DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 19
Um circuito ideal; Wesley aos oitenta anos; a visita à Holanda; episódios na Escócia
A tempestade no mar da Irlanda, o “circuito ideal” da ilha de Man, a encantadora viagem à Holanda aos oitenta anos, a decisão que enviou pregadores ordenados à América — e o sermão aos quarenta e sete condenados de Newgate.
“Só podemos dizer: “O SENHOR reina!” Enquanto vivermos, vivamos para ele.”
(Diário, 28 de junho de 1784, ao entrar nos 82 anos)Antes de ler
Aos oitenta anos, Wesley descobre “um novo mundo”: a Holanda. As páginas da viagem de 1783 estão entre as mais encantadoras de todo o Diário — os canais de Roterdã, a limpeza que não deixa “um grão de poeira”, a reverência dos cultos, as crianças belíssimas, a hospitalidade que derruba um preconceito: “Quão enganados estávamos a respeito dos holandeses! Não encontrei povo mais calorosamente afetuoso em toda a Europa.” E a conclusão vale para toda a igreja: entre os que têm o mesmo Espírito, “eu estava tão em casa em Utrecht e Amsterdã quanto em Bristol e Londres” (Ef 4.4-6).
Guarde-se a data: 1º de setembro de 1784. “Estando agora esclarecido no meu próprio espírito, dei um passo que há muito pesava na mente”: Wesley designa Whatcoat e Vasey — com o doutor Coke — para servir “as ovelhas desamparadas da América”, recém-independente e sem ministros para batizar e servir a Ceia. Foi decisão controversa (o próprio Carlos discordou), mas nascida de um princípio claro: a missão não pode esperar indefinidamente pelas estruturas (At 13.2-3). Dali nasceria a Igreja Metodista Episcopal americana — tronco do qual, mais tarde, brotaria também a Igreja Metodista Livre.
Dois números falam alto sobre dinheiro: as contas anuais da obra somavam mais de três mil libras — “mas isso nada é para mim: o que recebo dela por ano não é nem mais nem menos que trinta libras”. E, quando ladrões invadiram a sua casa, todo o prejuízo “mal chegou a seis libras”. O homem que fez milhões circular para os pobres viveu e morreu desprendido: “tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” (1Tm 6.6-8).
E o evangelho segue até os limites: no Natal de 1784, Wesley prega em Newgate aos quarenta e sete condenados à morte — “havia algo terrível no tinir das suas correntes” — sobre a alegria no céu por um pecador que se arrepende (Lc 15.7); dias depois, vinte foram executados, e cinco morreram em paz com Deus. Ao mesmo tempo, ele adverte os metodistas acomodados que abandonaram a pregação das cinco da manhã: “perderam o seu primeiro amor” — e a receita é a de Apocalipse: arrepender-se e voltar às primeiras obras (Ap 2.4-5).
— Bispo Ildo Mello
1781. Quinta-feira, 25 de janeiro. Passei uma hora agradável num concerto dos meus sobrinhos. Mas eu estava um pouco fora do meu elemento entre lordes e damas. Prefiro música simples e companhia simples.
Uma travessia tempestuosa
Segunda-feira, 9 de abril. Desejando estar na Irlanda o quanto antes, apressei-me a Liverpool e achei um navio pronto a zarpar; mas o vento era contrário, até que, na quinta de manhã, o capitão veio às pressas dizer que o vento virara de todo favorável. Embarcamos, pois — o senhor Floyd, Snowden, Joseph Bradford e eu, com duas das nossas irmãs. Mas mal estávamos no mar, o vento virou de todo contrário e subiu mais e mais. Em uma hora eu estava indisposto como não estivera em quarenta anos. Por dois dias não pude engolir nem o tamanho de uma ervilha de coisa sólida, e pouquíssimo líquido; estava moído e dolorido da cabeça aos pés, e mal podia virar-me na cama.
Toda a sexta-feira, crescendo a tempestade, o mar ficou cada vez mais grosso. No sábado de madrugada fecharam-se as escotilhas, o que, com o movimento violento, deixou os nossos cavalos tão turbulentos que temi que tivéssemos de matá-los, para que não danificassem o navio. A senhora S. arrastou-se então até mim, lançou os braços sobre mim e disse: “Ó senhor, morreremos juntos!” Tínhamos a essa altura três pés de água no porão, embora fosse navio extremamente leve. Entretanto, éramos furiosamente impelidos para uma costa a sotavento; e, quando o capitão gritou a ordem, o navio não obedeceu ao leme. Chamei os nossos irmãos à oração, e achamos livre acesso ao trono da graça. Pouco depois entramos, não sei como, no porto de Holyhead, depois de suficientemente batidos por ventos e ondas por dois dias e duas noites.
Quanto mais eu considerava, mais me convencia de que não era a vontade de Deus que eu fosse à Irlanda naquele momento. Tomamos, pois, a diligência sem demora e, na tarde seguinte, chegamos a Chester. Considerei então onde poderia passar alguns dias com maior proveito, e logo pensei na ilha de Man e nas partes do País de Gales que eu não podia ver no meu roteiro ordinário. Depois de um ou dois dias de descanso, na quarta, 18, parti para Brecon, pregando ao meio-dia em Whitchurch e à noite em Shrewsbury. Passando por Broseley, tive vista da ponte de ferro sobre o Severn — suponho que a primeira e única da Europa. Não será imitada tão cedo.
