DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 21 · FINAL
As últimas horas de Wesley
O relato de uma testemunha ocular dos últimos dias de John Wesley, em fevereiro e março de 1791: os hinos entoados com o resto das forças, as instruções serenas, as últimas palavras — e a partida do homem que “recolheu os pés na presença dos seus irmãos”.
“O melhor de tudo é que Deus está conosco!”
(John Wesley, 1º de março de 1791)Antes de ler
Chegamos ao fim. John Wesley morreu na quarta-feira, 2 de março de 1791, aos oitenta e sete anos, no seu quarto ao lado da capela de City Road, em Londres. O Diário se encerrara em outubro de 1790; o que se segue é o relato de uma testemunha ocular — Elizabeth Ritchie, a “Betsy” do texto, amiga e auxiliar que o acompanhou nos últimos dias e escreveu, a pedido dos amigos, o que viu e ouviu. Com este documento, Parker encerrou a sua edição do Diário; e com ele encerramos esta série.
Repare como Wesley morreu exatamente como viveu: cantando. Com as forças que restavam, entoou o hino de Isaac Watts que dera aos metodistas como lema de vida — “louvarei o meu Criador enquanto eu tiver fôlego” — e o canto trinitário de seu irmão Carlos. Quando já não podia escrever, ditou uma única frase: “Nada, senão que Deus está conosco.” E, quando a fala já falhava, reuniu tudo o que tinha e exclamou duas vezes, erguendo o braço em sinal de vitória: “O melhor de tudo é que Deus está conosco!” Não citou os seus feitos, os seus livros, as suas milhas: citou a Presença (Mt 28.20; Sl 46.7).
Observe também a simplicidade deliberada: “que eu seja sepultado apenas em lã, e que o meu corpo seja levado no caixão para dentro da capela” — sem pompa, como pedira também que não houvesse carro fúnebre. E o cuidado com os outros até o fim: as instruções aos testamenteiros, o desejo veemente de que um sermão seu sobre o amor de Deus fosse “espalhado e dado de graça a todos”, os repetidos pedidos: “orem e louvem”. A última palavra articulada foi uma bênção: “Adeus!” — e, “sem um gemido”, ele “recolheu os pés na presença dos seus irmãos”, como o patriarca Jacó (Gn 49.33).
Ao concluir estes vinte e um capítulos, o meu desejo pastoral é simples: que a leitura não termine em admiração por Wesley, mas em busca do Deus de Wesley. O que sustentou meio século de estradas, tempestades, turbas e trabalho foi a fé que opera pelo amor (Gl 5.6): a salvação pela graça, recebida pela fé, e a santidade de coração e vida, esperada e buscada a cada hora. Se o Deus que esteve com Wesley é o mesmo hoje — e é —, então a palavra final do velho pregador é também um convite ao leitor: “O melhor de tudo é que Deus está conosco.” — Bispo Ildo Mello
— Bispo Ildo Mello
Relato de alguém que esteve presente: Elizabeth Ritchie, amiga e auxiliar de Wesley, testemunha ocular dos seus últimos dias.
Os últimos dias
Quinta-feira, 24 de fevereiro de 1791. O senhor Wesley fez a sua última visita àquele lugar e àquela família encantadores — a casa do senhor Wolff, em Balham —, de que muitas vezes o ouvi falar com prazer e muita afeição. Ali, disse o senhor Rogers, esteve alegre, e parecia quase tão bem como de costume, até a sexta-feira, por volta da hora do desjejum, quando pareceu muito abatido.
Por volta das onze, a senhora Wolff o trouxe para casa. Impressionou-me o seu modo de descer do coche e de entrar em casa; mais ainda, quando subiu a escada e se sentou na cadeira. Corri a buscar algum refrigério; mas, antes que eu pudesse trazer qualquer coisa, ele já mandara o senhor Rogers sair do quarto, pedindo que ninguém o interrompesse por meia hora — nem mesmo, acrescentou, se Joseph Bradford viesse.
