DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 6

A primeira Conferência Metodista; recrutadores e multidões; o protesto contra a impiedade

Junho de 1744: a primeira Conferência Metodista, semente do governo da igreja. Depois, a perseguição na Cornualha — Maxfield entregue como soldado, Wesley “recrutado” à força, o cerco de Falmouth — e, em Newcastle, o pânico da invasão jacobita, com as cartas de Wesley ao prefeito e ao general contra a impiedade.

1744–1745 ⏱ 30 min de leituraConferência de 1744

“Aqui estou. Qual de vocês tem algo a me dizer? A quem de vocês fiz algum mal?”

(Diário, 4 de julho de 1745 (Falmouth))

Antes de ler

Em 25 de junho de 1744, Wesley reuniu em Londres um punhado de irmãos “que nada desejam senão salvar a própria alma e a dos que os ouvem”. Era a primeira Conferência Metodista — a semente do governo conciliar que o metodismo mundial, inclusive a nossa Igreja Metodista Livre, pratica até hoje. Note o detalhe: no dia seguinte, Wesley purificou a sociedade de Londres e reduziu o rol a menos de mil e novecentos membros, comentando que “o número é circunstância de pouca importância”. Disciplina e qualidade antes de estatística — lição atual.

O capítulo mostra também a nova arma dos perseguidores da Cornualha: o recrutamento militar forçado, usado para “alistar” pregadores metodistas — Thomas Maxfield foi entregue como soldado, e o próprio Wesley foi agarrado pela batina “para servir a sua majestade”. E há o cerco de Falmouth, que o próprio Wesley compara a Walsall: lá ele tinha companheiros dispostos a morrer com ele; aqui estava sozinho — e nem um dedo o tocou, nem um respingo de lama sujou a sua roupa. “Quem pode negar que Deus ouve a oração?”

O pano de fundo da segunda metade é a revolta jacobita de 1745: o “Pretendente” (Charles Edward Stuart) invadiu a Inglaterra pela Escócia, e Newcastle, cidade murada da fronteira norte, entrou em pânico — canhões nos portões, casas abandonadas, boatos de espiões. As cartas de Wesley ao prefeito e ao general são um modelo de cidadania cristã: lealdade ao rei, oração pela nação e um protesto corajoso contra a blasfêmia das próprias tropas, com a oferta de pregar aos soldados sem pagamento algum.

Fica o retrato de uma igreja que se organiza (a Conferência), resiste com mansidão (a Cornualha) e serve a nação em crise orando, pregando e chamando ao arrependimento (1Tm 2.1-2). Em tempos de comoção nacional, a pergunta de Wesley continua nossa: quem se importa com essas almas?

— Bispo Ildo Mello

Texto:

A primeira Conferência

1744. Segunda-feira, 18 de junho. Deixei Epworth; e na quarta-feira, 20, à tarde, encontrei meu irmão em Londres.

Segunda-feira, 25. Neste dia e nos cinco seguintes estivemos em conferência com muitos dos nossos irmãos (vindos de várias partes), que nada desejam senão salvar a própria alma e a daqueles que os ouvem. E certamente, enquanto permanecerem com essa disposição, o seu trabalho não será vão no Senhor.

No dia seguinte, procuramos purificar a sociedade de todos os que não andavam segundo o evangelho. Com isso reduzimos o número de membros a menos de mil e novecentos. Mas o número é circunstância de pouca importância. Que Deus os faça crescer na fé e no amor!

Sexta-feira, 24 de agosto. (Dia de São Bartolomeu.) Preguei, suponho que pela última vez, em Santa Maria [Oxford]. Que assim seja. Estou agora limpo do sangue destes homens; entreguei plenamente a minha própria alma.

O bedel veio ter comigo depois e disse que o vice-chanceler o mandara buscar as minhas anotações. Enviei-as sem demora, não sem admirar a sábia providência de Deus. Talvez poucos homens de posição se dessem ao trabalho de ler um sermão meu, se eu o pusesse nas suas mãos; mas, por esse meio, ele veio a ser lido, provavelmente mais de uma vez, por todos os homens eminentes da Universidade.

O processo de Wesley na chancelaria

Quinta-feira, 27 de dezembro. Procurei o advogado que eu havia contratado no processo recentemente aberto na chancelaria; e vi ali, pela primeira vez, aquele monstro imundo: uma petição de chancelaria! Era um rolo de quarenta e duas páginas, em fólio grande, para contar uma história que não precisaria de quarenta linhas — e recheado de mentiras tão estúpidas, sem sentido e improváveis (muitas delas, aliás, inteiramente alheias à questão) que, creio, teriam custado a vida ao seu compilador em qualquer tribunal pagão da Grécia ou de Roma. E isto é a equidade num país cristão! Este é o método inglês de reparar agravos!

1745. Sábado, 5 de janeiro. Muitas vezes me admirei de mim mesmo (e às vezes o mencionei a outros) por dez mil cuidados, de vários tipos, não pesarem mais sobre a minha mente do que dez mil fios de cabelo sobre a minha cabeça. Talvez eu tenha começado a atribuir algo disso à minha própria força. E daí pode ter vindo que, no domingo, 13, essa força me foi retirada, e eu senti o que é andar ansioso por muitas coisas. Apressando-me um e outro continuamente, aquilo se apoderou do meu espírito mais e mais, até que achei absolutamente necessário fugir pela minha vida, e sem demora. Assim, no dia seguinte, segunda-feira, 14, montei a cavalo e parti de Bristol.

