DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 17

Wesley detido; uma cavalgada terrível; um Isaac Newton metodista; Wesley e a guerra americana

A prisão frustrada em Edimburgo, os cavalos desgovernados com os netos na sege, o pregador-gênio que morreu pregando, a Fundição salva do incêndio por uma virada de vento — e o panfleto sobre a guerra americana que pôs a Inglaterra em polvorosa.

1774–1776 ⏱ 25 min de leituraGuerra americana

“Sinto e me entristeço; mas, pela graça de Deus, não me inquieto com nada.”

(Diário, 28 de junho de 1776, ao completar 73 anos)

Antes de ler

Este capítulo (1774–1776) abre com uma cena insólita: Wesley preso em Edimburgo, por um mandado do xerife, para responder por supostos danos causados por um dos seus pregadores. Ele acompanha o oficial com calma, exige ver o mandado, presta fiança — e, no julgamento, o acusador caluniador é multado em mil libras. De novo a lição do capítulo 14: consciência limpa, meios legais e serenidade envergonham a calúnia (1Pe 3.16).

As providências se acumulam: os cavalos desgovernados que dispararam com Wesley e duas netinhas na sege (“Vovô, salve-nos!”) e pararam à beira do precipício; o vento que virou de noroeste para sudeste no momento em que as chamas iam consumir a Fundição; o mineiro caído num poço de vinte e quatro jardas, achado porque uma lebre correu para a boca do poço diante dos caçadores. Wesley credita aos anjos, bons e maus, “grande parte” desses eventos — “quão grande, não sabemos agora, mas saberemos depois” (Sl 91.11; Hb 1.14). Nem superstição, nem ceticismo: expectativa humilde.

Uma palavra sobre a guerra americana. Wesley publicou o Apelo calmo às nossas colônias americanas defendendo a posição da Coroa — para ele, os colonos já gozavam de plena liberdade civil e religiosa, e o motivo do panfleto era “apagar a chama” de ódio que ardia na Inglaterra. A história seguiu outro rumo, e o leitor de hoje pode julgar diferentemente o mérito da causa; mas observe o método: sem buscar dinheiro, cargo ou aplauso, buscando a paz (Rm 12.18). Cristãos sinceros podem divergir em política; o que não muda é o dever de falar com consciência e sem ódio.

E há a velhice luminosa: aos setenta e dois e setenta e três anos, Wesley lista os meios naturais da sua saúde — levantar às quatro, pregar às cinco, viajar quatro mil e quinhentas milhas por ano — e corona tudo com a “igualdade de ânimo”: “sinto e me entristeço, mas não me inquieto com nada” (Fp 4.6). E João Downes, o gênio comparável a Newton que preferiu pregar o evangelho, cai no púlpito ao pregar “Venham a mim os cansados” e entra “no gozo do seu Senhor” (Mt 11.28; 25.21). Que maneira de partir!

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1774. Segunda-feira, 24 de janeiro. A senhora Wright, de Nova York, pediu-me licença para tomar a minha efígie em cera. Ela tem a do senhor Whitefield e muitas outras; mas nenhuma delas, penso eu, chega aos pés de um retrato bem pintado.

Sexta-feira, 20 de maio. Cavalguei à casa do senhor Fraser, em Monedie, cuja sogra seria sepultada naquele dia. Oh, que diferença entre o método inglês e o escocês de sepultamento! O inglês honra a natureza humana, e até os pobres restos do que foi um dia templo do Espírito Santo! Mas, quando vejo na Escócia um caixão posto na terra e coberto sem uma palavra, lembro-me do que se disse acerca de Jeoaquim: “Será sepultado com a sepultura de um jumento” (Jr 22.19).

Wesley detido em Edimburgo

Quarta-feira, 1º de junho. Fui a Edimburgo e, no dia seguinte, examinei a sociedade um por um. Fui agradavelmente surpreendido: aproveitaram de fato desde a minha última visita. Tal número de pessoas com sólida experiência cristã eu nunca achara nesta sociedade. Preguei à noite a uma congregação muito elegante — e, ainda assim, com grande largueza de coração.

