DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 11

“É pregando que eu vivo”; conselhos aos viajantes; os prisioneiros franceses

Escócia e Cornualha, um incêndio em Kingswood, noventa milhas sob neve e granizo, os transes de Everton examinados com serenidade — e a coleta que vestiu mil e cem prisioneiros franceses. No meio de tudo, a confissão: “É pregando que eu vivo!”

1757–1759 ⏱ 39 min de leituraPregação ao ar livre

“Onde está o meu zelo se não piso tudo isso aos pés para salvar mais uma alma?”

(Diário, junho de 1759)

Antes de ler

Este capítulo cobre três anos de estradas (1757–1759): Escócia, Cornualha, Norfolk, o norte da Inglaterra. No meio de uma dessas viagens, depois de pregar duas vezes no mesmo dia sob sol escaldante, Wesley anota a frase que dá título ao capítulo: “É pregando que eu vivo!” Não era retórica. Aos cinquenta e poucos anos, ele contabiliza duas mil e quatrocentas milhas percorridas em sete meses — e confessa, com desarmante sinceridade, que também ele preferiria “uma sala confortável, uma almofada macia, um púlpito bonito”. O que o move não é gosto pela estrada, e sim zelo por almas (1Co 9.16).

O leitor encontrará de novo relatos extraordinários: o sonho da esposa que antecipou o afogamento do marido, e os transes de Everton, que Wesley examina de perto — pulso, semblante, palavras — como um observador criterioso. No fim do capítulo ele oferece sua avaliação madura, em quatro pontos: há obra de Deus, há mistura da natureza, e há imitação de Satanás; rejeitar tudo é tão imprudente quanto aceitar tudo. É o mesmo equilíbrio que Paulo recomenda: “Não apaguem o Espírito… julguem todas as coisas, retenham o que é bom” (1Ts 5.19-21).

A santidade, para Wesley, nunca foi apenas interior. Neste capítulo ele corta da sociedade de Sunderland os que viviam de contrabando, protege membros do recrutamento forçado da Marinha, repreende médicos que tratam o corpo ignorando a alma — e, ao ver mil e cem prisioneiros de guerra franceses morrendo de frio em Knowle, prega sobre Êxodo 23.9 e organiza uma coleta que acabou vestindo os inimigos do seu país. Amar o estrangeiro e o inimigo não era teoria (Mt 5.44).

Uma palavra sobre os relatos de perseguidores mortos subitamente: Wesley os registra como leu e ouviu, à maneira do seu século, vendo neles advertências da providência. Recebamos esses trechos com a mesma sobriedade que ele recomenda alhures: Deus é justo e não é zombado (Gl 6.7), mas nem toda desgraça é juízo direto (Lc 13.1-5). O que permanece é o chamado à seriedade: “Seja fervoroso” — palavra que, dita de passagem a uma mulher em Prudhoe, não a deixou descansar até encontrar Cristo.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1757. Terça-feira, 31 de maio. Tomei o desjejum em Dumfries e passei uma hora com um pobre desviado de Londres, que havia alguns anos se estabelecera ali. Cavalgamos depois por uma região extraordinariamente agradável (tão longe anda a fama comum da verdade) até Thorny Hill, a duas ou três milhas da residência do duque de Queensborough: um edifício antigo e nobre, deliciosamente situado na encosta de uma colina aprazível e fértil. Mas ele não dá prazer algum ao seu dono, pois este nem sequer o contempla com os próprios olhos. Certamente este é um grave mal debaixo do sol: um homem ter todas as coisas e não desfrutar de nada (cf. Ec 6.1-2).

Cavalgamos em seguida, em parte por cima e em parte por entre algumas das mais belas montanhas, creio eu, da Europa — mais altas do que a maioria das da Inglaterra, se não do que todas, e cobertas de relva até o cume. Pouco depois das quatro chegamos a Lead Hill, uma cidadezinha ao pé das montanhas, habitada inteiramente por mineiros.

Na catedral de Glasgow

Quarta-feira, 1º de junho. Prosseguimos até Glasgow; uma milha antes da cidade, encontramos o senhor Gillies, que vinha a cavalo ao nosso encontro.

À noite, a “tenda” (como chamam ali um púlpito coberto) foi colocada no pátio do abrigo dos pobres, lugar muito amplo e cômodo. De frente para o púlpito ficava a enfermaria, com a maior parte dos doentes junto às janelas. Creio que a ocasião removeu muito preconceito.

Sexta-feira, 3. Às sete, a congregação havia crescido, e uma atenção fervorosa se estampava em cada rosto. À tarde caminhamos até o colégio e vimos a nova biblioteca, com a coleção de quadros. Muitos são de Rafael, Rubens, Van Dyck e outras mãos eminentes; mas não há espaço para dispô-los com vantagem, pois todo o edifício é muito pequeno.

Sábado, 4. Percorri todas as partes da velha catedral, estrutura muito grande e outrora belíssima — mais alta, penso eu, do que a de Cantuária, e quase do mesmo comprimento e largura. Subimos depois à torre principal, que nos deu uma bela vista da cidade e do campo adjacente. Dificilmente se vê na Inglaterra planície mais fértil e mais bem cultivada. De fato, nada falta senão mais comércio (que naturalmente traria mais gente) para fazer de boa parte da Escócia terra em nada inferior aos melhores condados ingleses.

Fiquei muito satisfeito com a seriedade do povo à noite; mas ainda prefiro a congregação inglesa. Não consigo me conformar com homens que ficam sentados durante a oração, ou que cobrem a cabeça enquanto cantam louvores a Deus.

Wesley canta um salmo escocês

Quinta-feira, 9. Hoje puseram em minhas mãos Douglas, a peça que tem feito tanto barulho. Fiquei espantado ao ver que é uma das mais belas tragédias que já li. Que pena que algumas linhas não tenham sido cortadas, e que ela tenha chegado a ser encenada em Edimburgo!

Sexta-feira, 10. Senti-me bastante indisposto, até que a disenteria cessou de uma vez, sem remédio algum. Mas, ainda fraco, e brilhando o sol com calor extremo, temi não conseguir fazer a volta por Kelso. Temor vão! Deus cuidou também disto: o vento, que soprava do leste fazia vários dias, virou nesta manhã para oeste pleno e soprou bem no nosso rosto; por volta das dez as nuvens subiram e nos mantiveram frescos até chegarmos a Kelso.

