DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 10

O recolhimento em Paddington; calúnias; pressentimentos; um sonho

Doente e afastado do púlpito, Wesley escreve as Notas sobre o Novo Testamento; a Conferência decide não se separar da Igreja; a reconciliação com Whitefield; pressentimentos e sonhos registrados com cautela — e a “dívida de 1.236 libras” de quem nunca pregou por dinheiro.

1754–1756 ⏱ 33 min de leituraNotas sobre o NT

“Chame-o de acaso quem quiser: eu o chamo resposta de oração.”

(Diário, 24 de abril de 1755)

Antes de ler

Este capítulo nasce de uma doença. Impedido de viajar e de pregar por meses, Wesley observa a medida exata da providência: estava “tão doente que não podia viajar nem pregar — e, contudo, tão bem que podia ler e escrever”. Desse recolhimento em Bristol, Paddington e na antiga casa do bispo Bonner nasceram as Notas Explicativas sobre o Novo Testamento, que se tornariam um dos padrões doutrinários do metodismo até hoje. Deus transforma limitações em legado (Rm 8.28).

Duas decisões eclesiais marcam o período. Na Conferência de Leeds (1755), debateu-se com calma a grande questão — separar-se ou não da Igreja da Inglaterra — e concluiu-se: “lícito ou não, de modo algum é conveniente”. E, em novembro de 1755, a nota lacônica e comovente: “O senhor Whitefield me visitou. As disputas já não existem; amamo-nos e trabalhamos de mãos dadas para promover a causa do nosso Mestre comum.” A reconciliação prometida no capítulo 4 aconteceu (Sl 133.1).

O leitor notará vários relatos extraordinários: a visão dos cavaleiros no céu da Cornualha, a premonição de Edward Willis, o sonho da noiva de Cork, a classe que deixou a sala minutos antes de o barril de pólvora explodir. Observe o método de Wesley: ele registra os fatos com nomes e testemunhas, mas sem credulidade — “se foi real (o que não afirmo), só o tempo mostrará”. Nem cético que nega tudo, nem crédulo que engole tudo: discernimento (1Ts 5.20-21).

E há os números que pregam: dezoito anos de publicações somaram, nas contas de Wesley, uma dívida de 1.236 libras — o lucro de quem nunca fez do evangelho fonte de ganho (2Co 2.17); e as sessões gratuitas de eletroterapia para os pobres, com “centenas, talvez milhares” ajudados. A pergunta que fica: o que os nossos números dizem do nosso coração?

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1754. Terça-feira, 1º de janeiro. Voltei mais uma vez a Londres. Na quarta, 2, parti na diligência e, na tarde seguinte, cheguei a Chippenham. Ali tomei uma sege de posta, na qual alcancei Bristol por volta das oito da noite.

Sexta-feira, 4. Comecei a beber a água da Fonte Quente, alojando-me a pequena distância dela; e no domingo, 6, comecei a escrever as Notas sobre o Novo Testamento — obra que eu dificilmente teria empreendido se não estivesse tão doente que não podia viajar nem pregar, e, contudo, tão bem que podia ler e escrever.

Segunda-feira, 7. Segui então um método regular: levantando-me à minha hora e escrevendo das cinco às nove da noite — exceto o tempo de cavalgar, meia hora para cada refeição e a hora entre cinco e seis da tarde.

Quinta-feira, 31. Minha esposa, desejando prestar o último serviço ao seu pobre filho moribundo, partiu para Londres e chegou poucos dias antes de ele ir para casa, alegrando-se e louvando a Deus.

Terça-feira, 19 de março. (Bristol.) Terminado o rascunho, comecei a transcrever as Notas sobre os Evangelhos.

Terça-feira, 26. Preguei pela primeira vez, depois de uma interrupção de quatro meses. Que razões tenho de louvar a Deus por não tirar de todo da minha boca a Palavra da sua verdade!

Wesley recolhe-se em Paddington

Segunda-feira, 1º de abril. Partimos na diligência e, na tarde seguinte, alcançamos a Fundição.

Quarta-feira, 3. Resolvi todos os negócios que pude e, na manhã seguinte, retirei-me para Paddington. Ali passei algumas semanas escrevendo, indo à cidade apenas nos sábados à tarde e deixando-a de novo na segunda de manhã.

Nas horas de caminhada, li o Resumo da Vida do senhor Baxter, do doutor Calamy. Que cena se abre aqui! Apesar de todo o preconceito da educação, não pude deixar de ver que os pobres não-conformistas foram tratados sem justiça nem misericórdia; e que muitos dos bispos protestantes do rei Charles não tinham mais religião nem humanidade que os bispos papistas da rainha Maria.

Segunda-feira, 29. Preguei em Sadler’s Wells, no que antes era um teatro. Alegro-me quando apraz a Deus tomar posse do que Satanás estimava terreno seu. O lugar, embora amplo, ficou extremamente cheio, e profunda atenção pousava em cada rosto.

Quarta-feira, 22 de maio. Começou a nossa conferência; e o espírito de paz e amor esteve no meio de nós. Antes de nos separarmos, todos assinamos de bom grado um acordo de não agir independentemente uns dos outros; de modo que a brecha recém-aberta só serviu para nos unir mais estreitamente do que nunca.

2 de junho (Pentecostes). Preguei na Fundição, o que eu ainda não havia feito à tarde. Ainda não recobrei toda a voz nem as forças — talvez nunca as recobre; mas use eu o que tenho.

