SERMÃO 28
Os tesouros e o olho bom
Oitavo dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.
“Não ajunteis para vós outros tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu… Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração. São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso.”
(Mt 6.19–23, NAA)Antes de ler
Aqui Wesley aplica a intenção pura ao terreno mais sensível de todos: o dinheiro. O sermão gira em torno de duas imagens de Jesus — o olho bom (a intenção voltada só para Deus) e os dois tesouros. Wesley é de uma franqueza rara: mostra que o mandamento de "não ajuntar tesouros na terra" é o mais universalmente ignorado pelos cristãos, a ponto de os pagãos o guardarem melhor. Depois esclarece com cuidado o que não está proibido (prover o necessário, a família, o negócio) e o que está (acumular além disso). E encerra com o ensino positivo: ajuntar tesouros no céu, sendo bons mordomos que fazem o bem. É um sermão que incomoda — e liberta.
— Bispo Ildo Mello
1. Das ações comumente chamadas religiosas — e que são ramos reais da verdadeira religião quando brotam de uma intenção pura e santa e são realizadas de modo condizente com ela —, o nosso Senhor passa às ações da vida comum, e mostra que a mesma pureza de intenção é tão indispensavelmente requerida nos nossos negócios corriqueiros quanto no dar esmola, no jejuar ou no orar. E, sem dúvida, a mesma pureza de intenção que torna aceitáveis a nossa esmola e a nossa devoção deve também tornar o nosso trabalho, ou a nossa ocupação, uma oferta apropriada a Deus. Se um homem exerce o seu ofício para elevar-se a um estado de honra e riquezas no mundo, já não está servindo a Deus na sua ocupação, e não tem mais direito a uma recompensa de Deus do que aquele que dá esmola para ser visto, ou ora para ser ouvido pelos homens. Pois desígnios vãos e terrenos não são mais admissíveis nas nossas ocupações do que na nossa esmola e devoção.
2. Isto o nosso bendito Senhor declara do modo mais vivo naquelas palavras fortes e abrangentes que ele explica, reforça e amplia por todo este capítulo: “São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.” O olho é a intenção: o que o olho é para o corpo, a intenção é para a alma. Assim como um guia todos os movimentos do corpo, assim a outra guia os da alma. Diz-se, então, que este olho da alma é “bom” quando olha para uma só coisa; quando não temos outro desígnio senão “conhecer a Deus e a Jesus Cristo, a quem ele enviou” — conhecê-lo com afetos condizentes, amando-o como ele nos amou; agradar a Deus em todas as coisas; servir a Deus (como o amamos) de todo o coração, mente, alma e força; e desfrutar de Deus em tudo e acima de tudo, no tempo e na eternidade.
3. “Se os teus olhos forem” assim “bons”, assim fixos em Deus, “todo o teu corpo será luminoso.” “Todo o teu corpo”: tudo o que é guiado pela intenção, assim como o corpo o é pelo olho. Tudo o que você é, tudo o que você faz — os seus desejos, disposições, afetos; os seus pensamentos, palavras e ações. O conjunto disso “será luminoso”, cheio de verdadeiro conhecimento divino. Esta é a primeira coisa que aqui podemos entender por luz. “Na tua luz veremos a luz.” “Aquele que, outrora, mandou brilhar a luz das trevas resplandecerá no teu coração”; ele iluminará os olhos do teu entendimento com o conhecimento da glória de Deus. Como a experiência confirma isto! Mesmo depois que Deus abriu os olhos do nosso entendimento, se buscamos ou desejamos qualquer coisa além de Deus, quão depressa se obscurece o nosso coração insensato! Então nuvens de novo pousam sobre a nossa alma. Dúvidas e temores de novo nos dominam. Mas, quando desejamos e buscamos apenas a Deus, as nuvens e as dúvidas se dissipam. Nós, que “outrora éramos trevas, agora somos luz no Senhor”.