Entre Bath e Bristol, pediram-me com insistência que me desviasse para visitar a casa de um homem pobre, William Shalwood. Encontrei-o, a ele e à sua esposa, doentes na mesma cama, com pouca esperança de recuperação para qualquer dos dois. Contudo (depois da oração), cri que eles “não morreriam, mas viveriam e contariam as bondades do Senhor” (Sl 118.17). Na visita seguinte, ele estava sentado na sala, e a esposa já podia sair de casa.

Assim que entramos na casa em Bristol, a minha alma foi aliviada da sua carga — daquele peso insuportável que jazia sobre a minha mente, mais ou menos, havia vários dias. No domingo, vários amigos do País de Gales e de outras partes uniram-se a nós no grande sacrifício de ações de graças. E cada dia achávamos mais e mais motivo para louvar a Deus e agradecer-lhe os seus benefícios, que não cessavam de crescer.

Segunda-feira, 18 de fevereiro. Parti com Richard Moss, de Londres para Newcastle.

A carta eficaz de Wesley

Domingo, 3 de março. Quando eu subia a rua Pilgrim, ouvindo um homem gritar atrás de mim, parei. Ele se aproximou e usou muita linguagem abusiva, entremeada de muitos juramentos e maldições. Várias pessoas saíram para ver o que havia; ele então me empurrou duas ou três vezes e foi embora.

Averiguando, descobri que esse homem havia muito se distinguia por insultar e atirar pedras em qualquer da nossa casa que passasse por ali. Não quis, pois, perder a oportunidade e, na segunda-feira, 4, enviei-lhe o seguinte bilhete: “Robert Young: espero vê-lo daqui até sexta-feira, e ouvir do senhor que está consciente da sua falta; do contrário, por compaixão da sua alma, ver-me-ei obrigado a informar os magistrados da agressão que o senhor me fez ontem na rua. Sou o seu verdadeiro amigo, John Wesley.”

Em duas ou três horas Robert Young veio e prometeu comportamento inteiramente diferente. Assim, esta branda repreensão, se não salvou uma alma da morte, ao menos preveniu uma multidão de pecados (Tg 5.20).

Sábado, 6 de abril. O senhor Stephenson, de quem comprei o terreno em que a nossa casa está construída, veio por fim, depois de adiar por mais de dois anos, e assinou as escrituras. Fico assim livre de mais um cuidado. Que eu, em tudo, apresente os meus pedidos a Deus!

O recrutamento forçado e os metodistas

Quarta-feira, 19 de junho. (Redruth.) Informados aqui do que havia acontecido ao senhor Maxfield, desviamo-nos para o povoado de Crowan. Mas no caminho soubemos que o haviam removido dali na noite anterior. Parece que os valentes condestáveis que o guardavam, avisados a tempo de que um corpo de quinhentos metodistas vinha tomá-lo à força, o haviam levado, com grande precipitação, duas milhas adiante, à casa de um certo Henry Tomkins.

Ali o encontramos, em nada aterrorizado pelos seus adversários. Pedi a Henry Tomkins que me mostrasse o mandado. Era dirigido pelo doutor Borlase, pelo pai dele e pelo senhor Eustick aos condestáveis e inspetores de várias paróquias, ordenando que “prendessem todos os homens fisicamente aptos que não tivessem ocupação lícita nem meios suficientes de sustento”, e os levassem perante os ditos cavalheiros em Marazion, na sexta-feira, 21, para se examinar se eram pessoas adequadas para servir a sua majestade no exército de terra.

No verso, o administrador de Sir John St. Aubyn havia anotado os nomes de sete ou oito pessoas, a maioria das quais notoriamente tinha ocupação lícita e sustento suficiente por ela. Mas tanto fazia: eram chamados “metodistas”; logo, soldados haveriam de ser. Embaixo se acrescentava: “Uma pessoa, de nome desconhecido, que perturba a paz da paróquia.”

Para bom entendedor, meia palavra basta. Os bons homens facilmente entenderam que não podia ser outro senão o pregador metodista; pois quem “perturba a paz da paróquia” como aquele que diz a todos os bêbados, devassos e blasfemadores contumazes: “Vocês estão na estrada larga do inferno”?

Quando saímos da casa, quarenta ou cinquenta capangas estavam prontos para nos receber. Mas virei-me de frente para eles, e a sua coragem faltou; nem se recobraram enquanto não estivemos a alguma distância. Então recomeçaram a bravatear e a atirar pedras, uma das quais atingiu o criado do senhor Thompson.

Sexta-feira, 21. Cavalgamos a Marazion. Não estando ainda reunidos os juízes, subimos ao monte de São Miguel. A casa no topo é surpreendentemente ampla e agradável. Sir John St. Aubyn havia-se dado muito trabalho, e feito despesa considerável, para reparar e embelezar os aposentos; e, terminada a obra, o dono morreu!

