SERMÃO 52
A reforma dos costumes
Pregado diante da Sociedade para a Reforma dos Costumes — Londres, 30 de janeiro de 1763.
“Quem se levanta a meu favor contra os malfeitores? Quem se põe ao meu lado contra os que praticam a iniquidade?”
(Sl 94.16, NAA)Antes de ler
Este é um sermão de ocasião, pregado numa capela de Londres diante de uma sociedade voluntária que se organizara para conter, por meios legais, a devassidão pública da cidade — a profanação escancarada do domingo, o jogo predatório, os antros de exploração. É, por isso, um documento histórico fascinante, com estatísticas e nomes próprios do século XVIII. Mas o miolo permanece atualíssimo: Wesley pergunta se a igreja pode assistir de braços cruzados ao mal que se derrama sobre a sociedade. A sua resposta é não — e ele funda o dever de agir na própria natureza da Igreja, "um corpo de pessoas unidas para salvar cada uma a sua alma, depois ajudar-se mutuamente e, por fim, socorrer todos os homens". Note, porém, o cuidado pastoral raro nas seções III e IV: não basta a causa ser justa; quem se envolve precisa ser homem de fé, coragem, paciência e, sobretudo, de amor e humildade — tratando os transgressores "não como carrascos, mas como cirurgiões, que só causam a dor necessária para a cura". Ao final, uma nota histórica registra que a própria sociedade veio a ser desmantelada nos tribunais. Fica a pergunta do salmo: quem se levanta?
— Bispo Ildo Mello
1. Em todas as eras, homens que não temiam a Deus nem respeitavam o próximo se aliaram e formaram conluios para levar adiante as obras das trevas. E nisto mostraram-se hábeis, dentro do seu gênero; pois, por esse meio, promoveram o reino do seu pai, o diabo, mais eficazmente do que de outro modo poderiam. Por outro lado, homens que temiam a Deus e desejavam a felicidade dos seus semelhantes acharam, em toda era, necessário unir-se para opor-se às obras das trevas, difundir o conhecimento de Deus, seu Salvador, e promover o reino dele na terra. E o próprio Deus os instruiu a fazê-lo. Desde que há homens sobre a terra, ele os ensinou a unir-se no seu serviço e os reuniu num só corpo por um só Espírito. E foi exatamente para este fim que os uniu: “para que destruíssem as obras do diabo” — primeiro naqueles que já estão unidos, e por meio deles em todos os que os rodeiam.
2. Este é o desígnio original da Igreja de Cristo. É um corpo de pessoas unidas para, primeiro, salvar cada uma a sua própria alma; depois, ajudar-se mutuamente a desenvolver a salvação; e, por fim, até onde lhes for possível, salvar todos os homens da miséria presente e futura, derrubar o reino de Satanás e estabelecer o reino de Cristo. E este deve ser o cuidado e o empenho contínuos de todo membro da Igreja; do contrário, não é digno de ser chamado membro dela, por não ser membro vivo de Cristo.
3. Assim, este deveria ser o cuidado constante de todos os que, nestes reinos, estão unidos sob o nome de Igreja da Inglaterra. Estão unidos para este mesmo fim: opor-se ao diabo e a todas as suas obras, e guerrear contra o mundo e a carne, seus aliados constantes e fiéis. Mas será que, de fato, correspondem ao fim da sua união? Estarão todos os que se dizem “membros da Igreja” de coração empenhados em opor-se às obras do diabo? Ah, não podemos dizê-lo. Tão longe estão disso que boa parte deles — receio que a maior parte — são eles mesmos o mundo, o povo que não conhece a Deus para nenhum fim salvador; que, em vez de “mortificar a carne, com as suas paixões e desejos”, a satisfazem dia após dia, praticando eles próprios aquelas obras do diabo que estão especialmente comprometidos a destruir.
4. Há, portanto, necessidade — mesmo neste país que cortesmente chamamos de cristão, sim, mesmo nesta igreja — de alguns que se “levantem contra os malfeitores” e se unam “contra os que praticam a iniquidade”. Aliás, nunca houve tanta necessidade como hoje de que os “que temem o Senhor falem uns com os outros” sobre este mesmo ponto: como “levantar um estandarte contra a iniquidade” que inunda a terra. Há razão abundante para que todos os servos de Deus se unam contra as obras do diabo — com corações, conselhos e esforços unidos — para fazer frente por Deus e conter, quanto puderem, essas “torrentes de impiedade”.
5. Para este fim, umas poucas pessoas em Londres, no final do século passado, uniram-se e, com o tempo, ficaram conhecidas como a Sociedade para a Reforma dos Costumes; e um bem incrível foi feito por elas durante quase quarenta anos. Mas então, tendo a maioria dos membros originais partido para o seu galardão, os que os sucederam se esmoreceram e abandonaram a obra; de modo que, alguns anos atrás, a Sociedade cessou, e nenhuma do gênero restou no reino.
6. É uma sociedade da mesma natureza a que se formou recentemente. Proponho mostrar, primeiro, a natureza do seu projeto e os passos que deu até aqui; segundo, a sua excelência, com as várias objeções que lhe foram levantadas; terceiro, que tipo de homens devem ser os que se engajam em tal projeto; e, quarto, com que espírito e de que maneira devem prosseguir nele. Concluirei com uma aplicação, tanto a eles quanto a todos os que temem a Deus.
