DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 18

Na ilha de Man; a capela de City Road; a visita a Lorde George Gordon

A pobreza que Wesley encontrou em Bethnal Green, a ilha de Man inteira ouvindo o evangelho, a pedra fundamental e a inauguração da capela de City Road, a despedida da velha Fundição — e a visita a lorde George Gordon, preso na Torre de Londres.

1777–1780 ⏱ 25 min de leituraCity Road

“Oh, por que todos os ricos que temem a Deus não visitam constantemente os pobres?”

(Diário, 15 de janeiro de 1777)

Antes de ler

Este capítulo (1777–1780) acompanha o nascimento de um marco: a capela de City Road, em Londres — da pedra fundamental, assentada sob chuva em 1777, à inauguração em 1778, “perfeitamente asseada, mas não luxuosa”. E, com ela, a despedida da velha Fundição, onde tudo começara: “Que fez Deus ali em quarenta e um anos!” (cf. Nm 23.23). Prédios são instrumentos, não monumentos; o que se celebra não é a pedra, e sim a obra.

Duas cenas de pobreza marcam estas páginas: as famílias de Bethnal Green, onde três crianças seminuas rasgaram em pedaços, num instante, o pão que alguém trouxe; e os quatro mil e quinhentos prisioneiros franceses de Winchester, que Wesley se alegra de encontrar bem tratados. A pergunta dele atravessa os séculos: “Por que todos os ricos que temem a Deus não visitam constantemente os pobres?” A religião pura visita (Tg 1.27; Mt 25.36); e quem visita descobre, como Wesley, que “há outro mundo” para os que aqui só conheceram fome.

Corria o boato de que os metodistas eram “um povo decadente”. Wesley fez o que faria um bom pastor: perguntou a cada assistente da Conferência, um por um, o que via — e aplicou um teste objetivo: onde não há o poder de Deus, um povo desprezado diminui; os metodistas cresciam continuamente; logo, o boato era “mero artifício de Satanás para fazer pender as nossas mãos”. E, sobre os sermões antigos, a resposta é preciosa: “Há quarenta anos eu conhecia e pregava cada doutrina cristã que prego agora.” O evangelho não envelhece (Hb 13.8).

Não faltam as providências e o humor de sempre: os assaltantes combinados da estrada de Bath que nunca o alcançaram em quarenta anos de viagens noturnas; o vento que virou — duas vezes! — durante a oração, desviando o fogo da capela; a queda na escada que só quebrou o almanaque do bolso (“assim o nosso bom Mestre dá ordens aos seus anjos a nosso respeito”, Sl 91.11); e a visita a lorde George Gordon na Torre — o homem mais odiado da Inglaterra naquele momento —, tratado por Wesley com a esperança serena de que “o seu confinamento tome o rumo certo e se lhe torne bênção duradoura”.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

No bairro de Bethnal Green

1777. Quarta-feira, 1º de janeiro. Reunimo-nos, como de costume, para renovar o nosso pacto com Deus. Foi uma hora solene, em que muitos acharam presente o seu poder para curar, e foram capacitados a prosseguir o caminho com forças renovadas.

Quinta-feira, 2. Comecei a expor, em ordem, o livro de Eclesiastes. Nunca antes tive visão tão clara do seu sentido e das suas belezas; nem imaginava que as suas várias partes estivessem tão primorosamente ligadas entre si — todas tendendo a provar aquela grande verdade: não há felicidade fora de Deus.

Quarta-feira, 15. Comecei a visitar os membros da nossa sociedade que moram no bairro de Bethnal Green. Encontrei muitos numa pobreza que poucos podem conceber sem ver. Oh, por que todos os ricos que temem a Deus não visitam constantemente os pobres? Podem empregar melhor parte do seu tempo livre? Certamente não. E assim o acharão naquele dia em que “cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho” (1Co 3.8).

Cena igual vi no dia seguinte, visitando outra parte da sociedade. Não encontrei tamanha aflição nem na prisão de Newgate. Um pobre homem saía arrastando-se do leito de doente para junto da esposa maltrapilha e de três crianças pequenas, mais que seminuas, o retrato vivo da fome. Quando alguém trouxe um pão, todos correram, agarraram-no e o rasgaram em pedaços num instante. Quem não se alegraria de que existe outro mundo?

