DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 5

A Ceia negada em Epworth; a Cornualha; Gwennap; Wesley em perigo

O cura de Epworth nega a Ceia a Wesley junto ao túmulo do pai; a primeira viagem à Cornualha e as multidões de Gwennap; a travessia num barco de pesca até as ilhas Scilly — e a noite de Wednesbury, quando a turba arrastou Wesley de cidade em cidade e Deus o guardou fio a fio.

1743 ⏱ 29 min de leituraCornualha e Wednesbury

“Morrer por aquele que morreu por nós.”

(William Sitch — Diário, outubro de 1743)

Antes de ler

1743 é um ano de estradas. Wesley volta a Epworth e ali sofre uma das ironias mais duras do Diário: o cura Romley — que devia tudo ao pai de Wesley — nega-lhe a Ceia na igreja onde ele nasceu, com o recado: “ele não está apto”. Em seguida, a primeira viagem à Cornualha: os mineiros de estanho, o Land’s End, a travessia num barco de pesca até as ilhas Scilly e o anfiteatro natural de Gwennap, onde dez mil pessoas ouviram em silêncio profundo.

O centro do capítulo é a noite de Wednesbury, em outubro: a turba arrasta Wesley de cidade em cidade, entre gritos de “matem-no de uma vez”. Ele narra tudo com serenidade quase clínica e depois enumera, ponto por ponto, as providências que o guardaram: os golpes que se desviavam sozinhos, o homem que ergueu o braço para ferir e acabou acariciando-lhe a cabeça (“que cabelo macio ele tem!”), os próprios chefes da turba convertidos em protetores. É um dos grandes relatos de providência da literatura cristã (Sl 121.7).

Repare também nos pequenos: William Sitch, que, perguntado sobre o que esperava quando a turba veio, respondeu “morrer por aquele que morreu por nós”; e Joan Parks, cuja fé tranquila envergonha a nossa. E note a ironia final: os mesmos juízes que se recusaram a receber Wesley expediram uma proclamação mandando prender os pregadores metodistas por “perturbar a paz”.

A aplicação é a coragem mansa: Wesley não revida, não foge da vocação, não perde a presença de espírito — “quando injuriado, não revidava” era o modelo do seu Senhor (1Pe 2.23). Diante da oposição, a pergunta que o capítulo nos deixa: confiamos na providência a ponto de continuar o trabalho?

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1743. Sábado, 1º de janeiro. Entre Doncaster e Epworth, alcancei um homem que logo me abordou com tantas perguntas, e tão impertinentes, que fiquei atônito. No meio de algumas delas, sobre as minhas viagens e o meu caminho, interrompi-o e perguntei: “O senhor se dá conta de que estamos numa viagem mais longa — de que estamos viajando para a eternidade?” Ele respondeu no ato: “Ah, peguei o senhor! Peguei! Sei quem o senhor é! Seu nome não é Wesley? Que pena! Que grande pena! Por que a religião do seu pai não lhe servia? Por que o senhor precisava de uma religião nova?” Eu ia responder, mas ele me cortou, gritando em triunfo: “Eu sou cristão! Eu sou cristão! Sou homem da Igreja! Sou homem da Igreja! Não sou desses seus culamitas!” — tão claramente quanto conseguia falar, pois estava tão bêbado que mal se segurava na sela. Tendo assim vencido claramente o dia ou, como dizia ele, “posto todos no chão”, começou a esporear o cavalo dos dois lados e partiu a galope, o mais depressa que pôde.

A Ceia negada a Wesley em Epworth

À tarde cheguei a Epworth. Domingo, 2: às cinco preguei sobre “assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). Por volta das oito preguei, do túmulo do meu pai, sobre Hebreus 8.11. Muitos, vindos das cidades vizinhas, perguntaram se não seria bom, sendo domingo de Ceia, participarem dela. Disse-lhes: “Certamente; mas seria mais respeitoso pedir primeiro licença ao senhor Romley, o cura.” Um deles o fez, em nome dos demais; e ouviu esta resposta: “Diga ao senhor Wesley que não lhe darei o sacramento, pois ele não está apto.”

Quão sábio é o nosso Deus! Não poderia haver debaixo do céu lugar mais adequado para que isso me acontecesse pela primeira vez do que a casa do meu pai, o lugar do meu nascimento — o próprio lugar onde, “conforme a seita mais rigorosa da nossa religião”, eu por tanto tempo “vivi como fariseu” (At 26.5)! E era também adequado, no mais alto grau, que quem me repelia daquela mesma mesa em que eu tantas vezes distribuí o pão da vida fosse um homem que devia tudo o que tinha neste mundo ao terno amor que o meu pai dispensara à sua família e a ele pessoalmente.

