DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 14
Justiça para os metodistas; o caráter metodista; instruções aos pais; Maria, rainha da Escócia
A vitória judicial que pôs fim aos tumultos de Stallbridge, vinte mil ouvintes no anfiteatro de Gwennap, a defesa do “Caráter de um metodista”, conselhos francos aos pais — e a surpreendente defesa de Maria, rainha da Escócia.
“Certamente Deus está sitiando esta nação e a atacando por todas as entradas!”
(Diário, 30 de novembro de 1768)Antes de ler
Este capítulo (1765–1768) registra uma virada histórica: os metodistas aprendem a usar a lei. Em Stallbridge, anos de janelas quebradas, ovos podres e espancamentos não encontraram um só magistrado disposto a fazer justiça — até que Wesley levou a causa ao tribunal do King’s Bench e venceu. “Desde que descobriram que há lei para os metodistas, têm-nos deixado em paz.” Nem revide, nem passividade: o cristão pode e deve recorrer aos meios legítimos que o Estado oferece (Rm 13.1-4; At 25.11), buscando sempre, primeiro, “a paz por meios amigáveis”.
Está aqui também a defesa do famoso opúsculo O caráter de um metodista, atacado pelo doutor Dodd. A resposta de Wesley é uma aula de precisão: o retrato que ele desenhou é o do cristão bíblico, o alvo a perseguir — e ele próprio escreveu na página de rosto: “Não que eu já tenha alcançado ou que já seja perfeito” (Fp 3.12). Santidade como expectativa e busca, humildade quanto ao já alcançado: este é o equilíbrio wesleyano, que os caricaturistas de ontem e de hoje insistem em não ver.
Em Manchester, Wesley “trouxe coisas estranhas aos ouvidos de muitos” sobre o governo do lar e a educação dos filhos — e ouviu a objeção de sempre: “Ele não tem filhos!” A resposta é certeira: nem Paulo os tinha, e nem por isso estava inabilitado a instruir quem tem alma para salvar. Filho da notável Susana Wesley (capítulo 4), ele sabia que a fé se transmite também pela ordem amorosa da casa: “Repita estas palavras a seus filhos” (Dt 6.6-7; Ef 6.4).
Note-se, por fim, o Wesley leitor e julgador criterioso: o que exige provas documentais antes de condenar Maria, rainha da Escócia, contra dois séculos de versão oficial — “o primeiro a apresentar a sua causa parece ter razão, até que venha o outro e o examine” (Pv 18.17); o que registra a aparição relatada pelo sacristão de Glasgow “deixando a cada um formar o seu juízo”; e o que, aos sessenta e três anos, agradece a Deus uma saúde igual à dos vinte e cinco, “apenas com menos dentes e mais cabelos brancos”. No pano de fundo, a graça avança pelos portos: “Deus está sitiando esta nação.”
— Bispo Ildo Mello
1765. Terça-feira, 1º de janeiro. Nesta semana escrevi resposta a uma carta acalorada, publicada no London Magazine, cujo autor está muito desgostoso de que eu ouse duvidar da astronomia moderna. Não posso evitá-lo. Antes, quanto mais considero, mais crescem as minhas dúvidas; de modo que, no presente, duvido que homem algum na terra conheça a distância ou a grandeza, não digo de uma estrela fixa, mas de Saturno ou de Júpiter — sim, do sol ou da lua.
Domingo, 20. Empreguei todas as horas vagas desta semana em rever as minhas cartas e papéis. Grande quantidade deles entreguei às chamas. Talvez alguns dos restantes vejam a luz quando eu me for.
Desjejum com Whitefield
Segunda-feira, 21 de outubro. Fui de coche de Bristol a Salisbury e, na quinta, 24, cheguei a Londres.
Segunda-feira, 28. Tomei o desjejum com o senhor Whitefield, que me pareceu um homem muito, muito velho, inteiramente gasto no serviço do seu Mestre, embora mal tenha visto cinquenta anos; e, contudo, apraz a Deus que eu, já no meu sexagésimo terceiro ano, não sinta enfermidade, nem fraqueza, nem decadência, nem diferença alguma do que era aos vinte e cinco — apenas tenho menos dentes e mais cabelos brancos.
Domingo, 24 de novembro. Preguei sobre aquelas palavras da leitura do dia: “O SENHOR é a nossa justiça” (Jr 23.6). Não disse uma só coisa que eu não tivesse dito ao menos cinquenta vezes nos últimos doze meses. Contudo, pareceu a muitos inteiramente nova, e muito me instaram a imprimir o sermão, supondo que ele calaria a boca de todos os contraditores. Ai da sua ingenuidade! Apesar de tudo o que eu possa imprimir, dizer ou fazer, não acharão ocasião de ofensa os que a procuram?
Terça-feira, 3 de dezembro. Cavalguei a Dover e encontrei uma pequena companhia mais unida do que esteve por muitos anos. Enquanto vários deles continuavam roubando o rei, parecíamos arar na areia; mas, desde que cortaram a mão direita (cf. Mt 5.30), a Palavra de Deus penetra fundo nos seus corações.
Quinta-feira, 5. Voltei a cavalo a Feversham. Aqui logo me informaram que a turba e os magistrados haviam combinado expulsar da cidade o metodismo, assim chamado. Depois da pregação, contei-lhes o que fôramos obrigados a fazer com o magistrado de Rolvenden — que talvez estivesse mais rico algumas centenas de libras se nunca se tivesse metido com os metodistas; e concluí: “Visto que temos do nosso lado tanto a Deus quanto a lei, se pudermos ter paz por meios amigáveis, muito o preferimos, e ficaremos extremamente contentes; mas, se não, teremos paz assim mesmo.”