Perseguindo os metodistas

Segunda-feira, 9 de setembro. Preguei em Charlton, aldeia a seis milhas de Taunton, a uma grande congregação vinda das cidades e do campo por muitas milhas ao redor. Todos os fazendeiros daqui haviam entrado, algum tempo antes, num pacto conjunto: despedir do seu serviço e não dar trabalho a quem fosse ouvir um pregador metodista. Mas não há conselho contra o Senhor (Pv 21.30). Um dos principais deles, o senhor G—, não muito depois foi convencido da verdade e pediu àqueles mesmos homens que pregassem na sua casa. Muitos dos outros confederados vieram ouvir, seguidos de bom grado pelos seus criados e trabalhadores. Assim todo o artifício de Satanás caiu por terra, e a Palavra de Deus crescia e prevalecia.

Quarta-feira, 2 de outubro. Caminhei até Old Sarum que, a despeito do bom senso, sem casa nem morador, ainda envia dois membros ao Parlamento. É uma colina grande e redonda, cercada por um fosso largo que, ao que parece, foi de profundidade considerável. No topo há um campo de trigo; e no meio dele, outra colina redonda, de uns duzentos metros de diâmetro, cercada de muralha e fosso fundo. Provavelmente, antes da invenção do canhão, esta cidade era inexpugnável. Troia também era; mas agora desvaneceu, e nada resta senão “as pedras do vazio” (Is 34.11).

Quinta-feira, 3. Cavalguei a Reading e preguei à tarde. Observando perto da porta um homem exaltado (que já fora da sociedade), cumprimentei-o de propósito; mas ele não retribuiu. Durante a primeira oração ficou de pé, mas sentou-se enquanto cantávamos. No sermão o seu semblante mudou, e dali a pouco voltou o rosto para a parede. Levantou-se no segundo hino, e então se ajoelhou. Quando saí, agarrou-me a mão e me despediu com uma calorosa bênção.

Sexta-feira, 4. Cheguei a Londres. Na segunda, 7, retirei-me para um lugarzinho perto de Hackney, outrora residência do bispo Bonner (como mudam os tempos!), que ainda leva o seu nome. Ali vivi como num colégio: duas vezes ao dia nos uníamos em oração; o resto do dia (tirando cerca de uma hora para as refeições e outra para caminhar antes do almoço e da ceia), passava-o tranquilamente no meu gabinete.

As receitas de Wesley

1755. Segunda-feira, 7 de abril. (Wednesbury.) Aconselharam-me a tomar a estrada do Derbyshire para Manchester. Paramos numa casa seis milhas além de Lichfield. Observando uma mulher sentada na cozinha, perguntei: “A senhora não está bem?” — e soube que acabava de adoecer (estando em viagem), com todos os sintomas de uma pleurisia iminente. Alegrou-se de ouvir de um remédio fácil, barato e (quase) infalível: um punhado de urtigas, fervidas por alguns minutos e aplicadas mornas ao lado do corpo. Enquanto eu falava com ela, entrou um homem de idade, razoavelmente bem-vestido. Indagado, contou-nos que viajava, como podia, para casa, perto de Hounslow, na esperança de um acordo com os credores, aos quais havia entregado tudo o que tinha. Mas como seguir, não sabia: estava sem dinheiro e havia apanhado uma febre terçã. Espero que uma sábia Providência tenha dirigido também este andarilho, para que achasse remédio para ambos os males.

Segunda-feira, 14. Cavalguei por Manchester (onde preguei por volta do meio-dia) até Warrington. Às seis da manhã de terça, 15, preguei a uma congregação grande e séria; e segui para Liverpool, uma das cidades mais limpas e mais bem-construídas que vi na Inglaterra. Creio que tem o dobro do tamanho de Chester; a maior parte das ruas é perfeitamente reta. Dois terços da cidade, fomos informados, foram acrescentados nestes últimos quarenta anos. Se continuar crescendo na mesma proporção, em mais quarenta anos quase igualará Bristol. O povo, em geral, é o mais manso e cortês que já vi em cidade portuária — como mostra, aliás, o seu comportamento amigável não só com os judeus e católicos que vivem entre eles, mas até com os (assim chamados) metodistas. A casa de pregação é um pouco maior que a de Newcastle. Encheu-se por completo às sete da tarde; e o coração da congregação inteira parecia comovido diante do Senhor e diante da presença do seu poder.

Wesley e o sol

Quinta-feira, 24. Cavalgamos em menos de quatro horas as oito milhas (assim chamadas) até Newell Hay [desde Bolton]. Assim que comecei a pregar, o sol rompeu e bateu extremamente quente no lado da minha cabeça. Vi que, se continuasse, eu não poderia falar por muito tempo, e levantei o coração a Deus. Num minuto ou dois, cobriu-se de nuvens, que permaneceram até o fim do culto. Chame-o de acaso quem quiser: eu o chamo resposta de oração.

Sexta-feira, 25. Por volta das dez preguei perto de Todmorden. O povo ficou de pé, fileira sobre fileira, na encosta da montanha. Eram ásperos na aparência exterior, mas os seus corações eram como cera que se derrete.

Dificilmente se concebe algo mais encantador que o vale pelo qual cavalgamos dali em diante: o rio corria pelos prados verdes à direita; as colinas férteis e os bosques erguiam-se de ambos os lados. Às três da tarde preguei em Heptonstall, no alto da montanha. A chuva começou quase junto comigo. Orei para que, se Deus visse por bem, ela se detivesse até que eu entregasse a sua Palavra. Assim foi; e então recomeçou. Mas tínhamos só uma pequena etapa até Ewood.

Terça-feira, 6 de maio. Começou a nossa conferência em Leeds. O ponto sobre o qual pedimos a todos os pregadores que falassem plenamente o que pensavam foi: devemos separar-nos da Igreja? Tudo o que se alegou, de um lado e de outro, foi séria e calmamente considerado; e no terceiro dia todos concordamos plenamente naquela conclusão geral: que (fosse lícito ou não) de modo algum era conveniente.