O senhor Bradford chegou minutos depois e, expirado o prazo, entrou no quarto; saiu em seguida e pediu-me que aquecesse vinho com especiarias e o levasse ao senhor Wesley. Ele bebeu um pouco e pareceu sonolento. Em poucos minutos foi tomado de náusea, lançou o que bebera e disse: “Preciso deitar-me.” Mandamos chamar imediatamente o doutor Whitehead; ao vê-lo entrar, o senhor Wesley sorriu e disse: “Doutor, eles estão mais assustados do que eu ferido.” Ficou deitado a maior parte do dia, com pulso acelerado, febre ardente e extrema sonolência.
Sábado, 26. Continuou praticamente no mesmo estado: falou pouco e, se despertado para responder a uma pergunta ou tomar algum alimento (raramente mais que uma colherada de cada vez), logo tornava a dormitar.
Domingo, 27. De manhã, com uma pequena ajuda do senhor Bradford, o senhor Wesley se levantou, tomou uma xícara de chá e pareceu bem melhor. Muitos dos nossos amigos se encheram de esperança; mas o doutor Whitehead disse que ele não estava fora de perigo.
Segunda-feira, 28. A sua fraqueza cresceu rapidamente e, estando os amigos em geral muito alarmados, o doutor Whitehead desejou que se chamasse outro médico. O senhor Bradford apresentou o desejo ao nosso honrado pai, que o recusou terminantemente: “O doutor Whitehead conhece a minha condição melhor que ninguém; estou perfeitamente satisfeito, e não quero mais ninguém.” Dormiu a maior parte do dia e falou pouco; mas esse pouco testemunhava quanto o seu coração inteiro estava tomado pela causa das igrejas, pela glória de Deus e pelas coisas daquele Reino para o qual se apressava.
“Não há outro caminho para o Santo dos Santos”
Certa vez, em tom baixo, mas muito distinto, disse: “Não há outro caminho para o Santo dos Santos senão pelo sangue de Jesus” (cf. Hb 10.19). Tivesse forças naquele momento, parecia que teria dito mais.
Terça-feira, 1º de março. Depois de uma noite muito inquieta (embora, quando lhe perguntavam se sentia dor, respondesse em geral que não — e não se queixou uma só vez em toda a enfermidade, exceto quando disse sentir uma dor no peito esquerdo ao respirar), começou a cantar:
Toda glória a Deus lá no alto, / e que a paz à terra seja restaurada!
Cantados dois versos, as forças lhe faltaram. Depois de ficar quieto um pouco, pediu ao senhor Bradford pena e tinta; ele as trouxe, mas a mão direita quase esquecera a sua destreza, e aqueles dedos ativos, que tinham sido benditos instrumentos de consolação espiritual e de instrução para milhares, já não podiam cumprir o seu ofício. Algum tempo depois, disse-me: “Quero escrever.” Trouxe-lhe pena e tinta e, pondo-lhe a pena na mão e segurando o papel diante dele, ouvi-o dizer: “Não consigo.” Respondi: “Deixe-me escrever pelo senhor; diga-me o que quer dizer.” “Nada”, respondeu ele, “senão que Deus está conosco.”
Pela manhã disse: “Vou levantar-me.” Enquanto lhe preparavam as coisas, irrompeu, de um modo que, considerada a sua extrema fraqueza, a todos nos assombrou, nestas benditas palavras:
Louvarei o meu Criador enquanto eu tiver fôlego; / e, quando a minha voz se perder na morte, / o louvor ocupará as minhas faculdades mais nobres: / os meus dias de louvor jamais hão de passar, / enquanto durarem a vida, o pensamento e o ser, / ou a imortalidade perdurar.
Foram estas também as últimas palavras que o nosso reverendo e querido pai anunciou na capela de City Road, na terça-feira à noite, antes de pregar sobre “nós, pelo Espírito, aguardamos…” (Gl 5.5).