Por volta das duas, o senhor Thompson e eu entramos na sala onde estavam os juízes e comissários. Depois de alguns minutos, o doutor Borlase levantou-se e perguntou se tínhamos algum assunto. Respondi: “Temos.” Pedimos ser ouvidos acerca de alguém recentemente preso em Crowan. Ele disse: “Senhores, o caso de Crowan ainda não será tratado. Serão chamados quando o for.” Retiramo-nos, pois, e esperamos noutra sala até depois das nove. Adiaram o caso do senhor Maxfield (como imaginávamos) para o fim de tudo. Por volta das nove ele foi chamado. Eu queria entrar então, mas o senhor Thompson aconselhou esperar um pouco mais. A informação seguinte que recebemos foi a de que o haviam sentenciado a ir como soldado. Ouvindo isso, fomos direto à sala da comissão. Mas os honrados cavalheiros já se haviam ido.

Haviam ordenado que o senhor Maxfield fosse posto imediatamente num barco e levado para Penzance. Fomos informados de que primeiro o ofereceram a um capitão de um navio de guerra que acabava de entrar no porto. Mas ele respondeu: “Não tenho autoridade para receber homens assim — a menos que os senhores queiram que eu lhe pague tanto por semana para pregar e orar com a minha gente.”

A leitura da Lei do Motim

Sábado, 22. Chegamos a St. Ives por volta das duas da madrugada. Às cinco preguei sobre “Amem os seus inimigos” (Mt 5.44); e em Gwennap, à tarde, sobre “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12).

Soubemos hoje que, assim que o senhor Maxfield chegou a Penzance, meteram-no na masmorra; e que, inclinando-se o prefeito a soltá-lo, o doutor Borlase fora até lá de propósito, lera ele mesmo os Artigos de Guerra no tribunal e o entregara a alguém que faria as vezes de oficial.

Sábado, 29. Preguei de novo em St. Just, e em Morva e Zennor no domingo, 30. Por volta das seis da tarde comecei a pregar em St. Ives, na rua, perto da porta de John Nance. Uma multidão logo se reuniu, grandes e pequenos, ricos e pobres; e não vi criatura alguma rir, sorrir ou quase mover mão ou pé. Expus o evangelho do dia, começando por “Todos os publicanos e pecadores se aproximavam de Jesus para ouvi-lo” (Lc 15.1). Pouco antes das sete veio o senhor Edwards, da parte do prefeito, e mandou que alguém lesse a proclamação contra motins. Concluí logo depois; mas o grosso do povo parecia inteiramente insatisfeito, sem saber como ir embora. Quarenta ou cinquenta pediram para estar presentes à reunião da sociedade; e alegramo-nos juntos, por uma hora, de um modo que eu nunca antes conhecera na Cornualha.

Terça-feira, 2 de julho. Preguei à tarde em St. Just. Observei ali não só vários cavalheiros que, suponho, nunca haviam vindo, mas um grande grupo de mineiros de estanho, de pé, afastados dos demais, e uma grande multidão de homens, mulheres e crianças que pareciam não saber bem por que tinham vindo. Quase ao terminarmos o cântico, uma espécie de dama começou. Raramente vi pobre criatura dar-se tanto trabalho: ralhava, gritava, cuspia, batia os pés, torcia as mãos e contorcia o rosto e o corpo de todas as maneiras. Não lhe dei atenção alguma, nem boa nem má — e quase ninguém deu. Soube depois que fora criada como católica romana e que, ao ouvir dizer que nós o éramos, muito se alegrou. Não admira que ficasse proporcionalmente irada, ao ver frustrada a sua esperança.

O senhor Eustick, cavalheiro da vizinhança, chegou justamente quando eu concluía o sermão. Abrindo-se o povo à direita e à esquerda, ele veio até mim e disse: “Senhor, tenho um mandado do doutor Borlase, e o senhor deve ir comigo.” Depois, virando-se, disse: “Senhor, é o senhor o senhor Shepherd? Nesse caso, o senhor também está no mandado. Tenha a bondade de me acompanhar.” Caminhamos com ele até uma taberna perto do fim da cidade. Ali me perguntou se eu estava disposto a ir com ele ao doutor. Disse-lhe que sim, naquele momento mesmo, se quisesse. “Senhor”, disse ele, “devo acompanhá-lo à sua hospedaria; e de manhã, se o senhor tiver a bondade de ir comigo, eu lhe mostrarei o caminho.” Reconduziu-me, pois, à hospedaria e retirou-se.

Wesley detido para ser soldado

Quarta-feira, 3. Esperei até as nove, mas o senhor Eustick não veio. Pedi então ao senhor Shepherd que fosse procurá-lo na casa onde se hospedara; encontrou-o vindo, ao que pensava, para a nossa hospedaria. Mas, depois de esperar algum tempo, tornamos a indagar e soubemos que ele se havia desviado para outra casa da cidade. Fui até lá e perguntei: “O senhor Eustick está?” Depois de alguma pausa, alguém disse que sim e me levou à sala. Quando ele desceu, disse: “Oh, senhor, quer ter a bondade de ir comigo à casa do doutor?” Respondi: “Senhor, vim para isso.” “Está pronto, senhor?” Respondi: “Sim.” “Senhor, eu é que não estou bem pronto. Daqui a pouco, senhor, num quarto de hora, irei ter com o senhor. Irei à casa de William Chenhall.”