I. O projeto e os passos dados
1. Foi num domingo de agosto de 1757 que, numa pequena roda reunida para oração e conversa religiosa, se falou da profanação grosseira e descarada daquele dia sagrado — gente comprando e vendendo, mantendo o comércio aberto, bebendo nas tavernas e apregoando as suas mercadorias nas ruas, estradas e campos como em dia comum, sobretudo em Moorfields, então cheio deles todos os domingos, de ponta a ponta. Ponderou-se que método se poderia adotar para remediar esses males; e concordou-se em que seis deles procurassem, pela manhã, o magistrado Sir John Fielding, em busca de orientação. Assim fizeram: ele aprovou o projeto e os instruiu sobre como executá-lo.
2. Primeiro entregaram petições ao Prefeito e à Câmara dos Vereadores, e aos juízes de Westminster; e de todos esses honrados tribunais receberam muito incentivo para prosseguir.
3. Julgou-se depois conveniente comunicar o projeto a muitas pessoas de posição eminente, ao corpo do clero e também aos ministros de outras denominações das várias igrejas de Londres e Westminster; e tiveram a satisfação de encontrar da parte deles cordial consentimento e aprovação unânime.
4. Em seguida imprimiram e distribuíram, à sua própria custa, vários milhares de manuais de instrução para os oficiais de paróquia, explicando e reforçando os seus deveres; e, para evitar o quanto possível a necessidade de aplicar de fato as leis, imprimiram e espalharam por toda a cidade advertências contra a profanação do domingo, extratos das leis a respeito e avisos aos infratores.
5. Preparado o caminho por essas precauções, foi no início de 1758 que, após avisos dados uma e outra vez — e outras tantas ignorados —, se apresentaram denúncias formais aos magistrados contra os que profanavam o dia do Senhor. Por esse meio, primeiro limparam as ruas e os campos daqueles infratores notórios que, sem consideração alguma por Deus ou pela lei, vendiam as suas mercadorias de manhã à noite. Passaram então a um empreendimento mais difícil: impedir a bebedeira do domingo, o passar nas tavernas o tempo que devia ser gasto no culto a Deus. Nisto expuseram-se a muita afronta, insulto e abuso de toda espécie, tendo de enfrentar não só os beberrões e os taverneiros que os acolhiam, mas homens ricos e poderosos — em parte os donos daquelas tavernas, em parte os que as abasteciam, e, em geral, todos os que lucravam com esses pecados. Alguns destes eram não só homens de posses, mas homens de autoridade; aliás, em mais de um caso, eram as próprias pessoas diante de quem os infratores eram levados. E o tratamento que davam aos que apresentavam as denúncias naturalmente encorajava a arraia-miúda a seguir o exemplo e a tratá-los como gente que não merece viver. Daí não hesitarem, não só em cobri-los da mais baixa linguagem e atirar-lhes lama, pedras ou o que viesse à mão, mas muitas vezes espancá-los sem dó e arrastá-los pelas pedras ou pelas sarjetas. E, se não os mataram, não foi por falta de vontade — mas o freio estava na boca deles.
6. Tendo, pois, recebido ajuda de Deus, foram adiante para conter também os padeiros, que consumiam grande parte do domingo no exercício do seu ofício. Mas muitos destes foram mais nobres que os taverneiros: longe de se ressentirem ou de tomarem aquilo como afronta, vários que a força do costume havia arrastado a agir contra a própria consciência agradeceram-lhes sinceramente o trabalho, reconhecendo-o como real gentileza.
7. Ao limpar as ruas, os campos e as tavernas dos profanadores do domingo, depararam com outra espécie de infratores, tão nocivos à sociedade quanto quaisquer outros: os jogadores de vários tipos. Alguns eram da classe mais baixa e vil, os trapaceiros de ofício, que se especializam em apanhar rapazes jovens e inexperientes e limpá-los de todo o dinheiro; e, depois de arruiná-los, muitas vezes lhes ensinam o mesmo mistério de iniquidade. Desbarataram vários ninhos destes e obrigaram não poucos a ganhar honestamente o pão com o suor do rosto e o trabalho das mãos.
8. Crescendo em número e força, ampliaram os seus objetivos e começaram não só a coibir o palavreado profano, mas a remover das ruas outro flagelo público e escândalo ao nome cristão: a prostituição. Muitas foram detidas em pleno curso da sua audaciosa devassidão. E, para ir à raiz do mal, muitas das casas que as acolhiam foram identificadas, processadas segundo a lei e totalmente fechadas. E algumas dessas pobres mulheres desamparadas, ainda que caídas na mais baixa infâmia, reconheceram a graciosa providência de Deus e romperam com os seus pecados por um arrependimento duradouro. Várias foram encaminhadas a trabalho, e várias recebidas no Hospital Madalena.
