DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 3
A pregação ao ar livre; “O mundo é a minha paróquia”; o País de Gales
Bristol, 1739: Wesley se submete a “ser mais vil” e prega a três mil pessoas ao ar livre. Multidões de até vinte mil, os mineiros de Kingswood transformados, o embate com Beau Nash — e a carta que definiu um ministério: “o mundo é a minha paróquia”.
“Olho para o mundo inteiro como a minha paróquia: em qualquer parte dele em que eu esteja, julgo justo, direito e meu dever declarar, a todos os que queiram ouvir, as boas-novas da salvação.”
(Diário, 1739)Antes de ler
Poucos meses depois de Aldersgate, Whitefield chama Wesley a Bristol — e ali acontece a virada que daria ao avivamento o seu alcance. Para um clérigo anglicano zeloso da ordem, pregar fora do templo beirava o escândalo; Wesley confessa que até então teria considerado “quase um pecado” salvar almas fora de uma igreja. Em 2 de abril de 1739, ecoando Davi, ele se submete a “ser mais vil” (2Sm 6.22) e prega a três mil pessoas num descampado. Nada seria como antes.
O capítulo registra também os fenômenos que acompanharam essa obra: quedas, convulsões, gritos, seguidos de paz. Note o equilíbrio de Wesley: ele não exalta as manifestações nem as nega — aponta para os “argumentos vivos”, as vidas transformadas: “o que era leão e agora é cordeiro”. O critério permanece válido: pelos frutos se conhece a árvore (Mt 7.16), não pelo barulho.
Duas cenas pedem leitura atenta. Os episódios de opressão espiritual em Kingswood são narrados com a sobriedade do próprio Wesley: “relato nuamente o fato e deixo a cada um o seu juízo”. A batalha espiritual é real (Ef 6.12), mas o Diário não a transforma em espetáculo. E há a cena comovente de Susana Wesley, a mãe do metodismo, recebendo na Ceia, já idosa, a certeza do perdão — sinal de quanto a doutrina do testemunho do Espírito havia se perdido, mesmo entre os piedosos.
A carta “o mundo é a minha paróquia” continua sendo a pergunta que este capítulo nos faz: a nossa igreja vai aonde o povo está, ou espera que o povo venha até ela? “Ide por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15).
— Bispo Ildo Mello
Wesley começa a pregar ao ar livre
1739. 15 de março. Durante a minha permanência [em Londres] estive plenamente ocupado, entre a nossa sociedade de Fetter Lane e muitas outras onde continuamente me pediam que expusesse a Escritura; e não tinha pensamento algum de deixar Londres, quando recebi, depois de várias outras, uma carta do senhor Whitefield e outra do senhor Seward, rogando-me, da maneira mais insistente, que fosse a Bristol sem demora. Eu não tinha nenhuma pressa em fazê-lo.
Quarta-feira, 28. Minha viagem foi proposta à nossa sociedade em Fetter Lane. Meu irmão Charles mal suportava ouvir falar dela — até que, apelando aos oráculos de Deus, recebeu estas palavras como ditas a ele mesmo, e não replicou mais: “Filho do homem, eis que, de um golpe, tirarei de você o desejo dos seus olhos; mas você não lamentará, nem chorará, nem lhe correrão as lágrimas” (Ez 24.16). Como os demais irmãos continuassem a disputa, sem probabilidade de chegarem a uma conclusão, concordamos por fim em decidir por sorteio. E por ele ficou determinado que eu fosse.
Quinta-feira, 29. Deixei Londres e à tarde expus a Escritura a uma pequena companhia em Basingstoke. Sábado, 31: à tarde cheguei a Bristol e ali me encontrei com o senhor Whitefield. A princípio, mal pude reconciliar-me com essa estranha maneira de pregar nos campos, da qual ele me deu exemplo no domingo; toda a minha vida (até muito recentemente) eu fora tão apegado a cada ponto relativo à decência e à ordem que teria considerado o salvar almas quase um pecado, se não fosse feito dentro de uma igreja.
1º de abril. À tarde (tendo partido o senhor Whitefield), comecei a expor o Sermão do Monte do nosso Senhor (precedente bem notável de pregação ao ar livre, suponho, embora também houvesse igrejas naquele tempo) a uma pequena sociedade que costumava reunir-se uma ou duas vezes por semana na rua Nicholas.
Segunda-feira, 2. Às quatro da tarde, submeti-me a ser mais vil e proclamei nas estradas as boas-novas da salvação, falando de uma pequena elevação num terreno contíguo à cidade, a cerca de três mil pessoas. A Escritura sobre a qual falei foi esta (será possível que alguém ignore que ela se cumpre em todo verdadeiro ministro de Cristo?): “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para curar os quebrantados de coração, proclamar libertação aos cativos, dar vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor” (Is 61.1-2; Lc 4.18-19).
Domingo, 8. Às sete da manhã preguei a cerca de mil pessoas em Bristol e, depois, a umas mil e quinhentas no alto do monte Hannam, em Kingswood. Chamei-as com as palavras do profeta evangélico: “Todos vocês, os que têm sede, venham às águas… venham, comprem vinho e leite, sem dinheiro e sem preço” (Is 55.1). Cerca de cinco mil estiveram à tarde em Rose Green (do outro lado de Kingswood); no meio delas me pus e clamei em nome do Senhor: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37-38).