Em cerca de três quartos de hora ele veio e, vendo que não havia remédio, pediu o cavalo e pôs-se a caminho da casa do doutor Borlase; mas sem pressa alguma, de modo que levamos uma hora e quinze minutos para vencer três ou quatro milhas medidas. Assim que entramos no pátio, ele perguntou a um criado: “O doutor está?” E, respondendo este “Não, senhor; foi à igreja”, ele logo disse: “Pois bem, senhor, cumpri a minha comissão. Está feito, senhor; nada mais tenho a dizer.”

Por volta do meio-dia, o senhor Shepherd e eu chegamos a St. Ives. Depois de poucas horas de descanso, cavalgamos a Gwennap. Vendo que a casa não conteria um quarto do povo, pus-me diante da porta. Eu lia o meu texto quando veio um homem enfurecido, como se tivesse acabado de sair dos sepulcros, e, entrando a cavalo pelo mais denso do povo, agarrou três ou quatro pessoas, uma após outra, sem que ninguém levantasse a mão contra ele. Um segundo (cavalheiro, assim chamado) veio logo depois, se possível mais furioso, e ordenou aos seus homens que agarrassem outros — o senhor Shepherd em particular. A maior parte do povo, contudo, ficou quieta como estava, e começou a cantar um hino.

Diante disso o senhor B. perdeu toda a paciência e gritou com todas as forças: “Agarrem-no! Agarrem-no! Eu digo: agarrem o pregador para o serviço de sua majestade!” Como ninguém se mexesse, avançou a cavalo e golpeou vários dos seus auxiliares, maldizendo-os amargamente por não fazerem o que lhes fora mandado. Percebendo que ainda assim não se moviam, saltou do cavalo, jurou que o faria ele mesmo e agarrou a minha batina, gritando: “Eu o tomo para servir a sua majestade.” Um criado tomou-lhe o cavalo, e ele me tomou pelo braço, e caminhamos de braços dados por cerca de três quartos de milha. Entreteve-me todo o tempo com a “maldade dos sujeitos da sociedade”. Quando tomava fôlego, eu disse: “Senhor, sejam eles o que forem, entendo que isso não justificará que o senhor me agarre desta maneira e me leve à força, como disse, para servir a sua majestade.” Ele respondeu: “Eu, agarrá-lo! Levá-lo à força! Não, senhor, não. Nada disso. Convidei-o a ir comigo à minha casa, e o senhor disse que estava disposto; sendo assim, é bem-vindo; e, se não, é livre para ir aonde quiser.” Respondi: “Senhor, não sei se seria seguro para mim voltar por entre aquela ralé.” “Senhor”, disse ele, “eu mesmo irei com o senhor.” Pediu então o seu cavalo, e outro para mim, e cavalgou comigo de volta ao lugar de onde me havia tirado.

Cenas dramáticas em Falmouth

Quinta-feira, 4. Cavalguei a Falmouth. Por volta das três da tarde fui visitar uma senhora que estava havia muito enferma. Mal me sentei, a casa foi cercada por todos os lados por uma multidão inumerável. Dificilmente haveria barulho mais alto ou mais confuso na tomada de uma cidade de assalto. A princípio, a senhora B. e a filha tentaram aquietá-los. Trabalho perdido: o mesmo seria tentar aquietar o mar enfurecido. Logo tiveram de cuidar de si mesmas e deixar que K. E. e eu nos arranjássemos como pudéssemos. A ralé rugia a plenos pulmões: “Tragam o Canorum! Onde está o Canorum?” (palavra sem sentido que o povo da Cornualha costuma usar em vez de “metodista”).

Não havendo resposta, logo forçaram a porta externa e encheram o corredor. Só um tabique de madeira nos separava, e não era provável que resistisse muito. Tirei imediatamente um grande espelho que pendia dele, supondo que a parede inteira cederia de uma vez. Quando começaram o seu trabalho, com abundância de amargas imprecações, a pobre Kitty, atônita, gritou: “Ó senhor, que faremos?” Respondi: “Devemos orar.” De fato, naquele momento, segundo todas as aparências, as nossas vidas não valiam uma hora. Ela perguntou: “Mas, senhor, não seria melhor o senhor esconder-se? Entrar no armário?” Respondi: “Não. O melhor para mim é ficar exatamente onde estou.” Entre os de fora estavam as tripulações de alguns corsários recém-chegados ao porto. Alguns deles, irritados com a lentidão dos demais, empurraram-nos para longe e, avançando todos juntos, meteram os ombros na porta interna, gritando: “Força, rapazes, força!” As dobradiças cederam de uma vez, e a porta caiu para dentro da sala.

Adiantei-me no mesmo instante para o meio deles e disse: “Aqui estou. Qual de vocês tem algo a me dizer? A quem de vocês fiz algum mal? A você? Ou a você? Ou a você?” Continuei falando até chegar, de cabeça descoberta como estava (pois deixei o chapéu de propósito, para que todos vissem o meu rosto), ao meio da rua; e então, erguendo a voz, disse: “Vizinhos, conterrâneos! Vocês querem ouvir-me falar?” Gritaram com veemência: “Sim, sim! Ele vai falar! Vai! Ninguém há de impedi-lo!” Mas, não tendo onde subir, nem vantagem alguma de terreno, poucos podiam ouvir-me. Falei, contudo, sem interrupção; e, até onde o som alcançava, o povo ficava quieto — até que um ou dois dos seus capitães se viraram e juraram que nem um homem o tocaria.

