História da IgrejaSérie 2 · Aula 2

O pietismo: a religião do coração

“Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.”Tiago 2.17 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: At 2.42-47; Rm 8.14-17; Tg 2.14-26

Para começar

Quando a ortodoxia esfria

O que fazer quando a igreja tem a doutrina certa e o coração frio? Foi a pergunta da Alemanha luterana depois da Guerra dos Trinta Anos. A resposta que Deus levantou ali se chama pietismo, e sem ela não se entende Wesley, o metodismo nem boa parte do evangelicalismo mundial.

1

Uma reforma dentro da Reforma

Os pietistas não queriam nova doutrina; queriam que a doutrina antiga descesse da cabeça ao coração e das catedrais para as casas.

2

A corrente que chega a Wesley

Spener acende Francke; Francke forma Zinzendorf; Zinzendorf abriga os herdeiros de Hus; e os morávios de Herrnhut cruzam o oceano no navio de Wesley.

O que esta aula cobre. De 1650 a 1750: a Alemanha exausta do pós-guerra, Spener e os colégios de piedade, Francke e as obras de Halle, Zinzendorf e os morávios de Herrnhut, e o despertar missionário que antecedeu em um século a era das missões modernas.

Situando-se na história

Linha do tempo (1650-1750)

1648

Paz de Vestfália

Fim da Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Alemanha. Igrejas de doutrina exata, povo exausto e fé congelada: o cenário que o pietismo enfrentará.

1675

Pia Desideria

Philipp Jakob Spener publica seus “Desejos Piedosos”: o programa da renovação, com a Bíblia no centro e pequenos grupos de piedade.

1694

Halle

Fundação da universidade de Halle, que August Hermann Francke transformará no motor do pietismo: orfanato, escolas, farmácia, editora bíblica e missões.

1705-1706

Primeiros missionários

Ziegenbalg e Plütschau partem de Halle para Tranquebar, na Índia: uma das primeiras missões protestantes permanentes organizadas fora da Europa.

1722

Herrnhut

Refugiados morávios, herdeiros da Unidade dos Irmãos de Hus, encontram abrigo nas terras do conde Zinzendorf e fundam a aldeia de Herrnhut, “sob o cuidado do Senhor”.

1727

O Pentecostes morávio

Em 13 de agosto, uma comunidade dividida é derretida pelo Espírito na Santa Ceia. Segundo a tradição morávia, começa ali uma corrente de oração que duraria mais de cem anos.

1732

Missões morávias

Dober e Nitschmann partem para as ilhas do Caribe, dispostos a tudo para alcançar os escravizados. Em poucas décadas, os morávios enviam centenas de missionários.

1735-1738

Os morávios e Wesley

No navio Simmonds, na Geórgia e em Londres, os morávios cruzam o caminho de John Wesley, e a história do metodismo começa a mudar.

Parte 1

Spener e os desejos piedosos

Philipp Jakob Spener (1635-1705), pastor luterano em Frankfurt, olhou para a igreja do seu tempo e fez o diagnóstico que ninguém queria ouvir: ortodoxia impecável, vida ausente. Em 1675 publicou a Pia Desideria, os “Desejos Piedosos”, um pequeno livro com um programa de seis pontos que mudaria a história.

O programa de Spener

Mais Bíblia para todo o povo, não só nos sermões; o sacerdócio de todos os crentes praticado de verdade, e não apenas confessado; cristianismo como vida, não só conhecimento; polêmicas conduzidas com amor; formação de pastores piedosos, não apenas eruditos; pregação para edificar, não para exibir.

Os colégios de piedade

A ferramenta prática: pequenos grupos (collegia pietatis) reunidos nas casas para ler a Escritura, orar e cuidar uns dos outros. A ortodoxia o acusou de criar “igrejinhas dentro da igreja” (ecclesiolae in ecclesia); a história mostrou que ele estava reacendendo a igreja por dentro. Meio século depois, as sociedades e classes metodistas seguiriam o mesmo princípio.

Parte 2

Francke: a fé que constrói orfanatos

August Hermann Francke (1663-1727), convertido numa crise de fé enquanto preparava um sermão sobre Jo 20.31, levou o programa de Spener para a universidade de Halle e provou que a religião do coração tem mãos.

Começando com a oferta encontrada na caixa de esmolas da sua paróquia, Francke ergueu em Halle um complexo que a Europa veio admirar: orfanato para milhares de crianças, escolas para pobres, farmácia, editora que imprimia Bíblias a preço acessível (a Instituição Bíblica de Canstein, primeira sociedade bíblica da história), e a base de onde partiu uma das primeiras missões protestantes permanentes fora da Europa (Índia, 1705). Tudo sustentado, dizia ele, pela oração e pela providência, sem capital garantido.