Começa a capela de City Road

Segunda-feira, 21 de abril. Foi o dia marcado para o lançamento do alicerce da nova capela. A chuva muito nos favoreceu, afastando milhares que pretendiam estar presentes. Ainda assim, as multidões eram tais que foi com grande dificuldade que passei por elas para assentar a primeira pedra. Sobre ela havia uma placa de latão (coberta por outra pedra) em que se gravou: “Assentada pelo senhor John Wesley, em 21 de abril de 1777.” Provavelmente nenhum olho humano tornará a vê-la; ali ficará até que a terra, e as obras que nela há, se queimem.

Domingo, 27. Rompendo o sol, agarrei a oportunidade de pregar a muitos milhares em Moorfields. Todos ficaram quietos como a noite, enquanto eu mostrava como “o Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8).

Sábado, 24 de maio. Às onze preguei em Pocklington, tendo em vista a morte daquela amável senhora Cross. Um jovem fútil, com uma jovem dama, entrou, ficou cinco minutos e saiu de novo, com a mesma despreocupação com que teria ouvido um cantor de baladas. Mencionei à congregação a profunda insensatez e ignorância de tal comportamento. Esses tolinhos elegantes nunca pensaram que, por essa mesma oportunidade, terão de prestar contas diante de homens e anjos!

À noite preguei em York. Eu de bom grado teria descansado no dia seguinte, sentindo o peito bastante alterado; mas, dado o aviso de que eu pregaria em Tadcaster, parti às nove da manhã. Por volta das dez, a sege quebrou. Tomei um cavalo emprestado; e, como não era dos mais macios, em três milhas de trote fui tão completamente “eletrizado” que a dor no peito sarou de vez. Preguei à noite em York; na sexta tomei a diligência; e no sábado à tarde cheguei a Londres.

Wesley na ilha de Man

Sexta-feira, 30. Segui para Whitehaven, onde achei um pequeno navio à minha espera. Depois de pregar à noite, embarquei por volta das oito e, antes das oito da manhã, desembarquei em Douglas, na ilha de Man. Douglas parece-se muito com Newlyn, na Cornualha, na situação, na forma e nas construções; só que é bem maior. Mal desembarcamos, fui abordado pelo senhor Booth, que me vira na Irlanda e cujo irmão é, há muitos anos, membro da sociedade de Coolylough. Uma sege me levou a Castletown. Fiquei muito surpreso com a região: todo o caminho de Douglas a Castletown é tão aprazível e bem cultivado quanto a maior parte da Inglaterra, com muitas casas senhoriais. Castletown lembra bastante Galway, embora menor. Às seis preguei perto do castelo — creio que a todos os habitantes da cidade. Duas ou três moças fúteis mostraram que nada sabiam de religião; todos os demais estavam profundamente sérios.

Domingo, 1º de junho. Às seis preguei no nosso próprio salão e, para minha surpresa, vi ali todas as senhoras. Moças e velhas estavam agora profundamente tocadas, e de bom grado me teriam retido nem que fosse por uma ou duas horas; mas tive de apressar-me, para estar em Peel antes do início do culto.

O senhor Corbett disse que de bom grado me teria convidado a pregar, mas que o bispo o proibira — e proibira também todo o seu clero de admitir qualquer pregador metodista à ceia do Senhor. Mas está algum clérigo obrigado, em lei ou em consciência, a obedecer a tal proibição? De modo nenhum. Nem a vontade do rei obriga súdito inglês algum, se não for secundada por lei expressa. Quanto menos a vontade de um bispo! “Mas o senhor não jurou obedecer-lhe?” Não; nem clérigo algum dos três reinos. É puro erro vulgar. Vergonha que prevaleça quase universalmente.

Como chovia, recolhi-me depois do culto a uma grande maltaria. A maior parte da congregação me seguiu e devorou a Palavra. Abrindo o tempo à tarde, a congregação inteira ficou no adro, e a Palavra de Deus veio com poder. Foi uma hora feliz.

Os homens de Man

Segunda-feira, 2. A maior parte deles esteve presente às cinco da manhã. Povo mais amoroso e simples de coração eu nunca vi. E não admira, pois há na ilha apenas seis papistas, e nenhum dissidente. Calcula-se que contém quase trinta mil pessoas, notavelmente corteses e humanas. Desde que o contrabando foi suprimido, cultivam a terra com diligência; e têm grande pesca de arenque, de modo que o país melhora a cada dia.