O senhor Thomas, um clérigo, aproximou-se então e perguntou: “Vocês não têm vergonha de tratar assim um forasteiro?” Foi logo secundado por dois ou três cavalheiros da cidade e um dos vereadores, com os quais desci a cidade, falando todo o tempo, até chegar à casa da senhora Maddern. Os cavalheiros propuseram mandar trazer o meu cavalo até a porta e pediram que eu entrasse e descansasse. Mas, pensando melhor, julgaram desaconselhável deixar-me sair de novo por entre o povo; preferiram mandar o meu cavalo adiante, para Penryn, e enviar-me para lá por água, pois o mar corria rente à porta dos fundos da casa em que estávamos.

Nunca antes vi tão claramente a mão de Deus — não, nem mesmo em Walsall — como aqui. Lá eu tinha muitos companheiros dispostos a morrer comigo; aqui, nem um amigo, apenas uma moça simples, que também foi arrancada de mim num instante, mal saiu da porta da senhora B. Lá recebi alguns golpes, perdi parte da roupa e fiquei coberto de lama; aqui, embora as mãos de talvez centenas de pessoas se erguessem para golpear ou atirar, todas elas foram detidas no meio do caminho, de modo que nem um homem me tocou com um dedo sequer, nem coisa alguma foi atirada do princípio ao fim; e eu não fiquei nem com um respingo de sujeira na roupa. Quem pode negar que Deus ouve a oração, ou que ele tem todo o poder no céu e na terra?

“Eu sou John Wesley”

Tomei o barco por volta das cinco e meia. Muitos da turba esperavam no fim da cidade e, vendo-me escapado das suas mãos, só puderam vingar-se com a língua. Mas alguns dos mais ferozes correram pela praia para me receber no desembarque. Subi a passagem estreita e íngreme que vinha do mar, em cujo topo estava o primeiro deles. Olhei-o no rosto e disse: “Desejo-lhe uma boa noite.” Ele não falou nem moveu mão ou pé até que eu estivesse a cavalo. Então disse: “Desejo que o senhor esteja no inferno”, e voltou para os seus companheiros.

Assim que avistei Tolcarn (na paróquia de Wendron), onde eu devia pregar à tarde, vieram ao meu encontro muitos, correndo como que pela própria vida, rogando-me que não fosse adiante. Perguntei: “Por que não?” Disseram: “Os guardiães da igreja, os condestáveis e todos os principais da paróquia esperam pelo senhor no alto da colina, resolvidos a prendê-lo: têm um mandado especial dos juízes reunidos em Helstone, que ficarão lá até que o senhor seja levado.” Cavalguei direto colina acima e, observando quatro ou cinco cavaleiros bem-vestidos, fui direto a eles e disse: “Senhores, algum de vocês tem algo a me dizer? Eu sou John Wesley.”

Um deles mostrou-se extremamente irado com isso: que eu ousasse dizer que era “o senhor John Wesley”. E não sei como me teria saído por tão ousada afirmação, se o senhor Collins, ministro de Redruth, não passasse por ali (por acaso, como disse ele). Abordando-me e dizendo que me conhecia de Oxford, o meu primeiro antagonista calou-se, e começou uma disputa de outro tipo: se esta pregação havia feito algum bem. Apelei para os fatos. Ele admitiu (depois de muitas palavras): “O povo está melhor, por ora”; mas acrescentou: “Com certeza, daqui a pouco estarão tão maus, se não piores do que nunca.”

Quando ele se foi, um dos cavaleiros disse: “Senhor, eu queria falar-lhe um pouco; vamos até a porteira.” Fomos, e ele disse: “Senhor, vou dizer-lhe o fundamento disto tudo. Todos os cavalheiros destas partes dizem que o senhor esteve muito tempo na França e na Espanha, e que foi agora enviado para cá pelo Pretendente; e que estas sociedades vão unir-se a ele.” Ora, certamente “todos os cavalheiros destas partes” não hão de mentir contra a própria consciência!

Cavalguei dali à casa de um amigo, a algumas milhas, e comprovei que “doce é o sono do trabalhador” (Ec 5.12). Fui informado de que também ali havia muitos com desejo sincero de ouvir “esta pregação”, mas não ousavam: Sir — V—n havia declarado solenemente, e isso diante de toda a congregação que saía da igreja: “Se algum homem desta paróquia ousar ouvir esses sujeitos, não virá à minha festa de Natal!”

Sábado, 6. Cavalguei com o senhor Shepherd a Gwennap. Também aqui achamos o povo na maior consternação. Corria a notícia de que uma grande companhia de mineiros, embriagados de propósito, vinha fazer coisas terríveis. Esforcei-me muito por acalmar os ânimos; mas o medo não tem ouvidos, de modo que muita gente foi embora. Preguei aos restantes sobre “Amem os seus inimigos”. O desfecho mostrou que também este era um alarme falso — um artifício do diabo para impedir os homens de ouvir a Palavra de Deus.