Quarta-feira, 18. Atravessando o Borough, as patas da minha égua escorregaram todas de uma vez, e ela caiu com a minha perna debaixo dela. Um cavalheiro, saindo da sua loja, ergueu-me e me ajudou a entrar. Eu estava extremamente enjoado, mas logo fui aliviado com um pouco de sal amoníaco com água. Depois de descansar alguns minutos, tomei um coche; mas, quando esfriei, senti-me bem pior, contundido no braço direito, no peito, no joelho, na perna e no tornozelo, que inchou muito. Contudo, segui para Shoreham onde, aplicando melaço duas vezes ao dia, toda a dor se removeu, e recobrei forças a ponto de poder andar um pouco em terreno plano. A Palavra de Deus enfim dá fruto também aqui, e o senhor P. está consolado de toda a sua tribulação. Sábado, 21: ainda sem poder montar, voltei de carruagem a Londres.
Domingo, 22. Mal pude conduzir o culto em West Street; mas Deus proveu também para isto: o senhor Greaves, recém-ordenado, veio direto à capela e me deu a ajuda de que eu precisava.
Quinta-feira, 26. Eu bem gostaria de alguns dias de descanso, mas não era possível nesta estação atarefada. Contudo, recebendo eletricidade de manhã e à noite, a minha claudicação foi melhorando, ainda que devagar.
1766. Sexta-feira, 31 de janeiro. O senhor Whitefield veio visitar-me. Ele não respira senão paz e amor. O sectarismo não subsiste diante dele: esconde a cabeça onde quer que ele chegue.
Duas obras bem diferentes
Quarta-feira, 5 de fevereiro (Londres). Procurou-me um homem que fora defraudado de grande fortuna e agora perecia por falta de pão. Tive o desejo de vesti-lo e mandá-lo de volta ao seu país, mas estava sem dinheiro. Pedi-lhe, contudo, que voltasse dali a uma hora. Assim fez; mas, antes que viesse, alguém de quem eu esperava tudo menos isso pôs-me nas mãos vinte guinéus; de modo que mandei vesti-lo da cabeça aos pés e o despachei direto para Dublin.
Segunda-feira, 7 de abril. Preguei em Warrington, por volta do meio-dia, a uma grande congregação: ricos e pobres, letrados e iletrados. Nunca falei com mais clareza, nem jamais vi congregação ouvir com mais atenção. Dali cavalguei a Liverpool e regulei a fundo a sociedade, que bem o precisava. Quarta, 9: esforcei-me muito com uma mulher sensata que dera vários passos imprudentes. Mas foi trabalho perdido: nem argumento nem persuasão fizeram a menor impressão. Oh, que poder menos que todo-poderoso pode convencer um fanático consumado!
Quinta-feira, 10. Examinei a espantosa escritura que recentemente fizeram aqui, sobre a qual observei: 1) ocupa três grandes peles de pergaminho, e assim não pode ter custado menos de seis guinéus, quando a nossa escritura padrão, transcrita por um amigo, não teria custado seis xelins; 2) é verbosa além de todo senso e razão, e ademais tão ambiguamente redigida que uma única passagem bastaria para alimentar um processo de dez ou doze anos na Chancelaria; 3) chama por toda parte a casa de “casa de reunião”, nome a que particularmente objeto; 4) não deixa ao assistente, nem a mim, poder sequer para nomear ou destituir um ecônomo; 5) nem eu, nem toda a Conferência, temos poder para enviar o mesmo pregador dois anos seguidos. E, para coroar tudo, 6) se um pregador não for designado na Conferência, os curadores e a congregação hão de escolher um, por maioria de votos! Pode alguém admirar-se de que eu desaprove esta escritura, que arranca pela raiz a disciplina metodista?
Não é estranho que alguém com o mínimo apreço por mim, ou pela nossa disciplina, tenha escrúpulo em alterar tão desajeitada escritura?
Wesley coberto de lama
Terça-feira, 24 de junho. Antes das oito chegamos a Dumfries e, após breve parada, avançamos na esperança de alcançar o estuário de Solway antes que o mar subisse. Querendo parar numa estalagem à beira do estuário, perguntamos o caminho, e nos mandaram deixar a estrada principal e ir direto à casa que víamos adiante. Em dez minutos, Duncan Wright estava atolado; o cavalo, porém, debateu-se e passou. Inclinei-me a voltar; mas, dizendo-me Duncan que bastava ir um pouco à esquerda, assim fiz — e afundei de uma vez até as espáduas do cavalo. Ele saltou duas vezes, e duas vezes tornou a afundar, cada vez mais fundo. No terceiro impulso lançou-me para um lado, e ambos demos um jeito de nos arrastar para fora. Fiquei coberto de lama fina e mole, dos pés ao alto da cabeça; mas, bendito seja Deus, sem ferimento algum. Só pudemos cruzar entre sete e oito horas. Um homem honesto atravessou conosco, desviando-se duas milhas do seu caminho para nos guiar pelos areais até Skinburness, onde achamos uma casinha limpa e passamos uma noite confortável.
Sábado, 19 de julho. Contemplei a colegiada de Beverley, uma igreja paroquial que dificilmente tem igual na Inglaterra. É um edifício tão belo quanto majestoso, por dentro e por fora, e conservado com um asseio maior do que qualquer catedral que já vi no reino. Mas onde estará ela quando a terra se queimar e os elementos se derreterem pelo fogo (cf. 2Pe 3.10)? Por volta da uma preguei em Pocklington (embora com as forças muito exaustas) e, à noite, em York.