Terça-feira, 17. Às cinco da tarde eu estava numa pequena sociedade na Back Lane. A sala em que estávamos era escorada por baixo, mas o peso do povo fez o assoalho ceder, de modo que, no início da exposição, o esteio que o sustentava caiu com grande estrondo. O assoalho, porém, não afundou mais; e assim, passado o primeiro susto, todos atenderam tranquilamente às coisas que eram ditas.
Segunda-feira, 7 de maio. Preparava-me para partir para Pensford, onde agora me haviam dado licença de pregar na igreja, quando recebi o seguinte bilhete: “Senhor: o nosso ministro, informado de que o senhor está fora de si, não deseja que o senhor pregue em nenhuma das suas igrejas.” Fui assim mesmo; e em Priestdown, a cerca de meia milha de Pensford, preguei Cristo, nossa “sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Co 1.30).
Terça-feira, 8. Fui a Bath, mas não me permitiram estar no prado onde estivera antes — o que ocasionou a oferta de um lugar muito mais conveniente, onde preguei Cristo a cerca de mil almas.
Quarta-feira, 9. Tomamos posse de um pedaço de terreno perto do adro de São Tiago, na Horse Fair, em Bristol, onde se pretendia construir uma sala grande o bastante para conter as sociedades das ruas Nicholas e Baldwin, e os conhecidos delas que desejassem estar presentes quando a Escritura fosse exposta. E no sábado, dia 12, foi lançada a primeira pedra, com voz de louvor e ações de graças.
O primeiro edifício metodista
A princípio, eu não tinha a menor intenção nem previsão de me envolver pessoalmente na despesa desta obra ou na sua direção, tendo nomeado onze curadores, sobre os quais supunha que esses encargos naturalmente recairiam; mas logo descobri o meu engano. Primeiro, quanto à despesa: toda a obra teria parado, se eu não houvesse assumido imediatamente o pagamento de todos os trabalhadores; de modo que, antes de me dar conta, eu havia contraído uma dívida de mais de cento e cinquenta libras — que devia quitar como pudesse, pois as contribuições das duas sociedades não chegavam a um quarto da soma.
E, quanto à direção da obra, recebi logo cartas dos meus amigos de Londres, em particular do senhor Whitefield, reforçadas por um recado trazido por alguém recém-chegado de lá: nem ele nem eles teriam qualquer participação no edifício, nem contribuiriam com coisa alguma, a menos que eu dispensasse imediatamente todos os curadores e fizesse tudo em meu próprio nome. Deram muitas razões; mas uma bastava: “tais curadores sempre teriam o poder de me controlar e, se eu não pregasse como lhes agradasse, de me expulsar da sala que eu mesmo construí”. Cedi, pois, ao conselho deles e, reunindo todos os curadores, cancelei (sem oposição de ninguém) o instrumento antes lavrado e tomei toda a administração nas minhas mãos. Dinheiro, é verdade, eu não tinha, nem perspectiva ou probabilidade humana de obtê-lo; mas eu sabia que “do Senhor é a terra e a sua plenitude” (Sl 24.1), e em seu nome parti, sem duvidar de nada.
Domingo, 13. Minha ocupação pública ordinária era agora a seguinte: todas as manhãs, lia as orações e pregava em Newgate. Todas as tardes, expunha uma porção da Escritura em uma ou mais das sociedades. Na segunda-feira à tarde, pregava ao ar livre, perto de Bristol; na terça, em Bath e em Two Mile Hill, alternadamente; na quarta, em Baptist Mills; quinta-feira sim, quinta-feira não, perto de Pensford; sexta-feira sim, sexta-feira não, em outra parte de Kingswood; no sábado à tarde e no domingo de manhã, no Bowling Green (que fica perto do centro da cidade); no domingo, às onze, junto ao monte Hannam; às duas, em Clifton; e às cinco, em Rose Green. E, até aqui, como foram os meus dias, assim foi a minha força (Dt 33.25).
Os argumentos vivos de Wesley
Domingo, 20. Vendo muitos ricos na igreja de Clifton, meu coração doeu-se muito por eles, e desejei com ardor que ao menos alguns deles “entrassem no Reino dos céus”. Mas, cheio como estava, não sabia por onde começar a adverti-los a fugir da ira vindoura, até que o meu Testamento se abriu nestas palavras: “Não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento” (Mc 2.17). Ao aplicá-las, a minha alma se dilatou de tal modo que me pareceu que eu poderia ter gritado (em outro sentido que o do pobre e vão Arquimedes): “Dá-me onde firmar os pés, e moverei a terra.” Os relâmpagos e a chuva que Deus enviou não impediram que cerca de mil e quinhentas pessoas permanecessem em Rose Green. Nossa Escritura foi: “O Deus da glória faz ouvir o trovão. A voz do Senhor é poderosa; a voz do Senhor é cheia de majestade” (Sl 29.3-4). À tarde, ele falou a três pessoas cujas almas eram todas tormenta e tempestade — e imediatamente fez-se grande bonança.