Terça-feira, 1º de maio. Cavalguei a St. David’s, dezessete milhas medidas de Haverford. Surpreendeu-me achar toda a terra, nas últimas nove ou dez milhas, tão fértil e bem cultivada. Mas a cidade em si é um espetáculo melancólico: vi nela uma única casa razoavelmente boa; as demais eram verdadeiros casebres miseráveis. Não me lembro de cidade tão pobre nem na Irlanda. A catedral foi uma fábrica grande e majestosa, muito superior a qualquer outra do País de Gales. Mas grande parte já desabou, e o resto se apressa para a ruína — um fruto abençoado (entre muitos) de bispos que residem longe da sua sé. Há aqui os túmulos e efígies de muitos notáveis antigos — Owen Tudor em particular. Mas os zelosos cromwellianos quebraram-lhes narizes, mãos e pés, e os desfiguraram quanto puderam. Que lhes tinham feito os Tudor? Ora: eram progenitores de reis.
Na ilha de Man
Quarta-feira, 30. Embarquei no paquete para a ilha de Man. Tivemos calmaria por muitas horas; desembarcamos, porém, em Douglas na sexta de manhã. Os dois pregadores me esperavam ali, e me deram relato animador da obra de Deus, que segue crescendo. Antes do jantar passeamos num jardim próximo da cidade, aberto a todos os moradores — maravilhosamente aprazível, mas nem tanto quanto os jardins do “Convento” (assim ainda se chama), não longe dali, deliciosamente traçados, que pouco ficam a dever aos melhores do seu tamanho na Inglaterra.
Às seis preguei no mercado, a uma grande congregação; todos, exceto algumas crianças e duas ou três moças estouvadas, seriamente atentos.
Sábado, 2 de junho. Cavalguei a Castletown, por uma região aprazível e (agora) bem cultivada. Às seis preguei no mercado, à maior parte dos habitantes, sobre “uma só coisa é necessária” (Lc 10.42). Creio que a palavra levou convicção ao coração de quase todos os que a ouviram. Depois caminhei até a casa de um dos nossos amigos ingleses, a duas milhas da cidade. Todo o dia observei, onde quer que estivesse, uma circunstância que me surpreendeu: na Inglaterra, em geral, ouvimos os pássaros cantar de manhã e à tarde; mas aqui os tordos e várias outras aves cantavam o dia inteiro, sem interromper nem no calor do meio-dia, onde tivessem algumas árvores para sombreá-los.
Pregando em Peel
Domingo, 3 (Pentecostes). Preguei de novo no mercado, por volta das nove, a congregação ainda maior que a anterior, sobre “não me envergonho do evangelho de Cristo” (Rm 1.16). Quão poucos dos ouvintes elegantes poderiam dizer o mesmo! Às quatro da tarde preguei em Barewle, nas montanhas, a congregação maior que a da manhã. A chuva começou logo depois de eu começar, mas cessou em poucos minutos. Preguei sobre “todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2.4), e mostrei em que sentido isso pertence a nós e aos nossos filhos.
Entre seis e sete preguei à beira-mar, em Peel, à maior congregação que vi na ilha; só a sociedade quase enchia a casa. Logo percebi de que espírito eram. Dificilmente na Inglaterra (a não ser, talvez, em Bolton) achei povo tão simples, tão fervoroso, tão singelo.
Segunda-feira, 4. Tivemos às cinco uma congregação como se esperaria numa noite de domingo. Cavalgamos então, por entre e por sobre as montanhas, até Beergarrow, onde apliquei, a uma congregação simples e amorosa, “se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7.37). A poucas milhas dali chegamos a Bishop’s Court, onde o bom bispo Wilson residiu por quase sessenta anos. Há algo de venerável, embora não de magnífico, no antigo palácio; e está sem dúvida situado num dos lugares mais aprazíveis da ilha inteira.
Terça-feira, 5. À tarde cavalgamos, por uma região aprazível e fértil, até Ramsey, mais ou menos do tamanho de Peel e de construção mais regular. A chuva de novo ficou suspensa enquanto eu pregava a quase toda a cidade; e não vi um só ouvinte desatento.
Um circuito ideal
Quarta-feira, 6. Esta manhã cavalgamos pela parte mais arborizada e de longe mais aprazível da ilha — uma faixa de terra fértil ao pé das montanhas, de Ramsey, por Sulby, até Kirkmichael. Paramos aqui para ver as lápides simples daqueles dois bons homens, o bispo Wilson e o bispo Hildesley, cujos restos jazem lado a lado na extremidade leste da igreja. Mal chegáramos a Peel, a chuva engrossou; mas a casa de pregação conteve todos os que puderam vir. Depois, o senhor Crook pediu que eu me reunisse com os cantores. Fui agradavelmente surpreendido: não ouvi canto melhor nem em Bristol nem em Londres. Muitos, homens e mulheres, têm vozes admiráveis, e cantam com bom juízo. Quem esperaria isso na ilha de Man?
Quinta-feira, 7. Reuni o nosso pequeno corpo de pregadores: vinte e dois ao todo. Nunca vi na Inglaterra tantos pregadores robustos e de boa presença juntos. Se o seu espírito corresponde à sua aparência, não sei o que pode resistir-lhes. À tarde cavalguei a Dawby e preguei a uma congregação muito grande e muito séria.