9. Permita-se uma breve digressão: quem admirará como se deve a sabedoria da Providência divina, ao dispor os tempos e as ocasiões de modo a ajustar um fato a outro? Por exemplo: justamente quando muitas dessas pobres criaturas, detidas no seu curso de pecado, começavam a desejar uma vida melhor — como que em resposta àquela triste pergunta: “Mas, se eu abandonar o caminho em que estou, do que viverei? Pois não domino ofício algum, e não tenho amigos que me recebam” —, justamente nessa hora, Deus preparou o Hospital Madalena. Ali, as que não têm ofício nem amigos que as recebam são acolhidas com toda a ternura; sim, podem viver, e com conforto, providas de tudo o que é necessário “para a vida e a piedade”.
10. Mas voltemos. O número de pessoas levadas à justiça, de agosto de 1757 a agosto de 1762, foi de 9.596. Desde então até o presente: por jogo ilícito e blasfêmia, 40; por profanação do domingo, 400; por prostituição e casas de má fama, 550; por venda de estampas obscenas, 2 — ao todo, 10.588.
11. Na admissão de membros à Sociedade, não se atenta a nenhuma seita ou partido. Todo aquele que, examinado, se mostra bom homem é prontamente admitido. E nenhum que tenha intenções egoístas ou pecuniárias nela permanecerá por muito tempo — não só porque nada pode ganhar, mas porque logo sairia perdendo, visto que precisa tornar-se contribuinte assim que se faz membro. É verdade que o clamor popular diz: “São todos seguidores de Whitefield.” Mas é grande engano. Cerca de vinte dos membros contribuintes têm ligação com o sr. Whitefield; cerca de cinquenta, com o sr. Wesley; cerca de vinte, da Igreja estabelecida, não têm ligação com nenhum; e cerca de setenta são dissidentes — perfazendo, ao todo, cento e sessenta. Há, ainda, muitos outros que auxiliam a obra com contribuições ocasionais.
II. A excelência do projeto e as objeções
1. Estes são os passos dados até aqui. Cabe-me, em segundo lugar, mostrar a excelência do projeto, apesar das objeções levantadas contra ele. E ela pode ser vista por várias considerações. Primeiro: fazer frente aberta a toda a impiedade e injustiça que se derrama como enxurrada sobre a nossa terra é uma das mais nobres maneiras de confessar a Cristo diante dos seus inimigos. É dar glória a Deus e mostrar à humanidade que, mesmo nestes tempos decadentes, ainda há quem prefira a fé e a piedade a Deus, ainda que poucos. E que há de mais excelente do que render a Deus a honra devida ao seu nome? Do que declarar, por prova mais forte que palavras — pelo próprio sofrimento e por correr todos os riscos —, que “certamente há recompensa para o justo; certamente há um Deus que julga na terra”?
2. Que excelência prevenir, em qualquer grau, a desonra feita ao seu glorioso nome, o desprezo derramado sobre a sua autoridade e o escândalo trazido à nossa santa religião pela devassidão flagrante dos que ainda se chamam pelo nome de Cristo! Represar, em qualquer medida, a torrente do vício, conter as cheias da impiedade, remover as ocasiões de se blasfemar o digno nome pelo qual somos chamados — este é um dos mais nobres projetos que podem entrar no coração do homem.
3. E, assim como este projeto tende evidentemente a trazer “glória a Deus nas alturas”, não menos claramente conduz a estabelecer “paz na terra”. Pois, assim como todo pecado tende a destruir a nossa paz com Deus, a bani-la do nosso peito e a armar a espada de cada um contra o próximo, também tudo o que previne ou remove o pecado, na mesma medida, promove a paz — a paz na alma, a paz com Deus e a paz uns com os outros. Tais são os frutos genuínos deste projeto, já no mundo presente. Mas por que confinar a nossa vista aos estreitos limites do tempo? Passemos antes à eternidade. E que fruto acharemos ali? Fale o apóstolo: “Irmãos, se algum de vocês se desviar da verdade, e alguém o converter” (não a esta ou àquela opinião, mas a Deus!), “saiba que aquele que converte o pecador do erro do seu caminho salvará da morte uma alma e cobrirá multidão de pecados” (Tg 5.19–20).
4. E não é só a indivíduos que o benefício deste projeto se estende, mas a toda a comunidade de que somos membros. Pois não é observação certa que “a justiça exalta as nações”? E não é igualmente certo que “o pecado é o opróbrio dos povos”, atraindo sobre eles a maldição de Deus? Na medida em que a justiça é promovida, o interesse nacional é favorecido; na medida em que o pecado, sobretudo o pecado aberto, é contido, a maldição e o opróbrio são afastados de nós. Quem quer que trabalhe nisto é, portanto, benfeitor de todos, o mais verdadeiro amigo do seu país. E, na mesma proporção em que o projeto avança, não há dúvida de que Deus concederá prosperidade à nação, cumprindo a sua fiel palavra: “Aos que me honram, honrarei.”
5. Mas objeta-se: “Por mais excelente que seja o projeto, ele não lhe compete. Não há pessoas a quem cabe propriamente reprimir essas ofensas e punir os infratores? Não há oficiais de paróquia obrigados por juramento a isto mesmo?” Há. Mas, se eles o deixam por fazer — se, apesar dos seus juramentos, não se incomodam com o assunto —, compete a todos os que temem a Deus, amam a humanidade e querem o bem do seu país prosseguir neste projeto com o mesmo vigor como se tais oficiais não existissem; pois, se de nada servem, é o mesmo que se não existissem.