Durante todo esse tempo, perguntavam-me quase continuamente — fosse os que vinham de propósito a Bristol indagar acerca desta obra estranha, fosse os meus correspondentes antigos e novos: “Como podem ser essas coisas?” E inumeráveis advertências me eram feitas (em geral fundadas em grosseiras deturpações dos fatos) para que eu não desse atenção a visões ou sonhos, nem imaginasse que as pessoas tinham remissão de pecados por causa dos seus gritos, ou lágrimas, ou meras profissões exteriores. A alguém que muitas vezes me escrevera sobre isso, respondi, em suma, o seguinte:
“A questão entre nós gira principalmente, se não totalmente, em torno de matéria de fato. O senhor nega que Deus opere hoje esses efeitos — ao menos, que os opere desta maneira. Eu afirmo ambas as coisas, porque ouvi essas coisas com os meus próprios ouvidos e as vi com os meus olhos. Vi (tanto quanto uma coisa dessas pode ser vista) muitíssimas pessoas mudadas num momento do espírito de medo, horror e desespero para o espírito de amor, alegria e paz; e do desejo pecaminoso, que até então reinava sobre elas, para o puro desejo de fazer a vontade de Deus. São matérias de fato, das quais tenho sido, e quase diariamente sou, testemunha ocular ou auricular.
“O que tenho a dizer sobre visões ou sonhos é isto: conheço várias pessoas em quem essa grande mudança se operou num sonho, ou durante uma forte representação, aos olhos da mente, de Cristo na cruz ou na glória. Este é o fato; julgue-o cada um como quiser. E que tal mudança então se operou não se vê (não é pelas lágrimas, nem pelas quedas, nem pelos gritos que eu julgo, como o senhor parece supor, pois esses não são os frutos), mas pelo teor inteiro da vida: até então, de muitas maneiras má; daquele tempo em diante, santa, justa e boa.
“Eu lhe mostrarei aquele que era leão até então e agora é cordeiro; aquele que era bêbado e agora é exemplarmente sóbrio; o devasso de outrora que agora abomina até “a roupa contaminada pela carne” (Jd 23). Estes são os meus argumentos vivos para o que afirmo: que Deus dá agora, como antigamente, a remissão de pecados e o dom do Espírito Santo, ainda a nós e aos nossos filhos (At 2.38-39) — e isso sempre de repente, tanto quanto tenho conhecido, e muitas vezes em sonhos ou em visões de Deus. Se não é assim, sou achado falsa testemunha diante de Deus. Pois estas coisas testifico, e pela sua graça testificarei.”
Beau Nash discute com Wesley
Terça-feira, 5 de junho. Havia grande expectativa em Bath sobre o que um homem famoso faria comigo ali; e muito me rogaram que não pregasse, pois ninguém sabia o que poderia acontecer. Com esse boato, ganhei também uma audiência muito maior, na qual havia muitos ricos e grandes. Disse-lhes com clareza que a Escritura havia encerrado a todos debaixo do pecado — altos e baixos, ricos e pobres, todos juntos (Gl 3.22). Muitos pareciam um pouco surpresos e iam mergulhando na seriedade, quando apareceu o seu campeão e, chegando-se a mim, perguntou com que autoridade eu fazia aquelas coisas.
Respondi: “Pela autoridade de Jesus Cristo, a mim transmitida pelo (hoje) arcebispo da Cantuária, quando impôs as mãos sobre mim e disse: ‘Recebe autoridade para pregar o evangelho.'” Ele disse: “Isto é contrário ao Ato do Parlamento: isto é um conventículo.” Respondi: “Senhor, os conventículos mencionados naquele Ato (como mostra o preâmbulo) são reuniões sediciosas; esta não o é; não há aqui sombra de sedição; portanto, não é contrária àquele Ato.” Ele replicou: “Eu digo que é; e, além disso, a sua pregação apavora as pessoas e as tira do juízo.”
“Senhor, o senhor já me ouviu pregar?” “Não.” “Como pode, então, julgar aquilo que nunca ouviu?” “Senhor, pela fama comum.” “A fama comum não basta. Permita-me perguntar, senhor: o seu nome não é Nash?” “Meu nome é Nash.” “Senhor, eu não ouso julgá-lo pela fama comum: não a considero suficiente para julgar alguém.” Ele fez uma pausa e, recompondo-se, disse: “Desejo saber para que vem este povo aqui.” Ao que uma mulher respondeu: “Senhor, deixe-o comigo; que uma velha lhe responda. O senhor, senhor Nash, cuida do seu corpo; nós cuidamos das nossas almas; e é pelo alimento das nossas almas que viemos aqui.” Ele não respondeu palavra e retirou-se.
Quando eu voltava, a rua estava cheia de gente, indo e vindo e falando grandes coisas. Mas, quando algum deles perguntava “Qual deles é ele?” e eu respondia “Sou eu”, ficavam imediatamente em silêncio. Várias senhoras me seguiram até a casa do senhor Merchant, e o criado veio dizer-me que havia algumas pessoas querendo falar comigo. Fui até elas e disse: “Creio, senhoras, que a criada se enganou: as senhoras queriam apenas olhar para mim.” E acrescentei: “Não espero que os ricos e os grandes queiram falar comigo ou ouvir-me; pois eu falo a pura verdade — coisa de que pouco ouvem e que não desejam ouvir.” Trocamos mais algumas palavras, e retirei-me.
Segunda-feira, 11. Recebi de Londres uma carta urgente (como já recebera várias outras) para que fosse para lá o quanto antes, estando os nossos irmãos de Fetter Lane em grande confusão por falta da minha presença e conselho. Preguei, pois, à tarde sobre estas palavras: “Eu tomo vocês por testemunhas, no dia de hoje, de que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de anunciar a vocês todo o conselho de Deus” (At 20.26-27). Depois do sermão, encomendei-os à graça de Deus, em quem haviam crido. Certamente Deus tem ainda uma obra a fazer neste lugar. Não achei tanto amor, nem mesmo na Inglaterra; nem índole tão simples, sem artifício e dócil como a que ele deu a este povo.
