DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 13

De novo na Escócia; a riqueza dos metodistas; “não há lei para os metodistas”; dias exaustivos; Whitefield

A Escócia de portas abertas, o Magnificat do bêbado de Congleton, a advertência sobre a riqueza crescente dos metodistas, noites perdidas nas montanhas do País de Gales — e a curiosa experiência de Wesley com os leões da Torre de Londres.

1763–1764 ⏱ 37 min de leituraEscócia

“Preferimos que nos falte o pão aqui a que nos falte “uma gota de água” na eternidade.”

(Resposta de dois servos metodistas, Diário, 5 de abril de 1764)

Antes de ler

Neste capítulo (1763–1764), a Escócia se abre diante de Wesley como talvez nenhuma outra região: ministros que o acolhem, vilas inteiras que enchem a igreja ao toque do sino, estalagens onde a família toda se ajunta para orar. E, no entanto, é dele a observação mais aguda sobre o perigo dessa religiosidade ilustrada: “eles sabem tudo; por isso, nada aprendem”. Conhecer as Escrituras não é o mesmo que ser transformado por elas (Tg 1.22).

Está aqui também uma das páginas mais proféticas de todo o Diário: a advertência aos metodistas sobre a própria prosperidade. Sendo trabalhadores e frugais, eles enriqueciam — sete, vinte, cem vezes mais; e Wesley viu com clareza o risco: “não amem o mundo nem as coisas que há no mundo” (1Jo 2.15; 1Tm 6.9-10). A solução dele, formulada alhures, permanece atual: ganhar tudo o que se puder honestamente, economizar tudo o que se puder — para dar tudo o que se puder.

Duas lições de pastoreio atravessam o capítulo. Primeira: pregar como um apóstolo sem reunir e discipular os despertados “é apenas gerar filhos para o assassino” — sem sociedades, sem classes, sem acompanhamento, nove em cada dez adormecem de novo (Mt 28.19-20; Hb 10.24-25). Segunda: o reavivamento de Barnard Castle começou quando a sociedade voltou a observar o jejum com oração — disciplina que o Senhor colocou lado a lado com a esmola e a oração (Mt 6.16-18) e que os cristãos negligenciam com tanta facilidade.

E há o Wesley humano, quase divertido: o que reflete sobre por que uma melodia agrada e depois cansa; o que leva um flautista à Torre de Londres para testar se os leões gostam de música; o que registra, com fina ironia, a moça que “ri com graça”. Mas a cena que fica é a do bêbado David, de Congleton, abraçado ao amigo recém-convertido: “Venha, cantemos o cântico da virgem Maria; eu nunca pude cantá-lo antes: A minha alma engrandece o Senhor” (Lc 1.46-47). A graça que alcança um perseguidor zombeteiro ainda alcança qualquer pessoa.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Wesley de novo em Aberdeen

1763. Segunda-feira, 16 de maio. Partindo um mês mais tarde que de costume, julguei necessário apressar-me mais; tomei, pois, seges de posta e assim cheguei sem dificuldade a Newcastle na quarta-feira, 18. Dali segui com vagar e cheguei a Edimburgo no sábado, 21. No dia seguinte tive a satisfação de passar algum tempo com o senhor Whitefield. Humanamente falando, está gasto; mas temos a ver com aquele que tem todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28.18).

Segunda-feira, 23. Cavalguei a Forfar e, na terça, 24, segui para Aberdeen.

Quarta-feira, 25. Indaguei do estado das coisas aqui. Certamente nunca houve porta mais aberta. Os quatro ministros de Aberdeen, o ministro da cidade vizinha e os três ministros da velha Aberdeen até agora não mostram desagrado algum; antes parecem desejar-nos que sejamos “abençoados em nome do SENHOR” (cf. Sl 129.8). A maior parte do povo da cidade parece querer-nos bem, de modo que não há oposição aberta de espécie alguma. Oh, de que espírito deve ser um pregador, para suportar todo este sol!

Por volta do meio-dia fui ao Hospital Gordon, construído perto da cidade para crianças pobres. É um edifício belíssimo e (coisa pouco comum) conservado extraordinariamente limpo. Os jardins são aprazíveis, bem traçados e em ótima ordem; mas o velho solteirão que o fundou dispôs expressamente que nenhuma mulher jamais entrasse ali.

Às sete, estando a tarde clara e amena, preguei a uma multidão no pátio do Colégio, sobre “Ponham-se nos caminhos, olhem e perguntem pelas veredas antigas” (Jr 6.16). Na tarde seguinte, porém, com o tempo frio e úmido, preguei no salão do Colégio. Que espantosa disposição para ouvir corre por todo este reino! Faltam apenas alguns obreiros zelosos e ativos, que não desejem nada além de Deus — e em pouco tempo levariam o evangelho por todo este país, até as Órcades.

Franqueza na Escócia

Sexta-feira, 27. Parti de novo para Edimburgo. Por volta da uma preguei em Brechin. Todos profundamente atentos. Talvez alguns não sejam ouvintes esquecidos (cf. Tg 1.25). Depois cavalgamos até o castelo de Broughty, duas ou três milhas abaixo de Dundee. Tínhamos esperança de atravessar ali o rio, já que não pudéramos na cidade; mas descobrimos que os cavalos não poderiam passar antes das onze ou meia-noite. Julgamos, pois, melhor atravessar nós mesmos e deixá-los para trás. Em pouco tempo conseguimos uma espécie de barco, com a metade do comprimento de um bote londrino e três ou quatro pés de largura. Logo depois de largarmos, percebi que fazia água por todos os lados, e não tínhamos com que esgotá-la. Quando chegamos ao meio do rio, que ali tem três milhas de largura, estando o vento forte e a água agitada, os nossos barqueiros pareceram um tanto surpresos; mas os animamos a remar com força e, em menos de meia hora, desembarcamos em segurança. Os cavalos nos foram trazidos depois, e no dia seguinte cavalgamos até a balsa de Kinghorn e tivemos travessia agradável até Leith.

