DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 20

Coletas para os pobres; a Câmara dos Lordes; as razões da longa vida; as últimas entradas

O ancião que mendigou duzentas libras na neve para vestir os pobres, o grão de mostarda que alcançou dois continentes, a maré virada em Falmouth, a despedida do anfiteatro de Gwennap — e as últimas linhas do Diário, escritas em outubro de 1790.

1785–1790 ⏱ 33 min de leituraÚltimas entradas

“O resto dos meus dias, gasto-os no louvor daquele que morreu para redimir o mundo todo: sejam muitos ou poucos, os meus dias são dele.”

(Diário, 28 de junho de 1788)

Antes de ler

A cena que abre este capítulo vale um tratado de ética cristã: em janeiro de 1785, aos oitenta e um anos, Wesley passou cinco dias caminhando pelas ruas de Londres, com neve derretida à altura do tornozelo, mendigando duzentas libras para vestir os pobres da sociedade. Os pés “encharcados de água de neve de manhã à noite” lhe custaram uma enfermidade — e ele repetiu a coleta dois anos depois. “Se um irmão ou irmã estiverem carecidos do necessário, e algum de vocês lhes disser: vão em paz, aqueçam-se… de que adianta?” (Tg 2.15-16). Wesley nunca deixou a resposta em teoria.

Aqui está também o balanço dos cinquenta anos: “o grão de mostarda, plantado há cerca de cinquenta anos, cresceu estranhamente” — Grã-Bretanha, Irlanda, ilhas, América até o Canadá (Mt 13.31-32). E, na Páscoa de 1789, em Dublin, a explicação madura do que é o metodismo: “não ser um partido distinto, mas despertar todos os partidos a adorar a Deus em espírito e em verdade”. As inovações — pregação ao ar livre, oração espontânea, pregadores leigos, sociedades, conferências — vieram todas “por necessidade, não por escolha”. É a nossa certidão de origem.

Poucas páginas da literatura cristã envelhecem tão bem quanto o Wesley envelhecendo. Ele registra sem autopiedade os “passos suaves com que a velhice se apossa de nós”: a vista que escurece, a memória dos nomes que hesita, o passo que se faz lento — e, aos oitenta e sete, a despedida do anfiteatro de Gwennap: “suponho que pela última vez; a minha voz já não comanda a multidão sempre crescente”. Ele pregou, naquele aniversário, sobre “ensina-nos a contar os nossos dias” (Sl 90.12) — e viveu o que pregou.

As últimas linhas do Diário são de 24 de outubro de 1790: de manhã, “toda a armadura de Deus” em Spitalfields (Ef 6.11); à tarde, “uma só coisa é necessária” em Shadwell (Lc 10.42) — “e espero que muitos, ainda ali, resolveram escolher a boa parte”. Cinquenta e cinco anos de registros se encerram sem discurso de despedida: apenas mais um domingo de trabalho. O capítulo final desta série acompanhará, pelos relatos das testemunhas, as últimas horas do homem que pôde dizer: “o melhor de tudo é que Deus está conosco”.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1785. Sábado, 1º de janeiro. Seja este o último ou não, que seja o melhor ano da minha vida! Domingo, 2: esteve presente à renovação do nosso pacto com Deus um número de pessoas maior do que jamais se viu nesta ocasião.

Aos oitenta e um anos, mendigando duzentas libras

Terça-feira, 4. Nesta estação costumamos distribuir carvão e pão entre os pobres da sociedade. Mas considerei agora que eles precisavam de roupa, além de comida. Assim, neste e nos quatro dias seguintes, percorri a cidade a pé e mendiguei duzentas libras, a fim de vestir os mais necessitados. Mas foi trabalho duro, pois a maior parte das ruas estava coberta de neve derretida, muitas vezes à altura do tornozelo; de modo que os meus pés ficaram mergulhados em água de neve quase de manhã à noite. Aguentei razoavelmente bem até o sábado à noite; mas fui derrubado por uma violenta disenteria, que crescia a cada hora, até que, às seis da manhã, o doutor Whitehead me visitou. A sua primeira poção me deixou de todo aliviado, e três ou quatro mais completaram a cura. Se viver alguns anos, espero que seja um dos mais eminentes médicos da Europa.

Segunda-feira, 17. Eu supunha encerradas as minhas viagens deste inverno, mas não pude recusar mais uma. Parti para a pobre Colchester, para animar o pequeno rebanho. Têm pouquíssimo dos bens deste mundo, mas a maior parte tem uma porção melhor. Terça, 18: segui a Mistleythorn, aldeia perto de Manningtree. Tempos atrás, um dos carpinteiros navais do estaleiro de Deptford, enviado para cá a fim de superintender a construção de uns navios de guerra, começou a ler sermões na sua casa nos domingos à noite. Depois passou a exortá-los um pouco, e formou uma pequena sociedade. Algum tempo depois, pediu a um dos nossos pregadores que viesse ajudá-los. Encontrei agora uma sociedade viva, e uma das congregações mais elegantes que vi em muitos anos — e, contudo, tão dispostos a ser instruídos como se morassem em Kingswood.

Domingo, 23. Preguei de manhã e à tarde em West Street e, à noite, na capela de Knightsbridge. Penso que será a última vez, pois não sei se já vi congregação mais mal-comportada.

Terça-feira, 25. Passei duas ou três horas na Câmara dos Lordes. Ouvira muitas vezes que era a assembleia mais venerável da Inglaterra. Mas que decepção! Que é um lorde, senão um pecador nascido para morrer?