Terça-feira, 22. Fui a South Biddick, aldeia de mineiros a sete milhas a sudeste de Newcastle. O lugar em que me pus ficava bem ao pé de uma colina semicircular, em cujas encostas estavam de pé muitas centenas de pessoas — e muitas mais na planície embaixo. Clamei a elas nas palavras do profeta: “Ossos secos, ouçam a palavra do Senhor!” (Ez 37.4). Profunda atenção assentou-se em cada rosto; de modo que também aqui, creio, será bom pregar semanalmente.

Wesley e o apostador de rinhas

Quarta-feira, 23. Encontrei nas ruas um cavalheiro praguejando e blasfemando de maneira tão terrível que não pude deixar de detê-lo. Ele logo se acalmou; disse que precisava oferecer-me um copo de vinho, e que viria ouvir-me — só temia que eu dissesse alguma coisa contra as rinhas de galo.

1º de abril (Sexta-feira Santa). Tive grande desejo de visitar uma aldeiazinha chamada Placey, a umas dez milhas ao norte de Newcastle. É habitada só por mineiros, gente que sempre esteve na primeira fila da ignorância selvagem e da maldade de todo tipo. Sua grande assembleia costumava ser no dia do Senhor, quando homens, mulheres e crianças se juntavam para dançar, brigar, praguejar e jogar o que viesse à mão. Senti grande compaixão por essas pobres criaturas desde que ouvi falar delas pela primeira vez — tanto mais porque todos pareciam não ter por elas esperança alguma.

Entre sete e oito parti com John Healy, meu guia. O vento norte, extraordinariamente forte, lançava-nos a neve gelada no rosto, que congelava ao cair e logo nos cobria de gelo. Quando chegamos a Placey, mal conseguíamos ficar de pé. Assim que nos recobramos um pouco, fui à praça e anunciei aquele que “foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Is 53.5). Os pobres pecadores logo se reuniram e atenderam com empenho às coisas que eram ditas. E assim fizeram de novo à tarde, apesar do vento e da neve, quando lhes roguei que o recebessem como seu Rei, que se “arrependessem e cressem no evangelho” (Mc 1.15).

Wesley em Seven Dials

Domingo, 29 de maio. Comecei a oficiar na capela da rua West, perto de Seven Dials, da qual (por uma estranha cadeia de providências) temos contrato de uso por vários anos. Preguei sobre o evangelho do dia, parte do capítulo três de São João, e depois ministrei a Ceia do Senhor a algumas centenas de comungantes. A princípio receei que as minhas forças não bastassem para o trabalho do dia, somando-se ao meu serviço habitual um culto de cinco horas (pois durou das dez às três). Mas Deus cuidou disso — assim devo pensar; e chame-o de entusiasmo quem quiser. Preguei nos Great Gardens, às cinco, a uma congregação imensa, sobre “vocês devem nascer de novo” (Jo 3.7). Depois reuniram-se os líderes (que ocuparam todo o tempo em que eu não estava falando em público) e, depois deles, as bandas. Às dez da noite eu estava menos cansado do que às seis da manhã.

Domingo, 10 de julho. (Newcastle.) Preguei às oito em Chowden Fell sobre “Por que morrerão, ó casa de Israel?” (Ez 33.11). Desde a primeira vez que vim a Newcastle, o meu espírito se comovia dentro de mim pelas multidões de pobres infelizes que, todos os domingos à tarde, vagavam de um lado para outro no Sandhill. Resolvi, se possível, achar-lhes ocupação melhor; e, assim que terminou o culto em All Saints, caminhei direto da igreja ao Sandhill e entoei um verso de um salmo. Em poucos minutos eu tinha companhia de sobra: milhares e milhares apinhando-se. Mas o príncipe deste mundo lutou com todas as forças para que o seu reino não fosse derrubado. É verdade que a própria turba de Newcastle, no auge da sua grosseria, costuma conservar alguma humanidade: quase não observei que atirassem coisa alguma, nem recebi o menor dano pessoal; mas continuaram empurrando-se uns aos outros e fazendo tal barulho que a minha voz não podia ser ouvida. Assim, depois de passar quase uma hora em cânticos e oração, achei melhor transferir-nos para a nossa própria casa.

Os cavalos de Wesley dão trabalho

Segunda-feira, 18. Parti de Newcastle com John Downes, de Horsley. Levamos quatro horas cavalgando até Ferry Hill, cerca de vinte milhas medidas. Depois de descansar ali uma hora, seguimos devagar e, às duas horas, chegamos a Darlington. Achei que o meu cavalo não estava bem; ele achou o mesmo do dele — embora ambos fossem novos e estivessem muito bem na véspera. Mandamos o cavalariço buscar um alveitar, o que ele fez sem demora; mas, antes que os homens pudessem determinar o que havia, os dois cavalos se deitaram e morreram. Aluguei um cavalo até Sandhutton e segui adiante, pedindo a John Downes que me seguisse. Dali cavalguei a Boroughbridge na terça-feira de manhã, e depois caminhei até Leeds.

