DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 2

Dificuldades na Geórgia; Peter Böhler; “Senti meu coração estranhamente aquecido”

O processo em Savannah e a fuga da Geórgia; a confissão no mar (“quem me converterá?”); Peter Böhler e a fé viva — até a noite de 24 de maio de 1738, na rua Aldersgate, quando o coração de Wesley foi “estranhamente aquecido”.

1737–1738 ⏱ 42 min de leituraAldersgate

“Senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e foi-me dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados — os meus mesmos.”

(Diário, 24 de maio de 1738)

Antes de ler

Este é o capítulo central do Diário — e um dos textos mais importantes da história do cristianismo evangélico. Ele começa com o naufrágio do ministério de Wesley na Geórgia: o desgaste com a família Causton, o processo forjado, a saída humilhante. E Deus usou até esse fracasso: foi na viagem de volta que Wesley escreveu a página mais honesta do Diário — “Fui à América converter os indígenas; mas ah! quem me converterá?… Tenho uma bela religião de verão.”

Sobre o episódio que deu origem ao processo: Wesley, como pastor, aplicou a disciplina eclesiástica da Igreja da Inglaterra ao excluir da Ceia uma paroquiana que não atendera às regras — mas havia também, ao fundo, a história de um afeto frustrado entre os dois, que os adversários exploraram sem escrúpulo. Parte do próprio júri reconheceu por escrito o artifício. O episódio mostra um Wesley íntegro nas regras e ainda imaturo no coração; o Diário não esconde nem uma coisa nem outra.

No centro do capítulo está Peter Böhler, o morávio a quem devemos a frase célebre: “Pregue a fé até tê-la; e então, porque a terá, pregará a fé.” Em 24 de maio de 1738, numa reunião na rua Aldersgate, ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos, Wesley recebeu o que buscava: não uma doutrina nova, mas o testemunho interior do Espírito (Rm 8.16) — a certeza pessoal de que Cristo tirou “os meus pecados, os meus mesmos”. Ali nasceu, na prática, o metodismo como movimento de fé viva.

Note-se: Wesley já era batizado, ordenado, missionário e zeloso. Aldersgate não foi a troca de uma religião falsa por outra verdadeira, mas a passagem da religião do esforço para a fé que descansa em Cristo — a diferença, como ele mesmo escreve, entre lutar e ser “sempre vencedor”. Fica a pergunta pastoral: a nossa fé é a do servo ou a do filho? (Gl 4.6-7)

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Wesley começa a aprender espanhol

1737. Sexta-feira, 4 de março. Escrevi aos administradores da Geórgia prestando contas das nossas despesas de um ano, de 1º de março de 1736 a 1º de março de 1737, as quais, descontados os gastos extraordinários — como o reparo da casa pastoral e as viagens a Frederica —, somaram, para o senhor Delamotte e para mim, 44 libras, 4 xelins e 4 pence.

Segunda-feira, 4 de abril. Comecei a aprender espanhol, para conversar com os meus paroquianos judeus, alguns dos quais parecem mais próximos da mente que havia em Cristo do que muitos dos que o chamam Senhor.

Terça-feira, 12. Decidido a pôr fim, se possível, aos procedimentos de um homem na Carolina que havia casado vários dos meus paroquianos sem proclamas nem licença, e declarava que continuaria a fazê-lo, parti num barco para Charleston. Desembarquei na quinta-feira e relatei o caso ao senhor Garden, comissário do bispo de Londres, que me assegurou que cuidaria para que tal irregularidade não voltasse a acontecer.

Domingo, 3 de julho. Logo depois da santa comunhão, mencionei à senhora Williamson (sobrinha do senhor Causton) algumas coisas que me pareciam repreensíveis no seu comportamento. Ela se mostrou extremamente irritada, disse que não esperava tal tratamento de mim e, na esquina da rua pela qual voltávamos para casa, retirou-se abruptamente. No dia seguinte, a senhora Causton procurou desculpá-la; disse-me que a moça estava muito pesarosa pelo que se passara e pediu que eu lhe dissesse por escrito o que me desagradava — o que fiz no dia seguinte.

Antes, porém, enviei ao senhor Causton o seguinte bilhete:

“Senhor: até esta hora o senhor se mostrou meu amigo; sempre o reconheci e sempre o reconhecerei. E é o meu desejo sincero que aquele que até aqui me deu essa bênção continue a concedê-la. Mas isso não será possível, a menos que o senhor me conceda um pedido — que não é tão simples quanto parece: não me condene por fazer, no exercício do meu ofício, aquilo que entendo ser meu dever. Se o senhor conseguir conceder-me isso, mesmo quando eu agir sem acepção de pessoas, estou persuadido de que nunca haverá, ao menos por muito tempo, mal-entendido entre nós. Pois mesmo os que buscam ocasião contra mim não a acharão, confio, ‘a não ser no tocante à lei do meu Deus’ (Dn 6.5). — 5 de julho de 1737.”

Quarta-feira, 6. O senhor Causton veio à minha casa com o bailio Parker e com o escrivão e perguntou, exaltado: “Como o senhor pôde imaginar que eu o condenaria por exercer qualquer parte do seu ofício?” Respondi curto: “Senhor, e se eu entender que é dever do meu ofício excluir da santa comunhão alguém da sua família?” Ele replicou: “Se o senhor excluir a mim ou à minha esposa, exigirei uma razão legal. Com os demais não me incomodarei; que cuidem de si mesmos.”

Mandado de prisão contra Wesley

Domingo, 7 de agosto. Excluí a senhora Williamson da santa comunhão. Na segunda-feira, dia 8, o escrivão de Savannah expediu o seguinte mandado:

“Geórgia, Savannah. A todos os condestáveis, oficiais e demais a quem interessar: ficam todos e cada um obrigados a deter a pessoa de John Wesley, clérigo, e conduzi-lo perante um dos bailios desta cidade, para responder à queixa de William Williamson e de Sophia, sua esposa, por difamar a dita Sophia e por recusar-se, sem causa, a ministrar-lhe o sacramento da Ceia do Senhor em congregação pública — pelo que o dito William Williamson se dá por lesado em mil libras esterlinas. Para tanto, este é o vosso mandado, que certifica o que deveis fazer no caso. Dado sob minha mão e selo, aos 8 dias de agosto do ano do Senhor de 1737. — Tho. Christie.”

Terça-feira, 9. O senhor Jones, o condestável, cumpriu o mandado e levou-me perante o bailio Parker e o escrivão. Minha resposta foi que, sendo o dar ou o recusar a Ceia do Senhor matéria puramente eclesiástica, eu não podia reconhecer o poder deles para me interrogar sobre ela. O senhor Parker disse: “De todo modo, o senhor deverá comparecer ao próximo tribunal de Savannah.” O senhor Williamson, que estava ao lado, disse: “Senhores, peço que o senhor Wesley preste fiança pelo seu comparecimento.” Mas o senhor Parker respondeu de imediato: “Senhor, a palavra do senhor Wesley é suficiente.”