Domingo, 27. Como a igreja de Baildon não comportava nem de longe a congregação, terminadas as orações saí para o adro, de manhã e à tarde. O vento era extremamente forte e soprou no meu rosto o tempo todo; creio, porém, que todo o povo pôde ouvir. Em Bradford a multidão era tão imensa, e a chuva abafou de tal modo a minha voz, que muitos nas bordas da congregação não ouviam distintamente. Acabaram de construir ali uma casa de pregação de cinquenta e quatro pés em quadro, o maior octógono que temos na Inglaterra; e é a primeira do gênero em que o telhado foi construído com bom senso, elevando-se apenas um terço da largura; e, contudo, é tão firme quanto qualquer outro da Inglaterra, nem faz dano algum às paredes. Por que, então, há telhados mais altos? Só por falta de perícia, ou de honestidade, do construtor.
Terça-feira, 29. À noite preguei perto da casa de pregação de Paddiham e insisti fortemente na comunhão com Deus como a única religião que nos vale. No fim do sermão chegou o senhor M. A sua longa barba branca mostrava que o seu presente transtorno já durava algum tempo. Em todos os demais aspectos estava perfeitamente lúcido; mas disse-me, com muita preocupação: “O senhor não pode ter lugar no céu sem barba! Portanto, eu lhe rogo: deixe a sua crescer imediatamente.”
Wesley obtém justiça para os metodistas
Sábado, 30 de agosto. Cavalgamos a Stallbridge, por longo tempo praça de guerra: uma turba insensata e insolente, animada pelos seus “superiores” (assim chamados), ultrajava os seus vizinhos pacíficos. Por quê? Ora: eram loucos — eram metodistas. Assim, para trazê-los à razão, quebravam-lhes a cabeça. Quebraram-lhes as janelas, sem deixar uma vidraça inteira; estragaram-lhes os bens e agrediram as suas pessoas com lama, ovos podres e pedras, sempre que apareciam na rua. E nenhum magistrado, embora tenham recorrido a vários, quis mostrar-lhes misericórdia nem justiça. Por fim me escreveram. Ordenei a um advogado que escrevesse aos desordeiros. Assim fez, mas eles o desprezaram. Movemos então o tribunal do King’s Bench. Por vários artifícios, conseguiram adiar o julgamento, de uma sessão para outra, por dezoito meses. Mas tanto mais pesado lhes caiu quando foram considerados culpados; e, desde então, descobrindo que há lei para os metodistas, têm-nos deixado em paz.
Preguei perto da rua principal, sem a menor perturbação, a uma congregação grande e atenta. Dali cavalgamos a Axminster, mas chegamos inteiramente molhados. A chuva me obrigou a pregar dentro de casa às seis; mas às sete da manhã de domingo clamei na praça do mercado: “O Reino de Deus está próximo; arrependam-se e creiam no evangelho” (Mc 1.15).
À noite preguei na rua, em Ashburton. Muitos se portaram com decoro; os demais, com uma grosseria tão estúpida como há muito não vejo em parte alguma da Inglaterra.
Segunda-feira, 1º de setembro. Cheguei a Plymouth Dock onde, depois de pesadas tempestades, há agora calmaria. A casa, apesar das novas galerias, ficou extremamente apinhada à noite. Exortei com força os desviados a voltar a Deus; e creio que muitos receberam “a palavra de exortação”.
Terça-feira, 7. Convidado a pregar no Tabernáculo de Plymouth, comecei por volta das duas da tarde. À noite ofereceram-me o salão do senhor Whitefield, no Dock; mas, grande como é, não comportou a congregação. No fim do sermão, uma grande pedra foi atirada por uma das janelas; passou rente atrás de mim e caiu aos meus pés — o melhor lugar que poderia ter achado. Assim ninguém se feriu nem se assustou, e poucos souberam do ocorrido.
O famoso anfiteatro de Gwennap
Domingo, 7. Às oito preguei em Mousehole, grande aldeia a sudoeste de Newlyn. Dali fui à igreja de Buryan e, encerrado o culto, preguei perto do adro a numerosa congregação. Logo que comecei, vi diante de mim um cavalheiro sacudindo o chicote e esforçando-se com veemência por dizer alguma coisa. Mas estava exaltado demais para dizer qualquer coisa inteligível. Assim, depois de andar de um lado para outro, sabiamente montou e foi embora.
Sexta-feira, 12. Cavalguei a St. Hilary e à noite preguei perto da casa nova sobre “Desperte, você que dorme” (Ef 5.14). Voltando à pousada, já no escuro, o meu cavalo estava a ponto de pisar num poço de mina de estanho quando um homem honesto o agarrou pela rédea e lhe virou a cabeça para o outro lado.
Domingo, 14. Preguei em St. Agnes às oito. A congregação de Redruth, à uma, foi a maior que eu já vira ali; pequena, porém, comparada à que se reuniu às cinco no anfiteatro natural de Gwennap — de longe o mais belo que conheço no reino. É uma concavidade redonda e verde, descendo em declive suave, com uns cinquenta pés de profundidade; mas suponho que tem duzentos de largura num sentido e perto de trezentos no outro. Creio que havia ali vinte mil pessoas completas; e, estando a tarde calma, todos puderam ouvir.
Segunda-feira, 15. Preguei em Cubert e, na manhã seguinte, cavalguei a St. Columb. Pedindo-me que quebrasse o gelo aqui, comecei a pregar, sem demora, no pátio de um cavalheiro, contíguo à rua principal. Escolhi-o por não ser nem público demais, nem privado demais. Temo que a maior parte do auditório tenha entendido bem pouco do que ouviu. Portaram-se, contudo, com seriedade e boas maneiras.
Dali cavalguei a Port Isaac, hoje um dos lugares mais vivos da Cornualha. Estando o tempo incerto, preguei perto da casa. Mas não houve chuva enquanto preguei — exceto a chuva de graça que Deus enviou sobre a sua herança (cf. Sl 68.9).
