SERMÃO 55

Sobre a Trindade

Pregado em Cork, Irlanda, e escrito às pressas em 8 de maio de 1775.

1Jo 5.7, Texto Recebido ⏱ 14 min de leituraDeus, criação e providência

“Três são os que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um.”

(1Jo 5.7, Texto Recebido)

Antes de ler

Uma nota necessária sobre o texto. Wesley prega a partir de 1João 5.7 na forma do Texto Recebido — a chamada "vírgula joanina", que traz explicitamente "no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo". A NAA, seguindo o texto crítico (os manuscritos mais antigos), não traz essa cláusula: o versículo lê apenas "Três são os que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes" (1Jo 5.7–8). Preservo o texto de Wesley porque todo o sermão se apoia nele — e, curiosamente, o próprio Wesley discute a autenticidade da passagem no §5. A doutrina da Trindade, porém, não depende deste único versículo: repousa sobre o conjunto das Escrituras.

Quanto ao conteúdo, este é um dos sermões mais originais de Wesley. Ele começa com uma distinção cara ao nosso jeito wesleyano: opinião não é religião. Pessoas podem estar certas em tudo e não ter religião nenhuma; e verdadeiros cristãos podem sustentar muitas opiniões erradas. Mas há verdades que tocam o coração da fé, e esta é uma delas. A tese central é elegante: Deus nos pede que creiamos no fato revelado — que ele é Três e Um —, não que expliquemos o modo, que ele não revelou. E Wesley ilustra com bom humor: você crê no sol, na luz, no ar, na terra, na sua própria alma e no seu corpo, sem compreender o modo de nenhum deles. Registro apenas que, no §1, Wesley ataca com dureza a predestinação absoluta — o que combina com a nossa teologia arminiana — mas sem negar que muitos calvinistas são cristãos sinceros. Fica a lição de fundo: firmeza no essencial, caridade no que é opinião.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Nota de Wesley: Pediram-me, dias atrás, que pregasse sobre este texto. Fi-lo ontem de manhã. À tarde, insistiram que eu o escrevesse e imprimisse, se possível, antes de deixar Cork. Escrevi-o esta manhã; mas peço ao leitor que releve as desvantagens sob as quais trabalho, pois aqui não tenho livros a consultar, nem tempo para consultá-los. Cork, 8 de maio de 1775.

1. Pense o povo em geral o que pensar, é certo que opinião não é religião — não, nem a opinião correta, o assentimento a uma ou a dez mil verdades. Há larga diferença entre as duas coisas: até a opinião correta está tão distante da religião quanto o oriente do ocidente. As pessoas podem estar inteiramente certas nas suas opiniões e, contudo, não ter religião alguma; e, por outro lado, podem ser verdadeiramente religiosas sustentando muitas opiniões erradas. Poderá alguém duvidar disto, enquanto houver católicos romanos no mundo? Pois quem negará que muitos deles não só foram verdadeiramente religiosos — como Tomás de Kempis, Gregório López e o Marquês de Renty —, mas que muitos deles, ainda hoje, são cristãos reais e interiores? E, no entanto, que amontoado de opiniões errôneas eles sustentam, recebidas por tradição dos seus pais! Aliás, quem duvidará disto, enquanto houver calvinistas no mundo, defensores da predestinação absoluta? Pois quem ousará afirmar que nenhum deles é homem verdadeiramente religioso? Não só muitos deles, no século passado, foram luzes que ardiam e brilhavam, mas muitos deles são hoje cristãos reais, que amam a Deus e a toda a humanidade. E, contudo, que são todas as opiniões absurdas de todos os romanistas do mundo, comparadas àquela única — de que o Deus de amor, o sábio, justo e misericordioso Pai dos espíritos de toda carne, fixou, desde toda a eternidade, um decreto absoluto, imutável e irresistível, de que parte da humanidade será salva, faça o que fizer, e o restante será condenado, faça o que puder?

2. Daqui não podemos senão inferir que há dez mil enganos que podem coexistir com a religião verdadeira, e sobre os quais todo homem sincero e ponderado pensará e deixará pensar. Mas há algumas verdades mais importantes que outras; e algumas, ao que parece, de profunda importância. Não as chamo de verdades fundamentais, porque essa é palavra ambígua, e daí terem surgido tantas disputas acaloradas sobre o número dos fundamentos. Mas certamente há algumas que muito nos importa conhecer, por terem estreita ligação com a religião viva. E, sem dúvida, entre estas podemos incluir a que se contém nas palavras acima citadas: três são os que dão testemunho no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um.