Quinta-feira, 11. O senhor Causton veio à minha casa e, entre muitas outras palavras duras, disse: “Ponha fim a este caso; é o que o senhor tem de melhor a fazer. Tratarem assim a minha sobrinha! Desembainhei a espada e não a guardarei enquanto não tiver satisfação.”

Logo depois acrescentou: “Dê as razões da exclusão dela diante de toda a congregação.” Respondi: “Senhor, se o senhor insiste, eu o farei; e pode dizer-lhe isso.” Ele disse: “Escreva-lhe e diga-lhe o senhor mesmo.” Eu disse: “Escreverei”; e, depois que ele saiu, escrevi o seguinte:

“À senhora Sophia Williamson. A pedido do senhor Causton, escrevo mais uma vez. As regras pelas quais procedo são estas: ‘Todos os que pretendem participar da santa comunhão comunicarão os seus nomes ao cura, no mínimo em algum momento do dia anterior.’ Isso a senhora não fez. ‘E, se algum destes tiver feito mal ao próximo, por palavra ou por obra, de modo que a congregação fique escandalizada, o cura o advertirá de que de modo algum se atreva a chegar à mesa do Senhor enquanto não declarar abertamente que de verdade se arrependeu.’ Se a senhora se apresentar à mesa do Senhor no domingo, eu a advertirei (como já fiz mais de uma vez) do mal que praticou. E, quando houver declarado abertamente o seu verdadeiro arrependimento, eu lhe ministrarei os mistérios de Deus. — John Wesley, 11 de agosto de 1737.”

Quando o senhor Delamotte levou a carta, o senhor Causton disse, entre muitas outras expressões acaloradas: “Eu é que sou o ofendido. A afronta é contra mim, e tomarei a causa da minha sobrinha. Fui maltratado, e terei satisfação, se é que ela pode ser achada neste mundo.”

De que maneira essa satisfação haveria de ser obtida, eu ainda não concebia; mas na sexta-feira e no sábado começou a aparecer: o senhor Causton declarou a muitas pessoas que “o senhor Wesley excluíra Sophy da santa comunhão por pura vingança, porque lhe fizera propostas de casamento, que ela rejeitou para casar-se com o senhor Williamson”.

As acusações do júri contra Wesley

Terça-feira, 16. A senhora Williamson jurou e assinou uma declaração que insinuava muito mais do que afirmava; mas afirmava que o senhor Wesley lhe propusera casamento muitas vezes, propostas que ela sempre teria rejeitado. Pedi cópia do documento. O senhor Causton respondeu: “O senhor pode obter uma em qualquer jornal da América.”

Na quinta e na sexta-feira divulgou-se uma lista de vinte e seis homens que deveriam reunir-se como grande júri na segunda-feira, dia 22. Mas no dia seguinte essa lista foi recolhida, e vinte e quatro nomes lhe foram acrescentados. Desse grande júri (do qual só quarenta e quatro compareceram), um era francês e não entendia inglês; um, católico romano; um, incrédulo declarado; três eram batistas; dezesseis ou dezessete, dissidentes de outras confissões; e vários outros tinham desavenças pessoais comigo e haviam jurado vingança abertamente.

A esse grande júri o senhor Causton dirigiu, na segunda-feira, dia 22, uma longa e veemente exortação para que “se acautelassem da tirania espiritual e se opusessem à nova e ilegal autoridade usurpada sobre as suas consciências”. Leu-se então a declaração da senhora Williamson; depois do que o senhor Causton entregou ao júri um documento intitulado “Lista de agravos, apresentada pelo grande júri de Savannah, neste dia de agosto de 1737”. A maioria do júri o alterou em alguns pontos e, na quinta-feira, 1º de setembro, devolveu-o ao tribunal sob a forma de duas denúncias, com dez acusações, que foram então lidas ao povo. Nelas se afirmava, sob juramento, “que John Wesley, clérigo, violara as leis do reino, contra a paz do nosso soberano senhor o Rei, sua coroa e dignidade:

“1. Por falar e escrever à senhora Williamson contra o consentimento do marido. 2. Por excluí-la da santa comunhão. 3. Por não declarar a sua adesão à Igreja da Inglaterra. 4. Por dividir o culto matinal dos domingos. 5. Por recusar-se a batizar o filho do senhor Parker de outro modo que não por imersão, a menos que os pais atestassem que a criança era fraca e não poderia suportá-la. 6. Por excluir William Gough da santa comunhão. 7. Por recusar-se a ler o ofício fúnebre sobre o corpo de Nathaniel Polhill. 8. Por intitular-se Ordinário de Savannah. 9. Por recusar William Aglionby como padrinho, apenas por não ser comungante. 10. Por recusar Jacob Matthews pela mesma razão; e por batizar o filho de um comerciante que vivia entre os indígenas com apenas dois padrinhos.” (Isto, reconheço, foi um erro; pois eu deveria, a todo custo, ter recusado o batismo até que ele providenciasse o terceiro.)

Sexta-feira, 2 de setembro. Foi o terceiro tribunal a que compareci desde que fui levado perante o senhor Parker e o escrivão. Requeri audiência imediata sobre a primeira acusação, a única de natureza civil; foi-me negada. Fiz o mesmo requerimento à tarde, mas fui adiado para a sessão seguinte. Nela compareci de novo, como também nas duas posteriores; mas não pude ser ouvido, porque (disse o juiz) o senhor Williamson estava fora da cidade.

O sentir da minoria do próprio grande júri (pois não eram de modo algum unânimes) acerca dessas denúncias pode ser visto no documento que enviaram aos administradores: “Aos honrados administradores da Geórgia. Considerando que duas denúncias foram apresentadas, uma em 23 e outra em 31 de agosto, pelo grande júri da cidade e condado de Savannah, na Geórgia, contra John Wesley, clérigo: nós, abaixo assinados, membros do dito grande júri, humildemente pedimos licença para manifestar a nossa discordância das referidas denúncias, estando, por muitas e diversas circunstâncias, plenamente persuadidos de que toda a acusação contra o senhor Wesley é um artifício do senhor Causton, destinado antes a manchar a reputação do senhor Wesley do que a livrar a colônia da tirania religiosa, como ele quis chamá-la na sua exortação. Mas, como essas circunstâncias seriam enfadonhas demais para os senhores, limitamo-nos a expor as razões da nossa divergência quanto a cada acusação…”

Sexta-feira, 7 de outubro. Consultei os meus amigos sobre se Deus não estaria me chamando a voltar à Inglaterra. A razão pela qual eu a deixara já não tinha força, não havendo ainda possibilidade alguma de instruir os indígenas; nem eu havia encontrado, ou ouvido falar de, indígenas no continente americano com o menor desejo de ser instruídos. Quanto a Savannah, nunca me comprometi, por palavra ou por carta, a ficar ali um dia além do que julgasse conveniente, nem jamais assumi o cuidado do povo senão como etapa da minha passagem para os pagãos; considerava-me, pois, plenamente desobrigado, uma vez desfeito aquele propósito. Além disso, havia a probabilidade de eu prestar mais serviço àquele povo infeliz estando na Inglaterra do que na Geórgia, expondo aos administradores, sem medo nem favor, o verdadeiro estado da colônia. Depois de pesarem profundamente essas coisas, foram unânimes em que eu devia ir, mas não ainda. Deixei, pois, o pensamento de lado por ora, persuadido de que, chegado o tempo, Deus tornaria “plano o caminho diante da minha face”.

