DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 12

Carta a um editor; imposturas e declarações; a estátua que fala; o Pentecostes de Wesley

A carta que descreveu a reforma da prisão de Newgate, a tromba-d’água da Cornualha, a estátua falante de Lurgan, os Whiteboys da Irlanda — e o “Pentecostes” wesleyano: santificados anunciados com a mesma frequência que justificados.

1760–1762 ⏱ 40 min de leituraPentecostes de Wesley

“O seu dia de Pentecostes ainda não chegou em plenitude; mas não duvido de que chegará.”

(Carlos Wesley, citado no Diário (1762))

Antes de ler

Este capítulo (1760–1762) mostra Wesley em plena maturidade — e num papel que talvez surpreenda: o de homem público que escreve a jornais. A carta ao London Chronicle descrevendo a transformação da prisão de Newgate, em Bristol, é um pequeno clássico: limpeza, trabalho, fim da bebida e da promiscuidade, culto para todos, Bíblia acorrentada à parede para quem quisesse ler. Wesley percebeu cedo o que muitos esqueceram: o evangelho que converte corações também reforma instituições (Mt 25.36).

De novo o leitor encontrará o Wesley criterioso diante do extraordinário. Ele registra a tromba-d’água da Cornualha com precisão de repórter, ouvindo testemunhas oculares; mas, diante dos “missionários” que alegavam ter encontrado homens de setecentos anos, e do menino que dizia ver crimes num espelho, a ironia é fina: “Quem pode crer nisso, creia” — tão crível quanto o homem que prometeu entrar numa garrafa. O prudente examina: “o simples dá crédito a qualquer palavra, mas o prudente atenta para os seus passos” (Pv 14.15; 1Ts 5.21).

A Irlanda ocupa boa parte destas páginas, e vale notar o olhar de Wesley: ao ler a história da ilha, ele expõe com indignação as injustiças seculares contra os nativos irlandeses; ao investigar os Whiteboys, distingue “o fato simples e nu” do que “tem sido tão variadamente representado”; e, diante do tecelão pobre preso em York por uma “declaração” que inflava quatro libras em quinhentas e setenta e sete, explode: onde está a verdade, a justiça, a misericórdia? Falar a favor do que não tem voz é ofício bíblico (Pv 31.8-9; Mq 6.8).

O capítulo culmina no que Parker chamou de “o dia de Pentecostes” de Wesley: por volta de 1762, ouvia-se falar de crentes santificados — aperfeiçoados no amor — com a mesma frequência que de pecadores justificados. Para Wesley, a perfeição cristã não é impecabilidade, e sim amor que enche o coração e expulsa o pecado; e deve ser esperada “a cada hora”, não empurrada para o leito de morte. É a herança wesleyana em estado puro: “que o Deus da paz os santifique em tudo” (1Ts 5.23-24; 1Jo 4.17-18). A morte de Ann Steed, louvando a Deus com o último fôlego, é o selo pastoral dessa esperança.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Wesley e a questão irlandesa

1760. Quarta-feira, 16 de janeiro. Veio a mim uma mulher com o que dizia ser uma mensagem do Senhor: que eu estava ajuntando tesouros na terra, entregando-me ao comodismo e cuidando apenas de comer e beber. Respondi que Deus me conhecia melhor; e que, se a tivesse enviado, a teria enviado com mensagem mais apropriada.

Segunda-feira, 21 de abril. Cavalgando para Rosmead, li as Relações históricas acerca da Irlanda, de sir John Davis. Ninguém que as leia pode admirar-se de que uma terra tão fértil tenha sido sempre tão pouco habitada; pois ele deixa claro: 1) que o homicídio nunca foi crime capital entre os irlandeses nativos: o homicida pagava apenas pequena multa ao chefe do seu clã; 2) que, quando os ingleses se estabeleceram aqui, os irlandeses continuaram sem qualquer benefício das leis inglesas — não podiam sequer processar um inglês. Assim os ingleses os espancavam, saqueavam e até matavam a seu bel-prazer. 3) Disso nasceram guerras contínuas entre eles, por trezentos e cinquenta anos seguidos, e desse modo tanto os ingleses quanto os irlandeses nativos se mantiveram poucos — e pobres.

4) Quando se multiplicaram durante uma paz de quarenta anos, de 1600 a 1641, o massacre geral, com a guerra que se seguiu, de novo lhes reduziu o número: não menos de um milhão de homens, mulheres e crianças foram destruídos em quatro anos. 5) Desde então, grande número deixa a terra, ano após ano, por pura falta de trabalho. 6) E os proprietários expulsam continuamente centenas, sim, milhares dos que restam, convertendo em pastagem tanta terra arável que não lhes sobra nem ocupação nem alimento. É isto que hoje despovoa muitas partes da Irlanda — de Connaught em particular, que, segundo se supõe, mal tem hoje metade dos habitantes que tinha oitenta anos atrás.

O ataque ao chapéu de Wesley

Terça-feira, 10 de junho. Cavalguei até Drumersnave, aldeia deliciosamente situada.

Ao meio-dia, William Ley, James Glasbrook e eu cavalgamos até Carrick-upon-Shannon. Em menos de uma hora, um escudeiro e juiz de paz desceu com um tambor e com a turba que conseguiu ajuntar. Fui para o jardim com a congregação, enquanto ele fazia um discurso aos seus seguidores na rua. Atacou então William Ley (que estava à porta), armado de alabarda e espada longa, e investiu contra ele com a alabarda; errando o golpe, desferiu outro, e a quebrou de encontro ao pulso dele. Tendo aberto caminho pela casa até a outra porta, deu com ela trancada: James Glasbrook a segurava firme do outro lado.

Enquanto se esforçava por arrombá-la, alguém lhe disse que eu estava pregando no jardim. Com isso largou a porta às pressas, contornou a casa correndo e, com parte do seu séquito, escalou o muro do jardim; e, com uma saraivada de juras e maldições, declarou: “O senhor não pregará aqui hoje.” Respondi: “Senhor, não pretendo; já preguei.” Isso o deixou a ponto de arrancar o chão. Vendo que não havia como argumentar com ele, entrei na casa. Pouco depois ele se vingou em James Glasbrook (quebrando no braço dele o cabo da alabarda) e no meu chapéu, que espancou e chutou com grande valentia; mas um cavalheiro o resgatou das suas mãos, e saímos da cidade a cavalo, em paz.