Cinquenta anos de crescimento do metodismo

Quinta-feira, 24 de março (Worcester). Considerava eu agora quão estranhamente cresceu o grão de mostarda plantado há cerca de cinquenta anos (cf. Mt 13.31-32). Espalhou-se por toda a Grã-Bretanha e a Irlanda; pela ilha de Wight e a ilha de Man; depois pela América — das ilhas de Sotavento, por todo o continente, até o Canadá e a Terra Nova. E as sociedades, em todas essas partes, andam por uma só regra, sabendo que a religião consiste em disposições santas, e esforçando-se por adorar a Deus não só na forma, mas também “em espírito e em verdade”.

Terça-feira, 28 de junho. Pela boa providência de Deus, completei o octogésimo segundo ano da minha idade. Há algo difícil demais para Deus? Já faz onze anos que não sinto coisa alguma parecida com cansaço. Muitas vezes falo até a voz faltar, e não posso falar mais; frequentemente ando até as forças faltarem, e não posso andar mais; e, mesmo então, não sinto sensação alguma de fadiga, mas estou perfeitamente bem da cabeça aos pés. Não ouso imputá-lo a causas naturais: é a vontade de Deus.

Terça-feira, 9 de agosto. Passei à ilha de Wight. Também aqui a obra de Deus prospera. Tivemos uma hora consoladora em Newport, onde há uma congregação muito dócil, embora invulgarmente elegante. Quarta, 10: caminhamos até os pobres restos do castelo de Carisbrooke. Parece ter sido fortíssimo, erguido numa encosta íngreme. Mas até o pouco que dele resta corre agora velozmente para a ruína. A janela pela qual o rei Carlos tentou escapar ainda existe; e me trouxe à mente todo aquele encadeamento de acontecimentos em que a mão de Deus se viu tão claramente.

Quinta-feira, 25. Por volta das nove preguei em Mousehole, onde há hoje uma das sociedades mais vivas da Cornualha. Dali fomos ao Land’s End, e para isso descemos pelas rochas até a própria beira da água. Não posso deixar de pensar que o mar ganhou algumas centenas de jardas desde que estive aqui, quarenta anos atrás.

Wesley visita a Câmara dos Lordes

1786. Segunda-feira, 9 de janeiro. Nas horas vagas desta semana li a Vida de sir William Penn, homem sábio e bom. Mas muito me surpreendeu o que ele relata da sua primeira esposa, que viveu, suponho, cinquenta anos, e disse pouco antes de morrer: “Bendigo a Deus: nunca fiz nada de errado na minha vida!” Terá ela alguma vez sido convencida do pecado? E, se não, poderia ser salva em outra base que a de um pagão?

Terça-feira, 24. Pediram-me que fosse ouvir o rei proferir o seu discurso na Câmara dos Lordes. E que agradável surpresa! Ele pronunciou cada palavra com exata propriedade. Duvido muito que haja na Europa outro rei que fale com tanta justeza e naturalidade.

Quarta-feira, 28 de junho. Entrei no octogésimo terceiro ano da minha idade. Sou uma maravilha para mim mesmo. Já faz doze anos que não sinto sensação alguma de cansaço. Nunca me canso (tal é a bondade de Deus!), nem de escrever, nem de pregar, nem de viajar. Uma causa natural, sem dúvida, é o meu contínuo exercício e mudança de ares.

Terça-feira, 26 de setembro. Cheguei a Londres. Apliquei-me agora com afinco a escrever a vida do senhor Fletcher, tendo conseguido os melhores materiais que pude. A isto dediquei todo o tempo que pude poupar, até novembro, das cinco da manhã às oito da noite. Estas são as minhas horas de estudo; não posso escrever mais horas por dia sem ferir os olhos.

Wesley visita Hatfield House

Segunda-feira, 2 de outubro. Fui a Chatham e tive muito consolo com a congregação amorosa e séria, à noite e às cinco da manhã. Terça, 3: descemos, com vento favorável e agradável, a Sheerness. A casa de pregação daqui está agora terminada — mas por meios nunca vistos. A obra foi começada, meses atrás, por um punhado de homens, sem meio provável de concluí-la. Mas Deus moveu de tal modo o coração do povo da doca que até os que não professam religião alguma — carpinteiros, construtores navais, operários — acorriam em todas as horas vagas e trabalhavam com todas as forças, sem paga nenhuma. Assim, uma grande casa quadrada foi logo elegantemente concluída, por dentro e por fora; e é a construção mais asseada do sul da Inglaterra, depois da capela nova de Londres.

Quinta-feira, 19. Voltei a Londres. Nesta viagem tive vista completa da residência de lorde Salisbury, em Hatfield. O parque é delicioso. As duas fachadas da casa são belíssimas, embora antigas. O salão, a sala de assembleias e a galeria são grandiosos e belos. A capela é lindíssima; mas a mobília em geral (exceto os quadros, muitos deles originais) é exatamente a que eu esperaria na casa de um cavalheiro de quinhentas libras por ano.

Sábado, 23 de dezembro. Por grande importunação fui induzido (com pouca esperança de fazer bem) a visitar dois dos condenados à morte em Newgate. Pareceram sérios; mas pouco posso fiar em aparências desse tipo. Escrevi, contudo, em favor deles a um grande homem; e talvez tenha sido em consequência disso que obtiveram suspensão da pena.

Domingo, 24. Pediram-me que pregasse na Old Jewry. Mas a igreja estava fria — e a congregação também. Tivemos congregação de outra espécie no dia seguinte, dia de Natal, às quatro da manhã, e às cinco da tarde na capela nova, e em West Street por volta do meio-dia.