Domingo, 29. Preguei às sete no pátio da Escola Superior, em Edimburgo. Sendo o tempo da Assembleia Geral, que reunia não só os ministros, mas abundância de nobres e fidalgos, muitos de ambas as classes estiveram presentes; e muitíssimos mais às cinco da tarde. Falei tão claramente como jamais falei na vida. Mas nunca soube de alguém na Escócia que se ofendesse com a franqueza. Neste aspecto, os britânicos do norte são um modelo para toda a humanidade.

Terça-feira, 7 de junho. Há algo notável na maneira como Deus reavivou a sua obra nestas partes. Poucos meses atrás, o povo deste circuito estava, em geral, extremamente sem vida. Samuel Meggot, percebendo-o, aconselhou a sociedade de Barnard Castle a observar todas as sextas-feiras com jejum e oração. Na primeira sexta-feira em que se reuniram, Deus irrompeu sobre eles de maneira maravilhosa; e a sua obra tem crescido entre eles desde então. As sociedades vizinhas souberam, concordaram em seguir a mesma regra, e logo experimentaram a mesma bênção.

Não será a negligência deste dever simples (refiro-me ao jejum, posto pelo nosso Senhor lado a lado com a esmola e a oração — cf. Mt 6.1-18) uma causa geral da frieza entre os cristãos? Pode alguém negligenciá-lo de propósito e ser inocente?

O Magnificat do bêbado

Quinta-feira, 16. Às cinco da tarde preguei em Dewsbury e, na sexta, 17, cheguei a Manchester. Aqui recebi o relato pormenorizado de um incidente notável. Um beberrão eminente de Congleton costumava divertir-se, sempre que havia pregação ali, postando-se defronte da casa e praguejando contra o pregador. Certa noite teve a fantasia de entrar e ouvir o que o homem tinha a dizer. Entrou; mas aquilo o deixou tão inquieto que não pôde dormir a noite toda. De manhã estava mais inquieto ainda; caminhou pelos campos, mas em vão, até que lhe veio à mente procurar um dos seus alegres companheiros, sempre pronto a insultar os metodistas. Contou-lhe como estava e perguntou o que deveria fazer. “Fazer?”, disse Samuel. “Ir e unir-se à sociedade. Eu vou; pois nunca na vida estive tão inquieto.” Assim fizeram, sem demora. Mas logo David exclamou: “Arrependo-me de ter entrado; pois vou embriagar-me de novo, e eles me expulsarão.” Contudo, ficou firme por quatro dias; no quinto, foi persuadido pelos velhos companheiros a “tomar um copo”, e depois outro, e outro, até que um deles disse: “Vejam: eis aqui um metodista bêbado!”

David levantou-se num salto e derrubou-o, cadeira e tudo. Expulsou depois os demais da casa, agarrou a taberneira, carregou-a para fora e atirou-a na sarjeta; voltou à casa, arrombou a porta, jogou-a na rua e então correu para os campos, arrancou os cabelos e rolou pelo chão de um lado para outro. Um ou dois dias depois houve uma festa de amor; ele entrou furtivamente, ficando atrás, para que ninguém o visse. Enquanto o senhor Furze orava, foi tomado de terrível agonia, de corpo e de mente. Isso levou muitos a lutar com Deus por ele. Dali a pouco pôs-se de pé num impulso, estendeu as mãos e exclamou em alta voz: “Todos os meus pecados estão perdoados!” No mesmo instante, alguém do outro lado da sala gritou: “Jesus é meu! E ele tirou todos os meus pecados.” Era Samuel H. David rompeu por entre o povo, tomou-o nos braços e disse: “Venha, cantemos o cântico da virgem Maria; eu nunca pude cantá-lo antes: ‘A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador’” (Lc 1.46-47). E o seu comportamento dali em diante mostrou claramente a realidade da sua profissão de fé.

Segunda-feira, 20. Preguei em Maxfield por volta do meio-dia. Como eu não andava bem e ainda não estava de todo recuperado, os nossos irmãos insistiram em mandar-me numa sege a Burslem. Entre quatro e cinco deixei a sege e montei o meu cavalo. Logo depois, ouvindo um grito, olhei para trás e vi a sege de rodas para o ar (a roda batera violentamente numa pedra), quase feita em pedaços. Por volta das sete preguei a uma grande congregação em Burslem; estes pobres oleiros, quatro anos atrás, eram tão selvagens e ignorantes quanto os mineiros de Kingswood. Senhor, tu tens poder sobre o teu próprio barro (cf. Jr 18.6)!

Wesley elogia o País de Gales

Sábado, 20 de agosto (Brecknock). Montamos às quatro e cavalgamos por uma das regiões mais aprazíveis do mundo. Quando chegamos a Trecastle, tínhamos percorrido cinquenta milhas por Monmouthshire e Brecknockshire; e ouso dizer que a Inglaterra inteira não oferece um percurso de cinquenta milhas como este, em campos, prados, bosques, riachos e montanhas de suave elevação, férteis até o cume. Carmarthenshire, onde logo entramos, tem solo no mínimo tão fértil; mas não é tão aprazível, por ter menos montanhas, embora abundância de riachos e rios. Por volta das cinco preguei no gramado de Carmarthen a grande número de ouvintes profundamente atentos. Aqui me encontraram dois cavalheiros de Pembroke, com quem cavalgamos até St. Clare, pretendendo pernoitar ali. Mas a estalagem estava lotada, e resolvemos tentar Larn, embora não soubéssemos o caminho e já fosse noite fechada. Nisso chegou um homem honesto que ia para lá a cavalo, e de boa vontade lhe fizemos companhia.

Quinta-feira, 25. Convenci-me mais do que nunca de que pregar como um apóstolo sem reunir os que foram despertados e sem os instruir nos caminhos de Deus é apenas gerar filhos para o assassino. Quanta pregação tem havido nestes vinte anos por toda a Pembrokeshire! Mas nenhuma sociedade regular, nenhuma disciplina, nenhuma ordem ou conexão; e a consequência é que nove em cada dez dos que um dia despertaram dormem hoje mais profundamente do que nunca.

