Inteira Santificação · Aula 1Aula 1

O que é (e o que não é) a inteira santificação

“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. E que todo o espírito, alma e corpo de vocês sejam conservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.”1 Tessalonicenses 5.23 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 7; 1Ts 5.16-24; 1Jo 3.1-10; e a lição O enigma de Romanos 7

Para começar

As perguntas que nos guiam

Antes das definições, três inquietações honestas. Guarde as suas respostas — vamos retomá-las no fim do curso.

1

Fomos de fato libertos?

Cristo nos “resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (Cl 1.13). Isso mudou alguma coisa de verdade no meu viver, ou continuo escravo do pecado como antes?

2

“Cristão perfeito” — é possível?

A expressão assusta. Mas ela está na Bíblia (Mt 5.48; Fp 3.15) e no coração da herança que recebemos. O que Deus promete e o que não promete quando fala em santidade?

3

Deus quer fazer algo em mim?

Cremos no que Cristo fez por nós na cruz. Wesley insistia que Ele também quer fazer uma obra real em nós — não só nos declarar justos, mas nos tornar santos.

Ponto de partida

Libertos ou ainda escravos do pecado?

Boa parte da confusão sobre santidade nasce de uma leitura equivocada de Romanos 7. Se o cristão normal é aquele “miserável” que faz o mal que não quer (Rm 7.19,24), então a santidade vira apenas um rótulo jurídico, e o conformismo com o pecado passa a ser a regra.

O “eu” de Romanos 7.7-25 — carnal, vendido à escravidão do pecado — não é o retrato do regenerado. Paulo encena, em primeira pessoa, a condição de todos os que estão “em Adão”, inclusive os judeus que se agradam da lei de Deus mas vivem fora de Cristo. Basta comparar com o que ele diz do cristão poucos versículos antes e depois: “libertados do pecado, transformados em servos de Deus” (Rm 6.22); “agora, pois, nenhuma condenação há” (Rm 8.1-2).

Estudamos esse argumento em detalhe na aula anterior — vale reler antes de seguir: O enigma de Romanos 7 →. Aqui basta a conclusão: o Novo Testamento não descreve o crente como escravo derrotado, mas como quem foi realmente liberto para servir a Deus “em novidade de espírito” (Rm 7.6). É desse chão que a doutrina da inteira santificação se levanta.

“Aquele que pratica o pecado é do Diabo… Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo.”1 João 3.8

A herança wesleyana

A grande ênfase de Wesley: também em nós

A contribuição mais própria de João Wesley à igreja não foi inventar uma doutrina nova, mas recuperar um equilíbrio: a importância da obra de Cristo em nós tanto quanto do que Ele fez por nós.

A resposta dele

Confiança e otimismo da graça

“A maior força da doutrina wesleyana da perfeição talvez esteja em sua capacidade de mobilizar os crentes a buscarem um futuro mais perfeito que o presente. Consciente das forças do mal, Wesley não as tomava como consequências inevitáveis do pecado original, mas justamente como aquilo que pode ser vencido” (Theodore Runyon). Deus é um Deus de milagres; podemos, por isso, batalhar com esperança contra o pecado.

Wesley desenvolveu isso sobretudo em três sermões, hoje disponíveis no site em português atual: A perfeição cristã (Sermão 40), O caminho bíblico da salvação (Sermão 43) e A circuncisão do coração (Sermão 17).

Definição

O que a inteira santificação é

A regeneração — o novo nascimento — marca o início da santificação. A inteira santificação é a obra do Espírito pela qual o coração é libertado da rebelião para amar a Deus e ao próximo de modo pleno.

Wesley, Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã

“Uma morte total para o pecado e uma plena renovação no amor e na imagem de Deus, de modo a regozijar-se sempre, orar sem cessar e em tudo dar graças.”

1 Tessalonicenses 5.23

“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente… todo o espírito, alma e corpo… irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor.”

Repare no verbo: quem santifica é Deus (“Aquele que os chama é fiel, e o fará”, 1Ts 5.24). Não se trata de um esforço heroico que arranca de nós a santidade, mas de uma obra da graça que nos toma por inteiro.

O coração da doutrina

Perfeição cristã é amor que enche o coração

“Perfeição” aqui não quer dizer ausência de limites, mas maturidade do amor. Para Wesley, a perfeição cristã é “a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6) — “o puro amor enchendo o coração e governando todas as palavras e ações”.

A liberdade cristã, então, não é apenas o alívio de uma consciência culpada; é o amor governando o coração e a vida. A salvação em Cristo não é uma proposição a ser aceita, mas uma Pessoa a ser amada e obedecida.

Precisão

O que a inteira santificação não é

Tão importante quanto afirmar a doutrina é guardá-la de exageros. Wesley foi cuidadoso em dizer o que a perfeição cristã não significa.