Contudo, durante todo esse tempo tive muitos pensamentos acerca da maneira incomum do meu ministério entre eles. Mas, depois de a apresentar muitas vezes ao Senhor e de pesar com calma todas as objeções que ouvia, não pude senão manter o que algum tempo antes escrevera a um amigo que havia falado livremente o que pensava a respeito. Um extrato daquela carta acrescento aqui, para que o assunto fique em plena luz.
“O mundo é a minha paróquia”
“O senhor diz que não consegue conciliar algumas partes do meu procedimento com o caráter que por muito tempo sustentei. Não; nem jamais conseguirá. Por isso mesmo tenho renunciado a esse caráter em toda ocasião possível. Disse a todos no nosso navio, a todos em Savannah, a todos em Frederica, e isso repetidas vezes e em termos expressos: ‘Não sou cristão; apenas sigo em busca, para ver se o alcanço.’
* * *
“Se o senhor pergunta por qual princípio agi, foi este: o desejo de ser cristão; e a convicção de que, tudo quanto eu julgar conducente a isso, estou obrigado a fazer; e aonde quer que eu julgue poder alcançar melhor esse fim, para lá é meu dever ir. Por esse princípio parti para a América; por ele visitei a igreja morávia; e pelo mesmo estou pronto agora (sendo Deus o meu auxílio) a ir para a Abissínia, ou para a China, ou para onde quer que apraza a Deus, por essa convicção, chamar-me.
“Quanto ao seu conselho de que eu me fixe no colégio, não tenho lá o que fazer, pois já não tenho cargo nem alunos. E se a outra parte da sua proposta me convém — a de ‘aceitar uma cura de almas’ —, haverá tempo de sobra para considerar quando alguma me for oferecida.
“Mas, no entretempo, o senhor pensa que eu deveria ficar quieto, porque, do contrário, invadiria o ofício alheio, intrometendo-me em negócios de outros e ocupando-me de almas que não me pertencem. E pergunta: ‘Como é que você reúne cristãos que não são do seu encargo para cantar salmos, orar e ouvir a exposição das Escrituras?’ — e acha difícil justificar que eu o faça nas paróquias de outros homens, em princípios católicos.
“Permita-me falar com franqueza. Se por princípios católicos o senhor entende quaisquer outros que não os bíblicos, eles nada pesam comigo; não admito outra regra, seja de fé, seja de prática, além das Santas Escrituras. Mas, em princípios bíblicos, não acho difícil justificar tudo o que faço. Deus, na Escritura, ordena-me, segundo as minhas forças, instruir os ignorantes, corrigir os maus, confirmar os virtuosos. O homem me proíbe de fazê-lo na paróquia alheia — isto é, na prática, de fazê-lo em absoluto, visto que não tenho paróquia própria, nem provavelmente jamais terei. A quem devo ouvir: a Deus ou ao homem? (At 4.19)
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“Olho para o mundo inteiro como a minha paróquia: com isto quero dizer que, em qualquer parte dele em que eu esteja, julgo justo, direito e meu dever declarar, a todos os que estejam dispostos a ouvir, as boas-novas da salvação. Esta é a obra para a qual sei que Deus me chamou; e estou certo de que a sua bênção a acompanha. Grande encorajamento tenho, portanto, para ser fiel em cumprir a obra que ele me deu para fazer. Servo dele sou; e, como tal, sou empregado segundo a direção clara da sua Palavra: ‘enquanto temos tempo, façamos o bem a todos’ (Gl 6.10); e a sua providência concorre claramente com a sua Palavra, pois me desligou de tudo o mais, para que eu atenda unicamente a isto mesmo, e ande ‘fazendo o bem’ (At 10.38).”
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Susana Wesley e seu filho
Quarta-feira, 13. Depois de receber a santa comunhão em Islington, tive mais uma vez a oportunidade de ver minha mãe, que eu não via desde a minha volta da Alemanha.
Não posso deixar de mencionar aqui uma circunstância curiosa. Em junho do ano passado, eu lhe havia lido um papel que continha um breve relato do que se passara na minha própria alma até poucos dias antes daquela data. Ela o aprovou plenamente e disse que bendizia a Deus de todo o coração por me haver levado a modo tão justo de pensar. Enquanto eu estava na Alemanha, uma cópia daquele papel foi enviada (sem o meu conhecimento) a um dos meus parentes. Ele mandou um relato do seu conteúdo à minha mãe, que agora encontrei sob estranhos temores a meu respeito, convencida, “por um relato tirado de um dos meus próprios papéis, de que eu havia errado gravemente da fé”. Eu não conseguia atinar que papel seria; mas, indagando, descobri que era o mesmíssimo que eu lhe havia lido. Como é difícil formar juízo verdadeiro de qualquer pessoa ou coisa pelo relato de um narrador parcial! — ainda que seja homem da maior honestidade; pois quem fez esse relato era de veracidade inquestionável. E, contudo, pelo seu relato sincero de um escrito que tinha diante dos olhos, a verdade ficou tão inteiramente disfarçada que minha mãe não reconheceu o papel que ouvira de ponta a ponta, nem eu o que eu mesmo havia escrito.