6. “Mas isto é só pretexto: o real objetivo é ganhar dinheiro com as denúncias.” Afirmou-se isto muitas vezes e sem rodeios, mas sem a menor sombra de verdade. O contrário pode ser provado por mil exemplos: nenhum membro da Sociedade toma qualquer parte do dinheiro que a lei destina ao denunciante. Nunca o fizeram, desde o princípio; nem nenhum deles jamais recebe coisa alguma para suprimir ou retirar uma denúncia. É outro engano, se não calúnia deliberada, sem o menor fundamento.
7. “Mas o projeto é impraticável. O vício chegou a tal ponto que é impossível reprimi-lo, sobretudo por tais meios. Que pode um punhado de gente pobre contra o mundo inteiro?” “Aos homens isto é impossível, mas não a Deus.” E eles confiam não em si mesmos, mas nele. Por mais fortes que sejam os patronos do vício, diante dele não passam de gafanhotos. E todos os meios são iguais para Deus: tanto lhe faz “salvar com muitos como com poucos”. Nada é, portanto, o pequeno número dos que estão do lado do Senhor, nem o grande número dos que se lhe opõem. Ele faz o que lhe apraz, e “não há sabedoria, nem força contra o Senhor”.
8. “Mas, se o fim que vocês visam é de fato reformar os pecadores, escolheram o meio errado. Isto é obra da Palavra de Deus, não das leis humanas; é obra dos ministros, não dos magistrados; recorrer a estes só produz uma reforma exterior, sem mudança do coração.” É verdade que a Palavra de Deus é o meio principal e ordinário pelo qual ele muda o coração e a vida dos pecadores, e o faz sobretudo por meio dos ministros do evangelho. Mas também é verdade que o magistrado é “ministro de Deus”, designado por ele “para ser terror dos malfeitores”, executando sobre eles as leis. Se isto não muda o coração, ainda assim prevenir o pecado exterior já é um ponto valioso ganho: há tanto menos desonra feita a Deus, menos escândalo à nossa santa religião, menos maldição sobre a nação, menos tentação posta no caminho dos outros; sim, e menos ira acumulada pelos próprios pecadores para o dia da ira.
9. “Antes, pelo contrário: isso faz de muitos deles hipócritas, que fingem ser o que não são; e a outros, expondo-os à vergonha e à despesa, torna-os descarados e desesperados no mal — de modo que, na verdade, nenhum fica melhor, se não fica pior.” É engano por completo. Pois, primeiro, onde estão esses hipócritas? Não conhecemos nenhum que finja ser o que não é. Segundo, expor à vergonha e à despesa os infratores obstinados não os torna desesperados no ofender, mas receosos de ofender. Terceiro, alguns, longe de piores, estão substancialmente melhores, mudado todo o teor da sua vida. E, quarto, alguns foram interiormente mudados, “das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus”.
10. “Mas muitos não estão convencidos de que comprar ou vender no domingo seja pecado.” Se não estão convencidos, deveriam estar; é bem tempo de estarem. O caso é claríssimo. Pois, se uma quebra aberta e voluntária tanto da lei de Deus quanto da lei do país não é pecado, o que será, então? E, se tal quebra não deve ser punida porque o homem não está convencido de que é pecado, chega-se ao fim de toda execução da justiça, e cada um pode viver como bem quiser.
11. “Mas primeiro se deveriam tentar métodos brandos.” E de fato se tentam. Uma branda admoestação é dada a cada infrator antes de a lei ser aplicada contra ele; nem se processa ninguém sem que tenha aviso expresso de que assim se fará, a menos que ele evite o processo removendo a causa. Em cada caso usa-se o método mais brando que a natureza do caso comporta, e só se aplicam meios mais severos quando são absolutamente necessários.
12. “Pois bem; mas, depois de todo esse rebuliço, que bem real se fez?” Um bem inexprimível, e muito mais do que se poderia esperar em tão pouco tempo, dado o pequeno número dos instrumentos e as dificuldades que enfrentaram. Muito mal já foi prevenido, e muito removido. Muitos pecadores foram exteriormente reformados; alguns, interiormente mudados. A honra daquele cujo nome levamos, tão abertamente afrontada, foi abertamente defendida. E não é fácil calcular quantas e quão grandes bênçãos esta pequena resistência, feita por Deus e pela sua causa, já pode ter atraído sobre toda a nação. Em suma, depois de todas as objeções, os homens razoáveis ainda podem concluir: dificilmente entrou no coração humano projeto mais excelente.
III. Que tipo de homens devem ser
1. Mas que tipo de homens devem ser os que se engajam em tal projeto? Alguns imaginam que qualquer disposto a ajudar deve ser prontamente admitido, e que, quanto maior o número, maior a influência. Mas isto não é verdade; os fatos provam o contrário. Enquanto a antiga Sociedade se compôs só de membros escolhidos — ainda que nem muitos, nem ricos, nem poderosos —, venceu toda oposição e teve êxito notável em cada frente; mas, quando se admitiram membros escolhidos com menos cuidado, foi-se tornando cada vez menos útil, até definhar, por graus insensíveis, até o nada.