A firmeza de Wesley em Deptford

1787. Segunda-feira, 1º de janeiro. Começamos o culto às quatro da manhã, com congregação extraordinariamente grande. Terça, 2: fui a Deptford; mas parecia que eu estava num covil de leões. A maior parte dos homens de frente da sociedade estava louca por separar-se da Igreja. Tentei argumentar com eles, mas em vão. Por fim, depois de reunir toda a sociedade, disse-lhes: “Se estão resolvidos, podem ter o culto de vocês no horário da igreja; mas lembrem-se: daquele momento em diante, não verão mais o meu rosto.” Isto calou fundo; e, daquela hora em diante, nunca mais ouvi falar de separação da Igreja!

Segunda-feira, 8. Neste dia e nos quatro seguintes, saí a mendigar para os pobres. Esperava poder prover comida e roupa aos da sociedade que estavam em necessidade urgente e não tinham pensão semanal — cerca de duzentas pessoas. Mas fiquei bem decepcionado: seis ou sete dos nossos irmãos, é verdade, deram dez libras cada; tivessem quarenta feito o mesmo, eu poderia ter executado o meu plano. Ainda assim, muito bem se fez com duzentas libras, e muitos corações tristes foram alegrados.

Wesley visita o Parlamento irlandês

Quarta-feira, 4 de julho. Passei uma hora no New Dargle, propriedade de um cavalheiro a quatro ou cinco milhas de Dublin. Não vi lugar tão belo no reino. Vi depois a Casa do Parlamento. A Câmara dos Lordes excede em muito a de Westminster. A Câmara dos Comuns é uma sala nobre de fato: um octógono revestido de carvalho irlandês, que envergonha todo mogno, com galerias ao redor para a comodidade das damas. Mas o que me surpreendeu acima de tudo foram as cozinhas da Casa, e o grande aparato para o bom comer: mesas dispostas de uma ponta à outra de um grande salão, que, ao que parece, enquanto o Parlamento está reunido, se cobrem diariamente de carnes às quatro ou cinco horas, para a acomodação dos membros.

Quarta-feira, 11. Às cinco despedi-me com afeto deste povo amoroso (irlandês) e, à tarde, embarquei com os meus amigos no Prince of Wales, um dos paquetes de Parkgate. Às sete zarpamos, com vento favorável e moderado. Entre nove e dez deitei-me, como de costume, e dormi até quase as quatro, quando fui acordado por um ruído incomum e descobri que o navio batia sobre uma grande rocha, a uma légua de Holyhead. O capitão, que mal acabara de deitar-se, saltou e, correndo ao convés, ao ver como o navio estava, gritou: “As suas vidas podem salvar-se, mas eu estou arruinado!” Contudo, nenhum marinheiro praguejou, e nenhuma mulher gritou. Fomos imediatamente à oração; e logo o navio, não sei como, desprendeu-se da rocha e seguiu o seu caminho, sem outro dano que o ferimento de algumas tábuas externas. Por volta das três da tarde chegamos salvos a Parkgate.

Uma visita às ilhas do Canal

Segunda-feira, 13 de agosto. Partimos de Yarmouth com vento favorável; mas ele logo virou contra nós e soprou tão forte que, à tarde, tivemos por bem abrigar-nos em Swanage.

Terça-feira, 14. Navegando com vento favorável, esperávamos plenamente alcançar Guernsey à tarde; mas, virando o vento e soprando forte, vimos que seria impossível. Julgamos então melhor abrigar-nos na ilha de Alderney; mas por pouco não naufragamos na baía. Quando estávamos no meio das rochas, com o mar encrespando ao redor, o vento faltou por completo. Tivesse continuado assim, teríamos batido numa ou noutra rocha; fomos, pois, à oração — e o vento levantou-se no mesmo instante. Por volta do pôr do sol desembarcamos e, embora tivéssemos cinco camas no mesmo quarto, dormimos em paz.

Por volta das oito desci a um lugar conveniente da praia e comecei a entoar um hino. Uma mulher e duas crianças juntaram-se a nós imediatamente. Antes que o hino terminasse, tínhamos uma congregação razoável, e todos se portaram bem.

“Uma pequena circunstância”

Aconteceu (para falar como o vulgo) que três ou quatro dos que navegaram conosco da Inglaterra — um cavalheiro, com a esposa e a irmã — eram parentes próximos do governador. Ele veio ter conosco esta manhã e, quando entrei na sala, portou-se com a máxima cortesia. Esta pequena circunstância pode remover preconceito e abrir caminho mais franco para o evangelho.

Logo depois zarpamos e, após travessia muito agradável por entre ilhotas de ambos os lados, chegamos ao venerável castelo, erguido numa rocha a um quarto de milha de Guernsey. A própria ilha faz bela figura, estendendo-se em crescente à direita e à esquerda. A cidade está altivamente situada, subindo cada vez mais alto desde a água. Fomos depressa à casa do senhor De Jersey, a menos de uma milha da cidade. Achei ali o acolhimento mais cordial, do dono da casa e de toda a família. Preguei às sete, numa grande sala, à congregação mais profundamente séria que já vi.

Quinta-feira, 16. Tive congregação muito séria às cinco, na grande sala da casa do senhor De Jersey. Os seus jardins e pomares são de vasta extensão e maravilhosamente aprazíveis; e não conheço nobre algum da Grã-Bretanha com tal variedade das mais excelentes frutas. Que quantidade ele colhe, conjecture-se por um só exemplo: neste verão colheu cinquenta libras de morangos por dia, por seis semanas seguidas. À noite preguei na outra ponta da cidade, na nossa própria casa de pregação. Tanta gente se espremeu (embora nem de longe todos os que vieram) que estava quente como um forno. Mas ninguém pareceu dar-lhe importância, pois a Palavra de Deus era mais cortante que espada de dois gumes (Hb 4.12).