4. A segunda coisa que aqui podemos entender por luz é a santidade. Enquanto você busca a Deus em todas as coisas, achá-lo-á em todas, a fonte de toda santidade, enchendo-o continuamente da sua própria semelhança, de justiça, misericórdia e verdade. Enquanto você olha para Jesus, e só para ele, será cheio da mente que houve nele. A sua alma será renovada dia após dia à imagem daquele que a criou. Se o olho da sua mente não se afastar dele, se você perseverar “como quem vê aquele que é invisível”, e nada mais buscar no céu ou na terra, então, ao contemplar a glória do Senhor, você será transformado “de glória em glória, na mesma imagem, pelo Espírito do Senhor”. E é também matéria de experiência diária que “pela graça somos” assim “salvos, mediante a fé”. É pela fé que o olho da mente se abre para ver a luz do glorioso amor de Deus. E, enquanto se mantém firmemente fixo nele — em Deus em Cristo, reconciliando consigo o mundo —, somos cada vez mais cheios do amor de Deus e do próximo, de mansidão, gentileza, longanimidade; de todos os frutos da santidade.
5. Esta luz que enche aquele cujo olho é bom implica, em terceiro lugar, felicidade, tanto quanto santidade. Certamente “a luz é doce, e agradável coisa é ver o sol”; mas quanto mais ver o Sol da Justiça a resplandecer continuamente sobre a alma! E, se há alguma consolação em Cristo, algum conforto de amor, alguma paz que excede todo entendimento, algum regozijo na esperança da glória de Deus, tudo isso pertence àquele cujo olho é bom. Assim, “todo o seu corpo é luminoso”. Ele anda na luz, como Deus está na luz, alegrando-se sempre, orando sem cessar e em tudo dando graças, desfrutando de tudo o que é a vontade de Deus a seu respeito em Cristo Jesus.
6. “Se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.” Vemos que não há meio-termo entre um olho bom e um olho mau. Se o olho não é bom, então é mau. Se a intenção, em tudo o que fazemos, não é unicamente para Deus, se buscamos qualquer outra coisa, então a nossa “mente e a nossa consciência estão contaminadas”. O nosso olho, portanto, é mau se, em algo que fazemos, visamos a qualquer outro fim que não seja Deus; se temos qualquer mira que não seja conhecer e amar a Deus, agradar-lhe e servir-lhe em todas as coisas; se temos qualquer outro desígnio que não seja desfrutar de Deus, ser feliz nele, agora e para sempre.
7. Se o teu olho não está unicamente fixo em Deus, “todo o teu corpo estará em trevas”. O véu permanecerá sobre o teu coração. A tua mente será cada vez mais cegada pelo “deus deste século”, “para que não resplandeça a luz do glorioso evangelho de Cristo” sobre ti. Estarás cheio de ignorância e erro quanto às coisas de Deus, incapaz de recebê-las ou discerni-las. E, mesmo quando tiveres algum desejo de servir a Deus, estarás cheio de incerteza quanto ao modo de servi-lo, achando dúvidas e dificuldades por todos os lados. Sim, se o teu olho não é bom, se buscas alguma das coisas da terra, estarás cheio de impiedade e injustiça, sendo os teus desejos, disposições e afetos todos desregrados, todos escuros, vis e vãos.
8. Tanto a destruição quanto a infelicidade estão nos teus caminhos, “pois o caminho da paz não conheceste”. Não há paz, paz firme e sólida, para os que não conhecem a Deus. Não há contentamento verdadeiro nem duradouro para os que não o buscam de todo o coração. Enquanto visas a alguma das coisas que perecem, “tudo o que vem é vaidade”; sim, não só vaidade, mas “aflição de espírito”, tanto na busca quanto no gozo também. Andas, de fato, qual sombra vã e em vão te inquietas. “Se a luz que há em ti são trevas, quão grandes são tais trevas!” Se a intenção, que deveria iluminar toda a alma, enchê-la de conhecimento, amor e paz — e que de fato o faz enquanto é boa, enquanto visa a Deus somente —, se ela é trevas; se visa a algo além de Deus e, por consequência, cobre a alma de trevas em vez de luz, de ignorância e erro, de pecado e miséria: ó, quão grandes são tais trevas! É a própria fumaça que sobe do abismo! É a noite essencial que reina nas mais fundas profundezas, na terra da sombra da morte!