Não é ausência de toda imperfeição. Enquanto vivermos neste corpo, permanecem fraquezas, erros de juízo e limites herdados da Queda. Mesmo quem anda intimamente com Deus segue dependendo diariamente do sangue de Cristo e orando por perdão (Wesley, Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã).

Não torna ninguém infalível. Nem o amor nem a unção do Espírito nos livram de nos enganar. Santidade não é onisciência.
Não é um ponto de chegada estático. “Não existe nível de perfeição que não admita crescimento contínuo” (Sermão 40). O amor perfeito ainda cresce.
Não é impecabilidade absoluta. A perfeição absoluta pertence só a Deus. Por isso a santidade convive com o arrependimento contínuo do crente — tema que Wesley trata em O pecado nos crentes (Sermão 13) e O arrependimento dos crentes (Sermão 14).

Em resumo: a inteira santificação não é a libertação da presença e de todos os efeitos do pecado — isso só teremos na glória —, mas a libertação do domínio do pecado, para que o amor reine no coração.

Síntese de Wesley

Dez esclarecimentos sobre a perfeição cristã

No Sermão 40, Wesley resume a doutrina em afirmações que evitam tanto o pessimismo quanto o exagero:

1. Ela existe, porque a Escritura a menciona com frequência.
2. Não vem tão cedo quanto a justificação — os justificados estão “em marcha para a perfeição” (Hb 6.1).
3. Não vem tão tarde quanto a morte — Paulo fala de vivos que eram “perfeitos” (Fp 3.15).
4. Não é absoluta — a perfeição absoluta é só de Deus.
5. Não torna infalível — permanecem erros de juízo.
6. É perfeito amor (1Jo 4.18): regozijar-se sempre, orar sem cessar, em tudo dar graças (1Ts 5.16-18).
7. É suscetível de aperfeiçoamento — sempre pode crescer.
8. Pode perder-se — exige vigilância.
9. É precedida e seguida de uma obra gradual.
10. Em alguns, houve mudança instantânea; em outros, não foi assim. Wesley não impunha um único molde de experiência.

Onde eu fico

Uma esperança sóbria, não um slogan

Depois de ouvir os dois riscos — o pessimismo que se conforma com o pecado e o entusiasmo que promete o que a Escritura não promete —, deixo minha posição explícita.

Creio, com Wesley, que Deus não nos salvou apenas para nos declarar justos, mas para nos tornar santos — e que amar a Deus de todo o coração é meta real para esta vida, pelo poder do Espírito. Ao mesmo tempo, não anuncio uma perfeição que dispense a cruz: o santo mais maduro ainda vive da graça, ainda se arrepende, ainda cresce. A palavra certa é esperança: nem resignação diante do pecado, nem presunção diante de Deus.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

0 de 5

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Buscar a santidade é orgulho espiritual?” Como você responderia a quem teme que falar em perfeição seja presunção?Ver resposta sugerida
É uma preocupação legítima, e a resposta está na própria doutrina. A perfeição cristã não é uma conquista que exibimos, mas o amor de Deus que Ele derrama no coração (Rm 5.5); quem a busca não confia em si, mas na fidelidade de quem prometeu operá-la (1Ts 5.24). Além disso, ela convive com o arrependimento diário e a dependência do sangue de Cristo (Wesley, Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã). Orgulho seria dizer que não preciso crescer; humildade é levar a sério o chamado de “sede santos” (1Pe 1.15-16) e pedir a Deus o que só Ele pode dar.
Um irmão diz: “sou salvo, isso basta; santidade é para poucos”. O que a lição responde?Ver resposta sugerida
Que a santidade não é um extra para uma elite, mas o alvo de todo cristão (1Ts 4.3,7; Hb 12.14). Confundir justificação com o fim da caminhada foi exatamente o reducionismo que Wesley combateu: os justificados estão “em marcha para a perfeição” (Hb 6.1). Ser salvo não é chegar; é começar a andar. E Deus, que iniciou a boa obra, se comprometeu a completá-la (Fp 1.6; 1Ts 5.24) — sem violar a fé que a recebe.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler, com calma, o Sermão 40 — A perfeição cristã e anotar, em uma página, uma coisa que a doutrina afirma e uma que ela não afirma; e reler a lição O enigma de Romanos 7, comparando Rm 7.7-25 com Rm 6.22 e 8.1-2.

Aula 2

A base bíblica da santidade — o sentido de “santo” no Antigo e no Novo Testamento, a santidade como relacionamento, a imagem de Deus restaurada e o alvo alcançável nesta vida, com o estímulo da grande nuvem de testemunhas. Ir para a Aula 2 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. · Bispo Ildo Mello