Sábado, 4. Achei liberdade incomum em Edimburgo ao aplicar a visão de Ezequiel dos ossos secos (Ez 37). Quando eu voltava para casa, dois homens me seguiram, e um deles disse: “Senhor, o senhor está preso. Tenho um mandado do xerife para levá-lo ao Tolbooth.” Primeiro pensei que gracejava; mas, vendo que a coisa era séria, pedi a um ou dois amigos que subissem comigo. Quando estávamos seguros numa casa contígua ao Tolbooth, pedi ao oficial que me mostrasse o mandado. Descobri que o acusador era um certo George Sutherland, outrora membro da sociedade. Ele depusera que “Hugh Saunderson, um dos pregadores de John Wesley, tomara da sua mulher cem libras em dinheiro e mais de trinta em bens; e que, além disso, a aterrorizara até a loucura; de modo que, pela falta da ajuda dela e pela perda de negócios, ele fora prejudicado em quinhentas libras”.

Diante do xerife, Archibald Cockburn, depusera ainda que “os ditos John Wesley e Hugh Saunderson, para escapar à sua ação, preparavam-se para fugir do país; pelo que solicitava mandado para procurá-los, prendê-los e encarcerá-los no Tolbooth, até que dessem garantia do seu comparecimento”. O xerife assentira e expedira o mandado. Mas por que encarcerar John Wesley? Nada se alegava contra mim, nem pouco nem muito. Hugh Saunderson prega em conexão comigo. E daí? Não terá o xerife cochilado estranhamente?

O senhor Sutherland insistia furiosamente que o oficial nos levasse ao Tolbooth sem demora. Ele, contudo, esperou até que dois ou três dos nossos amigos vieram e deram fiança pelo nosso comparecimento no dia vinte e quatro. Comparecemos; a causa foi ouvida; e o acusador, multado em mil libras.

A cavalgada terrível de Wesley

Domingo, 5. Por volta das oito preguei em Ormiston, doze milhas de Edimburgo. Sendo pequena a casa, fiquei na rua e proclamei “a graça de nosso Senhor Jesus Cristo”. A congregação portou-se com o máximo decoro. Como também a da colina do Castelo, em Edimburgo, ao meio-dia — embora eu tenha insistido com força em que Deus “agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam” (At 17.30). À noite a casa ficou completamente cheia, e muitos pareceram profundamente tocados. Não admira que Satanás, estivesse em seu poder, me quisesse de outro modo ocupado neste dia.

Segunda-feira, 20. Por volta das nove parti de Sunderland para Horsley, com o senhor Hopper e o senhor Smith. Levei comigo na sege a senhora Smith e as suas duas meninas. A umas duas milhas da cidade, bem no alto da ladeira, de repente os dois cavalos dispararam, sem causa visível, e voaram ladeira abaixo como flecha que sai do arco. Num minuto, John caiu da boleia. Os cavalos seguiram a toda velocidade, ora à beira da vala à direita, ora à esquerda. Uma carroça veio contra eles: desviaram com tanta exatidão como se o homem estivesse na boleia. Ao pé da ladeira havia uma ponte estreita: passaram exatamente pelo meio dela. Subiram a ladeira seguinte na mesma carreira, com muita gente vindo ao nosso encontro e saindo do caminho. Perto do alto havia uma porteira que dava para o pátio de um lavrador. Estava aberta. Eles viraram de golpe e passaram por ela, sem tocar a porteira de um lado nem o mourão do outro.

Pensei: “A porteira do outro lado do pátio está fechada; essa os deterá.” Mas eles a atravessaram como se fosse teia de aranha e galoparam pelo trigal adentro. As meninas gritavam: “Vovô, salve-nos!” Eu lhes disse: “Nada lhes fará mal; não tenham medo” — sem sentir mais medo ou aflição (bendito seja Deus!) do que se estivesse sentado no meu gabinete. Os cavalos correram até chegar à beira de um precipício íngreme. Naquele instante, o senhor Smith, que até ali não conseguira alcançar-nos, meteu-se a galope entre eles e o abismo. Pararam num momento. Tivessem avançado um nada, ele e nós teríamos despencado juntos!

Estou persuadido de que tanto anjos maus quanto bons tiveram grande parte nesse episódio — quão grande, não sabemos agora, mas saberemos depois (cf. Sl 91.11; Hb 1.14).