9. Portanto, “não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam”. Se o fazem, é claro que o seu olho é mau; não está unicamente fixo em Deus. Quanto à maioria dos mandamentos de Deus, os pagãos da África ou da América estão muito no mesmo nível dos que se chamam cristãos. Mas não podemos afirmar isto quanto ao mandamento que temos diante de nós. Aqui o pagão tem, de longe, a preeminência. Ele deseja e busca nada mais do que alimento simples para comer e roupa simples para vestir. E busca isto só de dia para dia. Não reserva, não ajunta nada — a não ser tanto grão numa estação do ano quanto precisará antes que essa estação retorne. Este mandamento, portanto, os pagãos, embora não o conheçam, observam constante e pontualmente. “Não ajuntam para si tesouros na terra.” Mas como observam os cristãos o que professam receber como mandamento do Deus altíssimo? De modo algum! Nem em grau algum; nada mais do que se tal mandamento nunca tivesse sido dado ao homem. Em que cidade cristã se acha um homem em quinhentos que tenha o menor escrúpulo de ajuntar tanto tesouro quanto pode, de aumentar os seus bens tanto quanto é capaz? Há, de fato, os que não fariam isto injustamente; muitos que não roubarão nem furtarão. Mas isto é ponto bem diverso. Estes não têm escrúpulo com a coisa, mas com a maneira dela. Não têm escrúpulo em “ajuntar tesouros na terra”, mas em ajuntá-los desonestamente. Não recuam diante de desobedecer a Cristo, mas diante de uma quebra da moral pagã.
10. Não há no mundo exemplo de cegueira espiritual mais espantoso do que este. A maioria destes mesmos homens lê, ou ouve ler, a Bíblia — muitos deles em todo dia do Senhor. Leram ou ouviram estas palavras cem vezes e, contudo, nunca suspeitam que são eles mesmos por elas condenados, mais do que por aquelas que proíbem os pais de oferecer os filhos a Moloque. Ó, que Deus falasse a esses miseráveis enganadores de si mesmos com a sua própria voz, a sua poderosa voz! Para que ao menos despertem da cilada do diabo e as escamas caiam dos seus olhos!
11. Você pergunta o que é “ajuntar tesouros na terra”? Será preciso examinar isto a fundo. E observemos, primeiro, o que não é proibido neste mandamento, para então discernir claramente o que é. Não somos proibidos, primeiro, de “procurar fazer o que é honesto diante de todos os homens”, de prover com que possamos dar a cada um o que lhe é devido, tudo o que justamente possam exigir de nós. Longe disso, somos ensinados por Deus a “não dever nada a ninguém”. Devemos, portanto, usar toda a diligência na nossa vocação, a fim de não dever nada a ninguém. Nem, segundo, ele aqui proíbe o prover para nós as coisas necessárias ao corpo: uma suficiência de alimento simples e saudável para comer, e roupa limpa para vestir. Sim, é nosso dever, na medida em que Deus o põe em nosso poder, prover também estas coisas, a fim de que “comamos o nosso próprio pão” e não sejamos pesados a ninguém. Nem tampouco somos proibidos, terceiro, de prover para os nossos filhos e para os da nossa própria casa. Também isto é nosso dever, até por princípios da moral pagã. Todo homem deve prover o necessário à vida tanto para a esposa quanto para os filhos, e habilitá-los a provê-lo por si mesmos quando ele partir daqui. Digo, prover o necessário — não as iguarias, não os supérfluos —, e isso pelo trabalho diligente deles; pois não é dever de homem algum fornecer-lhes, mais do que a si mesmo, os meios de luxo ou de ociosidade. Mas, se alguém não provê assim para os seus (bem como para as viúvas da sua casa, de quem primariamente Paulo fala naquelas conhecidas palavras a Timóteo), praticamente “negou a fé e é pior que um incrédulo” ou pagão. Por fim, não somos proibidos, nestas palavras, de reservar, de tempos em tempos, o que é necessário para tocar o nosso negócio, em medida suficiente para atender aos propósitos anteriores: em tal medida que, primeiro, não devamos nada a ninguém; segundo, obtenhamos para nós o necessário à vida; e, terceiro, provejamos os da nossa casa com ele enquanto vivemos, e com os meios de obtê-lo quando formos para Deus.
12. Podemos agora discernir claramente (a menos que não queiramos) o que é aqui proibido. É o procurar deliberadamente mais dos bens deste mundo do que atende aos propósitos anteriores; o trabalhar por uma medida maior de substância terrena, um maior acúmulo de ouro e prata — o ajuntar mais do que esses fins requerem — é o que aqui expressa e absolutamente se proíbe. Se as palavras têm algum sentido, há de ser este; pois não comportam outro. Por consequência, quem quer que — nada devendo a ninguém, e tendo comida e roupa para si e para a sua casa, junto com uma suficiência para tocar o seu negócio na medida em que atende a esses propósitos razoáveis —, já estando nessas circunstâncias, busca ainda uma porção maior na terra, esse vive numa aberta e habitual negação do Senhor que o comprou. Praticamente negou a fé e é pior que um “incrédulo” africano ou americano.