Sexta-feira, 8. Tendo agora visitado a ilha toda — leste, sul, norte e oeste —, convenci-me plenamente de que não temos circuito como este, nem na Inglaterra, nem na Escócia, nem na Irlanda. Está fechado para o mundo e, tendo pouco comércio, quase não é visitado por forasteiros. Não há papistas, nem dissidentes de espécie alguma, nem calvinistas, nem disputadores. Não há oposição — nem do governador (homem brando e humano), nem do bispo (homem bom), nem do grosso do clero. De modo que temos hoje antes muito pouco, que muito opróbrio: o escândalo da cruz, por ora, cessou. Os nativos são povo simples e sem artifício; sem polimento, isto é, sem poluição; poucos são ricos ou fidalgos; a parte de longe maior, moderadamente pobre. Os pregadores locais são homens de fé e amor, unidos numa só mente e num só juízo. Falam manês ou inglês e seguem um plano regular, que o assistente lhes dá mensalmente.
Calcula-se que a ilha tem trinta mil habitantes. Sendo metade adultos, e contendo as nossas sociedades duas mil e cem ou duas mil e duzentas pessoas, que bela proporção! Onde já se viu coisa igual, em qualquer parte da Grã-Bretanha ou da Irlanda?
Sábado, 9. De bom grado teríamos zarpado, mas o forte vento nordeste o impediu. Segunda, 11: amainando, fizemo-nos ao mar; mas ele logo morreu em calmaria, e tive tempo de reler e considerar a Viagem à Escócia do doutor Johnson. Ouvira eu que ele fora severo com a nação inteira; mas nada disso encontrei. Ele simplesmente menciona (sem amargura alguma) o que aprova ou desaprova. Muitas das reflexões são extremamente judiciosas; algumas, muito comoventes.
Terça-feira, 12. Havendo vários passageiros a bordo, ofereci-lhes um sermão, que aceitaram de boa vontade. E todos se portaram com o máximo decoro, enquanto eu mostrava que “os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5.3). Logo depois levantou-se uma brisa que, de madrugada, nos levou a Whitehaven.
Quinta-feira, 28. Preguei às onze na rua principal de Selby, a uma congregação grande e quieta; e à noite em Thorne. Entrei hoje no meu septuagésimo nono ano; e, pela graça de Deus, não sinto mais as enfermidades da velhice do que aos vinte e nove. Sexta, 29: preguei em Crowle e em Epworth. Tenho pregado três vezes ao dia por sete dias seguidos; mas é exatamente como se tivesse sido uma só.
“Um som baixo, suave e solene”
1782. Sexta-feira Santa, 29 de março. Cheguei a Macclesfield bem a tempo de ajudar o senhor Simpson no laborioso serviço do dia. Preguei por ele de manhã e à tarde; e administramos a ceia a cerca de mil e trezentas pessoas. Enquanto a administrávamos, ouvi um som baixo, suave e solene, exatamente como o de uma harpa eólia. Durou cinco ou seis minutos, e tocou de tal modo a muitos que não puderam conter as lágrimas; então foi morrendo aos poucos. Estranho que nenhum outro organista (que eu saiba) pense nisso! À noite preguei no nosso salão. Ali houve aquela harmonia que a arte não sabe imitar.
Terça-feira, 14 de maio. Anos atrás montaram-se em Epworth quatro fábricas de fiação e tecelagem, que empregam grande número de moças, meninos e meninas. A conversa de todos eles era profana e dissoluta ao último grau. Mas alguns, entrando por acaso na reunião de oração, foram subitamente feridos no coração; e não descansaram enquanto não ganharam os companheiros. A cena inteira mudou. Em três das fábricas não se achou mais imoralidade nem profanidade, pois Deus pusera nas suas bocas um cântico novo (Sl 40.3), e as blasfêmias se tornaram louvor. Visitei hoje essas três, e achei que a religião lançara nelas raízes profundas. Não se ouvia entre eles palavra leviana, e vigiam uns pelos outros em amor.
Sexta-feira, 31. Hospedado com lady Maxwell em Saughtonhall (uma boa mansão antiga, a três milhas de Edimburgo), ela me pediu um breve discurso para alguns dos seus vizinhos pobres. Fi-lo às quatro da tarde, sobre a história do rico e Lázaro. Por volta das sete preguei na nossa casa em Edimburgo, e desobriguei plenamente a minha alma.
Sábado, 1º de junho. Passei um tempinho com quarenta crianças pobres que lady Maxwell mantém na escola. Progridem depressa na leitura e na escrita, e aprendem os princípios da religião. Mas observo em todas o amor aos enfeites. Por mais pobres que sejam, hão de ter o seu retalhinho de luxo: muitas não têm sapato no pé, mas a menina em farrapos não dispensa os seus babados.
Domingo, 2. O senhor Collins pretendia pregar na colina do Castelo ao meio-dia; mas o enfadonho ministro nos reteve na igreja até passada a uma. Às seis a casa estava bem cheia, e não me esquivei de declarar todo o conselho de Deus. Quase me admiro de mim mesmo: raramente falo em lugar algum tão asperamente quanto na Escócia. E, contudo, a maior parte do povo ouve e ouve — e fica exatamente como era.
Wesley entra no octogésimo ano
Sábado, 15 (Kelso). Descendo eu a escada, o tapete escorregou-me debaixo dos pés e, não sei como, girou-me e lançou-me de costas, de cabeça, por seis ou sete degraus. Foi impossível deter-me antes de chegar embaixo. A minha cabeça ressaltou uma ou duas vezes na quina dos degraus de pedra; mas a sensação foi exatamente a de cair sobre uma almofada. O doutor Douglas acorreu, bem assustado — sem necessidade: levantei-me são como sempre, sem outro dano que a perda de um pouco de pele de um ou dois dedos. Não dá Deus ordens aos seus anjos a nosso respeito, para nos guardarem em todos os nossos caminhos (Sl 91.11)?