Sexta-feira, 26. Planejáramos montar às quatro (saindo de Haverfordwest), mas a chuva despencava de tal modo que mal se podia pôr o rosto para fora. Por volta das seis, contudo, partimos e cavalgamos sob chuva pesada até St. Clare. Tendo então pouca esperança de cruzar os areais, decidimos dar a volta por Carmarthen; mas o cavalariço nos disse que pouparíamos várias milhas indo pela balsa de Llansteffan. Chegamos lá por volta do meio-dia, onde uma boa mulher nos informou que o barco estava encalhado e só passaria à tarde; julgamos então melhor ir mesmo por Carmarthen. Mas, cavalgadas três ou quatro milhas, lembrei-me de ter ouvido falar de um vau que nos pouparia algumas milhas. Perguntamos a um velho, que logo montou o seu cavalo, mostrou-nos o caminho e atravessou o rio adiante de nós.

Pouco depois, a minha égua perdeu uma ferradura, o que nos custou tanto tempo que já não pudemos ir pelos areais, e fomos obrigados a contornar por uma estrada miserável até Llanelli. Para completar, o nosso guia errou o caminho, antes e depois de lá chegarmos; de sorte que foi quanto pudemos fazer alcançar a balsa de Bocher pouco depois do pôr do sol. Sabendo que era então impossível chegar a Penrice, como planejáramos, seguimos direto para Swansea.

Os metodistas e a sua riqueza

Sábado, 17 de setembro (Bristol). Preguei no gramado de Bedminster. Inclino-me a pensar que muitos dos ouvintes nunca antes tinham ouvido um metodista — ou talvez pregador nenhum. Que senão a pregação ao ar livre poderia alcançar estes pobres pecadores? E não são as suas almas também preciosas aos olhos de Deus?

Domingo, 18. Preguei de manhã na Princess Street, a numerosa congregação. Dois ou três “cavalheiros”, assim chamados, riram no começo; mas em poucos minutos estavam tão sérios quanto os demais. Na segunda à noite dei aos nossos irmãos uma advertência solene: que não “amem o mundo nem as coisas que há no mundo” (1Jo 2.15). Este será o seu grande perigo: sendo diligentes e frugais, hão de necessariamente crescer em bens. Já se vê: em Londres, Bristol e na maior parte das cidades de comércio, os que têm negócios multiplicaram os seus haveres sete vezes, alguns vinte, sim, cem vezes. Que necessidade têm estes das mais fortes advertências, para que não se enredem nisso e pereçam (cf. 1Tm 6.9)!

Sexta-feira, 23. Preguei em Bath. Voltando para casa, vimos um caixão sendo levado para a igreja de St. George, acompanhado de muitas crianças. Quando nos aproximamos, descobrimos que eram as nossas próprias crianças, acompanhando o corpo de um colega de escola, morto de varíola; e Deus por meio disso tocou o coração de muitas delas de um modo que nunca haviam conhecido.

Segunda-feira, 26. Preguei aos presos de Newgate e, à tarde, cavalguei a Kingswood, onde tive uma solene vigília e a oportunidade de falar de perto às crianças. Uma morreu, duas se recuperaram, sete ainda estão doentes; e o coração de todas está como cera que se derrete.

Sábado, 1º de outubro. Voltei a Londres e encontrei a nossa casa em ruínas, grande parte dela demolida para um reparo completo. Mas restava quanto eu precisava: seis pés quadrados me bastam, de dia e de noite.

Quinta-feira, 22 de dezembro. Passei algum tempo em visita ao senhor M.: vinte anos atrás, magistrado zeloso e útil; agora, um retrato da natureza humana em desgraça — débil de corpo e de mente, lento de fala e de entendimento. Senhor, não me deixes viver para ser inútil!

1764. Segunda-feira, 16 de janeiro. Cavalguei a High Wycombe e preguei à congregação mais numerosa e séria que já vi ali. Haverá ainda outro dia de visitação para este povo descuidado?

Grande número esteve presente às cinco da manhã, mas o meu rosto e as gengivas estavam tão inchados que eu mal podia falar. Depois que montei, foram piorando cada vez mais, até que começou a chover. Persuadiram-me então a pôr um capuz de oleado, que (soprando o vento muito forte) ficou esfregando continuamente na minha face, até que dor e inchaço se foram embora.

Uma travessia difícil

Entre meio-dia e uma cruzamos a balsa de Ensham. A água era como um mar de ambos os lados. Perguntei ao balseiro: “Podemos ir pelo aterro?” Disse ele: “Sim, senhor, se se mantiverem no meio.” Mas aí estava a dificuldade, pois o aterro inteiro estava coberto de água a considerável profundidade, que em muitos trechos corria por cima dele com a rapidez e a violência de uma comporta. A certa altura a minha égua perdeu as duas patas dianteiras, mas deu um salto e recobrou o aterro; do contrário, teríamos de nadar, pois a água de cada lado tinha dez ou doze pés de fundo. Contudo, depois de mais um ou dois mergulhos, passamos e chegamos salvos a Whitney.

Segunda-feira, 6 de fevereiro. Inaugurei a nova capela de Wapping.

Quinta-feira, 16. Fiz mais uma vez um passeio sério por entre os túmulos da abadia de Westminster. Que montes de pedra e mármore sem significado! Mas havia um túmulo que mostrava bom senso: aquela bela figura do senhor Nightingale, esforçando-se por proteger da morte a sua amada esposa. Aqui, de fato, o mármore parece falar, e só falta às estátuas estarem vivas.

Sexta-feira, 24. Voltei a Londres. Quarta-feira, 29: ouvi Judite, um oratório, executado no Lock. Algumas partes são belíssimas; mas há duas coisas em todas as peças modernas de música que nunca pude conciliar com o bom senso. Uma é cantar as mesmas palavras dez vezes seguidas; a outra, cantarem pessoas diferentes palavras diferentes ao mesmo tempo — e isso nas mais solenes invocações a Deus, seja em oração, seja em ação de graças. Isso jamais será defensável, por todos os músicos da Europa, enquanto a razão não sair de moda.

Wesley em Birmingham, Walsall e Derby

Quarta-feira, 21 de março. Tivemos congregação extraordinariamente grande em Birmingham, no que antes era o teatro. Feliz seria se todos os teatros do reino fossem convertidos a uso tão bom. Depois do culto a turba se ajuntou e atirou lama e pedras nos que saíam. Mas é provável que logo se aquietem, pois alguns já estão no cárcere. Uns poucos tentaram perturbar na noite seguinte, durante a pregação, mas foi trabalho perdido: a congregação não se deixou desviar de atender com fervor às coisas que eram ditas.