Segunda-feira, 12. Cavalgamos (minha esposa e eu) até Northallerton.

Quarta-feira, 21. Preguei em Nafferton, perto de Horsley, a umas treze milhas de Newcastle. Cavalgamos principalmente pela nova estrada do oeste, que corre sobre a velha muralha romana. Parte dela ainda se vê, como também os restos da maioria das torres, construídas à distância de uma milha uma da outra, de mar a mar. Mas onde estão os homens de renome que as construíram, e que um dia fizeram tremer toda a terra? Desfeitos em pó! Partiram, para não serem mais vistos, até que a terra entregue os seus mortos!

2 de junho. Cavalgamos a Thirsk, onde reuni a pequena sociedade, e seguimos para York. O povo esperava havia algum tempo; comecei, pois, a pregar sem demora, e não senti falta de forças, embora a sala parecesse um forno, pela multidão de gente.

Sábado, 7. Um dos cônegos residentes mandou chamar o senhor Williamson, que me havia convidado a pregar na sua igreja, e lhe disse: “Senhor, eu abomino a perseguição; mas, se o senhor deixar o senhor Wesley pregar, será pior para o senhor.” Ele o desejou mesmo assim; mas eu declinei. Talvez haja providência também nisto: Deus não permitirá que a minha pouca força restante se gaste com os que só me ouvem de um modo que os comprometa.

A sala parecia um forno

Domingo, 8. Estivemos na catedral pela manhã e na nossa igreja paroquial à tarde. O mesmo cavalheiro pregou em ambas; mas, embora eu o tivesse visto na igreja, não soube que já o vira antes: pela manhã era todo vida e movimento; à tarde, quieto como um poste. Às cinco, a chuva me constrangeu a pregar de novo no “forno”. A paciência da congregação me surpreendeu: pareciam não sentir o calor extremo, nem se ofender com a aplicação cerrada daquelas palavras: “Você não está longe do Reino de Deus” (Mc 12.34).

Segunda-feira, 16. Preguei à tarde em Nottingham e, na quinta à tarde, cheguei a Londres. Com um profundo senso da obra espantosa que Deus operou nestes últimos anos na Inglaterra, preguei à tarde sobre aquelas palavras: “Ele não fez assim a nenhuma outra nação” (Sl 147.20) — não, nem mesmo à Escócia ou à Nova Inglaterra. Em ambas Deus de fato desnudou o seu braço; mas não de maneira tão assombrosa como entre nós. Isso há de parecer evidente a quem considerar imparcialmente: primeiro, o número de pessoas sobre as quais Deus operou; segundo, a rapidez da sua obra em muitos, convencidos e verdadeiramente convertidos em poucos dias; terceiro, a profundidade dela na maior parte deles, mudando o coração e toda a conduta; quarto, a clareza dela, capacitando-os a dizer com ousadia: “Tu me amaste; te entregaste por mim”; quinto, a sua continuidade.

Terça-feira, 24. (Londres.) Observando naquele valioso livro, as Coleções Históricas do senhor Gillies, o costume das congregações cristãs de todas as eras de separar tempos de solene ação de graças, fiquei admirado e envergonhado de nunca o termos feito, depois de todas as bênçãos recebidas; e muitos a quem o mencionei concordaram alegremente em separar um dia para esse fim.

“Este não é um louco”

Domingo, 31 de agosto. Às cinco preguei em Gwennap a vários milhares, sem que um só estivesse desatento ou leviano. Depois que terminei, levantou-se a tempestade, e a chuva desabou até as quatro da manhã; então o céu clareou, e muitos dos que temiam a Deus se reuniram alegremente diante dele.

Segunda-feira, 1º de setembro. Preguei em Penryn, a muitíssimo mais gente do que a casa podia conter.

Terça-feira, 2. Fomos a Falmouth. A cidade não é mais o que era dez anos atrás: tudo está quieto, de uma ponta à outra. Pensei em pregar na colina perto da igreja; mas o vento violento o tornou impraticável, e tive de ficar na nossa própria sala. O povo podia ouvir também no pátio e nas casas contíguas; e todos estavam profundamente atentos.

Quarta-feira, 3. Depois de pregar de novo a uma congregação que agora parecia pronta a devorar cada palavra, subi ao castelo de Pendennis, finamente situado na ponta alta de terra que avança entre a baía e o porto, dominando ambos. Poderia facilmente ser fortificado ao extremo; mas os nossos castelos de madeira [os navios] bastam.

À tarde cavalgamos a Helstone, outrora turbulenta que bastasse, agora quieta como Penryn. Preguei às seis, numa elevação a um tiro de mosquete da cidade. Dois bêbados tentaram interromper; mas um logo se foi, e o outro se recostou no pescoço do cavalo e caiu em sono profundo.

Sexta-feira, 5. Por volta do meio-dia, a caminho de Newlyn, visitei W. Row, em Breage. “Doze anos atrás”, disse ele, “eu atravessava os campos de Gulval e vi muita gente reunida. Perguntei o que havia, e disseram-me que um homem ia pregar. Eu disse: ‘Não; este não é um louco.’ O senhor pregou sobre Deus ressuscitando os ossos secos; e daquele tempo em diante nunca pude descansar, até que aprouve a Deus soprar sobre mim e ressuscitar a minha alma morta.”