Wesley empurrado de um muro alto

Domingo, 7. Preguei às cinco a uma congregação tranquila e, por volta das oito, em Stithians. Entre seis e sete da tarde chegamos a Tolcarn. Ouvindo que a turba se levantava de novo, comecei a pregar imediatamente. Não falava um quarto de hora quando eles apareceram. Um certo senhor Trounce adiantou-se a cavalo e começou a falar comigo, no que foi rudemente interrompido pelos companheiros. Contudo, como eu estava de pé sobre um muro alto e mantinha os olhos neles, muitos se abrandaram e foram ficando cada vez mais calmos — o que alguns dos seus campeões, percebendo, deram a volta e de repente me empurraram para baixo. Caí de pé, sem dano algum; e, achando-me junto ao mais exaltado dos cavaleiros, tomei-lhe a mão e a segurei firme enquanto expunha o caso. Convencido ele não ficou; mas tanto ele quanto os companheiros se tornaram muito mais brandos, e nos separamos com toda a civilidade.

Segunda-feira, 8. Preguei às cinco sobre “Vigiem e orem” (Mt 26.41) a uma congregação quieta e fervorosa. Cavalgamos então a St. Ives — o posto mais tranquilo e honroso (tanto mudaram os tempos) que temos na Cornualha.

Terça-feira, 9. Mal havia começado a pregar em St. Just, o senhor E. veio mais uma vez, tomou-me pela mão e disse que eu devia ir com ele. Para evitar tumulto, fui. Disse que na semana anterior eu havia prometido não voltar a St. Just por um mês. Neguei absolutamente ter feito tal promessa. Depois de cerca de meia hora, reconduziu-me à minha hospedaria.

A Lei do Motim e um sermão

Quarta-feira, 10. À tarde comecei a expor (em Trevonan, Morva): “Todos vocês, os que têm sede, venham às águas” (Is 55.1). Em menos de um quarto de hora vieram o condestável e os seus companheiros e leram a proclamação contra motins. Quando terminou, eu lhe disse: “Faremos o que o senhor exige: dispersaremos dentro de uma hora” — e prossegui com o sermão. Depois da pregação, eu planejava reunir-me só com a sociedade. Mas muitos outros nos seguiram com tal ardor que não pude mandá-los de volta; exortei, pois, a todos a amar os seus inimigos, como Cristo nos amou. Eles sentiram o que foi dito.

Quinta-feira, 25. Voltei em segurança, bendito seja Deus, a Bristol. Achei alma e corpo muito refrigerados neste lugar pacífico. Na quinta-feira, 1º de agosto, e nos dias seguintes, tivemos a nossa segunda Conferência, com quantos dos nossos irmãos que trabalham na Palavra puderam estar presentes.

Apedrejado pela turba em Leeds

Segunda-feira, 9 de setembro. Deixei Londres e, na manhã seguinte, visitei o doutor Doddridge em Northampton. Era justamente a hora em que ele costumava expor uma porção da Escritura aos jovens sob o seu cuidado. Pediu-me que tomasse o seu lugar. Pode ser que a semente não tenha sido toda semeada em vão.

Quinta-feira, 12. Cheguei a Leeds; preguei às cinco e às oito reuni a sociedade; depois do que a turba nos apedrejou com lama e pedras boa parte do caminho de volta. A congregação foi muito maior na tarde seguinte — e a turba também, na nossa volta, e em ânimo ainda mais exaltado, pronta a arrebentar-nos a cabeça de alegria porque o duque da Toscana se tornara imperador. Que consideração melancólica: o grosso da nação inglesa não permite que Deus lhe dê as bênçãos que quereria dar, porque as converteria em maldições. Ele não pode, por exemplo, dar-lhes sucesso contra os inimigos, pois despedaçariam os próprios compatriotas; não pode confiar-lhes a vitória, para que não lhe agradeçam assassinando os que vivem quietos na terra.

Grande alvoroço em Newcastle

Quarta-feira, 18. Por volta das cinco chegamos a Newcastle, em tempo oportuno. Achamos a generalidade dos habitantes na maior consternação: acabava de chegar a notícia de que, na manhã anterior, às duas horas, o Pretendente havia entrado em Edimburgo. Um grande concurso de povo esteve conosco à tarde, ao qual expus o capítulo três de Jonas, insistindo particularmente naquele versículo: “Quem sabe se Deus não se voltará, não se arrependerá e não se apartará do furor da sua ira, de modo que não pereçamos?” (Jn 3.9)

Quinta-feira, 19. O prefeito (senhor Ridley) convocou todos os chefes de família da cidade a encontrá-lo no salão municipal, e pediu a quantos estivessem dispostos que assinassem um documento comprometendo-se a defender a cidade, com risco dos seus bens e das suas vidas, contra o inimigo comum. Medo e trevas por todos os lados; mas não sobre aqueles que haviam visto a luz do rosto de Deus. Alegramo-nos juntos, à tarde, com alegria solene, enquanto Deus aplicava a muitos corações estas palavras: “Não tenham medo, pois sei que vocês procuram Jesus, que foi crucificado” (Mt 28.5).