Segunda-feira, 22 de agosto. (Londres.) Depois que alguns de nós nos unimos em oração, por volta das quatro parti e fui devagar até Snow Hill, onde, escorregando a sela para o pescoço da égua, caí por cima da sua cabeça, e ela correu de volta para Smithfield. Alguns meninos a apanharam e ma trouxeram de volta, praguejando e blasfemando o caminho todo. Falei-lhes com clareza, e prometeram emendar-se. Eu já ia partir quando um homem gritou: “Senhor, o senhor perdeu a manta da sela.” Dois ou três outros quiseram ajudar-me a pô-la; mas estes também juravam a quase cada palavra. Voltei-me a um e a outro e falei com amor. Todos receberam bem e me agradeceram muito. Dei-lhes dois ou três livrinhos, que prometeram ler com cuidado.

Antes de chegar a Kensington, percebi que a égua havia perdido uma ferradura. Isso me deu oportunidade de falar de perto, por quase meia hora, com o ferreiro e o seu ajudante. Menciono essas pequenas circunstâncias para mostrar como é fácil remir cada fragmento de tempo (se assim posso dizer), quando sentimos algum amor por aquelas almas pelas quais Cristo morreu.

Wesley vai à Cornualha

Sexta-feira, 26. Parti para a Cornualha. À tarde preguei junto ao cruzeiro de Taunton sobre “o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”. Um pobre homem havia-se postado atrás para fazer alguma perturbação; mas o tempo não era chegado: os zelosos infelizes que “negam o Senhor que os resgatou” ainda não haviam agitado o povo. Muitos gritavam: “Derrubem aquele patife; batam nele; arrebentem-lhe a cabeça” — de modo que tive de interceder por ele mais de uma vez, ou teria sido tratado com aspereza.

Sábado, 27. Cheguei a Exeter à tarde; mas, como ninguém sabia da minha vinda, não preguei naquela noite — a não ser a uma pobre pecadora na hospedaria, que, depois de escutar por algum tempo a nossa conversa, olhou-nos com seriedade e perguntou se era possível que alguém que em certa medida conhecera “o poder do mundo vindouro” e “caíra” (o que, disse ela, era o seu caso) fosse “renovado outra vez para arrependimento” (Hb 6.4-6). Rogamos a Deus por ela e a deixamos entristecida, mas não sem esperança.

Domingo, 28. Preguei às sete a um punhado de gente. O sermão que ouvimos na igreja era perfeitamente inocente de sentido; o da tarde, não sei como era, pois não pude ouvir uma única frase. Da igreja fui ao castelo, onde estava reunida (segundo imaginavam alguns) metade da população adulta da cidade. Era uma vista imponente: tão vasta congregação naquele anfiteatro solene! E todos em silêncio e quietude, enquanto eu explicava amplamente e aplicava aquela verdade gloriosa: “Felizes aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos” (Sl 32.1).

Segunda-feira, 29. Seguimos viagem. Por volta do pôr do sol estávamos no meio do primeiro grande descampado sem trilhas depois de Launceston. Às oito estávamos completamente perdidos; mas não fomos muito longe antes de ouvir o sino de Bodmin. Guiados por ele, viramos à esquerda e chegamos à cidade antes das nove.

Terça-feira, 30. À tarde chegamos a St. Ives. Às sete convidei todos os pecadores culpados e desamparados, conscientes de que “nada tinham com que pagar” (Lc 7.42), a aceitar o perdão gratuito. A sala ficou apinhada, dentro e fora; mas todos quietos e atentos.

Quarta-feira, 31. Falei individualmente com os da sociedade, que eram cerca de cento e vinte. Quase cem destes haviam achado paz com Deus: tal é a bênção de ser perseguido por causa da justiça! Quando íamos à igreja, às onze, uma grande companhia na praça do mercado nos saudou com sonora algazarra — graça tão inofensiva quanto a cantiga entoada debaixo da minha janela (composta, garantiu-me alguém, por uma senhora da própria cidade):

“Charles Wesley chegou à cidade, para ver se consegue derrubar as igrejas.”

À tarde expliquei “a promessa do Pai”. Depois da pregação, muitos começaram a ficar turbulentos; mas John Nelson foi para o meio deles e falou um pouco aos mais barulhentos, que não replicaram e se foram embora quietos.

Os mineiros de estanho da Cornualha

Sábado, 3 de setembro. Cavalguei ao chamado Three-cornered Down, nove ou dez milhas a leste de St. Ives, onde encontramos duzentos ou trezentos mineiros de estanho que já havia algum tempo nos esperavam. Pareciam todos satisfeitos e despreocupados; e muitos correram atrás de nós até Gwennap (duas milhas a leste), onde o seu número logo cresceu a quatrocentos ou quinhentos. Tive ali muito consolo em aplicar estas palavras: “Ele me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4.18). Um morador das vizinhanças convidou-nos a pousar na sua casa e nos reconduziu ao gramado pela manhã. Chegamos ali justamente quando o dia raiava.