Aqui me encontrou o senhor Buckingham que, por medo de ofender o bispo, rompera todo trato com os metodistas. Mal o fez, o bispo o recompensou destituindo-o da sua coadjutoria; tivesse continuado a andar em simplicidade cristã, provavelmente a teria até hoje.
Quarta-feira, 17. Duas vezes estanquei um sangramento violento de um corte aplicando uma folha de sarça. O salão de Launceston não comportou nem de longe a congregação da noite, à qual apliquei com força o caso do enfermo do tanque de Betesda (Jo 5.1-9). Muitos ficaram muito tocados; mas, oh, quão poucos estão dispostos a ficar sãos!
Wesley e a vida no campo
Segunda-feira, 3 de novembro. Cavalguei de Londres a Brentford, onde tudo estava quieto, tanto na congregação quanto na sociedade. Terça, 4: preguei em Brentford, Battersea, Deptford e Welling, e examinei as respectivas sociedades. Quarta, 5: cavalguei por Shoreham até Sevenoaks. Nas pequenas jornadas que ultimamente tenho feito, pensei muito nos imensos elogios que por tantas eras se têm feito à vida do campo. Como clamou todo o mundo letrado:
“Ó lavradores, felizes demais, se conhecessem a própria sorte!” (Virgílio)
Mas, afinal, que flagrante contradição com a experiência universal! Veja aquela casinha, sob o bosque, à beira do rio! Ali está a vida rural em perfeição. Quão feliz é, então, o lavrador que ali mora? Façamos o inventário da sua felicidade. Ele se levanta com o sol, ou antes dele; chama os criados, cuida dos porcos e das vacas, depois das estrebarias e dos celeiros. Supervisiona a lavra e a semeadura, no inverno ou na primavera. No verão e no outono, corre e sua entre os seus ceifeiros e segadores. E onde está, nesse meio-tempo, a sua felicidade? Qual desses trabalhos invejamos? Ou invejamos a refeição delicada que se segue, pela qual o poeta tanto suspira — “Oh, a felicidade de comer favas bem untadas de toicinho gordo! E couve também!”? Estaria Horácio em seu juízo quando falou assim — ou o rebanho servil dos seus imitadores? Os nossos olhos e ouvidos podem convencer-nos de que não há na Inglaterra corpo de homens menos feliz que os lavradores. Em geral, a sua vida é supremamente enfadonha, e costuma também ser infeliz. Pois, de todo o povo do reino, são eles os mais descontentes, raramente satisfeitos seja com Deus, seja com os homens.
Wesley e o “Caráter de um metodista”
1767. Quinta-feira, 5 de março. Por fim dei ao doutor Dodd a satisfação de entrar em liça com ele. A carta que escrevi (embora só publicada duas ou três semanas depois) foi a seguinte:
“Ao editor do Lloyd’s Evening Post. Senhor: muitas vezes o editor do Christian Magazine me tem atacado, sem temor nem espírito; e com isso convenceu os seus leitores imparciais de uma coisa ao menos — de que (como diz o vulgo) os seus dedos coçam por me alcançar; de que tem apaixonado desejo de medir espadas comigo. Mas tenho outro trabalho nas mãos: posso empregar o breve resto da minha vida para melhor propósito.
“A ocasião do seu último ataque é esta: trinta e cinco ou trinta e seis anos atrás, admirei muito o caráter do cristão perfeito traçado por Clemente de Alexandria. Vinte e cinco ou vinte e seis anos atrás, veio-me a ideia de traçar eu mesmo tal caráter, só que de maneira mais bíblica, e principalmente com as próprias palavras da Escritura; a isto dei o título de O caráter de um metodista, crendo que a curiosidade levaria mais pessoas a lê-lo, e que assim algum preconceito poderia ser removido dos homens de boa-fé. Mas, para que ninguém imaginasse que eu pretendia um panegírico de mim mesmo ou dos meus amigos, precavi-me na própria página de rosto, dizendo, em meu nome e no deles: ‘Não que eu já tenha alcançado ou que já seja perfeito’ (Fp 3.12). No mesmo sentido falo na conclusão: ‘Estes são os princípios e as práticas da nossa gente; estas são as marcas de um verdadeiro metodista’ — isto é, de um verdadeiro cristão, como imediatamente me explico: ‘por estas somente desejam os que por zombaria assim são chamados distinguir-se dos outros homens.’”
“Sobre isto, Rusticulus — ou o doutor Dodd — diz: ‘Um metodista, segundo o senhor Wesley, é alguém perfeito, que não peca em pensamento, palavra ou obra.’ Senhor, queira desculpar-me: isto não é ‘segundo o senhor Wesley’. Eu disse a todo o mundo que não sou perfeito; e, contudo, o senhor me concede ser metodista. Digo-lhe redondamente: não alcancei o caráter que desenho. Vai o senhor pregá-lo em mim à força?
“‘Mas o senhor Wesley diz que os outros metodistas o alcançaram.’ Não digo tal coisa. O que digo, depois de dar o retrato bíblico de um cristão perfeito, é isto: ‘Por estas marcas desejam os metodistas distinguir-se dos outros homens; por estas trabalhamos por nos distinguir.’ E não deseja o senhor mesmo, e não trabalha, exatamente pela mesma coisa? Mas o senhor insiste: ‘O senhor Wesley afirma que os metodistas (isto é, todos os metodistas) são perfeitamente santos e justos.’ Onde afirmo isso? Não no opúsculo em questão: logo no início afirmo justamente o contrário; e que eu o afirme em outro lugar é mais do que sei. Queira, senhor, apontar a passagem; enquanto não o fizer, tudo o que acrescenta (bem amargamente) é mero trovão inofensivo; e os metodistas (assim chamados) podem continuar a declarar, sem impugnação alguma da sua sinceridade, que não se achegam à santa mesa ‘confiando na própria justiça, mas nas multiformes e grandes misericórdias de Deus’. Sou, senhor, seu servo, John Wesley.”