O velho castelo de Peel (como a catedral construída dentro dele) é apenas um monte de ruínas. Foi muito grande e extraordinariamente forte, com muitos canhões de bronze; mas estes foram levados para a Inglaterra.

Parti para Douglas na sege de um cavalo, indo comigo a senhora Smyth. Em cerca de uma hora, apesar de tudo o que pude fazer, o cavalo teimoso lançou a roda contra uma grande pedra, e a sege virou num momento. Mas caímos tão suavemente na relva macia que nenhum de nós se feriu. À noite preguei em Douglas, a congregação quase tão grande quanto a de Peel, mas nem de longe tão séria. Antes das dez embarcamos e, por volta do meio-dia de terça, 3, desembarcamos em Whitehaven. Preguei às cinco da tarde; apressando-me a Cockermouth, achei grande congregação à espera no pátio do castelo. Entre nove e dez tomei a sege e, por volta das dez de quarta, 4, cheguei a Settle. À noite preguei perto do mercado, e todos, exceto dois ou três fidalgos, estiveram seriamente atentos. Quinta, 5: por volta do meio-dia cheguei a Otley.

“Ensinado por um menino de sege”

Segunda-feira, 21 de julho. Muito instado a pregar em Jatterson, uma mina de carvão a seis ou sete milhas de Pembroke, comecei pouco depois das sete. A casa logo se encheu, e todo o espaço junto às portas e janelas; o pobre povo bebia cada palavra. Eu terminara o sermão quando um cavalheiro, entrando à força, mandou que o povo fosse para casa cuidar da própria vida. Como usou algumas palavras feias, o meu cocheiro falou com ele. Disse o homem, furioso: “Acha que preciso ser ensinado por um menino de sege?” Respondendo o rapaz: “Realmente, senhor, acho que sim”, a conversa terminou.

Terça-feira, 5 de agosto. Começou a nossa Conferência anual. Indaguei então em particular (por ter-se espalhado por toda parte aquele boato) de cada assistente: “Tem você razão para crer, pela sua própria observação, que os metodistas são um povo decadente? Há decadência ou crescimento na obra de Deus onde você tem estado? As sociedades em geral estão mais mortas ou mais vivas para Deus do que anos atrás?” A resposta quase universal foi: “Se devemos ‘conhecê-los pelos seus frutos’, não há decadência na obra de Deus no meio do povo em geral. As sociedades não estão mortas para Deus: estão tão vivas quanto o têm estado por muitos anos. E consideramos esse boato mero artifício de Satanás para fazer pender as nossas mãos.”

Os metodistas são um povo decadente?

“Mas como decidir a questão?” Você, e você, só podem julgar até onde veem. Não se pode julgar uma parte pela outra — o povo de Londres, digamos, pelo de Bristol. E ninguém senão eu tem oportunidade de os ver por todos os três reinos.

Mas vamos ao ponto. Na maior parte dos lugares, os metodistas ainda são um povo pobre e desprezado, sob opróbrio e muitos incômodos. Portanto, onde quer que o poder de Deus não esteja, eles diminuem. Por aqui, pois, se pode formar juízo seguro: diminuem os metodistas em número, de modo geral? Então diminuem em graça: são um povo caído ou, ao menos, em queda. Mas eles não diminuem em número; crescem continuamente. Logo, não são um povo decadente. A Conferência terminou na sexta como começara: em muito amor.

Wesley funda uma revista

Segunda-feira, 14 de novembro. Tendo-me sido pedido muitas vezes, por quase quarenta anos, que publicasse uma revista, enfim consenti; e comecei agora a reunir materiais para ela. Uma vez começada, inclino-me a pensar que só terminará com a minha vida.

Quarta-feira, 17 de dezembro. Justamente por este tempo havia uma conspiração entre muitos dos cocheiros de posta da estrada de Bath, especialmente os que guiavam de noite, para entregar os passageiros uns nas mãos dos outros: um cocheiro parava no ponto combinado, onde outro esperava para assaltar a sege. Muitos, em consequência, foram roubados; mas eu tive sempre um bom Protetor. Tenho viajado por todas as estradas, de dia e de noite, nestes quarenta anos — e nunca fui detido.