“O melhor de tudo é que Deus está conosco”
Quando se sentou na cadeira, vimos nele a mudança da morte; mas ele, sem se importar com o corpo que se desfazia, disse com voz fraca: “Senhor, tu dás força aos que podem falar e aos que não podem: fala, Senhor, a todos os nossos corações, e que eles saibam que tu soltas as línguas.” E cantou:
Ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, / que docemente concordam em um…
Aqui a voz lhe faltou. Depois de arquejar por ar, disse: “Agora terminamos — vamos todos.” Fomos obrigados a deitá-lo na cama, da qual não mais se levantou. Depois de ficar quieto e dormir um pouco, chamou-me e disse: “Betsy, você, o senhor Bradford e os outros: orem e louvem.” Ajoelhamo-nos, e verdadeiramente os nossos corações se encheram da presença divina: o quarto parecia cheio de Deus.
Pouco depois, falou ao senhor Bradford sobre a chave e o conteúdo da sua escrivaninha; e, enquanto este atendia às instruções, o senhor Wesley chamou-me e disse: “Quero tudo pronto para os meus testamenteiros: o senhor Wolff, o senhor Horton e o senhor Marriott.” Aqui a voz falhou de novo; mas, tomando fôlego, acrescentou: “Que eu seja sepultado apenas em lã, e que o meu corpo seja levado no caixão para dentro da capela.” Então, como quem já terminara com tudo aqui embaixo, pediu de novo que orássemos e louvássemos.
A cena seguinte, comovente e solene, foi o grande esforço que fez para que o senhor Bradford entendesse que desejava ardentemente que um sermão seu sobre o amor de Deus fosse espalhado por toda parte e dado de graça a todos. Queria dizer mais alguma coisa; mas, ai!, a fala falhou; e aqueles lábios que alimentaram a tantos já não podiam (senão quando força particular lhes era dada) transmitir os seus sons costumeiros.
Pouco depois, entrando o senhor Horton, esperamos que, se tinha algo de importante a comunicar, tentaria de novo dizê-lo. Mas, embora se esforçasse por falar, não o conseguimos entender. Vendo que não o compreendíamos, fez uma pausa e então, com toda a força que lhe restava, exclamou: “O melhor de tudo é que Deus está conosco!” E em seguida, como que para afirmar a fidelidade do nosso Deus que cumpre promessas e consolar o coração dos amigos que choravam, erguendo o braço moribundo em sinal de vitória e levantando a voz débil com um santo triunfo que não se pode exprimir, repetiu as palavras que reavivam o coração: “O melhor de tudo é que Deus está conosco!”
Algum tempo depois, quando lhe umedeciam os lábios ressequidos, disse: “Não adianta; temos de aceitar a consequência. Não se preocupem com o pobre invólucro.” E, após breve pausa, exclamou: “As nuvens destilam fartura!” (cf. Sl 65.11); e logo depois: “O SENHOR está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio!” (Sl 46.7). Chamou-nos então à oração. O senhor Broadbent foi de novo a boca dos nossos corações cheios; e o senhor Wesley, embora muito exausto por esses esforços, parecia ainda mais fervoroso de espírito. Pela noite adentro, ouviram-no muitas vezes tentar repetir o salmo já mencionado; mas só conseguia dizer: “Eu louvarei… eu louvarei…!”
A partida
Quarta-feira, 2 de março. De manhã, vimos que a cena final se aproximava. O senhor Bradford, seu fiel amigo e afetuosíssimo filho, orou com ele; e a última palavra que se lhe ouviu articular foi: “Adeus!” Poucos minutos antes das dez, enquanto a senhorita Wesley, o senhor Horton, o senhor Brackenbury, o senhor e a senhora Rogers, o doutor Whitehead, o senhor Broadbent, o senhor Whitefield, o senhor Bradford e Elizabeth Ritchie estavam ajoelhados ao redor do seu leito, conforme o desejo que tantas vezes exprimira, sem um gemido sequer, este homem de Deus recolheu os pés na presença dos seus irmãos (cf. Gn 49.33)!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.