A estranha aparição ao sacristão
Sábado, 1º de agosto. Antes de deixar Glasgow, ouvi um relato tão estranho que quis ouvi-lo da própria pessoa. Era um sacristão que, contudo, por muitos anos pouco se importara com religião. Registro as suas palavras e deixo a cada um formar o seu próprio juízo sobre elas: “Há dezesseis semanas, eu caminhava, uma hora antes do pôr do sol, atrás da igreja alta; e, olhando para o lado, vi junto a mim alguém que me fitou o rosto e perguntou como eu estava. Respondi: ‘Razoavelmente bem.’ Disse ele: ‘Você tem tido muitas tribulações; mas que proveito tirou delas?’ Contou-me então tudo o que eu já fizera; sim, e os pensamentos que havia no meu coração; e acrescentou: ‘Esteja pronto para a minha segunda vinda’; e desapareceu não sei como. Tremi todo, e não havia força em mim; caí por terra. Daquele tempo em diante gemi continuamente sob a carga do pecado, até que, na ceia do Senhor, tudo me foi tirado.”
Sexta-feira, 25 de setembro. Pediram-me que pregasse em Freshford; mas o povo não ousava vir à casa por causa da varíola, da qual morrera na véspera Joseph Allen, “um verdadeiro israelita” (cf. Jo 1.47). Puseram, pois, uma mesa perto do adro. Mas mal comecei a falar, os sinos começaram a tocar, por diligência de um cavalheiro vizinho. Foi, porém, trabalho perdido: a minha voz prevaleceu, e o povo me ouviu distintamente. Mais: um homem extremamente surdo, que havia vários anos não conseguia ouvir um sermão, contou aos vizinhos, com grande alegria, que ouvira e entendera tudo, do princípio ao fim.
Casas curiosas em Sheerness
Segunda-feira, 23 de novembro. Fui a Cantuária. Aqui me caiu nas mãos a Vida de Maomé, escrita, suponho, pelo conde de Boulainvilliers. Quem quer que seja o autor, é um presunçoso petulante e raso, notável apenas pela imensa segurança e pelo completo desprezo do cristianismo. E o livro é um romance enfadonho e mal digerido, sem apoiar-se em autoridade nenhuma; ao passo que o deão Prideaux (escritor de dez vezes o seu senso) cita as suas fontes para tudo o que afirma.
À tarde cavalguei a Dover; mas o cavalheiro em cuja casa eu me hospedaria partira em longa viagem: deitou-se bem, e amanheceu morto. Tal vapor é a vida (cf. Tg 4.14)! Às seis preguei, mas a casa de modo algum conteve a congregação. A maior parte dos oficiais da guarnição estava presente. Há alguns anos não encontro tanta vida aqui.
Domingo, 13 de dezembro. Hoje senti uma pequena dor na borda da língua que, no dia seguinte, se espalhou às gengivas, depois aos lábios, que inflamaram, incharam e, rompendo-se a pele, sangraram consideravelmente. Depois, o céu da boca ficou extremamente dolorido, a ponto de eu não poder mastigar nada. A isso se somou um cuspir contínuo. Eu sabia que um pouco de descanso curaria tudo. Mas não havia como: eu marcara estar em Sheerness na quarta-feira, 16. Montei, pois, entre cinco e seis, e cheguei lá entre cinco e seis da tarde.
Às seis e meia comecei a ler as orações (tendo-me o governador do forte cedido o uso da capela) e depois preguei, não sem dificuldade, a uma congregação grande e séria. Na noite seguinte ela cresceu consideravelmente, de modo que a capela estava quente como um forno. Ao sair, o ar, extremamente cortante, levou-me de todo a voz, e eu não sabia como poderia, no dia seguinte, ler as orações ou pregar a tão grande congregação. Mas à tarde o governador cortou o nó, mandando dizer que eu não pregaria mais na capela. Ofereceram-nos uma sala que comportava tantas pessoas quantas eu podia alcançar com a voz, e tivemos uma hora confortável; e muitos pareciam resolvidos a “buscar o SENHOR enquanto se pode achá-lo” (Is 55.6).
Uma cidade como a em que muitos destes vivem dificilmente se encontraria outra na Inglaterra. Na doca contígua ao forte há seis velhos navios de guerra, divididos em pequenas habitações — quarenta, cinquenta ou sessenta por navio, com pequenas chaminés e janelas; e cada uma abriga uma família. Numa delas, onde entramos, moravam um homem, a esposa e seis crianças pequenas. E, contudo, o navio inteiro estava agradável e razoavelmente limpo — mais agradável que a maior parte dos navios em que já estive. Sábado, 19: voltei a Londres.
Wesley na prisão de Marshalsea
1768. Sábado, 2 de janeiro. Visitei um pobre homem na prisão de Marshalsea, cujo caso me pareceu incomum. É holandês de nascimento, químico de profissão. Estando apenas meio empregado na sua terra, aconselharam-no a vir a Londres, onde não duvidava de achar pleno emprego. Foi recomendado a um conterrâneo seu para hospedagem — o qual, passadas seis semanas, o fez prender por muito mais do que ele devia e o arrastou ao cárcere: com a esposa prestes a dar à luz, sem dinheiro, sem amigo, sem uma palavra de inglês na boca. Escrevi o caso ao senhor T., que imediatamente deu quinze libras; por meio delas, com pequeno acréscimo, ele foi posto em liberdade e encaminhado a um modo de vida. Mas nunca mais o vi — e por boa razão: agora podia viver sem mim.