Caluniando Wesley do púlpito

Eu não havia anunciado pregação aqui; mas, vendo o pobre povo afluir de todos os lados, não pude despedi-los vazios. Preguei, pois, a pequena distância da casa, e roguei-lhes que considerassem o nosso “grande Sumo Sacerdote, que penetrou os céus” (Hb 4.14); e ninguém abriu a boca, pois também os leões de Breage estão agora mudados em cordeiros. Que fossem tão ferozes dez anos atrás não admira, visto que o seu desgraçado ministro lhes dizia do púlpito (sete anos antes de eu renunciar à minha bolsa no colégio) que “John Wesley fora expulso do Colégio por causa de um filho ilegítimo, e estava completamente louco desde então; que todos os metodistas, nas suas reuniões privadas, apagavam as luzes” etc., com abundância de coisas do mesmo tipo. Mas, um ou dois anos atrás, notou-se que ele se tornava pensativo e melancólico; e, há cerca de nove meses, entrou na sua própria latrina e enforcou-se.

Sábado, 6. À tarde preguei em St. Just. Exceto em Gwennap, não vi congregação igual na Cornualha. O sol (nem pudemos dispor de outro modo) batia em cheio no meu rosto quando comecei o hino; mas, justamente ao terminá-lo, levantou-se uma nuvem que o cobriu até eu acabar de pregar. Haverá algo pequeno demais para a providência daquele que numera os nossos próprios cabelos? (Mt 10.30)

Domingo, 7. No ano passado, uma estranha carta escrita em Penzance saiu nos jornais. Hoje falei com as duas pessoas que a ocasionaram. São da paróquia de St. Just, homens sensatos, e não são metodistas. Um se chama James Tregeer; o outro, Thomas Sackerly. Recebi o relato de James duas ou três horas antes de Thomas chegar, mas não houve diferença substancial. Em julho do ano anterior, disseram ambos, caminhavam da vila da igreja de St. Just para Sancreet quando Thomas, por acaso olhando para cima, gritou: “James, olha, olha! Que é aquilo no céu?” A primeira aparição, como James a descreveu, foram três colunas de cavaleiros avançando velozes, como em combate, do sudoeste para o nordeste, com uma larga faixa de céu entre as colunas. Às vezes pareciam adensar-se, depois abrir as fileiras. Viram depois uma grande esquadra de navios de três mastros, a todo pano, rumo à ponta do Lizard. Isso durou mais de um quarto de hora; então tudo desapareceu, e eles seguiram o seu caminho. O significado disto, se foi real (o que não afirmo), só o tempo pode mostrar.

Uma coincidência extraordinária

Sábado, 13. Preguei mais uma vez em St. Just, sobre a primeira pedra da sua nova casa da sociedade. À tarde, quando cavalgávamos para Camborne, John Pearce, de Redruth, mencionou um incidente notável. Quando morava em Helstone, estando a classe reunida certa tarde, uma delas gritou, num tom incomum: “Não ficaremos aqui; vamos para a casa de —” (uma casa em parte bem diferente da cidade). Levantaram-se todos imediatamente e foram, sem que nem eles nem ela soubessem por quê. Logo depois que saíram, uma fagulha caiu num barril de pólvora que estava no cômodo ao lado e explodiu a casa. Assim preservou Deus os que nele confiavam — e preveniu a blasfêmia da multidão.

Segunda-feira, 15. Caminhamos uma hora à beira-mar [em Cubert], entre aquelas cavernas espantosas, tão surpreendentes quanto o Pool’s Hole ou qualquer outra do Pico de Derbyshire. Parte da rocha nessas abóbadas naturais brilha, rubra e luzente como ouro; parte é de um fino azul-celeste; parte, verde; parte, esmaltada exatamente como madrepérola; e grande parte, especialmente perto do Poço Santo (que borbulha no alto de uma rocha e é famoso por curar males escorbúticos e escrofulosos), está recoberta, por onde a água corre, de uma crosta dura e branca como alabastro.

Terça-feira, 23. Subimos à torre de Glastonbury, que um cavalheiro está restaurando. É o campanário de uma igreja cuja fundação ainda se distingue. No lado oeste da torre há nichos para imagens, uma das quais, de tamanho natural, ainda está inteira. A colina em que se ergue é extremamente íngreme e de altura incomum, dominando o país por todos os lados, bem como o canal de Bristol. Eu estava bem cansado quando chegamos a Bristol; mas preguei até que todas as minhas queixas se foram; e tive então um pouco de sossego para ficar quieto e terminar as Notas sobre o Novo Testamento.

Quarta-feira, 5 de novembro. O senhor Whitefield me visitou. As disputas já não existem: amamo-nos e trabalhamos de mãos dadas para promover a causa do nosso Mestre comum.

Macbeth e os trovões em Drury Lane

Segunda-feira, 17. Quando caminhávamos para Wapping, a chuva desabou com tal violência que tivemos de abrigar-nos até amainar. Seguimos então até Gravel Lane, em muitas partes da qual as águas corriam como um rio. Fomos indo razoavelmente bem, até que a chuva apagou a vela da nossa lanterna, e tivemos de vadear por tudo, até chegar ao pátio da capela. Justo quando entrávamos, um pequeno risco de relâmpago apareceu no sudoeste, com um pequeno trovão e uma rajada veemente de chuva, que se despejou tão abundantemente pelas nossas telhas quebradas que a sacristia ficou alagada. Pouco depois de eu começar a ler as orações, os relâmpagos flamejaram ao redor, e os trovões rolaram bem sobre as nossas cabeças. Quando cresceram mais e mais, percebendo que muitos dos de fora estavam bastante assustados, interrompi as orações depois da coleta “Ilumina as nossas trevas, Senhor, nós te suplicamos”, e passei a aplicar: “O Senhor preside ao dilúvio; o Senhor permanece rei para sempre” (Sl 29.10). Logo cessaram relâmpagos, trovões e chuva, e tivemos uma tarde notavelmente calma.