Por que Wesley deixou a Geórgia

Quinta-feira, 3 de novembro. Compareci de novo ao tribunal reunido naquele dia; e ainda ao de terça-feira, 22 de novembro — dia em que o senhor Causton pediu para falar comigo. Leu-me então algumas declarações juradas, feitas em 15 de setembro; numa delas se afirmava que naquela data eu o teria insultado na sua própria casa, chamando-o de mentiroso, canalha, e assim por diante. Repetiu-se também, diante de várias pessoas, o que eu de fato havia esquecido: que no último tribunal eu fora repreendido como inimigo e perturbador da paz pública.

Consultei de novo os meus amigos, que concordaram comigo: o tempo que esperávamos havia chegado. Na manhã seguinte, passando na casa do senhor Causton, disse-lhe que pretendia partir imediatamente para a Inglaterra. Afixei um aviso de mesmo teor na Praça Grande e preparei-me tranquilamente para a viagem.

Sexta-feira, 2 de dezembro. Propus-me partir para a Carolina por volta do meio-dia, quando a maré servia. Mas, por volta das dez, os magistrados mandaram chamar-me e disseram que eu não podia sair da província, pois não havia respondido às alegações contra mim. Respondi: “Compareci a seis ou sete tribunais seguidos para respondê-las, e não me foi permitido, embora eu o pedisse vez após vez.” Disseram que, mesmo assim, eu não podia ir, a menos que desse garantia de responder àquelas alegações no tribunal deles. Perguntei: “Que garantia?” Depois de deliberarem juntos por umas duas horas, o escrivão mostrou-me uma espécie de termo que me obrigava, sob pena de cinquenta libras, a comparecer ao tribunal sempre que requerido. E acrescentou: “Mas o senhor Williamson também nos pediu que o senhor preste fiança para responder à ação dele.” Disse-lhe então com franqueza: “Senhor, os senhores me tratam muito mal, e também aos administradores. Não darei termo algum, nem fiança alguma. Os senhores sabem o seu ofício, e eu sei o meu.”

À tarde, os magistrados publicaram uma ordem exigindo que todos os oficiais e sentinelas impedissem a minha saída da província e proibindo qualquer pessoa de me ajudar a sair. Sendo agora um prisioneiro solto, num lugar onde eu sabia por experiência que cada dia traria nova oportunidade de forjar provas de palavras que nunca disse e de atos que nunca pratiquei, vi claramente que chegara a hora de deixar aquele lugar; e, terminadas as orações da tarde, por volta das oito, servindo a maré, sacudi o pó dos meus pés e deixei a Geórgia, depois de ali ter pregado o evangelho (não como devia, mas como pude) por um ano e quase nove meses.

Sábado, 3. Chegamos a Purrysburg de manhã cedo e procuramos um guia para Port Royal; não havendo nenhum, partimos sem guia uma hora antes do nascer do sol. Depois de duas ou três horas de caminhada, encontramos um velho que nos levou a uma pequena trilha, perto da qual corria uma linha de árvores marcadas (com parte da casca cortada); seguindo-a, disse ele, chegaríamos facilmente a Port Royal em cinco ou seis horas.

Perdidos na mata

Éramos quatro ao todo: um pretendia ir comigo para a Inglaterra; os outros dois, estabelecer-se na Carolina. Por volta das onze, entramos num grande pântano, onde vagamos até quase as duas. Achamos então outra linha de marcas e a seguimos até que se dividiu em duas; acompanhamos uma delas através de um matagal quase intransponível, e pouco mais de um quilômetro adiante ela terminou. Atravessamos o matagal de novo e seguimos a outra marca, até que também ela terminou. Já ia caindo o sol; sentamo-nos, fracos e cansados, sem ter comido nada o dia todo além de um bolo de gengibre que eu levava no bolso. Um terço dele havíamos repartido ao meio-dia; outro terço comemos então, e o resto reservamos para a manhã; mas água não tínhamos achado o dia inteiro. Cravando uma vara no chão e achando úmida a ponta, dois dos nossos puseram-se a cavar com as mãos e, a cerca de um metro de profundidade, acharam água. Demos graças a Deus, bebemos e fomos refrigerados. A noite foi cortante; contudo, não houve queixa entre nós. Depois de nos encomendarmos a Deus, deitamo-nos bem juntos; e eu, ao menos, dormi até perto das seis da manhã.

Domingo, 4. Deus renovou as nossas forças: levantamo-nos sem fraqueza nem cansaço e resolvemos fazer mais uma tentativa de achar o caminho de Port Royal. Rumamos direto para o leste; mas, não achando trilha nem marca, e tornando-se o mato cada vez mais espesso, julgamos que o melhor seria voltar, se possível, pelo caminho por onde viemos. Na véspera, na parte mais espessa da mata, eu havia quebrado muitas árvores novas enquanto caminhávamos, sem saber por quê; elas nos foram de grande ajuda em vários pontos onde não se via trilha alguma; e, entre uma e duas horas, Deus nos levou em segurança à casa de Benjamin Arieu, o velho que havíamos deixado na véspera.

À tarde li orações em francês a uma família numerosa, a pouco mais de um quilômetro da casa de Arieu; um deles se dispôs a guiar-nos até Port Royal. De manhã partimos. Perto do pôr do sol, perguntamos ao nosso guia se sabia onde estava; ele respondeu com franqueza: “Não.” Mesmo assim seguimos adiante, até que, por volta das sete, chegamos a uma plantação; e na tarde seguinte, depois de muitas dificuldades e demoras, desembarcamos na ilha de Port Royal.

Quarta-feira, 7. Caminhamos até Beaufort, onde o senhor Jones, ministro do lugar, com quem me hospedei durante a curta estadia, me deu uma viva imagem da velha hospitalidade inglesa. Na quinta-feira chegou o senhor Delamotte, com quem, na sexta-feira, dia 9, tomei um barco para Charleston. Depois de uma travessia lenta, por causa dos ventos contrários, e de alguma luta com a fome (faltaram-nos as provisões) e com o frio, chegamos lá de manhã cedo, na terça-feira, dia 13.

Adeus à América

Quinta-feira, 22. Despedi-me da América (embora, se aprouver a Deus, não para sempre), embarcando no Samuel, do capitão Percy, com um jovem cavalheiro que passara alguns meses na Carolina, um dos meus paroquianos de Savannah, e um francês, até há pouco morador de Purrysburg, que de lá escapara por um triz.