Quarta-feira, 10 de setembro. Chegando a St. Ives, eu estava decidido a pregar ao ar livre; mas o vento era tão forte que não pude ficar onde pretendia. Encontramos, porém, um pequeno cercado ali perto, cuja extremidade era rocha viva, erguendo-se dez ou doze pés a prumo, e de onde o terreno descia em declive suave. Uma saliência da rocha, a uns quatro pés do chão, deu-me púlpito muito conveniente. Ali se reuniu quase a cidade inteira, grandes e pequenos, ricos e pobres. E não se ouviu uma palavra, nem se viu um sorriso, de uma ponta à outra da congregação. O mesmo se deu nas três noites seguintes. Na verdade, temi no sábado que o bramido do mar, levantado pelo vento norte, impedisse que ouvissem. Mas Deus me deu voz tão clara e forte que creio não se ter perdido uma só palavra.

Domingo, 14. Às oito escolhi um terreno amplo, a encosta de um prado, onde a congregação ficou de pé, fileira sobre fileira, de modo que todos pudessem ver e ouvir. Era uma bela vista. Cada um parecia tomar para si o que era dito. Creio que todos os desviados da cidade estavam ali. E certamente Deus ali estava, para “curar a sua infidelidade” (cf. Os 14.4).

Comecei em Zennor assim que terminou o culto da igreja; suponho que nem seis pessoas foram embora.

Às cinco fui mais uma vez ao terreno de St. Ives, e encontrei uma congregação como creio que jamais se viu neste condado (exceto em Gwennap). Alguns dos principais da cidade estavam agora não nas bordas, mas no meio mais denso do povo. O céu limpo, o sol poente, a água lisa e quieta — tudo condizia com o estado do auditório.

Uma espécie de tromba-d’água

Quarta-feira, 17. O salão de St. Just estava completamente cheio às cinco, e Deus nos deu uma bênção de despedida. Ao meio-dia preguei no penhasco perto de Penzance, onde ninguém mais profere uma palavra descortês. Aqui obtive, de uma testemunha ocular, o relato do que aconteceu no dia vinte e sete do mês passado. Uma coluna redonda, mais estreita na base, de cor esbranquiçada, ergueu-se do mar perto de Mousehole e alcançou as nuvens. Uma mulher que cavalgava pela praia de Marazion a Penzance viu-a parada por um breve espaço e depois movendo-se velozmente na sua direção, até que, tocando-a a borda da coluna, o cavalo a derrubou e disparou. Tinha forte cheiro sulfuroso. Arrastava consigo abundância de areia e seixos da praia; e depois seguiu por sobre a terra, carregando trigo, tojo e o que mais encontrasse no caminho. Era sem dúvida uma espécie de tromba-d’água; mas uma tromba-d’água em terra, creio, raramente se vê.

Sexta-feira, 19. Cavalguei a Illogan. Tivemos chuva pesada antes que eu começasse, mas quase nenhuma enquanto eu pregava. Soube aqui vários outros pormenores sobre a tromba-d’água. Foi vista perto de Mousehole uma hora antes do pôr do sol. Por volta do pôr do sol, começou a viajar por sobre a terra, arrancando todo o tojo e os arbustos que encontrava. Quase uma hora depois do pôr do sol, passou (à razão de quatro ou cinco milhas por hora) pelos campos do senhor Harris, em Camborne, varrendo o chão por onde ia — com cerca de vinte jardas de diâmetro na base, e cada vez mais larga até as nuvens. Fazia um barulho como de trovão; levantou dezoito medas de trigo, com um grande monte de feno e as pedras sobre que estava, e as espalhou ao redor (mas estava completamente seca); e então passou por cima do penhasco e entrou no mar.

Sábado, 20. À noite tomei o meu velho posto na rua principal de Redruth. Uma multidão, ricos e pobres, assistiu com calma. Assim a mais áspera das cidades se tornou uma das mais quietas da Inglaterra.

A história de um estanhador

Domingo, 21. Preguei no mesmo lugar às oito. O senhor C., de St. Cubert, pregou na igreja de manhã e à tarde, e confirmou fortemente o que eu havia falado. À uma, estando o dia ameno e calmo, tivemos a maior congregação de todas. Mas choveu o tempo todo enquanto eu pregava em Gwennap. Concluímos o dia com uma festa de amor, na qual James Roberts, estanhador de St. Ives, relatou como Deus havia tratado com a sua alma.

Ele foi um dos primeiros da sociedade em St. Ives, mas logo recaiu no seu velho pecado, a embriaguez, e nele chafurdou por dois anos — tempo em que chegou a encabeçar a turba que derrubou a casa de pregação. Não muito depois, estava com o seu sócio na loja de Edward May quando o pregador passou. Disse o sócio: “Vou dizer a ele que sou metodista.” “Não”, disse Edward, “a tua fala te trairá.” James sentiu a palavra como uma espada, pensando consigo: “Assim também a minha fala agora me trai!” Voltou-se e apressou-se para casa, imaginando ouvir o diabo a segui-lo passo a passo por todo o caminho. Por quarenta horas não fechou os olhos nem provou comida ou bebida. Estava então no limite das suas forças, e foi até a janela, esperando cair no inferno instantaneamente, quando ouviu estas palavras: “Serei misericordioso para com as suas iniquidades e jamais me lembrarei dos seus pecados” (cf. Hb 8.12). Todo o seu fardo se foi; e há muitos anos ele anda de modo digno do evangelho.

Quarta-feira, 22 de outubro. Informado de que alguns cavalheiros da vizinhança haviam declarado que prenderiam o próximo pregador que viesse a Pensford, cavalguei até lá para lhes dar o encontro; mas nenhum apareceu. A casa ficou mais que cheia de ouvintes profundamente atentos. Parece que chegou enfim o tempo de a Palavra de Deus lançar raízes também aqui.

Sexta-feira, 24. Visitei os prisioneiros franceses em Knowle e encontrei muitos deles quase nus outra vez. Na esperança de provocar outros ao zelo, fiz nova coleta para eles e ordenei que o dinheiro fosse empregado em linho e coletes, dados aos mais necessitados.

Sábado, 25. O rei Jorge foi reunido a seus pais. Quando terá a Inglaterra um príncipe melhor?

Muitos de nós combinamos observar a sexta-feira, 31, como dia de jejum e oração pela bênção de Deus sobre a nossa nação, e em particular sobre Sua Majestade atual. Reunimo-nos às cinco, às nove, à uma e às oito e meia. Eu esperava ficar um pouco cansado, mas estava mais disposto depois da meia-noite do que às seis da manhã.

A carta de Wesley ao London Chronicle

1761. Sexta-feira, 2 de janeiro. Escrevi a seguinte carta:

“Ao editor do London Chronicle. Senhor: de todos os assentos de desgraça deste lado do inferno, poucos, suponho, excedem ou sequer igualam Newgate. E, se alguma região de horror podia excedê-la alguns anos atrás, era a Newgate de Bristol: tamanhas eram a imundície, o mau cheiro, a miséria e a maldade, que chocavam a todos os que ainda tivessem uma centelha de humanidade.