Apliquei com força aquelas palavras de graça — “Curarei a sua infidelidade; eu os amarei de todo o coração” — a quinhentas ou seiscentas pessoas atentas. Em Trezuthan Downs, cinco milhas mais perto de St. Ives, achamos setecentas ou oitocentas pessoas, às quais clamei em alta voz: “Lancem fora todas as suas transgressões; pois por que morrerão, ó casa de Israel?” (Ez 18.31). Depois do almoço preguei de novo, a cerca de mil pessoas, sobre aquele a quem “Deus exaltou a Príncipe e Salvador” (At 5.31). Foi aqui que primeiro observei alguma pequena impressão em dois ou três ouvintes; os demais, como de costume, mostravam enorme aprovação e absoluta indiferença.

Sexta-feira, 9. Cavalguei à procura dos descampados de St. Hilary, dez ou doze milhas a sudeste de St. Ives. Os descampados eu achei — mas congregação nenhuma: nem homem, nem mulher, nem criança. Contudo, quando acabei de vestir a beca, cerca de cem se haviam juntado, aos quais chamei com empenho a “arrepender-se e crer no evangelho”. E, se um só ouviu, valeu todo o trabalho.

Sábado, 10. Houve orações em St. Just à tarde, que só terminaram às quatro. Preguei então junto ao cruzeiro a, creio, mil pessoas, que se portaram todas de maneira quieta e séria. Às seis preguei em Sennan, perto do Land’s End, e marquei com a pequena congregação (formada principalmente de homens velhos, de cabeça grisalha) novo encontro às cinco da manhã. Mas no domingo, 11, grande parte deles já estava reunida entre três e quatro horas; de modo que entre quatro e cinco começamos a louvar a Deus, e expliquei e apliquei amplamente “Curarei a sua infidelidade; eu os amarei de todo o coração”.

Descemos depois, até onde se podia ir com segurança, em direção à ponta das rochas do Land’s End. Que vista imponente! Mas como tudo isso se derreterá quando Deus se levantar para o juízo! O mar ali de fato “ferve como uma panela”; “dir-se-ia que o abismo tem cabelos brancos” (Jó 41.31-32). Mas, “ainda que as suas ondas se levantem, não prevalecerão; ele lhes pôs limites que não podem ultrapassar” (Sl 104.9; Jr 5.22).

Entre oito e nove preguei em St. Just, na planície verde junto à cidade, à maior congregação (fui informado) que já se vira naquelas partes. Clamei, com toda a autoridade do amor: “Por que morrerão, ó casa de Israel?” O povo tremeu e ficou em silêncio. Eu não havia conhecido hora como aquela na Cornualha.

Nas ilhas Scilly

Segunda-feira, 12. Havia algum tempo eu tinha grande desejo de ir publicar o amor de Deus, nosso Salvador, nem que fosse por um só dia, nas ilhas Scilly; e o mencionara ocasionalmente a vários. Nesta tarde, três dos nossos irmãos vieram oferecer-se para me levar até lá, se eu conseguisse o barco do prefeito, que, diziam, era o melhor veleiro da cidade. Mandei pedir, e ele o emprestou imediatamente. Assim, na manhã seguinte, terça-feira, 13, John Nelson, o senhor Shepherd e eu, com três homens e um piloto, zarpamos de St. Ives. Parecia-me estranho aventurar-me num barco de pesca por quinze léguas de mar aberto — especialmente quando as ondas começaram a inchar e a pairar sobre as nossas cabeças. Mas chamei os meus companheiros, e juntos cantamos com vigor e bom ânimo:

“Ao atravessar as águas profundas, peço com fé o socorro prometido; as ondas guardam respeitosa distância e recuam da minha cabeça consagrada; destemido, desafio a sua violência: elas não podem ferir — porque Deus está ali.”

Por volta de uma e meia desembarcamos em St. Mary’s, a principal das ilhas habitadas. Fomos imediatamente apresentar os nossos respeitos ao governador, com o presente de costume: um jornal. Pedi-lhe também que aceitasse um exemplar do “Apelo Sincero”. Não querendo o ministro que eu pregasse na igreja, preguei às seis, nas ruas, a quase toda a cidade e a muitos soldados, marinheiros e operários, sobre “Por que morrerão, ó casa de Israel?” Foi um tempo abençoado, a ponto de eu mal saber como concluir. Depois do sermão dei-lhes alguns livrinhos e hinos, que estavam tão ávidos por receber que por pouco não despedaçaram, junto com eles, a mim também.

Por que razão política tamanho número de operários fora reunido e empregado, a tão grande custo, para fortificar umas poucas rochas estéreis — as quais, quem quer que as tome, merece ficar com elas pelo trabalho —, eu não pude atinar; mas uma razão providencial era fácil de descobrir: Deus podia tê-los reunido para ouvir o evangelho, no qual, de outro modo, talvez jamais tivessem pensado.