Sexta-feira, 28. Entrei no meu octogésimo ano; mas, bendito seja Deus, o meu tempo não é “canseira e enfado” (Sl 90.10). Não sinto mais dores nem enfermidades do que aos vinte e cinco. Isto imputo: 1) ao poder de Deus, que me apronta para aquilo a que me chama; 2) a viajar quatro ou cinco mil milhas por ano; 3) a poder dormir, de dia ou de noite, sempre que preciso; 4) a levantar-me a hora certa; e 5) a pregar constantemente — em particular de manhã.
Sábado, 6 de julho. Cheguei a Birmingham e preguei mais uma vez na velha e sombria casa de pregação.
Domingo, 7. Abri a casa nova às oito, e ela conteve bem o povo; mas não à noite: muitos tiveram então de ir embora. No meio do sermão ouviu-se enorme estrondo, causado pela quebra de um banco em que algumas pessoas estavam de pé. Ninguém se feriu; houve, porém, pânico geral no primeiro momento. Em poucos minutos tudo estava quieto.
Domingo, 14. Ouvi na igreja velha de Birmingham um sermão que o pregador proferiu com grande veemência contra estes “entusiastas itinerantes e desmiolados”. Mas errou totalmente o alvo, por não ter a menor concepção das pessoas que se propôs descrever.
Sem repouso para Wesley
Sexta-feira, 19. Cheguei a Hinxworth, em Hertfordshire. Contígua à casa da senhorita Harvey há um jardim aprazível, e ela abriu uma alameda sombreada ao redor dos prados vizinhos. Com que prazer eu repousaria aqui um pouco! Mas o repouso não é para mim neste mundo. À noite, muitos aldeões afluíram, e o grande salão dela ficou bem cheio. Quero esperar que alguns receberam a semente em boa terra, e darão fruto com perseverança (Lc 8.15).
Quarta-feira, 24. Meu irmão e eu fizemos a nossa última visita a Lewisham, e passamos algumas horas pensativas com a viúva do nosso bom amigo, o senhor Blackwell. Demos mais uma volta pelo jardim e pelo prado que ele com tanto cuidado melhorou. Por mais de quarenta anos, este foi o meu lugar de retiro quando eu podia poupar dois ou três dias de Londres.
Terça-feira, 13 de agosto. Obrigado a deixar Londres um pouco antes do que pretendia, encerrei hoje a Conferência e pedi a todos os irmãos que o observassem como dia de solene ação de graças. Às três da tarde tomei o coche. Por volta da uma da madrugada de quarta, informaram-nos que três salteadores estavam na estrada adiante de nós, e haviam roubado todos os coches que passaram, alguns havia apenas uma ou duas horas. Não senti inquietação alguma, sabendo que Deus cuidaria de nós. E cuidou: antes que chegássemos ao lugar, todos os salteadores tinham sido presos. Seguimos, pois, sem moléstia, e no início da tarde chegamos salvos a Bristol.
A mobília de um bispo cristão
Domingo, 18. Agradou-me muito o comportamento decoroso de toda a congregação na catedral (de Exeter), como também a música solene da pós-comunhão — uma das mais belas composições que já ouvi. Convidando-me o bispo para jantar, não pude deixar de observar: 1) a encantadora situação do palácio, coberto de árvores, tão campestre e recolhido como se estivesse em pleno interior; 2) a simplicidade da mobília, nem custosa nem vistosa, mas exatamente adequada a um bispo cristão simples; 3) o jantar suficiente, quente e bom, mas sem requintes; 4) a propriedade da companhia — cinco clérigos e quatro vereadores; e 5) a cortesia genuína e natural do bispo, que, espero, será bênção para toda a sua diocese.
Segunda-feira, 19. Partimos cedo e à tarde chegamos a Plymouth. Preguei à noite, e às cinco e ao meio-dia de terça, pretendendo pregar à noite na praça do Dock; mas a chuva impediu. Fi-lo, porém, na noite de quarta. Pouco antes de eu concluir, o oficial comandante entrou na praça com o seu regimento; mas imediatamente fez parar os tambores e dispôs os seus homens em ordem no lado alto da praça. Ficaram todos quietos como a noite, e nenhum se mexeu até que pronunciei a bênção.
“A maré agora virou”
1783. Quarta-feira, 1º de janeiro. Que eu comece a viver hoje! Domingo, 5: reunimo-nos para renovar o nosso pacto com Deus. Nunca nos reunimos nesta ocasião sem bênção; mas não sei se jamais tivemos congregação tão grande.
Domingo, 19. Preguei na igreja de St. Thomas à tarde e na de St. Swithin à noite. A maré agora virou: tenho mais convites para pregar em igrejas do que posso aceitar.
Sexta-feira, 21 de fevereiro. Na nossa reunião anual para esse fim, examinamos as contas do ano e achamos que o dinheiro (correspondendo exatamente à despesa) passava de três mil libras por ano. Mas isso nada é para mim: o que dele recebo por ano não é nem mais nem menos que trinta libras.
Quarta-feira, 11 de junho. Tomei o coche com o senhor Brackenbury, Broadbent e Whitfield; e à noite chegamos a Harwich. Fui imediatamente à casa do doutor Jones, que me recebeu do modo mais afetuoso. Por volta das nove da manhã zarpamos e, às nove de sexta, 13, desembarcamos em Hellevoetsluis.