Quinta-feira, 14. Fui com o senhor Whitefield a Blackheath, onde havia, creio, doze ou catorze mil pessoas. Ele me surpreendeu um pouco ao pedir que eu pregasse em seu lugar; o que fiz (embora a natureza recuasse) sobre o meu assunto favorito: “Jesus Cristo, que da parte de Deus se nos tornou sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Co 1.30). Fui tomado de grande compaixão pelos ricos que ali estavam, aos quais fiz uma aplicação particular. Alguns pareceram atender, enquanto outros afastaram dali as suas carruagens, fugindo de pregador tão rústico.
Domingo, 17. Preguei às sete, em Upper Moorfields, a (creio) seis ou sete mil pessoas, sobre “Todos vocês, os que têm sede, venham às águas” (Is 55.1). Às cinco, preguei no Kennington Common, a cerca de quinze mil pessoas, sobre estas palavras: “Olhem para mim e sejam salvos, todos os confins da terra” (Is 45.22).
Segunda-feira, 18. Deixei Londres de manhã cedo e na tarde seguinte cheguei a Bristol, onde preguei (como havia marcado, se Deus permitisse) a uma congregação numerosa. Meu texto foi também “Olhem para mim e sejam salvos, todos os confins da terra”. Howell Harris veio ver-me uma ou duas horas depois. Disse que muitos o haviam dissuadido de me ouvir ou de me ver, falando de mim todo tipo de mal. “Mas”, disse ele, “assim que o ouvi pregar, logo percebi de que espírito o senhor era. E, antes que terminasse, eu estava tão dominado de alegria e amor que mal consegui voltar para casa.”
Domingo, 24. Cavalgando para Rose Green, num trecho liso e plano da estrada, meu cavalo de repente caiu de cabeça e rolou várias vezes. Não sofri outro dano além de uma pequena contusão num lado — que no momento nem senti; e preguei sem dor, a seis ou sete mil pessoas, sobre aquela importante direção: “quer vocês comam, quer bebam ou façam outra coisa qualquer, façam tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31).
Conversas com Whitefield
Sexta-feira, 6 de julho. À tarde estive com o senhor Whitefield, recém-chegado de Londres, com quem fui a Baptist Mills, onde ele pregou acerca do “Espírito Santo, que todos os que creem hão de receber” — não sem uma justa, embora severa, censura aos que pregam como se não houvesse Espírito Santo.
Sábado, 7. Tive oportunidade de conversar com ele sobre aqueles sinais exteriores que tantas vezes acompanharam a obra interior de Deus. Vi que as suas objeções se fundavam principalmente em grosseiras deturpações dos fatos. Mas no dia seguinte ele teve oportunidade de informar-se melhor: mal havia começado (na aplicação do sermão) a convidar todos os pecadores a crer em Cristo, quatro pessoas caíram por terra junto dele, quase no mesmo momento. Uma ficou sem sentidos nem movimento. A segunda tremia excessivamente. A terceira tinha fortes convulsões por todo o corpo, mas não fazia ruído, a não ser gemidos. A quarta, igualmente convulsa, clamava a Deus com fortes brados e lágrimas. Daquele momento em diante, confio, todos deixaremos que Deus conduza a sua própria obra da maneira que lhe agrada.
Sexta-feira, 23. Na sexta-feira à tarde deixei Bristol com o senhor Whitefield, no meio de chuva pesada. Mas as nuvens logo se dissiparam, e tivemos uma tarde clara e calma, e uma congregação atenta em Thornbury.
Terça-feira, 17. Cavalguei até Bradford, a cinco milhas de Bath, para onde havia muito me convidavam. Procurei o ministro e pedi licença para pregar na sua igreja. Disse que não era costume pregar nos dias de semana, mas que, se eu pudesse vir num domingo, teria prazer na minha ajuda. Dali fui a um cavalheiro da cidade que estivera presente quando preguei em Bath e que, com as maiores mostras de sinceridade e afeto, me desejara boa sorte em nome do Senhor. Mas isso passara. Achei-o agora inteiramente frio. Pôs-se a disputar sobre vários pontos e por fim me disse claramente que alguém do nosso próprio colégio o informara de que, em Oxford, sempre me tiveram por meio doido.
Contudo, algumas pessoas que não pensavam como ele escolheram um lugar conveniente (chamado Bear Field, ou Bury Field), no alto da colina sob a qual fica a cidade; e ali ofereci Cristo a cerca de mil pessoas, como “sabedoria, justiça, santificação e redenção”. De lá voltei a Bath e preguei sobre “Que devo fazer para ser salvo?” (At 16.30) a uma audiência maior do que nunca.
Eu me admirava de que o “deus deste século” estivesse tão quieto — quando, ao voltar do lugar da pregação, o pobre senhor Merchant me disse que não podia mais me deixar pregar no seu terreno. Perguntei por quê; disse que o povo maltratava as suas árvores e furtava coisas do seu terreno. “E, além disso”, acrescentou, “por deixá-lo pregar ali, já mereci o desagrado dos meus vizinhos.” Ó temor do homem! Quem está acima de ti, senão os que de fato “adoram a Deus em espírito e em verdade” (Jo 4.24)? Nem mesmo os que já têm um pé na sepultura! Nem mesmo os que habitam em salas de cedro e amontoaram ouro como pó e prata como a areia do mar.
O recrutamento interrompe o sermão
Sábado, 21. Comecei a expor, pela segunda vez, o Sermão do Monte do nosso Senhor. Na manhã de domingo, 22, enquanto eu explicava “Bem-aventurados os humildes de espírito” a cerca de três mil pessoas, tivemos boa oportunidade de mostrar a todos de que espírito éramos: no meio do sermão, chegou o bando de recrutamento forçado da marinha e agarrou um dos ouvintes (vós, entendidos em leis, que é feito da Magna Carta e da liberdade e propriedade inglesas? Não passam de meros sons, enquanto, sob qualquer pretexto, se tolera na terra uma coisa como o recrutamento forçado?) — e todos os demais ficaram quietos, sem que ninguém abrisse a boca ou levantasse a mão para resistir.