Às cinco da manhã preguei de novo sobre “Curarei a sua infidelidade; eu os amarei de todo o coração”. E entre nove e dez, tendo falado com muitos em particular e distribuído, entre eles e outros, de duzentos a trezentos hinos e livrinhos, deixamos aquele lugar estéril e desolado e fizemos vela para St. Ives, embora o vento soprasse forte e diretamente contra nós. O nosso piloto disse que teríamos sorte se alcançássemos terra; mas ele não conhecia aquele a quem os ventos e o mar obedecem. Pouco depois das três estávamos à altura do Land’s End, e por volta das nove chegamos a St. Ives.

Um culto notável em Gwennap

Terça-feira, 20. Em Trezuthan Downs preguei a duas ou três mil pessoas sobre o “caminho santo” do Senhor, o caminho da santidade (Is 35.8). Chegamos a Gwennap pouco antes das seis e achamos a planície coberta de ponta a ponta. Calculava-se haver dez mil pessoas, às quais preguei Cristo, nossa “sabedoria, justiça, santificação e redenção”. Não pude concluir antes que estivesse tão escuro que mal nos víamos uns aos outros. E havia, por todos os lados, a mais profunda atenção: ninguém falava, ninguém se mexia, ninguém quase olhava para o lado. Certamente aqui, embora num templo não feito por mãos, Deus foi adorado “na beleza da santidade” (Sl 29.2).

Quarta-feira, 21. Fui despertado entre três e quatro por uma grande companhia de mineiros que, temendo chegar tarde, se haviam juntado ao redor da casa e estavam cantando e louvando a Deus. Às cinco preguei mais uma vez sobre “Creia no Senhor Jesus e será salvo”. Todos devoravam a Palavra. Oh, que ela seja saúde para a sua alma e medula para os seus ossos!

Cavalgamos naquele dia até Launceston. Quinta-feira, 22: quando atravessávamos uma aldeia chamada Sticklepath, alguém me deteve na rua e perguntou abruptamente: “Não é teu nome John Wesley?” Logo dois ou três mais se aproximaram e disseram que eu devia parar ali. Parei; e, antes que tivéssemos trocado muitas palavras, as nossas almas travaram conhecimento. Vi que eram os chamados quacres; mas isso não me feriu, vendo eu que o amor de Deus estava no seu coração.

Um motim em Wednesbury

Quinta-feira, 20 de outubro. Depois de pregar a uma congregação pequena e atenta (em Birmingham), cavalguei a Wednesbury. Ao meio-dia preguei num terreno perto do centro da cidade, a uma congregação bem maior do que se esperava, sobre “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8). Creio que todos os presentes sentiram o poder de Deus; e criatura alguma se atreveu a molestar-nos, na ida ou na volta: o Senhor pelejou por nós, e nós ficamos em paz.

Eu escrevia na casa de Francis Ward, à tarde, quando se levantou o grito de que a turba havia cercado a casa. Oramos para que Deus os dispersasse; e assim foi: um foi para cá, outro para lá, de modo que em meia hora não restava um homem. Eu disse aos nossos irmãos: “Agora é a hora de irmos”; mas insistiram muito que eu ficasse. Para não os magoar, sentei-me, embora previsse o que haveria de seguir-se. Antes das cinco, a turba cercou a casa de novo, em número maior do que nunca. O grito de todos, a uma voz, era: “Tragam o ministro para fora; queremos o ministro!”

Pedi a um que tomasse o capitão deles pela mão e o trouxesse para dentro. Depois de algumas frases trocadas entre nós, o leão virou cordeiro. Pedi-lhe que fosse buscar um ou dois dos companheiros mais furiosos. Trouxe dois que estavam prontos a tragar o chão de raiva; mas em dois minutos estavam tão calmos quanto ele. Pedi então que abrissem caminho para que eu saísse ao meio do povo.

Assim que estive no meio deles, pedi uma cadeira e, de pé, perguntei: “O que alguém de vocês quer de mim?” Alguns disseram: “Queremos que o senhor vá conosco ao juiz.” Respondi: “Irei, de todo o coração.” Falei então algumas palavras, que Deus aplicou; e eles clamaram com toda a força: “Este cavalheiro é um cavalheiro honesto, e derramaremos o nosso sangue em sua defesa.” Perguntei: “Vamos ao juiz esta noite ou de manhã?” A maioria gritou: “Esta noite, esta noite!” Fui, pois, à frente, seguido de duzentos ou trezentos, voltando os demais para donde vieram.

A noite caiu antes que tivéssemos andado uma milha, e com ela uma chuva pesada. Seguimos, contudo, até Bentley Hall, a duas milhas de Wednesbury. Um ou dois correram adiante para avisar ao senhor Lane que traziam o senhor Wesley perante sua senhoria. O senhor Lane respondeu: “Que tenho eu com o senhor Wesley? Levem-no de volta.” A essa altura chegou o grosso da multidão, que se pôs a bater à porta. Um criado disse que o senhor Lane estava deitado. Veio o filho e perguntou qual era o problema. Um respondeu: “Ora, com licença de vossa senhoria: eles cantam salmos o dia todo; e ainda fazem o povo levantar às cinco da manhã. Que nos aconselha vossa senhoria a fazer?” “Irem para casa”, disse o senhor Lane, “e ficarem quietos.”