Wesley visita a Holanda
Alugamos aqui um coche para Briel, e de Briel tomamos um barco para Roterdã. Pouco depois de chegarmos, procurou-me o senhor Bennet, livreiro que me convidara à sua casa. Mas, como o senhor Loyal, ministro da congregação escocesa, também me convidara, ele cedeu o seu direito e foi conosco à casa do senhor Loyal. Achei nele um homem amigável, sensato, hospitaleiro e, estou persuadido, piedoso. Passeamos juntos pela cidade, toda limpa como a sala de visitas de um cavalheiro. Muitas casas são tão altas quanto as da rua principal de Edimburgo; e os canais, correndo pelas ruas principais, tornam-nas tão convenientes quanto aprazíveis, levando as mercadorias até a porta dos comerciantes. Árvores majestosas crescem em todas as suas margens. A cidade inteira é cercada por dupla fileira de olmos, de modo que se pode dar a volta toda à sombra.
Sábado, 14. Tive longa conversa com os dois ministros ingleses, homens sensatos, bem-educados e sérios. Tanto eles quanto o senhor Loyal estavam muito dispostos a que eu pregasse nas suas igrejas; mas julgaram melhor que eu pregasse na igreja episcopal. Conversando livremente, muitos preconceitos foram removidos, e todos os nossos corações pareceram unir-se.
À noite demos outra volta pela cidade, e observei: 1) muitas casas são mais altas que a maioria das de Edimburgo; 2) as ruas e o exterior e interior das casas, em toda parte — portas, janelas, escadas, mobília, até os assoalhos —, são conservados tão primorosamente limpos que não se acha um grão de poeira; 3) há nas fachadas das casas grandes uma grandeza e elegância que nunca vi em outro lugar, e tal profusão de mármore por dentro que me admira que as outras nações não as imitem; 4) as mulheres e crianças (o que eu menos esperava) são, em geral, as mais belas que já vi, surpreendentemente alvas, com um ar indizível de inocência no semblante; 5) e isso maravilhosamente realçado pelo seu traje, simples e asseado no mais alto grau.
Os reverentes holandeses
Observei uma pequena circunstância que suponho peculiar à Holanda: na maior parte das janelas há um espelho colocado do lado de fora do caixilho, de modo a mostrar a rua inteira, com todos os que passam. Há algo de muito agradável nessas imagens em movimento. Não existirão em nenhum outro país?
Domingo, 15. A igreja episcopal não é bem do tamanho da capela de West Street. É muito elegante, por fora e por dentro. O culto começou às nove e meia. Congregação assim não era vista ali com frequência. Preguei sobre “Deus criou o homem à sua imagem” (Gn 1.27). À tarde, a igreja ficou tão cheia como (informaram-me) não ficava havia cinquenta anos. Preguei sobre “Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho” (1Jo 5.11). Creio que Deus o aplicou a muitos corações. Fosse só por esta hora, alegro-me de ter vindo à Holanda.
Uma coisa observei em particular — e é igual em todas as igrejas da Holanda: ao entrar, ninguém olha para a direita nem para a esquerda, nem faz mesuras a quem quer que seja; todos vão direto aos seus lugares, como se não houvesse mais ninguém ali. Durante o culto, ninguém vira a cabeça nem olha para nada além do seu livro ou do ministro; e, à saída, ninguém repara em ninguém: todos vão direto, até estarem ao ar livre.
Segunda-feira, 16. Partimos num barco de canal para Haia. No caminho vimos uma curiosidade: a forca, perto do canal, cercada por um renque de belas árvores — para que o moribundo tenha ao menos uma vista agradável aqui, aconteça-lhe o que acontecer no além! Às onze chegamos a Delft, cidade grande e bela. Passamos uma hora na casa de um comerciante que, como a esposa, mulher muito agradável, parecia temer e amar a Deus. Vimos depois a grande igreja, quase tão comprida, se não tanto, quanto a catedral de York. O túmulo de Guilherme I é muito admirado — em particular a sua estátua, com mais vida do que se julgaria possível exprimir em bronze.
A bela Haia
Chegando a Haia, embora tivéssemos ouvido muito dela, não ficamos decepcionados. É, de fato, bela além de toda expressão. Muitas casas são grandiosíssimas, finamente entremeadas de água e bosque. Convidado para o chá por madame de Wassenaar (das primeiras da nobreza de Haia), visitei-a à tarde. Recebeu-nos com aquela abertura e afabilidade naturais que são quase peculiares aos cristãos e às pessoas de qualidade. Logo chegaram mais dez ou doze damas, que pareciam do seu próprio nível (embora vestidas com toda a simplicidade), e dois cavalheiros muito agradáveis — um deles, soube depois, coronel da guarda do príncipe. Depois do chá, expus os três primeiros versículos do capítulo treze da Primeira Epístola aos Coríntios, interpretando o capitão M. frase por frase. Orei então, e o coronel V. depois de mim. Creio que essa hora foi bem empregada.
Terça-feira, 17. Jantamos na casa da senhora L., numa família como poucas vezes vi. A mãe, com mais de setenta anos, parecia regozijar-se continuamente em Deus, seu Salvador. A filha respira o mesmo espírito; e os netos, três meninas e um menino, parecem ser todo amor. Não vi quatro crianças assim juntas em toda a Inglaterra. Entrando um cavalheiro depois do jantar, senti particular desejo de orar por eles. Dali a pouco ele se desfez em lágrimas — como, de resto, a maior parte da companhia.
Quarta-feira, 18. À tarde, madame de Wassenaar nos convidou a uma reunião na casa de uma dama vizinha. Expus Gálatas 6.14, interpretando o senhor M. como antes.