3. Não quero dizer que seja importante crer nesta ou naquela explicação dessas palavras. Não sei se algum homem de bom juízo tentaria explicá-las de todo. Um dos melhores tratados que aquele grande homem, o deão Swift, jamais escreveu, foi o seu sermão sobre a Trindade. Nele mostra que todos os que tentaram explicá-la perderam de todo o rumo, e, mais que ninguém, prejudicaram a causa que pretendiam promover, apenas “escurecendo o conselho com palavras sem conhecimento”, como diz Jó. Foi em má hora que esses explicadores começaram a sua obra infrutífera. Não insisto em explicação alguma; não, nem sequer na melhor que já vi — refiro-me à que nos é dada no credo comumente atribuído a Atanásio. Estou longe de dizer: “Quem não assentir a isto certamente perecerá para sempre.” Por causa dessa e de outra cláusula, por algum tempo tive escrúpulo em subscrever aquele credo, até considerar: primeiro, que essas sentenças só se referem aos incrédulos voluntários, não aos involuntários — àqueles que, tendo todos os meios de conhecer a verdade, ainda assim obstinadamente a rejeitam; segundo, que se referem só à substância da doutrina ali exposta, não às suas ilustrações filosóficas.

4. Não ouso insistir em que alguém use a palavra “Trindade” ou “Pessoa”. Eu mesmo as uso sem escrúpulo, porque não conheço termos melhores; mas, se alguém tem algum escrúpulo quanto a elas, quem o constrangerá a usá-las? Eu não; muito menos queimaria um homem vivo — e ainda por cima com lenha verde e úmida — por dizer: “Embora eu creia que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, tenho escrúpulo em usar as palavras ‘Trindade’ e ‘Pessoas’, porque não encontro esses termos na Bíblia.” Estas são as palavras que o misericordioso João Calvino cita como escritas por Serveto numa carta a ele. Eu insistiria apenas nas palavras diretas, sem explicação, tal como estão no texto: três são os que dão testemunho no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um.

5. “Tal como estão no texto” — mas aqui surge uma questão: será esse texto genuíno? Foi originalmente escrito pelo apóstolo, ou inserido em épocas posteriores? Muitos duvidaram disto, em particular aquela grande luz da Igreja cristã, há pouco recolhida à Igreja de cima, Bengel — o mais piedoso, criterioso e laborioso de todos os comentaristas modernos do Novo Testamento. Por algum tempo ele esteve em dúvida quanto à autenticidade, porque a passagem falta em muitas cópias antigas. Mas as suas dúvidas foram removidas por três considerações: primeira, que, embora falte em muitas cópias, acha-se em mais, e nas de maior autoridade; segunda, que é citada por toda uma cadeia de escritores antigos, desde o tempo de João até o de Constantino — argumento conclusivo, pois não poderiam citá-la se não estivesse no cânon sagrado; terceira, que é fácil explicar por que, após aquele tempo, ela falta em muitas cópias, ao lembrarmos que o sucessor de Constantino foi um ariano zeloso, que usou de todos os meios para promover a sua má causa e espalhar o arianismo pelo império — em particular, apagando este texto de tantas cópias quantas lhe caíam nas mãos. E de tal modo prevaleceu que a época em que viveu é comumente chamada de “o século ariano”, havendo então um só homem eminente que se lhe opôs com risco da própria vida — de sorte que ficou o provérbio: Atanásio contra o mundo.

Você já crê em muitas coisas que não compreende

6. Mas objeta-se: “Seja qual for a sorte do texto, não podemos crer no que não podemos compreender. Quando, portanto, vocês nos exigem crer em mistérios, pedimos que nos deem licença.” Há aqui um duplo engano: primeiro, não lhe exigimos crer em mistério algum nisto, embora você suponha o contrário; segundo, você já crê em muitas coisas que não pode compreender.