Na casa do governador

Sexta-feira, 17. Visitei o governador e passei meia hora agradável. À tarde passeamos pelo cais, o maior e mais belo que já vi. A cidade cresce depressa, brotando casas novas de todos os lados. À noite não tentei entrar na casa: fiquei perto dela, no pátio, cercado de árvores altas e sombrosas, e proclamei a uma grande congregação: “Deus é espírito; e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). Creio que muitos foram feridos no coração nesta hora, e alguns não pouco consolados.

Sábado, 18. O doutor Coke e eu jantamos na casa do governador. Alegrou-me achar outra companhia. Conversamos seriamente por mais de uma hora com um homem sensato, bem-educado e agradável. À noite preguei à maior congregação que vi aqui.

Domingo, 19. Joseph Bradford pregou às seis da manhã, em Montplaisir, a numerosa congregação. Preguei às oito e meia, e a casa conteve a congregação. Às dez fui à igreja francesa, onde havia uma congregação grande e bem-comportada. Às cinco tivemos a maior congregação de todas.

“Porque tenho vivido tantos anos”

Segunda-feira, 20. Embarcamos entre três e quatro da manhã numa chalupa muito pequena e incômoda, e nada veloz: gastamos sete horas para vencer as chamadas sete léguas. Por volta das onze desembarcamos em St. Helier (Jersey) e fomos direto à casa do senhor Brackenbury. Fica aprazivelmente situada, perto do fim da cidade, com um grande jardim e uma linda cadeia de colinas férteis a pequena distância. Preguei à noite, a uma congregação extremamente séria, sobre a última parte de Mateus 3; e quase o mesmo número esteve presente às cinco da manhã, quando os exortei a prosseguir para a perfeição.

Terça-feira, 21. Caminhamos até um amigo no campo. Perto da sua casa fica o que chamam de colégio: uma escola gratuita, destinada a preparar meninos para a universidade, primorosamente situada num recesso quieto, cercado de bosques altos. Não longe ergue-se, no alto de uma colina, uma velha capela, que se crê ser a primeira igreja cristã construída na ilha. Dali tivemos vista da ilha inteira, a mais aprazível que já vi — tão superior à ilha de Wight quanto esta o é à ilha de Man. À noite fui obrigado a pregar ao ar livre, sobre “agora é o dia da salvação” (2Co 6.2). Penso que raramente falta bênção a esse assunto.

Quarta-feira, 22. À noite, não contendo a sala o povo, tive de ficar no pátio. Preguei sobre Romanos 3.22-23, e falei com extrema clareza; até a fidalguia ouviu com profunda atenção. De que pequenas coisas Deus se serve para a sua glória! Provavelmente muitos destes acorrem porque tenho vivido tantos anos. E talvez até isso seja o meio de viverem para sempre.

Detido por ventos contrários

Segunda-feira, 27. O capitão Cabot, mestre de uma chalupa de Guernsey, procurou-nos de manhã cedo e disse que, se quiséssemos ir por aquele caminho, partiria entre cinco e seis. Mas, estando o vento de todo contrário, julgamos melhor esperar um pouco. À noite, marcado que estava para pregar às sete, tive de pregar dentro de casa. Ficamos extremamente apinhados; mas o poder de Deus se manifestou de tal modo, enquanto eu declarava “nós pregamos a Cristo crucificado” (1Co 1.23; 2.2), que logo esquecemos o calor e nos alegramos de ficar detidos um pouco mais do que pretendíamos.

Eu pensava, ao deixar Southampton, já estar de volta a esta altura; mas os pensamentos de Deus não eram os meus pensamentos. Aqui estamos, fechados em Jersey — por quanto tempo, não sabemos. Mas está tudo bem; pois tu, Senhor, o fizeste.

Terça-feira, 28. Ainda detido pelos ventos contrários, preguei às seis da tarde, a congregação maior que nunca, na sala de assembleias, que comporta comodamente quinhentas ou seiscentas pessoas. A maior parte da fidalguia estava presente e creio que sentiu que Deus ali estava em grau incomum. Ainda detido, preguei ali de novo na noite seguinte, a congregação ainda maior. Julguei então ter plenamente desobrigado a minha alma. De manhã, servindo o vento para Guernsey e não para Southampton, voltei para lá de boa vontade — não por escolha minha, mas pela clara providência de Deus; pois à tarde me ofereceram o uso da sala de assembleias, ampla câmara na praça do mercado, com capacidade para o triplo da nossa antiga sala. Aceitei de bom grado e preguei às seis a uma congregação como ainda não vira aqui; e a Palavra pareceu descer fundo nos corações. Confio que não voltará vazia (Is 55.11).

Terça-feira, 4 de setembro. A tempestade continuou, de modo que não pudemos sair. Dei hoje um passeio pelo chamado New Ground, onde a fidalguia costuma passear à tarde. À noite desobriguei plenamente a minha alma, mostrando o que é edificar sobre a rocha (Mt 7.24-25). Mas ainda não podíamos navegar, estando o vento de todo contrário e fortíssimo.

Velas para Penzance

O mesmo na quarta-feira. À tarde tomamos chá na casa de um amigo, que mencionou um capitão recém-chegado da França, que se propunha zarpar de manhã para Penzance — para onde o vento servia, embora não para Southampton. Nisto vimos claramente a mão de Deus, e ajustamos com ele imediatamente. De manhã, quinta, 6, embarcamos com vento favorável e moderado; mas, mal entráramos no navio, o vento morreu. Clamamos a Deus por socorro, e ele logo se levantou, exatamente favorável, e não cessou até nos levar à baía de Penzance.