Sábado, 24. Cruzamos a barra de Charleston e, por volta do meio-dia, perdemos a terra de vista. No dia seguinte o vento era favorável, porém forte, como também no domingo, dia 25, quando o mar me afetou mais do que em todas as dezesseis semanas da travessia para a América. Fui obrigado a ficar deitado a maior parte do dia, pois só nessa posição me sentia aliviado.

Segunda-feira, 26. Comecei a instruir nos princípios do cristianismo um jovem negro. No dia seguinte, resolvi abandonar a comida delicada e voltar à minha antiga simplicidade de alimentação; e, depois que o fiz, nem o estômago nem a cabeça se queixaram muito do balanço do navio.

1738. Domingo, 1º de janeiro. Todos no navio, exceto o capitão e o timoneiro, estiveram presentes tanto no culto da manhã quanto no da tarde, e pareciam tão profundamente atentos como o pobre povo de Frederica enquanto a Palavra de Deus era nova aos seus ouvidos. E pode ser que um ou dois dentre estes também venham a “dar fruto com perseverança” (Lc 8.15).

Segunda-feira, 2. Estando triste e muito abatido (sem que pudesse apontar razão específica), e sem nenhuma disposição de falar de perto a qualquer do meu pequeno rebanho (cerca de vinte pessoas), perguntei-me se a minha negligência para com eles não seria uma das causas do meu próprio abatimento. À tarde, portanto, comecei a instruir o grumete; e depois disso fiquei bem mais aliviado.

Nos dias seguintes fui várias vezes com o propósito de falar aos marinheiros, mas não consegui. Quero dizer: eu sentia completa aversão a falar; não via como criar uma ocasião, e parecia absurdo falar sem ela. Não é isto o que as pessoas normalmente querem dizer com “não consegui falar”? E será isso causa suficiente para o silêncio, ou não? É proibição do bom Espírito, ou tentação da natureza, ou do maligno?

Sábado, 7. Comecei a ler e explicar algumas passagens da Bíblia ao jovem negro. Na manhã seguinte, outro negro que estava a bordo pediu para ser ouvinte também. Deles fui ao pobre francês que, não entendendo inglês, não tinha no navio ninguém com quem conversar. E desde então li e expliquei a ele, cada manhã, um capítulo do Novo Testamento.

A viagem de volta à Inglaterra

Sexta-feira, 13. Tivemos uma tempestade completa, que nos obrigou a fechar tudo, pois o mar quebrava continuamente sobre o navio. A princípio tive medo; mas clamei a Deus e fui fortalecido. Antes das dez, deitei-me — bendigo a Deus — sem medo. Por volta da meia-noite fomos despertados por um estrondo confuso de mares, vento e vozes de homens, como eu nunca ouvira antes. O som do mar quebrando por cima e contra os costados do navio eu só poderia comparar a grandes canhões, ou aos trovões da América. O movimento do navio — os saltos, os estremecimentos, as vibrações — parecia-se muito com o que se conta dos terremotos.

O capitão pôs-se no convés num instante, mas os seus homens não conseguiam ouvir o que ele dizia. Soprava um verdadeiro furacão que, começando do sudoeste, passou ao oeste, ao noroeste, ao norte e, num quarto de hora, deu a volta pelo leste até o ponto sudoeste de novo. Ao mesmo tempo, erguendo-se o mar, como dizem, em montanhas, e de muitos pontos ao mesmo tempo, o navio não obedecia ao leme; nem podia o timoneiro, com a chuva violenta, ver a bússola. Foi forçado a deixá-lo correr diante do vento; e em meia hora o pior da tempestade havia passado.

Terça-feira, 24. Falamos com dois navios de partida para o mar, dos quais recebemos a bem-vinda notícia de que nos faltavam apenas cento e sessenta léguas até o Land’s End. Minha mente estava cheia de pensamentos, parte dos quais escrevi assim:

“Fui à América converter os indígenas; mas ah! quem me converterá? Quem, o que há de livrar-me deste coração mau e incrédulo? Tenho uma bela religião de verão. Sei falar bem; e até creio em mim mesmo, enquanto nenhum perigo está perto; mas, que a morte me olhe no rosto, e o meu espírito se perturba. Nem posso dizer: ‘o morrer é ganho’ (Fp 1.21).

“Tenho um pecado de medo: o de que, tecido o meu último fio, eu pereça na praia.”

“Penso, em verdade: se o evangelho é verdadeiro, estou seguro; pois não somente dei e dou todos os meus bens para sustentar os pobres, como também entrego o meu corpo para ser queimado, afogado, ou o que Deus determinar de mim; e sigo o amor (não como devo, mas como posso), na esperança de alcançá-lo. Creio que o evangelho é verdadeiro. ‘Mostro a minha fé pelas minhas obras’, arriscando tudo por ele. E o faria de novo, mil vezes, se a escolha ainda estivesse por fazer.

“Quem me vê, vê que eu quereria ser cristão. Por isso ‘os meus caminhos não são como os dos outros homens’. Por isso tenho sido, sou e me contento em ser ‘um provérbio, um objeto de escárnio’. Mas, na tempestade, eu penso: ‘E se o evangelho não for verdadeiro? Então és, de todos os homens, o mais insensato. Por que deste os teus bens, o teu sossego, os teus amigos, a tua reputação, a tua pátria, a tua vida? Por que andas vagando pela face da terra? Por um sonho, uma fábula engenhosamente inventada!’

“Ah, quem me livrará deste medo da morte? Que farei? Para onde fugirei dele? Devo combatê-lo pensando nele, ou não pensando? Um homem sábio aconselhou-me tempos atrás: ‘Aquieta-te e prossegue.’ Talvez seja este o melhor: encará-lo como a minha cruz; quando vier, deixar que me humilhe e avive todas as minhas boas resoluções, especialmente a de orar sem cessar; e, nos outros momentos, não me ocupar dele, mas prosseguir tranquilamente ‘na obra do Senhor’.”

O desembarque em Deal

Seguimos com vento fraco e favorável até quinta-feira à tarde; então, lançando a sonda, achamos areia esbranquiçada a setenta e cinco braças; mas, não tendo havido observação por vários dias, o capitão começou a inquietar-se, temendo que entrássemos sem perceber no canal de Bristol, ou que batêssemos de noite nas rochas de Scilly.

Sábado, 28. Foi outro dia nublado; mas, por volta das dez da manhã, continuando o vento sul, as nuvens começaram a correr exatamente contra o vento e, para surpresa de todos, desceram abaixo do sol, de modo que ao meio-dia tivemos uma observação exata; e por ela descobrimos que estávamos tão bem quanto podíamos desejar: cerca de onze léguas ao sul de Scilly.