Terça-feira, 28. Sendo hoje o meu aniversário, primeiro dia do meu septuagésimo segundo ano, eu considerava: como é que tenho exatamente as mesmas forças de trinta anos atrás? Que a minha vista está consideravelmente melhor agora, e os meus nervos mais firmes do que então? Que não tenho nenhuma das enfermidades da velhice, e perdi várias que tinha na juventude? A grande causa é o beneplácito de Deus, que faz tudo o que lhe apraz. Os meios principais são: 1) levantar-me constantemente às quatro, há cerca de cinquenta anos; 2) pregar geralmente às cinco da manhã — um dos exercícios mais saudáveis do mundo; 3) nunca viajar menos, por mar ou por terra, do que quatro mil e quinhentas milhas por ano.

A notável fuga de um mineiro

Sábado, 30 de julho. Fui a Madeley e, à noite, preguei debaixo de um sicômoro, em Madeley Wood, a uma grande congregação, boa parte dela de mineiros de carvão, que bebiam cada palavra. Certamente nunca houve lugares mais parecidos do que Madeley Wood, Gateshead Fell e Kingswood.

Domingo, 31. A igreja não conteve as congregações, nem de manhã nem à tarde; mas à noite preguei a uma congregação ainda maior em Broseley, igualmente atenta. Soube então os pormenores de uma história notável, que antes ouvira imperfeitamente. Tempos atrás, um dos mineiros daqui, voltando para casa à noite, caiu num poço de mina de vinte e quatro jardas de profundidade. Gritou por socorro, mas ninguém ouviu, por toda aquela noite e todo o dia seguinte. Na segunda noite, fraco e desfalecido, adormeceu e sonhou que a sua esposa, falecida havia algum tempo, vinha a ele e muito o consolava. De manhã, saindo um cavalheiro à caça, uma lebre levantou-se bem diante dos cães, correu direto à boca do poço e sumiu, sem que ninguém soubesse como. Os caçadores vasculharam os arredores do poço, até que ouviram uma voz vinda do fundo. Providenciaram depressa o socorro adequado e içaram o homem sem ferimento algum.

Terça-feira, 2 de agosto. Preguei às dez na Casa da Câmara de Evesham e segui a cavalo para Broadmarston.

Quinta-feira, 4. Passei a Tewkesbury e preguei ao meio-dia num prado perto da cidade, debaixo de um carvalho alto. Fui dali a Cheltenham. Sendo alta estação para beber as águas, a cidade estava cheia de fidalguia; preguei, pois, perto do mercado, à noite, à maior congregação que jamais se viu ali. Alguns lacaios fizeram no início uma pequena perturbação; mas voltei-me para eles, e ficaram repreendidos.

Sábado, 6. Fui a pé de Newport ao castelo de Berkeley. É um edifício belo, embora antiquíssimo, e todas as suas partes se conservam em bom estado, exceto o depósito e a capela — esta, sem uso há muitos anos, está agora bem suja. Admirei particularmente a bela situação e o jardim no alto da casa. Num canto do castelo está o quarto onde o pobre Ricardo II foi assassinado. A sua efígie ainda se conserva, e diz-se tirada antes da morte. Se era parecido com ela, tinha semblante aberto e viril, embora com um toque de melancolia. À tarde seguimos para Bristol.

Wesley no castelo de Corfe

Segunda-feira, 10 de outubro. Preguei em Salisbury; e na terça, 11, parti para a ilha de Purbeck. Quando chegamos a Corfe Castle, estando a tarde calma e amena, preguei num prado perto da cidade a uma congregação profundamente atenta, reunida de todas as partes da ilha.

Quarta-feira, 12. Preguei às cinco a uma grande congregação, que parecia sedenta de instrução. Depois caminhamos pelas ruínas do castelo, tão bravamente defendido no século passado, contra todo o poder das forças do Parlamento, pela viúva do presidente do tribunal, lorde Banks. É uma das mais nobres ruínas que já vi: as muralhas, de imensa espessura, desafiam até os assaltos do tempo, e eram outrora cercadas por um fosso profundo. A casa, que fica no meio, no ponto mais alto da rocha, foi uma estrutura magnífica. Tempos atrás, o proprietário preparou alguns aposentos no lado sudoeste e traçou um jardinzinho, com vista ampla, aprazível além de toda descrição. Por um tempo, muito se deleitou nele; mas o olho não se fartou de ver (cf. Ec 1.8). Tornou-se familiar; já não agradava; e agora está tudo em ruína. Não admira: que pode deleitar sempre, senão o conhecimento e o amor de Deus?