Sexta-feira, 23. Cavalguei a Dudley, outrora um covil de leões, agora quieta como Bristol. Tinham acabado de concluir a sua casa de pregação, que ficou completamente cheia. Não vi um só zombeteiro, mas muitos em lágrimas.

Segunda-feira, 26. Pediram-me que pregasse em Walsall. James Jones alarmou-se com a proposta, receando grande perturbação. Decidi, contudo, fazer a tentativa. Ao entrar na casa, encontrei um sinal de bem. Uma mulher contava à vizinha por que viera: “Eu tinha desejo de ouvir este homem”, disse ela, “mas não ousava, por ter ouvido tanto mal dele; esta manhã, porém, sonhei que estava orando com fervor, e ouvi uma voz que dizia: ‘Veja o oitavo versículo do primeiro capítulo de São João.’ Acordei, peguei a minha Bíblia e li: ‘Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz’ (Jo 1.8). Levantei-me e vim de todo o coração.”

Não comportando a casa o povo, comecei a pregar ao ar livre por volta das sete; e não se viu um opositor, não, nem um zombeteiro sequer. Todos os presentes estavam fervorosamente atentos. Como está mudada Walsall! Como Deus amansou as feras bravias — ou as acorrentou!

Terça-feira, 27. Cavalgamos a Derby. O senhor Dobinson julgou que seria melhor eu pregar na praça do mercado, pois parecia haver na cidade inclinação geral para ouvir-me, até entre as pessoas de posição. Ele o mencionara ao prefeito, que disse não recear a menor perturbação; e que, se algo houvesse, cuidaria de reprimi-lo. Uma multidão se juntou às cinco e esteve razoavelmente quieta até eu anunciar o meu texto. Então “as feras do povo” levantaram a voz, vociferando e gritando por todos os lados. Vendo impossível ser ouvido, retirei-me devagar. Um séquito inumerável me seguiu; mas só algumas pedrinhas foram atiradas, e ninguém se feriu. A maior parte da ralé seguiu até a casa do senhor D.; mas, ao que parece, sem malícia premeditada, pois ficaram parados feito estátuas por cerca de uma hora e depois se foram quietamente.

Sábado, 31 (Rotherham). Um episódio curioso ocorreu durante a pregação da manhã. Foi bom que só houvesse pessoas sérias presentes. Um jumento entrou gravemente pelo portão, aproximou-se da porta da casa, ergueu a cabeça e ficou imóvel, em postura de profunda atenção. Não poderia “o animal mudo repreender” (cf. 2Pe 2.16) a muitos que têm bem menos compostura e não muito mais entendimento?

“Não há lei para os metodistas”

Ao meio-dia preguei (sendo a sala pequena demais para o povo) num pátio, perto da ponte, em Doncaster. O vento era forte e extremamente cortante, e soprou o tempo todo contra o lado da minha cabeça. À tarde, mal cheguei a Epworth, fui tomado de forte inflamação na garganta; preguei mesmo assim, embora com alguma dificuldade; mas depois mal podia falar. Melhorando no dia seguinte, domingo, 1º de abril, preguei por volta da uma em Westwood Side e, pouco depois das quatro, na praça do mercado de Epworth, a numerosa congregação. No começo, de fato, poucos podiam ouvir; mas, quanto mais eu falava, mais a voz se fortalecia, até que, perto do fim, toda a dor e fraqueza se foram, e todos ouviam distintamente.

Segunda-feira, 2 de abril. Tive um dia de descanso. Terça, 3: preguei, por volta das nove, em Scotter, cidade seis ou sete milhas a leste de Epworth, onde uma chama repentina irrompeu, sendo muitos convencidos do pecado quase de uma vez, e muitos justificados. Mas havia muitos adversários, atiçados por um homem mau que lhes dizia: “Não há lei para os metodistas.” Daí seguiram-se tumultos contínuos; até que, passado algum tempo, um magistrado íntegro tomou a causa em mãos e lidou de tal modo com os desordeiros, e com quem os pusera em ação, que desde então têm estado mansos como cordeiros.

Quinta-feira, 5. Por volta das onze preguei em Elsham. As duas pessoas mais zelosas e ativas aqui são o administrador e o jardineiro de um cavalheiro, a quem o pároco persuadiu a despedi-los caso não abandonassem “este caminho”. Deu-lhes uma semana para pensar; ao fim da qual responderam com calma: “Senhor, preferimos que nos falte o pão aqui a que nos falte ‘uma gota de água’ na eternidade (cf. Lc 16.24).” Ele respondeu: “Então sigam a própria consciência, contanto que façam o meu serviço como antes.”

Sexta-feira, 6. Preguei em Ferry às nove da manhã e à noite; e, por volta do meio-dia, no salão de sir N. H., em Gainsborough. Quase no momento em que comecei a falar, um galo pôs-se a cantar sobre a minha cabeça; mas foi depressa desalojado, e a congregação inteira, ricos e pobres, ficou quieta e atenta.

Wesley derrubado do cavalo

Domingo, 8. Parti para Misterton, embora a estrada comum estivesse intransitável, toda debaixo d’água; mas achamos um desvio por onde cavalgar. Preguei às oito, e não vi um só ouvinte desatento. Na volta, a minha égua, arremetendo com violência por um portão, bateu com o meu calcanhar no mourão e num instante me deixou para trás, estendido de costas no chão. Ela ficou parada até que me levantei e montei de novo; nenhum de nós dois se machucou.

Terça-feira, 10. Amainando o vento, tomamos o barco em Barton, com dois brutos como poucas vezes vi. A sua blasfêmia e a sua obscenidade estúpida e grosseira excediam tudo o que já ouvi. Primeiro lhes falamos com brandura, sem efeito algum. Por fim fomos obrigados a repreendê-los com aspereza, e eles se mantiveram razoavelmente dentro dos limites até desembarcarmos em Hull. Preguei às cinco, duas horas antes do esperado; desse modo houve lugar razoável para a maior parte dos que vieram; e creio que não vieram em vão.

