O perigo da segunda geração
Doutrina purificada pode virar ortodoxia congelada. O século 17 foi o século dos sistemas, das confissões e, também, das primeiras reações à fé fria.
“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens.”Tito 2.11 · NAA
Para começar
A Reforma recuperou o evangelho; e a geração seguinte, o que fez com ele? Quem foram os puritanos, e por que tanta gente séria os admira e tão pouca gente os conhece? E quem foi Jacó Armínio, o teólogo holandês cujo nome carregamos no adjetivo “arminiano”, e o que ele realmente ensinou, por trás das caricaturas?
Doutrina purificada pode virar ortodoxia congelada. O século 17 foi o século dos sistemas, das confissões e, também, das primeiras reações à fé fria.
Armínio contra a dupla predestinação; a Remonstrância de 1610; o Sínodo de Dort. É a raiz do debate que atravessa o metodismo até hoje.
O que esta aula cobre. O século 17, de 1600 a 1700: os puritanos ingleses, Jacó Armínio e os remonstrantes, o Sínodo de Dort, a Grande Ejeção e o solo em que, uma geração depois, nasceria o metodismo. É a primeira de oito aulas da série Da Reforma aos nossos dias.
Situando-se na história
1603
O pastor de Amsterdã torna-se professor de teologia na universidade de Leiden, e o debate sobre a predestinação esquenta na Holanda.
1610
Um ano após a morte de Armínio, seus discípulos resumem a posição dele em cinco artigos: a eleição é em Cristo, dos que creem; a graça alcança a todos e pode ser resistida.
1618-1619
O sínodo calvinista condena os remonstrantes e formula os cinco pontos que ficariam conhecidos pela sigla TULIP. Pastores remonstrantes são depostos e exilados.
1620
Separatistas ingleses partem para a América em busca de liberdade para viver sua fé: a semente puritana do Novo Mundo.
1643-1649
No meio da guerra civil inglesa, teólogos puritanos produzem os documentos que definiriam o calvinismo de língua inglesa.
1662
Cerca de dois mil pastores puritanos são expulsos da Igreja da Inglaterra por recusar o conformismo imposto. Entre eles, os dois avôs de John Wesley.
1678
Da prisão de Bedford, o funileiro batista John Bunyan publica O Peregrino, o livro cristão mais lido da história depois da Bíblia.
1689
A Inglaterra concede liberdade de culto aos dissidentes protestantes. O terreno do futuro avivamento está preparado.
Parte 1
“Puritano” nasceu como apelido de zombaria, como “metodista” nasceria depois. Designava os ingleses que achavam que a Reforma da sua igreja havia parado no meio do caminho: reformou-se a doutrina, mas faltava reformar a vida, o culto e o coração.
O que os puritanos queriam, na essência, era levar a Reforma da catedral para a cozinha: culto centrado na pregação da Escritura, domingo dedicado ao Senhor, culto doméstico diário com Bíblia e salmos, autoexame sério da alma, vocação vivida como serviço a Deus. Produziram uma literatura pastoral que ainda alimenta a igreja: Richard Baxter escreveu O Pastor Aprovado; John Owen, tratados sobre a mortificação do pecado; e John Bunyan, da cadeia, deu à fé cristã o seu maior romance, O Peregrino, a jornada de Cristão da Cidade da Destruição à Cidade Celestial.
A seriedade com a Escritura, a piedade doméstica, o domingo guardado, a consciência examinada, a vocação santificada. Wesley leu os puritanos a vida inteira e os republicou na sua Biblioteca Cristã.
Quando tiveram poder político (na Inglaterra de Cromwell e na Nova Inglaterra), tentaram impor santidade por lei, e a experiência azedou. Santidade imposta não é santidade; é a velha tentação constantiniana de novo.
Parte 2
Jacó Armínio (1560-1609) não era um rebelde; era um pastor e professor reformado, formado na Genebra de Beza, respeitado por piedade e erudição. Encarregado de refutar críticos da dupla predestinação, fez o que um teólogo honesto faz: reexaminou a questão pela Escritura. E concluiu que os críticos tinham razão no essencial.
O que Armínio passou a ensinar, e que expôs em sua Declaração de Sentimentos (1608), pode ser resumido assim: a eleição de Deus não é um decreto arbitrário sobre indivíduos sem consideração da fé; Deus elege, em Cristo, os que creem e perseveram (Ef 1.4; Jo 3.16). Cristo morreu por todos os homens (1Jo 2.2; Hb 2.9). O homem caído nada pode sem a graça, e Armínio foi enfático nisso: toda a iniciativa é de Deus. Mas a graça que precede, desperta e capacita não é irresistível: pode ser recusada (At 7.51; Mt 23.37).
Desfazendo a caricatura: Armínio não ensinou salvação por mérito, não negou o pecado original, não diminuiu a graça. A diferença entre Armínio e Dort nunca foi “graça contra obras”: o debate formal tratava de eleição, alcance da expiação, graça e perseverança. Da perspectiva armínio-wesleyana, porém, essas diferenças tocam por fim o caráter de Deus: Deus quer que todos sejam salvos (1Tm 2.4), ou decretou desde a eternidade a perdição de parte da humanidade? Este site mantém dois estudos detalhados sobre esse debate, com os textos bíblicos examinados um a um.