7. Comecemos por esta última. Você já crê em muitas coisas que não pode compreender. Pois crê que há um sol sobre a sua cabeça. Mas se ele está imóvel no meio do seu sistema, ou se não só gira sobre o próprio eixo, mas se alegra como um herói a correr o seu caminho, você não pode compreender nem uma coisa nem outra: nem como ele se move, nem como repousa. Por que poder — que poder natural e mecânico — é ele sustentado no fluido? Você não pode negar o fato; mas não sabe explicá-lo de modo que satisfaça um investigador racional. Pode, sim, apresentar-me a hipótese de Ptolomeu, de Tycho Brahe, de Copérnico e de vinte outros. Li-as vezes sem conta; estou farto delas; não dou três palhas por todas elas. Cada nova solução apenas oferece novo jogo de termos e andaimes de palavras; noutra roupagem recebo a minha pergunta, e recupero a mesmíssima dúvida que dei. Ainda insisto: o fato, você crê, não pode negá-lo; mas o modo, não pode compreendê-lo.

8. Você crê que existe a luz, quer flua do sol, quer de qualquer outro corpo luminoso; mas não pode compreender nem a sua natureza, nem o modo como ela flui. Como se move de Júpiter à terra em oito minutos — duzentos mil quilômetros num instante? Como os raios da vela, trazida ao aposento, se dispersam de imediato por cada canto? Além disso: aqui estão três velas, e há, contudo, uma só luz. Explique-me isto, e eu lhe explicarei o Deus Três-e-Um.

9. Você crê que existe o ar. Ele o cobre como uma veste e, amplamente difundido, abraça toda esta terra florida. Mas pode compreender como? Pode dar-me conta satisfatória da sua natureza, ou da causa das suas propriedades? Pense só numa, a elasticidade: pode explicá-la? Talvez se deva a um fogo elétrico ligado a cada partícula dele; talvez não; e nem você nem eu o sabemos dizer. Mas, se não respirarmos o ar enquanto não o compreendermos, a nossa vida está bem perto do fim.

10. Você crê que existe a terra. Sobre ela firma o pé; por ela é sustentado. Mas compreende o que é que sustenta a terra? “Ah, um elefante”, diz um filósofo do Malabar, “e um touro o sustenta.” Mas o que sustenta o touro? O indiano e o britânico ficam igualmente sem resposta. Sabemos que é Deus que “estende o norte sobre o vazio e faz pairar a terra sobre o nada”. Este é o fato. Mas como? Quem pode explicá-lo? Talvez criaturas angélicas, mas não humanas. Sei o que se diz, com plausibilidade, sobre as forças de projeção e atração. Mas, por mais fino que fiemos a teoria, o fato varre a nossa teia de aranha. Combine as forças de projeção e de atração como puder: nunca produzirão um movimento circular. No momento em que o aço lançado entra no campo de atração do ímã, ele não descreve uma curva, mas cai direto.

11. Você crê que tem uma alma. “Alto lá”, diz o doutor; “não creio em tal coisa. Se você tem uma alma imaterial, os brutos também a têm.” Não brigarei com quem pensa que a tem; antes, quisera que ele pudesse prová-lo; e por certo eu preferiria conceder-lhes almas a abrir mão da minha. Nisto concordo de coração com o sentimento do honesto pagão: “Se erro, erro de boa vontade; e recuso com veemência ser convencido do contrário.” E confio em que a maioria dos que não desmentem a Trindade é do mesmo parecer. Permita-me, então, prosseguir. Você crê que tem uma alma ligada a esta casa de barro. Mas pode compreender como? Que laços unem a chama celeste ao torrão terreno? Você não entende absolutamente nada da questão. É assim; mas como, ninguém o sabe dizer.

12. Certamente você crê que tem um corpo, além da alma, e que cada um depende do outro. Espete apenas um espinho na sua mão: no mesmo instante a dor é sentida na alma. Por outro lado, a alma sente vergonha? No mesmo instante o rubor cobre a sua face. Sente a alma medo ou ira violenta? Logo o corpo treme. Também estes são fatos que você não pode negar, nem explicar.

13. Trago apenas mais um exemplo: ao comando da sua alma, a sua mão se levanta. Mas quem é capaz de explicar isto — a conexão entre o ato da mente e a ação exterior? Aliás, quem pode explicar o movimento muscular, em qualquer caso que seja? Quando um dos mais engenhosos médicos da Inglaterra terminou a sua aula sobre esse ponto, acrescentou: “Ora, senhores, expus-lhes todas as descobertas da nossa era esclarecida; e agora, se vocês entendem um mínimo da questão, entendem mais do que eu.” Em suma: os que não creem senão no que podem compreender não devem crer que há um sol no firmamento; que há luz brilhando ao redor deles; que há ar, embora os cerque por todos os lados; que há terra, embora estejam de pé sobre ela. Não devem crer que têm alma; não, nem sequer que têm corpo.