Segunda-feira, 16. Às seis comecei a pregar na rua, em Thirsk. A congregação era extraordinariamente grande. No momento exato em que anunciei o meu texto — “Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.26) —, um homem a cavalo, que parara para ver o que acontecia, mudou de cor e estremeceu. Provavelmente teria resolvido salvar a sua alma, não o tivesse arrastado dali o seu companheiro bêbado.

Wesley na Ilha Sagrada

Segunda-feira, 21 de maio. Despedi-me de Newcastle; e por volta do meio-dia preguei na praça do mercado de Morpeth. Alguns ouvintes estiveram um tanto zombeteiros no começo, mas a sua graça logo se estragou. À noite preguei no tribunal de Alnwick, onde descansei no dia seguinte. Quarta-feira, 23: cavalguei pelos areais até a Ilha Sagrada (Lindisfarne), outrora famosa sede de um bispo, hoje residência de umas poucas famílias pobres que vivem principalmente da pesca. A um lado do povoado estão as ruínas de uma catedral, com um mosteiro contíguo. Parece ter sido um edifício alto e elegante, estando a nave central quase inteira. Preguei no que foi um dia a praça do mercado, a quase todos os habitantes da ilha, e distribuí entre eles alguns livrinhos, pelos quais ficaram extraordinariamente gratos. À noite preguei em Berwick-upon-Tweed; na noite seguinte, em Dunbar; e na sexta, 25, por volta das dez, em Haddington, no pátio do corregedor D., a uma congregação muito elegante. Mas espero pouco fruto aqui, pois começamos pela ponta errada: a religião não deve descer dos maiores para os menores — ou o poder pareceria vir de homens (cf. 1Co 2.5).

À noite preguei em Musselburgh e, na seguinte, na colina de Calton, em Edimburgo. Sendo o tempo da Assembleia Geral, muitos ministros estavam ali. O vento era forte e cortante, e soprou para longe uns poucos delicados. Mas a maior parte da congregação não se mexeu até eu concluir.

Domingo, 27. Às sete preguei no pátio da Escola Superior, do outro lado da cidade. A manhã estava extremamente fria. À noite soprava um vendaval. Contudo, tendo marcado a colina de Calton, ali comecei, diante de imensa congregação. No início o vento incomodou um pouco, mas logo o esqueci. E o povo também, por hora e meia, na qual desobriguei plenamente a minha alma.

Wesley na Assembleia Geral

Segunda-feira, 28. Passei algumas horas na Assembleia Geral, composta de cerca de cento e cinquenta ministros. Surpreendeu-me ver: 1) que qualquer um era admitido, até rapazes de doze ou catorze anos; 2) que os principais oradores eram advogados, seis ou sete de um só lado; 3) que uma única questão ocupou o tempo todo — e, quando saí, parecia tão longe de conclusão como sempre, a saber: “Deve o senhor Lindsay ser transferido para a paróquia de Kilmarnock ou não?” O argumento a favor era: “Ele tem família grande, e aquele benefício vale o dobro do seu.” O argumento contra: “O povo está resolvido a não ouvi-lo, e deixará a igreja se ele for.” Se o ponto real em vista tivesse sido, como manda a sua própria lei, “o maior bem da Igreja”, o debate, em vez de tomar cinco horas, poderia ter-se resolvido em cinco minutos.

Na segunda e na terça falei individualmente com os membros da sociedade. Quinta-feira, 31: cavalguei a Dundee e, por volta das seis e meia, preguei à margem de um prado perto da cidade. Pobres e ricos compareceram. De fato, raramente se teme a falta de congregação na Escócia. Mas a desgraça é esta: eles sabem tudo; por isso, nada aprendem.

Em Inverness

Quinta-feira, 7 de junho. Cavalguei até a propriedade de sir Archibald Grant, a doze milhas contadas de Aberdeen. É surpreendente ver como a região no caminho melhorou, mesmo nestes três anos. De todos os lados, os pântanos ermos e agrestes estão lavrados e cobertos de trigo nascente. Todo o terreno perto da casa de sir Archibald, em particular, está tão bem cultivado como a maior parte da Inglaterra. Por volta das sete preguei. A igreja ficou bem cheia, apesar do aviso curto. Certamente esta é uma nação “pronta para ouvir e tardia para falar” (Tg 1.19) — embora não tardia para se irar.

Domingo, 10. Por volta das oito chegamos a Inverness. Não pude pregar ao ar livre por causa da chuva, nem soube de sala conveniente; temi, pois, que a minha vinda fosse em vão: todos os caminhos pareciam bloqueados. Às dez fui à igreja. Depois do culto, o senhor Fraser, um dos ministros, convidou-nos para jantar e depois para o chá. Enquanto tomávamos chá, perguntou a que horas eu gostaria de pregar. Disse eu: “Às cinco e meia.” A igreja alta encheu-se em pouquíssimo tempo, e raramente senti maior liberdade de espírito. O outro ministro veio depois à nossa estalagem e mostrou a mais cordial afeição. Fosse só por este dia, eu não teria lamentado cavalgar cem milhas.

Segunda-feira, 11. Um cavalheiro que mora a três milhas da cidade convidou-me à sua casa, assegurando que o ministro da sua paróquia teria prazer em que eu usasse a sua igreja; mas o tempo não permitiu, pois eu marcara estar em Aberdeen na quarta-feira. Tudo o que pude fazer foi pregar mais uma vez em Inverness. Penso que a igreja esteve mais cheia agora do que antes; e não pude deixar de observar o notável comportamento da congregação inteira depois do culto: nem homem, nem mulher, nem criança disse uma só palavra por toda a descida da rua principal. Na verdade, a seriedade do povo surpreende menos quando se considera que, por pelo menos cem anos, esta cidade teve uma sucessão de ministros piedosos como bem poucas na Grã-Bretanha.

Depois de Edimburgo, Glasgow e Aberdeen, penso que Inverness é a maior cidade que vi na Escócia. As ruas principais são largas e retas; as casas, na maioria velhas, mas nem muito más nem muito boas. Está situada numa região aprazível e fértil, e tem tudo o que é necessário para a vida e a piedade. O povo em geral fala um inglês notavelmente bom e é de trato amável e cortês.