Sábado, 22 de dezembro. Cedi à importunação de um pintor e posei, ao todo, uma hora e meia para o meu retrato. Penso que foi o melhor que já se fez; mas que é o retrato de um homem de mais de oitenta anos?

Wesley sobre a sua velhice

1788. Sábado, 1º de março (ano bissexto). Considerei que diferença acho com o acréscimo dos anos: acho 1) menos atividade — ando mais devagar, especialmente ladeira acima; 2) a memória não é tão pronta; 3) não posso ler tão depressa à luz de vela. Mas bendigo a Deus porque todas as minhas outras faculdades, de corpo e mente, permanecem exatamente como eram.

Sábado, 19 de abril. Seguimos para Bolton, onde preguei à noite numa das casas mais elegantes do reino, e a uma das congregações mais vivas. E isto devo declarar: não há conjunto de cantores igual em nenhuma das congregações metodistas dos três reinos. Nem pode haver; pois temos perto de cem vozes agudas, meninos e meninas, selecionados das nossas escolas dominicais e ensinados com exatidão, como não se acham juntos em capela, catedral ou sala de música alguma dentro dos quatro mares. Além disso, o espírito com que todos cantam, e a beleza de muitos deles, tão bem se ajustam à melodia que desafio quem quer que seja a excedê-la — exceto o canto dos anjos na casa do nosso Pai.

Domingo, 20. Às oito e à uma, a casa esteve completamente cheia. Por volta das três, reuni entre novecentas e mil crianças das nossas escolas dominicais. Nunca vi tal espetáculo. Estavam todas perfeitamente limpas, e simples, no vestir; todas sérias e bem-comportadas. Quando cantaram todas juntas, nenhuma fora do tom, a melodia superou a de qualquer teatro; e, o que é melhor de tudo, muitas delas verdadeiramente temem a Deus, e algumas se regozijam na sua salvação. São um modelo para toda a cidade. A sua diversão habitual é visitar os pobres enfermos (às vezes seis, oito ou dez juntas), para exortar, consolar e orar com eles. Frequentemente dez ou mais se reúnem para cantar e orar sozinhas; às vezes trinta ou quarenta; e ficam tão fervorosamente ocupadas — ora cantando, ora orando, ora chorando — que não sabem como se separar. Vocês, crianças, que ouvem isto: por que não vão e fazem o mesmo? Não está Deus aqui, tanto quanto em Bolton? Levante-se Deus e mantenha a sua própria causa, ainda que “pela boca de crianças e de recém-nascidos” (Sl 8.2)!

As razões de Wesley para a sua longa vida

Sábado, 28 de junho. Entro hoje no meu octogésimo quinto ano. E quanta razão tenho de louvar a Deus, tanto por mil bênçãos espirituais quanto pelas corporais! Quão pouco sofri ainda com “o tropel dos numerosos anos”! É verdade que não sou tão ágil como no passado; não corro nem ando tão depressa; a vista decaiu um pouco — o olho esquerdo escureceu e mal me serve para ler; sinto diariamente alguma dor no olho direito e na têmpora direita, e no ombro e braço direitos. Acho também certo declínio na memória quanto a nomes e coisas recentes, mas nenhum quanto ao que li ou ouvi há vinte, quarenta ou sessenta anos. Nem sinto decadência alguma na audição, no olfato, no paladar ou no apetite; nem coisa alguma parecida com cansaço, seja viajando, seja pregando. E não tenho consciência de decadência alguma em escrever sermões, o que faço com a mesma prontidão, e creio que a mesma correção, de sempre.

A que causa posso imputar o estar eu assim? Primeiro, sem dúvida, ao poder de Deus, que me apronta para a obra a que me chamou, enquanto lhe apraz conservar-me nela; e, depois, subordinadamente, às orações dos seus filhos. Não posso imputá-lo, como meios inferiores: 1) ao meu constante exercício e mudança de ares? 2) a nunca ter perdido uma noite de sono, doente ou são, em terra ou no mar, desde que nasci? 3) a poder dormir por comando, de dia ou de noite, sempre que me sinto quase esgotado? 4) a ter-me levantado às quatro da manhã, constantemente, por cerca de sessenta anos? 5) a ter pregado às cinco da manhã, por mais de cinquenta? 6) a ter tido tão pouca dor na vida, e tão pouca tristeza e cuidado ansioso? Se isto me é enviado como aviso de que em breve deixarei este tabernáculo, não sei; mas, seja de um modo ou de outro, só tenho a dizer: o resto dos meus dias, gasto-os no louvor daquele que morreu para redimir o mundo todo: sejam muitos ou poucos, os meus dias são dele, e todos lhe são devotados. Preguei de manhã sobre o Salmo 90.12; à noite, sobre Atos 13.40-41.

Domingo, 6 de julho. Cheguei a Epworth antes do início do culto, e alegrei-me de observar a seriedade com que o senhor Gibson leu as orações e pregou um sermão simples e proveitoso. Mas entristeceu-me ver apenas uns vinte comungantes, metade dos quais veio por minha causa. “Que fazer?” Eu de bom grado impediria que os membros daqui deixassem a Igreja; mas não posso. Como o pároco não é homem piedoso, antes inimigo da piedade, que prega frequentemente contra a verdade e contra os que a sustentam e amam, não consigo, com toda a minha influência, persuadi-los a ouvi-lo ou a receber a ceia das suas mãos. Se não consigo este ponto nem enquanto vivo, quem o conseguirá quando eu morrer? E o caso de Epworth é o caso de toda igreja onde o ministro não ama nem prega o evangelho. Às quatro preguei na praça do mercado, sobre Romanos 6.23, e exortei com veemência a multidão a escolher a melhor parte.