1778. Sexta-feira, 27 de janeiro. Foi o dia designado para o jejum nacional, e foi observado com a devida solenidade. Todas as lojas fechadas; tudo quieto nas ruas; todos os lugares de culto público apinhados; nenhuma comida servida na casa do rei até as cinco da tarde. Ao menos até aqui, reconhecemos que Deus pode dirigir os nossos caminhos.

Domingo, 28 de junho. Faço hoje setenta e cinco anos; e não me sinto, bendito seja Deus, mais fraco do que aos vinte e cinco. Também isto vem do SENHOR!

Wesley e os sermões antigos

Terça-feira, 1º de setembro. Fui a Tiverton. Meditava eu aqui no que há muito ouvi um bom homem dizer: “De sete em sete anos queimo todos os meus sermões; pois é vergonha se não sei escrever sermões melhores agora do que sete anos atrás.” O que quer que outros possam, eu realmente não posso. Não sei escrever um sermão melhor sobre o Bom Mordomo do que o de sete anos atrás; não sei escrever um melhor sobre o Grande Julgamento do que o de vinte anos atrás; não sei escrever um melhor sobre o Uso do Dinheiro do que o de quase trinta anos atrás; e nem sei se posso escrever um melhor sobre a Circuncisão do Coração do que o de quarenta e cinco anos atrás. Talvez eu tenha lido, desde então, quinhentos ou seiscentos livros a mais, e saiba um pouco mais de história ou de filosofia natural; mas não percebo que isso tenha feito qualquer acréscimo essencial ao meu conhecimento da teologia. Há quarenta anos eu conhecia e pregava cada doutrina cristã que prego agora.

Entre as ruínas

Quinta-feira, 3. Por volta do meio-dia preguei em Cathanger, a umas oito milhas de Taunton. É uma casa imensa, construída (como atesta a inscrição sobre o portão) no ano de 1555 pelo sargento Walsh, que tinha então oito mil libras por ano — talvez mais que o equivalente a vinte mil de hoje. Mas a família outrora famosa está esquecida; a propriedade desfez-se quase em nada, e três quartos dos magníficos edifícios jazem rentes ao pó. Preguei no grande salão, parecido com o do Lincoln College, a uma congregação muito séria.

À noite preguei em South Petherton, outrora lugar de renome e capital de um reino saxão, como atestam um palácio do rei Ina ainda de pé e uma igreja muito grande e antiga. Suponho que o último golpe lhe foi dado pelo juiz Jeffreys que, depois da rebelião de Monmouth, enforcou tantos habitantes, e afugentou tantos outros, que a cidade dificilmente tornará a levantar a cabeça.

A capela de City Road é inaugurada

Domingo, 1º de novembro. Foi o dia designado para a abertura da nova capela em City Road. É perfeitamente asseada, mas não luxuosa, e comporta bem mais gente que a Fundição. Muitos temiam que as multidões, afluindo de todas as partes, causassem grande perturbação. Mas foram felizmente desenganados: não houve nenhuma; tudo foi quietude, decoro e ordem. Preguei sobre parte da oração de Salomão na dedicação do templo; e, tanto de manhã quanto à tarde (quando preguei sobre os cento e quarenta e quatro mil que estavam com o Cordeiro no monte Sião — Ap 14.1), Deus esteve eminentemente presente no meio da congregação.

Segunda-feira, 2. Fui a Chatham e preguei à noite a uma congregação viva e amorosa. Terça, 3: fui por água a Sheerness. Sendo o nosso salão pequeno demais para o povo que acorreu, mandei pedir ao governador (o que antes me fora concedido) o uso da capela. Recusou-me, com bastante descortesia, fingindo duvidar de que eu fosse ordenado! Preguei, pois, no nosso próprio salão, a quantos coube.

Quarta-feira, 4. Vi a velha igreja de Minster, outrora edifício espaçoso e elegante. Está aprazivelmente situada no alto de uma colina e domina toda a região ao redor. Fomos dali a Queenborough, que contém pouco mais de cinquenta casas — e envia dois membros ao Parlamento. Certamente toda a ilha de Sheppey é hoje apenas sombra do que já foi.

Quinta-feira, 5. Voltei a Chatham e, na manhã seguinte, tomei a diligência para Londres. No fim de Stroud, preferi subir a ladeira a pé, deixando que o coche me seguisse. Mas ele não teve grande pressa: só me alcançou depois de eu ter andado mais de cinco milhas. Pouco me importaria se fossem dez: quanto mais ando, melhor durmo.