2. Não se deve, portanto, atentar ao número mais do que à riqueza ou à posição. Esta é obra de Deus, empreendida em nome de Deus e por amor dele. Segue-se que homens que não amam nem temem a Deus não têm parte nesta questão. “Por que tomas o meu pacto na tua boca”, poderia Deus dizer a qualquer destes, “se tu mesmo odeias a correção e lanças para trás as minhas palavras?” Quem quer que viva em algum pecado conhecido não está apto a reformar pecadores — mais ainda se ele próprio é culpado, em qualquer grau, de profanar o nome de Deus, de comprar, vender ou fazer trabalho desnecessário no domingo, ou de ofender em qualquer daqueles pontos que esta Sociedade visa reformar. Não; que ninguém que ele mesmo precise desta reforma ouse meter-se em tal empreendimento. Primeiro “tire a trave do próprio olho”; seja ele mesmo irrepreensível em tudo.
3. Isto, porém, não basta. Cada um que se engaje aqui deve ser mais que um homem inofensivo: deve ser homem de fé, tendo ao menos tal medida daquela “evidência das coisas que não se veem” que o leve a “olhar não para as que se veem, que são temporais, mas para as que não se veem, que são eternas”; uma fé que produza um temor firme de Deus, com a resolução duradoura, pela graça dele, de abster-se de tudo o que ele proibiu e de fazer tudo o que ordenou. Precisará especialmente daquele ramo particular da fé que é a confiança em Deus. É esta fé que “remove montanhas”, que “apaga a violência do fogo”, que rompe toda oposição e capacita alguém a resistir a mil e a “persegui-los”, sabendo em quem está a sua força e, mesmo tendo “em si a sentença de morte, confiando naquele que ressuscita os mortos”.
4. Quem tem fé e confiança em Deus será, por consequência, homem de coragem. E disso todo o que se engaja neste empreendimento tem grande necessidade, pois muitas coisas ocorrerão que são terríveis à natureza — tão terríveis que todos os que “consultam a carne e o sangue” temerão enfrentá-las. Aqui, portanto, a verdadeira coragem tem o seu lugar, e é necessária no mais alto grau. E só a fé a pode suprir. O crente pode dizer: não temo recusa; nenhum perigo temo; nem recuo diante da prova — pois Jesus está perto.
5. À coragem está de perto ligada a paciência: uma diz respeito aos males futuros, a outra aos presentes. E quem participa de um projeto desta natureza terá grande ocasião para ela. Pois, apesar de toda a sua irrepreensibilidade, achar-se-á na situação de Ismael: “a sua mão contra todos, e a mão de todos contra ele”. E não admira: se é verdade que “todos os que querem viver piamente sofrerão perseguição”, quanto mais isto há de cumprir-se naqueles que, não contentes em viver piamente, ainda constrangem os ímpios a fazê-lo, ou ao menos a absterem-se da impiedade notória! Não é isto declarar guerra ao mundo inteiro? E acaso o próprio Satanás, “o príncipe deste mundo”, não usará toda a sua astúcia e força em socorro do seu reino cambaleante? Quem espera que o leão que ruge submeta mansamente a que lhe arranquem a presa dos dentes? “Vocês têm”, portanto, “necessidade de paciência, para que, tendo feito a vontade de Deus, alcancem a promessa.”
6. E têm necessidade de firmeza, para “reterem sem vacilar a confissão da sua fé”. Isto também deve haver em todos os que se unem nesta Sociedade, que não é tarefa para “homem de ânimo dobre”, “inconstante em todos os seus caminhos”. Quem é como a cana agitada pelo vento não serve para esta guerra, que exige propósito firme, resolução constante e decidida. Quem carece disto pode “pôr a mão no arado”, mas quão depressa “olhará para trás”! Pode até “durar por um tempo; mas, quando vem a perseguição ou a tribulação por causa da obra, logo se escandaliza”.
7. Na verdade, é difícil a qualquer um perseverar em obra tão ingrata, a menos que o amor vença tanto a dor quanto o medo. Por isso é altamente conveniente que todos os empenhados nela tenham “o amor de Deus derramado no coração”, e possam declarar: “Nós o amamos, porque ele nos amou primeiro.” A presença daquele a quem a sua alma ama tornará então leve o seu trabalho. Poderão dizer, não do delírio de uma imaginação exaltada, mas com toda a verdade e sobriedade: conversando contigo, esqueço todo o tempo, o labor e o cuidado; o trabalho é descanso, e a dor é doce, enquanto tu, meu Deus, aqui estás.
8. O que ainda acrescenta maior doçura, mesmo ao labor e à dor, é o cristão “amor ao próximo”. Quando amam o próximo — isto é, toda alma humana — “como a si mesmos”; quando “o amor de Cristo os constrange” a amar-se uns aos outros “como ele nos amou”; quando, assim como ele “provou a morte por todos”, também eles estão “prontos a dar a vida pelos irmãos” (incluindo nesse número toda alma pela qual Cristo morreu), que perspectiva de perigo poderá afugentá-los do seu “trabalho de amor”? Que sofrimento não estarão prontos a suportar para salvar uma só alma das chamas eternas? Assim o amor “tudo espera” e “tudo suporta”; assim “o amor jamais acaba”.