Parte 3

Zinzendorf e os morávios de Herrnhut

Nikolaus Ludwig von Zinzendorf (1700-1760), afilhado de Spener e educado em Halle, era um conde rico com um único amor declarado: “Tenho uma só paixão: é Ele, somente Ele”. Em 1722, abriu suas terras na Saxônia a refugiados evangélicos da Morávia, herdeiros perseguidos da Unidade dos Irmãos que nascera de Jan Hus (como vimos na Série 1).

A aldeia recebeu o nome de Herrnhut, “sob o cuidado do Senhor”. Nos primeiros anos, quase naufragou em brigas internas; Zinzendorf visitou casa por casa, pôs a comunidade sob um pacto fraterno e, em 13 de agosto de 1727, numa celebração da Ceia, o Espírito derreteu a comunidade em arrependimento e amor: os morávios chamariam aquele dia de seu Pentecostes. Dali nasceu, segundo a tradição morávia, uma corrente de oração ininterrupta, 24 horas por dia, mantida por mais de um século, e o mais espantoso movimento missionário que o protestantismo já vira.

Missões antes da era das missões

Em 1732, Leonhard Dober e David Nitschmann partiram para São Tomás, no Caribe, decididos a alcançar os escravizados a qualquer custo. Seguiram-se Groenlândia, América do Norte, África do Sul. Proporcionalmente, nenhuma igreja enviou tantos: cerca de um missionário para cada sessenta membros, sessenta anos antes de William Carey.

Comunidade que canta e vela

Herrnhut vivia de culto diário, hinos (Zinzendorf compôs centenas), grupos pequenos (“bandas”) e as senhas diárias (Losungen), versículos sorteados para o dia, publicados até hoje em dezenas de línguas. Muito da tecnologia espiritual metodista foi aprendida ali.

Parte 4

A corrente completa: de Hus a Aldersgate

Agora as pontas se juntam. Na Série 1, vimos Hus morrer cantando em 1415 e seus herdeiros formarem a Unidade dos Irmãos (1457). Nesta aula, os vimos renascer em Herrnhut (1722). Falta o elo final, e ele tem data e endereço.

Em 1735, John e Charles Wesley embarcaram para a Geórgia no navio Simmonds, junto com um grupo de morávios. No meio do Atlântico, uma tempestade rasgou a vela principal; os ingleses gritavam, e os morávios, com suas famílias, cantavam salmos em paz. “Você não teve medo?”, perguntou Wesley a um deles. “Graças a Deus, não.” Wesley anotou no Diário que ali percebeu que eles tinham algo que ele, missionário e clérigo, não tinha.

De volta a Londres, derrotado, Wesley encontrou o morávio Peter Böhler, que lhe ensinou pela Escritura que a salvação é pela fé somente, recebida num instante, com testemunho interior do Espírito. Böhler deu-lhe o conselho que ficou famoso: “Pregue a fé até tê-la; e então, porque a tem, você pregará a fé”. Em 24 de maio de 1738, em Aldersgate, ouvindo o prefácio de Lutero a Romanos, o coração de Wesley foi “estranhamente aquecido”. Semanas depois, Wesley viajou a Herrnhut para ver com os próprios olhos a comunidade que o alcançara.

Guarde a cadeia inteira, porque ela é uma aula de soberania e paciência de Deus: Wycliffe acendeu Hus (1415); de Hus veio a Unidade dos Irmãos (1457); dos Irmãos perseguidos, Herrnhut (1722); de Herrnhut, os morávios do navio e Böhler; de Böhler, Aldersgate (1738); de Aldersgate, o metodismo; e do metodismo, por muitos ramos, a Igreja Metodista Livre do Brasil. Trezentos anos de semeadura para uma noite de colheita.

Fontes primárias

Vozes do pietismo

A ponte wesleyana

O que o metodismo deve ao pietismo

Wesley não copiou os morávios em tudo; anos depois, divergiu deles em pontos sérios (o quietismo de alguns, que mandava “ficar quieto” sem meios de graça até ter fé plena, Wesley rejeitou com firmeza). Mas a dívida é enorme e ele nunca a negou. (Registre-se também, por justiça histórica: o metodismo teve várias correntes formadoras, a herança anglicana e puritana do lar, os pais antigos, os místicos; a corrente morávia foi uma das decisivas, não a única.)