Segunda-feira, 4. Nas horas vagas desta semana, li o engenhoso livro do doutor Priestley sobre a eletricidade. Parece ter coligido com exatidão, e bem digerido, tudo o que se sabe desse curioso assunto. Mas quão pouco é esse tudo! Do seu uso, é verdade, sabemos — ao menos em boa medida. Sabemos que é mil remédios em um: em particular, que é o remédio mais eficaz, entre todos os já descobertos, para os transtornos nervosos de toda espécie. Mas, se visamos à teoria, nada sabemos: logo estamos “perdidos e confusos na busca infrutífera”.
Segunda-feira, 11. Nesta semana empreguei os meus retalhos de tempo lendo a História dos sofrimentos da Igreja da Escócia, do senhor Wodrow. Excederia a crença, não fossem os comprovantes autênticos demais para admitir exceção. Oh, que abençoado governante foi aquele homem de “bom gênio”, assim chamado, o rei Carlos II! A sanguinária rainha Maria foi um cordeiro, uma verdadeira pomba, em comparação com ele!
Segunda-feira, 8 de fevereiro. Deparei com um poema surpreendente, intitulado Choheleth, ou o Pregador. É uma paráfrase, em verso razoável, do livro de Eclesiastes. Penso realmente que o seu autor (um comerciante do Levante) entende tanto as expressões difíceis quanto a conexão do todo melhor que qualquer outro escritor, antigo ou moderno, que eu tenha visto. Ele estava em Lisboa durante o grande terremoto, sentado, naquele momento, de roupão e chinelos. Antes que pudesse vestir-se, parte da casa em que estava caiu e o bloqueou dentro. Por esse meio a sua vida foi salva; pois todos os que correram para fora foram despedaçados pelas casas que desabavam.
Wesley viaja para o norte
Segunda-feira, 14 de março. Parti na minha jornada para o norte e preguei em Stroud à noite. Terça, 15: por volta do meio-dia preguei em Painswick e, à noite, em Gloucester. A turba aqui foi por um bom tempo barulhenta e daninha. Mas um magistrado honesto, tomando o caso em mãos, depressa amansou as feras do povo. Assim pode qualquer magistrado, se quiser; de sorte que, onde quer que uma turba persista por algum tempo, o que ela faz deve imputar-se não tanto à ralé quanto aos juízes.
Quarta-feira, 16. Por volta das nove preguei em Cheltenham — lugar quieto e confortável; embora não o fosse, se o reitor ou o ministro anabatista pudessem impedi-lo. Ambos tocaram a trombeta com todas as forças; mas o povo não teve ouvidos para ouvir. À tarde preguei em Upton e segui a cavalo para Worcester. Mas a dificuldade era onde pregar: nenhuma sala era grande o bastante para o povo, e fazia frio demais para ficarem ao relento. Por fim fomos à casa de um amigo, perto da cidade, cujo celeiro era maior que muitas igrejas. Ali logo se reuniu uma congregação numerosa, e de novo às cinco e às dez da manhã. Nada falta aqui senão uma casa adequada; e não proverá Deus também isto?
Sexta-feira, 18. O vigário de Pebworth anunciara na igreja, no domingo, que eu pregaria ali na sexta. Mas o senhor da paróquia disse: “É contrário aos cânones (sábio senhor!), e não há de ser.” Preguei, pois, a uma milha dali, em Broadmarston, ao lado da casa do senhor Eden. A congregação foi extraordinariamente grande e notavelmente atenta. De manhã, a capela (que antigamente o era) encheu-se bem às cinco. A simplicidade e o fervor do povo prometem gloriosa colheita.
Sábado, 19. Cavalgamos a Birmingham. Os tumultos que subsistiram aqui por tantos anos estão agora totalmente suprimidos por um magistrado resoluto. Depois da pregação, tive o prazer de ver um venerável monumento de antiguidade: George Bridgins, no centésimo sétimo ano de idade. Ainda pode ir a pé à pregação e conserva razoavelmente os sentidos e o entendimento. Mas que sonho parecerá até uma vida de cem anos no momento em que ele despertar na eternidade!
Pregando ao vento norte
Domingo, 20. Por volta da uma preguei na charneca de West Bromwich; à noite, perto da casa de pregação de Wednesbury. O vento norte cortava como navalha; mas a congregação — e eu também — tinha outra coisa em que pensar.
Terça-feira, 22. Li um livrinho, Poemas, da senhorita Whately, filha de um lavrador. Teve pouca vantagem de educação, mas um gênio espantoso. Algumas das suas elegias julgo plenamente iguais às do senhor Gray. Tivesse tido os auxílios devidos por alguns anos, pergunto-me se não teria excedido qualquer poetisa que já apareceu na Inglaterra.
Quarta-feira, 30. Cavalguei a uma cidadezinha chamada New Mills, no Alto Pico de Derbyshire. Preguei ao meio-dia na sua grande capela nova, que (em consideração a que as casas de pregação precisam de ar) tem em cada janela um postigo de três polegadas quadradas! É o costume da terra!
Wesley instrui os pais
À noite, e na manhã seguinte, trouxe coisas estranhas aos ouvidos de muitos em Manchester, acerca do governo das suas famílias e da educação dos seus filhos. Mas alguns ainda deram aquela resposta muito tola: “Ora, ele não tem filhos!” Tampouco os tinha São Paulo, nem (que saibamos) qualquer dos apóstolos. E daí? Estavam por isso inabilitados a instruir os pais? De modo nenhum. Eram capazes de instruir a todo aquele que tivesse uma alma a ser salva (cf. Dt 6.6-7; Ef 6.4).
Quarta-feira, 6 de abril. Por volta das onze preguei em Wigan, num lugar próximo do centro da cidade que suponho ter sido outrora um teatro. Estava bem cheio e bem quente. A maior parte da congregação era selvagem quanto possível; contudo, ninguém fez a menor perturbação. Depois, enquanto eu descia a rua, olharam-me à farta; mas ninguém disse uma palavra descortês.