Um Isaac Newton metodista

Segunda-feira, 31. Neste dia e nos seguintes visitei as sociedades perto de Londres. Sexta, 4 de novembro: à tarde, John Downes (que pregava conosco havia muitos anos) dizia: “Sinto tal amor pelo povo de West Street que me contentaria em morrer com eles. Não me sinto muito bem; mas preciso estar com eles esta noite.” Foi, e começou a pregar sobre “Venham a mim, vocês que estão cansados e sobrecarregados” (Mt 11.28). Faladas dez ou doze minutos, caiu, e não falou mais — até que o seu espírito voltou a Deus.

Suponho que era, por natureza, um gênio plenamente tão grande quanto sir Isaac Newton. Mencionarei só dois ou três exemplos. Quando estudava álgebra na escola, veio um dia ao mestre e disse: “Senhor, posso provar esta proposição por um caminho melhor que o do livro.” O mestre julgou impossível; mas, feita a prova, reconheceu que era assim. Tempos depois, o pai o mandou a Newcastle com um relógio para consertar. Ele observou as ferramentas do relojoeiro e o modo como o desmontava e remontava; chegando em casa, primeiro fez para si as ferramentas, e depois fez um relógio que marcava a hora tão certo quanto qualquer um da cidade. Suponho que força de gênio assim mal se conheceu antes na Europa.

Outra prova foi esta: trinta anos atrás, enquanto eu me barbeava, ele aparava com o canivete a ponta de um pau. Perguntei: “Que está fazendo?” Respondeu: “Estou tomando o seu rosto, que pretendo gravar numa chapa de cobre.” E, com efeito, sem instrução alguma, primeiro fez as ferramentas, e depois gravou a chapa. O segundo retrato que gravou foi o que se pôs à frente das Notas sobre o Novo Testamento. Outro exemplo assim, suponho, nem toda a Inglaterra — talvez nem a Europa — pode produzir.

Nos últimos meses, ele tivera comunhão com Deus mais profunda do que nunca; e havia dias vinha dizendo repetidamente: “Estou tão feliz que mal sei como viver. Gozo tal comunhão com Deus que eu pensava não poder existir deste lado do céu.” E agora, terminada a sua carreira de cinquenta e dois anos, depois de longo conflito com dor, doença e pobreza, descansou gloriosamente dos seus trabalhos e entrou no gozo do seu Senhor (cf. Mt 25.21).

Domingo, 13. Depois de um dia de muito trabalho, à minha hora de costume (nove e meia), deitei-me para descansar. Disse aos criados: “Preciso levantar às três; a diligência de Norwich parte às quatro.” Ouvindo um deles bater, embora mais cedo do que eu esperava, levantei-me e me vesti; mas, olhando depois o relógio, vi que eram só dez e meia. Enquanto pensava no que fazer, ouvi um rumor confuso de muitas vozes embaixo; e, olhando pela janela para o pátio, vi que estava claro como dia. Grandes flocos de fogo voavam continuamente sobre a casa, cuja parte superior era toda de madeira, quase tão seca quanto isca. Um grande depósito de madeira, a pouquíssima distância, ardia em plena chama, e o vento noroeste empurrava as labaredas diretamente sobre a Fundição; e não havia possibilidade de socorro, pois não se achava água. Vendo que eu de nada podia servir, tomei o meu Diário e os meus papéis e me retirei à casa de um amigo. Não tive medo algum, entregando o caso nas mãos de Deus e sabendo que ele faria o que fosse melhor. Imediatamente o vento virou de noroeste para sudeste; e a nossa bomba abasteceu as máquinas com abundância de água; de modo que, em pouco mais de duas horas, todo o perigo passou.

Wesley nos pântanos

Terça-feira, 22. Despedi-me solene e afetuosamente da sociedade de Norwich. Por volta do meio-dia tomamos a diligência. Às oito da quarta, 23, o senhor Dancer me encontrou com uma sege e me levou a Ely. Oh, que falta de bom senso! A água cobria a estrada real por milha e meia. Perguntei: “Como faz quem vem a pé para a cidade?” — “Ora, têm de vir vadeando!”

Por volta das duas preguei numa casa bem cheia de gente simples e amorosa. Fui depois ver a catedral, uma das mais belas que já vi. A torre oeste é grandiosíssima, e a nave, de espantosa altura. Dali seguimos, por uma região fértil e aprazível, embora cercada de pântanos, até Sutton. Muitos aqui haviam sido despertados ultimamente: prepararam um grande celeiro. Às seis estava bem cheio, e parecia que Deus enviava uma mensagem a cada alma.