Domingo, 15. Tendo prometido pregar à noite na igreja de St. Antholine, pedira a alguém que deixasse um coche pronto à porta ao fim do culto na capela nova. Mas ele se esqueceu; de modo que, depois de pregar e reunir a sociedade, tive de caminhar o mais depressa que pude até a igreja. O povo estava tão comprimido que foi difícil entrar. A igreja estava quentíssima. Mas logo o esqueci, pois aprouve a Deus enviar chuva de graça sobre a sua herança.

Domingo, 29. Pediram-me que pregasse um sermão beneficente na igreja de St. Luke, Old Street. Duvido que jamais tenha estado tão cheia; o temor de Deus parecia possuir todo o auditório. À tarde preguei na capela nova; e às sete, em St. Margaret, Rood Lane, tão apinhada quanto St. Luke. Terá então cessado o escândalo da cruz (cf. Gl 5.11)?

Wesley vai para o norte

1779. Segunda-feira, 15 de março. Comecei a minha volta pela Inglaterra e Escócia, continuando o tempo encantador — tal como o homem mais velho em vida jamais viu em janeiro, fevereiro e meado de março. À noite preguei em Stroud; na manhã seguinte, em Gloucester. A capela de Stanley encheu-se por completo às duas. Fazia dezoito anos que eu não ia lá: muitos dos que vi então estavam agora grisalhos, e muitos tinham ido para o seio de Abraão. Que os sigamos, como eles seguiram a Cristo!

Quinta-feira, 25. Preguei na casa nova que o senhor Fletcher construiu em Madeley Wood. O povo daqui é exatamente como o de Kingswood, só que mais simples e dócil. Mas, por falta de disciplina, o imenso trabalho que ele tem tido com eles não deu o fruto que se poderia esperar.

Preguei em Shrewsbury à noite e, na sexta, 26, por volta do meio-dia, no salão de assembleias de Broseley. Foi bom estarmos à sombra, pois o sol ardia como no auge do verão. Caminhamos dali a Coalbrookdale e vimos a ponte que em breve será lançada sobre o Severn. É um só arco, de cem pés de vão, cinquenta e dois de altura e dezoito de largura — todo de ferro fundido, pesando muitas centenas de toneladas. Duvido que o Colosso de Rodes pesasse muito mais.

Quinta-feira, 15 de abril. Fui a Halifax, onde uma coisinha causara ultimamente grande perturbação: um anjo tocando trombeta fora colocado sobre o dossel do púlpito. Muitos eram veementemente contra, outros veementemente a favor; mas logo se pôs fim total à contenda — pois o anjo desapareceu. As congregações, de manhã e à noite, foram muito grandes; e a obra de Deus parece crescer em profundidade tanto quanto em extensão.

Domingo, 2 de maio. O doutor Kershaw, vigário de Leeds, pediu-me que o auxiliasse na ceia. Foi uma hora solene: éramos dez clérigos e setecentos ou oitocentos comungantes. O senhor Atkinson pediu que eu pregasse à tarde. Raramente se vira ali tal congregação; mas preguei a uma bem maior na nossa própria casa, às cinco — e não senti falta de forças.

Segunda-feira, 28 de junho. Preguei na nova casa de pregação da baía de Robin Hood, e segui para Scarborough. Na quarta, 30, a caminho de Bridlington, vi o cabo de Flamborough: uma rocha imensa, que se ergue a prumo do mar a enorme altura, dando abrigo a inumerável multidão de aves marinhas de várias espécies. Preguei à noite em Bridlington, e ouvi depois um exemplo muito incomum de afeto paterno: um cavalheiro da cidade tinha uma filha predileta, que estabeleceu numa loja de chapéus. Algum tempo depois, ela se preocupou com a própria alma e julgou seu dever entrar para a sociedade. Diante disso, o bom pai proibiu-lhe a casa, exigiu todo o dinheiro que gastara com ela e ordenou que vendesse imediatamente todas as mercadorias para efetuar o pagamento!

Wesley escoltado por presidiários

Quarta-feira, 21 de julho. Chegando a Coventry, achei anunciada a minha pregação no parque; mas a chuva pesada a impediu. Mandei pedir ao prefeito o uso da Casa da Câmara. Recusou — mas, no mesmo dia, cedeu-a a um mestre de dança. Fui então ao mercado das mulheres. Muitos logo se reuniram e ouviram com toda a seriedade. Preguei ali de novo na manhã seguinte, quinta, 22, e mais uma vez à noite. Tomei então a diligência para Londres. Fui nobremente escoltado: atrás do coche iam dez condenados, blasfemando alto e sacudindo as correntes; ao meu lado, um homem com um bacamarte carregado, e outro em cima do coche.