Sermão e congregação por encomenda

Por volta das onze montamos. Enquanto jantávamos em Nairn, o estalajadeiro disse: “Senhor, os cavalheiros da cidade leram o livrinho que o senhor me deu no sábado e gostariam que lhes desse um sermão.” Consentindo eu, o sino foi tocado imediatamente, e a congregação depressa estava na igreja. Oh, que diferença entre o sul e o norte da Grã-Bretanha! Aqui todos ao menos gostam de ouvir a Palavra de Deus, e a ninguém passa pela cabeça dizer uma palavra descortês a quem se esforça por salvar-lhes a alma.

Na dúvida sobre se o senhor Grant já teria voltado, o senhor Kershaw passou em Grange Green, perto de Forres, enquanto eu seguia adiante. O senhor Grant logo me mandou voltar. Poucas vezes vi lugar mais agradável. A casa é um velho castelo sobre uma pequena colina, com vista deliciosa para os quatro lados; e o hospitaleiro dono nada deixou por fazer para torná-la ainda mais agradável. Mostrou-nos todos os seus melhoramentos, muito consideráveis em cada ramo da lavoura. Nos seus jardins, muitas coisas estavam mais adiantadas do que em Aberdeen, sim, ou em Newcastle. E como é que ninguém, além de um único fidalgo das Terras Altas, descobriu que temos na Grã-Bretanha uma árvore tão fácil de criar quanto um freixo, cuja madeira é de um vermelho tão fino quanto o mogno — o laburno? Desafio qualquer mogno a exceder as cadeiras que ele acaba de fazer dessa madeira.

Terça-feira, 12. Cavalgamos pelo aprazível e fértil condado de Moray até Elgin. Eu nunca suspeitara que houvesse região como esta a quase cento e cinquenta milhas além de Edimburgo — região que, segundo se supõe, tem em geral seis semanas mais de sol por ano do que qualquer parte da Grã-Bretanha.

Em Elgin estão as ruínas de uma nobre catedral, a maior que me lembro de ter visto no reino. Dali cavalgamos ao Spey, o rio mais rápido que já vi, depois do Reno. Embora a água não chegasse ao peito dos cavalos, mal podiam eles firmar os pés. Jantamos em Keith e seguimos para Strathbogie, muito melhorada pela manufatura do linho. Toda a região de Fochabers a Strathbogie tem casinhas espalhadas aqui e ali; e não só os vales, mas as próprias montanhas são cultivadas com o maior cuidado. Só lhes faltam mais árvores para serem mais aprazíveis que a maior parte das montanhas da Inglaterra. A família inteira da nossa estalagem, onze ou doze pessoas, uniu-se a nós de bom grado na oração da noite. E assim fizeram em todas as estalagens onde pousamos; pois, entre todos os pecados que importaram da Inglaterra, os escoceses ainda não aprenderam — ao menos o povo comum — a zombar das coisas sagradas.

Quarta-feira, 13. Chegamos a Aberdeen por volta da uma. Entre seis e sete, nesta noite e na seguinte, preguei no casco da casa nova, e foi tempo de muita consolação. Sexta, 15: partimos cedo e chegamos a Dundee no momento exato em que o barco largava. Planejávamos pousar na casa do outro lado, mas não conseguimos nem comida, nem bebida, nem boas palavras; fomos, pois, obrigados a cavalgar até Cupar. Depois de viajar quase noventa milhas, não senti cansaço algum, nem os nossos cavalos se ressentiram. Tu, SENHOR, salvas tanto os homens quanto os animais (Sl 36.6)!

Wesley e uma comunhão escocesa

Sábado, 16. Tivemos travessia pronta em Kinghorn e, à noite, preguei na colina de Calton a congregação muito grande; mas ainda maior foi a que se reuniu às sete da manhã de domingo no pátio da Escola Superior. Informado depois de que a ceia do Senhor seria administrada na igreja do oeste, não sabia o que fazer; por fim julguei melhor abraçar a oportunidade, embora não admirasse o modo da administração. Depois do culto matinal de costume, o ministro enumerou vários tipos de pecadores, aos quais proibiu de se aproximar. Duas mesas compridas foram postas dos lados de uma nave, cobertas de toalhas. De cada lado delas havia um banco para o povo. Cada mesa comportava trinta e quatro ou trinta e cinco pessoas.

Três ministros sentavam-se à cabeceira, atrás de uma mesa transversal; um deles fez longa exortação, encerrada com as palavras do nosso Senhor; e então, partindo o pão, deu-o aos que se sentavam a seu lado. Um pedaço de pão foi então dado ao primeiro de cada um dos quatro bancos. Ele partia um pedacinho e passava o pão ao seguinte; e assim ia, dando os diáconos mais quando faltava. Um cálice era então dado ao primeiro de cada banco, e assim de um a outro. O ministro continuava a exortação todo o tempo em que recebiam; então se cantavam quatro versos do Salmo 22, enquanto novas pessoas se sentavam às mesas. Um segundo ministro então orava, consagrava e exortava. Informaram-me que o culto costumava durar até as cinco da tarde. Quanto mais simples — e mais solene — é o culto da Igreja da Inglaterra!

A congregação da noite, na colina, foi de longe a maior que vi no reino, e a mais profundamente tocada. Muitos estavam em lágrimas; mais pareciam feridos no coração. Certamente este tempo não será esquecido tão cedo. Não aparecerá ele nos anais da eternidade?

Gostos e desgostos de Wesley

Segunda-feira, 2 de julho. Dei audiência imparcial a dois dos nossos irmãos que haviam falido. A esses excluímos imediatamente da nossa sociedade, a menos que fique claro que a culpa não foi deles. Ambos iam prosperando até caírem naquele desgraçado comércio de corretagem de letras, no qual ninguém permanece muito tempo sem arruinar-se por completo. Por esse meio, não sendo suficientemente exatos nas suas contas, foram retrocedendo sem o perceber. Ficou claro, porém, que I. R. é homem honesto; quero esperar o mesmo do outro.