“Qual não foi a minha surpresa, pois, ao estar lá há poucas semanas! 1) Cada parte dela, em cima e embaixo, até o fosso em que os presos ficam à noite, está tão limpa e agradável como a casa de um cavalheiro; pois agora é regra que cada preso lave e limpe a fundo o seu compartimento duas vezes por semana. 2) Não há brigas nem desordens. Se alguém se julga maltratado, a causa é imediatamente levada ao carcereiro, que ouve as partes face a face e decide o caso de uma vez. 3) As ocasiões habituais de briga foram removidas, pois raríssimo é que alguém engane ou prejudique outro, certo de que, descoberta qualquer coisa do gênero, será posto em confinamento mais estreito.

“4) Não se tolera embriaguez, por vantajosa que fosse ao carcereiro e ao taberneiro. 5) Nem prostituição alguma: as presas são vigiadas de perto e mantidas separadas dos homens; nem se admite mulher de rua, não, por preço nenhum. 6) Toma-se todo cuidado possível contra a ociosidade: aos que querem trabalhar no seu ofício fornecem-se ferramentas e materiais — em parte pelo carcereiro, que lhes dá crédito a lucro muito moderado, em parte pelas esmolas ocasionais, divididas com a maior prudência e imparcialidade. Assim, neste momento, entre outros, um sapateiro, um alfaiate, um latoeiro e um fabricante de coches trabalham nos seus respectivos ofícios.

“7) Só no dia do Senhor não trabalham nem se divertem, mas se vestem com o maior asseio possível para assistir ao culto público na capela, ao qual está presente toda pessoa que vive sob aquele teto. Ninguém é dispensado, a não ser por doença — caso em que recebe, gratuitamente, tanto assistência quanto remédios. 8) E, para ajudá-los nas coisas de maior importância (além de um sermão todo domingo e quinta-feira), há uma grande Bíblia acorrentada a um lado da capela, que qualquer preso pode ler. Pela bênção de Deus sobre estes regulamentos, a prisão tem agora um novo rosto: nada ofende os olhos nem os ouvidos, e o conjunto tem a aparência de uma família quieta e séria. E não merece o carcereiro de Newgate ser lembrado tão bem quanto o Homem de Ross? Que o Senhor se lembre dele naquele dia! Entretanto: ninguém seguirá o seu exemplo? Sou, senhor, seu humilde servo, John Wesley.”

Sábado, 14 de março. Cavalguei (de Birmingham) a Wednesbury. Domingo, 15: consegui de algum modo pregar dentro de casa às oito da manhã; mas à tarde não sabia o que fazer, com dor no lado e a garganta inflamada. Resolvi, contudo, falar enquanto pudesse. Fiquei numa extremidade da casa, e o povo (calculado em oito ou dez mil) no campo contíguo. Falei sobre “considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8). Quando terminei de falar, os meus males tinham desaparecido.

Segunda-feira, 16. Pretendia descansar dois ou três dias; mas, instado a visitar Shrewsbury, e não tendo outra ocasião, cavalguei até lá hoje, embora sobre um animal miserável. Quando cheguei, doía-me a cabeça além do lado. Encontrei a porta do lugar onde eu ia pregar cercada por uma turba numerosa. Mas parecia que se haviam reunido apenas para olhar. Parte deles entrou, e quase todos os que entraram (grande número) se portaram quieta e seriamente.

Pregando no pátio da estalagem

Terça-feira, 17. Às cinco a congregação era grande e pareceu não pouco tocada. A dificuldade agora era voltar, pois eu não podia montar o cavalo em que viera. Mas também isso foi providenciado: encontramos na rua alguém que me emprestou o seu, tão macio que fui melhorando cada vez mais até chegar a Wolverhampton. Ninguém ainda havia pregado ao ar livre nesta cidade furiosa; mas eu estava resolvido, com a ajuda de Deus, a fazer a tentativa, e mandei pôr uma mesa no pátio da estalagem. Raramente vi tamanho número de homens bravios; mas não me deram perturbação alguma, nem enquanto preguei, nem quando depois caminhei pelo meio deles.

Por volta das cinco preguei a uma congregação bem maior em Dudley, e tudo tão quieto como em Londres. A cena mudou, desde o tempo em que a lama e as pedras desta cidade voavam ao meu redor por todos os lados.

Sábado, 2 de maio (Aberdeen). À tarde mandei pedir ao reitor e ao regente licença para pregar no pátio interno do Colégio. Foi prontamente concedida; mas, como começou a chover, pediram-me que fosse para o salão. Suponho que tem uns cem pés de comprimento, com assentos ao redor. A congregação foi grande, apesar da chuva; e igualmente grande às cinco da manhã.

Wesley prega em Aberdeen

Segunda-feira, 4. Por volta do meio-dia fui passear no King’s College, na velha Aberdeen. Tem três lados de um quadrilátero, de bela construção, não muito diferente do Queen’s College de Oxford. Subindo para ver o salão, encontramos grande companhia de senhoras, com vários cavalheiros. Entreolharam-se e conversaram, após o que um dos cavalheiros tomou coragem e veio a mim. Disse: “Fomos ontem à noite ao pátio do Colégio, mas não conseguimos ouvir, e ficaríamos extremamente gratos se o senhor nos desse aqui um breve discurso.” Eu não sabia o que Deus poderia ter em mente; e assim comecei sem demora sobre “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19). Creio que a palavra não se perdeu: caiu como orvalho sobre a relva tenra (cf. Dt 32.2).

À tarde, eu caminhava pela biblioteca do Marischal College quando o reitor e o professor de teologia vieram a mim; e este me convidou aos seus aposentos, onde passei uma hora muito agradável. À noite, a avidez do povo era tanta que quase se pisoteavam. Levou algum tempo até que estivessem quietos o bastante para ouvir; mas então devoraram cada palavra. Depois da pregação, sir Archibald Grant (que negócios haviam chamado à cidade) mandou pedir para falar comigo. Não pude naquela hora, mas prometi procurá-lo, com a permissão de Deus, na minha volta a Edimburgo.

Terça-feira, 5. Aceitei o convite do reitor e passei uma hora com ele em sua casa. Não observei rigidez alguma, mas a boa educação natural de um homem de bom senso e cultura. Suponho que tanto ele quanto todos os professores, com alguns dos magistrados, estiveram presentes à noite. Abri todas as janelas; ainda assim o salão estava quente como um banho turco.