13. Ouçam isto, todos vocês que habitam no mundo e amam o mundo em que habitam. Vocês podem ser “muito estimados pelos homens”, mas são “uma abominação aos olhos de Deus”. Até quando a sua alma se apegará ao pó? Quando despertarão e verão que os pagãos declarados estão mais perto do Reino dos céus do que vocês? Se vocês visam a “ajuntar tesouros na terra”, não estão apenas perdendo o seu tempo e gastando as suas forças com o que não é pão; pois qual é o fruto, se vocês tiverem êxito? Vocês assassinaram a própria alma! Extinguiram nela a última centelha de vida espiritual! Agora, de fato, em meio à vida, vocês estão na morte! São homens vivos, mas cristãos mortos. “Pois, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” O seu coração afundou no pó; a sua alma se apega ao chão. Os seus afetos estão postos, não nas coisas do alto, mas nas coisas da terra; em pobres cascas que podem envenenar, mas não podem satisfazer um espírito imortal feito para Deus. Você jogou fora o tesouro no céu: Deus e Cristo estão perdidos! Você ganhou riquezas — e o fogo do inferno!
14. Ó, “quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas!” Quando os discípulos do nosso Senhor se admiraram de que ele falasse assim, longe de retratar-se, ele repetiu a mesma importante verdade em termos ainda mais fortes: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” Quão difícil é para aqueles cuja própria palavra é aplaudida não serem sábios aos próprios olhos! Quão difícil para eles não se julgarem melhores do que a massa pobre, humilde e sem instrução dos homens! Quão difícil não buscarem a felicidade nas suas riquezas! Ó ricos, como podem vocês escapar da condenação do inferno? Somente porque, com Deus, todas as coisas são possíveis!
15. E, ainda que vocês não tenham êxito, qual é o fruto do seu empenho por ajuntar tesouros na terra? “Os que querem ficar ricos” (os que o desejam, os que se empenham nisso, tenham êxito ou não) “caem em tentação, e cilada”, e em muitos “desejos insensatos e perniciosos, os quais afogam os homens na ruína e perdição”, na miséria presente e eterna. Basta abrirmos os olhos, e podemos ver diariamente as melancólicas provas disto: homens que, desejando e resolvendo ficar ricos, cobiçando o dinheiro, raiz de todos os males, já se traspassaram com muitas dores e anteciparam o inferno para o qual vão! A cautela com que o apóstolo aqui fala é altamente observável. Ele não afirma isto absolutamente dos ricos, pois um homem pode ser rico sem culpa sua, por uma Providência que prevaleceu sobre a sua própria escolha; mas afirma-o dos “que querem ficar ricos”. As riquezas, por mais perigosas que sejam, nem sempre “afogam os homens na ruína e perdição”; mas o desejo das riquezas o faz. Os que calmamente desejam e deliberadamente buscam alcançá-las, quer de fato ganhem o mundo, quer não, infalivelmente perdem a própria alma.
16. Ó, quem advertirá esta geração de víboras a fugir da ira que está para vir? Não os que jazem à porta deles, ou se curvam aos seus pés, desejando fartar-se das migalhas que caem das suas mesas. Não os que cortejam o seu favor ou temem o seu franzir de testa. Mas, se há um cristão sobre a terra, se há um homem que venceu o mundo, que nada deseja senão a Deus e a ninguém teme senão àquele que pode destruir tanto o corpo quanto a alma no inferno — você, ó homem de Deus, fale e não poupe; levante a sua voz como uma trombeta! Clame em alta voz e mostre a esses honrados pecadores a condição desesperada em que se acham! Pode ser que um em mil tenha ouvidos para ouvir, se levante e se sacuda do pó, se solte dessas cadeias que o prendem à terra e, enfim, ajunte tesouros no céu.