Terça-feira, 3 de agosto. Começou a nossa Conferência; prosseguiu e terminou em paz e amor. Domingo, 8: estive em West Street pela manhã e na capela nova à noite, quando me despedi solenemente da afetuosa congregação. Foi a última noite que passei na Fundição. Que fez Deus ali em quarenta e um anos!

Sexta-feira, 13 de agosto (Monmouth). Descendo uma escada íngreme, o meu pé escorregou, e caí vários degraus. Batendo na quina de um deles, quebrou-se em pedaços a capa de um almanaque que eu trazia no bolso. A quina de outro degrau apanhou a fivela do meu sapato direito e partiu em dois o fecho de aço; mas eu não me feri. Assim o nosso bom Mestre dá aos seus anjos ordens a nosso respeito (Sl 91.11)! À noite preguei em Brecknock.

“Faça o seu testamento antes de dormir”

Quinta-feira, 23 de setembro. À noite, sentou-se atrás de mim, no púlpito de Bristol, um que foi dos nossos primeiros mestres em Kingswood. Pouco depois de deixar a escola, deixou também a sociedade. As riquezas então afluíram sobre ele; e com elas, não tendo parentes, o senhor Spencer planejava fazer muito bem — depois da sua morte. “Mas Deus lhe disse: Louco!” (Lc 12.20). Duas horas depois, ele morreu sem testamento, e deixou todo o seu dinheiro para ser disputado a esmo! Leitor: se ainda não o fez, faça o seu testamento antes de dormir!

Quarta-feira, 6 de outubro. Às onze preguei em Winchester, onde há quatro mil e quinhentos prisioneiros franceses. Alegrei-me de saber que têm fartura de comida saudável e são tratados, em todos os aspectos, com grande humanidade.

À noite preguei em Portsmouth Common. Quinta, 7: vi o acampamento contíguo à cidade e admirei-me de achá-lo tão limpo e asseado quanto o jardim de um cavalheiro. Mas não havia capelão. Os soldados ingleses desta era nada têm a ver com Deus!

Sexta-feira, 8. Tomamos a sege, como de costume, às duas e, por volta das onze, chegamos a Cobham. Com um pouco de folga, julguei não poder empregá-la melhor do que passeando pelos jardins. Dizem ocupar quatrocentos acres, e são admiravelmente traçados. Excedem em muito os celebrados jardins de Stowe. Esta noite dormi na casa nova de Londres. Quantas noites mais terei de passar ali?

1780. Domingo, 23 de janeiro. À noite recolhi-me a Lewisham, para preparar matéria (quem o creria?) para uma revista mensal. Sexta, 4 de fevereiro, sendo o jejum nacional, preguei primeiro na capela nova e depois em St. Peter, Cornhill. Que diferença entre as congregações! Mas destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão (Mt 3.9).

Wesley na colônia alemã

Segunda-feira, 17 de abril. Deixei Leeds numa das manhãs mais ásperas que já vi: chuva, granizo, neve e vento em abundância. Por volta das nove preguei em Bramley; entre uma e duas, em Pudsey. Depois caminhei até Fulneck, a colônia alemã (dos morávios). O senhor Moore nos mostrou a casa, a capela, o salão, os dormitórios, os aposentos das viúvas, dos solteiros e das solteiras; mostrou-nos também as oficinas de vários tipos, e as lojas de secos e molhados, fazendas e ferragens, com que — como também com o pão da sua padaria — abastecem a região vizinha. Não vejo o que senão o grande poder de Deus pode impedi-los de acumular milhões: pois 1) compram todos os materiais à vista e na melhor fonte; 2) têm mais de cem rapazes, mais de cinquenta moças, muitas viúvas e mais de cem casados, todos empregados de manhã à noite, sem interrupção, em manufaturas várias — não por salário de oficial, mas por salário nenhum, além de comida e roupa muito simples; e 3) têm saída rápida para todos os seus produtos, e vendem tudo à vista. Mas podem eles ajuntar tesouro na terra e, ao mesmo tempo, ajuntar tesouro no céu (Mt 6.19-20)?