Em Leiden e Amsterdã
Quinta-feira, 19. Tomamos o barco às sete. A senhora L. e uma parenta, sem querer separar-se tão cedo, fizeram-nos companhia até Leiden, cidade grande e populosa, mas não tão aprazível quanto Roterdã. À tarde seguimos a Haarlem, onde um homem bom e simples e a sua esposa nos receberam do modo mais afetuoso. Às seis tomamos o barco de novo. Estando cheio de ponta a ponta, temi que a viagem não fosse das mais agradáveis. Depois que o senhor Ferguson disse ao povo quem éramos, pedimos licença e cantamos um hino. Ficaram todos atentos. Conversamos então um pouco, por meio do intérprete, e pedimos que cantasse quem quisesse. Quatro pessoas o fizeram, e cantaram bem. Cantamos nós de novo, e também um ou dois deles; e todos os nossos corações se uniram de modo estranho, de sorte que, chegando a Amsterdã, despediram-nos com abundância de bênçãos.
Sexta-feira, 20. Às onze tomamos café (costume da Holanda) na casa do senhor J., comerciante, cuja sala de jantar é coberta, paredes e teto, das mais belas pinturas. Ele e a esposa caminharam conosco à tarde até a Casa da Câmara — talvez o mais grandioso edifício do gênero na Europa. O grande salão é realmente nobre, quase do tamanho do de Christ Church, em Oxford.
Os holandeses afetuosos
Domingo, 22. Fui à igreja “nova” — que assim ainda se chama, embora tenha quatrocentos ou quinhentos anos. É maior, mais alta e mais bem iluminada que a maioria das nossas catedrais. O gradil que separa a nave do coro é de latão polido e brilha como ouro. Entendi bem os salmos cantados e o texto, e um pouco do sermão, que o senhor De H. proferiu com grande fervor. Às duas comecei o culto na igreja inglesa, edifício elegante, do tamanho da capela de West Street. Preguei sobre Isaías 55.6-7; e estou persuadido de que muitos receberam a verdade no amor dela.
Depois do jantar, a senhora J. levou-me de coche ao Meer e dali, pelo campo, a Zeeburg. Nunca vi região assim: suponho que não há na Europa outra terra de verão como esta. De Amsterdã ao Meer é tudo uma sequência dos jardins mais deliciosos. Zeeburg é uma casinha construída à beira do Texel, dominando vista de terra e de mar. Que falta aos moradores para serem felizes, senão o conhecimento e o amor de Deus?
Quarta-feira, 25. Tomamos o barco para Haarlem. A grande igreja é uma estrutura nobre, igualada por poucas catedrais da Inglaterra em comprimento, largura ou altura. O órgão é o maior que já vi, e dizem ser o mais belo da Europa. Fomos dali à casa do senhor Van K., cuja esposa foi convencida do pecado, e justificada, lendo os sermões do senhor Whitefield. Antes do jantar passeamos pelo bosque de Haarlem, contíguo à cidade, cortado em muitas alamedas sombreadas, com lindas vistas abrindo-se para todos os lados. Voltamos à tarde a Amsterdã e, à noite, despedimo-nos de quantos amigos pudemos. Quão inteiramente nos enganávamos a respeito dos holandeses, supondo-os de temperamento frio, fleumático e inamistoso! Não encontrei povo mais calorosamente afetuoso em toda a Europa — não, nem na Irlanda!
Wesley em Utrecht
Quinta-feira, 26. Tendo os amigos nos provido fartamente de vinho e frutas para a pequena jornada, tomamos o barco, numa manhã encantadora, para Utrecht. Utrecht tem muito o aspecto de uma cidade inglesa. As ruas são largas, com muitas casas nobres. Na quietude e no sossego, parece-se muito com Oxford. O campo ao redor é como um jardim; e as pessoas com quem conversei são não só civilizadas e hospitaleiras, mas amigas e afetuosas, como as de Amsterdã.
Segunda-feira, 30. Alugamos um coche para Roterdã, a meia coroa por cabeça. Jantamos em Gouda, na casa do senhor Van Flooten, ministro da cidade, que nos recebeu com toda a bondade possível. Antes do jantar entramos na igreja, famosa pelos seus vitrais; mas não tivemos tempo de examinar a décima parte deles: só pudemos observar, em geral, que as cores eram vivíssimas e as figuras, de exata proporção. À noite alcançamos mais uma vez a hospitaleira casa do senhor Loyal, em Roterdã.
Terça-feira, 1º de julho. Visitei quantos amigos pude, e nos despedimos com muito afeto. Alugamos então um iate, que nos levou a Hellevoetsluis. Às duas embarcamos; mas, virando o vento contra nós, só chegamos a Harwich às nove de sexta pela manhã. Depois de um pouco de descanso, arranjamos uma carruagem e chegamos a Londres por volta das onze da noite.
Duas horas com o doutor Johnson
Não posso de modo algum lamentar nem o trabalho nem a despesa desta pequena viagem. Ela me abriu caminho para uma espécie de mundo novo, onde a terra, os edifícios, o povo, os costumes eram todos como eu nunca vira. Mas, como aqueles com quem convivi eram do mesmo espírito dos meus amigos da Inglaterra, eu estava tão em casa em Utrecht e Amsterdã quanto em Bristol e Londres.
Quinta-feira, 18 de dezembro. Passei duas horas com aquele grande homem, o doutor Johnson, que desce à sepultura num suave declínio.