Observou-se que exatamente àquela hora representavam Macbeth em Drury Lane; e, justamente quando começou o trovão de mentira, o Senhor começou a trovejar do céu. Por algum tempo isso os deteve; mas logo tomaram coragem e prosseguiram. De outro modo, poder-se-ia suspeitar que o temor de Deus se havia infiltrado no próprio teatro!

Sexta-feira, 12 de dezembro. Voltando de Zoar, cheguei como de costume a Moorfields; mas ali as forças me faltaram por completo, e tal fraqueza e cansaço me tomaram que foi com dificuldade que cheguei a casa. Não pude deixar de pensar como seria feliz (supondo-nos prontos para o Noivo) afundar e partir de uma vez, sem nada da pressa e da pompa do morrer! Contudo, mais feliz ainda é glorificar a Deus na nossa morte, como na nossa vida.

Terça-feira, 23. Eu estava na sala das vestes, contígua à Câmara dos Lordes, quando o Rei vestiu as suas insígnias. Sua fronte estava muito sulcada pela idade e toda anuviada de cuidado. E é isto tudo o que o mundo pode dar até a um rei? Toda a grandeza que pode oferecer? Uma manta de arminho sobre os ombros, tão pesada e incômoda que ele mal pode mover-se debaixo dela! Um enorme monte de cabelo alheio, com algumas placas de ouro e pedras brilhantes na cabeça! Ah, que bugiganga é a grandeza humana! E nem mesmo isto há de durar.

No castelo de Dover

1756. Segunda-feira, 26 de janeiro. Cavalguei à Cantuária e preguei à tarde a uma congregação como nunca vi ali, na qual havia abundância de soldados e não poucos dos seus oficiais.

Quarta-feira, 28. Preguei por volta do meio-dia em Dover, a uma congregação pequena, mas muito séria. Subimos depois ao castelo, no alto de uma montanha. A situação é espantosamente bela; e dali tivemos vista clara daquele vasto pedaço do penhasco que, poucos dias antes, se separou do resto e caiu sobre a praia.

Sexta-feira, 30. Voltando a Londres, li a vida do falecido czar, Pedro, o Grande. Sem dúvida foi um soldado, um general e um estadista dificilmente inferior a qualquer outro. Mas por que o chamaram cristão? Que tem o cristianismo com a dissimulação profunda ou com a crueldade selvagem?

Sexta-feira, 6 de fevereiro. O dia de jejum foi um dia glorioso, como Londres mal viu desde a Restauração. Todas as igrejas da cidade ficaram mais que cheias, e uma seriedade solene pousava em cada rosto. Certamente Deus ouve a oração, e ainda haverá um prolongamento da nossa tranquilidade.

Pregando a um bando de recrutadores

Segunda-feira, 23. Fiz nova visita à Cantuária, mas cheguei tarde demais para pregar.

Terça-feira, 24. Abundância de soldados e muitos oficiais vieram à pregação. E certamente o temor e o amor de Deus os prepararão, seja para a morte, seja para a vitória.

Quarta-feira, 25. Almocei com o coronel —, que disse: “Nenhum homem luta como os que temem a Deus; eu preferiria comandar quinhentos desses a qualquer regimento do exército de sua majestade.”

Quinta-feira, 11 de março. Cavalguei a Pill e preguei a uma congregação grande e atenta, em grande parte homens do mar. No meio do discurso, um bando de recrutamento desembarcou de um navio de guerra e subiu até o lugar; mas, depois de escutar um pouco, passaram quietos e não molestaram ninguém.

Segunda-feira, 15. Cavalguei à Velha Passagem; mas, vendo que não podíamos cruzar, seguimos a Purton, que alcançamos às quatro da tarde. Mas não estávamos mais perto: os barqueiros moravam do outro lado, e o vento era tão alto que não conseguíamos nos fazer ouvir. Decidimos, contudo, esperar um pouco; e num quarto de hora vieram por conta própria. Chegamos a Coleford antes das sete e achamos um povo simples e amoroso, que recebeu a Palavra de Deus com toda a alegria.

Sexta-feira, 19. Cavalguei até Howell Harris, em Trevecka, sem saber como seguir dali. Mas ele nos tirou das dificuldades, oferecendo-se para mandar conosco alguém que mostrasse o caminho e trouxesse de volta os cavalos; decidi então seguir até Holyhead, depois de passar um ou dois dias em Brecknock.

Sábado, 20. Sendo o dia marcado para a reunião dos juízes e comissários, a cidade estava extremamente cheia, e a curiosidade (se não motivo melhor) trouxe a maior parte dos cavalheiros à pregação. Outra oportunidade assim, de falar a todos os ricos e grandes do condado, não poderia ter havido; todos pareceram sérios e atentos. Talvez um ou dois o levem ao coração.

Segunda-feira, 22. O tempo se manteve bom até chegarmos a Builth, onde preguei à congregação de costume. O senhor Phillips guiou-nos então a Royader, umas catorze milhas inglesas. Nevava forte atrás de nós e de ambos os lados — mas nada onde estávamos.

Terça-feira, 23. Quando montamos, nada se via senão um deserto branco: a neve cobria colinas e vales. Sem enxergar trilha, avançamos com muita dificuldade e não pouco perigo. Mas entre sete e oito o sol rompeu, e a neve começou a derreter, e julgamos vencida toda a dificuldade — até que, por volta das nove, a neve caiu mais forte do que nunca. Numa hora mudou para granizo que, enquanto cavalgávamos pelas montanhas, batia violento no nosso rosto. Por volta do meio-dia virou chuva pesada, seguida de vento impetuoso. Contudo, avançamos através de tudo e, antes do pôr do sol, chegamos a Dolgelly.