Terça-feira, 3 (Leeds). Refleti sobre uma circunstância curiosa, que não sei explicar. Nunca saboreio uma melodia à primeira audição — só quando quase aprendi a cantá-la; e, à medida que a aprendo mais perfeitamente, vou perdendo aos poucos o gosto por ela. Observo algo semelhante na poesia, sim, em todos os objetos da imaginação. Raramente me agradam versos à primeira audição; antes de ouvi-los repetidas vezes, não me dão prazer; e não me dão quase nenhum depois que os ouvi mais algumas vezes, tornando-se de todo familiares. Assim também um rosto ou um quadro que não me toca à primeira vista torna-se mais agradável à medida que me familiarizo com ele — mas só até certo ponto; pois, familiarizado demais, deixa de agradar. Oh, quão imperfeitamente entendemos até a máquina que carregamos conosco!

Quinta-feira, 5. Tive o consolo de deixar os nossos irmãos de Leeds unidos em paz e amor. Por volta da uma preguei num prado em Wakefield. No começo o sol incomodava, mas em poucos minutos o incômodo foi removido pelas nuvens que se interpuseram. Tivemos congregação não só maior, mas bem mais atenta do que qualquer outra já vista ali. Um, porém — uma espécie de cavalheiro —, retirava-se com grande indiferença quando eu disse em alta voz: “E Gálio não se importa com nenhuma destas coisas (cf. At 18.17)? Mas para onde irá o senhor, com a ira de Deus sobre a cabeça e a maldição de Deus às costas?” Ele parou de chofre, ficou imóvel e não foi adiante até o fim do sermão.

Sábado, 14. À noite preguei em Liverpool; e no dia seguinte, domingo, 15, a casa ficou bem cheia. Muitos ricos e elegantes estavam ali, e se portaram com decoro. De fato, sempre observei mais cortesia e humanidade em Liverpool do que na maior parte dos portos da Inglaterra.

“Eu rio com graça”, pensou ela

Segunda-feira, 16. À noite a casa estava, se possível, mais cheia que na véspera. Preguei sobre a “única coisa necessária” (cf. Lc 10.42); e os ricos portaram-se tão seriamente quanto os pobres. Só uma jovem senhora (ouvi dizer) riu muito. Pobrezinha! Sem dúvida pensava: “Eu rio com graça.”

Sexta-feira, 20. Ao meio-dia recorremos em Congleton ao mesmo expediente da minha última visita: fiquei à janela, tendo acomodado dentro da casa quantas mulheres coubessem. As demais, com os homens, ficaram embaixo, no prado; muitos homens da cidade estavam bastante bravios. Raramente senti tamanha largueza de coração desde que saí de Newcastle. Os brutos resistiram longamente, mas por fim foram vencidos — não mais que cinco ou seis excetuados. Certamente o homem não terá por muito tempo a vantagem: Deus obterá para si a vitória.

Choveu o dia inteiro até as sete da noite, quando comecei a pregar em Burslem. Até os pobres oleiros daqui são povo mais civilizado que a “gente melhor” (assim chamada) de Congleton. Uns poucos ficaram de chapéu na cabeça; mas ninguém disse palavra nem ensaiou a menor perturbação.

Sábado, 21. Cavalguei a Bilbrook, perto de Wolverhampton, e preguei entre duas e três. Dali seguimos para Madeley, aldeia extremamente aprazível, cercada de árvores e colinas. Foi grande consolo conversar mais uma vez com um metodista da velha cepa: negando-se a si mesmo, tomando a sua cruz e resolvido a ser “cristão por inteiro”.

Domingo, 22. Às dez o senhor Fletcher leu as orações, e eu preguei sobre as palavras do evangelho: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11). A igreja não comportava nem de longe a congregação; mas, retirada uma janela perto do púlpito, os que não puderam entrar ficaram no adro, e creio que todos puderam ouvir. A congregação, diziam, costumava ser bem menor à tarde do que de manhã; mas não pude discernir a menor diferença, nem em número nem em seriedade.

Achei ocupação de sobra para as horas intermediárias, orando com os vários grupos que rondavam a casa, insaciavelmente famintos e sedentos da boa Palavra.

Um dia exaustivo

Quarta-feira, 25. Montei pouco depois das quatro e, por volta das duas, preguei na praça do mercado de Llanidloes, a quarenta e duas ou três milhas de Shrewsbury. Às três seguimos a cavalo, pelas montanhas, rumo à Cabeceira da Fonte. Eu queria pernoitar ali; mas, estando o senhor B. de todo contrário, montamos de novo por volta das sete. Depois de cavalgar uma hora, vimos que estávamos totalmente fora do caminho, mal orientados na partida. Disseram-nos então que cavalgássemos por uns terrenos; mas a nossa trilha logo terminou à beira de um brejo. Contudo, chegamos a uma casinha onde um homem honesto, montando no mesmo instante o seu cavalo, galopou à nossa frente, morro acima e morro abaixo, até nos pôr numa estrada que, disse ele, levava direto a Roes Fair.

Cavalgamos até que outro nos encontrou e disse: “Não; este é o caminho de Aberystwyth. Para Roes Fair, têm de voltar e descer até aquela ponte.” O dono da casinha junto à ponte indicou-nos então a aldeia seguinte, onde perguntamos de novo (já passava das nove) — e mais uma vez nos puseram exatamente no rumo errado. Tendo vagado uma hora pelas montanhas, entre rochas, brejos e precipícios, conseguimos, com muitíssima dificuldade, voltar à casinha da ponte. Era inútil pensar em descansar ali: estava cheia de mineiros bêbados e vociferantes; além do que, só havia uma cama na casa, e não se achava nem capim, nem feno, nem milho. Contratamos, pois, um deles para ir a pé conosco até Roes Fair — embora miseravelmente bêbado, até que, caindo de comprido num regato, recobrou razoavelmente os sentidos. Entre onze e meia-noite chegamos à estalagem; mas nem ali conseguimos feno.

Estando nós na cama, o bom cavalariço e o mineiro acharam por bem montar os nossos animais. Creio que só pouco antes de nos levantarmos os puseram na estrebaria. Mas a mula estava cortada em vários lugares, e a minha égua sangrava como um porco, de um ferimento atrás, de duas polegadas de fundo, feito, ao que parecia, por um golpe de forcado. Não sabíamos o que fazer, até que me lembrei de que trazia uma carta para certo senhor Nathaniel Williams que, indagando, descobri morar a apenas uma milha. Caminhamos até lá e encontramos “um verdadeiro israelita” (cf. Jo 1.47), que acolheu com alegria tanto os homens quanto os animais.