Sexta-feira, 25. Parti entre oito e nove numa sege de um cavalo, com vento forte e bem frio. Muita neve jazia no chão, e muita caiu enquanto nos arrastávamos pelos diques dos pântanos. O honesto senhor Tubbs fez questão de ir a pé, guiando o cavalo por água e lama até meia perna, sorrindo e dizendo: “Nós, homens do pântano, não nos importamos com um pouco de sujeira.” Percorridas umas quatro milhas, a estrada já não admitia sege. Tomei, pois, um cavalo emprestado e segui adiante; mas não muito, pois todos os terrenos estavam debaixo d’água. Arranjei aqui um barco, com o dobro exato do tamanho de uma gamela de amassar pão. Eu ia numa ponta, e um menino na outra, que me remou em segurança até Earith. Ali a senhorita L. me esperava com outra sege, que me levou a St. Ives.

Nenhum metodista, disseram-me, havia pregado nesta cidade; julguei, pois, mais que tempo de começar. Por volta da uma preguei a uma congregação muito bem-vestida e, ainda assim, bem-comportada. Dali a minha nova amiga (por quanto tempo o será?) levou-me a Godmanchester, perto de Huntingdon. Um grande celeiro estava pronto, no qual costumavam pregar o senhor Berridge e o senhor Venn. E, embora o tempo continuasse severo, encheu-se de gente profundamente atenta.

Sábado, 26. Parti cedo e, à noite, cheguei a Londres.

1775. Quarta-feira, 22 de fevereiro. Tive oportunidade de ver o curioso jardim do senhor Gordon, em Mile End — dificilmente haverá outro igual na Inglaterra, talvez na Europa. Uma coisa em particular aprendi ali: a verdadeira natureza do chá. Fui informado: 1) de que o chá verde e o preto (bohea) são de espécies inteiramente diferentes; 2) de que o preto é muito mais delicado que o verde; 3) de que o verde é perene e resiste perfeitamente não só ao ar livre, mas à geada; 4) de que a erva do Paraguai também suporta a geada e é uma espécie de chá; 5) e observei que todas são espécies de louro. A folha do chá verde tem a cor, a forma e o tamanho da folha de louro; a do preto é menor, mais macia e mais escura. Assim também a erva do Paraguai, de um verde pardo, não maior que a nossa sálvia comum.

O coche de Wesley capota

Domingo, 6 de agosto. À uma proclamei o glorioso evangelho à congregação de costume em Birstall e, à noite, em Leeds. Julgando então necessário fazer uma curta visita aos nossos irmãos de Londres, tomei a diligência, com cinco amigos, por volta das oito. Antes das nove, um cavalheiro numa sege de um cavalo bateu com a roda numa das nossas. No mesmo instante, o peso dos homens em cima virou o coche; de outro modo, dez vezes aquele choque não o teria movido. Mas nem o cocheiro, nem os homens de cima, nem ninguém de dentro se feriu. Na terça, à tarde, muitos amigos nos encontraram em Hatfield e nos conduziram em segurança a Londres.

Segunda-feira, 30 de outubro. Neste dia e nos seguintes visitei as pequenas sociedades dos arredores de Londres.

Sábado, 11 de novembro. Fiz alguns acréscimos ao Apelo calmo às nossas colônias americanas. Precisa alguém perguntar por que motivo foi escrito? Olhe ao redor: a Inglaterra está em chamas! — uma chama de malícia e raiva contra o rei e contra quase todos os que exercem autoridade debaixo dele. Trabalho por apagar essa chama. Não deveria todo verdadeiro patriota fazer o mesmo? Se escritores mercenários, de um lado e do outro, me julgam por si mesmos, não posso evitá-lo.

Domingo, 12. Pediram-me que pregasse, na igreja de Bethnal Green, um sermão beneficente pelas viúvas e órfãos dos soldados mortos na América. Sabendo quantos buscariam ocasião de ofensa, escrevi o sermão. Jantei com sir John Hawkins e três outros cavalheiros comissários da paz, e fui agradavelmente surpreendido por uma conversa muito séria, mantida durante todo o tempo em que fiquei.