À noite tivemos imensa congregação em Liverpool; mas algumas criaturinhas bonitas, alegres e esvoaçantes não se portaram com tão boas maneiras quanto a turba de Wigan. As congregações em geral foram muito bem-comportadas, além de grandes, de manhã e à noite; e achei a sociedade mais numerosa e mais viva do que jamais fora.
Segunda-feira, 11. Cavalguei a Bolton; na quarta, a Kendal. Dissidentes e metodistas de meia-casta saturaram de tal modo o povo daqui que há pouca perspectiva de fazer bem; contudo, mais uma vez lancei o meu “pão sobre as águas” (Ec 11.1) e deixei o resultado com Deus.
Quinta-feira, 14. Cavalguei, sob chuva contínua, até Ambleside. Clareou antes de chegarmos a Keswick, e dali partimos com dia bom; mas nas montanhas a tempestade nos encontrou de novo e bateu sobre nós tão impetuosamente que os nossos cavalos mal podiam enfrentá-la. Demos, contudo, um jeito de alcançar Cockermouth; mas não havia onde pregar, estando a cidade em alvoroço com a eleição de membros do Parlamento; assim, depois de nos enxugarmos, achamos melhor seguir para Whitehaven.
Wesley e Maria, rainha da Escócia
Terça-feira, 26. Cheguei a Aberdeen. Encontrei aqui uma sociedade verdadeiramente viva, unida em paz e amor. As congregações foram grandes, de manhã e à noite e, como de costume, profundamente atentas. Mas uma companhia de atores ambulantes, que enfim achou lugar também aqui, roubou a parte fútil dos ouvintes. Pobre Escócia! Pobre Aberdeen! Só isto faltava para torná-los tão completamente irreligiosos quanto a Inglaterra.
Sexta-feira, 29. Li um livro extremamente sensato, mas que muito me surpreendeu: uma Investigação das provas das acusações comumente feitas a Maria, rainha da Escócia. Por meio de documentos originais, o autor tornou mais claro do que se imaginaria possível a esta distância: 1) que ela foi de todo inocente do assassinato de lorde Darnley, e de nenhum modo sabedora dele; 2) que se casou com lorde Bothwell (então com quase setenta anos, tendo ela vinte e quatro) por instância premente da nobreza em corpo, que ao mesmo tempo lhe assegurou ser ele inocente do assassinato do rei; 3) que Murray, Morton e Lethington foram eles próprios os arquitetos daquele assassinato, a fim de o imputarem a ela — como também forjaram aquelas vis cartas e sonetos que impingiram ao mundo como dela.
“Mas como explicar, então, a história exatamente contrária, quase universalmente aceita?” Com a maior facilidade. Foi redigida e publicada em francês, inglês e latim (por ordem da rainha Elizabeth) por George Buchanan, secretário de lorde Murray e assalariado da rainha Elizabeth; estava, pois, garantido que atiraria lama que bastasse. Nem estava Maria em liberdade para responder por si. “Mas que foi, então, a rainha Elizabeth?” Tão justa e misericordiosa quanto Nero, e tão boa cristã quanto Maomé.
Domingo, 1º de maio. Preguei às sete no salão novo; à tarde, na igreja do Colégio, na velha Aberdeen. Às seis, sabendo que a nossa casa não conteria a congregação, preguei no portão do castelo, sobre as pedras do calçamento. Grande número de pessoas era todo atenção; mas havia ao redor muitas criaturas rudes e estúpidas, que sabiam tão pouco de razão quanto de religião; nunca antes vi tais brutos na Escócia. Um deles atirou uma batata, que caiu no meu braço; voltei-me para eles, e alguns se envergonharam.
Wesley em Scone e Holyrood
Segunda-feira, 2. Parti cedo de Aberdeen e, por volta do meio-dia, preguei em Brechin. Depois do sermão, o corregedor quis ver-me e disse: “Senhor, meu filho tinha ataques epilépticos desde a infância; o doutor Ogylvie lhe receitou muitas vezes e por fim me disse que nada mais podia fazer. Pedi ao senhor Blair, segunda-feira passada, que falasse com o senhor. Na terça de manhã, meu filho disse à mãe que acabara de sonhar que os seus ataques tinham passado e que estava perfeitamente bem. Logo depois, dei-lhe as gotas que o senhor aconselhou; ele está perfeitamente bem e não teve um só ataque desde então.”
Quinta-feira, 5. Cavalgamos pela aprazível e fértil planície de Gowrie — quinze ou dezesseis milhas entre o rio Tay e as montanhas, densamente habitada — até Perth. À tarde caminhamos até o palácio real de Scone. É uma grande casa antiga, deliciosamente situada, mas correndo velozmente para a ruína. Restam ainda alguns bons quadros e belas tapeçarias, nos chamados aposentos da rainha e do rei. E, o que é bem mais curioso, há uma cama e um conjunto de cortinados no aposento (outrora) real, bordados pela pobre rainha Maria enquanto esteve presa no castelo de Lochleven. É dos mais finos bordados que já vi, e mostra claramente tanto a sua perícia primorosa quanto a sua incansável diligência.
Sábado, 14. Percorri mais uma vez Holyrood House, nobre edifício, mas na maior parte abandonado a si mesmo e assim (como o palácio de Scone) correndo veloz para a ruína. As tapeçarias estão sujas e de todo desbotadas; os belos forros despencando; muitos quadros da galeria, rasgados ou cortados. Foi obra dos soldados do bom general Hawley (tal general, tais homens!), que, depois de fugir dos escoceses em Falkirk, vingaram-se das telas indefesas!