Armínio morreu em 1609, no meio da controvérsia. Em 1610, seus discípulos apresentaram ao governo holandês a Remonstrância, um protesto em cinco artigos: eleição condicional (dos que creem), expiação universal, incapacidade humana sem a graça, graça resistível, e perseverança dependente da permanência em Cristo. A resposta veio no Sínodo de Dort (1618-1619): os remonstrantes foram convocados, mas não admitidos como participantes em igualdade de condições; após semanas de conflito sobre o procedimento, foram afastados das sessões, e o sínodo julgou e condenou suas doutrinas a partir dos seus escritos. Cerca de duzentos pastores foram depostos e muitos exilados; e, no conflito político paralelo, o estadista Oldenbarnevelt, aliado dos remonstrantes, foi condenado pelo Estado e executado. Os cânones de Dort seriam resumidos, muito mais tarde, na sigla popular TULIP.
Parte 3
O século 17 foi o século da ortodoxia confessional: cada tradição protestante lapidou seus documentos, seus sistemas, suas fronteiras. Dort na Holanda, Westminster na Inglaterra, a escolástica luterana na Alemanha. Havia ganho real nisso: precisão, catecismo, solidez.
Mas o século dos sistemas gerou um efeito colateral que os próprios contemporâneos denunciaram: a fé podia virar assinatura de documento. Nascia-se luterano, calvinista ou anglicano como se nasce cidadão; a ortodoxia da cabeça convivia com a frieza do coração; e as guerras religiosas (a Guerra dos Trinta Anos devastou a Alemanha entre 1618 e 1648) desacreditaram a fé diante de uma Europa exausta. É contra esse pano de fundo que Deus levantaria as duas reações que estudaremos a seguir: o pietismo alemão (próxima aula) e o avivamento metodista (aula 3).
Depois de Cromwell, a monarquia restaurada impôs a uniformidade (1662), expulsou os puritanos e abriu um período de decadência moral notória na corte e de sonolência espiritual nas paróquias. O Ato de Tolerância (1689) deu liberdade aos dissidentes, mas a vitalidade não voltou por decreto.
No início do século 18, observadores sérios descreviam uma Inglaterra de igrejas formais, embriaguez epidêmica e povo abandonado. Foi nesse país que dois netos de puritanos ejetados, criados numa reitoria anglicana, sentiriam o coração aquecido.
Fontes primárias
Declaração de Sentimentos · 1608
“Atribuo à graça o começo, a continuação e a consumação de todo bem, e a tal ponto estendo a sua influência que um homem, ainda que já regenerado, não pode conceber, querer nem fazer bem algum, nem resistir a qualquer tentação má, sem essa graça preveniente e excitante, que acompanha e coopera. […] Mas, quanto ao modo de operação dessa graça, creio que ela não é uma força irresistível.”
O Peregrino · 1678
“Vi então em meu sonho um homem vestido de trapos, de pé, com o rosto voltado para longe da sua própria casa, um livro na mão e um grande fardo às costas. Olhei e o vi abrir o livro e ler nele; e, enquanto lia, chorava e tremia; e, não podendo mais conter-se, prorrompeu num clamor lamentoso, dizendo: Que farei para ser salvo?”
O Pastor Aprovado · 1656
“Preguei como quem nunca mais teria certeza de pregar, e como um homem que morre a homens que morrem.”
A ponte wesleyana
Cento e setenta anos depois de Dort, John Wesley deu ao periódico do metodismo o nome de Revista Arminiana (The Arminian Magazine, 1778). Não foi capricho: foi bandeira.
Wesley recebeu dos puritanos, pela casa da mãe (Susanna era filha do ejetado Samuel Annesley), a seriedade da piedade, o método da vida examinada e o não-conformismo da consciência. E abraçou de Armínio a resposta à pergunta decisiva: a quem Deus ama e quer salvar? A todos. Wesley pregou a vida inteira que a graça de Deus é livre em todos e para todos: preveniente (alcança cada pessoa antes de qualquer mérito), suficiente (capaz de salvar qualquer pecador) e resistível (pode ser recusada, por isso o evangelho suplica: “não recebam em vão a graça de Deus”, 2Co 6.1).
Da história para a vida
O século 17 provou que doutrina exata não substitui vida com Deus. A pergunta puritana continua válida: a sua fé chegou à sua casa, ao seu domingo, ao seu bolso, à sua agenda? Ou mora só na sua cabeça?
Dois mil pastores perderam tudo em 1662 por não assinarem o que não criam. Numa época de conveniências, a Grande Ejeção pergunta: o que você não assinaria, mesmo que custasse caro (At 5.29)?
Armínio debateu sem perder a mansidão, e pagou caro por reexaminar tudo pela Escritura. Ao conversar com irmãos calvinistas, honre-os como irmãos: o debate é de família, e o alvo é a verdade, não a vitória (Ef 4.15).
Fixação
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Avaliação
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Para aprofundar. Sobre o debate entre calvinismo e arminianismo, leia os estudos deste site: Os textos de prova do calvinismo e Os textos do debate, com 44 versículos examinados à luz das Notas de Wesley. E leia O Peregrino, de Bunyan, disponível em várias edições brasileiras.
Na próxima aula: “O pietismo: a religião do coração (1650-1750)”. Spener, Francke, Zinzendorf e os morávios: a corrente que aqueceria o coração de Wesley.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.