Quarta-feira, 6. Às seis e meia fiquei de pé no pátio do Colégio e proclamei Cristo crucificado. Minha voz foi tão fortalecida que todos puderam ouvir, e todos estiveram fervorosamente atentos.

A crítica de Wesley a Edimburgo

Segunda-feira, 11. Despedi-me de Edimburgo por ora. A situação da cidade, sobre uma colina que desce em declive de ambos os lados e também para o leste, com o majestoso castelo sobre uma rocha escarpada a oeste, é indizivelmente bela. E a rua principal, tão larga e tão bem calçada, com as casas altas de ambos os lados (muitas de sete ou oito andares), supera em muito qualquer outra da Grã-Bretanha. Mas como se pode tolerar que toda espécie de imundície continue a ser atirada continuamente até nessa rua? Onde estão os magistrados, a fidalguia, a nobreza da terra? Não têm zelo algum pela honra da sua nação? Até quando a capital da Escócia — e a sua rua principal — cheirará pior que um esgoto comum? Nenhum amigo do seu país, ou da decência e do bom senso, encontrará remédio para isto?

Holyrood House, à entrada de Edimburgo, antigo palácio dos reis escoceses, é uma estrutura nobre. Foi reconstruída e mobiliada pelo rei Carlos II. Um dos seus lados é uma galeria de pinturas, com retratos de todos os reis escoceses e um original da célebre rainha Maria. É quase impossível a quem o contempla imaginá-la o monstro que alguns pintaram; como também, a quem considera as circunstâncias da sua morte, não a igualar à de um mártir antigo.

Uma semana cheia

Segunda-feira, 15 de junho. Cavalguei a Durham, onde marcara pregar ao meio-dia. O prado, à beira do rio, era bem conveniente, e a chuva miúda não perturbou nem a mim nem à congregação. À tarde cavalguei a Hartlepool. Mas custou-me muito pregar: as forças se tinham ido, e também a voz — e de fato, em geral, vão juntas. Três dias por semana posso pregar três vezes ao dia sem me prejudicar; mas eu agora excedera muito isso, além de reunir classes e exortar as sociedades. Fui obrigado a ficar deitado boa parte da terça-feira. Ainda assim, à tarde preguei em Cherington e, à noite, de novo em Hartlepool, embora não sem dificuldade. Quarta-feira, 17: cavalguei a Stockton onde, pouco antes da hora da pregação, a voz e as forças me foram restauradas de uma só vez. Na noite seguinte começou a chover exatamente quando comecei a pregar; mas a chuva ficou suspensa até o fim do culto; depois choveu de novo até as oito da manhã.

Sexta-feira, 19. Foi trabalho duro cavalgar oito milhas (assim chamadas) em duas horas e meia, com a chuva batendo sobre nós e o atalho extremamente escorregadio. Mas esquecemos tudo isso quando chegamos a Grange — tão grandemente Deus esteve presente com o seu povo. Dali cavalgamos a Darlington. Aqui nos vimos de novo em dificuldade: nem metade do povo conseguia entrar, e a chuva me impedia de pregar do lado de fora. Mas à uma (hora da pregação) a chuva parou, e só recomeçou depois das duas; assim o povo ficou muito convenientemente no pátio, e muitos não quiseram ir embora. Quando entrei, aglomeraram-se à porta e às janelas, e ficaram até eu montar. Às sete preguei em Yarm, e pedi a um dos nossos irmãos que tomasse o meu lugar pela manhã.

Wesley e as imposturas

Domingo, 21. Cavalguei a Osmotherley, onde o ministro leu as orações com seriedade e pregou um sermão proveitoso. Depois do culto, comecei no adro: creio que muitos foram feridos, e muitos consolados. Depois do jantar, visitei o senhor Adams, que primeiro me convidara a Osmotherley. Estava ele lendo o estranho relato dos dois missionários que ultimamente fizeram tanta figura nos jornais. Suponho que o relato inteiro não passa de mais uma grosseira impostura sobre o público, como a daquele homem que reuniu o povo para vê-lo entrar numa garrafa. “Homens de setecentos anos!” E por que não de sete jardas de altura? Quem pode crer nisso, creia.

Segunda-feira, 22. Falei, um por um, com os membros da sociedade de Hutton Rudby. Às onze preguei mais uma vez, embora em grande fraqueza de corpo, e me reuni com os ecônomos de todas as sociedades. Cavalguei então a Stokesley e, examinada a pequena sociedade, segui para Guisborough. O sol ardia; mas em um quarto de hora uma nuvem se interpôs, e ele não nos incomodou mais. Um cavalheiro da cidade pediu-me que pregasse na praça do mercado, e ali me puseram uma mesa; mas era má vizinhança, pois havia um fedor tão veemente de peixe podre que quase me sufocava, e o povo rugia como as ondas do mar. Mas a voz do Senhor foi mais poderosa; e em poucos minutos a multidão inteira ficou quieta e atendeu com seriedade, enquanto eu proclamava “Cristo Jesus, que se tornou, da parte de Deus, sabedoria para nós: justiça, santificação e redenção” (1Co 1.30).

Terça-feira, 23. Comecei por volta das cinco, perto do mesmo lugar, e tive grande parte do mesmo auditório; mas já não eram os mesmos: a mudança podia ler-se facilmente nos seus rostos. Quando montamos, de cara para o sol, foi trabalho duro para homem e animal; mas por volta das oito o vento virou e, soprando-nos no rosto, manteve-nos frescos até chegarmos a Whitby.

À noite preguei no alto do morro, ao qual se sobe por cento e noventa e um degraus. A congregação foi extraordinariamente grande, e noventa e nove em cada cem estavam atentos. Quando comecei, o sol me batia em cheio no rosto; mas logo se encobriu, e não brilhou mais até eu terminar.

Quarta-feira, 24. Caminhei ao redor da velha abadia que, tanto pelo tamanho (julgo que tem cem jardas de comprimento) quanto pelo lavor, é uma das mais belas ruínas do reino, se não a mais bela. Dali cavalgamos à baía de Robin Hood, onde preguei às seis na rua de baixo, perto do cais. No meio do sermão, um gato grande, espantado de um quarto, saltou sobre a cabeça de uma mulher e correu por sobre as cabeças e os ombros de muitas outras; mas nenhuma delas se moveu ou gritou, como se fosse apenas uma borboleta.

Quinta-feira, 25. Tive um passeio agradável até Scarborough, temperando o vento o calor do sol. Planejara pregar ao ar livre à noite; mas os trovões, relâmpagos e chuva o impediram. Fiquei, porém, numa sacada, e várias centenas de pessoas ficaram embaixo; e, apesar da chuva pesada, não arredaram pé até eu concluir.