Crer no fato, não no modo

14. Mas, em segundo lugar — por mais estranho que pareça —, ao pedir-lhe que creia que “três são os que dão testemunho no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo, e estes três são um”, não se lhe pede que creia em mistério algum. Aliás, aquele grande e bom homem, Dr. Peter Browne, algum tempo bispo de Cork, provou largamente que a Bíblia não pede que se creia em mistério nenhum. Ela apenas pede que se creia nos fatos, não no modo deles. Ora, o mistério não está no fato, mas inteiramente no modo. Por exemplo: Deus disse “Haja luz, e houve luz.” Creio nisto; creio no fato simples: não há mistério algum nisto. O mistério está no modo. Mas deste eu não creio nada; nem Deus mo exige. Ainda: “A Palavra se fez carne.” Creio também neste fato. Não há mistério nele; mas, quanto ao modo como ela se fez carne — no que está o mistério —, nada sei a respeito, nada creio a respeito: não é mais objeto da minha fé do que do meu entendimento.

15. Aplicando isto ao caso presente: três são os que dão testemunho no céu, e estes três são um. Creio também neste fato (se assim posso exprimir-me): que Deus é Três e Um. Mas o modo como isto é, não o compreendo, e dele não creio nada. Ora, nisto, no modo, é que está o mistério; e que esteja — não tenho nada com isso: não é objeto da minha fé. Creio exatamente tanto quanto Deus revelou, e nada mais. Mas isto, o modo, ele não revelou; portanto, nada creio a respeito. Não seria absurdo negar o fato porque não entendo o modo? Isto é, rejeitar o que Deus revelou porque não compreendo o que ele não revelou.

16. Este é um ponto muito digno de nota. Há muitas coisas “que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais penetraram no coração do homem”. Parte destas Deus “nos revelou pelo seu Espírito” — “revelou”, isto é, desvelou, descobriu; essa parte ele nos manda crer. Outra parte ele não revelou; essa não precisamos, nem podemos, crer: está muito acima, fora da nossa vista. Ora, onde está a sabedoria de rejeitar o que é revelado porque não entendemos o que não é revelado? De negar o fato que Deus desvelou porque não podemos ver o modo, que continua velado?

Por que isto toca o coração da fé

17. Sobretudo quando consideramos que aquilo que Deus se dignou revelar sobre este ponto está longe de ser matéria indiferente: é verdade da mais alta importância. Entra no próprio coração do cristianismo; está no âmago de toda religião viva. Pois, se estes Três não são Um, como poderão “todos honrar o Filho, assim como honram o Pai”? “Não sei o que fazer”, diz Sócino numa carta ao amigo, “com os meus obstinados seguidores: não querem adorar Jesus Cristo. Digo-lhes que está escrito: ‘Todos os anjos de Deus o adorem.’ Respondem: ‘Seja como for, se ele não é Deus, não ousamos adorá-lo, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele servirás.’” Mas o que aqui particularmente quero dizer é isto: o conhecimento do Deus Três-e-Um está entretecido em toda verdadeira fé cristã, em toda religião viva. Não digo que todo cristão real possa dizer, com o Marquês de Renty: “Trago continuamente comigo uma verdade experimental e uma plenitude da presença da sempre bendita Trindade.” Entendo que esta não é a experiência dos “meninos”, mas antes a dos “pais em Cristo”. Mas não vejo como alguém possa ser um crente cristão até ter, como diz João, “o testemunho em si mesmo”; até que “o Espírito de Deus testemunhe com o seu espírito que ele é filho de Deus” — isto é, na prática, até que Deus Espírito Santo testemunhe que Deus Pai o aceitou pelos méritos de Deus Filho. E, tendo esse testemunho, ele honra o Filho e o bendito Espírito, “assim como honra o Pai”.

18. Não que todo crente cristão advirta nisto — a princípio, talvez, nem um em vinte; mas, se você lhe fizer algumas perguntas, verá facilmente que está implícito naquilo em que ele crê. Por isso, não vejo como seja possível a alguém ter religião viva negando que estes Três são um. E toda a minha esperança por eles não é que sejam salvos enquanto na sua incredulidade (a não ser no mesmo pé dos pagãos honestos, sob a alegação de ignorância invencível), mas que Deus, antes que partam desta vida, “os conduza ao conhecimento da verdade”.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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