9. O amor é necessário aos membros de tal Sociedade por outra razão ainda: porque “não se ensoberbece”. Ele produz não só coragem e paciência, mas humildade. E, ah, como isto é necessário a todos os que assim se ocupam! Que pode importar mais do que serem pequenos, humildes e vis aos seus próprios olhos? Pois, do contrário, se se julgassem alguma coisa, se atribuíssem algo a si mesmos, se admitissem qualquer coisa do espírito farisaico, “confiando em si mesmos como justos e desprezando os outros”, nada tenderia mais diretamente a derrubar todo o projeto. Pois então teriam contra si não só o mundo inteiro, mas o próprio Deus, visto que ele “resiste aos soberbos e dá graça” só “aos humildes”. Profundamente consciente, portanto, deve cada membro estar da própria insensatez, fraqueza e impotência, dependurado de toda a alma naquele que só tem sabedoria e força, com a inabalável convicção de que “o socorro que se faz na terra, Deus mesmo o faz”, e que é só ele “quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar, segundo a sua boa vontade”.
10. Um ponto mais quem se engaja neste projeto deve trazer gravado no coração: que “a ira do homem não produz a justiça de Deus”. Aprenda, portanto, daquele que era manso e humilde, e permaneça na mansidão tanto quanto na humildade: “com toda a humildade e mansidão”, ande “de modo digno da vocação a que foi chamado”. Seja “gentil para com todos”, bons ou maus, por amor de si, deles e de Cristo. Há alguns “ignorantes e transviados”? Tenha “compaixão” deles. Opõem-se à Palavra e à obra de Deus, e até se põem em ordem de batalha contra ela? Tanto mais precisa ele “instruir com mansidão os que se opõem”, para ver se “escapam do laço do diabo”, em que estão presos à vontade dele.
IV. Com que espírito e de que maneira prosseguir
1. Das qualificações passo a mostrar, em quarto lugar, com que espírito e de que maneira o projeto deve ser conduzido. Primeiro, quanto ao espírito. E isto diz respeito, antes de tudo, ao motivo, que deve ser preservado em cada passo; pois, se em algum momento “a luz que há em ti são trevas, quão grandes são essas trevas! Mas, se o teu olho for bom, todo o teu corpo será luminoso”. Nada, pois, deve ser dito ou feito, grande ou pequeno, com vista a qualquer vantagem temporal; nada, com vista ao favor, à estima ou ao louvor dos homens. A intenção, o olho da mente, deve estar sempre fixo na glória de Deus e no bem do próximo.
2. Mas o espírito com que tudo se deve fazer diz respeito ao ânimo, além do motivo — e não é outro senão o que se descreveu acima. Pois a mesma coragem, paciência e firmeza que qualificam o homem para a obra devem ser nela exercidas. Acima de tudo, tome ele “o escudo da fé”: este apagará mil dardos inflamados. Exerça toda a fé que Deus lhe deu, em cada hora de prova. E faça tudo em amor; nunca deixe que isto lhe seja arrancado. Nem muitas águas apaguem este amor, nem as cheias da ingratidão o afoguem. Haja também nele aquele sentir humilde que houve em Cristo Jesus; sim, “revista-se de humildade”, que lhe encha o coração e adorne todo o comportamento. Ao mesmo tempo, “revista-se de entranhas de misericórdia, brandura e longanimidade”, evitando a mínima aparência de malícia, amargura, ira ou ressentimento — sabendo que a nossa vocação é “não ser vencido pelo mal, mas vencer o mal com o bem”. Para preservar este amor humilde e brando, é preciso fazer tudo com recolhimento de espírito, vigiando contra toda pressa e dispersão do pensamento, tanto quanto contra o orgulho e a rispidez. E isto só se preserva “perseverando em oração”, antes de entrar em campo, depois e durante toda a ação, e fazendo tudo em espírito de sacrifício, oferecendo tudo a Deus por meio do Filho do seu amor.
3. Quanto à maneira exterior de agir, a regra geral é: que ela exprima esses sentimentos interiores. Mas, sendo mais específico: primeiro, cuide cada um de não “praticar o mal para que venha o bem”. Portanto, “deixando de lado toda mentira, fale cada um a verdade ao próximo”. Não use fraude nem ardil, seja para flagrar, seja para punir alguém, mas “com simplicidade e sinceridade que vêm de Deus recomende-se à consciência dos homens, na presença de Deus”. É provável que, por aderir a essas regras, menos infratores sejam condenados; mas tanto mais a bênção de Deus acompanhará todo o empreendimento.