1784. Segunda-feira, 5 de abril. Surpreendi-me, chegando a Chester, de achar que também ali a pregação da manhã fora de todo abandonada — por esta digna razão: “porque o povo não vem; ao menos, não no inverno”. Se é assim, os metodistas são um povo decadente. Eis a prova: perderam o seu primeiro amor; e nunca o recobrarão enquanto não voltarem às primeiras obras (Ap 2.4-5).
Wesley e o levantar cedo
Assim que pus os pés na Geórgia, comecei a pregar às cinco da manhã; e todo comungante — isto é, toda pessoa séria da cidade — assistia constantemente, o ano inteiro: cada manhã, inverno e verão, salvo doença. Assim fizeram até eu deixar a província. No ano de 1738, quando Deus começou a sua grande obra na Inglaterra, comecei a pregar à mesma hora, inverno e verão, e nunca me faltou congregação. Se agora não querem vir, perderam o seu zelo — e então, não se pode negar, são um povo decadente.
E, nesse meio-tempo, trabalhamos para assegurar as casas de pregação à próxima geração! Em nome de Deus, asseguremos antes, se possível, que a geração presente não retroceda para a perdição! Unam-se todos os pregadores ainda vivos para Deus como um só homem; jejuem e orem; levantem a voz como trombeta; insistam, a tempo e fora de tempo, para convencê-los de que caíram; e exortem-nos a arrepender-se imediatamente e a “praticar as primeiras obras” — esta em particular: levantar-se de manhã, sem o que nem as suas almas nem os seus corpos podem conservar por muito tempo a saúde.
Segunda-feira, 19. Segui para Ambleside onde, quando eu me sentava para a ceia, fui informado de que se dera aviso da minha pregação e a congregação esperava. Não os quis decepcionar: preguei imediatamente sobre a salvação pela fé. Entre eles estavam um cavalheiro e a esposa, que me deram um relato notável.
Notável fuga da prisão
Disse ela que muitas vezes ouvira a mãe relatar o que lhe contara uma conhecida íntima: que o marido desta se envolvera na rebelião de 1745. Foi julgado em Carlisle e considerado culpado. Na véspera do dia em que devia morrer, sentada e pensativa na sua cadeira, ela caiu em sono profundo. Sonhou que alguém vinha a ela e dizia: “Vá a tal parte do muro e, entre as pedras soltas, achará uma chave, que você deve levar ao seu marido.” Acordou; mas, tendo-o por sonho comum, não deu atenção. Logo adormeceu de novo, e sonhou exatamente o mesmo. Levantou-se de um salto, pôs a capa e o chapéu, foi àquela parte do muro — e entre as pedras soltas achou uma chave. Conseguindo, com alguma dificuldade, entrar no cárcere, entregou-a ao marido. Ela abriu a porta da sua cela, e também a fechadura da porta da prisão. E assim, à meia-noite, ele escapou com vida.
As margens do Spey
Sábado, 8 de maio. Alcançamos as margens do Spey. Suponho que há poucos rios assim na Europa: a sua rapidez excede até a do Reno, e estava agora muito crescido com a neve derretida. Demos, porém, um jeito de passar antes das dez; e por volta do meio-dia chegamos a Elgin. Recebeu-me aqui uma filha do bom senhor Plenderleith, falecido em Edimburgo; e, passada com ela uma hora agradável, apressei-me para Forres. Mas logo paramos de novo: o rio Findhorn também estava tão cheio que temíamos que o vau não desse passagem. Com um bom guia, porém, passamos sem grande dificuldade. Encontrei sir Lodowick Grant quase consumido. Nunca houve visita mais oportuna: com a conversa livre e amiga, o seu ânimo se reergueu a ponto de eu ter esperança de que isso lhe alongue a vida.
Domingo, 9. Preguei ao meio-dia, a uma pequena companhia, sobre “os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5.3). Quando eu concluía, entraram o coronel Grant e a sua senhora; por causa deles comecei de novo e expus a primeira parte do capítulo quinze de São Lucas. Tivemos companhia maior à tarde, à qual preguei sobre o juízo vindouro; e este assunto pareceu tocá-los mais.
Doze milhas e meia sob chuva pesada
Segunda-feira, 10. Parti para Inverness. Enviara adiante o senhor McAllum, no cavalo de George Whitfield, para avisar da minha chegada; e por isso tive de levar comigo na sege tanto George quanto a senhora McAllum. Para aliviar os cavalos, seguimos a pé desde Nairn, mandando que Richard nos seguisse assim que os cavalos comessem. Assim fez; mas havia duas estradas. E, como tomamos uma e ele a outra, andamos a pé cerca de doze milhas e meia do caminho, sob chuva pesada. Achamos então Richard à nossa espera numa tabernazinha, e seguimos de carro para Inverness. Mas, bendito seja Deus, não fiquei mais cansado do que ao partir de Nairn. Preguei às sete a uma congregação bem maior do que qualquer que eu vira aqui desde que preguei na igreja. E certamente o trabalho não foi em vão, pois Deus enviou mensagem a muitos corações.
Terça-feira, 11. Apesar da longa interrupção da pregação matutina, tivemos grande congregação às cinco. Tomei o desjejum na primeira casa em que fui recebido em Inverness, onde morava então o bom senhor McKenzie. As suas três filhas moram nela agora, e uma delas herda todo o espírito do pai. À tarde passeamos, pela ponte, por uma das regiões mais aprazíveis que já vi, ao longo do rio claro, bem cultivada e bem arborizada. E aqui, pela primeira vez, ouvimos abundância de pássaros dando as boas-vindas à primavera. A congregação da noite foi maior que a da véspera, e grande parte dela compareceu de manhã. Tivemos então uma despedida solene, pois dificilmente poderíamos esperar encontrar-nos de novo neste mundo.