Uma Conferência importante

Preguei na capela nova (Londres) todas as noites durante a Conferência, que durou nove dias, começando na terça, 29 de julho, e terminando na quarta, 6 de agosto. Um dos pontos mais importantes considerados foi o de deixar a Igreja. A soma de uma longa conversa foi: 1) que, no curso de cinquenta anos, não nos desviamos dela, premeditada ou voluntariamente, em um só artigo, seja de doutrina, seja de disciplina; 2) que não temos consciência de nos desviar dela em ponto algum de doutrina; 3) que, no curso dos anos, por necessidade — não por escolha —, nos desviamos lenta e cautelosamente em alguns pontos de disciplina: pregando nos campos, orando de improviso, empregando pregadores leigos, formando e regulando sociedades e realizando conferências anuais. Mas nada disso fizemos senão quando convencidos de que não podíamos mais omiti-lo, a não ser com perigo das nossas almas.

Quarta-feira, 6. A nossa Conferência terminou como começou: em grande paz. Guardamos este dia como jejum, reunindo-nos às cinco, às nove e à uma para oração, e concluindo o dia com uma solene vigília.

Sábado, 6 de setembro. Caminhei até a casa do senhor Henderson, em Hanham, e dali a Bristol. Mas os meus amigos, mais bondosos que sábios, mal o consentiram: parecia-lhes coisa tão grave caminhar cinco ou seis milhas! Envergonho-me de que um pregador metodista, com saúde razoável, faça disso qualquer dificuldade.

“Os passos suaves da velhice”

Segunda-feira, 15 de dezembro. À noite preguei na escola da senhorita Teulon, em Highgate. Penso que foi a noite mais fria de que me lembro. A casa ficava à beira da colina, e o vento leste batia em cheio na janela. Contei onze horas, meia-noite, uma — e tive então de vestir-me, crescendo mais e mais as cãibras. Mas, pela manhã, não só as cãibras se foram, mas também a claudicação que costumava segui-las.

Por este tempo eu refletia sobre os passos suaves com que a velhice se apossa de nós. Um só exemplo: quatro anos atrás, a minha vista era tão boa quanto aos vinte e cinco. Comecei então a notar que não via com o olho esquerdo tão claramente quanto com o direito. Depois, alguma dificuldade em ler letra miúda à luz de vela; um ano mais, e a mesma dificuldade à luz do dia. No inverno de 1786 eu já não lia bem o nosso hinário sem uma vela grande; no ano seguinte, não lia cartas de letra pequena ou ruim. No último inverno, formou-se uma catarata no olho esquerdo, cuja vista ficou extremamente turva. Assim “se escurecem os que olham pelas janelas” (Ec 12.3) — uma das marcas da velhice. Mas bendigo a Deus: “o gafanhoto” não é “um peso” (Ec 12.5). Ainda posso viajar; a memória é a mesma de sempre; e o entendimento, penso, também.

Wesley posa para Romney

1789. Quinta-feira, 1º de janeiro. Se este há de ser o último ano da minha vida, segundo algumas daquelas profecias, espero que seja o melhor. Não ando ansioso por isso, mas recebo de coração o conselho do anjo em Milton: “Quão bem vivas, é contigo; quão longamente, permite ao céu.”

Segunda-feira, 5. A pedido insistente da senhora T., posei mais uma vez para o meu retrato. O senhor Romney é um pintor de verdade: apanhou de primeira uma semelhança exata, e fez mais em uma hora do que sir Joshua em dez.

Sexta-feira, 9. Não deixei dinheiro a ninguém no meu testamento, porque não o tinha. Mas agora, considerando que, quando eu partir, logo surgirá dinheiro da venda dos livros, acrescentei por codicilo alguns legados, a pagar o quanto antes. Mas eu quisera fazer algum bem enquanto vivo; pois quem sabe o que virá depois de si?

Terça-feira, 20. Recolhi-me para terminar as contas do ano. Se possível, preciso ser melhor ecônomo: em vez de ter algo de reserva, estou agora consideravelmente endividado; e isso não me agrada. Eu quisera acertar até as minhas contas antes de morrer.

Wesley explica o metodismo

Domingo, 1º de março. Foi um dia verdadeiramente solene. A capela nova esteve bem apinhada, de manhã e à tarde. Às sete da noite tomei a mala-posta; e, com três dos nossos irmãos, passamos uma noite confortável, parte em sono profundo, parte cantando louvores a Deus. Em breve se verá se os que profetizaram, tempos atrás, que eu não sobreviveria a este mês, foram enviados por Deus ou não. De um modo ou de outro, o meu cuidado é estar sempre pronto.

Domingo de Páscoa, 12 de abril (Dublin). Tivemos uma assembleia solene de fato: muitas centenas de comungantes pela manhã e, à tarde, bem mais ouvintes do que a nossa sala podia conter, embora consideravelmente ampliada. Depois reuni a sociedade e lhe expliquei longamente o desígnio original dos metodistas: não ser um partido distinto, mas despertar todos os partidos — cristãos ou pagãos — a adorar a Deus em espírito e em verdade; mas em particular a Igreja da Inglaterra, à qual pertenciam desde o princípio. Com esta visão tenho prosseguido uniformemente por cinquenta anos, sem desviar-me em nada da doutrina da Igreja; nem da sua disciplina, por escolha, mas por necessidade: assim, no curso dos anos, a necessidade me foi imposta de 1) pregar ao ar livre; 2) orar de improviso; 3) formar sociedades; 4) aceitar a ajuda de pregadores leigos; e, em alguns outros casos, de usar os meios que se ofereciam, para prevenir ou remover males que sentíamos ou temíamos.