Segunda-feira, 3 de setembro. (Londres.) Conversei longamente com minha mãe, que me contou que, até pouco tempo antes, mal ouvira mencionar tal coisa como ter agora o perdão dos pecados, ou o Espírito de Deus testemunhando com o nosso espírito; muito menos imaginava que este fosse o privilégio comum de todos os verdadeiros crentes. “Por isso”, disse ela, “nunca ousei pedi-lo para mim mesma. Mas, há duas ou três semanas, enquanto meu genro Hall pronunciava aquelas palavras, ao entregar-me o cálice: ‘O sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, que foi dado por ti’, as palavras atravessaram o meu coração, e eu soube que Deus, por amor de Cristo, me havia perdoado todos os pecados.”
Perguntei se o pai dela (o doutor Annesley) não tinha essa mesma fé, e se ela não o ouvira pregá-la aos outros. Respondeu que ele a tinha para si mesmo; e que declarara, pouco antes de morrer, que por mais de quarenta anos não tivera treva, nem medo, nem dúvida alguma de que era “aceito no Amado”. Mas que, apesar disso, ela não se lembrava de o ter ouvido pregar sobre isso explicitamente nem uma vez sequer: de onde supunha que também ele o considerava bênção peculiar de uns poucos, e não promessa feita a todo o povo de Deus.
O novo nome: metodismo
Domingo, 9. Declarei a cerca de dez mil pessoas, em Moorfields, o que devem fazer para ser salvas. Minha mãe foi conosco, por volta das cinco, a Kennington, onde se calculava haver vinte mil pessoas. Insisti de novo naquele fundamento de toda a nossa esperança: “Creia no Senhor Jesus e será salvo” (At 16.31). De Kennington fui a uma sociedade em Lambeth. Cheia a casa, os demais ficaram no jardim. A profunda atenção que mostraram me deu boa esperança de que não serão todos ouvintes esquecidos.
Domingo, 16. Preguei em Moorfields a cerca de dez mil, e no Kennington Common a, creio, quase vinte mil, sobre aquelas palavras dos judeus mais serenos a São Paulo: “Gostaríamos de ouvir de você o que pensa; porque, quanto a esta seita, sabemos que por toda parte é ela impugnada” (At 28.22). Em ambos os lugares descrevi a diferença real entre o que geralmente se chama cristianismo e o verdadeiro e antigo cristianismo que, sob o novo nome de metodismo, é agora também por toda parte impugnado.
Domingo, 23. Declarei a cerca de dez mil, em Moorfields, com grande dilatação de espírito: “o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Em Kennington, insisti, diante de cerca de vinte mil, naquela grande verdade: “uma só coisa é necessária” (Lc 10.42). Dali fui a Lambeth e mostrei (para o assombro, ao que parecia, de muitos presentes) como “todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado” (1Jo 3.9).
Segunda-feira, 24. Preguei mais uma vez em Plaistow e despedi-me do povo daquele lugar. Na volta, um homem galopando velozmente veio direto contra mim e derrubou homem e cavalo — mas sem dano para nenhum dos dois. Glória àquele que salva tanto o homem quanto o animal!
Um acidente e um longo sermão
Quinta-feira, 27. Fui à tarde a uma sociedade em Deptford e de lá, às seis, ao salão de Turner, que comporta (por cálculo) duas mil pessoas. O aperto, dentro e fora, era muito grande. No início da exposição, havendo embaixo um grande porão, quebrou-se a viga mestra que sustentava o assoalho. O piso afundou imediatamente, o que causou muito barulho e confusão entre o povo. Mas, dois ou três dias antes, um homem havia enchido o porão de tonéis de tabaco; de modo que o assoalho, depois de descer um ou dois palmos, assentou sobre eles, e eu prossegui sem interrupção.
Domingo, 7 de outubro. Por volta das onze preguei em Runwick, a sete milhas de Gloucester. A igreja ficou apinhada, embora mil pessoas ou mais tenham permanecido no adro. À tarde expliquei mais amplamente as mesmas palavras: “Que devo fazer para ser salvo?” Creio que estavam presentes alguns milhares a mais do que pela manhã.
Entre cinco e seis, convidei todos os presentes (cerca de três mil), em Stanley, num pequeno gramado perto da cidade, a aceitar a Cristo como sua única “sabedoria, justiça, santificação e redenção”. Fui fortalecido para falar como nunca antes; e continuei falando por quase duas horas: a escuridão da noite e alguns relâmpagos não diminuíram o número, antes aumentaram a seriedade dos ouvintes. Concluí o dia expondo parte do Sermão do Monte a uma pequena e atenta companhia em Ebly.
Wesley no País de Gales
Segunda-feira, 15. Atendendo a um convite insistente, recebido algum tempo antes, parti para o País de Gales. Por volta das quatro da tarde, preguei num pequeno gramado ao pé do Devauden (uma colina alta, duas ou três milhas além de Chepstow) a três ou quatro centenas de pessoas simples, sobre “Cristo, nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção”. Depois do sermão, um homem que, confio, é velho discípulo de Cristo, recebeu-nos de boa vontade na sua casa; e, seguindo-nos muitos até lá, mostrei-lhes a sua necessidade de um Salvador, a partir destas palavras: “Bem-aventurados os humildes de espírito” (Mt 5.3). De manhã, descrevi mais plenamente o caminho da salvação — “Creia no Senhor Jesus e será salvo” —; e então, despedindo-me do meu amável hospedeiro, cheguei antes das duas a Abergavenny.