Episódios na Escócia
Terça-feira, 18. Preguei em Dundee. Quarta, 19: cruzei o aprazível e fértil condado de Fife até Melville House, a grandiosa e bela residência de lorde Leven. Ele não estava, tendo ido a Edimburgo como comissário do rei; mas estavam a condessa, duas das filhas e os dois genros. A pedido deles, preguei à noite sobre “aos homens está ordenado morrer uma só vez” (Hb 9.27); e creio que Deus fez a aplicação.
Quinta-feira, 20. Soprou um vendaval; ainda assim, com alguma dificuldade, cruzamos o Queen’s Ferry.
Sábado, 22 (Edimburgo). Uma atriz famosa, recém-chegada de Londres (e isto, para honra da Escócia, justamente durante a sessão da Assembleia), roubou-nos esta noite grande parte da congregação. Quão mais sábios são estes escoceses do que os seus antepassados!
Domingo, 23. Fui de manhã à igreja do Tolbooth; à tarde, à velha capela episcopal. Mas eles perderam a sua glória: mal terminou o culto, puseram-se a conversar como se estivessem em Londres. À noite o Octógono ficou bem cheio; e apliquei, com toda a clareza possível, “Deus é espírito; e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24).
Wesley aos 81
Segunda-feira, 28 de junho (Epworth). Entrei hoje no meu octogésimo segundo ano, e achei-me tão forte para o trabalho, e tão apto para qualquer exercício de corpo ou de mente, quanto há quarenta anos. Não o imputo a causas segundas, mas ao Senhor soberano de tudo. É ele que manda o sol da vida parar, enquanto lhe apraz. Estou tão forte aos oitenta e um quanto estava aos vinte e um; mas muito mais saudável, pois sou estranho à dor de cabeça, à dor de dente e aos demais achaques que me acompanharam na juventude. Só podemos dizer: “O SENHOR reina!” Enquanto vivermos, vivamos para ele!
À tarde fui a Gainsborough e aceitei de boa vontade a oferta da capela do senhor Dean. O auditório foi grande e pareceu muito tocado; talvez algum bem se faça até em Gainsborough! Terça, 29: preguei na rua em Scotter, a uma congregação grande e profundamente atenta. Foi uma hora solene e consoladora.
Quarta-feira, 18 de agosto. Fui à casa do almirante Vaughan, em Trecwn, uma das residências mais aprazíveis da Grã-Bretanha. A casa está embalada em bosques altos, e só aparece quando se desce sobre ela. O almirante governa a família como governava o seu navio, com a máxima pontualidade: toca o sino, e todos acodem sem demora, seja às refeições, seja às orações da manhã e da noite. Preguei às sete sobre Filipenses 3.8 e passei a noite em conversa séria.
Terça-feira, 31. O doutor Coke, o senhor Whatcoat e o senhor Vasey desceram de Londres, a fim de embarcar para a América.
Quarta-feira, 1º de setembro. Estando agora esclarecido no meu próprio espírito, dei um passo que há muito eu pesava na mente: designei o senhor Whatcoat e o senhor Vasey para ir servir as ovelhas desamparadas da América. Quinta, 2: acrescentei-lhes mais três — o que, creio verdadeiramente, será para muita glória de Deus.
Domingo, 12. O doutor Coke leu as orações, e eu preguei no salão novo. Depois me apressei a Kingswood e preguei à sombra daquela dupla fileira de árvores que plantei há uns quarenta anos. Quão pouco imaginava alguém, então, que serviriam a tal propósito! O sol ardia como costuma arder até na Geórgia; mas os seus raios não puderam atravessar o nosso dossel. O nosso Senhor, entretanto, brilhou sobre muitas almas, e refrigerou os cansados.
Assalto à casa de Wesley
Sábado, 21 de novembro (Londres). Às três da madrugada, dois ou três homens invadiram a nossa casa pela janela da cozinha. Subiram dali à sala e arrombaram a escrivaninha do senhor Moore, onde acharam duas ou três libras; na véspera à noite, eu o impedira de deixar ali setenta libras que acabara de receber. Arrombaram em seguida o armário e levaram algumas colheres de prata. Justamente então o despertador, que o senhor Moore por engano armara para as três e meia (em vez das quatro), disparou, como de costume, com estrondo de trovão. A isso os ladrões fugiram a toda pressa, com o serviço pela metade; todo o dano que sofremos mal chegou a seis libras.
Domingo, 26 de dezembro. Preguei em Newgate o sermão dos criminosos condenados. Quarenta e sete estavam sob sentença de morte. Enquanto entravam, havia algo terrível no tinir das suas correntes. Mas nenhum som se ouviu, nem deles nem do auditório apinhado, depois que anunciei o texto: “Haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento” (Lc 15.7). O poder do Senhor esteve eminentemente presente, e a maior parte dos presos estava em lágrimas. Poucos dias depois, vinte deles morreram de uma vez — cinco dos quais morreram em paz. Não pude senão aprovar grandemente o espírito e o comportamento do senhor Villette, o capelão; e alegrei-me de ouvir que é o mesmo em todas as ocasiões semelhantes.
Sexta-feira, 31. Tivemos uma vigília solene, e introduzimos o ano novo com a voz do louvor e da ação de graças.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.