Inteira Santificação · Aula 3Aula 3

Sinergia: a obra de Deus e o nosso dever

“Desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, segundo a sua boa vontade.”Filipenses 2.12-13 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1Ts 5.22-24; 1Co 3.6-9; Fp 2.12-16; 2Pe 1.3-11; Hb 12.1-14

Para começar

As perguntas que nos guiam

Se a santidade é obra de Deus, sobra alguma coisa para mim? E se depende de mim, onde entra a graça? Três perguntas honestas.

1

Se é Deus que santifica, o que me cabe?

“Aquele que os chama é fiel, e o fará” (1Ts 5.24). Então por que a Bíblia me manda “afastar-me do mal”?

2

A santidade acontece sozinha?

Basta esperar que Deus faça, ou há um esforço que me pertence — sem que isso vire salvação por obras?

3

Como cooperar sem cair nos extremos?

Nem o ativismo que se esgota tentando merecer Deus, nem a passividade que nada faz. Existe um caminho no meio?

A chave

Santificação se escreve com duas mãos

Paulo põe, num só fôlego, a obra de Deus e a nossa responsabilidade — e não vê contradição entre elas.

“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente… Aquele que os chama é fiel, e o fará. Portanto, afastem-se de toda forma de mal.”1 Tessalonicenses 5.22-24

A mão de Deus

“O Deus da paz os santifique… e o fará.” A iniciativa, o poder e a garantia são dele. Sem isso, todo esforço é vão.

A nossa mão

“Afastem-se de toda forma de mal.” Há um verbo no imperativo dirigido a nós. Deus não santifica por cima da nossa vontade, mas com ela.

É isso que chamamos de sinergia: cooperação. Não meio a meio, como sócios iguais — a graça vem sempre primeiro —, mas real. “Desenvolvam a salvação… porque é Deus quem efetua em vocês o querer e o realizar” (Fp 2.12-13). O “porque” é decisivo: eu trabalho porque Deus trabalha, não para substituí-lo.

A fonte

A santificação é obra do Deus Trino

Antes de falar do nosso dever, é preciso ver de quem vem a santidade. Ela é obra do Pai, do Filho e do Espírito.

O Espírito

Cristo nos santifica pelo Espírito

“Somos transformados… na mesma imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18); “eleitos… na santificação do Espírito” (1Pe 1.2); “santificados pelo Espírito Santo” (Rm 15.16; 2Ts 2.13); pelo “lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).

O amor de Deus percorre em nós um circuito: nós o recebemos — “o amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito” (Rm 5.5); dele participamos — “participantes da natureza divina” (2Pe 1.4); e o refletimos — “brilham como estrelas no universo” (Fp 2.15).

Realismo

Não acontece automaticamente

Que a santificação seja obra de Deus não quer dizer que ela caia pronta sobre nós enquanto dormimos. Deus opera — e por isso mesmo devemos trabalhar, não apesar disso.

“Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus.”1 Coríntios 3.6-7

Plantar e regar são trabalho de gente; o crescimento é dom de Deus. Ninguém colhe sem plantar, e ninguém faz a semente brotar. Assim é a vida santa: um sinergismo baseado na graça. Somos cooperadores de Deus (1Co 3.9), não agentes passivos.

O como

Os meios da graça

Como, então, prosseguimos para a perfeição? Wesley era muito esperançoso quanto a isto: Deus nos deu canais concretos pelos quais a sua graça chega e nos transforma — os meios da graça.

O equilíbrio de Wesley

Ele evitou dois extremos: o de certa piedade que fazia dos deveres humanos a causa da graça, e o de quem, para fugir desse erro, acabava negligenciando os deveres. Os meios não compram a graça; são os lugares onde ela nos encontra.

Os principais

A Palavra lida e ouvida (Jo 17.17), a oração, a Ceia do Senhor, a comunhão dos santos e o jejum — sem esquecer as obras de misericórdia. Usá-los é abrir a porta por onde Deus entra.

Santificados pela Palavra. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Escritura não só informa: ela lava e molda (Ef 5.26).
Santificados pela fé. “Santificados pela fé em mim” (At 26.18). Pela fé Cristo habita no coração (Ef 3.17; Gl 2.20); pela fé nos apropriamos da graça do Espírito para vencer o pecado (Rm 8.13); e essa fé opera pelo amor (Gl 5.6) e produz obras (1Ts 1.3; Tg 2.26).

Wesley tratou disso em dois textos que valem a leitura: Os meios da graça (Sermão 16) e O caminho bíblico da salvação (Sermão 43), onde ele mostra que a santificação, como a justificação, é recebida pela fé.

Advertência

O maior obstáculo: não empregar a graça

Se Deus nos dá tudo o que é preciso, qual é, então, o maior obstáculo à santidade? Não é a falta de graça — é deixá-la enterrada.