Wesley e a guerra americana

Segunda-feira, 27. Parti para Norwich. Naquela noite preguei em Colchester; na terça, em Norwich; na quarta, em Yarmouth. Por esse tempo, publiquei no Lloyd’s Evening Post a seguinte carta:

“Senhor: perguntaram-me seriamente: ‘Por que motivo o senhor publicou o Apelo calmo às colônias americanas?’ Respondo com seriedade: não para ganhar dinheiro. Fosse esse o motivo, eu o teria inchado até virar um panfleto de um xelim, e o teria registrado no Stationers’ Hall. Não para obter promoção para mim ou para os filhos do meu irmão. Estou um pouco velho demais para cobiçá-la para mim; e, se meu irmão ou eu a buscássemos para eles, bastaria apresentá-los ao mundo. Não para agradar a homem algum, grande ou pequeno. Conheço bem demais a humanidade: sei que os que o amam por serviços políticos o amam menos que ao próprio jantar; e os que o odeiam, odeiam-no pior que ao diabo.

“Menos que tudo escrevi para inflamar quem quer que seja — justamente o contrário: contribuí com o meu óbolo para apagar a chama que arde por toda a terra. Tenho mais oportunidade de observá-la do que qualquer outro homem da Inglaterra. Vejo com dor a altura a que já sobe, em cada parte da nação; e vejo muitos despejando azeite na chama, clamando: ‘Quão injusta, quão cruelmente o rei trata os pobres americanos, que apenas lutam pela sua liberdade e pelos seus privilégios legais!’ Ora, não há caminho possível para apagar essa chama senão mostrar que os americanos não são tratados nem com crueldade nem com injustiça; que não lutam pela liberdade (esta eles tinham, em toda a sua extensão, civil e religiosa), nem por privilégio legal algum, pois gozam de tudo o que as suas cartas concedem. O por que lutam é o privilégio ilegal de ficarem isentos da tributação parlamentar — privilégio que carta nenhuma jamais concedeu a colônia americana alguma, e que nunca reclamaram até o presente reinado.

“Sendo este o estado real da questão, sem colorido nem exagero, que homem imparcial pode culpar o rei ou louvar os americanos? Com este fim — apagar o fogo, pondo a culpa onde ela cabe — foi escrito o Apelo calmo. Sou, senhor, seu humilde servo, John Wesley.”

Pregando do tronco

1776. Segunda-feira, 1º de janeiro. Cerca de mil e oitocentos de nós nos reunimos em Londres para renovar o nosso pacto com Deus; e foi, como de costume, uma hora muito solene.

Domingo, 14. Quando eu ia à capela de West Street, uma das molas da sege partiu de repente; mas, parando os cavalos no mesmo instante, desci sem o menor incômodo.

Em todas as horas vagas desta semana e da seguinte, esforcei-me por terminar a História concisa da Inglaterra. Sei que há de causar ofensa, pois em muitas partes sou inteiramente singular — em particular quanto àqueles caracteres injustiçados, Ricardo III e Maria, rainha da Escócia. Mas devo falar como penso; embora ainda espere, e esteja disposto a receber, melhor informação.

Terça-feira, 30 de abril. À noite preguei numa espécie de praça, em Colne, a uma multidão que bebia a Palavra. Raramente vi congregação em que homens, mulheres e crianças estivessem em tal postura — e isto na cidade onde, trinta anos atrás, metodista nenhum podia mostrar a cabeça! O primeiro que pregou aqui foi John Jane, que atravessava inocentemente a cidade a cavalo quando a turba zelosa o derrubou da montaria e o pôs no tronco. Ele aproveitou a oportunidade e os exortou com veemência a “fugir da ira que está para vir” (Mt 3.7).

Quarta-feira, 1º de maio. Parti cedo e, na tarde seguinte, cheguei a Whitehaven; e os meus cavalos de sege não ficaram nada piores por viajar quase cento e dez milhas em dois dias.

Viajando por Berkshire, Oxfordshire, Bristol, Gloucestershire, Worcestershire, Warwickshire, Staffordshire, Cheshire, Lancashire, Yorkshire, Westmoreland e Cumberland, fiz diligentemente duas investigações: a primeira, sobre o aumento ou a diminuição da população; a segunda, sobre o aumento ou a diminuição do comércio. Quanto a este, cresceu espantosamente nestes dois últimos anos — em vários ramos, como não se conhecia na memória dos homens: tal é o fruto da plena liberdade civil e religiosa de que toda a Inglaterra agora goza! E, quanto à primeira, não só em cada cidade grande, mas em cada aldeia e lugarejo, não há diminuição, mas um crescimento grande e veloz. Um sinal disso são os enxames de crianças pequenas que se veem por toda parte. Que devemos, então, admirar mais: a ignorância ou a ousadia dos que afirmam que a população da Inglaterra diminui?