Sexta-feira, 3 de julho. Voltamos a York, onde me pediram que visitasse um pobre preso no castelo. Já tive antes ocasião de comentar um monstro hediondo chamado “petição de chancelaria”; vi agora o seu irmão gêmeo, chamado “declaração”. O fato simples era este: tempos atrás, um homem que morava perto de Yarm ajudou outros a contrabandear certa aguardente. A sua parte foi de quase quatro libras. Depois de abandonar de todo aquele mau trabalho, e já entregue ao seu próprio ofício, o de tecelão, foi preso e mandado ao cárcere de York; e não muito depois desce uma “declaração” de que “Jac. Wh. desembarcara um navio carregado de aguardente e genebra no porto de Londres, e ali os vendera, pelo que devia a Sua Majestade quinhentas e setenta e sete libras e tanto”. E, para contar essa digna história, o advogado gasta treze ou catorze folhas de papel com selo triplo.

Um monstro chamado “declaração”

Ó Inglaterra, Inglaterra! Nunca se removerá de ti este opróbrio? Acha-se coisa semelhante entre papistas, turcos ou pagãos? Em nome da verdade, da justiça, da misericórdia e do bom senso, pergunto: 1) Por que mentem os homens por mentir? Só para não perder o costume? Que necessidade havia de dizer que foi no porto de Londres, quando todos sabiam que a aguardente desembarcou a mais de trezentas milhas dali? Que monstruoso desprezo da verdade — ou antes, que ódio a ela! 2) Onde está a justiça de inchar quatro libras em quinhentas e setenta e sete? 3) Onde está o bom senso de gastar catorze folhas para contar uma história que caberia em dez linhas? 4) E onde está a misericórdia de assim moer a face do pobre (cf. Is 3.15) — de sugar o sangue de um preso pobre e arruinado? Não seria vilania execrável ainda que papel e escrita custassem juntos seis pence a folha, quando já o despojaram do pouco que tinha e não lhe deixaram no mundo catorze tostões?

Domingo, 5. Crendo que um dos estorvos à obra de Deus em York era a negligência da pregação ao ar livre, preguei esta manhã, às oito, num lugar aberto perto das muralhas da cidade. Abundância de povo acorreu, e a maior parte profundamente atenta. Só um ou dois se iraram e atiraram algumas pedras; mas foi trabalho perdido, pois ninguém lhes deu atenção.

Domingo, 12. Marcara estar em Haworth; mas a igreja não comportava nem de longe o povo que veio de todos os lados. O senhor Grimshaw, porém, havia providenciado, armando um estrado do lado de fora de uma das janelas, pela qual saí depois das orações, saindo igualmente todo o povo para o adro. A congregação da tarde foi ainda maior. Que coisas tem Deus operado no meio destas montanhas ásperas!

Mulheres atrevidas

Segunda-feira, 13. Por volta das cinco preguei em Paddiham, outro lugar eminente em toda espécie de maldade. A multidão me obrigou a ficar no pátio da casa de pregação. Bem à minha frente, a pequena distância, estavam sentadas algumas das mulheres mais atrevidas que já vi; contudo, não estou certo de que Deus não lhes tenha alcançado o coração, pois

Rugiram — e teriam corado, se fossem capazes de vergonha.

Sexta-feira, 24. Por volta da uma preguei em Bramley, onde Jonas Rushford, de uns catorze anos, me deu o seguinte relato: “Por esta época, no ano passado, dois vizinhos nossos me pediram que fosse com eles à casa do senhor Crowther, em Skipton — que não queria falar com eles a respeito de um homem desaparecido havia vinte dias, mas mandara que lhe trouxessem um menino de doze ou treze anos. Quando entramos, ele estava de pé, lendo um livro.

Visto num espelho

“Ele me pôs numa cama, com um espelho na mão, e me cobriu todo. Então perguntou quem eu queria ver; e eu disse: ‘Minha mãe.’ Vi-a imediatamente com uma mecha de lã na mão, parada exatamente no lugar, e com a roupa, que ela própria depois me confirmou. Então me mandou olhar de novo, à procura do homem desaparecido, que era um dos nossos vizinhos. Olhei, e o vi cavalgando na direção de Idle, mas muito bêbado; e ele parou na taberna e bebeu mais dois quartilhos, e puxou um guinéu para trocar. Dois homens estavam por perto, um grande e um pequeno; e foram adiante dele e pegaram duas estacas de cerca; e, quando ele chegou ao alto do morro, no descampado de Windle, derrubaram-no do cavalo, mataram-no e o jogaram num poço de mina. E vi tudo tão claramente como se estivesse ao lado deles. E, se visse os homens, os reconheceria.

“Voltamos a Bradford naquela noite; e no dia seguinte fui com os nossos vizinhos e lhes mostrei o lugar onde ele foi morto, e o poço em que foi jogado; e um homem desceu e o trouxe para cima. E era como eu lhes dissera: o lenço estava amarrado sobre a boca e atado atrás do pescoço.”

Será apenas improvável — ou lisamente impossível, consideradas todas as circunstâncias — que isso tudo seja pura ficção? Quem pode crer nisso, pode crer também no homem que entra numa garrafa.

Segunda-feira, 27 de julho. Preguei em Staincross por volta das onze; por volta das cinco, em Barley Hall; na manhã seguinte, em Sheffield. À tarde cavalguei até Matlock Bath. O vale que vai da cidade aos banhos é aprazível além de toda expressão. No fundo dele corre um riozinho, junto ao qual se ergue uma montanha, quase perpendicular, a enorme altura; parte coberta de verde, parte de rochas ásperas e nuas. Do outro lado, a montanha sobe gradualmente, com tufos de árvores aqui e ali. A crista, de ambos os lados, é franjada de árvores, que parecem responder umas às outras.

Wesley em Matlock Bath e Boston

Muitos dos nossos amigos tinham vindo de várias partes. Às seis preguei de pé sob a concavidade de uma rocha, a um lado de uma pequena planície, do outro lado da qual havia uma montanha alta. Havia muitos ouvintes bem-vestidos, por ser alta temporada; e todos se portaram bem. Mas, quando eu voltava a pé, um homem com ares de cavalheiro me perguntou: “Por que o senhor fala assim de fé? Bobagem, contrassenso!” Indagando, soube que era deísta eminente. Quê! Terá a peste rastejado até o Pico de Derbyshire?

Quinta-feira, 13 de agosto. Fiz uma caminhada por Boston. Penso que não é muito menor que Leeds, mas, em geral, é bem mais bem construída. A igreja é de fato um belo edifício — maior, mais alta e até mais luminosa que a própria St. Peter de Norwich; e a torre é, suponho, a mais alta da Inglaterra, não menos notável pela arquitetura que pela altura.

