natureza da alegria pela qual um cristão amadurecido se alegra continuamente.
Podemos concluir, em primeiro lugar, que essa não é uma alegria meramente natural.
Ela não nasce de causas naturais nem de uma repentina animação das emoções. Isso pode produzir uma alegria passageira, mas o cristão se alegra continuamente.
Também não depende da saúde, do conforto físico, da força ou da constituição do corpo. Pode permanecer igualmente forte durante a enfermidade e a dor — e, algumas vezes, ser ainda mais intensa.
Muitos cristãos nunca experimentaram alegria comparável àquela que encheu sua alma quando o corpo estava quase consumido pela dor ou enfraquecido por uma enfermidade prolongada.
Muito menos essa alegria pode ser atribuída à prosperidade exterior, à aprovação das pessoas ou à abundância de bens materiais.
Frequentemente, quando a fé dos filhos de Deus foi provada pelo fogo em todo tipo de sofrimento, eles se alegraram naquele que amavam sem ver, com alegria indescritível e cheia de glória.
Ninguém se alegrou mais do que aqueles que foram tratados como o lixo e a escória do mundo; que andaram necessitados, com fome, frio e falta de roupas; que enfrentaram zombarias cruéis, prisões e correntes; e que, finalmente, não consideraram a própria vida preciosa, contanto que terminassem sua carreira com alegria.
18. Em segundo lugar, podemos concluir que a alegria do cristão não nasce de uma consciência cega, incapaz de distinguir o bem do mal.
Pelo contrário, ele desconhecia completamente essa alegria até que os olhos de seu entendimento fossem abertos e seus sentidos espirituais se tornassem capazes de discernir o bem e o mal.
Os olhos de sua alma não se tornam enfraquecidos. Nunca foram tão atentos.
O cristão possui uma percepção tão aguçada das menores coisas que isso parece surpreendente para a pessoa natural.
Assim como uma pequena partícula se torna visível dentro de um raio de sol, cada partícula de pecado se torna visível para quem anda nos raios do Sol eterno.
Ele não volta a fechar os olhos da consciência. Aquele sono terminou.
Sua alma permanece desperta. Já não existe sonolência nem mãos cruzadas para descansar.
Ele permanece sobre a torre, atento ao que o Senhor dirá, e se alegra por contemplar aquele que é invisível.
19. Em terceiro lugar, a alegria cristã não nasce de uma consciência endurecida ou insensível.
É verdade que algum tipo de alegria pode surgir nas pessoas cujo coração insensato está obscurecido e que perderam a sensibilidade espiritual.
Por causa de sua insensibilidade, podem alegrar-se até mesmo enquanto pecam. Talvez chamem isso de liberdade.
Na verdade, trata-se de embriaguez espiritual, entorpecimento fatal da alma e insensibilidade de uma consciência endurecida.
O cristão, ao contrário, possui uma sensibilidade extremamente delicada, maior do que poderia imaginar anteriormente.
Nunca teve uma consciência tão sensível como depois que o amor de Deus começou a governar seu coração.
Também nisso encontra alegria: Deus ouviu sua oração diária:
Que minha alma atenta se afaste da primeira aproximação do mal; sensível como a menina dos olhos, perceba o menor toque do pecado.
20. Concluindo: a alegria cristã é alegria na obediência, no amor a Deus e na prática de seus mandamentos.
Entretanto, o cristão não se alegra na obediência como se estivesse cumprindo as condições de uma aliança de obras ou como se pudesse obter perdão e aceitação diante de Deus por meio de suas obras e de sua própria justiça.
Não. Já fomos perdoados e recebidos por causa da misericórdia de Deus em Cristo Jesus.
Também não obedecemos para adquirir a vida espiritual. Essa vida já nos foi concedida pela graça de Deus. Ele nos deu vida quando estávamos mortos em pecados, e agora estamos vivos para Deus por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.
Nós nos alegramos em andar segundo a aliança da graça, em santo amor e feliz obediência.
Alegramo-nos porque, justificados por sua graça, não recebemos a graça de Deus inutilmente.
Deus nos reconciliou gratuitamente consigo mesmo — não por causa de nossa vontade ou de nosso esforço, mas por meio do sangue do Cordeiro. Agora, com a força que ele nos dá, corremos pelo caminho de seus mandamentos.
Ele nos fortaleceu para a batalha, e lutamos alegremente o bom combate da fé.
Por meio daquele que vive em nosso coração pela fé, procuramos alcançar firmemente a vida eterna.
Esta é nossa alegria: assim como nosso Pai continua trabalhando, nós também, não por nossa força ou sabedoria, mas pelo poder do Espírito que nos foi gratuitamente concedido em Cristo Jesus, realizamos as obras de Deus.
Que ele realize em nós tudo aquilo que é agradável aos seus olhos!
A ele seja o louvor para todo o sempre. Amém.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.