Wesley em perigo

Ficaram todos parados, sem saber o que fazer, até que alguém sugeriu ir ao juiz Persehouse, em Walsall. Todos concordaram; apressamo-nos, e por volta das sete chegamos à casa dele. Mas o senhor P— também mandou dizer que estava deitado. Novo impasse; por fim, todos julgaram que o mais sábio era cada um voltar para casa o quanto antes. Cerca de cinquenta se dispuseram a escoltar-me. Mas não tínhamos andado cem metros quando a turba de Walsall veio, derramando-se como uma enchente, e derrubou tudo diante de si. A turba de Darlaston fez a defesa que pôde; mas estavam cansados e em menor número: em pouco tempo, derrubados muitos, os demais fugiram e me deixaram nas mãos deles.

Tentar falar era em vão, pois o barulho por todos os lados era como o bramido do mar. Arrastaram-me, pois, até chegarmos à cidade; onde, vendo aberta a porta de uma casa grande, tentei entrar; mas um homem, agarrando-me pelos cabelos, puxou-me de volta para o meio da turba. Não pararam mais até me haverem levado pela rua principal, de uma ponta à outra da cidade. Continuei falando todo o tempo aos que podiam ouvir, sem sentir dor nem cansaço. Na extremidade oeste da cidade, vendo uma porta entreaberta, dirigi-me a ela e teria entrado; mas um cavalheiro que estava na loja não o permitiu, dizendo que derrubariam a casa até o chão. Fiquei, contudo, à porta e perguntei: “Estão dispostos a ouvir-me falar?” Muitos gritaram: “Não, não! Arrebentem-lhe a cabeça; abaixo com ele; matem-no de uma vez!” Outros diziam: “Não; primeiro vamos ouvi-lo.” Comecei a perguntar: “Que mal eu fiz? A qual de vocês ofendi em palavra ou em ação?” — e continuei falando por mais de um quarto de hora, até que a voz de repente me faltou. Então as enchentes tornaram a levantar a sua voz; muitos gritavam: “Levem-no embora! Levem-no embora!”

Nesse meio-tempo, a minha força e a minha voz voltaram, e irrompi em alta voz em oração. E então o homem que pouco antes encabeçava a turba voltou-se e disse: “Senhor, darei a minha vida pelo senhor: siga-me, e nem uma alma aqui tocará num fio do seu cabelo.” Dois ou três dos seus companheiros confirmaram as suas palavras e se puseram imediatamente junto a mim. Ao mesmo tempo, o cavalheiro da loja gritou: “Que vergonha, que vergonha! Soltem-no.”

Um açougueiro honesto, um pouco mais adiante, disse que era uma vergonha fazerem aquilo; e puxou para trás quatro ou cinco, um após outro, dos que investiam com mais fúria. O povo então, como que de comum acordo, abriu-se para a direita e para a esquerda, enquanto aqueles três ou quatro homens me tomaram entre si e me levaram através de todos. Mas na ponte a turba se reagrupou; passamos, então, por um lado, sobre a represa do moinho e dali pelos prados, até que, pouco antes das dez, Deus me trouxe a salvo a Wednesbury — tendo eu perdido apenas uma aba do colete e um pouco de pele de uma das mãos.

Sua presença de espírito

Nunca vi antes tal cadeia de providências — tantas provas convincentes de que a mão de Deus está sobre cada pessoa e cada coisa, governando tudo como lhe parece bem.

A pobre mulher de Darlaston que havia encabeçado aquela turba, e jurado que ninguém me tocaria, quando viu os seus seguidores cederem, correu para o mais denso da multidão e derrubou três ou quatro homens, um após outro. Mas, assaltada por muitos ao mesmo tempo, foi logo dominada e provavelmente teria sido morta em poucos minutos (três homens a mantinham no chão, batendo nela com todas as forças), se um homem não tivesse gritado a um deles: “Para, Tom, para!” “Quem está aí?”, disse Tom. “O quê, o honesto Munchin? Então, soltem-na.” Detiveram as mãos, e ela pôde levantar-se e arrastar-se para casa como conseguiu.

Do princípio ao fim, tive a mesma presença de espírito que teria se estivesse sentado no meu gabinete. Não me ocupei de um momento antes do outro; só uma vez me veio à mente que, se me atirassem ao rio, isso estragaria os papéis que eu levava no bolso. Quanto a mim, não duvidava de que atravessaria a nado, pois vestia um casaco fino e um par de botas leves.