Sábado, 14 de novembro. Passei uma hora com uma pequena companhia perto de Grosvenor Square. Por muitos anos este foi o ponto mais escuro e seco de Londres e dos seus arredores. Mas Deus regou agora o deserto estéril, e ele se tornou campo frutífero (cf. Is 35.1).

Pregando em Deptford, Welling e Sevenoaks pelo caminho, cheguei na quinta-feira, 3 de dezembro, a Shoreham. Ali li a celebrada Vida de Santa Catarina de Gênova. O senhor Lesley chama a certa santa de “um diabo de santa”; estou certo de que esta foi uma tola de santa — isto é, se a tolice não for do seu historiador, que a engrandeceu até fazer dela uma perfeita idiota. De fato, raramente encontramos um santo feito por Deus canonizado pelo bispo de Roma.

Sexta-feira, 25 (Londres). Começamos, como de costume, às quatro. Poucos dias antes, uma mulher que vivia em pecado notório, tomada de pesada convicção, fugiu de casa sem saber para onde. Encontrou outra, que lhe ofereceu um xelim por semana para cuidar do seu filho. Aceitou com alegria. O marido dessa mulher, ouvindo-a levantar-se entre três e quatro, pôs-se a praguejar e jurar amargamente. Disse-lhe a esposa: “Quem dera você fosse com ela, para ver se alguma coisa lhe faz bem.” Ele foi. No primeiro hino, Deus lhe quebrantou o coração, e ele ficou em lágrimas todo o resto do culto. Quão depressa recompensou Deus aquela pobre mulher por acolher a estranha (cf. Hb 13.2)!

Pregando ao luar

1762. Segunda-feira, 4 de janeiro. Depois de pregar a uma grande congregação em Wrestlingworth, seguimos para Harston. Eu nunca antes pregara um sermão inteiro ao luar. Foi, porém, uma hora solene: hora de santo pranto para alguns; para outros, de alegria indizível.

Segunda-feira, 29 de março. Preguei por volta do meio-dia no salão novo de Chepstow. Um dos ouvintes era um clérigo vizinho, que morara na mesma escada que eu em Christ Church, e que então era bem mais sério do que eu. Bendito seja Deus, que enfim olhou para mim! Agora, que eu remia o tempo (cf. Ef 5.16)!

À tarde tivemos uma tempestade de granizo como poucas vi na vida. As estradas, além disso, estavam tão ruins que só chegamos a Hereford depois das oito. Bem batido por granizo, chuva e vento, fui para a cama assim que pude, mas acordei muitas vezes com o bater das cortinas. De manhã encontrei a janela escancarada; mas não fiquei pior por isso. Montei às seis, com William Crane e Francis Walker. O vento era de frio cortante, e tivemos muitas pancadas de neve e chuva; mas o pior é que parte da estrada mal dava passagem, tanto que em Church Stretton um dos nossos cavalos se deitou e não quis ir adiante. William Crane e eu, contudo, seguimos adiante, e antes das sete chegamos a Shrewsbury.

Uma grande companhia depressa se reuniu. Muitos eram bastante turbulentos, mas a parte de longe maior estava calma e atenta, e voltou às cinco da manhã.

Viagens duras

Quarta-feira, 31. Convidado a pregar em Wem, a senhora Glynne quis levar-me até lá numa sege de posta; mas em pouco mais de uma hora estávamos atolados. Os cavalos puxaram até os tirantes arrebentarem. Eu teria ido a pé, se estivesse sozinho, embora a lama fosse funda e a neve caísse impetuosa; mas não podia abandonar a minha amiga. Esperei, pois, com paciência, até que o homem desse um jeito de remendar os tirantes; e os cavalos puxaram com vontade, de modo que, com muito custo, não muito depois da hora marcada cheguei a Wem.

Cheguei — mas a pessoa que me convidara tinha ido embora; saíra da cidade às quatro da manhã. Não encontrei ninguém que parecesse esperar ou desejar a minha companhia. Perguntei pelo lugar onde pregava o senhor Mather; mas estava cheio de cânhamo. Restava só o mercado; mas nem homem, nem mulher, nem criança se dispôs a seguir-nos, pois o vento norte rugia alto de todos os lados e entrava por todos os cantos. Contudo, antes que eu acabasse de cantar, dois ou três entraram devagarinho; e depois deles, duzentos ou trezentos; e o poder de Deus se fez tão presente entre eles que creio que muitos esqueceram a tempestade.

O vento cresceu ainda mais à tarde, a ponto de ser difícil manter-se na sela; e soprava em cheio no nosso rosto, mas não impediu que chegássemos a Chester à noite. Embora o aviso fosse curto, o salão ficou cheio — e cheio de ouvintes sérios e fervorosos, muitos dos quais expressaram vivo desejo da plena salvação de Deus. Aqui descansei na quinta-feira.

Sexta-feira, 2 de abril. Cavalguei a Parkgate e encontrei vários navios, mas o vento era contrário. Preguei às cinco na casinha que acabaram de construir, e os ouvintes foram notavelmente sérios. Anunciei pregação para as cinco da manhã. Mas às quatro e meia alguém nos trouxe a notícia de que o vento virara favorável e o capitão Jordan zarparia em menos de uma hora. Logo estávamos no navio, onde encontramos cerca de sessenta passageiros. O sol brilhava, o vento era moderado, o mar liso; e nada nos faltava senão espaço para nos mexermos, pois o camarote estava cheio de lúpulo, e só se entrava nele trepando por cima, de mãos e joelhos. À tarde estávamos à altura de Holyhead. Mas a cena mudou depressa: o vento subiu mais e mais e, pelas sete, soprava tempestade. O mar quebrava sobre nós continuamente, cobrindo às vezes o navio, que jogava e balançava de modo incomum. Assim me informaram; pois, um pouco enjoado, deitei-me às seis e dormi quase sem interrupção até perto das seis da manhã. Estávamos então perto da baía de Dublin, onde passamos a um bote que nos levou a Dunleary. Ali encontramos uma sege pronta, na qual fomos a Dublin.

A notável estátua que fala

Segunda-feira, 26 de abril. À noite preguei a uma grande congregação no mercado de Lurgan. Abracei então a oportunidade, longamente desejada, de conversar com o senhor Miller, o inventor daquela estátua que estava em Lurgan quando estive aqui antes. Era a figura de um ancião, de pé numa caixa, com uma cortina diante de si, defronte de um relógio que ficava do outro lado da sala. Cada vez que o relógio batia, ele abria a porta com uma das mãos, puxava a cortina com a outra, virava a cabeça, como quem olha ao redor para a companhia, e então dizia, com voz clara, alta e articulada: “Uma hora”, “duas”, “três”, e assim por diante. Mas vinha tanta gente ver aquilo (coisa que todos reconheciam não ter igual na Europa) que o senhor Miller corria o risco de arruinar-se, sem tempo para cuidar do próprio ofício; e, como ninguém se oferecia para comprá-la nem para recompensar-lhe o trabalho, desmontou toda a máquina em peças; nem pensa jamais em fazer outra coisa do gênero.