4. Una-se, porém, à inocência a prudência propriamente dita — não aquela cria do inferno a que o mundo chama prudência, que é mera astúcia, esperteza e dissimulação, mas aquela “sabedoria que vem do alto” que o nosso Senhor recomenda a todos os que quiserem promover o seu reino. “Sejam, pois, prudentes como as serpentes”, sendo “simples como as pombas”. Esta sabedoria ensinará como ajustar as palavras e todo o comportamento às pessoas com quem se lida, ao tempo, ao lugar e às demais circunstâncias. Ensinará a cortar ocasião de escândalo, mesmo aos que a buscam, e a fazer as coisas de natureza mais ofensiva do modo menos ofensivo possível.
5. A maneira de falar, sobretudo aos infratores, deve ser sempre profundamente séria (para que não pareça insulto ou triunfo sobre eles), inclinando-se antes à tristeza — mostrando que você tem pena deles pelo que fazem e se compadece do que sofrem. Que o seu ar e o tom de voz, como as palavras, sejam serenos, calmos e brandos; sim, onde não pareça dissimulação, até gentis e amigáveis. Em alguns casos, onde provavelmente será recebido como se pretende, você pode declarar a boa vontade que lhes tem; mas, ao mesmo tempo (para que não se pense que procede de medo), declarando a sua intrepidez e a resolução inflexível de opor-se ao vício e puni-lo até o fim.
V. Aplicação
1. Resta apenas aplicar o que se disse, em parte a vocês que já estão engajados nesta obra, em parte a todos os que temem a Deus, e mais especialmente aos que o amam além de temê-lo. Quanto a vocês que já estão engajados, o primeiro conselho que dou é: considerem com calma e profundidade a natureza do que empreenderam. Saibam o que estão fazendo; conheçam bem o que têm em mãos; ponderem as objeções feitas a todo o empreendimento e, antes de prosseguir, convençam-se de que elas não têm peso real. Então aja cada um conforme estiver plenamente persuadido na própria mente.
2. Aconselho, segundo: não tenham pressa de aumentar o número. E, ao admitir alguém, não olhem à riqueza, à posição ou a qualquer circunstância exterior, mas só às qualificações descritas. Indaguem com diligência se a pessoa proposta é de conduta irrepreensível, e se é homem de fé, coragem, paciência e firmeza; se ama a Deus e ao próximo. Se sim, ele acrescentará à sua força, além do número; se não, vocês perderão nele mais do que ganham, pois desagradarão a Deus. E não temam expurgar do meio de vocês qualquer que não corresponda ao caráter descrito. Diminuindo assim o número, aumentarão a força: serão “vasos úteis ao Mestre”.
3. Aconselho, terceiro: observem de perto de que motivo agem ou falam a cada vez. Cuidem que a intenção não seja manchada por consideração alguma de lucro ou louvor. O que quer que façam, “façam-no para o Senhor, como servos de Cristo”. Não visem agradar a si mesmos em ponto algum, mas àquele de quem são e a quem servem. Seja o seu olho bom, do princípio ao fim; olhem só para Deus em cada palavra e obra.
4. Aconselho, em quarto lugar: cuidem de fazer tudo no devido ânimo — com humildade e mansidão, com paciência e brandura, dignos do evangelho de Cristo. Deem cada passo confiando em Deus, no espírito mais terno e amoroso de que forem capazes. Entretanto, vigiem sempre contra toda pressa e dispersão de espírito; e orem sempre, com todo o fervor e perseverança, para que a sua fé não desfaleça. E que nada interrompa aquele espírito de sacrifício que fazem de tudo o que têm e são, de tudo o que sofrem e fazem, para que seja oferta de aroma suave a Deus, por Jesus Cristo!
5. Quanto à maneira de agir e falar, aconselho que o façam com toda a inocência e simplicidade, prudência e seriedade. Acrescentem a isso toda a calma e brandura possíveis; sim, toda a ternura que o caso comportar. Não devem portar-se como açougueiros ou carrascos, mas antes como cirurgiões, que não causam ao paciente mais dor do que a necessária à cura. Para isso, cada um de vocês precisa de “mão de dama e coração de leão”. Assim, muitos até dos que forem obrigados a punir “glorificarão a Deus no dia da visitação”.
6. Exorto a todos vocês que temem a Deus — como esperam achar misericórdia das mãos dele, e como receiam ser achados (mesmo sem o saber) “lutando contra o próprio Deus” — a que não se oponham, por razão ou pretexto algum, direta ou indiretamente, a projeto tão misericordioso e tão propício à glória dele. Mas isto não é tudo. Se vocês amam a humanidade, se anseiam por diminuir os pecados e as misérias dos seus semelhantes, poderão contentar-se, poderão estar limpos diante de Deus, apenas por não se oporem? Não estão também vinculados pelos laços mais sagrados a “fazer o bem a todos, enquanto têm oportunidade”? E não está aqui uma oportunidade de fazer bem a muitos, o bem do mais alto tipo? Em nome de Deus, então, abracem a oportunidade! Auxiliem nesta boa obra, se não de outro modo, ao menos com as suas fervorosas orações por quem nela trabalha diretamente. Auxiliem, na medida das forças, a custear a despesa que ela necessariamente acarreta, e que, sem a ajuda de pessoas caridosas, seria fardo insuportável. Ao menos auxiliem agora; usem a hora presente, fazendo o que Deus puser no coração. Que não se diga que vocês viram os seus irmãos trabalhando por Deus e não os quiseram ajudar sequer com um dedo. Deste modo, ao menos, “venham em socorro do Senhor, em socorro do Senhor contra os poderosos”!
