História da IgrejaSérie 2 · Aula 3

Wesley e o avivamento metodista

“Pois vocês não receberam o espírito de escravidão, para viverem outra vez com medo, mas receberam o espírito de adoção, no qual clamamos: Aba, Pai! O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.”Romanos 8.15-16 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 8.12-17; Jo 3.1-8; 1Ts 5.23-24

Para começar

O coração da nossa história

Como um clérigo fracassado, voltando derrotado da América, tornou-se o instrumento de um avivamento que transformou uma nação? O que aconteceu de fato em Aldersgate? E o que o metodismo tem de próprio, que justifique existirmos como tradição dentro da igreja de Cristo?

O que esta aula cobre. A vida de John Wesley (1703-1791) e o avivamento metodista do século 18: Epworth, Oxford, a Geórgia, Aldersgate, os campos abertos, as sociedades e classes, as doutrinas centrais, os hinos de Charles e o impacto social. É a aula central desta série, e o site inteiro é o seu material de apoio: os 141 sermões, o Diário, as cartas, as Notas e os hinos de Wesley estão publicados aqui, em português.

Situando-se na história

Linha do tempo (1703-1791)

1703

Epworth

John Wesley nasce na reitoria de Epworth, décimo quinto filho de Samuel e Susanna Wesley. Charles nasceria em 1707.

1709

O tição tirado do fogo

A reitoria arde em chamas e John, com cinco anos, é resgatado da janela no último instante. Susanna o chamaria de “tição tirado do fogo” (Zc 3.2).

1729

O Clube Santo

Em Oxford, John assume a liderança do grupo metódico de Charles: oração, Escritura, jejum, presos e pobres. A zombaria os apelida de “metodistas”.

1735-1737

Geórgia

Missão na América que termina em fracasso e fuga. “Fui à América converter os índios; mas quem me converterá a mim?”

24/05/1738

Aldersgate

Ouvindo o prefácio de Lutero a Romanos: “senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação”.

02/04/1739

Ao ar livre

Em Bristol, a convite de Whitefield, Wesley “se submete a ser mais vil” e prega no campo aberto a três mil pessoas. O avivamento ganha as multidões.

1744

Primeira Conferência

Wesley reúne seus pregadores para tratar de três perguntas: o que ensinar, como ensinar, o que fazer. Nasce o metodismo organizado.

1791

“O melhor de tudo”

Wesley morre aos 87 anos, cercado pelos irmãos, repetindo: “O melhor de tudo é que Deus está conosco”. Dias antes, escrevera sua última carta: a Wilberforce, contra a escravidão.

Parte 1

De Epworth a Aldersgate: a longa preparação

Deus preparou o instrumento por trinta e cinco anos antes de acender o fogo. Na reitoria de Epworth, Susanna Wesley, mãe de dezenove filhos, dava a cada um uma hora semanal de atenção espiritual individual e governava a casa com método que John nunca esqueceu.

Em Oxford, John e Charles levaram a sério o que quase ninguém levava: o Clube Santo vivia por regra (oração, Escritura, jejum às quartas e sextas, Ceia semanal, visita a presos e doentes), e a universidade zombeteira os apelidou de “metodistas”. Faltava-lhes, porém, o que o método não dá: a certeza da salvação. A missão na Geórgia (1735-1737) expôs o vazio: o missionário rigoroso fracassou, fugiu, e escreveu no Diário a pergunta que o perseguia: “Fui à América converter os índios; mas quem me converterá a mim?”.

A resposta veio pela corrente que estudamos na aula passada: os morávios do navio, Peter Böhler, e a noite de 24 de maio de 1738, na rua Aldersgate, quando, ouvindo o prefácio de Lutero à carta aos Romanos, John sentiu o coração “estranhamente aquecido”. Charles havia crido três dias antes. Não foi emoção passageira: Wesley a entendeu como a passagem da religião do servo para a religião do filho (Rm 8.15-16), e os cinquenta e três anos seguintes provaram a diferença.

Parte 2

O avivamento: campos abertos e sociedades organizadas

Em abril de 1739, com as igrejas se fechando para ele, Wesley aceitou o convite de George Whitefield e fez o que um clérigo de Oxford considerava quase indecente: pregou ao ar livre, em Bristol, aos mineiros de Kingswood. “Submeti-me a ser mais vil”, anotou. Dali em diante, o mundo virou seu púlpito: “Considero o mundo todo como minha paróquia”.