Domingo, 29. Vimos mais uma vez terra inglesa, que ao meio-dia se mostrou ser a ponta do Lizard. Passamos por ela com bom vento e, ao meio-dia do dia seguinte, avistamos a extremidade oeste da ilha de Wight. Aqui o vento se voltou contra nós e à tarde soprou forte, de modo que esperávamos (sendo também a maré contrária) ser arrastados algumas léguas para trás durante a noite; mas de manhã, para nossa grande surpresa, vimos Beachy Head bem à nossa frente e constatamos que havíamos avançado quase quarenta milhas.

Ao anoitecer houve calmaria; mas de noite um forte vento norte nos trouxe em segurança aos Downs. Na véspera, o senhor Whitefield havia zarpado dali, sem que um soubesse nada do outro. Às quatro da manhã tomamos um bote e em meia hora desembarcamos em Deal; era quarta-feira, 1º de fevereiro, dia em que se comemorava, na Geórgia, o desembarque do senhor Oglethorpe.

Faz agora dois anos e quase quatro meses que deixei a minha pátria para ensinar aos indígenas da Geórgia a natureza do cristianismo. Mas o que aprendi eu mesmo nesse meio-tempo? Isto (o que eu menos suspeitava): que eu, que fui à América converter os outros, nunca fui eu mesmo convertido a Deus. “Não estou louco”, ainda que assim fale, mas “falo palavras de verdade e de bom senso” (At 26.25); oxalá alguns dos que ainda sonham despertem e vejam que, como eu sou, assim são eles.

[Nota acrescentada pelo próprio Wesley, anos depois: “Não estou certo disso.”]

De novo em Londres

Quarta-feira, 1º de fevereiro. Depois de ler as orações e explicar uma porção da Escritura a uma grande companhia na hospedaria, deixei Deal e cheguei à tarde a Feversham. Ali li as orações e expliquei a segunda lição a alguns dos que se chamavam cristãos, mas eram, de fato, mais selvagens no comportamento do que os indígenas mais bravios que já encontrei.

Sexta-feira, 3. Cheguei à casa do senhor Delamotte, em Blendon, onde esperava fria acolhida. Mas Deus preparara o caminho diante de mim; e mal mencionei o meu nome, fui recebido de tal maneira que me constrangeu a dizer: “Certamente Deus está neste lugar, e eu não o sabia!” (Gn 28.16). Benditos sejais do Senhor! Mostrastes mais bondade no fim do que no princípio.

À tarde cheguei mais uma vez a Londres, de onde estivera ausente dois anos e quase quatro meses. Muitas razões tenho para bendizer a Deus por haver sido levado àquela terra estranha, contra todas as minhas resoluções anteriores, ainda que o propósito com que fui não se tenha cumprido. Por esse meio, confio, ele em alguma medida “me humilhou, me provou e me mostrou o que estava no meu coração” (Dt 8.2). Por esse meio aprendi a “guardar-me dos homens”. Por esse meio vim a saber com certeza que, se em todos os nossos caminhos reconhecermos a Deus, ele dirigirá os nossos passos onde a razão falhar, por sorte ou pelos outros meios que ele conhece. Por esse meio fui liberto do medo do mar, que desde a juventude eu temia e abominava.

Por esse meio Deus me deu conhecer muitos dos seus servos, em particular os da igreja de Herrnhut [os morávios]. Por esse meio se me abriu passagem aos escritos de homens santos nas línguas alemã, espanhola e italiana. Espero, também, que disso venha algum bem a outros. Todos na Geórgia ouviram a Palavra de Deus; alguns creram e começaram a correr bem. Deram-se alguns passos para o anúncio das boas-novas tanto aos pagãos da África quanto aos da América. Muitas crianças aprenderam como devem servir a Deus e ser úteis ao próximo. E aqueles a quem mais interessa têm agora a oportunidade de conhecer o verdadeiro estado da sua jovem colônia e de lançar fundamento mais firme de paz e felicidade para muitas gerações.

Sábado, 4. Contei aos meus amigos algumas das razões que apressaram um pouco a minha volta à Inglaterra. Todos concordaram que seria apropriado relatá-las aos administradores da Geórgia. Assim, na manhã seguinte procurei o senhor Oglethorpe, mas não houve tempo de tratar do assunto. À tarde, pediram-me que pregasse em São João Evangelista. Preguei sobre aquelas palavras fortes: “se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Co 5.17). Fui depois informado de que muitos dos principais da paróquia ficaram tão ofendidos que eu não deveria pregar mais ali.

Segunda-feira, 6. Visitei muitos dos meus velhos amigos e a maior parte dos meus parentes. Vejo que ainda não chegou o tempo em que hei de ser “odiado por todos”. Oh, que eu esteja preparado para esse dia!

Wesley conhece Peter Böhler

Terça-feira, 7. (Dia muito digno de memória.) Na casa do senhor Weinantz, comerciante holandês, encontrei Peter Böhler, Schulius Richter e Wensel Neiser, recém-desembarcados da Alemanha. Sabendo que não conheciam ninguém na Inglaterra, ofereci-me para conseguir-lhes hospedagem, e o fiz perto da casa do senhor Hutton, onde eu então estava. E desde esse momento não perdi de bom grado nenhuma oportunidade de conversar com eles, enquanto estive em Londres.

Quarta-feira, 8. Fui de novo ao senhor Oglethorpe, mas não tive oportunidade de falar como pretendia. Depois compareci à junta dos administradores e dei-lhes um relato breve, porém claro, do estado da colônia — relato, temo, não pouco diferente dos que costumavam receber antes, e pelo qual tenho razões para crer que alguns deles não me perdoaram até hoje.

Domingo, 12. Preguei em Santo André, Holborn, sobre “Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará” (1Co 13.3). Ó duras palavras! Quem as pode ouvir? Também aqui, ao que parece, não devo pregar mais.

Sexta-feira, 17. Parti para Oxford com Peter Böhler. Fomos recebidos com bondade pelo senhor Sarney, o único que ali restava dos muitos que, quando embarcamos para a América, costumavam “tomar doce conselho juntos” e alegrar-se em “levar o opróbrio de Cristo”.

Sábado, 18. Fomos a Stanton Harcourt. No dia seguinte preguei mais uma vez no castelo de Oxford, a uma congregação numerosa e atenta. Todo esse tempo conversei muito com Peter Böhler; mas eu não o entendia — e menos que tudo quando ele dizia: “Meu irmão, meu irmão, essa sua filosofia precisa ser purgada.”

Segunda-feira, 20. Voltei a Londres. Na terça-feira, preguei em Great St. Helen’s sobre “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23).

Domingo, 26. Preguei às seis em São Lourenço; às dez, na igreja de St. Catherine Cree; e à tarde em São João, Wapping. Creio que aprouve a Deus abençoar mais o primeiro sermão, porque foi o que causou mais ofensa — sendo, de fato, um desafio aberto àquele mistério de iniquidade que o mundo chama “prudência”, fundado nas palavras de São Paulo aos Gálatas: “os que querem mostrar boa aparência na carne obrigam vocês a se circuncidar, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” (Gl 6.12).