7. Tenho, porém, uma demanda maior sobre vocês que amam a Deus, além de temê-lo. Aquele a quem vocês temem e amam os qualificou para promover a sua obra de modo mais excelente. Porque amam a Deus, amam também o irmão; amam não só os amigos, mas os inimigos; não só os amigos, mas até os inimigos de Deus. Vocês se “revestiram, como escolhidos de Deus, de humildade, brandura e longanimidade”. Têm fé em Deus e em Jesus Cristo, a quem ele enviou — fé que vence o mundo; e com isto vencem tanto a vergonha má quanto aquele “temor dos homens que arma um laço”, de modo que podem manter-se com ousadia diante dos que os desprezam. Qualificados e armados para a luta, serão vocês como os filhos de Efraim, “que, munidos de arco, voltaram as costas no dia da batalha”? Deixarão uns poucos irmãos sozinhos contra todas as hostes dos inimigos? Ah, não digam: “Esta cruz é pesada demais; não tenho força nem coragem para carregá-la!” É verdade — não de si mesmos; mas vocês, que creem, “tudo podem naquele que os fortalece”. “Se podes crer, tudo é possível ao que crê.” Nenhuma cruz é pesada demais para quem sabe que os que “com ele sofrem, com ele hão de reinar”.
8. Não digam: “Mas não suporto ser diferente de todos.” Então não podem entrar no reino dos céus; ninguém ali entra senão pela porta estreita, e todos os que por ela andam são diferentes. Não digam: “Não suporto a pecha odiosa de delator.” E que homem jamais salvou a sua alma sem se tornar objeto de opróbrio? Tampouco você salvará a sua, a menos que se disponha a que os homens digam contra você todo mal. Não digam: “Se eu me empenhar nesta obra, perderei a reputação, os amigos, os clientes, o negócio, o sustento, e cairei na pobreza.” Não cairá; não pode cair — é de todo impossível, a menos que o próprio Deus assim o escolha, pois o “reino dele domina sobre tudo”, e “até os cabelos da sua cabeça estão todos contados”. Mas, se o sábio e bondoso Deus o escolher para você, irá você murmurar? Não dirá antes: “O cálice que o Pai me deu, não hei de bebê-lo?” Se você “sofre por Cristo, bem-aventurado é; o Espírito da glória e de Deus repousa sobre você”.
9. Não digam: “Eu sofreria tudo, mas minha esposa não consente; e, certamente, o homem deve deixar pai e mãe e unir-se à esposa.” É verdade — deixar tudo, menos Deus, menos Cristo; mas a Cristo ele não deve deixar pela esposa! Nenhum dever se há de omitir pelo mais querido dos parentes. O próprio Senhor disse, neste exato sentido: “Quem ama pai, mãe, esposa ou filhos mais do que a mim não é digno de mim.” Não digam: “Pois eu abandonaria tudo por Cristo; mas um dever não deve estorvar outro, e isto muitas vezes me impediria o culto público.” Às vezes, provavelmente impediria. “Vá, então, e aprenda o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício.” E o que quer que se perca por mostrar esta misericórdia, Deus o retribuirá multiplicado no seu seio. Não digam: “Mas prejudicarei a minha própria alma; sou jovem, e, lidando com mulheres perdidas, exponho-me à tentação.” Sim, se você o fizesse na própria força, ou para o próprio prazer. Mas não é esse o caso: você confia em Deus, e busca agradar só a ele. E, se ele o chamar até o meio de uma fornalha ardente, “ainda que andes pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti”.
10. “É verdade, se ele me chamasse à fornalha; mas não vejo que eu seja chamado a isto.” Talvez você não queira vê-lo. Contudo, se não foi chamado antes, eu o chamo agora, em nome de Cristo: tome a sua cruz e siga-o! Não discuta mais com a carne e o sangue, mas resolva desde já lançar a sua sorte com os mais desprezados, os mais infames dos seus seguidores — a escória do mundo! Chamo em particular você, que um dia fortaleceu as mãos deles, mas depois recuou. Coragem! Seja forte! Complete a alegria deles, voltando de coração e mão! Mostre que você “se afastou por um tempo, para que o recebessem de volta para sempre”. Ah, não seja “desobediente à visão celestial”! E, quanto a todos vocês que sabem para que foram chamados, tenham tudo por perda, contanto que salvem uma alma pela qual Cristo morreu! E nisto “não se preocupem com o amanhã”, mas “lancem toda a sua ansiedade sobre aquele que cuida de vocês”! Confiem a ele a alma, o corpo e os bens — tudo —, “como a um Criador fiel e misericordioso”!
Nota do próprio Wesley: depois de subsistir vários anos, tendo feito um bem inexprimível, esta Sociedade foi inteiramente desfeita por um veredicto proferido contra ela no Tribunal do Rei, com trezentas libras de indenização. Receio que uma severa prestação de contas ainda aguarda as testemunhas, o júri e todos os envolvidos naquele lamentável episódio.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.