Se é Deus que santifica, o que me cabe?
“Aquele que os chama é fiel, e o fará” (1Ts 5.24). Então por que a Bíblia me manda “afastar-me do mal”?
“Desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, segundo a sua boa vontade.”Filipenses 2.12-13 · NAA
Para começar
Se a santidade é obra de Deus, sobra alguma coisa para mim? E se depende de mim, onde entra a graça? Três perguntas honestas.
“Aquele que os chama é fiel, e o fará” (1Ts 5.24). Então por que a Bíblia me manda “afastar-me do mal”?
Basta esperar que Deus faça, ou há um esforço que me pertence — sem que isso vire salvação por obras?
Nem o ativismo que se esgota tentando merecer Deus, nem a passividade que nada faz. Existe um caminho no meio?
A chave
Paulo põe, num só fôlego, a obra de Deus e a nossa responsabilidade — e não vê contradição entre elas.
“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente… Aquele que os chama é fiel, e o fará. Portanto, afastem-se de toda forma de mal.”1 Tessalonicenses 5.22-24
A mão de Deus
“O Deus da paz os santifique… e o fará.” A iniciativa, o poder e a garantia são dele. Sem isso, todo esforço é vão.
A nossa mão
“Afastem-se de toda forma de mal.” Há um verbo no imperativo dirigido a nós. Deus não santifica por cima da nossa vontade, mas com ela.
É isso que chamamos de sinergia: cooperação. Não meio a meio, como sócios iguais — a graça vem sempre primeiro —, mas real. “Desenvolvam a salvação… porque é Deus quem efetua em vocês o querer e o realizar” (Fp 2.12-13). O “porque” é decisivo: eu trabalho porque Deus trabalha, não para substituí-lo.
A fonte
Antes de falar do nosso dever, é preciso ver de quem vem a santidade. Ela é obra do Pai, do Filho e do Espírito.
O Filho
“Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse… sem mácula nem ruga” (Ef 5.25-27); entregou-se “para purificar para si um povo todo seu” (Tt 2.14); “tornou-se para nós… santificação” (1Co 1.30). E continua essa obra após a conversão: “o Senhor os faça crescer… a fim de confirmar o coração de vocês em santidade” (1Ts 3.13).
O Espírito
“Somos transformados… na mesma imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18); “eleitos… na santificação do Espírito” (1Pe 1.2); “santificados pelo Espírito Santo” (Rm 15.16; 2Ts 2.13); pelo “lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).
O amor de Deus percorre em nós um circuito: nós o recebemos — “o amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito” (Rm 5.5); dele participamos — “participantes da natureza divina” (2Pe 1.4); e o refletimos — “brilham como estrelas no universo” (Fp 2.15).
Realismo
Que a santificação seja obra de Deus não quer dizer que ela caia pronta sobre nós enquanto dormimos. Deus opera — e por isso mesmo devemos trabalhar, não apesar disso.
“Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus.”1 Coríntios 3.6-7
Plantar e regar são trabalho de gente; o crescimento é dom de Deus. Ninguém colhe sem plantar, e ninguém faz a semente brotar. Assim é a vida santa: um sinergismo baseado na graça. Somos cooperadores de Deus (1Co 3.9), não agentes passivos.
O como
Como, então, prosseguimos para a perfeição? Wesley era muito esperançoso quanto a isto: Deus nos deu canais concretos pelos quais a sua graça chega e nos transforma — os meios da graça.
O equilíbrio de Wesley
Ele evitou dois extremos: o de certa piedade que fazia dos deveres humanos a causa da graça, e o de quem, para fugir desse erro, acabava negligenciando os deveres. Os meios não compram a graça; são os lugares onde ela nos encontra.
Os principais
A Palavra lida e ouvida (Jo 17.17), a oração, a Ceia do Senhor, a comunhão dos santos e o jejum — sem esquecer as obras de misericórdia. Usá-los é abrir a porta por onde Deus entra.
Wesley tratou disso em dois textos que valem a leitura: Os meios da graça (Sermão 16) e O caminho bíblico da salvação (Sermão 43), onde ele mostra que a santificação, como a justificação, é recebida pela fé.
Advertência
Se Deus nos dá tudo o que é preciso, qual é, então, o maior obstáculo à santidade? Não é a falta de graça — é deixá-la enterrada.
A parábola dos talentos
Deus concede talentos que devem ser empregados para render o fruto que Ele espera (Mt 25.14-30). O servo condenado não foi o que perdeu tudo, mas o que enterrou o que recebeu — e chamou a isso de prudência.
A vinha de Deus
“Que mais se poderia fazer à minha vinha que eu não tenha feito? Como, pois, esperando eu que desse uvas boas, veio a dar uvas bravas?” (Is 5.4). O lamento de Deus não é por ter dado pouco, mas por colher pouco de quem recebeu tanto.
Aplicado à santidade: a graça já foi dada em Cristo e pelo Espírito. O pecado maior, aqui, é a negligência — não usar os meios, não fazer esforço algum, e ainda assim esperar crescer. Wesley chamou os desviados de volta a esse zelo no Sermão 85 — Sobre desenvolver a nossa própria salvação.
A nossa parte
Embora seja Deus quem nos transforma por dentro (2Co 3.18), a Escritura nos dirige uma enxurrada de imperativos. Eles não contradizem a graça — a expressam.
Onde eu fico
Depois de ver as duas mãos — a de Deus e a nossa —, deixo minha posição explícita.
A santificação é, do princípio ao fim, obra de Deus; e é, o tempo todo, dever nosso. Isso não é contradição, é sinergia da graça: Deus opera, e por isso trabalhamos; Ele nos ama primeiro, e por isso amamos. Fujo dos dois erros. Do legalismo, que faz do esforço a causa da salvação e acaba exausto tentando merecer o que só se recebe. E da passividade, que enterra o talento, despreza os meios da graça e ainda culpa Deus pela falta de fruto. Entre os dois, o caminho bíblico: usar todos os meios da graça e fazer todo o esforço possível, confiando que quem começou a boa obra há de completá-la (Fp 1.6). Na próxima aula veremos como essa obra acontece — em momentos decisivos e num processo de toda a vida.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
0 de 5
Para pensar e conversar
Tarefas
Fazer um pequeno “inventário dos meios da graça”: listar os cinco e marcar, com honestidade, a frequência de cada um — e escolher um para retomar; e ler o Sermão 85 — Sobre desenvolver a nossa própria salvação.
Aula 4
Crise e processo: “quando foi que eu morri?”, a santificação como ato decisivo e como caminho de toda a vida, a mortificação diária da carne e a batalha que continua. Ir para a Aula 4 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. · Bispo Ildo Mello