Sexta-feira, 20. O prefeito ordenou que os cidadãos pegassem em armas e montassem guarda por turnos, além da guarda de soldados, algumas companhias dos quais haviam sido trazidas à cidade ao primeiro alarme. Ordenou-se também que o portão da rua Pilgrim fosse emparedado. Muitos começaram a preocupar-se muito por nós, porque a nossa casa ficava fora das muralhas. Mas o Senhor é um muro de fogo para todos os que nele confiam (Zc 2.5).

Eu havia pedido a todos os nossos irmãos que se unissem a nós neste dia em buscar a Deus com jejum e oração. Por volta de uma hora nos reunimos e derramamos as nossas almas diante dele; e cremos que ele enviaria uma resposta de paz.

A carta de Wesley ao prefeito

Sábado, 21. No mesmo dia da batalha, chegou a notícia da derrota do general Cope. Deram-se então ordens para dobrar a guarda e emparedar os portões de Pandon e Sally Port. À tarde escrevi a seguinte carta:

“Ao digníssimo senhor prefeito de Newcastle. Senhor: o meu não comparecimento ao salão municipal não se deveu a falta alguma de respeito. Eu o reverencio pelo seu cargo, e muito mais pelo seu zelo em exercê-lo. Quisera Deus que todos os magistrados da terra copiassem tal exemplo! Menos ainda se deveu a qualquer desafeição a sua majestade o rei George. Mas eu não sabia até que ponto seria necessário ou próprio que eu aparecesse em tal ocasião. Não tenho fortuna em Newcastle: tenho apenas o pão que como e o uso de um quartinho por algumas semanas no ano.

“Tudo o que posso fazer por sua majestade, a quem honro e amo — creio que não menos do que amei o meu próprio pai —, é isto: clamo a Deus, dia após dia, em público e em particular, que confunda todos os seus inimigos; e exorto todos os que me ouvem a fazer o mesmo e, nas suas várias posições, a portar-se como súditos leais, os quais, enquanto temerem a Deus, não podem deixar de honrar o rei.

“Permita-me, senhor, acrescentar mais algumas palavras, da plenitude do meu coração. Estou persuadido de que o senhor teme a Deus e tem profundo senso de que o Reino dele governa sobre tudo. A quem, pois, devemos correr por socorro, senão àquele a quem, pelos nossos pecados, justamente desagradamos? Ó senhor, não será possível pôr algum freio a estes transbordamentos de impiedade? À maldade aberta e flagrante, à embriaguez e à profanidade que tanto abundam até nas nossas ruas? Permito-me apenas sugeri-lo. Que o Deus a quem o senhor serve o dirija nisto e em tudo! Esta é a oração diária do seu obediente servo, por amor de Cristo, J. W.”

Pregando em meio a dificuldades

Domingo, 22. As muralhas foram guarnecidas de canhões, e tudo preparado para sustentar um assalto. Enquanto isso, os nossos pobres vizinhos, de ambos os lados, ocupavam-se em remover os seus bens. E a maior parte das melhores casas da nossa rua ficou sem móveis e sem moradores. Os de dentro das muralhas estavam quase igualmente ocupados em pôr a salvo o seu dinheiro e os seus bens; e mais e mais da alta sociedade, a cada hora, cavalgava para o sul o mais depressa que podia. Às oito preguei em Gateshead, num trecho largo da rua perto da capela católica, sobre a sabedoria de Deus no governo do mundo. Como todas as coisas concorrem para o progresso do evangelho!

Toda essa semana continuaram os alarmes do norte, e a tempestade parecia mais próxima a cada dia. Muitos se admiravam de que ainda ficássemos fora das muralhas; outros nos diziam que devíamos mudar depressa, pois, se os canhões começassem a disparar do alto dos portões, derrubariam a casa sobre as nossas cabeças. Isso me levou a examinar como estavam assestados os canhões dos portões; e não pude senão adorar a providência de Deus, pois era evidente: primeiro, que todos estavam dispostos de tal maneira que nenhum tiro podia atingir a nossa casa; segundo, que os canhões de Newgate nos protegiam de um lado, e os do portão da rua Pilgrim do outro, de modo que ninguém podia aproximar-se da nossa casa, por qualquer dos lados, sem ser feito em pedaços.

Na sexta e no sábado, muitos mensageiros de mentiras aterrorizaram o pobre povo da cidade, como se os rebeldes estivessem chegando para os tragar. Aumentou-se então a guarda, e abundância de fidalgos do interior entrou na cidade, com os seus criados, cavalos e armas. Entre os que vieram do norte havia um que o prefeito mandou prender por suspeita de ser espião. Assim que o deixaram sozinho, cortou a própria garganta; mas um cirurgião, vindo depressa, suturou o ferimento, de modo que ele viveu para revelar os planos dos rebeldes, que assim foram eficazmente frustrados.