Wesley descreve a si mesmo aos oitenta e cinco

Domingo, 28 de junho. Na conclusão do culto da manhã tivemos notável bênção; e o mesmo à noite, movendo-se a congregação inteira como o coração de um só homem. Entro hoje no meu octogésimo sexto ano. Agora sinto que envelheço: 1) a vista decaiu, e não leio letra miúda senão com luz forte; 2) as forças decaíram, e ando bem mais devagar do que há alguns anos; 3) a memória dos nomes, de pessoas ou lugares, decaiu, e preciso parar um pouco para recordá-los. O que eu deveria temer, se me inquietasse com o amanhã, é que o corpo pesasse sobre a mente, gerando obstinação, pela diminuição do entendimento, ou rabugice, pelo aumento dos achaques. Mas tu responderás por mim, ó SENHOR, meu Deus.

Sábado, 8 de agosto. Acertei todos os meus negócios temporais e, em particular, escolhi nova pessoa para preparar a Revista Arminiana. Fui obrigado, bem a contragosto, a dispensar o senhor O., por apenas duas razões: 1) as erratas são insuportáveis — suportei-as por doze anos, mas não posso mais; 2) várias peças têm sido inseridas sem o meu conhecimento, em prosa e em verso. Devo verificar se essas coisas não podem ser emendadas no curto resto da minha vida.

“Como virou a maré!”

Segunda-feira, 17. À tarde, não podendo passar pela estrada comum, obtivemos licença para rodear por uns campos, e chegamos a Falmouth em boa hora. Na última vez que estive aqui, há uns quarenta anos, fui feito prisioneiro por uma turba imensa, escancarando a boca e rugindo como leões. Mas como virou a maré! Grandes e pequenos alinhavam-se agora pelas ruas, de uma ponta à outra da cidade, por puro amor e bondade, de olhos arregalados como se passasse o rei. À noite preguei no alto liso da colina, a pequena distância do mar, à maior congregação que já vi na Cornualha, exceto em Redruth ou perto. E hora assim eu não conhecia desde que voltei da Irlanda: Deus moveu maravilhosamente os corações do povo, e todos pareciam conhecer o dia da sua visitação (cf. Lc 19.44).

Quarta-feira, 19. Preguei ao meio-dia na rua principal de Helston, à maior e mais séria congregação de que me lembro ali. Quinta, 20: segui a St. Just e preguei à noite a uma congregação encantadora, muitos dos quais não deixaram o seu primeiro amor. Sexta, 21: preguei em Newlyn e, à noite, em Penzance — em ambos, ao ar livre. Sábado, 22: passei a Redruth e, às seis, preguei a uma imensa multidão, como de costume, dos degraus do mercado. A Palavra pareceu descer fundo em cada coração. Não sei se já passei semana igual na Cornualha.

Domingo, 23. Preguei ali de novo pela manhã e, à noite, no anfiteatro (Gwennap) — suponho que pela última vez; pois a minha voz já não comanda a multidão sempre crescente. Calculava-se que eram agora mais de vinte e cinco mil; e penso quase impossível que todos ouvissem.

Quinta-feira, 8 de outubro. Estou agora, pela boa providência de Deus, tão bem quanto posso esperar estar enquanto viver. A vista decaiu tanto que não leio bem à luz de vela; mas escrevo tão bem como sempre. As forças diminuíram muito, e já não posso pregar facilmente mais de duas vezes ao dia. Mas, bendito seja Deus, a memória não decaiu muito, e o entendimento está tão claro como nestes cinquenta anos.

O octogésimo sexto Natal de Wesley

Sexta-feira, 25 de dezembro (Natal). Começamos o culto na capela nova às quatro horas, como de costume; e ali preguei de novo à noite, depois de oficiar em West Street na hora comum. Domingo, 27: preguei em St. Luke, a nossa igreja paroquial, à tarde, a numerosíssima congregação, sobre “o Espírito e a noiva dizem: Vem!” (Ap 22.17). De tal modo viraram as mesas que tenho agora mais convites para pregar em igrejas do que posso aceitar.

Segunda-feira, 28. Recolhi-me a Peckham e, nas horas vagas, li parte de uma bugiganga bem escrita — a Vida da senhora Bellamy. Ela insere abundância de anedotas, verdadeiras ou falsas. Uma, sobre o senhor Garrick, é curiosa: diz ela que, quando ele tomava navio para a Inglaterra, uma dama lhe presenteou um embrulho, pedindo que não o abrisse antes de estar no mar. Quando abriu, achou os Hinos de Wesley — que imediatamente atirou ao mar. Não posso crer. Penso que o senhor Garrick tinha mais senso. Ele conhecia bem o meu irmão, e o sabia superior, não só em erudição, mas em poesia, ao senhor Thomson e a todos os seus escritores teatrais juntos.

Quinta-feira, 31. Preguei na capela nova; mas, para evitar as cãibras, fui para a cama às dez. Bem me saí: não sei se jamais senti tantas numa só noite.

O último ano do Diário

1790. Sexta-feira, 1º de janeiro. Sou agora um velho, gasto da cabeça aos pés. Os olhos estão turvos; a mão direita treme muito; a boca amanhece quente e seca todos os dias; tenho uma febre persistente quase diária; o meu andar é fraco e lento. Contudo, bendito seja Deus, não afrouxo o trabalho: ainda posso pregar e escrever.

Domingo, 17. À tarde preguei em Great St. Helen, a uma grande congregação. Creio que faz cinquenta anos que preguei ali pela primeira vez. Que coisas tem Deus operado desde então!

Terça-feira, 23 de fevereiro. Cedi à importunação e posei mais uma vez para o meu retrato. Mal pude crer em mim mesmo — o retrato de um homem no seu octogésimo sétimo ano!