Do pietismo, o metodismo herdou

Os pequenos grupos como fornalha da vida cristã (dos collegia de Spener e das bandas morávias, as classes metodistas); a fé como experiência viva e não apenas assentimento; o testemunho do Espírito com o nosso espírito (Rm 8.16); o hino como teologia cantada; a ação social como fruto da fé (de Halle, muito do que Wesley faria com escolas, dispensários e fundos de empréstimo); e a paixão missionária.

E a correção wesleyana

Wesley manteve o que os quietistas largavam: os meios de graça (Escritura, oração, Ceia, comunhão) são o caminho ordinário pelo qual Deus trabalha, antes, durante e depois da conversão. Experiência sem meios de graça vira misticismo; meios sem experiência viram formalismo. O metodismo nasceu para manter os dois juntos.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

Pequenos grupos não são moda

De Spener a Wesley, a renovação passou por gente reunida em casas ao redor da Escritura. Célula, classe, grupo de discipulado: o nome importa pouco; a pergunta é se você tem um punhado de irmãos diante de quem sua alma está aberta (Tg 5.16).

2

Coração aquecido, mãos ocupadas

Halle respondeu de uma vez por todas: piedade verdadeira constrói orfanato, alfabetiza pobre e imprime Bíblia barata. Se a sua devoção não transborda em serviço, ainda não é a religião do coração; é sentimentalismo (Tg 2.17).

3

Ore como Herrnhut

Uma aldeia de algumas centenas de pessoas sustentou um século de oração ininterrupta e abalou o mundo. Antes de perguntar por que a igreja avança pouco, pergunte quem está velando. Toda obra que atravessa gerações nasce de joelhos (At 1.14).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Spener foi acusado de criar “igrejinhas dentro da igreja” por reunir crentes em casas ao redor da Bíblia. Pequenos grupos ainda sofrem suspeitas parecidas hoje. Quando a crítica é injusta, e quando ela é merecida?Ver resposta sugerida
A crítica é injusta quando mira o princípio: gente reunida em casa para Escritura, oração e cuidado mútuo é padrão do Novo Testamento (At 2.46; Cl 4.15), foi a ferramenta da renovação de Spener a Wesley, e nenhuma igreja se renova sem espaços onde as pessoas são conhecidas pelo nome. Mas a crítica é merecida quando o grupo adoece de três modos que a própria história registra: quando vira panelinha de superioridade espiritual (os “verdadeiros crentes” contra o resto da igreja); quando se desliga da congregação e do pastoreio, tornando-se facção (1Co 1.11-13); e quando substitui a Palavra por achismos, sem ninguém preparado para conduzir o estudo. O antídoto de Spener e de Wesley era o mesmo: grupos dentro da igreja, debaixo dos pastores, com material bíblico e prestação de contas. A pergunta prática para a sua igreja: nossos grupos têm essas âncoras? E você está em algum, ou sua alma não tem diante de quem se abrir (Tg 5.16)?
“Que o Cordeiro que foi morto receba a recompensa do seu sofrimento.” A motivação missionária morávia não era primeiro a necessidade dos perdidos, era o direito de Cristo de receber o fruto da sua cruz. O que muda na prática quando a missão parte daí?Ver resposta sugerida
Muda a durabilidade, o alvo e o tom. A durabilidade: compaixão pela necessidade humana é santa, mas oscila com as emoções e esfria diante da ingratidão; o zelo pela glória do Cordeiro não depende de resultados visíveis nem de gratidão de ninguém, e por isso Dober podia partir para trabalhar entre escravizados sem garantia alguma. O alvo: quem parte da necessidade tende a medir a missão pelo alívio produzido; quem parte do direito de Cristo busca adoradores (Jo 4.23; Ap 5.9), e por isso não troca o evangelho por assistencialismo, nem despreza a misericórdia, pois o Cordeiro quer ser obedecido também nela (Mt 25.40). O tom: a missão deixa de ser heroísmo nosso e vira justiça devida a Cristo; o missionário não é herói, é servo entregando ao Senhor o que já era dele. Aplicação local: sua oração pela evangelização da sua cidade tem soado como marketing de crescimento da igreja ou como Ap 5.12, “digno é o Cordeiro”? A diferença define o que sobrevive ao primeiro desânimo.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia no Diário de John Wesley, publicado neste site, as entradas da viagem à Geórgia (a tempestade) e de maio de 1738: a história desta aula contada pela própria testemunha.

Na próxima aula, o coração da série: “Wesley e o avivamento metodista (1703-1791)”. Epworth, Oxford, Aldersgate, os campos abertos e a santidade que transformou uma nação.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.