Às seis, William Coward e eu fomos ao mercado. Esperamos algum tempo, e nem homem, nem mulher, nem criança se aproximou de nós. Por fim comecei a cantar um salmo escocês, e quinze ou vinte pessoas chegaram à distância de ouvir — mas com grande circunspecção, mantendo-se afastadas, como quem não sabe o que poderia vir a seguir. Enquanto eu orava, porém, o número cresceu, de modo que em poucos minutos havia uma congregação bem grande. Suponho que os principais da cidade estavam ali; e não poupei nem ricos nem pobres. Quase me admirei de mim mesmo, pois não costumo usar expressões tão agudas e cortantes; e creio que muitos sentiram que, apesar de toda a sua forma religiosa, ainda eram pagãos.

Segunda-feira, 13. Proclamei o amor de Cristo aos pecadores na praça do mercado de Morpeth. De lá cavalgamos até Placey. A sociedade de mineiros de carvão dali pode servir de modelo a todas as sociedades da Inglaterra. Ninguém jamais falta ao seu grupo ou à sua classe; não há entre eles desavença de espécie alguma, mas, com um só coração e uma só mente, estimulam-se “ao amor e às boas obras” (Hb 10.24). Depois da pregação, reuni a sociedade numa sala tão quente como qualquer uma da Geórgia; isso, com o calor abrasador do sol quando seguimos viagem, esgotou-me por completo as forças. Mas, chegando a Newcastle, logo me recobrei e preguei com a mesma facilidade da manhã.

Quinta-feira, 16. À noite preguei em Sunderland. Reuni depois a sociedade e disse-lhes com franqueza que ninguém poderia permanecer conosco sem abrir mão de todo pecado — em particular, de roubar o rei, comprando ou vendendo mercadoria contrabandeada, coisa que eu não podia tolerar mais do que um assalto na estrada. Insisti nisso com cada membro no dia seguinte. Uns poucos não quiseram prometer abster-se, e a esses fui obrigado a desligar. Cerca de duzentos e cinquenta mostraram melhor disposição.

Quarta-feira, 22. À noite, e na manhã seguinte, preguei em Chester-le-Street. Observando na sala em que ceamos alguns quadros muito finos, porém nada modestos, pedi ao meu companheiro que, retirada a companhia, os pusesse onde não pudessem fazer mal. Ele os empilhou num canto da sala, e nunca mais apareceram.

“É pregando que eu vivo!”

Quinta-feira, 28 de julho (Sheffield). Recebi um relato estranho da filha mais velha de Edward Bennet:

“Na terça-feira, dia doze deste mês, eu disse ao meu marido pela manhã: ‘Peço que você não entre na água hoje — pelo menos não na água funda, do outro lado da cidade; porque sonhei que o vi ali, sem pé, e só a sua cabeça aparecia acima da água.’ Ele me prometeu que não iria, e saiu para o trabalho.

“Pouco depois das quatro da tarde, estando eu na casa de John Hanson (seu sócio), fui tomada de repente por um mal-estar tão extremo que por alguns minutos parecia prestes a expirar. Depois, num momento, fiquei bem. Naquela mesma hora, John Hanson, que era excelente nadador, persuadiu meu marido a entrar na água do outro lado da cidade. Ele objetou — a água era funda, e ele não sabia nadar; mas, muito instado a entrar, ficou algum tempo em pé depois de despido e então, ajoelhando-se, orou com voz alta e fervorosa. Quando se levantou, John, que nadava, chamou-o de novo e, batendo os pés na água, disse: ‘Veja, dá pé; a água só chega ao peito.’ Ele entrou e afundou. Um homem que estava perto, cortando samambaias, e que o observava fazia algum tempo, correu à margem e viu a cabeça dele surgir logo acima da água. Na segunda ou terceira vez em que subiu, ele juntou as mãos e clamou em alta voz: ‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito’ (cf. At 7.59). Imediatamente afundou, e não subiu mais.”

Alguém naturalmente perguntará: e o que foi feito de John Hanson? Assim que viu o sócio afundar, nadou para longe dele até a outra margem, vestiu-se e foi direto para casa.

Por volta do meio-dia preguei em Woodseats; à noite, em Sheffield. É pregando que eu vivo!

Como está tranquila esta região agora que os principais perseguidores já não são vistos! Quantos deles foram arrebatados numa hora em que não esperavam! Algum tempo atrás, uma mulher de Thorpe jurava repetidamente que lavaria as mãos no sangue do coração do próximo pregador que viesse. Mas, antes que o próximo pregador viesse, ela foi levada à sua morada eterna. Pouco antes de John Johnson se estabelecer em Wentworth, um homem forte e saudável que morava ali disse aos vizinhos: “Depois do primeiro de maio não teremos nada além de oração e pregação; mas eu farei barulho que baste para acabar com isso.” Antes do primeiro de maio, porém, ele estava calado na sepultura. Um criado de lorde R— era tão amargo quanto ele, e contava muitas mentiras de propósito, para criar discórdia; mas, antes que o conseguisse, sua boca foi calada: afogou-se num dos viveiros de peixes.

Wesley na Charterhouse

Segunda-feira, 8 de agosto (Londres). Dei um passeio pela Charterhouse. Admirei-me de que todos os pátios e edifícios, e especialmente os meninos da escola, parecessem tão pequenos. Mas isso se explica com facilidade: eu era pequeno quando estudei ali, e media tudo ao meu redor por mim mesmo. Assim, os alunos mais velhos, então maiores do que eu, pareciam-me altos e enormes — exatamente o contrário do que parecem agora, quando sou mais alto e maior do que eles. Pergunto-me se não é esta a verdadeira raiz da imaginação corrente de que nossos antepassados, e em geral os homens das eras passadas, eram muito maiores do que os de hoje — imaginação que já corria o mundo há mil e oitocentos anos. Na realidade, porém, os homens têm sido, pelo menos desde o dilúvio, quase exatamente o que são hoje, tanto em estatura quanto em entendimento.

Sexta-feira, 2 de setembro. Cavalguei até St. Agnes.

Domingo, 4. I. T. pregou às cinco. Eu dificilmente acreditaria, se não tivesse ouvido, que poucos homens de letras escrevem com a correção com que um estanhador sem estudos fala de improviso. O senhor V. pregou na igreja dois sermões tão trovejantes como há vinte anos eu não ouvia.