Segunda-feira, 27. Tomei a diligência para Salisbury e tive várias oportunidades de conversar seriamente com os meus companheiros de viagem.

Terça-feira, 28. Vi minha mãe mais uma vez. No dia seguinte, preparei-me para viajar à casa do meu irmão em Tiverton. Mas na quinta-feira de manhã, 2 de março, a notícia de que meu irmão Charles estava morrendo em Oxford obrigou-me a partir imediatamente para lá. Parando à tarde numa casa do caminho, achei ali várias pessoas que pareciam bem-dispostas para com a religião, às quais falei com clareza — como fiz à tarde, tanto aos criados quanto aos hóspedes da minha hospedaria.

As quatro resoluções de Wesley

Quanto ao meu próprio comportamento, renovei e pus por escrito as minhas antigas resoluções:

1. Usar de absoluta franqueza e sinceridade com todos com quem eu conversar.

2. Buscar contínua seriedade, não me permitindo de propósito nenhuma leviandade de comportamento, nem o riso — não, nem por um momento.

3. Não falar palavra alguma que não tenda à glória de Deus; em particular, não falar de coisas mundanas. Outros podem — devem, até. Mas que tens tu com isso? E,

4. Não tomar prazer algum que não tenda à glória de Deus; agradecendo a Deus a cada momento por todo prazer que eu tomar, e rejeitando, portanto, todo tipo e grau de prazer pelo qual eu sinta que não posso assim agradecer-lhe.

Sábado, 4 de março. Encontrei meu irmão em Oxford, recuperando-se da pleurisia; e, com ele, Peter Böhler — por quem (na mão do grande Deus) fui, no domingo, dia 5, claramente convencido de incredulidade: da falta daquela fé pela qual, unicamente, somos salvos.

Imediatamente me veio à mente: “Pare de pregar. Como pode você pregar aos outros, se você mesmo não tem fé?” Perguntei a Böhler se ele achava que eu devia parar. Ele respondeu: “De modo algum.” Perguntei: “Mas o que posso pregar?” Ele disse: “Pregue a fé até tê-la; e então, porque a terá, pregará a fé.”

Segunda-feira, 6. Comecei, pois, a pregar esta nova doutrina, embora a minha alma recuasse diante da obra. A primeira pessoa a quem ofereci a salvação somente pela fé foi um prisioneiro condenado à morte, de nome Clifford. Peter Böhler muitas vezes me havia pedido que falasse com ele; mas eu não conseguia convencer-me a fazê-lo, sendo ainda (como fora por muitos anos) zeloso defensor da impossibilidade do arrependimento no leito de morte.

Episódios na estrada de Manchester

Terça-feira, 14. Parti para Manchester com o senhor Kinchin, professor do Corpus Christi, e o senhor Fox, até há pouco detento na prisão da cidade. Por volta das oito, chovendo e estando muito escuro, perdemos o caminho; mas antes das nove chegamos a Shipston, tendo passado a cavalo, não sei como, por uma estreita ponte de pedestres que atravessava um fosso profundo perto da cidade. Depois da ceia, li as orações ao pessoal da hospedaria e expliquei a segunda lição — espero que não em vão.

No dia seguinte almoçamos em Birmingham; e, pouco depois de sairmos, fomos repreendidos pela nossa negligência ali — por termos deixado partir os que nos serviram sem exortação nem instrução — por uma severa chuva de granizo.

À tarde chegamos a Stafford. A dona da casa uniu-se a nós na oração em família. Na manhã seguinte, um dos criados parecia profundamente tocado, como também o cavalariço, antes de partirmos. Logo depois do desjejum, entrando no estábulo, disse algumas palavras aos que ali estavam. Um estranho que me ouviu disse: “Senhor, quisera eu viajar com o senhor”; e, quando entrei na casa, seguiu-me e começou abruptamente: “Senhor, creio que o senhor é um homem bom, e venho contar-lhe um pouco da minha vida.” As lágrimas lhe ficaram nos olhos todo o tempo em que falou; e esperamos que nem uma palavra do que lhe foi dito se tenha perdido.

Em Newcastle, aonde chegamos por volta das dez, alguns a quem falamos na hospedaria estiveram muito atentos; mas servia-nos uma jovem alegre, de todo indiferente. Ainda assim, falamos. Quando partíamos, ela fixou os olhos e não se moveu nem disse palavra, parecendo tão atônita como se tivesse visto alguém ressuscitado dos mortos.

Chegando a Holmes Chapel por volta das três, surpreendeu-nos sermos levados a uma sala onde já estavam postos toalha e pratos. Logo entraram dois homens para jantar. O senhor Kinchin disse-lhes que, se quisessem, aquele cavalheiro pediria a bênção por eles. Eles arregalaram os olhos e, por assim dizer, consentiram; mas ficaram sentados enquanto eu orava, um deles de chapéu na cabeça. Começamos a falar sobre a conversão a Deus e prosseguimos, embora parecessem de todo indiferentes. Depois de algum tempo, porém, os seus semblantes mudaram, e um deles tirou o chapéu às escondidas e, pondo-o atrás de si, disse que tudo o que dizíamos era verdade; que ele fora um grande pecador e nunca havia considerado isso como devia; mas que estava resolvido, com a ajuda de Deus, a converter-se agora de coração. Exortamos a ele e ao companheiro — que agora também bebia cada palavra — a clamar com todas as forças a Deus, para que “lhes enviasse socorro do seu santuário” (Sl 20.2).

Tarde da noite, chegamos a Manchester.

Companheiros a cavalo

Sexta-feira, 17. De manhã cedo deixamos Manchester, levando conosco o irmão do senhor Kinchin, que fôramos buscar para matriculá-lo em Oxford. Estávamos plenamente decididos a não perder nenhuma oportunidade de despertar, instruir ou exortar quem quer que encontrássemos na viagem. Em Knutsford, primeira parada, todos a quem falamos receberam com gratidão a palavra de exortação. Mas em Talk-on-the-Hill, onde almoçamos, a senhora que nos atendia era tão fina e distinta que, por quase uma hora, o nosso trabalho pareceu em vão. Contudo, continuamos falando. De repente, ela ficou como quem desperta de um sono: cada palavra penetrava no seu coração. Nunca vi mudança tão completa nos olhos, no rosto e no modo de falar de alguém, em tão pouco tempo.

Por volta das cinco, passando o senhor Kinchin junto a um homem e uma mulher que montavam o mesmo cavalo, disse o homem: “Senhor, o senhor deve agradecer a Deus por ser um dia bom; pois, se chovesse, o senhor se sujaria muito com esse seu cavalo pequeno.” O senhor Kinchin respondeu: “É verdade; e devemos agradecer a Deus pela vida, pela saúde, pela comida, pelo vestuário e por todas as coisas.” E seguiu adiante. Vindo atrás o senhor Fox, o homem disse: “Senhor, a minha patroa gostaria de conversar mais com aquele cavalheiro.” Esperamos; e, quando nos alcançaram, começamos a sondar o coração uns dos outros. Vieram ter conosco de novo à tarde, na nossa hospedaria em Stone, onde expliquei, a eles e a muitos conhecidos seus que se haviam ajuntado, aquela grande verdade: a piedade tem a promessa tanto desta vida quanto da que há de vir (1Tm 4.8).