Sábado, 20 de maio. Fiz mais um passeio por Holyrood House, a mansão dos antigos reis. Mas que aparência melancólica tem agora! As salas majestosas estão sujas como estrebarias; as cores das tapeçarias, de todo desbotadas; vários quadros, cortados e desfigurados. O teto da capela real desabou; e os ossos de Jaime V, e do outrora belo lorde Darnley, estão espalhados como ossos de ovelhas ou bois. Tal é a grandeza humana! Não vale mais “um cachorro vivo do que um leão morto” (Ec 9.4)?

Domingo, 21. A chuva me impediu de pregar ao meio-dia na colina do Castelo. À noite a casa esteve bem cheia, e fui capacitado a falar palavras fortes. Mas não sou pregador para o povo de Edimburgo.

Terça-feira, 23. Um cavalheiro me levou a ver o castelo de Roslin, a oito milhas de Edimburgo. Está todo em ruínas; só uma pequena casa de moradia foi construída sobre uma parte dele. A situação é extraordinariamente bela, na encosta de uma montanha íngreme, suspensa sobre um rio, do qual se ergue outra montanha, igualmente íngreme e vestida de bosque. A pequena distância está a capela, em perfeita conservação, por dentro e por fora. Eu jamais pensaria que pertencera a alguém menos que um príncipe soberano! O interior é lavrado em pedra, com variedade de histórias da Escritura, com elegância que não creio se ache outra vez na Escócia — talvez nem em toda a Inglaterra.

A tapeçaria do bispo de Durham

Quarta-feira, 31. Fui à casa do senhor Parker, em Shincliffe, perto de Durham. Sendo a congregação grande demais para caber na casa, fiquei junto à porta dele. Parecia que a aldeia inteira estava pronta a receber a verdade no amor dela. Talvez o seu fervor provoque zelo no povo de Durham.

À tarde vimos o castelo de Durham, residência do bispo. A situação é maravilhosa, cercada pelo rio e dominando toda a região. Muitos dos aposentos são amplos e majestosos, mas o mobiliário é pobre além da imaginação. Não sei onde vi coisa igual na casa de um cavalheiro de quinhentas libras por ano. Nas câmaras maiores, a tapeçaria está desbotada — além de grosseira e sem gosto. Um só exemplo: na visão de Jacó, vê-se de um lado uma escadinha mesquinha e um anjo subindo por ela na postura de um limpador de chaminés; e, do outro, Jacó a fitá-lo, debaixo de um grande chapéu agaloado de prata.

Segunda-feira, 5 de junho (York). Um jornalista espirituoso publicou hoje um parágrafo, provavelmente para fazer graça, sobre a grande pensão que o famoso Wesley recebia por defender o rei. Isso aumentou de tal modo a congregação da noite que dezenas tiveram de ir embora. E Deus aplicou a muitos corações aquela palavra: “Não destruirei a cidade por amor dos dez” (Gn 18.32).

Segunda-feira, 12. Por volta das onze preguei em Newton-upon-Trent, a uma congregação grande e muito fidalga. Dali fomos a Newark, mas os nossos amigos divergiam quanto ao lugar da pregação. Acharam por fim um lugar conveniente, coberto de três lados e aberto para a rua no quarto. Comportou bem duas ou três mil pessoas, que pareciam ouvir como quem ouve pela vida. Só um homem corpulento, extremamente bêbado, fez barulho e desordem — até que a sua mulher o agarrou pela gola, deu-lhe dois ou três sonoros tapas na orelha e o arrastou dali como a um bezerro. Ele, porém, escapou-lhe das mãos, esgueirou-se para o meio do povo e ficou quieto como um cordeiro.

Wesley na torre de Boston

Sexta-feira, 16. Seguimos para Boston, a maior cidade do condado depois de Lincoln. Do alto da torre da igreja (que suponho ser de longe a mais alta do reino) tivemos vista não só de toda a cidade, mas de toda a região adjacente. Outrora esta cidade ficava nos pântanos; mas os pântanos desapareceram: grande parte virou pastagem, e parte, terra de lavoura. Às seis, a casa conteve a congregação, que toda se portou do modo mais decoroso.