“Um gênio muito extraordinário”

Segunda-feira, 6. Depois de pregar em Cockermouth e Wigton, segui para Carlisle e preguei a uma congregação muito séria. Vi aqui um gênio muito extraordinário: um homem cego desde os quatro anos de idade, que enrola lã, tece pelúcia lavrada num engenho e tear feitos por ele mesmo, teceu o próprio nome em pelúcia, e faz as próprias roupas e as próprias ferramentas de todo tipo. Anos atrás, fechado no coro do órgão da igreja, apalpou cada parte dele e depois fez para si um órgão que, dizem os entendidos, é excelente. Ensinou-se então a tocar nele salmos, antífonas, peças livres ou qualquer coisa que ouvisse. Ouvi-o tocar várias melodias com grande exatidão, e uma peça complexa. Suponho que a Europa inteira mal pode produzir outro exemplo assim. O seu nome é Joseph Strong. Mas de que lhe vale tudo isso, se ainda está “sem Deus no mundo” (Ef 2.12)?

Sexta-feira, 17. Cheguei a Aberdeen em boa hora. Sábado, 18: li a Viagem às ilhas ocidentais, do doutor Johnson. É um livro muito curioso, escrito com admirável senso e, penso, grande fidelidade — embora, em alguns aspectos, se julgue que pesa a mão sobre a nação, o que estou convencido de que ele jamais pretendeu.

Segunda-feira, 20. Preguei por volta das onze em Old Meldrum, mas só alcancei Banff perto das sete da noite. Fui direto à Parada e proclamei a uma multidão atenta “a graça de nosso Senhor Jesus Cristo”. Todos se portaram bem, exceto uns poucos fidalgos, aos quais repreendi abertamente — e ficaram corrigidos.

A elegante Banff

Banff é uma das cidades mais asseadas e elegantes que vi na Escócia. Está aprazivelmente situada na encosta de uma colina que desce para o mar, embora rente a ele, e suficientemente abrigada dos ventos mais cortantes. As ruas são retas e largas. Creio que pode ser tida pela quinta, se não pela quarta, cidade do reino. O condado, de Banff até Keith, é o mais bem povoado que vi na Escócia — o que se deve, principalmente ou totalmente, ao falecido conde de Findlater. Era incansável em fazer o bem: esforçou-se por atrair homens industriosos de todas as partes e por prover-lhes pequenos estabelecimentos que lhes permitissem viver com conforto.

Por volta do meio-dia preguei em New Mills, a nove milhas de Banff, a uma grande congregação de gente simples. Enquanto cavalgávamos à tarde, o calor me venceu, e cheguei a Keith cansado e desfalecido. Mas, mal me pus de pé na praça do mercado, esqueci o cansaço — tais eram a seriedade e a atenção da congregação inteira, tão numerosa quanto a de Banff. O senhor Gordon, ministro da paróquia, convidou-me para a ceia e me disse que a sua igreja estava ao meu dispor. Uma pequena sociedade já se formou aqui, e vai a caminho de crescer. Mas estavam justamente agora em perigo de perder a sua casa de pregação, decidido o dono a vendê-la. Vi um só meio de a assegurar para eles: comprá-la eu mesmo. E assim (quem o teria pensado?) comprei uma propriedade de duas casas, um quintal e um jardim, com três acres de boa terra. Mas ele me disse categórico: “Senhor, não aceito menos que dezesseis libras e dez xelins — parte agora, parte no dia de São Miguel, e o resto em maio próximo.”

Uma cidade de mendigos

Aqui o senhor Gordon me mostrou uma grande curiosidade. Perto do alto da colina fronteira construiu-se uma cidade nova, com umas cem casas — uma cidade de mendigos. Esta, informou-me, é a ocupação professa e regular de todos os habitantes: no início da primavera, saem todos e se espalham pelo reino; no outono, voltam, e fazem o que é preciso para as esposas e os filhos.