À espera da balsa

Aqui achamos tudo de que precisávamos, exceto sono — do qual nos privou uma companhia de capitães de navio embriagados, que manteve posse da sala debaixo de nós até entre duas e três da madrugada. Só montamos depois das seis, e sem grande velocidade, pois a geada era agudíssima e havia muito gelo na estrada. Assim, só alcançamos Tannabull entre onze e meio-dia. Um galês honesto nos deu a entender (embora não falasse inglês) que ia justamente atravessar os bancos de areia. Apressamo-nos com ele e, desse modo, chegamos em boa hora a Carnarvon.

Passamos ali uma noite tranquila e confortável e montamos por volta das seis. Supondo, depois de quase uma hora de cavalgada, que uma casinha do outro lado fosse a casa da balsa, descemos à água e chamamos a plenos pulmões; mas não obtivemos resposta. Nesse meio-tempo começou a chover forte, com vento altíssimo. Vendo que ninguém atravessaria, abrigamo-nos numa igrejinha que havia perto.

Esperávamos havia cerca de uma hora quando uma mulher e uma menina entraram no adro; não lhes dei atenção, supondo que não falassem inglês. Seguiam uma ovelha, que passou rente a nós. Perguntei então: “Esta não é a balsa de Baldon?” A menina respondeu: “Balsa de Baldon? Não. A balsa fica duas milhas adiante.” De modo que poderíamos ter chamado até cansar. Quando chegamos a Baldon, o vento caiu, o céu clareou, o barco veio sem demora e logo nos pôs em Anglesey. No caminho para Holyhead, alguém nos encontrou e informou que o paquete havia zarpado na véspera. Eu disse: “Talvez me leve assim mesmo.” Apressamo-nos e chegamos à tarde. O paquete de fato zarpara na véspera e vencera mais de meio mar; mas, virando o vento contra eles e soprando forte, deram-se por felizes de voltar naquela mesma tarde. Quase não me lembro de tempestade tão violenta como a que soprou a noite inteira. O vento continuou contrário no dia seguinte.

Honestidade irlandesa

Segunda-feira, 29. Deixamos o porto por volta do meio-dia, com seis ou sete oficiais e abundância de passageiros a bordo. O vento era pleno oeste, e havia grande probabilidade de noite tempestuosa. Julgou-se melhor voltar; mas um cavalheiro, propondo que se tentasse um pouco mais, em pouco tempo trouxe todos à sua opinião. Concordaram, pois, em sair e “procurar um vento”. O vento continuou de oeste a noite toda. Contudo, pela manhã estávamos a duas léguas da Irlanda! Entre nove e dez desembarquei em Howth e caminhei para Dublin. A congregação da tarde foi como nunca vi ali. Espero que também isto seja um sinal para o bem.

Quarta-feira, 31. Conversando com muitos, surpreendeu-me achar que toda a Irlanda está em perfeita segurança: ninguém aqui tem mais receio de uma invasão do que de ser tragado pelo mar, estando todos absolutamente certos de que os franceses não ousariam tentar tal coisa.

Quinta-feira, 1º de abril. Comprei um ou dois livros na loja do senhor Smith, no Blind Quay. Precisava de troco para um guinéu, mas ele não tinha; tomei, pois, prata emprestada ao meu companheiro. Na tarde seguinte, um jovem veio da parte do senhor Smith dizer-me que eu havia deixado um guinéu sobre o seu balcão. Exemplo de honestidade assim raramente encontrei, fosse em Bristol, fosse em Londres.

Um pressentimento notável cumprido

Quarta-feira, 28. Cavalguei a Tullamore, onde um da sociedade, Edward Willis, me deu um relato surpreendente de si mesmo. Disse ele: “Aos vinte anos, fui a Waterford a negócios. Depois de algumas semanas, resolvi partir e arrumei as minhas coisas para sair na manhã seguinte. Era domingo, mas o meu hospedeiro insistiu muito que eu só fosse no dia seguinte. À tarde saímos juntos a passeio e entramos no rio. Depois de algum tempo, deixando-o perto da margem, nadei para o fundo. Logo ouvi um grito e, virando-me, o vi subindo e afundando no canal do rio. Nadei de volta a toda pressa e, vendo-o afundar de novo, mergulhei atrás dele. Quando eu estava perto do fundo, ele me enlaçou o pescoço com o braço e me segurou tão firme que não pude subir.

“Vendo a morte diante de mim, todos os meus pecados me vieram à mente, e clamei debilmente por misericórdia. Dali a pouco os sentidos me deixaram, e pareceu-me estar num lugar cheio de luz e glória, com abundância de gente. Enquanto eu estava assim, aquele que me segurava morreu, e eu flutuei até a superfície. Voltei então imediatamente a mim e nadei até a margem, onde estavam vários que nos tinham visto afundar e disseram nunca ter conhecido tal livramento, pois eu estivera debaixo d’água vinte minutos inteiros. Isso me fez mais sério por dois ou três meses. Depois voltei a todos os meus pecados.

“Mas, no meio de tudo, uma voz me seguia por toda parte: ‘Quando vier um ministro capaz do evangelho, então irá bem contigo!’ Anos depois entrei para o exército; nossa tropa estava em Phillipstown quando veio o senhor W. Fiquei muito tocado pela sua pregação, mas não a ponto de deixar os meus pecados. A voz ainda me seguia; e, quando o senhor J. W. veio, antes de o ver tive a convicção indizível de que era o homem que eu esperava. Pouco depois achei paz com Deus — e foi bem comigo, de verdade.”