Segunda-feira, 5. Segui para Illogan — mas não para a casa onde eu costumava pregar. A esposa do senhor P. prometera a ele, antes que morresse, que sempre receberia os pregadores; mas logo mudou de ideia. Deus acaba de levar o seu único filho, morto de repente por um desabamento na mina; e, na terça-feira passada, um homem jovem e forte, indo a cavalo para o enterro dele, caiu da montaria morto. A concorrência dessas providências tremendas aumentou consideravelmente a nossa congregação.

Sábado, 10. Cavalgamos até Land’s End, o Fim da Terra. Não conheço curiosidade natural igual. As vastas pedras recortadas erguem-se de todos os lados, quando se está perto da ponta, com relva verde entre elas, tão plana e lisa como se fosse obra de arte. E as rochas em que a terra termina são tão rasgadas pelo mar que parecem grandes montes de ruínas.

Domingo, 11. Preguei em St. Just às nove. À uma, a congregação de Morva estava de pé numa encosta, fileira sobre fileira, como num teatro. Muitos lamentavam a sua carência de Deus, e muitos provaram como ele é bondoso.

Às cinco preguei em Newlyn, a uma imensa multidão; e uma só pessoa pareceu ofender-se — uma mulher de muito boa índole, que se esforçou o quanto pôde para sair dali, gritando: “Ora, se ir à igreja e tomar a ceia não nos leva ao céu, não sei o que levará.”

O prefeito e o pároco contra Wesley

Quarta-feira, 21. Depois de uma hora com alguns amigos em Truro, segui para Grampound, um vilarejo pobre, insignificante e sujo. Mas é um burgo com assento no Parlamento! Entre meio-dia e uma hora comecei a pregar num prado, a uma congregação numerosa. Enquanto cantávamos, observei do outro lado do prado uma pessoa vestida de preto, que disse: “Desçam daí; vocês não têm nada que fazer aí.” Alguns meninos que estavam sobre um muro, certos de que ele falava com eles, desceram a toda pressa. Prossegui, e ele foi embora. Soube depois que era o pároco — e o prefeito de Grampound. Logo em seguida vieram dois guardas e disseram: “Senhor, o prefeito diz que o senhor não pregará dentro do burgo dele.” Respondi: “O prefeito não tem autoridade para me impedir. Mas é ponto que não vale a disputa.” E fui para a distância de um tiro de mosquete dali, deixando o burgo à disposição do senhor prefeito.

Quinta-feira, 22. Cavalguei até Mevagissey, que fica no mar do sul, exatamente em frente a Port Isaac, no norte. Da última vez que estive aqui, não tínhamos lugar algum na cidade; só pude pregar a cerca de meia milha dela. Mas as coisas mudaram: preguei bem acima da cidade, a quase todos os habitantes, e todos ficaram quietos como a noite. Na tarde seguinte, um bêbado fez algum barulho atrás de mim; mas, ditas a ele algumas palavras, ouviu em silêncio o resto do discurso.

Sábado, 24. À meia hora depois do meio-dia preguei mais uma vez e me despedi deles. Todo o tempo em que fiquei, o vento soprou do mar, de modo que nenhum barco pôde sair. Assim, todos os pescadores (que são a parte principal da cidade) tiveram oportunidade de ouvir.

Às seis preguei em St. Austell, cidadezinha asseada na encosta de uma colina fértil.

Domingo, 25. Às duas preguei em St. Stephen’s, junto a uma casa isolada, na encosta de um monte estéril; mas nem a casa nem o pátio comportavam o povo; assim, fomos para um prado, onde todos podiam ajoelhar-se (o que geralmente fazem na Cornualha), além de ficar de pé e ouvir. E ouviram, e cantaram, e oraram como quem ora pela vida. Não vi entre eles um só desatento ou indiferente.

Incêndio na escola de Kingswood

Segunda-feira, 24 de outubro. Preguei por volta do meio-dia em Bath e, à noite, em Escot, perto de Lavington.

Terça-feira, 25. Na volta, um homem me encontrou perto de Hannam e me contou que o prédio da escola de Kingswood tinha ardido. Não senti um momento sequer de aflição, sabendo que Deus faz todas as coisas bem. Chegando lá, recebi relato mais completo: por volta das oito da noite de segunda-feira, dois ou três meninos subiram à galeria, dois lances de escada acima. Um deles ouviu um crepitar estranho no cômodo de cima. Abrindo a porta da escada, foi rechaçado pela fumaça, e gritou: “Fogo! Socorro! Fogo!” O senhor Baynes, ouvindo isso, desceu correndo e subiu com um balde de água. Mas, quando entrou no cômodo e viu o incêndio, faltou-lhe presença de espírito para chegar até ele, e despejou a água no chão.

Nesse meio-tempo, um dos meninos tocou o sino; outro chamou John Maddern, da casa ao lado, que subiu correndo, como logo depois também James Burges, e encontraram o cômodo todo em chamas. As divisórias de pinho pegaram fogo imediatamente, e ele se alastrou ao telhado da casa. Trouxe-se então água em abundância; mas ninguém conseguia aproximar-se do lugar onde ela era necessária, pois o cômodo estava tão cheio de chama e fumaça que ninguém podia entrar. Por fim, uma escada comprida, que jazia no jardim, foi erguida contra a parede da casa. Observou-se então que um dos seus lados estava partido em dois, e o outro, completamente podre. Ainda assim John How (um jovem que morava na casa vizinha) subiu por ela, machado em punho. Mas a escada era tão curta que, de pé no seu topo, ele mal conseguia pôr uma das mãos sobre as ameias.

Como ele passou dali ao telhado, ninguém sabe dizer; mas passou, e depressa abriu um buraco na cobertura, pelo qual, feita a saída, a fumaça e a chama irromperam como de uma fornalha. Os que estavam ao pé da escada com água, não podendo ir adiante, atravessaram então a fumaça até a porta do terraço e despejaram-na pelo telhado. Assim o fogo foi rapidamente apagado, tendo consumido apenas parte da divisória e uma caixa de roupas, e danificado um pouco o telhado e o assoalho de baixo.

Em Norfolk e Suffolk

Quarta-feira, 23 de novembro (Norwich). Mostraram-me a nova casa de reuniões do doutor Taylor — talvez a mais elegante da Europa. É octogonal, construída do mais fino tijolo, com dezesseis janelas de guilhotina embaixo, outras tantas em cima e oito claraboias na cúpula, estas puramente ornamentais. O interior é acabado no mais alto gosto e é limpo como o salão de qualquer nobre. A mesa da comunhão é de mogno fino; até os trincos das portas dos bancos são de latão polido. Como se poderia imaginar que o velho e rude evangelho encontrasse entrada aqui?