Segunda-feira, 27. Fiz uma visita a St. Andrews, outrora a maior cidade do reino. Foi oito vezes maior do que é hoje, e praça de grandíssimo comércio; mas o mar, investindo do nordeste, foi destruindo aos poucos o porto e, com ele, o comércio; em consequência, ruas inteiras (que o foram) são hoje prados e jardins. Restam três ruas largas, retas e belas, todas apontando para a velha catedral, que, pelas ruínas, parece ter tido mais de trezentos pés de comprimento, com largura e altura proporcionais. Parece ter excedido a catedral de York, e ao menos igualado qualquer catedral da Inglaterra. Outra igreja, usada depois em seu lugar, traz a data de 1174. Uma torre, de pé perto da catedral, julga-se ter mil e trezentos anos.

Wesley critica as universidades escocesas

Do colégio de St. Leonard resta apenas um monte de ruínas. Dois colégios permanecem. Um deles tem um pátio razoável; mas todas as janelas estão quebradas, como as de um lupanar. Informaram-nos que são os estudantes que fazem isso antes de deixar o colégio. E onde estão, nesse meio-tempo, os seus abençoados dirigentes? Dormem todos profundamente? O outro colégio é um edifício modesto, mas tem uma bela biblioteca recém-erguida. Nos dois colégios, soubemos, há cerca de setenta estudantes — quase o mesmo número da velha Aberdeen. Os da nova Aberdeen não são mais numerosos, nem os de Glasgow. Em Edimburgo, suponho, há uns cem. Assim, quatro universidades contêm trezentos e dez estudantes! E todos chegam aos seus colégios em novembro e voltam para casa em maio! Podem, pois, estudar cinco meses no ano, e vadiar todo o resto! Oh, onde estava o bom senso dos que instituíram tais colégios? Nos colégios ingleses, todos podem residir o ano inteiro, como faziam todos os meus alunos; e eu me julgaria pouco melhor que um salteador de estrada se não lhes desse aula todos os dias do ano, exceto aos domingos.

Sexta-feira, 28 de junho. Faço hoje setenta e três anos, e estou bem mais apto a pregar do que aos vinte e três. Que meios naturais usou Deus para produzir efeito tão maravilhoso? 1) O exercício contínuo e a mudança de ares, viajando mais de quatro mil milhas por ano; 2) o constante levantar às quatro; 3) a capacidade de dormir imediatamente, sempre que preciso; 4) o nunca ter perdido uma noite de sono na vida; 5) duas febres violentas e duas tuberculoses profundas — remédios ásperos, é verdade, mas de admirável serviço, fazendo a minha carne voltar a ser como a de uma criancinha (cf. 2Rs 5.14). Posso acrescentar, por último, a igualdade de ânimo? Sinto e me entristeço; mas, pela graça de Deus, não me inquieto com nada (cf. Fp 4.6). Mas ainda assim, “o socorro que se faz sobre a terra, ele mesmo o faz” — e o faz em resposta a muitas orações.

O contrabando na Cornualha

Sábado, 17 de agosto. Encontramos o senhor Hoskins, em Cubert (Cornualha), vivo, mas já cambaleando sobre a sepultura. Preguei à noite sobre 2 Coríntios 5.1-4 — provavelmente o último sermão que ele me ouvirá. Indaguei depois se aquele escândalo da Cornualha, o saque de navios naufragados, ainda subsistia. Disse ele: “Tanto quanto sempre; só que os metodistas não querem ter parte nisso. Ainda há três meses, um navio naufragou na costa sul, e os estanhadores logo se apoderaram de todos os bens — e até quebraram em pedaços um coche novo que ia a bordo, e carregaram cada lasca dele.” Mas não há como impedir essa vergonhosa violação de todas as leis, da religião e da humanidade? Há, sim. A fidalguia da Cornualha pode impedi-la totalmente quando quiser. Basta que cuide de que as leis se executem com rigor sobre os próximos saqueadores; e, feito o exemplo em dez deles, o próximo naufrágio ficará intocado. Há até um caminho mais brando: basta que combinem despedir qualquer estanhador ou trabalhador envolvido no saque de um naufrágio, anunciando o seu nome, para que nenhum cavalheiro da Cornualha o empregue mais; e nem estanhador nem trabalhador se envolverá de novo nessa má obra.

Domingo, 18. Sendo a passagem pelos areais ruim para a sege, fui a cavalo a St. Agnes, onde a chuva me obrigou a pregar dentro de casa. Na volta para Redruth, choveu a cântaros, e a água achou caminho por todas as nossas roupas. Cheguei cansado; mas, depois de dormir um quarto de hora, todo o cansaço se foi.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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