Terça-feira, 21. Entre nove e dez chegamos a Hedgeford. À tarde alcançou-nos um homem que logo percebemos mais inclinado a falar do que a ouvir. Ainda assim falamos, e não poupamos palavras. À tardinha alcançamos um jovem quacre, que depois veio ter conosco na hospedaria em Henley, para onde mandou chamar o restante da família, a fim de se unirem a nós em oração; à qual acrescentei, como de costume, a exposição da segunda lição. O nosso outro companheiro seguiu conosco uma ou duas milhas pela manhã; e então não só falou menos do que na véspera, como recebeu de bom grado uma séria advertência contra a tagarelice e a vaidade.

Uma hora depois, alcançou-nos um senhor de idade que disse ir matricular o filho em Oxford. Perguntamos: “Em que colégio?” Disse que não sabia, pois não tinha ali nenhum conhecido de cuja recomendação pudesse depender. Depois de alguma conversa, expressou profundo senso da boa providência de Deus e nos disse saber que Deus nos havia posto no seu caminho em resposta à sua oração. À tarde chegamos a Oxford, alegrando-nos por haver recebido tantas novas provas daquela grande verdade: “Reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas” (Pv 3.6).

Pregação no castelo de Oxford

Quinta-feira, 23. Encontrei de novo Peter Böhler, que agora me assombrava mais e mais com o relato dos frutos da fé viva — a santidade e a felicidade que ele afirmava acompanhá-la. Na manhã seguinte recomecei o Novo Testamento grego, resolvido a ater-me “à lei e ao testemunho”, confiante de que Deus me mostraria por ele se esta doutrina era de Deus.

Segunda-feira, 27. O senhor Kinchin foi comigo ao castelo, onde, depois de ler as orações e pregar sobre “aos homens está ordenado morrerem uma só vez” (Hb 9.27), oramos com o condenado — primeiro com várias formas de oração, depois com as palavras que nos foram dadas naquela hora. Ele se ajoelhou em grande peso e confusão, não havendo “descanso nos seus ossos, por causa dos seus pecados”. Passado algum tempo, levantou-se e disse com ardor: “Agora estou pronto para morrer. Sei que Cristo tirou os meus pecados; e já não há condenação para mim.” A mesma serena alegria mostrou quando foi levado à execução; e nos seus últimos momentos foi o mesmo, gozando perfeita paz, na confiança de que era “aceito no Amado” (Ef 1.6).

Domingo, 2 de abril. Sendo dia de Páscoa, preguei na capela do nosso colégio sobre “vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão” (Jo 5.25). Preguei à tarde, primeiro no castelo e depois em Carfax, sobre as mesmas palavras. Vejo a promessa; mas ela está longe.

Crendo que me seria melhor esperar o seu cumprimento em silêncio e retiro, na segunda-feira, dia 3, atendi ao desejo do senhor Kinchin e fui com ele a Dummer, no Hampshire. Mas não me deixaram ficar ali por muito tempo: instaram comigo que subisse a Londres, nem que fosse por poucos dias. Para lá, portanto, voltei, na terça-feira, dia 18.

Conversas com Böhler

Perguntei de novo a P. Böhler se eu não deveria abster-me de ensinar aos outros. Ele disse: “Não; não esconda na terra o talento que Deus lhe deu.” Assim, na terça-feira, dia 25, falei clara e plenamente, em Blendon, à família do senhor Delamotte, sobre a natureza e os frutos da fé. Estavam ali o senhor Broughton e meu irmão. A grande objeção do senhor Broughton era não poder jamais crer que não tivesse fé alguém que havia feito e sofrido tais coisas. Meu irmão ficou muito irado e disse que eu não sabia o mal que fazia falando daquela maneira. E, de fato, aprouve a Deus acender então um fogo que, confio, jamais se apagará.

Na quarta-feira, dia 26, data marcada para o meu regresso a Oxford, procurei mais uma vez os administradores da Geórgia; mas, apertado de tempo, tive de deixar-lhes os papéis que pretendia entregar nas suas próprias mãos. Um deles era o instrumento pelo qual me haviam nomeado ministro de Savannah; o qual, não tendo mais uso naquelas partes, não me pareceu certo guardar por mais tempo.

P. Böhler caminhou comigo algumas milhas e exortou-me a não parar aquém da graça de Deus. Em Gerrards Cross declarei com clareza, aos que Deus pôs nas minhas mãos, a fé como ela é em Jesus — como fiz no dia seguinte a um jovem que alcancei na estrada, e à tarde aos nossos amigos de Oxford. Doutrina estranha, da qual alguns, sem se dispor a contradizê-la, não sabiam o que pensar; mas um ou dois, que estavam profundamente feridos pelo pecado, ouviram de boa vontade e a receberam com alegria.

Num ou dois dias seguintes fui muito confirmado na “verdade que é segundo a piedade” ao ouvir as experiências do senhor Hutchins, do Pembroke College, e da senhora Fox: duas testemunhas vivas de que Deus pode (ao menos, se nem sempre o faz) dar num momento, como relâmpago que cai do céu, aquela fé da qual vem a salvação.

Segunda-feira, 1º de maio. A volta da doença do meu irmão obrigou-me a correr de novo a Londres. À tarde encontrei-o na casa de James Hutton, melhor de saúde do que eu esperava, mas fortemente avesso ao que chamava “a nova fé”. Nesta tarde teve início a nossa pequena sociedade, que depois se reuniu em Fetter Lane.

Quarta-feira, 3. Meu irmão teve uma longa conversa particular com Peter Böhler. E aprouve a Deus abrir-lhe os olhos, de modo que ele também viu claramente qual é a natureza daquela única fé viva e verdadeira pela qual, unicamente, “pela graça, somos salvos” (Ef 2.8).

Quinta-feira, 4. Peter Böhler deixou Londres para embarcar rumo à Carolina. Oh, que obra Deus começou desde a sua vinda à Inglaterra! Obra tal que não terá fim até que passem o céu e a terra.

Domingo, 7. Preguei de manhã em São Lourenço e depois na igreja de St. Katherine Cree. Foi-me dado falar palavras fortes em ambas; e por isso não me surpreendi muito ao ser informado de que não devo pregar mais em nenhuma das duas.

Domingo, 14. Preguei de manhã em Santa Ana, Aldersgate, e à tarde na capela do Savoy: a salvação gratuita pela fé no sangue de Cristo. Fui logo avisado de que também em Santa Ana não devo pregar mais.