Quinta-feira, 24. Um homem me abordara na semana passada, quando eu atravessava Thetford, e me pedira que pregasse em Lakenheath, perto de Mildenhall, em Suffolk. Propus-me agora a fazê-lo, e cavalguei para lá de Thetford. Certo senhor Evans construíra ali recentemente, à sua própria custa, uma casa de pregação grande e adequada. Às seis horas ela estava mais que cheia, com muitos de pé à porta. Às cinco da manhã (coisa tão incomum naquelas bandas), a casa quase se encheu de novo de gente fervorosa, amável e simples. Vários deles entraram depois na casa do senhor Evans, ficaram ali um momento e romperam em lágrimas. Prometi visitá-los de novo, e os deixei muito consolados.

1758. Quarta-feira, 4 de janeiro. Cavalguei até Kingswood e me alegrei com a escola, que é enfim o que há tanto tempo eu desejava que fosse: uma bênção para todos os que nela estão, e uma honra para todo o corpo dos metodistas.

Outra jornada de noventa milhas

Segunda-feira, 6 de março (Londres). Montei por volta das sete. Soprando o vento do leste, eu me alegrava antecipadamente de que o teríamos pelas costas; mas em um quarto de hora ele virou para noroeste e soprou a chuva bem no nosso rosto; e ambos cresceram tanto que, quando chegamos ao descampado de Finchley, era trabalho duro manter-se na sela. A chuva continuou por todo o caminho até Dunstable, onde trocamos a estrada principal pelos campos — os quais, recém-arados, estavam fundos que bastasse. Ainda assim, antes das três chegamos a Sundon.

Quinta-feira, 9. Dali cavalguei a Bedford, e descobri que o sermão não seria pregado senão na sexta. Tivesse eu sabido disso a tempo, jamais teria pensado em pregá-lo, pois me comprometera a estar em Epworth no sábado.

Sexta-feira, 10. A congregação em St. Paul’s foi muito grande e muito atenta. O juiz, imediatamente após o sermão, mandou convidar-me para jantar com ele; mas, não tendo tempo, fui obrigado a enviar escusas e parti entre uma e duas. O vento nordeste era de um frio cortante e, soprando exatamente no nosso rosto, logo trouxe uma pesada carga de neve, depois de neve meio derretida, e por fim de granizo. Mesmo assim alcançamos Stilton às sete, a cerca de trinta milhas de Bedford.

O descanso foi tanto mais doce porque os nossos dois cavalos estavam mancos. Contudo, resolvido a chegar a Epworth no tempo marcado, parti numa sege de posta entre quatro e cinco da manhã; mas a geada tornava o caminho tão ruim que o meu companheiro chegou a Stamford com os cavalos mancos tão depressa quanto eu. A etapa seguinte fiz a cavalo; mas fui então obrigado a deixar a minha égua e tomar outra sege. Cheguei a Bawtry por volta das seis. Alguns de Epworth tinham vindo ao meu encontro, mas haviam partido meia hora antes de eu chegar. Eu sabia que nenhuma sege poderia fazer o resto do caminho; restava, pois, alugar cavalos e um guia.

Partimos por volta das sete, mas logo percebi que o meu guia não conhecia o caminho mais do que eu. Chegamos contudo razoavelmente bem a Idlestop, a umas quatro milhas de Bawtry, onde a última claridade nos deixou discernir o rio ao nosso lado e o campo coberto de água. Eu ouvira dizer que morava por ali um certo Richard Wright, que conhecia perfeitamente o caminho pelo pântano. Ouvindo alguém falar (pois não podíamos vê-lo), gritei: “Quem está aí?” Ele respondeu: “Richard Wright.” Logo me ajustei com ele, que montou depressa o seu cavalo e seguiu adiante com ousadia. O vento nordeste soprava-nos em cheio no rosto, e eu os ouvia dizer: “Que frio faz!” Mas nem o meu rosto, nem as mãos, nem os pés sentiram frio até que, entre nove e dez, chegamos a Epworth. Depois de viajar mais de noventa milhas, eu estava pouco mais cansado do que ao levantar-me de manhã.

Conselhos de Wesley aos viajantes

Terça-feira, 1º de agosto. O capitão com quem devíamos navegar tinha grande pressa de embarcar a nossa bagagem; mas eu não quis mandá-la enquanto o vento estivesse contrário. Na quarta ele mandou mensagem atrás de mensagem, e assim, à noite, descemos ao navio, perto de Passage; mas nada estava pronto, nem perto de pronto, para a partida. Daí aprendi duas ou três regras muito necessárias aos que navegam entre a Inglaterra e a Irlanda: 1) nunca pague antes de zarpar; 2) não suba a bordo antes que o capitão suba; 3) não mande a bagagem para bordo antes de ir você mesmo.

Quinta-feira, 17. Fui à catedral de Bristol ouvir o Messias do senhor Handel. Duvido que aquela congregação tenha estado alguma vez tão compenetrada num sermão como esteve durante essa execução. Em muitas partes, especialmente em vários dos coros, ela excedeu a minha expectativa.

Segunda-feira, 16 de outubro. Cavalguei a Cantuária. Quando entrávamos na cidade, uma pedra saltou do calçamento e atingiu a minha égua na perna com tal violência que ela caiu de uma vez. Mantive-me na sela até que, lutando para erguer-se, ela caiu de novo e rolou por cima de mim. Quando se levantou, tentei levantar-me também, mas vi que não tinha uso algum da perna e da coxa direitas. Um honesto barbeiro, porém, saiu da sua loja, ergueu-me e ajudou-me a entrar. Sentindo-me muito enjoado, pedi um copo de água fria, que me deu alívio no mesmo instante.

Sexta-feira, 27. Cavalguei por uma região extremamente agradável e fértil até Colchester. Poucas cidades como esta tenho visto na Inglaterra. Ela se estende sobre o dorso de uma colina, com outras colinas de cada lado, que correm paralelas a pequena distância. As duas ruas principais, uma correndo de leste a oeste, outra de norte a sul, são perfeitamente retas em todo o comprimento da cidade, e tão largas quanto Cheapside.

Preguei às quatro em St. John’s Green, junto a um velho muro alto (lugar que parecia feito de propósito), a um auditório extremamente atento; e de novo às oito da manhã de sábado, 28, e às quatro da tarde. Nas horas intermediárias, aproveitei para falar aos membros da sociedade. Em três meses, cento e vinte pessoas se uniram aqui. Poucas delas sabem em quem têm crido (cf. 2Tm 1.12), e muitas estão conscientes da sua carência.