As circunstâncias que se seguem pareceram-me particularmente notáveis: primeira, muitos tentaram derrubar-me enquanto descíamos por um caminho escorregadio até a cidade, bem julgando que, uma vez no chão, dificilmente eu me levantaria; mas não tropecei nem escorreguei uma só vez, até estar inteiramente fora das suas mãos. Segunda, embora muitos tentassem agarrar-me pelo colarinho ou pela roupa para me derrubar, não conseguiam segurar: só um agarrou firme a aba do meu colete, que logo lhe ficou na mão; a outra aba, em cujo bolso estava uma nota bancária, rasgou-se só até a metade. Terceira, um homem robusto, logo atrás de mim, golpeou-me várias vezes com um grande bastão de carvalho: se me houvesse atingido uma vez na nuca, ter-lhe-ia poupado qualquer trabalho adicional; mas a cada vez o golpe se desviava, não sei como — pois eu não podia mover-me nem para a direita nem para a esquerda.

“Que cabelo macio ele tem!”

Quarta: outro veio abrindo caminho pela multidão e, erguendo o braço para golpear, de repente o deixou cair e apenas me acariciou a cabeça, dizendo: “Que cabelo macio ele tem!” Quinta: parei exatamente à porta do prefeito, como se a conhecesse (o que a turba sem dúvida pensou), e o encontrei de pé na loja — e a sua presença foi o primeiro freio à loucura do povo. Sexta: os primeiros homens cujo coração se voltou foram os valentões da cidade, os capitães da ralé em todas as ocasiões, tendo sido um deles lutador profissional na arena.

Sétima: do princípio ao fim, não ouvi ninguém proferir uma palavra injuriosa, nem me chamar por nome ofensivo algum; o grito de todos era: “O pregador! O pregador! O pastor! O ministro!” Oitava: criatura alguma, ao menos ao alcance do meu ouvido, me imputou coisa alguma, verdadeira ou falsa — tendo, na pressa, esquecido completamente de munir-se de qualquer acusação. E, por último, estavam inteiramente sem saber o que fazer comigo, sem que ninguém propusesse nada de definido, a não ser: “Fora com ele! Matem-no de uma vez!”

Por que graus suaves nos prepara Deus para a sua vontade! Dois anos atrás, um pedaço de tijolo raspou-me os ombros. Um ano depois, a pedra me atingiu entre os olhos. No mês passado recebi um golpe, e nesta tarde dois: um antes de entrarmos na cidade, outro depois de sairmos; mas ambos como nada: pois, embora um homem me golpeasse o peito com toda a força, e o outro a boca, com tal violência que o sangue jorrou imediatamente, não senti mais dor de nenhum dos golpes do que se me houvessem tocado com uma palha.

Não se deve esquecer que, quando o restante da sociedade se apressou a fugir para salvar a vida, quatro apenas não arredaram pé: William Sitch, Edward Slater, John Griffiths e Joan Parks. Estes ficaram comigo, resolvidos a viver ou morrer juntos; e nenhum deles recebeu um só golpe, exceto William Sitch, que me segurou pelo braço de uma ponta à outra da cidade. Foi arrancado de mim e derrubado; mas logo se levantou e voltou para junto de mim. Perguntei-lhe depois o que esperava quando a turba veio sobre nós. Disse: “Morrer por aquele que morreu por nós” — e não sentiu pressa nem medo, mas esperou com calma até que Deus lhe pedisse a alma.

Os defensores de Wesley

Perguntei a Joan Parks se não teve medo quando a arrancaram de mim. Disse: “Não; não mais do que tenho agora. Eu podia confiar em Deus pelo senhor, como por mim mesma. Desde o princípio tive plena persuasão de que Deus o livraria. Não sabia como; mas deixei isso com ele, e estava tão certa como se já estivesse feito.” Perguntei se era verdade o que se dizia: que ela havia lutado por mim. Disse: “Não; eu sabia que Deus lutaria pelos seus filhos.” E hão de perecer, afinal, almas como estas?

Quando voltei à casa de Francis Ward, achei muitos dos nossos irmãos esperando em Deus. Muitos também, que eu nunca vira, vieram alegrar-se conosco. E, na manhã seguinte, quando atravessei a cidade a caminho de Nottingham, cada pessoa que encontrei me expressou tão cordial afeto que eu mal podia crer no que via e ouvia.

A proclamação dos juízes sonolentos

Não posso encerrar este assunto sem inserir uma curiosidade tão grande no seu gênero como, creio, jamais se viu na Inglaterra — nascida poucos dias depois desse notável acontecimento de Walsall:

“Staffordshire. A todos os condestáveis-mores, condestáveis menores e demais oficiais de paz de sua majestade no dito condado, e em particular ao condestável de Tipton [perto de Walsall]: Considerando que nós, juízes de paz de sua majestade no dito condado de Stafford, recebemos informação de que várias pessoas desordeiras, que se intitulam pregadores metodistas, andam provocando ajuntamentos e motins, com grande dano ao povo leal de sua majestade e contra a paz do nosso soberano senhor o Rei: ordenamos-vos, em nome de sua majestade, a todos e a cada um, nos vossos respectivos distritos, que façais diligente busca dos ditos pregadores metodistas e os tragais perante algum de nós, ditos juízes de paz de sua majestade, para serem examinados acerca dos seus atos ilícitos. Dado sob as nossas mãos e selos, neste dia de outubro de 1743. — J. Lane. W. Persehouse.”