Domingo, 29. Chegou aviso de que estavam em plena marcha para o sul, de modo que se supunha que alcançariam Newcastle na segunda-feira à tarde. Às oito conclamei uma multidão de pecadores, em Gateshead, a buscar o Senhor enquanto se pode achá-lo (Is 55.6). O senhor Ellison pregou outro sermão fervoroso, e todo o povo parecia curvar-se diante do Senhor. À tarde expus parte da lição do dia — Jacó lutando com o anjo. A congregação ficou tão comovida que recomecei vez após vez e não sabia como concluir. E clamamos poderosamente a Deus que enviasse a sua majestade o rei George socorro do seu santuário, e que poupasse ainda um pouco uma terra pecadora, se porventura conhecesse o dia da sua visitação.

As tropas blasfemas

Terça-feira, 8 de outubro. Escrevi ao general Husk o seguinte: “Um homem grosseiro veio ter comigo esta tarde, dizendo vir da parte do senhor. Não se dignou subir até mim, nem sequer entrar na casa; ficou no pátio até que eu descesse e então me obrigou a ir com ele à rua, onde disse: ‘O senhor tem de derrubar as ameias da sua casa, ou amanhã o general as derrubará pelo senhor.’ Senhor, para mim isto nada é. Mas humildemente pondero que não seria próprio que esse homem, quem quer que seja, se portasse dessa maneira com qualquer outro súdito de sua majestade, em momento tão crítico como este. Estou pronto, se puder servir a sua majestade, a derrubar não só as ameias, mas a casa inteira; ou a entregar qualquer parte dela, ou o todo, nas mãos de vossa excelência.”

Sábado, 26. Enviei ao vereador Ridley a seguinte carta: “Senhor: o temor de Deus, o amor à minha pátria e a consideração que tenho por sua majestade o rei George constrangem-me a escrever algumas palavras francas a quem não é estranho a esses princípios de ação. A minha alma tem sido afligida dia após dia, até ao caminhar pelas ruas de Newcastle, com a maldade insensata e desavergonhada, a profanidade ignorante, dos pobres homens a quem as nossas vidas estão confiadas. As maldições e juramentos contínuos, a blasfêmia gratuita dos soldados em geral, são por força uma tortura para o ouvido sóbrio, seja de um cristão, seja de um incrédulo honesto. Pode alguém que teme a Deus, ou ama o próximo, ouvir isso sem preocupação? Especialmente se considerar o interesse do nosso país, além do destes próprios homens infelizes. Pois pode-se esperar que Deus esteja do lado daqueles que o afrontam diariamente na sua face? E, se Deus não estiver do seu lado, de que valerá o seu número, a sua coragem ou a sua força?

“Não há ninguém que cuide destas almas? Sem dúvida há alguns a quem isso caberia. Mas muitos destes, se estou bem informado, recebem alto soldo e não fazem exatamente nada. Quisera Deus que estivesse ao meu alcance suprir, em alguma medida, a sua falta de serviço. Estou pronto a fazer o que em mim estiver para chamar estes pobres pecadores ao arrependimento, uma ou duas vezes por dia (enquanto permanecer nestas partes), a qualquer hora e em qualquer lugar. E não desejo pagamento algum por fazê-lo — senão o que o meu Senhor der no dia da sua vinda.

“Não conhecendo pessoalmente o general, tomei a liberdade de fazer esta oferta ao senhor. Não tenho interesse algum nisso; mas alegrar-me-ia de servir, como puder, ao meu rei e ao meu país. Se se julgar que isto não terá utilidade real, morra a proposta e seja esquecida. Mas rogo-lhe, senhor, que creia que tenho sinceramente no coração a mesma causa gloriosa pela qual o senhor tem mostrado zelo tão digno; e que por isso sou, com caloroso respeito, seu obediente servo.”

Domingo, 27. Recebi recado do senhor Ridley de que comunicaria a minha proposta ao general e me devolveria a resposta o mais cedo possível. Tendo agora entregado a minha própria alma, na segunda-feira, 4 de novembro, deixei Newcastle. Antes das nove encontramos vários mensageiros expressos, enviados para contramandar a marcha do exército para a Escócia e informar que os rebeldes haviam passado o Tweed e marchavam para o sul.

Fogueiras por toda parte

Terça-feira, 5. À tarde cheguei a Leeds e achei a cidade cheia de fogueiras, e o povo gritando, disparando armas, praguejando e blasfemando — como é a maneira inglesa de celebrar feriados. Mandei imediatamente avisar alguns magistrados do que eu ouvira na estrada. A notícia correu a cidade num instante — e espero que tenha sido um sinal para o bem. O tumulto das ruas cessou de uma vez; algumas fogueiras, é certo, permaneceram; mas quase ninguém se via ao redor delas, a não ser umas poucas crianças esquentando as mãos.

Quinta-feira, 7. Cavalguei a Stayley Hall, no Cheshire, depois de muitas interrupções no caminho, causadas por aqueles pobres instrumentos que eram os vigias, postados com grande solenidade na entrada de quase todas as aldeias. Preguei ali sobre Marcos 1.15 e segui a cavalo para Bradbury Green.

Sexta-feira, 8. Sabendo que um cavalheiro da vizinhança, o doutor C., havia afirmado a muitos que o senhor Wesley estava agora com o Pretendente, perto de Edimburgo, escrevi-lhe algumas linhas. Pode ser que daqui em diante ele tenha um pouco mais de respeito pela verdade — ou de vergonha.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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