Wesley em Norwich e Colchester

Domingo, 5 de novembro (Norwich). Fomos à igreja de St. Peter, onde se administrava a ceia do Senhor. Não me lembro de ter visto igreja paroquial mais bela — tanto mais que a sua beleza não resulta de ornamentos acrescentados, mas da própria forma e estrutura. É muito grande e de altura incomum, e as laterais são quase todas janelas; de modo que tem um ar solene e venerável e, ao mesmo tempo, surpreendentemente alegre.

Segunda-feira, 4 de dezembro. Pediram-me que entrasse na igrejinha atrás da Mansion House, comumente chamada St. Stephen’s, Walbrook. Nada tem de grandioso, mas é asseada e elegante além de toda expressão. Não me admira, pois, a frase do famoso arquiteto italiano que encontrou lorde Burlington na Itália: “Milorde, volte e veja St. Stephen’s em Londres. Não temos em Roma peça de arquitetura tão fina.”

Sexta-feira, 29. Hoje percorri todo o famoso castelo de Colchester, talvez o edifício mais antigo da Inglaterra. Parte considerável dele tem, sem dúvida, mil e quatrocentos ou mil e quinhentos anos. Foi construído principalmente com tijolos romanos, cada um com cerca de duas polegadas de espessura, sete de largura e treze ou catorze de comprimento. Sede de reis antigos, britânicos e romanos, outrora temida em toda parte! Mas que são eles agora? Não vale mais “um cachorro vivo do que um leão morto” (Ec 9.4)? E que é aquilo de que se orgulhavam, como ainda se orgulham os grandes da terra de hoje?

Um pouco de pompa, um pouco de mando, / um raio de sol num dia de inverno: / eis tudo o que os grandes e poderosos têm / entre o berço e a sepultura.

1759. Domingo, 6 de maio. Recebi muito consolo na igreja velha (Liverpool) pela manhã, e em St. Thomas à tarde. Era como se ambos os sermões tivessem sido feitos para mim. Tenho pena dos que não conseguem achar proveito algum na igreja. Mas como o achariam, se o preconceito se interpõe — barreira eficaz à graça de Deus?

As areias de Ravenglass

Sábado, 12. Partindo cedo, chegamos a Bootle, a cerca de vinte e quatro milhas medidas de Flookburgh, pouco depois das oito, tendo atravessado o areal de Millom sem guia e sem dificuldade. Ali nos informaram que não poderíamos passar em Ravenglass antes da uma ou das duas; quando, na verdade (como descobrimos depois), poderíamos ter passado imediatamente. Por volta das onze indicaram-nos um vau perto de Muncaster Hall, que disseram que poderíamos cruzar ao meio-dia. Quando lá chegamos, disseram-nos que não podíamos; e ficamos parados até cerca de uma hora — para então descobrir que poderíamos ter cruzado ao meio-dia. Ainda assim chegamos a Whitehaven antes da noite. Mas despedi-me da estrada dos areais. Creio que ela é dez milhas medidas mais curta que a outra; mas há quatro areais a passar, tão distantes uns dos outros que é quase impossível vencê-los todos num dia — especialmente tendo-se de lidar, o caminho inteiro, com uma geração de mentirosos, que retêm os forasteiros o mais que podem, para ganho próprio ou dos vizinhos. Não posso aconselhar forasteiro algum a ir por esse caminho: vá pela volta de Kendal e Keswick — muitas vezes em menos tempo, sempre com menos despesa e muito menor prova de paciência.

Médicos que não curam

Refletindo hoje sobre o caso de uma pobre mulher que sofria dor contínua no estômago, não pude deixar de notar a negligência indesculpável da maioria dos médicos em casos desta natureza. Receitam remédio sobre remédio, sem saber coisa alguma sobre a raiz do mal. E, sem sabê-la, não podem curar o paciente — embora possam matá-lo. De onde vinha a dor daquela mulher (coisa que ela jamais teria contado, se jamais lhe tivessem perguntado)? Da aflição pela morte do seu filho. E de que valiam remédios enquanto aquela aflição continuasse? Por que, então, todos os médicos não consideram até que ponto as desordens do corpo são causadas ou influenciadas pela mente — e, nos casos que fogem por completo à sua esfera, não chamam em auxílio um ministro do evangelho, assim como os ministros, quando percebem a mente desordenada pelo corpo, chamam em auxílio um médico? Mas por que esses casos fogem à sua esfera? Porque não conhecem a Deus. Segue-se que ninguém pode ser médico completo sem ser cristão experimentado.

Quinta-feira, 17. Averiguei um caso notável de providência. Quando uma mina de carvão avança muito por baixo da terra, é costume aqui construir uma parede divisória, que vai de perto do poço até três ou quatro jardas do fundo, a fim de fazer o ar circular: ele desce por um lado da parede, dobra no fundo e sobe vivamente pelo outro lado. Numa mina a duas milhas da cidade, que avançava quatrocentas jardas inteiras por baixo da terra e estava havia muito abandonada, várias partes dessa parede tinham caído. Quatro homens foram enviados para consertá-la. Estavam a umas trezentas jardas do poço quando o gás inflamável pegou fogo. Num momento, ele derrubou a parede de ponta a ponta e, ardendo até chegar ao poço, rebentou e disparou como um grande canhão.

Fogo na mina de carvão

Os homens instantaneamente se lançaram com o rosto em terra — do contrário, teriam morrido queimados em poucos momentos. Um deles, que outrora conhecera o amor de Deus (Andrew English), pôs-se a clamar em alta voz por misericórdia. Mas em pouquíssimo tempo sua respiração parou. Os outros três arrastaram-se de mãos e joelhos, até que dois chegaram ao poço e foram içados; mas um deles morreu em poucos minutos. John McCombe foi içado em seguida, queimado da cabeça aos pés, mas regozijando-se e louvando a Deus. Desceram então em busca de Andrew, a quem encontraram sem sentidos — exatamente a circunstância que lhe salvou a vida. Pois, perdendo os sentidos, ficou estendido rente ao chão, e a maior parte do fogo passou por cima dele; ao passo que, tivesse avançado de mãos e joelhos, teria sem dúvida morrido queimado. Mas vida ou morte lhe eram bem-vindas, pois Deus lhe havia restaurado a luz do seu rosto (cf. Sl 51.12).