Quarta-feira, 28. Fui a Sheffield; mas a casa não estava pronta, e preguei na praça. Mal posso crer que entro hoje no septuagésimo oitavo ano da minha idade. Pela bênção de Deus, estou exatamente como quando entrei no vigésimo oitavo. Isto fez Deus — principalmente pelo meu exercício constante, pelo levantar cedo e pelo pregar de manhã e à noite.

Segunda-feira, 11 de setembro. Aproximando-me de Bath, perguntava-me que teria reunido tamanha multidão — até saber que um dos deputados da cidade dera um boi para ser assado inteiro. Mas a festa foi tristemente interrompida por chuva pesada, que os mandou para casa mais depressa do que vieram; e muitos deles se abrigaram na nossa capela, onde suponho que nunca tinham estado.

Wesley em Sevenoaks

Segunda-feira, 16 de outubro. Fui a Tunbridge Wells e preguei a uma congregação séria sobre Apocalipse 22.12. Terça, 17: voltei a Sevenoaks e, à tarde, caminhei até a residência do duque de Dorset. O parque é o mais aprazível que já vi, tão elegantemente dispostas as árvores. A casa, de pelo menos duzentos anos, é imensa: consiste em dois quadrados, consideravelmente maiores que os dois pátios do Lincoln College. Creio que nos mostraram mais de trinta salas, além do salão, das capelas e de três galerias.

Os quadros são inumeráveis — penso que quatro vezes mais que no castelo de Blenheim. Para uma das galerias abre-se o quarto do rei, ornamentado acima de todos os demais. As cortinas da cama são de tecido de ouro, tão ricamente lavrado que é preciso alguma força para puxá-las. As mesas, as cadeiras, as molduras dos espelhos, tudo é chapeado de prata. A tapeçaria, representando toda a história de Nabucodonosor, está fresca como se recém-tecida. Mas as cortinas de ouro estão extremamente sujas e parecem mais cobre do que ouro; a prata das mesas e cadeiras, baça como chumbo. E, para completar, Nabucodonosor entre as feras, com as suas garras de águia, ostenta grande coroa na cabeça e veste escarlate e ouro.

Wesley visita lorde George na Torre

Sábado, 16 de dezembro (Londres). Recebendo segunda mensagem de lorde George Gordon, desejoso de ver-me, escrevi uma linha a lorde Stormont que, na segunda, 18, me enviou uma autorização para visitá-lo. Na terça, 19, passei uma hora com ele no seu aposento na Torre. A conversa girou sobre o papismo e a religião. Mostrou-se bem familiarizado com a Bíblia, e tinha abundância de outros livros, bastantes para guarnecer um gabinete. Fui agradavelmente surpreendido por não o ouvir queixar-se de pessoa ou coisa alguma; e não posso deixar de esperar que o seu confinamento tome o rumo certo e se lhe torne bênção duradoura.

Sexta-feira, 22. A pedido de alguns amigos, acompanhei-os ao Museu Britânico. Que campo imenso para a curiosidade! Uma grande sala está cheia, de alto a baixo, de coisas trazidas do Taiti; duas ou três outras, de coisas desenterradas das ruínas de Herculano! Sete enormes aposentos guardam livros raros; cinco, manuscritos; dois, fósseis de todo tipo, e os demais, animais diversos. Mas que conta dará ao Juiz de vivos e mortos um homem que gastou a vida colecionando tudo isso?

Domingo, 24. Querendo aproveitar ao máximo este dia solene, preguei de manhã cedo na capela nova; às dez e às quatro, em West Street; e, à noite, reuni a sociedade em cada extremidade da cidade.

Sexta-feira, 29. Vi o libelo do grande júri contra lorde George Gordon. Fiquei atônito! Que chocante insulto à verdade e ao bom senso! Mas é a forma usual. Tanto maior a vergonha. Por que o Parlamento não remove da nossa nação esse escândalo?

Sábado, 30. Acordando entre uma e duas da madrugada, observei uma luz brilhante sobre a capela. Concluí logo que havia fogo por perto, provavelmente no depósito de madeira contíguo. Se assim fosse, eu sabia que em pouco estaríamos em cinzas. Primeiro chamei toda a casa à oração; depois, saindo, achamos o fogo a umas cem jardas, irrompido enquanto o vento soprava do sul. Mas um marinheiro gritou: “Atenção! Atenção! O vento virou num momento!” E virou mesmo, para o oeste, enquanto orávamos — e afastou de nós as chamas. Voltamos então com ações de graças, e descansei bem o resto da noite.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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