Segunda-feira, 28 de junho. Entro hoje no meu octogésimo oitavo ano. Por mais de oitenta e seis anos, não conheci nenhuma das enfermidades da velhice: os meus olhos não se escureceram, nem se abateu o meu vigor natural. Mas em agosto passado sobreveio uma mudança quase súbita: os olhos ficaram tão turvos que óculos nenhuns me ajudam; as forças igualmente me abandonaram, e provavelmente não voltarão neste mundo. Mas não sinto dor alguma da cabeça aos pés; apenas parece que a natureza está exausta e, humanamente falando, afundará mais e mais, até que “as cansadas molas da vida parem enfim”.

Quinta-feira, 1º de julho. Fui a Lincoln. Depois do jantar passeamos pela catedral e ao redor dela — que realmente julgo mais elegante que a de York, em várias partes da estrutura e na sua admirável situação. A casa nova encheu-se por completo à noite, com ouvintes invulgarmente sérios. Parece haver notável diferença entre o povo de Lincoln e o de York: não têm tanto fogo e vigor de espírito, mas bem mais brandura e mansidão.

Um estalajadeiro desviado

Algumas milhas antes de Lincoln, o nosso postilhão parou numa estalagem da estrada para dar água aos cavalos. Assim que entramos, o estalajadeiro rompeu em lágrimas, como também a esposa, torcendo as mãos e chorando amargamente. “O quê!”, disse ele, “o senhor na minha casa! Meu pai é John Lester, de Epworth.” Descobri que ambos tinham sido da nossa sociedade — até que a deixaram. Passamos algum tempo juntos em oração, e confio que não em vão.

Domingo, 5 de setembro. Em Bath, às dez, tivemos numerosa congregação, e mais comungantes do que jamais vi ali. Neste dia cortei aquele costume vil — não sei quando ou como começou — de pregar três vezes ao dia, o mesmo pregador à mesma congregação: bastante para esgotar corpo e mente do pregador, e também dos ouvintes. Certamente Deus está voltando a esta sociedade! Estão agora empenhados em tornar firme a sua vocação e eleição (2Pe 1.10).

“Tornei-me um homem honrado”

Segunda-feira, 11 de outubro. Fui (de Londres) a Colchester, e ainda achei matéria de humilhação: a sociedade diminuída e bem fria; a pregação de manhã, de novo interrompida; e o espírito do metodismo quase ido, dos pregadores e do povo. Tivemos, contudo, maravilhosa congregação à noite, ricos e pobres, clérigos e leigos. Assim também na terça à noite. Confio, pois, que Deus enfim reedificará os lugares devastados.

Quarta-feira, 13. À noite preguei em Norwich, mas a casa de modo nenhum conteve a congregação. Quão maravilhosamente virou a maré! Tornei-me um homem honrado em Norwich. Deus enfim fez que os nossos inimigos estivessem em paz conosco, e quase ninguém, além dos antinomianos, abre a boca contra nós.

Quinta-feira, 14. Fui a Yarmouth e achei, enfim, uma sociedade em paz e bem unida. À noite a congregação foi grande demais para a casa de pregação; e, contudo, bem menos barulhenta que de costume. Depois da ceia, um pequeno grupo se pôs em oração, e o poder de Deus caiu sobre nós — especialmente quando uma jovem irrompeu em oração, para surpresa e consolo de todos nós.

Sexta-feira, 15. Fui a Lowestoft, a uma sociedade firme, amorosa e bem unida. Tanto mais estranho é que não cresçam nem diminuam em número.

As últimas entradas de Wesley

Segunda-feira, 18. Não havendo diligência para Lynn hoje, tive de tomar uma sege de posta. Mas em Dereham não havia cavalos, e fomos obrigados a seguir com os mesmos até Swaffham. Uma congregação nos esperava ali, que encheu a casa e parecia bem pronta a receber instrução. Mas tampouco ali conseguimos cavalos de posta, e tivemos de tomar uma sege de um cavalo só. O vento, com chuva miúda, vinha em cheio no nosso rosto, e nada tínhamos que nos abrigasse; fiquei gelado da cabeça aos pés antes de chegar a Lynn. Mas logo esqueci o pequeno incômodo, que o fervor da congregação me compensou largamente.

Terça-feira, 19. À noite, todos os clérigos da cidade, exceto um que estava manco, estiveram presentes à pregação. Estão todos bem-dispostos para com os metodistas — como, aliás, a maior parte dos homens da cidade; e dão boa prova disso contribuindo para as nossas escolas dominicais, para as quais há em caixa quase vinte libras.

Quarta-feira, 20. Eu marcara pregar em Diss, cidade perto de Scole; mas a dificuldade era onde. O ministro estava disposto a que eu pregasse na igreja, mas temia ofender o bispo, que, subindo a Londres, estava a poucas milhas da cidade. Um cavalheiro, porém, perguntando ao bispo se tinha alguma objeção, ouviu como resposta: “Nenhuma.” Penso que esta igreja é uma das maiores do condado; e suponho que não se enchia assim havia cem anos. Nesta noite e na seguinte preguei em Bury, a uma congregação profundamente atenta, muitos dos quais sabem em quem têm crido (2Tm 1.12).

Sexta-feira, 22. Voltamos a Londres.

Domingo, 24. Expus, a uma numerosa congregação na igreja de Spitalfields, “toda a armadura de Deus” (Ef 6.11). St. Paul, em Shadwell, esteve ainda mais apinhada à tarde, enquanto eu aplicava aquela importante verdade: “uma só coisa é necessária” (Lc 10.42); e espero que muitos, ainda ali, resolveram escolher a boa parte.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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