Segunda-feira, 21. Preguei às dez na praça do mercado de Wigton, e cheguei ao estuário de Solway justamente quando a água dava passagem. Em certas épocas, ela é transponível três horas em cada doze; em outras, apenas uma.

Depois de breve parada em Rothwell, chegamos a Dumfries antes das seis. Sobrando-nos tempo, passeamos pelo cemitério da igreja, um dos lugares mais aprazíveis que já vi. Observei ali um túmulo solitário, de uns cento e trinta anos; mas a inscrição mal se podia ler. Tão cedo morrem até os nossos sepulcros! Estranho que os homens se preocupem tanto com eles! E não estão muitos, nisso mesmo, condenados por si próprios? Veem a insensatez — e correm para ela. Assim o pobre senhor Prior, falando do próprio túmulo, deixou estas palavras melancólicas: “Para esta última peça da vaidade humana, lego quinhentas libras.”

Terça-feira, 22. Cavalgamos por uma região aprazível até Thorny Hill, perto do qual fica a grandiosa residência do duque de Queensborough. Mal imaginava o falecido duque que o seu filho lavraria o parque e deixaria a casa arruinar-se! Mas que se vá! Em pouco tempo a própria terra, e todas as obras que nela há, serão queimadas (cf. 2Pe 3.10).

Dali cavalgamos por entre e por sobre enormes montanhas, verdes até o cume, rumo a Lead Hills. Essa aldeia contém quinhentas famílias, que não têm ministro há quatro anos. Assim, na Escócia, aos pobres não se prega o evangelho (cf. Mt 11.5)! Quem responderá pelo sangue desses homens?

Newcastle como refúgio de verão

Segunda-feira, 4 de junho. Depois de pregar (em Alnwick), cavalguei até Newcastle. Certamente, se eu não cresse que há outro mundo, passaria aqui todos os meus verões: não conheço na Grã-Bretanha lugar comparável a este em amenidade. Mas busco outra pátria, e por isso me contento em ser peregrino sobre a terra (cf. Hb 11.13-16).

Quinta-feira, 21. Preguei em Nafferton à uma. Quando cavalgava dali, alguém me deteve na estrada e disse: “Senhor, não se lembra? Quando esteve em Prudhoe, há dois anos, o senhor tomou o desjejum na casa de Thomas Newton. Sou irmã dele. Ao sair, o senhor olhou para mim e disse: ‘Seja fervorosa.’ Eu não sabia então o que era fervor, nem pensava nisso; mas as palavras desceram tão fundo no meu coração que nunca mais pude descansar, até buscar e encontrar a Cristo.”

Wesley gosta de uma almofada macia

Sexta-feira, 22. Cavalguei até S. e preguei à minha antiga congregação de mineiros sobre “Por que vocês querem morrer, ó casa de Israel?” (Ez 33.11). Depois da pregação, veio um criado do senhor da terra e disse: “Senhor, meu amo o proíbe de pregar novamente em suas terras; não por desrespeito ao senhor, mas porque ele há de ficar do lado da Igreja.” “Simples mestre Raso!”, como diz Shakespeare — e sábio, sapientíssimo senhor reitor, seu conselheiro!

Sábado, 23. Falei individualmente com cada membro da sociedade de Sunderland. A maior parte dos ladrões, comumente chamados contrabandistas, nos deixou; mas já entrou em seu lugar mais que o dobro de gente honesta. E, ainda que ninguém tivesse entrado, eu não ousaria conservar os que roubam, seja o rei, seja o próximo.

Na segunda e na terça à noite preguei ao ar livre, perto do Hospital dos Barqueiros, ao dobro do povo que teríamos tido no salão. Que maravilha que o diabo não goste da pregação ao ar livre! Nem eu gosto. Eu aprecio uma sala confortável, uma almofada macia, um púlpito bonito. Mas onde está o meu zelo se não piso tudo isso aos pés para salvar mais uma alma?

Quarta-feira, 4 de julho (Hartlepool). O senhor Jones pregou às cinco; eu, às oito. Perto do fim do sermão, um homem esquisito, sujo e desajeitado — suponho que um gracejador do campo — deu-se a grandes penas para perturbar a congregação. Quando terminei, temendo que ele ferisse os que se haviam juntado ao seu redor, pedi a dois ou três dos nossos irmãos que fossem até ele, um após outro, sem dizer muita coisa, deixando-o falar até se cansar. Assim fizeram, mas sem efeito, pois o seu estoque de zombarias parecia inesgotável. W. A. tentou então outro caminho: entrou na roda, bem junto dele e, depois de escutar um pouco, disse: “Que engraçado! Repita, por favor.” “O quê? Você é surdo?” “Não; mas é para o entretenimento do povo. Vamos: somos todos ouvidos.” Repetido isso duas ou três vezes, o gracejador não aguentou: com duas ou três pragas, retirou-se de vez.

Driblando o recrutamento forçado

À noite comecei perto da praça do mercado de Stockton, como de costume. Mal terminara o hino, observei grande confusão no povo: era um tenente de um navio de guerra, que escolhera aquela hora para trazer o seu bando de recrutamento e ordenara que prendessem Joseph Jones e William Alwood. Joseph Jones disse-lhe: “Senhor, eu pertenço ao senhor Wesley.” Depois de poucas palavras, ele o soltou; como soltou também William Alwood, algumas horas depois, ao saber que era pregador licenciado. Apoderou-se ainda de um jovem da cidade, mas as mulheres o resgataram à força. Também quebraram a cabeça do tenente e apedrejaram tanto a ele quanto aos seus homens, que fugiram a toda pressa.

Sexta-feira, 3 de agosto. Preguei em Gainsborough, no grande salão de sir Nevil Hickman — plenamente tão grande quanto o Salão dos Tecelões de Bristol. Às duas, ele se encheu de uma multidão rude e desordeira (excetuados uns poucos de melhor espírito). Contudo, todos, menos dois ou três cavalheiros, ouviram atentos, enquanto eu instava com as palavras do nosso Senhor: “Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36). Eu voltava a pé por entre uma turba boquiaberta quando sir Nevil veio agradecer-me o sermão, para não pequeno assombro dos seus vizinhos, que recuaram como se tivessem visto um fantasma.

Transes extraordinários

Segunda-feira, 6 (Everton). Conversei longamente com Ann Thorn e duas outras, que várias vezes haviam estado em transe. No que todas concordaram foi nisto: 1) que, quando “partiam”, como diziam, era sempre no momento em que estavam mais cheias do amor de Deus; 2) que aquilo lhes sobrevinha num momento, sem aviso prévio, e lhes tirava todos os sentidos e forças; 3) que, salvo algumas exceções, daquele momento em diante estavam como que em outro mundo, sem saber nada do que era feito ou dito por todos os que as rodeavam.

