Fomos de fato libertos?
Cristo nos “resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (Cl 1.13). Isso mudou alguma coisa de verdade no meu viver, ou continuo escravo do pecado como antes?
“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. E que todo o espírito, alma e corpo de vocês sejam conservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.”1 Tessalonicenses 5.23 · NAA
Para começar
Antes das definições, três inquietações honestas. Guarde as suas respostas — vamos retomá-las no fim do curso.
Cristo nos “resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (Cl 1.13). Isso mudou alguma coisa de verdade no meu viver, ou continuo escravo do pecado como antes?
A expressão assusta. Mas ela está na Bíblia (Mt 5.48; Fp 3.15) e no coração da herança que recebemos. O que Deus promete e o que não promete quando fala em santidade?
Cremos no que Cristo fez por nós na cruz. Wesley insistia que Ele também quer fazer uma obra real em nós — não só nos declarar justos, mas nos tornar santos.
Ponto de partida
Boa parte da confusão sobre santidade nasce de uma leitura equivocada de Romanos 7. Se o cristão normal é aquele “miserável” que faz o mal que não quer (Rm 7.19,24), então a santidade vira apenas um rótulo jurídico, e o conformismo com o pecado passa a ser a regra.
O “eu” de Romanos 7.7-25 — carnal, vendido à escravidão do pecado — não é o retrato do regenerado. Paulo encena, em primeira pessoa, a condição de todos os que estão “em Adão”, inclusive os judeus que se agradam da lei de Deus mas vivem fora de Cristo. Basta comparar com o que ele diz do cristão poucos versículos antes e depois: “libertados do pecado, transformados em servos de Deus” (Rm 6.22); “agora, pois, nenhuma condenação há” (Rm 8.1-2).
Estudamos esse argumento em detalhe na aula anterior — vale reler antes de seguir: O enigma de Romanos 7 →. Aqui basta a conclusão: o Novo Testamento não descreve o crente como escravo derrotado, mas como quem foi realmente liberto para servir a Deus “em novidade de espírito” (Rm 7.6). É desse chão que a doutrina da inteira santificação se levanta.
“Aquele que pratica o pecado é do Diabo… Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo.”1 João 3.8
A herança wesleyana
A contribuição mais própria de João Wesley à igreja não foi inventar uma doutrina nova, mas recuperar um equilíbrio: a importância da obra de Cristo em nós tanto quanto do que Ele fez por nós.
O problema que ele enfrentava
Wesley reconhecia a dívida para com Lutero e Calvino, mas via um risco no modo como a santidade fora reduzida a mero status jurídico — sinônimo de justificação — deixando o cristão conformado com a derrota. Ele chegou a elogiar os batistas por exigirem arrependimento para a conversão, e a estranhar a incoerência de não se cobrar a mesma seriedade quanto à santidade depois dela.
A resposta dele
“A maior força da doutrina wesleyana da perfeição talvez esteja em sua capacidade de mobilizar os crentes a buscarem um futuro mais perfeito que o presente. Consciente das forças do mal, Wesley não as tomava como consequências inevitáveis do pecado original, mas justamente como aquilo que pode ser vencido” (Theodore Runyon). Deus é um Deus de milagres; podemos, por isso, batalhar com esperança contra o pecado.
Wesley desenvolveu isso sobretudo em três sermões, hoje disponíveis no site em português atual: A perfeição cristã (Sermão 40), O caminho bíblico da salvação (Sermão 43) e A circuncisão do coração (Sermão 17).
Definição
A regeneração — o novo nascimento — marca o início da santificação. A inteira santificação é a obra do Espírito pela qual o coração é libertado da rebelião para amar a Deus e ao próximo de modo pleno.
Wesley, Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã
“Uma morte total para o pecado e uma plena renovação no amor e na imagem de Deus, de modo a regozijar-se sempre, orar sem cessar e em tudo dar graças.”
1 Tessalonicenses 5.23
“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente… todo o espírito, alma e corpo… irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor.”
Repare no verbo: quem santifica é Deus (“Aquele que os chama é fiel, e o fará”, 1Ts 5.24). Não se trata de um esforço heroico que arranca de nós a santidade, mas de uma obra da graça que nos toma por inteiro.
O coração da doutrina
“Perfeição” aqui não quer dizer ausência de limites, mas maturidade do amor. Para Wesley, a perfeição cristã é “a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6) — “o puro amor enchendo o coração e governando todas as palavras e ações”.
A liberdade cristã, então, não é apenas o alívio de uma consciência culpada; é o amor governando o coração e a vida. A salvação em Cristo não é uma proposição a ser aceita, mas uma Pessoa a ser amada e obedecida.
Precisão
Tão importante quanto afirmar a doutrina é guardá-la de exageros. Wesley foi cuidadoso em dizer o que a perfeição cristã não significa.
Em resumo: a inteira santificação não é a libertação da presença e de todos os efeitos do pecado — isso só teremos na glória —, mas a libertação do domínio do pecado, para que o amor reine no coração.
Síntese de Wesley
No Sermão 40, Wesley resume a doutrina em afirmações que evitam tanto o pessimismo quanto o exagero:
Onde eu fico
Depois de ouvir os dois riscos — o pessimismo que se conforma com o pecado e o entusiasmo que promete o que a Escritura não promete —, deixo minha posição explícita.
Creio, com Wesley, que Deus não nos salvou apenas para nos declarar justos, mas para nos tornar santos — e que amar a Deus de todo o coração é meta real para esta vida, pelo poder do Espírito. Ao mesmo tempo, não anuncio uma perfeição que dispense a cruz: o santo mais maduro ainda vive da graça, ainda se arrepende, ainda cresce. A palavra certa é esperança: nem resignação diante do pecado, nem presunção diante de Deus.
Fixação
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Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Ler, com calma, o Sermão 40 — A perfeição cristã e anotar, em uma página, uma coisa que a doutrina afirma e uma que ela não afirma; e reler a lição O enigma de Romanos 7, comparando Rm 7.7-25 com Rm 6.22 e 8.1-2.
Aula 2
A base bíblica da santidade — o sentido de “santo” no Antigo e no Novo Testamento, a santidade como relacionamento, a imagem de Deus restaurada e o alvo alcançável nesta vida, com o estímulo da grande nuvem de testemunhas. Ir para a Aula 2 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. · Bispo Ildo Mello