Durante meio século, Wesley cavalgou cerca de quatrocentos mil quilômetros e pregou mais de quarenta mil vezes, ao amanhecer, nas praças, nos cemitérios, diante de multidões e de turbas violentas. Mas a marca do gênio wesleyano não foi a pregação; foi a conservação do fruto. Cada convertido entrava numa sociedade; cada sociedade se dividia em classes de cerca de doze pessoas, reunidas semanalmente sob um líder para responder à pergunta: “Como vai a sua alma?”. Ali se confessava, se orava, se exortava, se contribuía para os pobres. Pregadores leigos, homens do povo formados por Wesley com um plano de leitura rigoroso, percorriam os circuitos. A Conferência anual (desde 1744) mantinha doutrina e disciplina unidas.

Parte 3

O que o metodismo prega

Wesley não inventou doutrinas; ele soldou, com precisão rara, o melhor da herança que as nossas duas séries percorreram: a justificação pela fé da Reforma, a graça universal de Armínio, a experiência viva do pietismo e a santidade dos pais antigos.

Graça preveniente

Deus se move primeiro. Antes de qualquer busca nossa, a graça já está agindo em cada ser humano, despertando, convencendo, capacitando a resposta (Jo 1.9; Fp 2.13). Ninguém está fora do alcance; ninguém responde sozinho.

Justificação pela fé e novo nascimento

Perdão real recebido pela fé somente (Rm 5.1), e vida nova gerada pelo Espírito (Jo 3.3): Wesley pregou as duas coisas juntas a uma Inglaterra batizada e não convertida, como quem prega a pagãos.

Testemunho do Espírito

“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16). O crente pode saber que é salvo, não por presunção, mas por testemunho interior confirmado pelo fruto. Foi isso que Aldersgate deu a Wesley.

Santificação e amor perfeito

A marca registrada: a graça que perdoa é a mesma que transforma, e não há teto para o que ela pode fazer nesta vida. Wesley pregou a inteira santificação: o coração cheio de amor a Deus e ao próximo, excluindo o pecado voluntário (1Ts 5.23-24; Mt 22.37-39). Deus levantou o metodismo, dizia ele, para “espalhar a santidade bíblica por toda a terra”. E Wesley nunca chamou essa graça de perfeição absoluta ou impecabilidade: permanecem as fraquezas, a ignorância, os erros de julgamento e a necessidade contínua da graça e da intercessão de Cristo.

Parte 4

Charles Wesley e a fé que canta; e a fé que age

O avivamento teve dois pulmões: a pregação de John e os hinos de Charles. Charles Wesley escreveu cerca de seis mil e quinhentos hinos, e neles o povo simples aprendeu teologia cantando: encarnação, expiação, novo nascimento, santidade. Os metodistas nasceram cantando, e este site publica os grandes hinos de Charles em português, com o original ao lado.

E a fé que canta também agia. O metodismo do século 18 abriu escolas para filhos de mineiros, dispensários médicos para pobres, fundos de empréstimo para pequenos trabalhadores; visitou prisões com constância; e enfrentou o maior crime da época: a escravidão. Wesley publicou seus Pensamentos sobre a Escravidão (1774), e a última carta que escreveu na vida, seis dias antes de morrer, foi para animar William Wilberforce na luta parlamentar contra o tráfico: chamou a escravidão de “vilania execrável” e apontou o padrão americano de negar ao homem negro até o direito de testemunhar em juízo.

Historiadores de diferentes convicções reconhecem no avivamento uma das forças que mais contribuíram para transformar a Inglaterra do século 18, corroída por gim, brutalidade e abandono do povo. A santidade wesleyana nunca foi fuga do mundo: foi sal na carne da nação (Mt 5.13).

Fontes primárias

Wesley por ele mesmo

Parte 5

O legado, com as luzes e as sombras

Wesley morreu em 1791 dizendo: “O melhor de tudo é que Deus está conosco”. Deixou 72 mil metodistas na Grã-Bretanha, 60 mil na América, e um movimento que no século seguinte se tornaria uma das maiores famílias do protestantismo mundial.