Por volta das cinco da tarde, ouvi-as cantar hinos. Pouco depois, o senhor B. subiu e me disse que Alice Miller, de quinze anos, caíra em transe. Desci imediatamente e a encontrei sentada num banquinho, encostada à parede, com os olhos abertos e fixos para o alto. Fiz um gesto como quem vai bater, mas eles permaneceram imóveis. Seu rosto exibia uma mistura indizível de reverência e amor, enquanto lágrimas silenciosas desciam pelas faces. Os lábios estavam entreabertos, e às vezes se moviam, mas não o bastante para produzir som.

Não sei se alguma vez vi rosto humano tão belo. Por vezes cobria-o um sorriso, como de alegria misturada com amor e reverência; mas as lágrimas continuavam caindo, embora mais devagar. Seu pulso estava perfeitamente regular. Em cerca de meia hora, observei o semblante mudar para uma expressão de medo, compaixão e angústia; então ela rompeu num mar de lágrimas e exclamou: “Meu Senhor, eles serão condenados! Todos serão condenados!” Mas em uns cinco minutos o sorriso voltou, e só amor e alegria apareciam no seu rosto.

Por volta das seis e meia, vi a angústia tomar conta de novo; logo ela chorou amargamente e exclamou: “Meu Senhor, eles irão para o inferno! O mundo irá para o inferno!” Depois disse: “Clame em alta voz! Não se detenha!” (cf. Is 58.1). E em poucos momentos o seu semblante se recompôs, exprimindo uma mistura de reverência, alegria e amor. Então disse em voz alta: “Deem glória a Deus.” Por volta das sete, os sentidos lhe voltaram. Perguntei: “Onde você esteve?” — “Estive com o meu Salvador.” “No céu ou na terra?” — “Não sei dizer; mas eu estava na glória.” “Por que então você chorou?” — “Não por mim, mas pelo mundo; pois vi que estavam à beira do inferno.” “A quem você queria que dessem glória a Deus?” — “Aos ministros que clamam em alta voz ao mundo; do contrário, ficarão orgulhosos; e então Deus os deixará, e eles perderão a própria alma.”

Duas mil e quatrocentas milhas em sete meses

Terça-feira, 7. Depois de pregar às quatro (por causa da colheita), montei e cavalguei sem pressa até Londres. Eu bem precisava de um pouco de descanso: em sete meses, cavalgara cerca de duas mil e quatrocentas milhas.

Segunda-feira, 13. Fiz um pequeno passeio até Croydon, uma das residências dos arcebispos de Cantuária. Terá sido um deles que mandou, há muitos anos (pois os caracteres são de longa data), colocar bem sobre a mesa da comunhão aquela terrível inscrição? “Agora, pois, ó sacerdotes, este mandamento é para vocês. Se não ouvirem e se não decidirem de coração dar honra ao meu nome, diz o SENHOR dos Exércitos, enviarei sobre vocês a maldição e amaldiçoarei as suas bênçãos; sim, já as tenho amaldiçoado, porque vocês não decidem de coração. Eis que repreenderei a sua descendência e espalharei esterco sobre o seu rosto, o esterco das suas festas, e com ele vocês serão levados” (Ml 2.1-3).

O palácio do arcebispo é um edifício antigo e venerável, e os jardins são extremamente aprazíveis. O falecido arcebispo os melhorara com grande despesa; mas uma enfermidade contínua o impediu de desfrutá-los, até que, após quatro anos de dor constante, foi chamado — pode-se esperar que para o jardim de Deus.

Jantei na casa do senhor B., em Epsom, cuja casa e jardins ficam no que foi outrora uma pedreira de cal. É o lugar mais elegante que os meus olhos já viram; tudo, por dentro e por fora, acabado no gosto mais requintado. Certamente nada na terra pode ser mais encantador. Ah, que sentirá o possuidor quando tiver de exclamar: “Devo então deixar-te, paraíso? Deixar estas sombras felizes, mansões dignas de deuses?”

Quinta-feira, 30. Preguei no Tabernáculo de Norwich a uma congregação grande, rude e barulhenta. Percebi logo a que espécie de mestres estavam acostumados, e decidi corrigi-los ou despedi-los. Assim, na noite seguinte, depois do sermão, lembrei-lhes duas coisas: uma, que não era decente começar a conversar em voz alta assim que terminava o culto, correndo de um lado para outro como num circo; a outra, que era mau costume juntar-se em rodinhas logo após o sermão, transformando a casa de culto em casa de café. Pedi, portanto, que ninguém conversasse debaixo daquele teto, mas que todos saíssem quieta e silenciosamente. E no domingo, 2 de setembro, tive o prazer de observar que todos saíram tão quietamente como se estivessem acostumados àquilo havia muitos anos.

Domingo, 9 de setembro. Reuni a sociedade às sete e disse-lhes em termos claros que eram a sociedade mais ignorante, presunçosa, voluntariosa, inconstante, indócil, desordenada e desconjuntada que eu conhecia nos três reinos. E Deus aplicou isso aos seus corações, de tal modo que muitos tiraram proveito; mas não sei de um só que se tenha ofendido.

A pregação ao ar livre se justifica

Sexta-feira, 14. Voltei a Londres. Sábado, 15: tendo deixado ordens para o reparo imediato da capela de West Street, fui ver o que haviam feito, e achei motivo para louvar a Deus também por isso. As vigas mestras estavam tão podres que em muitos lugares se podiam enfiar os dedos nelas. Provavelmente, se tivéssemos esperado até a primavera, o edifício inteiro teria vindo ao chão.

Segunda-feira, 17. Fui a Cantuária. Duzentos soldados, suponho, e uma fileira inteira de oficiais estiveram presentes à noite. O número cresceu na noite seguinte, e todos se portaram como homens tementes a Deus. Quarta-feira, 19: preguei em Dover, no salão novo, recém-terminado. Também aqui os ouvintes aumentam, e alguns são convencidos do pecado, e outros, consolados a cada dia. Quinta-feira, 20: em Cantuária, apliquei com força, aos soldados em particular: “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo 5.12). No dia seguinte, voltando a Londres, li as Conjecturas sobre os mundos planetários, do senhor Huygens. Ele me surpreendeu. Penso que prova claramente que a lua não é habitável — que não há nela “nem rios nem montanhas sobre o seu globo mosqueado”, que não há mar, nem água na sua superfície, nem atmosfera alguma; e daí infere, muito racionalmente, que “tampouco é habitado qualquer dos planetas secundários”. E quem pode provar que os primários o sejam? Sei que a terra é habitada. Do resto nada sei.