Sexta-feira, 19. Meu irmão teve nova recaída da pleurisia. Alguns de nós passamos a noite de sábado em oração. No dia seguinte, Pentecostes, depois de ouvir o doutor Heylyn pregar um sermão verdadeiramente cristão (sobre “Todos ficaram cheios do Espírito Santo” — “e assim”, disse ele, “podem ficar todos vocês, se não for por culpa sua”) e de auxiliá-lo na santa comunhão (o seu auxiliar adoecera na própria igreja), recebi a surpreendente notícia de que meu irmão havia encontrado descanso para a sua alma. E daquela hora em diante voltaram-lhe também as forças do corpo. Quem é Deus tão grande como o nosso Deus?

Preguei em São João, Wapping, às três, e em São Bento, Paul’s Wharf, à tarde. Também nessas igrejas não devo pregar mais. Em Santo Antolino preguei na quinta-feira seguinte. Segunda, terça e quarta-feira tive contínua tristeza e peso no coração.

Quarta-feira, 24 de maio. Penso que eram cerca de cinco da manhã quando abri o meu Testamento nestas palavras: “foram nos dadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vocês se tornem participantes da natureza divina” (2Pe 1.4). Ao sair, abri-o de novo nestas palavras: “Você não está longe do Reino de Deus” (Mc 12.34). À tarde, convidaram-me a ir à catedral de São Paulo. O hino era: “Das profundezas clamo a ti, Senhor. Escuta, Senhor, a minha voz; que os teus ouvidos estejam atentos à voz das minhas súplicas. Se observares, Senhor, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá? Mas contigo está o perdão, para que te temam. Espere Israel no Senhor, pois no Senhor há misericórdia, e nele há copiosa redenção; e ele redimirá Israel de todas as suas iniquidades” (Sl 130).

“Senti meu coração estranhamente aquecido”

À noite fui, de muito má vontade, a uma sociedade na rua Aldersgate, onde alguém lia o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. Por volta de um quarto para as nove, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração pela fé em Cristo, senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e foi-me dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados — os meus mesmos — e me havia salvado da lei do pecado e da morte.

Comecei a orar com todas as minhas forças por aqueles que, de maneira especial, me haviam maltratado e perseguido. Então testifiquei abertamente, a todos os presentes, o que agora sentia no coração pela primeira vez. Mas não demorou para que o inimigo sugerisse: “Isto não pode ser fé; pois onde está a tua alegria?” Então me foi ensinado que a paz e a vitória sobre o pecado são essenciais à fé no Capitão da nossa salvação; mas que, quanto aos transportes de alegria que costumam acompanhar o seu início, especialmente nos que choraram profundamente, Deus às vezes os dá e às vezes os retém, segundo os conselhos da sua própria vontade.

Depois de voltar para casa, fui muito assaltado por tentações; mas clamei, e elas fugiram. Voltaram vez após vez; e eu, outras tantas, levantei os olhos, e ele “me enviou socorro do seu santuário”. E nisto achei que consistia a principal diferença entre este estado e o meu estado anterior: eu me esforçava, sim, lutava com todas as forças, tanto debaixo da lei como debaixo da graça; mas então eu era às vezes — se não muitas vezes — vencido; agora, era sempre vencedor.

Quinta-feira, 25. No momento em que despertei, “Jesus, Mestre” estava no meu coração e na minha boca; e percebi que toda a minha força consistia em manter os olhos fixos nele e a alma continuamente à sua espera. Estando de novo em São Paulo à tarde, pude saborear a boa palavra de Deus no hino que começava: “O meu canto será para sempre da bondade do Senhor; com a minha boca anunciarei a tua fidelidade de geração em geração” (Sl 89.1). Ainda assim o inimigo insinuou um temor: “Se você crê, por que não há uma mudança mais sensível?” Respondi (mas não eu): “Isso eu não sei. Mas isto eu sei: tenho agora paz com Deus. E hoje não peco; e Jesus, meu Mestre, proibiu-me de me inquietar com o dia de amanhã.”

Quarta-feira, 7 de junho. Resolvi, se Deus permitisse, retirar-me por um breve tempo à Alemanha. Antes de deixar a Geórgia, eu já me havia proposto fazê-lo, se aprouvesse a Deus trazer-me de volta à Europa. E agora via claramente que o tempo havia chegado. Minha mente fraca não suportava ser assim serrada ao meio. E eu esperava que conviver com aqueles santos homens — testemunhas vivas, eles próprios, do pleno poder da fé, e ainda assim capazes de suportar os fracos — fosse um meio, debaixo de Deus, de firmar de tal modo a minha alma que eu pudesse ir “de fé em fé” e “de força em força”.

[Os três meses seguintes, Wesley os passou na Alemanha, em visita aos morávios.]

Wesley prega no cárcere de Newgate

Domingo, 17 de setembro. (Londres.) Comecei de novo a declarar na minha própria terra as boas-novas da salvação, pregando três vezes e expondo depois as Santas Escrituras a uma grande companhia nas Minories. Na segunda-feira, alegrei-me de encontrar a nossa pequena sociedade, que agora contava trinta e duas pessoas.

No dia seguinte fui aos condenados de Newgate e ofereci-lhes a salvação gratuita. À tarde fui a uma sociedade em Bear Yard e preguei arrependimento e remissão de pecados. Na tarde seguinte falei a verdade em amor numa sociedade da rua Aldersgate: alguns contradisseram a princípio, mas não por muito tempo; na despedida, nada apareceu senão amor.

Sexta-feira, 3 de novembro. Preguei em Santo Antolino; domingo, dia 5, de manhã, em São Botolfo, Bishopsgate; à tarde, em Islington; e à noite, a uma congregação como eu nunca vira antes, em São Clemente, no Strand. Como foi a primeira vez que preguei ali, suponho que haverá de ser a última.

Domingo, 3 de dezembro. (Oxford.) Comecei a ler orações no Bocardo (a prisão da cidade), prática havia muito descontinuada. À tarde recebi uma carta que me pedia com instância que publicasse o meu relato da Geórgia; e outra, com igual instância, me dissuadia, “porque isso me traria muitos problemas”. Consultei a Deus na sua Palavra e recebi duas respostas: a primeira, Ezequiel 33.2-6; a outra: “Participe dos meus sofrimentos, como bom soldado de Cristo Jesus” (2Tm 2.3).

Terça-feira, 5. Comecei a ler orações e a pregar na casa de trabalho de Gloucester Green; e, na quinta-feira, na da paróquia de São Tomás. Em ambos os dias preguei no castelo. Em São Tomás havia uma jovem tomada de loucura furiosa, que gritava e se atormentava sem cessar. Senti forte desejo de falar com ela. No momento em que comecei, ela se aquietou. As lágrimas lhe corriam pelo rosto todo o tempo em que eu lhe dizia: “Jesus de Nazaré pode e quer libertá-la.”

Segunda-feira, 11. Sabendo que o senhor Whitefield chegava da Geórgia, apressei-me de Oxford para Londres; e na terça-feira, dia 12, Deus nos concedeu mais uma vez tomar doce conselho juntos.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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