17. E, se acontecer que um destes, pelo poderoso poder de Deus, desperte e pergunte “que devo fazer para ser salvo?”, a resposta, segundo os oráculos de Deus, é clara, plena e expressa. Deus não te diz: “Vende tudo o que tens.” De fato, aquele que vê os corações dos homens viu necessário ordenar isto num caso peculiar, o do jovem rico. Mas nunca o estabeleceu como regra geral para todos os ricos, em todas as gerações. A sua orientação geral é, primeiro: “Não sejas orgulhoso.” Deus não vê como o homem vê. Ele não te estima pelas tuas riquezas, grandeza ou séquito. Todas essas coisas são para ele como esterco e escória; sejam-no também para ti. Guarda-te de julgar-te um só ponto mais sábio ou melhor por causa de todas essas coisas. Pesa-te noutra balança: estima-te somente pela medida de fé e amor que Deus te deu. Se tens mais do conhecimento e amor de Deus do que ele, és, por isso, e por nada mais, mais sábio e melhor. Mas, se não tens este tesouro, és mais insensato, mais vil, mais verdadeiramente desprezível — não direi que o mais humilde servo sob o teu teto, mas que o mendigo deitado à tua porta, cheio de chagas.
18. Segundo: “Não confies nas riquezas incertas.” Não confies nelas para o socorro, e não confies nelas para a felicidade. Primeiro, não confies nelas para o socorro. Estás miseravelmente enganado se esperas isto do ouro ou da prata. Elas não são mais capazes de te pôr acima do mundo do que de te pôr acima do diabo. De pouco valerão no dia da aflição — se é que permanecem na hora da prova; pois quantas vezes “criam asas e voam”! O desejo dos teus olhos, a esposa da tua juventude, o teu filho, o teu único filho, ou o amigo que era como a tua própria alma, é tirado de um golpe. Reanimarão as tuas riquezas o barro sem fôlego, ou chamarão de volta o seu recente habitante? Livrar-te-ão da doença, das enfermidades, da dor? Visitam elas só os pobres? Não; aquele que apascenta os teus rebanhos, ou lavra a tua terra, tem menos doença e dor do que tu. E, durante o tempo em que o teu corpo é castigado com dor, ou se consome numa doença que definha, de que te ajudam os teus tesouros?
19. Mas há à mão uma aflição maior que todas estas. Tu hás de morrer! Hás de afundar no pó, voltar ao chão de onde foste tirado. E o tempo se aproxima; os anos deslizam com passo rápido, embora silencioso. Talvez o teu dia esteja bem avançado; o meio-dia da vida já passou, e as sombras da tarde começam a pousar sobre ti. Agora, que socorro há nas tuas riquezas? Adoçam elas a morte? Tornam querida aquela hora solene? Muito pelo contrário. “Ó morte, quão amarga é a tua memória para o homem que vive em paz com os seus bens!” Ou impedirão elas o golpe indesejado, ou adiarão a hora terrível? Poderão livrar a tua alma de ver a morte? Poderão restaurar os anos que passaram? Poderão acrescentar ao teu tempo marcado um mês, um dia, uma hora, um momento? Ou os bens que escolheste aqui por tua porção te seguirão além do grande abismo? Não. Nu vieste a este mundo; nu hás de voltar.
20. E não confies nelas para a felicidade; pois também aqui serão achadas “enganosas na balança”. Se nem milhares em ouro e prata, nem qualquer das vantagens ou prazeres com eles comprados, podem impedir que sejamos miseráveis, segue-se evidentemente que não podem fazer-nos felizes. Que felicidade podem elas dar àquele que, em meio a tudo, é constrangido a clamar que uma preocupação cruel paira sobre os seus tetos dourados? De fato, a experiência é aqui tão plena, forte e inegável que torna desnecessário todo outro argumento. Apelemos, pois, ao fato. São os ricos e grandes os únicos homens felizes? E é cada um deles mais ou menos feliz na proporção da sua medida de riquezas? São eles felizes, afinal? Quase disse que são, de todos os homens, os mais miseráveis! Rico, por uma vez, dize a verdade do teu coração: em meio à nossa fartura, algo ainda falta a mim, a ti, a ele! Esse cruel algo, não possuído, corrói e azeda todo o resto. Certamente, então, confiar nas riquezas para a felicidade é a maior insensatez de todas as que há debaixo do sol!