Quarta-feira, 28. De manhã cavalguei a Monaghan. Como as comoções de Munster já alarmavam a Irlanda inteira, mal havíamos apeado quando algumas pessoas sabidas informaram ao corregedor que três homens de estranha espécie tinham chegado ao King’s Arms. Veio, pois, o corregedor com os seus oficiais, sem demora, para proteger o norte de perigo tão iminente. Eu acabara de sair quando me mandaram voltar para dentro. O corregedor fez-me muitas perguntas, e o caso talvez se tornasse sério se eu não tivesse comigo duas cartas recebidas pouco antes: uma do bispo de Londonderry, outra do conde de Moira. Ao lê-las, desculpou-se pelo incômodo e me desejou boa viagem.

Entre seis e sete preguei em Coot Hill e, pela manhã, cavalguei até Enniskillen. Depois de rodar e rodar, chegamos à noite a uma casa isolada chamada Carrick-a-beg. Ficava no meio de montanhas medonhas, e não tinha aparência muito promissora. Ofereceu, porém, milho para os nossos cavalos e batatas para nós. Fizemos, pois, uma ceia reforçada, chamamos às orações quantos da família quiseram vir e, embora não houvesse tranca nem para as portas nem para as janelas, dormimos em paz (cf. Sl 4.8).

Wesley e os vendedores de aveia

Segunda-feira, 3 de maio (Sligo). À noite, uma companhia de atores começou a representar na parte de cima do mercado, exatamente quando começávamos a cantar na parte de baixo. O caso destes é notável. Os presbiterianos por longo tempo tiveram ali o seu culto público; mas, quando os saltimbancos chegaram à cidade, foram postos para fora — e desde então ficaram sem culto público nenhum. Na terça à noite, a parte de baixo também estava ocupada por compradores e vendedores de aveia; mas, assim que comecei, o povo deixou os seus sacos e atendeu a negócio de maior importância.

Domingo, 16. Eu observara à sociedade, na semana passada, que nunca vira na Irlanda congregação que se portasse tão mal na igreja como a de Athlone — rindo e olhando ao redor durante o culto inteiro. E acrescentara: “A culpa é de vocês; pois, se tivessem frequentado a igreja como deviam, a presença e o exemplo de vocês não teriam deixado de influenciar a congregação inteira.” E assim se viu: não vi hoje ninguém rindo, conversando ou olhando ao redor; uma seriedade notável se espalhava de uma ponta da igreja à outra.

Os Whiteboys irlandeses

Segunda-feira, 24. Fui com dois amigos ver uma das maiores maravilhas naturais da Irlanda — o monte Eagle, vulgarmente chamado Croagh Patrick. O seu sopé fica a catorze milhas de Castlebar. Ali deixamos os cavalos e arranjamos um guia. Era meio-dia em ponto quando apeamos; o sol ardia, e não tínhamos um sopro de vento. Parte da subida era um bom tanto mais íngreme que uma escada comum. Por volta das duas ganhamos o topo, que é uma planície oval e relvada, de cerca de cento e cinquenta jardas de comprimento por setenta ou oitenta de largura. A parte superior da montanha assemelha-se muito ao pico de Tenerife. Penso que não deve erguer-se muito menos de uma milha a prumo acima da planície. Há um imenso panorama, de um lado para o mar, do outro sobre a terra. Mas, como a maior parte dela é baldia e inculta, a vista não é muito aprazível.

Segunda-feira, 14 de junho. Cavalguei a Cork. Aqui obtive um relato exato das últimas comoções. Por volta do início de dezembro passado, alguns homens se reuniram de noite perto de Nenagh, no condado de Limerick, e derrubaram as cercas de algumas terras comuns recentemente cercadas. Perto do mesmo tempo, outros se reuniram nos condados de Tipperary, de Waterford e de Cork. Como ninguém se dispôs a reprimi-los ou detê-los, cresceram continuamente em número e se chamaram Whiteboys, usando roseta branca e blusões de linho branco. Em fevereiro havia cinco ou seis grupos deles, de duzentos ou trezentos homens cada, que se moviam de um lado para outro, principalmente de noite; com que fim, não se via. Apenas derrubaram algumas cercas, revolveram alguns terrenos e cortaram os jarretes de algum gado — talvez cinquenta ou sessenta cabeças ao todo.

Um corpo deles entrou em Cloheen: uns quinhentos a pé e duzentos a cavalo. Moviam-se com a exatidão de tropas regulares e pareciam plenamente disciplinados. Passaram a enviar cartas a vários cavalheiros, ameaçando derrubar-lhes as casas. Obrigavam todos os que encontravam a jurar fidelidade à “rainha Sive” (o que quer que isso significasse) e aos Whiteboys, a não revelar os seus segredos e a juntar-se a eles quando chamados. Supunha-se que oito ou dez mil estavam de fato levantados, muitos deles bem armados, e que número bem maior estava pronto a levantar-se ao primeiro chamado. Aos que se recusavam a jurar, ameaçavam enterrar vivos. E a dois ou três de fato enterraram até o pescoço, e os deixaram; e estes teriam perecido depressa, se viajantes de passagem não os tivessem achado a tempo. Por fim, perto da Páscoa, um corpo de tropas, principalmente cavalaria ligeira, foi enviado contra eles. Muitos foram presos e recolhidos ao cárcere; os demais desapareceram. Este é o fato simples e nu, que tem sido tão variadamente representado.

O mármore caiado de Kilkenny

Sábado, 10 de julho. Cavalgamos a Kilkenny, uma das mais aprazíveis e mais antigas cidades do reino — e não inferior a nenhuma em maldade, nem em ódio a este caminho. Alegrei-me, pois, com a permissão de pregar na Casa da Câmara, onde uma companhia pequena e séria compareceu à noite. Domingo, 11: fui à catedral, uma das mais bem construídas que vi na Irlanda.

As colunas são todas de mármore negro; mas o falecido bispo mandou caiá-las. Na verdade, o mármore é tão abundante perto desta cidade que as próprias ruas são calçadas com ele.