Pregando num sobrado

Segunda-feira, 10 de maio. Segui para Clonmell, a cidade mais aprazível, sem comparação, que já vi na Irlanda. Tem quatro ruas largas e retas, de casas bem-construídas, que se cruzam no centro. Rente às muralhas, do lado sul, corre um rio largo e claro. Além dele ergue-se uma montanha verde e fértil, debruçada sobre a cidade. O vale corre por muitas milhas a leste e a oeste, todo bem-cultivado.

Preguei às cinco num grande sobrado, capaz de conter quinhentas ou seiscentas pessoas. Mas não ficou cheio: muitos temiam que caísse, como outro caíra anos antes, ferindo gravemente vários ouvintes — e machucando tanto uma mulher que ela morreu em poucos dias.

Terça-feira, 11. Fiquei sem saber onde pregar: o dono do sobrado recusou-se a ceder o lugar, e até o pátio embaixo. E o oficial comandante, a quem se pediu o pátio do quartel, respondeu que não era lugar próprio. “Não”, disse ele, “que eu tenha objeção ao senhor Wesley: eu o ouvirei ainda que pregue debaixo da forca.” Restou pregar na rua — e com isso a congregação mais que dobrou. Oficiais e soldados prestaram grande atenção, até que um pobre homem, especialmente bêbado, veio marchando rua abaixo, acompanhado de uma turba papista, com um porrete numa mão e um grande cutelo na outra, maldizendo e blasfemando terrivelmente e jurando que cortaria a cabeça do pregador. Foi com dificuldade que contive os soldados, especialmente os que não eram da sociedade.

Quando ele se aproximou, o prefeito saiu da congregação e procurou acalmá-lo com boas palavras; mas não conseguiu. Entrou em casa e voltou com a sua vara branca, mandando ao mesmo tempo chamar dois condestáveis, que logo vieram com os seus bastões. Ordenou-lhes que não golpeassem o homem, a menos que ele golpeasse primeiro; o que ele fez imediatamente, assim que chegaram ao seu alcance, ferindo um deles no pulso. Diante disso, o outro o derrubou — o que teve de fazer três vezes, antes que ele se submetesse. O prefeito então caminhou à frente, com os condestáveis de cada lado, e o conduziu à cadeia.

Um sonho terrível

Quinta-feira, 3 de junho. Recebi uma carta notável de um clérigo com quem estivera um ou dois dias antes. Parte dela dizia assim: “Recebi o seguinte relato da própria senhora, pessoa de piedade e veracidade — hoje esposa do senhor J— B—, ourives em Cork:

“‘Há uns trinta anos, fui pedida em casamento pelo senhor Richard Mercier, então voluntário do exército. O jovem estava aquartelado em Charleville, onde vivia o meu pai, que aprovou o pedido e me mandou olhá-lo como meu futuro marido. Quando o regimento deixou a cidade, ele prometeu voltar em dois meses e casar comigo. De Charleville foi a Dublin, dali à casa do pai e de lá à Inglaterra, onde, tendo-lhe o pai comprado um posto de corneta de cavalaria, adquiriu muitos adornos para o casamento; voltando à Irlanda, avisou-nos de que estaria na nossa casa em Charleville em poucos dias.

“‘Com isso a família se ocupou em preparar a sua recepção e o casamento próximo; quando, certa noite, estando eu e a minha irmã Molly adormecidas na nossa cama, fui acordada pelo abrir súbito da cortina lateral e, erguendo-me de um salto, vi o senhor Mercier de pé, ao lado da cama. Estava envolto num lençol solto e tinha na cabeça um guardanapo dobrado como touca de dormir. Olhou-me com muita fixidez e, levantando o guardanapo, que muito lhe sombreava o rosto, mostrou-me o lado esquerdo da cabeça, todo ensanguentado e coberto dos miolos. O quarto, nesse meio-tempo, estava totalmente iluminado. Meu terror foi excessivo, e cresceu ainda mais quando ele se debruçou sobre a cama e me abraçou. Meus gritos alarmaram a família inteira, que veio apinhar-se no quarto. Quando entraram, ele retirou brandamente os braços e subiu, por assim dizer, através do teto. Fiquei algum tempo em fortes convulsões. Quando pude falar, contei o que vira. Um deles, um ou dois dias depois, indo ao agente do correio buscar cartas, encontrou-o lendo os jornais, nos quais vinha a notícia: o corneta Mercier, entrando no campanário da igreja de Cristo, em Dublin, logo depois que os sinos haviam tocado, estava debaixo deles quando um, que ficara de boca para cima, virou de repente, atingiu-lhe um lado da cabeça e o matou no ato. Indagando mais, soubemos que fora atingido no lado esquerdo da cabeça.'”

Domingo, 4 de julho. Pela manhã atravessamos Tuam, cidadezinha limpa, com metade do tamanho de Islington; nem a catedral tem metade da igreja de Islington. A velha igreja de Kilconnel, a duas milhas de Aghrim, é bem maior. A julgar pelas vastas ruínas que restam (sobre as quais caminhamos à tarde), foi edifício bem mais imponente do que qualquer outro hoje de pé na Irlanda. Contíguas ficam as ruínas de um grande mosteiro, com muitas celas e aposentos ainda bem inteiros. Na extremidade oeste da igreja jaz abundância de caveiras, empilhadas umas sobre as outras, com inumeráveis ossos ao redor, espalhados como esterco sobre a terra. Ó pecado, que fizeste!

As delícias do norte do País de Gales

Sexta-feira, 6 de agosto. Neste dia e no seguinte concluí os meus negócios na Irlanda, de modo a estar pronto para navegar ao primeiro aviso.