21. Estas são todas mostra morta. Não faças caso delas. Confia tu no Deus vivo; assim estarás seguro à sombra do Todo-Poderoso; a sua fidelidade e verdade serão o teu escudo e broquel. Ele é um socorro bem presente nas tribulações, um socorro que jamais pode falhar. Então dirás, ainda que todos os teus outros amigos morram: “O Senhor vive, e bendito seja o meu forte Auxiliador!” Ele se lembrará de ti quando estiveres enfermo no teu leito, quando vão for o socorro do homem. E, mesmo quando esta “casa de barro” estiver quase abatida, prestes a cair no pó, ele te ensinará a dizer: “Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ó sepultura, onde está a tua vitória? Graças a Deus, que me dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” Ó confia nele para a felicidade, tanto quanto para o socorro. Todas as fontes da felicidade estão nele. Confia naquele que “nos dá com abundância todas as coisas para delas desfrutarmos” — que, da sua própria rica e livre misericórdia, no-las estende como que na sua própria mão, para que, recebendo-as como dom dele e como penhores do seu amor, desfrutemos de tudo o que possuímos. É o seu amor que dá sabor a tudo o que provamos, enquanto cada criatura nos conduz ao grande Criador, e toda a terra é uma escada para o céu.
22. Terceiro: não busques aumentar em bens. “Não ajuntes para ti tesouros na terra.” Este é um mandamento categórico, positivo, tão claro quanto “Não adulterarás”. Como é possível, então, a um rico ficar mais rico sem negar o Senhor que o comprou? Sim, como pode qualquer homem que já tem o necessário à vida ganhar ou visar a mais, e ser inocente? “Não ajunteis”, diz o nosso Senhor, “tesouros na terra.” Se, apesar disto, você ajunta e quer ajuntar dinheiro ou bens que “a traça ou a ferrugem corrompem, ou os ladrões escavam e roubam”; se você quer ajuntar casa a casa, ou campo a campo — por que se chama cristão? Você não obedece a Jesus Cristo. Nem tem tal intenção. Por que você se dá o nome dele? “Por que me chamam Senhor, Senhor”, diz ele mesmo, “e não fazem o que eu digo?”
23. Se você pergunta: “Mas o que devemos fazer com os nossos bens, visto que temos mais do que precisamos usar, se não devemos ajuntá-los? Devemos jogá-los fora?” Respondo: se você os lançasse ao mar, se os atirasse ao fogo e os consumisse, estariam mais bem empregados do que estão agora. Você não pode achar maneira mais funesta de jogá-los fora do que ou ajuntá-los para a sua posteridade, ou gastá-los consigo mesmo em insensatez e supérfluo. De todos os modos possíveis de jogá-los fora, estes dois são os piores; os mais opostos ao evangelho de Cristo e os mais perniciosos à sua própria alma. Quão pernicioso é o segundo, mostrou-o com excelência um escritor recente [William Law]: “Se desperdiçamos o nosso dinheiro, não só somos culpados de desperdiçar um talento que Deus nos deu, mas nos fazemos este dano adicional: convertemos esse talento útil num poderoso meio de corromper a nós mesmos; porque, na medida em que é mal gasto, é gasto no sustento de alguma disposição errada, na satisfação de algum desejo vão e desarrazoado, que, como cristãos, somos obrigados a renunciar. Se, portanto, você não gasta o seu dinheiro fazendo o bem aos outros, você o gasta para o seu próprio dano.”
24. Igualmente indesculpáveis são os que ajuntam o que não precisam para nenhum fim razoável [Law novamente]: “Se um homem tivesse mãos, olhos e pés que pudesse dar aos que deles carecem, e os trancasse num cofre em vez de dá-los aos seus irmãos cegos e coxos, não o teríamos, com justiça, por um desumano? Ora, o dinheiro tem muito da natureza dos olhos e dos pés. Se, portanto, o trancamos em cofres, enquanto os pobres e aflitos dele precisam para os seus usos necessários, não estamos longe da crueldade daquele que prefere entesourar as mãos e os olhos a dá-los aos que deles carecem.”