Depois que descansei um pouco, o senhor Williams pediu-me que fizesse uma exortação a alguns dos seus vizinhos. Ninguém ficou mais tocado do que uma pessoa da sua própria família, que antes não se importava com nenhuma destas coisas. Depois do jantar, mandou um criado conosco até Tregaron, de onde tivemos estrada plana até Lampeter.

Sexta-feira, 27. Cavalgamos por um vale encantador e por colinas aprazíveis e férteis até Carmarthen. Dali, após breve parada, seguimos para Pembroke, aonde cheguei antes de ser esperado; descansei, pois, aquela noite, ainda não de todo refeito da jornada de Shrewsbury a Roes Fair.

Domingo, 29. O ministro de St. Mary mandou dizer-me que estava muito disposto a que eu pregasse na sua igreja; mas, antes que o culto começasse, o prefeito mandou proibi-lo; e ele mesmo pregou um sermão muito proveitoso. O comportamento do prefeito desgostou de tal modo muitos dos fidalgos que resolveram ouvir onde pudessem; e, com efeito, afluíram à noite de todas as partes da cidade. Talvez tomar sobre si essa cruz lhes aproveite mais do que o meu sermão na igreja teria aproveitado.

Sete horas a cavalo

Segunda-feira, 30. Cavalguei a Haverfordwest; mas nenhum aviso fora dado, nem alguém na cidade sabia da minha vinda. Contudo, pouco depois, subi na direção do castelo e comecei a cantar um hino. O povo logo acorreu de todos os cantos. Curiosidade ao menos eles têm; e alguns, não posso duvidar, foram movidos por princípio mais nobre. Houvesse aqui obreiros zelosos e ativos, que colheita não haveria, mesmo neste canto da terra! Voltamos debaixo de chuva pesada a Pembroke.

Terça-feira, 31. Partimos para Glamorganshire e cavalgamos, subindo e descendo montanhas íngremes e pedregosas, por cerca de cinco horas, até Larn. Obtida ali passagem razoavelmente pronta, seguimos para a balsa de Llansteffan, onde corremos algum perigo de ser tragados pela lama antes de alcançar a água. Entre uma e duas chegamos a Kidwelly, depois de mais de sete horas a cavalo — tempo em que poderíamos ter dado a volta por Carmarthen com mais conforto para homens e animais.

Despedi-me, portanto, dessas balsas: considerando que não poupamos tempo algum ao cruzá-las (nem mesmo quando a passagem está pronta), todo o transtorno, o perigo e a despesa são lucro líquido. Admira-me que qualquer homem de bom senso, feita uma vez a experiência, ainda vá de Pembroke a Swansea por outro caminho que não o de Carmarthen.

De Pembroke a Swansea

Um homem honesto de Kidwelly disse-nos que não havia dificuldade alguma em cavalgar pelos areais; e seguimos. Em dez minutos alcançou-nos alguém que costumava guiar viajantes por eles; e foi bom que o fizesse, pois do contrário, com toda a probabilidade, teríamos sido tragados. Os areais inteiros têm pelo menos dez milhas de extensão, entremeados de muitas correntes de areia movediça. Mas o nosso guia os conhecia a fundo, e também a estrada do outro lado. Com a sua ajuda, entre cinco e seis, chegamos, bem cansados, a Oxwich, em Gower.

Eu enviara duas pessoas no domingo, para que estivessem lá cedo na segunda e espalhassem por toda a região o aviso da minha vinda; mas chegaram a Oxwich apenas um quarto de hora antes de mim. O pobre povo, pois, não teve aviso nenhum, nem havia quem nos hospedasse: a pessoa com quem o pregador costumava pousar estava a três milhas dali. Depois de esperar um tempo na rua (pois não havia estalagem), uma pobre mulher me deu abrigo. Sem nada comer desde o desjejum, eu estava bem disposto a comer ou beber; mas ela me disse com simplicidade que não havia em casa nada além de um gole de gim. Consegui depois uma xícara de chá em outra casa, e fiquei bem restaurado. Por volta das sete preguei a uma pequena companhia, e de novo pela manhã. Foram todos ouvidos e atenção, de modo que, mesmo por este punhado de gente, não lamentei o trabalho.

Domingo, 4 de novembro. Propus aos líderes socorrer a Sociedade para a Reforma dos Costumes na sua pesada dívida. Um deles perguntou: “Não deveríamos pagar primeiro a nossa própria dívida?” Depois de algumas consultas, concordou-se em tentá-lo. A dívida geral da sociedade em Londres, ocasionada principalmente pelos reparos da Fundição e das capelas e pelas obras de Wapping e Snowsfields, era de cerca de novecentas libras. Apresentei-a à sociedade à noite e pedi a todos que pusessem os ombros à obra, seja por contribuição imediata, seja subscrevendo o que pudessem pagar no primeiro de janeiro, fevereiro ou março.

Segunda-feira, 5 (Londres). Os retalhos de tempo desta semana empreguei em pôr por escrito os meus pensamentos atuais sobre a vida solteira — que são, de fato, exatamente os mesmos destes trinta anos; e os mesmos hão de ser, a menos que eu abra mão da minha Bíblia.

A experiência de Wesley com os leões

Segunda-feira, 31 de dezembro. Pareceu-me valer a pena fazer uma experiência curiosa. Lembrando-me de quão surpreendentemente afeiçoado à música era o leão de Edimburgo, resolvi verificar se isso se dá com todos os animais da mesma espécie. Fui, pois, à Torre de Londres com alguém que toca flauta alemã. Ele começou a tocar perto de quatro ou cinco leões; um só destes (os demais não deram atenção nenhuma) levantou-se, veio à frente da sua jaula e pareceu todo ouvidos. Nesse meio-tempo, um tigre na mesma jaula pôs-se de pé num salto, pulou por cima do dorso do leão, virou-se e correu por baixo do seu ventre, pulou de novo por cima dele, e assim para lá e para cá, incessantemente. Podemos explicar isso por algum princípio de mecanismo? Podemos explicá-lo de algum modo?

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

Ver todos os capítulos