Senti em mim forte aversão a pregar ali. Fui, contudo, ao senhor W— (o dono do terreno em que o senhor Whitefield havia pregado) pedir-lhe o uso dele. Disse que sim, de todo o coração — caso o ministro não estivesse disposto a ceder-me o uso da igreja; e, após a recusa deste (pois lhe escrevi imediatamente uma linha), convidou-me para a sua casa. Cerca de mil pessoas permaneceram pacientemente de pé (embora a geada fosse aguda, já depois do pôr do sol) enquanto, a partir de Atos 28.22, eu descrevia com simplicidade a religião simples e antiga da Igreja da Inglaterra, que agora é quase por toda parte impugnada sob o novo nome de metodismo.
Sexta-feira, 19. Preguei de manhã em Newport sobre “Que devo fazer para ser salvo?” ao povo mais insensível e malcomportado que já vi no País de Gales. Um homem idoso, durante grande parte do sermão, praguejou e blasfemou quase sem parar; e, perto da conclusão, apanhou uma grande pedra, que muitas vezes tentou atirar. Mas não conseguiu. — Tais os campeões, tais as armas contra a pregação ao ar livre!
Às quatro preguei de novo no Shire Hall de Cardiff, onde percebi presentes muitos da alta sociedade. Raras vezes tive tanta liberdade de palavra como a que me foi dada ao explicar aquelas palavras: “o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”. Às seis, quase a cidade inteira (fui informado) se reuniu, e expliquei-lhes as seis últimas bem-aventuranças. Mas o meu coração se dilatou de tal modo que eu não sabia como terminar, e continuamos por três horas.
Sábado, 20. Voltei a Bristol. Não vi parte alguma da Inglaterra tão aprazível, por sessenta ou setenta milhas seguidas, como estas regiões do País de Gales em que estive. E a maior parte dos habitantes está, de fato, madura para o evangelho.
“Uma cena terrível”
Terça-feira, 23. Cavalgando para Bradford, li o livro do senhor Law sobre o novo nascimento. Filosófico, especulativo, precário; behmenista, vazio e vão! Oh, que queda há ali! Às onze preguei em Bearfield, a cerca de três mil, sobre o espírito da natureza, o da escravidão e o da adoção (Rm 8.15).
Voltando à tarde, instaram muitíssimo comigo para que eu fosse ver uma jovem em Kingswood. (Relato nuamente o fato e deixo a cada um o seu próprio juízo sobre ele.) Fui. Ela tinha dezenove ou vinte anos, mas, ao que parece, não sabia ler nem escrever. Encontrei-a na cama, segura por duas ou três pessoas. Era uma cena terrível. Angústia, horror e desespero acima de toda descrição estampavam-se no seu rosto pálido. As mil contorções de todo o seu corpo mostravam como os cães do inferno lhe roíam o coração. Os gritos entremeados mal se podiam suportar. Mas os seus olhos petrificados não podiam chorar. Ela bradou, assim que as palavras acharam caminho: “Estou condenada, condenada; perdida para sempre! Seis dias atrás vocês poderiam ter-me ajudado. Mas passou. Agora sou do diabo. Entreguei-me a ele. Dele sou. A ele devo servir. Com ele devo ir para o inferno. Serei dele. Hei de servi-lo. Hei de ir com ele para o inferno. Não posso ser salva. Não quero ser salva. Devo, quero, quero ser condenada!” E pôs-se a orar ao diabo. Nós começamos: “Desperta, braço do Senhor, desperta!”
Ela imediatamente afundou como que num sono; mas, assim que paramos, irrompeu de novo, com veemência indizível: “Corações de pedra, quebrai-vos! Eu sou um aviso para vós. Quebrai-vos, quebrai-vos, pobres corações de pedra! Não quereis quebrar-vos? Que mais se pode fazer por corações de pedra? Eu sou condenada para que vós sejais salvos. Agora quebrai-vos, agora quebrai-vos, pobres corações de pedra! Vós não precisais ser condenados, embora eu deva.” Fixou então os olhos no canto do teto e disse: “Lá está ele: sim, lá está ele! Vem, bom diabo, vem! Leva-me embora. Disseste que me arrebentarias a cabeça: vem, faze-o depressa. Sou tua. Serei tua. Vem agora mesmo. Leva-me.”
Interrompemo-la clamando de novo a Deus, e ela afundou como antes; e outra jovem começou a bramir tão alto quanto ela. Meu irmão chegou então, por volta das nove horas. Continuamos em oração até depois das onze, quando Deus, num momento, falou paz à alma — primeiro da primeira atormentada, depois da outra. E ambas se uniram para cantar louvor àquele que havia “feito calar o inimigo e o vingador” (Sl 8.2).
“Lá vem Wesley, a galope”
Sábado, 27. Mandaram chamar-me de novo a Kingswood, para ver uma das que haviam estado tão mal antes. Uma chuva violenta começou justamente quando parti, e em poucos minutos eu estava encharcado. Naquele exato momento a mulher (que estava a três milhas dali) gritou: “Lá vem Wesley, galopando o mais depressa que pode.” Quando cheguei, eu estava frio e abatido, mais apto para dormir do que para orar. Ela irrompeu numa gargalhada horrenda e disse: “Sem poder, sem poder; sem fé, sem fé. Ela é minha; a alma dela é minha. Eu a tenho e não a soltarei.”