25. Não será esta outra razão por que os ricos tão dificilmente entrarão no Reino dos céus? Uma vasta maioria deles está sob uma maldição, a peculiar maldição de Deus; visto que, no teor geral da sua vida, não só estão continuamente roubando a Deus, dilapidando e desperdiçando os bens do seu Senhor, e por esse mesmo meio corrompendo a própria alma, mas também roubando o pobre, o faminto, o nu, lesando a viúva e o órfão, e fazendo-se responsáveis por toda a carência, aflição e angústia que poderiam, mas não removem. Sim, não clama contra eles, desde a terra, o sangue de todos os que perecem por falta daquilo que eles ou ajuntam ou gastam desnecessariamente?
26. O verdadeiro modo de empregar o que você não precisa para si, você pode, em quarto lugar, aprender daquelas palavras do nosso Senhor que são a contraparte do que precedeu: “Ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam.” Emprega tudo o que puderes poupar numa garantia melhor do que a que este mundo pode oferecer. Ajunta os teus tesouros no banco do céu, e Deus os restituirá naquele Dia. “O que se compadece do pobre empresta ao Senhor, e este lhe pagará o seu benefício.” Dá ao pobre com um olho bom, com um coração reto, e escreve: “Tanto dado a Deus.” Pois “sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram”. Esta é a parte de um “mordomo fiel e prudente”: não vender nem as suas casas, nem as suas terras, nem o seu capital principal, seja mais, seja menos, a menos que alguma circunstância peculiar o requeira; e não desejar nem procurar aumentá-lo, tampouco esbanjá-lo em vaidade; mas empregá-lo inteiramente naqueles fins sábios e razoáveis para os quais o seu Senhor o pôs nas suas mãos. O mordomo sábio, depois de prover a sua própria casa com o necessário à vida e à piedade, faz-se amigo com tudo o que resta, de tempos em tempos, das “riquezas da injustiça, para que, quando estas faltarem, o recebam nas moradas eternas”.
27. Portanto, “ordenamos” a vocês, “os ricos deste mundo”, como tendo autoridade do nosso grande Senhor e Mestre, que estejam habitualmente fazendo o bem, que vivam num curso de boas obras. “Sejam misericordiosos, como é misericordioso o Pai de vocês, que está nos céus”, que faz o bem e não cessa. “Sejam misericordiosos” — até onde? Segundo o seu poder, com toda a capacidade que Deus lhes dá. Façam desta a sua única medida de fazer o bem, e não quaisquer máximas ou costumes mesquinhos do mundo. Ordenamos-lhes que sejam “ricos em boas obras”; como têm muito, deem com fartura. “De graça recebestes, de graça dai”, de modo a não ajuntar tesouro senão no céu. Estejam “prontos a repartir” com cada um segundo a sua necessidade. Espalhem, deem aos pobres; repartam o seu pão com o faminto. Cubram o nu com uma veste, acolham o estrangeiro, levem ou enviem socorro aos que estão na prisão. Curem o doente — não por milagre, mas pela bênção de Deus sobre o seu oportuno amparo. Defendam o oprimido, pleiteiem a causa do órfão e façam o coração da viúva cantar de alegria.
28. Nós os exortamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, a estar “dispostos a repartir”; a ser do mesmo espírito (ainda que não no mesmo estado exterior) daqueles crentes dos tempos antigos, que perseveravam naquela bendita e santa comunhão em que “ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas tudo lhes era comum”. Seja você um mordomo, um mordomo fiel e prudente, de Deus e dos pobres; diferindo deles apenas nestas duas circunstâncias: que as suas carências são primeiro supridas da porção dos bens do seu Senhor que permanece nas suas mãos, e que você tem a bem-aventurança de dar. Assim, “ajunte para si um bom fundamento”, não no mundo que agora é, mas antes “para o futuro, para alcançar a verdadeira vida”. O grande fundamento, de fato, de todas as bênçãos de Deus, sejam temporais, sejam eternas, é o Senhor Jesus Cristo — a sua justiça e o seu sangue, o que ele fez e o que sofreu por nós. E “outro fundamento”, neste sentido, “ninguém pode lançar”. Mas, por meio dos seus méritos, tudo o que fazemos em nome dele é fundamento de boa recompensa no dia em que “cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho”. Portanto, não trabalhe pela “comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna”. Portanto, “tudo quanto a tua mão encontrar para fazer, faze-o conforme as tuas forças”. Com a perseverança no bem-fazer, busca a glória, a honra e a imortalidade. Na constante e zelosa prática de todas as boas obras, espera aquela hora feliz em que o Rei dirá: “Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo!”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.