[Nota de Wesley: os mesmíssimos juízes a cujas casas fui levado — e que, um após o outro, se recusaram a receber-me!]

Sábado, 22. Cavalguei de Nottingham a Epworth e, na segunda-feira, parti para Grimsby; mas em Ferry ficamos totalmente detidos: os barqueiros diziam que não podíamos cruzar o Trent — valia a nossa vida afastar-nos da margem antes que a tempestade amainasse. Esperamos uma hora; mas, temendo eu causar grande dano se desapontasse a congregação de Grimsby, perguntei aos homens se não achavam possível alcançar a outra margem. Disseram que não sabiam; mas que, se arriscássemos a nossa vida, eles arriscariam a deles. Partimos, pois: seis homens, duas mulheres e três cavalos no barco.

Wesley quase se afoga

Muitos ficaram na margem, olhando-nos. No meio do rio, num instante, a borda do barco mergulhou, e homens e cavalos rolaram uns sobre os outros. Esperávamos que o barco afundasse a cada momento, mas eu não duvidava de que conseguiria nadar até a margem. Os barqueiros ficaram atônitos como os demais; mas logo se recobraram e remaram pela vida. E pouco depois, saltando os nossos cavalos pela borda, o barco ficou mais leve, e todos chegamos ilesos a terra.

Admiravam-se de que eu não me levantasse (pois eu jazia sozinho no fundo do barco), e eu também me admirei — até que, examinando, descobri que uma grande alavanca de ferro, que os barqueiros às vezes usavam, havia (ninguém sabia como) atravessado o cordão da minha bota e me prendia ao fundo, de modo que eu não podia mover-me. Se o barco tivesse afundado, eu estaria bem livre de nadar para qualquer lugar.

No mesmo dia e, tanto quanto pudemos calcular, na mesma hora, o barco em que meu irmão cruzava o Severn, na Nova Passagem, foi arrastado pelo vento e esteve no maior perigo de espatifar-se nas rochas. Mas o mesmo Deus, quando toda esperança humana havia passado, livrou a eles como a nós.

O metodismo no palco

Segunda-feira, 31. Partimos de manhã cedo e à tarde chegamos a Newcastle.

Quarta-feira, 2 de novembro. Publicou-se o seguinte anúncio:

“EM BENEFÍCIO DO SENHOR ESTE. Pela Companhia de Comediantes de Edimburgo, na sexta-feira, 4 de novembro, será representada uma comédia chamada OS AMANTES CONSCIENTES, à qual se acrescentará uma farsa chamada TRUQUE SOBRE TRUQUE, OU O METODISMO EXPOSTO.”

Na sexta-feira, uma vasta multidão de espectadores reuniu-se no Moot Hall para ver o espetáculo. Calculava-se que não houvesse menos de mil e quinhentas pessoas, algumas centenas das quais sentadas em fileiras de assentos montadas sobre o palco. Logo depois que os comediantes começaram o primeiro ato, de repente todos aqueles assentos caíram de uma vez, quebrando-se os suportes como madeira podre. As pessoas foram lançadas umas sobre as outras, cerca de um metro e meio para a frente, mas nenhuma se feriu. Passado algum tempo, os demais espectadores se aquietaram, e os atores prosseguiram. No meio do segundo ato, todos os assentos de um xelim estalaram e afundaram várias polegadas. Seguiu-se grande barulho e gritaria, e quantos puderam chegar logo à porta saíram e não voltaram mais. Apesar disso, passado o tumulto, os atores continuaram a peça.

No início do terceiro ato, o palco inteiro afundou de repente cerca de quinze centímetros; os atores retiraram-se às pressas, mas dali a pouco recomeçaram. No fim do terceiro ato, todos os assentos de seis pence, sem aviso de espécie alguma, vieram ao chão. Houve então gritos por todos os lados, supondo-se que muitos tivessem sido esmagados. Mas, averiguando-se, nem uma só pessoa (tal foi a misericórdia de Deus!) havia morrido ou se ferido gravemente. Restando ainda no salão duzentas ou trezentas pessoas, o senhor Este (que devia representar o metodista) subiu ao palco e lhes disse que, apesar de tudo, estava resolvido a que a farsa fosse representada. Enquanto falava, o palco afundou mais quinze centímetros; e ele correu para trás, na maior confusão, e o povo, o mais depressa que pôde, porta afora, sem que ninguém ficasse a olhar para trás.

O que é mais surpreendente: que aqueles atores tenham representado a farsa na semana seguinte — ou que algumas centenas de pessoas tenham voltado para vê-la?

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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