Rogamos a Deus que aumentasse a nossa fé. Enquanto isso, as agonias dela cresciam mais e mais, de modo que se poderia imaginar, pela violência das convulsões, que o seu corpo se despedaçaria. Alguém, claramente convencido de que aquilo não era enfermidade natural, disse: “Penso que Satanás está solto. Temo que não pare aqui.” E acrescentou: “Eu te ordeno, em nome do Senhor Jesus, que digas se tens comissão para atormentar alguma outra alma.” Foi imediatamente respondido: “Tenho. L—y C—r e S—h J—s.” (Duas que moravam a alguma distância e estavam, naquele momento, em perfeita saúde.)
Voltamos à oração e não cessamos até que ela começou, por volta das seis horas, com voz clara e semblante sereno e alegre: “Louvado seja Deus, de quem fluem todas as bênçãos.”
Domingo, 28. Preguei mais uma vez em Bradford, à uma da tarde. As chuvas violentas não impediram que, creio, mais de dez mil atendessem com seriedade ao que falei sobre aquelas palavras solenes: “Eu tomo vocês por testemunhas, no dia de hoje, de que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de anunciar a vocês todo o conselho de Deus” (At 20.26-27).
Voltando à tarde, passei na casa da senhora J—, em Kingswood. S—h J—s e L—y C—r estavam lá. Não fazia um quarto de hora quando L—y C—r caiu numa estranha agonia; e logo depois, S—h J—s. As violentas convulsões por todo o corpo eram tais que as palavras não podem descrever. Os seus gritos e gemidos eram horríveis demais para suportar, até que uma delas, num tom impossível de exprimir, disse: “Onde está agora a vossa fé? Vamos, ide à oração. Eu orarei convosco: ‘Pai nosso, que estás nos céus.'” Seguimos o conselho, de quem quer que viesse, e derramamos as nossas almas diante de Deus, até que as agonias de L—y C—r cresceram tanto que parecia estar nas ânsias da morte. Mas num momento Deus falou; ela conheceu a sua voz, e o seu corpo e a sua alma foram curados.
Continuamos em oração até perto de uma hora, quando a voz de S—h J—s também mudou, e ela começou a clamar fortemente a Deus. Assim fez pela maior parte da noite. De manhã renovamos as orações, enquanto ela clamava continuamente: “Eu queimo! Eu queimo! Oh, que farei? Tenho um fogo dentro de mim. Não posso suportar. Senhor Jesus, socorro!” — Amém, Senhor Jesus! quando chegar a tua hora.
Terça-feira, 27 de novembro. Escrevi ao senhor D. (a seu pedido) um breve relato do que se havia feito em Kingswood e do nosso presente empreendimento ali. O relato era o seguinte:
“Poucas pessoas que tenham vivido muito tempo no oeste da Inglaterra deixaram de ouvir falar dos mineiros de Kingswood: um povo famoso, desde o princípio até agora, por não temer a Deus nem respeitar homem algum; tão ignorantes das coisas de Deus que pareciam a um passo das feras que perecem; e, portanto, inteiramente sem desejo de instrução, como também sem os meios dela.
Os mineiros de Kingswood
“Muitos, no inverno passado, costumavam dizer com zombaria do senhor Whitefield: ‘Se ele quer converter pagãos, por que não vai aos mineiros de Kingswood?’ Na primavera, ele foi. E, como havia milhares que não frequentavam lugar algum de culto público, ele os foi buscar no seu próprio deserto, “para buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10). Quando foi chamado para outro lugar, outros saíram “pelos caminhos e atalhos, para os obrigar a entrar” (Lc 14.23). E, pela graça de Deus, o seu trabalho não foi em vão. A cena já mudou. Kingswood não ressoa mais, como há um ano, com maldições e blasfêmias. Já não está cheia de embriaguez e impureza, nem das diversões ociosas que naturalmente levam a elas. Já não está cheia de guerras e contendas, de gritaria e amargura, de ira e invejas. A paz e o amor estão ali. Grande número dos moradores é manso, gentil e tratável. Eles “não clamam nem gritam”, e mal se ouve a sua “voz nas ruas” (Mt 12.19) — ou, aliás, no seu próprio bosque, a não ser quando estão na sua diversão habitual da tarde: cantar louvores a Deus, seu Salvador.
“Para que também os seus filhos conhecessem as coisas que pertencem à sua paz, propôs-se algum tempo atrás construir uma casa em Kingswood; e, depois de muitas dificuldades previstas e imprevistas, em junho último foi lançado o alicerce. O terreno escolhido fica no meio do bosque, entre as estradas de Londres e de Bath, não longe do lugar chamado Two Mile Hill, a cerca de três milhas medidas de Bristol.
“Começou-se ali uma grande sala para a escola, com quatro salas menores em cada extremidade, para nelas se alojarem os mestres (e, talvez, se aprouver a Deus, algumas crianças pobres). Duas pessoas estão prontas para ensinar assim que a casa possa recebê-las; a estrutura está quase pronta, de modo que se espera que o todo esteja concluído na primavera, ou no início do verão.
“É verdade que, embora os mestres não exijam pagamento, este empreendimento envolve grande despesa.”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.