Domingo, 23. A vasta maioria da imensa congregação de Moorfields mostrou profunda seriedade. Uma só hora como esta bastaria para convencer qualquer homem imparcial da conveniência da pregação ao ar livre. Que edifício, exceto a catedral de São Paulo, conteria tal congregação? E, se a contivesse, que voz humana os alcançaria ali? Por observações repetidas, verifico que ao ar livre posso alcançar o triplo do número que alcanço sob um teto. E quem pode dizer que o tempo da pregação ao ar livre passou, enquanto 1) comparecem números maiores do que nunca; e 2) o poder de Deus, tanto para converter quanto para convencer, está eminentemente presente com eles?

Wesley veste os prisioneiros franceses

Segunda-feira, 1º de outubro (Bristol). Todo o tempo livre da minha estada em Bristol empreguei em terminar o quarto volume dos Sermões — provavelmente o último que publicarei.

Segunda-feira, 15. Subi a pé até Knowle, a uma milha de Bristol, para ver os prisioneiros franceses. Cerca de mil e cem deles, segundo nos informaram, estavam confinados naquele pequeno lugar, sem nada em que se deitar senão um pouco de palha suja, e sem nada com que se cobrir, de dia ou de noite, senão uns poucos trapos imundos e finos — de modo que morriam como ovelhas apodrecidas. Fiquei profundamente tocado, e à noite preguei sobre “Não oprima o estrangeiro, pois vocês conhecem o coração do estrangeiro, visto que foram estrangeiros na terra do Egito” (Êx 23.9). Dezoito libras foram contribuídas de imediato, completadas até vinte e quatro no dia seguinte. Com isso compramos tecido de linho e de lã, que foi transformado em camisas, coletes e calções. Acrescentaram-se algumas dúzias de meias, e tudo foi cuidadosamente distribuído onde havia maior necessidade. Pouco depois, a Câmara de Bristol enviou grande quantidade de colchões e cobertores. E não tardou que se organizassem contribuições em Londres e em várias partes do reino, de modo que, creio eu, daquele tempo em diante eles ficaram razoavelmente providos das coisas necessárias à vida.

A verdade sobre os transes

Sábado, 17 de novembro (Londres). Passei uma hora, agradável e proveitosa, com lady G. H. e sir C. H. É bom que uns poucos ricos e nobres sejam chamados. Oh, que Deus lhes aumente o número! Mas eu me alegraria (fosse essa a vontade de Deus) se isso se desse pelo ministério de outros. Se me coubesse escolher, eu continuaria (como até aqui) a pregar o evangelho aos pobres.

Sexta-feira, 23. As estradas estavam tão extremamente escorregadias que foi com muita dificuldade que chegamos a Bedford. Tivemos uma congregação bem grande; mas o mau cheiro dos porcos debaixo da sala era quase insuportável. Já houve antes lugar de pregação em cima de um chiqueiro? Certamente amam o evangelho os que vêm ouvi-lo num lugar assim.

Domingo, 25. À tarde, Deus esteve eminentemente presente conosco (em Everton), embora mais para consolar do que para convencer. Mas observei uma diferença notável, desde a última vez que estive aqui, quanto à maneira da obra. Ninguém agora caiu em transe, ninguém gritou, ninguém tombou ou teve convulsões; apenas alguns tremiam muito, ouvia-se um murmúrio baixo, e muitos eram revigorados com abundância de paz.

O perigo era considerar demais as circunstâncias extraordinárias — gritos, convulsões, visões, transes —, como se fossem essenciais à obra interior, que não pudesse prosseguir sem elas. Talvez o perigo agora seja considerá-las de menos: condená-las por completo, imaginar que nada tinham de Deus e que eram um estorvo à sua obra. A verdade, porém, é esta: 1) Deus convenceu súbita e fortemente a muitos de que eram pecadores perdidos, e disso eram consequência natural os gritos súbitos e as fortes convulsões do corpo; 2) para fortalecer e animar os que criam, e para tornar a sua obra mais patente, ele favoreceu a vários deles com sonhos divinos, a outros com transes e visões; 3) em alguns desses casos, depois de algum tempo, a natureza misturou-se com a graça; 4) Satanás igualmente imitou essa obra de Deus, a fim de desacreditar o todo da obra. E, contudo, não é sábio abrir mão dessa parte, como não o seria abrir mão do todo. No princípio, foi sem dúvida inteiramente de Deus. Em parte, ainda o é hoje; e ele nos capacitará a discernir até onde, em cada caso, a obra é pura, e onde se mistura ou degenera.

Quarta-feira, 28. Voltei a Londres. Na quinta, 29, dia designado para a ação de graças geral, preguei de novo na capela perto de Seven Dials, de manhã e à tarde. Creio que o homem mais velho da Inglaterra nunca viu um dia de ação de graças observado assim. Teve a solenidade do jejum geral. Todas as lojas fechadas; o povo nas ruas exibindo, sem exceção, um ar de seriedade; as orações, leituras e todo o culto público admiravelmente apropriados à ocasião. A oração pelos nossos inimigos, em particular, foi extraordinariamente tocante; talvez seja o primeiro exemplo do gênero na Europa. Não houve barulho, correria, fogueiras nem fogos de artifício à noite, nem diversões públicas. Isto, sim, é um feriado cristão, um “regozijo diante do SENHOR”. No dia seguinte chegou a notícia de que sir Edward Hawke havia dispersado a esquadra francesa.

Domingo, 9 de dezembro. Tive, pela primeira vez, uma festa de amor para toda a sociedade. Quarta-feira, 12: comecei a reler o Testamento grego e as Notas, com meu irmão e vários outros, comparando cuidadosamente a tradução com o original e corrigindo ou ampliando as notas conforme víamos ocasião.

No mesmo dia passei parte da tarde no Museu Britânico. Há ali uma grande biblioteca, grande número de manuscritos curiosos, muitos monumentos raros da antiguidade, e a coleção inteira de conchas, borboletas, besouros, gafanhotos e assim por diante que o infatigável sir Hans Sloane, com tão vasta despesa e trabalho, reuniu ao longo de oitenta anos de vida.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os capítulos