A honestidade da nossa série pede também as sombras: John foi infeliz no casamento; a separação da Igreja da Inglaterra, que ele não queria, tornou-se inevitável depois de sua morte; e seus herdeiros nem sempre guardaram o fogo, o que explicará, na aula 5, por que precisou nascer uma Igreja Metodista Livre. Mas o essencial permanece: Deus tomou um homem metódico, deu-lhe um coração aquecido e, pela união rara de fervor e ordem, evangelizou uma nação e semeou o mundo.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

Religião de filho, não de servo

Wesley tinha método, moral e ministério, e não tinha paz, até Aldersgate. Muita gente de igreja vive a religião do servo: esforço sem certeza. O evangelho oferece mais: “vocês receberam o Espírito de adoção, no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). Você tem o testemunho do Espírito, ou só a rotina?

2

Fruto se conserva em classe

O avivamento sobreviveu porque cada convertido tinha doze irmãos e um líder perguntando semanalmente pela sua alma. Multidão sem classe é fruto para o assassino, dizia Wesley. Em que grupo pequeno a sua alma é pastoreada pelo nome?

3

Santidade que vai à rua

O mesmo movimento que pregava o amor perfeito abria escola, dispensário e guerra à escravidão. Santidade bíblica termina no próximo (Mt 22.37-39). Qual é a “vilania execrável” do nosso tempo diante da qual a sua fé não pode calar?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Como vai a sua alma?” era a pergunta semanal das classes metodistas. Se a sua igreja adotasse essa pergunta, feita por nome, semana após semana, o que mudaria, e o que impede isso hoje?Ver resposta sugerida
O que mudaria é mensurável na história: convertidos deixariam de sumir pela porta dos fundos, pecados seriam confessados antes de virarem escândalos (Tg 5.16), tristezas seriam carregadas a tempo (Gl 6.2), e a igreja saberia a diferença entre frequentadores e discípulos. O que impede costuma ser um tripé: cultura de anonimato (gostamos de igreja onde ninguém nos conhece de verdade), falta de líderes preparados (a classe wesleyana tinha líder treinado e supervisionado, não era bate-papo), e medo de exposição (que só se vence com confidencialidade rigorosa e líderes que confessam primeiro). O caminho realista não é decretar classes para a igreja inteira, é começar com uma: doze pessoas, um líder maduro, um pacto claro de presença e sigilo, e a pergunta de Wesley sem pressa de responder. Em um ano, essa única classe formará os líderes das próximas. Foi exatamente assim, de doze em doze, que uma nação foi discipulada.
Wesley pregou santidade e combateu a escravidão com a mesma boca. Há quem diga hoje que a igreja deve “cuidar só do espiritual”. À luz desta aula, como responder, sem cair no extremo oposto de reduzir o evangelho a ativismo?Ver resposta sugerida
Responda primeiro com a lógica wesleyana: santidade é amor a Deus e ao próximo (Mt 22.37-39); portanto, uma santidade que fecha os olhos ao próximo esmagado não é santidade bíblica, é mutilação dela. Wesley não fez pausa no evangelho para combater a escravidão; combateu-a porque pregava o evangelho, e a carta a Wilberforce nasceu da mesma fé que pregava o novo nascimento. Tiago já havia fechado essa porta: fé sem obras é morta (Tg 2.17), e religião pura inclui órfãos e viúvas (Tg 1.27). Mas o extremo oposto também é real e mata igrejas: quando a causa social vira o evangelho, e a cruz vira acessório, restam ONGs piedosas sem poder de salvar ninguém (Rm 1.16). O equilíbrio wesleyano tem ordem interna clara: primeiro a raiz (conversão, novo nascimento, santidade), e da raiz, necessariamente, o fruto público (escola, dispensário, abolição). A pergunta de verificação para nós: nossa ação social nasce da pregação do evangelho e conduz a ela, ou a substitui? E a inversa: nossa pregação produz gente que incomoda as vilanias do seu tempo, ou gente que apenas frequenta reuniões?

Para casa e próxima aula

Para aprofundar: o site inteiro é o material desta aula. Leia os 141 sermões de Wesley, o Diário, as cartas (inclusive a carta a Wilberforce), as Notas sobre o Novo Testamento, os hinos de Charles e a Teologia de Wesley, tudo em português.

Na próxima aula: “Despertamentos e missões modernas (1730-1850)”: Edwards, Whitefield, os cavaleiros de circuito, Carey e a era das missões.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.