Domingo, 15. Às oito preguei no pátio da Escola Superior, e creio que não poucos ouvintes ficaram feridos no coração. Entre meio-dia e uma, congregação bem maior se reuniu na colina do Castelo. Creio que a minha voz os alcançou a todos, enquanto eu abria e aplicava aquelas palavras tremendas: “Vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono” (Ap 20.12). À noite a nossa casa ficou bem cheia, até de ricos e honrados. “Quem os advertiu” a “fugir da ira que está para vir” (Mt 3.7)? Oh, que enfim despertem e “ressurjam dentre os mortos”!
O velho colega de escola de Wesley
Quarta-feira, 1º de junho. Muitos da milícia estiveram presentes em Barnard Castle à noite e se portaram com decoro. Foi-me grato hospedar-me na casa de um cavalheiro, velho colega de escola, a meia milha da cidade. Que sonho são os cinquenta ou sessenta anos que se escoaram desde que estávamos na Charterhouse!
Quinta-feira, 2. Preguei ao meio-dia na casa de um lavrador, perto de Brough, em Westmoreland. O sol ardia, mas algumas árvores frondosas cobriam a mim e à maior parte da congregação. Um passarinho pousou numa delas e cantou, sem interrupção, do princípio do culto ao fim. Muitos vieram de longe, mas creio que nenhum lamentou o seu trabalho.
Sexta-feira, 3. Descendo ontem uma das montanhas, distendi um músculo da coxa. Hoje estava pior; mas, enquanto eu cavalgava para Barnard Castle, o sol bateu tão quente sobre ela que, antes de chegar à cidade, estava perfeitamente boa. À noite, o oficial comandante deu ordens de que não houvesse exercício, para que toda a milícia de Durham (que contraste!) tivesse liberdade de assistir à pregação. Tivemos, pois, um pequeno exército de oficiais e soldados, e todos se portaram bem. Grande número deles esteve presente às cinco da manhã.
Terça-feira, 7. Desci por água a South Shields e preguei ao meio-dia a bem mais gente do que podia ouvir. Fomos, depois do jantar, ao castelo de Tynemouth, magnífico monte de ruínas. Dentro das muralhas estão os restos de uma igreja muito grande, que parece ter sido de lavor primoroso. As pedras estão unidas por cimento tão forte que, não fossem os canhões de Cromwell, poderiam ter ficado de pé mil anos.
A esposa de Wesley enferma
Domingo, 14 de agosto. Sabendo que a minha esposa estava gravemente enferma, tomei uma sege imediatamente e cheguei à Fundição antes da uma da madrugada. Achando que a febre cedera e o perigo passara, por volta das duas parti de novo e, à tarde, cheguei (sem cansaço algum) a Bristol.
Quarta-feira, 7 de setembro (Penzance). Depois da pregação matutina, reuniu-se a sociedade seleta: tal companhia de crentes vivos, cheios de fé e amor, eu nunca antes achara neste condado. Neste e nos três dias seguintes preguei em quantos lugares pude, embora a princípio duvidasse de poder pregar oito dias seguidos, quase sempre ao ar livre, três ou quatro vezes ao dia. Mas a minha força foi como o meu trabalho; mal senti cansaço, do princípio ao fim.
Domingo, 11. Por volta das nove preguei em St. Agnes, e de novo entre uma e duas. Às cinco tomei o meu velho posto em Gwennap, no anfiteatro natural. Suponho que voz humana alguma poderia alcançar tal auditório em terreno plano; mas a elevação do terreno ao redor me deu tal vantagem que creio que todos ouviram distintamente.
Segunda-feira, 12. Preguei por volta do meio-dia em Callestick e, à noite, em Kerley. Choveu o tempo todo; mas isso não desviou a atenção da grande congregação. Ao meio-dia de terça, 13, preguei em Truro e, à noite, em Mevagissey. Foi uma hora de alegria solene; não é comum eu achar coisa igual. Certamente os pensamentos de Deus não são como os nossos (cf. Is 55.8)! “Pode fazer-se algum bem em Mevagissey?”
Sexta-feira, 16. Cavalguei, sob chuva pesada, a Polperro. Aqui, estando o cômodo sobre o qual nos hospedaríamos cheio de sardinhas e congros, o perfume foi potente demais para mim; não me pesou quando uma das nossas amigas me convidou a pousar na sua casa. Logo depois que comecei a pregar, veio chuva pesada; mas ninguém se foi até terminar todo o culto.
Sábado, 17. Quando chegamos à passagem de Crimble, demos com tudo parado. Os barqueiros nos disseram que a tempestade era tão forte que não era possível atravessar; por fim, contudo, os persuadimos a arriscar-se, e não embarcamos uma só onda até chegar ao outro lado.
Domingo, 18. O nosso salão no Dock conteve razoavelmente a congregação da manhã. Entre uma e duas comecei a pregar no cais de Plymouth. Apesar da chuva, abundância de povo ficou de pé para ouvir. Mas um homem tolo falava sem cessar, até que pedi ao povo que abrisse alas à direita e à esquerda e me deixasse olhá-lo no rosto. Assim fizeram. Ele tirou o chapéu e retirou-se quieto.
Wesley e as cidades portuárias
Quarta-feira, 30 de novembro. Cavalguei a Dover e cheguei pouco antes de começar uma tempestade violenta. Ela não deteve o povo. Muitos tiveram de voltar depois que a casa se encheu. Que desejo de ouvir corre por todas as cidades portuárias aonde chegamos! Certamente Deus está sitiando esta nação e a atacando por todas as entradas!
Quarta-feira, 14 de dezembro. Vi os alunos de Westminster representarem o Adelphi, de Terêncio — entretenimento não indigno de um cristão. Oh, como nos envergonham estes pagãos! As suas próprias comédias contêm excelente senso, os retratos mais vivos dos homens e dos costumes, e traços tão finos de genuína moralidade como raramente se acham nos escritos dos cristãos.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.