Domingo, 8. Devíamos zarpar, estando o vento favorável; mas, quando íamos a bordo, ele virou pleno leste. Acho de grande proveito estar em suspense: é excelente meio de quebrar a nossa vontade. Que estejamos prontos, seja para ficar mais tempo nesta praia, seja para lançar-nos na eternidade!

Na terça à tarde preguei o meu sermão de despedida. O senhor Walsh fez o mesmo pela manhã. Caminhamos então ao cais. Mas ainda era dúvida se navegaríamos ou não: Sir T. P. mandara dizer ao capitão do paquete que, se o vento fosse favorável, ele atravessaria — e era seu costume reservar o navio inteiro para si. Mas, vindo o vento do leste, ele não quis ir; assim, por volta do meio-dia embarcamos. Em duas ou três horas alcançamos a boca do porto. Fez-se então calmaria. Tínhamos cinco passageiros de camarote, além dos senhores Walsh, Haughton, Morgan e eu — todos civis e razoavelmente sérios; e os marinheiros portaram-se extraordinariamente bem.

Quinta-feira, 12. Por volta das oito começamos a cantar no tombadilho, e logo atraímos todos os companheiros de viagem, e o capitão com a maior parte dos seus homens. Fiz depois uma exortação, e passamos algum tempo em oração. Todos se ajoelharam conosco; nem a sua seriedade se desfez o dia inteiro. Por volta das nove desembarcamos em Holyhead, depois de uma travessia agradável de vinte e três horas.

Sexta-feira, 13. Alugados cavalos para Chester, partimos por volta das sete. Antes de uma hora alcançamos Bangor, cuja situação é encantadora além de toda expressão. Vimos ali uma catedral grande e bela, mas nenhum traço dos bons e velhos monges de Bangor — tantas centenas dos quais caíram de uma só vez, sacrifício da crueldade e da vingança. A região dali até Penmaen-Mawr é mais aprazível que qualquer jardim: montanhas de toda forma e tamanho, vales vestidos de erva ou trigo, bosques e tufos menores de árvores variavam continuamente de um lado, como a vista do mar do outro.

O próprio Penmaen-Mawr ergue-se quase perpendicular, a enorme altura, desde o mar. A estrada corre pela sua encosta, tão acima da praia que ninguém ousaria olhar para baixo, não fosse o muro construído ao longo de toda ela, com cerca de um metro e vinte de altura. Enquanto isso, o penhasco recortado pende sobre a cabeça, como se fosse cair a cada momento. Uma hora depois de deixar esse lugar tremendo, chegamos à antiga cidade de Conway: é toda murada, e as muralhas estão razoavelmente conservadas. O castelo é a mais nobre ruína que já vi: quadrado, com quatro grandes torres redondas, uma em cada canto, cujo interior foi de aposentos senhoriais. Um dos lados do castelo é uma grande igreja, de janelas e arcos curiosamente lavrados. Um braço de mar contorna dois lados da colina sobre a qual o castelo se ergue — outrora delícia de reis, hoje coberto de espinhos e habitado apenas por aves lúgubres.

A dívida de 1.236 libras

Quarta-feira, 25. Cavalgamos até Bristol.

Quinta-feira, 26. Reunidos cerca de cinquenta de nós, as Regras da Sociedade foram lidas e cuidadosamente consideradas, uma a uma; mas não achamos nenhuma que pudesse ser dispensada. Concordamos, pois, todos em guardá-las todas e recomendá-las com todas as nossas forças. Consideramos depois, amplamente, a necessidade de permanecer na igreja e de tratar o clero com brandura; e não houve voz discordante. Deus nos fez todos de um só pensamento e juízo.

Sexta-feira, 27. As Regras das Bandas foram lidas e consideradas, uma a uma; e, depois de algumas alterações verbais, concordamos todos em observá-las e fazê-las cumprir.

Sábado, 28. Meu irmão e eu encerramos a conferência com uma declaração solene do nosso propósito de jamais nos separarmos da igreja; e todos os nossos irmãos concordaram.

Segunda-feira, 6 de setembro. Parti na diligência e, na terça à tarde, cheguei a Londres. Na quarta e na quinta pus em ordem os meus negócios temporais. Faz agora cerca de dezoito anos que comecei a escrever e imprimir livros; e quanto ganhei nesse tempo com a impressão? Ora, somando as contas, descobri que em 1º de março de 1756 (dia em que deixei Londres pela última vez) eu havia ganhado, entre imprimir e pregar, uma dívida de mil duzentas e trinta e seis libras.

Domingo, 10 de outubro. Preguei a uma imensa multidão em Moorfields sobre “Por que morrerão, ó casa de Israel?” É a pregação ao ar livre que ainda faz a obra; para a utilidade, nada há que se lhe compare.

Wesley e a eletricidade como cura

Terça-feira, 9 de novembro. Tendo obtido um aparelho para esse fim, mandei eletrizar várias pessoas que sofriam de diversos males; algumas acharam cura imediata, outras, gradual. Daquele tempo em diante marquei, primeiro algumas horas por semana, depois uma hora por dia, em que qualquer pessoa que o desejasse pudesse experimentar a virtude desse remédio surpreendente. Dois ou três anos depois, os nossos pacientes eram tão numerosos que tivemos de dividi-los: parte era eletrizada em Southwark, parte na Fundição, outros perto de São Paulo, e o restante perto de Seven Dials. O mesmo método seguimos desde então; e, até hoje, enquanto centenas, talvez milhares, receberam bem indizível, não conheci um só homem, mulher ou criança que tenha recebido dano algum. De modo que, quando ouço alguém falar do perigo de ser eletrizado (especialmente se são médicos os que assim falam), não posso deixar de atribuí-lo a grande falta, ou de juízo, ou de honestidade.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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