A parábola dos talentos

Deus concede talentos que devem ser empregados para render o fruto que Ele espera (Mt 25.14-30). O servo condenado não foi o que perdeu tudo, mas o que enterrou o que recebeu — e chamou a isso de prudência.

A vinha de Deus

“Que mais se poderia fazer à minha vinha que eu não tenha feito? Como, pois, esperando eu que desse uvas boas, veio a dar uvas bravas?” (Is 5.4). O lamento de Deus não é por ter dado pouco, mas por colher pouco de quem recebeu tanto.

Aplicado à santidade: a graça já foi dada em Cristo e pelo Espírito. O pecado maior, aqui, é a negligência — não usar os meios, não fazer esforço algum, e ainda assim esperar crescer. Wesley chamou os desviados de volta a esse zelo no Sermão 85 — Sobre desenvolver a nossa própria salvação.

A nossa parte

O nosso dever, em verbos ativos

Embora seja Deus quem nos transforma por dentro (2Co 3.18), a Escritura nos dirige uma enxurrada de imperativos. Eles não contradizem a graça — a expressam.

Hebreus 12: livrar-se do pecado que assedia (v.1), correr com perseverança (v.1), não desanimar (v.3), lutar contra o pecado (v.4), suportar as dificuldades (v.7), fortalecer as mãos e os joelhos (v.12), buscar a santificação “sem a qual ninguém verá o Senhor” (v.14).
Paulo: oferecer os membros “à justiça, para a santificação” (Rm 6.19); apresentar o corpo em sacrifício vivo e não se conformar com este mundo (Rm 12.1-2); fazer tudo “sem queixas nem discussões”, brilhando como estrelas (Fp 2.14-15); controlar o próprio corpo “de modo santo e honroso” (1Ts 4.3-4).
Em síntese: imitar a Deus (Ef 5.1), seguir os passos de Cristo (1Pe 2.21), mortificar a carne (Rm 8.13), andar no Espírito (Gl 5.16), encher-se do Espírito (Ef 5.18), fazer esforço (2Pe 1.5) e crescer na graça e no conhecimento do Senhor (2Pe 3.18).

Onde eu fico

Cooperação, sempre pela graça

Depois de ver as duas mãos — a de Deus e a nossa —, deixo minha posição explícita.

A santificação é, do princípio ao fim, obra de Deus; e é, o tempo todo, dever nosso. Isso não é contradição, é sinergia da graça: Deus opera, e por isso trabalhamos; Ele nos ama primeiro, e por isso amamos. Fujo dos dois erros. Do legalismo, que faz do esforço a causa da salvação e acaba exausto tentando merecer o que só se recebe. E da passividade, que enterra o talento, despreza os meios da graça e ainda culpa Deus pela falta de fruto. Entre os dois, o caminho bíblico: usar todos os meios da graça e fazer todo o esforço possível, confiando que quem começou a boa obra há de completá-la (Fp 1.6). Na próxima aula veremos como essa obra acontece — em momentos decisivos e num processo de toda a vida.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Quais meios da graça você tem usado com constância, e qual anda esquecido? O que muda esta semana?Ver resposta sugerida
A pergunta é para o exame pessoal, não para a culpa. Passe a lista: Palavra lida e meditada, oração, Ceia do Senhor, comunhão dos santos, jejum, obras de misericórdia. Provavelmente um ou dois andam fortes e outro, esquecido — e não por acaso é justamente na área esquecida que o crescimento emperrou. O ponto não é fazer mais por fazer, mas abrir a porta por onde Deus já quer entrar (Ap 3.20). Escolha um meio negligenciado e retome-o com regularidade nesta semana; a graça faz o resto.
Como responder a quem diz que falar em “esforço” e “dever” é legalismo e nega a graça?Ver resposta sugerida
Mostrando que a própria Escritura une as duas coisas sem constrangimento: “desenvolvam a salvação… porque é Deus quem efetua em vocês o querer e o realizar” (Fp 2.12-13). Legalismo é fazer do esforço a causa da salvação; a Bíblia faz do esforço o fruto e o canal da graça. Negar o dever, por medo do legalismo, é cair no erro oposto — enterrar o talento (Mt 25). A graça não nos dispensa de plantar e regar; ela é que faz crescer o que plantamos (1Co 3.6-7).

Para casa e próxima aula

Tarefas

Fazer um pequeno “inventário dos meios da graça”: listar os cinco e marcar, com honestidade, a frequência de cada um — e escolher um para retomar; e ler o Sermão 85 — Sobre desenvolver a nossa própria salvação.

Aula 4

Crise e processo: “quando foi que eu morri?”, a santificação como ato decisivo e como caminho de toda a vida, a mortificação diária da carne e a batalha que continua. Ir para a Aula 4 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. · Bispo Ildo Mello