Segunda-feira, 12. Fui à caverna de Dunmore, a três ou quatro milhas de Kilkenny. É plenamente tão notável quanto o Poole’s Hole, ou qualquer outra do Pico. A abertura é redonda, paralela ao horizonte, com setenta ou oitenta jardas de largura. No meio dela há uma espécie de arco, de vinte ou trinta pés de altura. Por ele se entra na primeira caverna, quase redonda, de quarenta ou cinquenta pés de diâmetro, cercada de pedras de espato, exatamente como as das paredes do Poole’s Hole. De um lado da caverna há uma passagem estreita, que segue por baixo da rocha duzentas ou trezentas jardas; do outro, uma cavidade a que ninguém jamais conseguiu achar fim. Suponho que também este buraco, como muitos outros, foi formado pelas águas do dilúvio ao retirarem-se para o grande abismo, com o qual provavelmente se comunica.

Segunda-feira, 26. Em alguns aspectos, a obra de Deus em Dublin foi mais notável ainda que a de Londres. 1) É bem maior, em proporção ao tempo e ao número de pessoas: aquela sociedade tinha mais de dois mil e setecentos membros; esta, nem a quinta parte. Seis meses depois que a chama irrompeu lá, tínhamos cerca de trinta testemunhas da grande salvação; em Dublin houve cerca de quarenta em menos de quatro meses. 2) A obra foi mais pura. Em todo este tempo, tratados com brandura e ternura, não houve entre eles um só teimoso ou avesso a conselho; nenhum que se julgasse mais sábio que os seus mestres; nenhum que sonhasse ser imortal, infalível ou incapaz de tentação; em suma, nenhum exaltado ou fanático: todos calmos e sóbrios de mente.

Wesley na Cornualha

Sexta-feira, 27 de agosto. Parti para o oeste e, tendo pregado em Shepton e Middlesey no caminho, cheguei no sábado a Exeter. Quando comecei o culto ali, a congregação (além de nós mesmos) era de duas mulheres e um homem. Antes que eu terminasse, a sala estava meio cheia. Eis no que dá omitir a pregação ao ar livre.

Domingo, 29. Preguei às oito em Southernay Green, a uma congregação extremamente quieta. Na catedral tivemos um sermão proveitoso, e todo o culto foi celebrado com grande seriedade e decoro. Órgão como aquele eu nunca vira nem ouvira: tão grande, belo e de timbre tão fino; e a música do “Glória a Deus nas alturas” excedeu, penso eu, o próprio Messias. Foi-me grato participar da ceia do Senhor com o meu velho opositor, o bispo Lavington. Oh, que nos assentemos juntos no reino de nosso Pai!

Às cinco voltei a Southernay Green e encontrei uma multidão; mas um vagabundo devasso, profano e bêbado havia incitado de tal modo muitos da ralé que houve muito barulho, correria e confusão. Enquanto eu pregava, várias coisas foram atiradas, e muito se trabalhou para virar a mesa; e, depois que concluí, muitos tentaram derrubar-me; mas caminhei pelo meio deles e os deixei (cf. Lc 4.30).

Sábado, 4 de setembro. Depois de pregar em Grampound, cavalguei a Truro. Quase esperava algum distúrbio, por ser dia de mercado e por eu ficar na rua, a pequena distância do mercado. Mas tudo esteve quieto. Na verdade, tanto a perseguição quanto os tumultos populares parecem esquecidos na Cornualha.

Domingo, 5. Enquanto eu instava, no mesmo lugar, com aquelas palavras solenes — “quanto a mim, que eu jamais me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6.14) —, um pobre homem começou a fazer algum tumulto; mas muitos gritaram: “Guardas, levem-no daqui.” Assim fizeram, e o alvoroço acabou. À uma preguei na rua principal de Redruth, onde ricos e pobres estiveram igualmente atentos. Às cinco o vento era tão forte que não pude ficar no lugar de costume em Gwennap. Mas a pequena distância havia uma concavidade capaz de conter muitos milhares de pessoas. Postei-me a um lado desse anfiteatro, perto do alto, com o povo embaixo e de todos os lados, e discorri sobre as palavras do Evangelho do dia: “Bem-aventurados os olhos que veem o que vocês veem, e os ouvidos que ouvem o que vocês ouvem” (Lc 10.23-24).

Quarta-feira, 15. Quanto mais converso com os crentes da Cornualha, mais me convenço de que têm sofrido grande perda por falta de ouvir a doutrina da perfeição cristã clara e fortemente pregada. Vejo que, onde quer que isso não se faça, os crentes esfriam e definham. Nem há como evitá-lo senão mantendo neles a expectativa, de hora em hora, de serem aperfeiçoados no amor. Digo expectativa de hora em hora; pois esperá-la na morte, ou dali a algum tempo, é praticamente o mesmo que não esperá-la de modo nenhum.

Aquela prática detestável de roubar o rei (o contrabando) já não se encontra nas nossas sociedades. E, desde que essa coisa maldita foi removida, a obra de Deus cresceu em toda parte.

Segunda-feira, 25 de outubro. Preguei à uma, no casco da casa nova de Shepton Mallet. Ao cavar o alicerce, encontrou-se uma pedreira, mais que suficiente para a casa.

Quinta-feira, 28. Tendo uma irmã que adornou o evangelho na vida e na morte pedido que eu pregasse no seu funeral, fui com alguns amigos à casa e cantei diante do corpo até o salão. Fi-lo de propósito, para mostrar a minha aprovação àquele costume solene e animar outros a segui-lo. Enquanto caminhávamos, a nossa companhia cresceu rapidamente, de modo que tivemos congregação numerosíssima no salão. E quem pode dizer se alguns destes não bendirão a Deus por isso por toda a eternidade?

O Pentecostes de Wesley

Muitos anos atrás, meu irmão dizia com frequência: “O seu dia de Pentecostes ainda não chegou em plenitude; mas não duvido de que chegará: e vocês então ouvirão falar de pessoas santificadas com a mesma frequência com que hoje ouvem falar de pessoas justificadas.” Qualquer leitor sem preconceito pode observar que ele agora havia plenamente chegado. E de fato ouvíamos falar de pessoas santificadas, em Londres e na maior parte da Inglaterra, como em Dublin e em muitas outras partes da Irlanda, com a mesma frequência que de pessoas justificadas — embora os casos destas fossem bem mais frequentes do que haviam sido nos vinte anos anteriores. Que muitos não tenham retido o dom de Deus não prova que não lhes tenha sido dado. Que muitos o retenham até o dia de hoje é motivo de louvor e ação de graças. E muitos partiram para aquele a quem amavam, louvando-o com o último fôlego — exatamente no espírito de Ann Steed, a primeira testemunha, em Bristol, da grande salvação: consumida pela doença e por dores lancinantes, depois de encomendar a Deus todos os que a rodeavam, ergueu os olhos, exclamou “Glória! Aleluia!” — e morreu.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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